Brasil: Império do Caos ataca novamente

Publicado originalmente em: 26/04/2016

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Pouco depois de a moção pró-impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff ser aprovada no Congresso do Brasil, por deputados que resolvi chamar de hienas da Guerra Híbrida, o presidente-coroado Michel “Até tu, Brutus?!” Temer, um dos articuladores do golpe, mandou um de seus senadores a Washington como garoto-de-recados especial, para dar notícias sobre o golpe em andamento. O senador em questão não cumpria missão oficial da Comissão de Relações Exteriores do Senado do Brasil.

Michel “Até tu, Brutus?!” Temer assustou-se com a reação da mídia global, a qual está vendo cada dia mais vê claramente que o golpe que ele está fazendo é o que é (golpe) – aliado de Brutus-2, presidente notoriamente corrupto da Câmara de Deputados do Brasil, Eduardo Cunha.

A missão do tal senador era lançar uma ofensiva de Propaganda/Relações Públicas para desconstruir a narrativa que insiste que golpe é golpe, e a qual, segundo Brutus-1 estaria “desmoralizando instituições brasileiras”.

Nonsense. O senador office-boy foi mandado dizer ao Departamento de Estado dos EUA que tudo por aqui está andando conforme a encomenda.

Em Washington, o senador office-boy resmungou que “explicaremos que o Brasil não é uma república de bananas”. Ora… Não era. Mas graças às hienas da Guerra Híbrida, é.

Quando se tem um homem que administra 11 contas bancárias ilegais na Suíça; cujo nome aparece listado nos Panama Papers, que já está sendo investigado pela Suprema Corte… e que, mesmo assim, continua a comandar o destino político de toda a nação, sim, sim, aí está uma república de bananas.

Quando você tem um juiz de paróquia, provinciano, que ameaça pôr na prisão o ex-presidente Lula, por ser proprietário de um apartamento modesto onde vive e por visitar um sítio modesto de amigos, mas, ao mesmo tempo, não cuida de investigar o Brutus-2, e juiz provinciano que opera irmanado àqueles pomposos juízes da pomposa Corte Suprema paroquial provinciana… sim, aí está uma república de bananas.

Comparem agora a reação-zero de Washington, e a reação de Moscou. O Ministério de Relações Exteriores da Rússia, mediante a irrepreensível porta-voz Maria Zakharova, chamou a atenção do mundo para a parceira crucial que liga todos os países BRICS, e as posições comuns que Brasil e Rússia têm defendido juntos dentro do G20. E Moscou deixou claro que os problemas do Brasil têm de ser resolvidos “no quadro constitucional legal e sem qualquer interferência externa”.

Todo mundo sabe o que significa “interferência externa”.

Dominação de Pleno Espectro Rearmada

Estou acompanhando o golpe em andamento no Brasil, com especial atenção à Guerra Híbrida movida/apoiada pelos EUA para destruir “o projeto neodesenvolvimentista para a América Latina – que unia pelo menos parte das elites locais, investia no desenvolvimento de mercados internos, em associação com as classes trabalhadoras”. O objetivo chave da Guerra Híbrida no caso do golpe no Brasil é instalar uma restauração neoliberal.

Obviamente, o alvo chave tinha de ser o Brasil, estado membro dos BRICS e sétima maior economia do mundo.

Falcões imperiais [ver também “Preocupações com a ‘Bala de Prata’ nem tão eficaz”, in Rússia e China, 2016: Como planejam  enfrentar a guerra econômica dos EUA], já estão indo diretamente ao ponto, quando listam as armas e objetivos da Guerra Híbrida, que o Pentágono definiu em 2002 como “Doutrina da Dominação de Pleno Espectro”: “O poder dos EUA vem de nossa superior força militar, sim. Qualquer coisa que expanda o alcance dos mercados dos EUA – como a Parceria Trans-Pacífico no comércio, por exemplo – acrescenta-se ao arsenal do poder dos EUA. Mas em sentido mais profundo, o poder dos EUA é produto da dominação da economia dos EUA sobre o mundo”.

Mas fato é que a economia norte-americana já está longe de dominar o mundo. O que hoje realmente preocupa são as forças que orientam “os negócios para longe dos EUA, ou permitem que outras nações construam arquitetura financeira rival e menos vulnerável a sanções, mesmo que a uma montanha delas”.

“Arquitetura financeira rival” é perfeita tradução de “BRICS”. E nem “uma montanha de sanções” bastaram para fazer o Irã curvar-se e pedir penico ao Tio Sam; Teerã continuará a praticar uma “economia de resistência”. Não por acaso, dois dos países BRICS – Rússia e China – além do Irã, aparecem entre as cinco principais ameaças existenciais listadas pelo Pentágono, além das bombas atômicas da Coreia do Norte e, em último lugar na lista, “terrorismo“.

Guerra Fria 2.0 é essencialmente Rússia e China – mas o Brasil também é ator chave. Edward Snowden revelou como a espionagem contra o Brasil, pela Agência de Segurança Nacional centrava-se na Petrobrás, cuja tecnologia proprietária foi responsável pela maior descoberta de petróleo, ao nascer do século 21: os depósitos do pré-sal em águas do Brasil. O Big Oil norte-americano está excluído da exploração dessa riqueza.

E “Big EUA Oil excluído é anátema – e exige mobilização imediata das técnicas e táticas de Guerra Híbrida reunidas na [doutrina] de Dominação de Pleno Espectro.

As elites comprador brasileiras correram a se oferecer para jogar o jogo. Já há mais de dois anos analistas de JP Morgan oferecem seminários aos guerrilheiros da macroeconomia neoliberal, ensinando táticas e golpes para desestabilizar o governo Rousseff.

Lobbies da indústria, comércio, banking e agronegócio ostensivamente se puseram na defesa do impeachment, que representaria, na avaliação deles, o fim do experimento social-democrata dos governos Lula-Dilma.

Assim sendo, não surpreende que o presidente herdeiro coroado Michel “Até tu, Brutus?!” Temer tenha acordo tão amplo com o Big Capital – incluindo juros ilimitados sobre a dívida pública (muito acima da norma internacional); a relação entre dívida e PIB, que terá de subir; mais empréstimos caros; e o corolário, cortes na atenção pública à saúde e à educação dos brasileiros.

No que tenha a ver com Washington, não há dúvidas e é questão fechada para os Democratas e Republicanos: absolutamente não se admite que haja poder regional autônomo no Atlântico Sul abençoado por riqueza ecológica única do mundo (pensem na Floresta Amazônica, toda aquela água, que se soma ao aquífero Guarani) e, como se isso fosse pouca coisa, ainda muito intimamente conectado aos BRICS-chave, Rússia e China, que já têm sua própria parceria estratégica.

O fator pré-sal é a cereja nesse bolo tropical. Absolutamente de modo algum, não e não, o Big Oil dos EUA não permitirá que a Petrobrás tenha o monopólio para explorar aquele petróleo todo. E, sendo necessário, afinal de contas, a 4ª Frota dos EUA já está posicionada no Atlântico Sul.

Um BRICS derrubado, ainda faltam dois

A “guerra ao terô [“terror”, no sotaque de Bush] declarada pelo regime Cheney distraiu a atenção do Empire of Chaos por tempo demais. Agora, finalmente, está em andamento uma ofensiva do caos global contra os BRICs – coordenada em todo o planeta.

Do Sudoeste da Ásia ao Sul da Ásia, o sonho da Guerra Híbrida será criar alguma espécie de caos iraquiano para substituir os governos de Arábia Saudita, Irã, Paquistão e Egito – e o Império “Liderar pela Retaguarda” do Caos está fazendo o possível na Síria, onde ainda nada conseguiu, por mais que a “dinastia Assad”, ao longo de décadas, tenha sido aliada “secreta” dos EUA.

Os Masters of the Universe que controlam o cordame que move Obama, eterno office-boy deles, resolveu que seria chegada a hora de apunhalar a Casa de Saud pelas costas – o que não chega a ser, afinal, má ideia – por causa do Irã. O pensamento desejante dominante ‘ensinava’ que seria fácil pôr o gás natural iraniano na Europa, em lugar do gás natural russo, o que derrubaria a economia russa. Absolutamente não funcionou.

Mas ainda há outra possibilidade: o gás natural do Qatar, pelo gasoduto que atravessa Arábia Saudita e Síria, também poderia substituir o gás natural russo vendido à Europa. Esse é hoje o principal objetivo da CIA na Síria – o instrumento não importa: Daech, falso Califato, vale tudo, porque nada disso é coisa alguma além de propaganda.

A CIA também está gostando de ver a Arábia Saudita destruir a economia russa com aquela guerra dos preços do petróleo – e não querem que os sauditas parem; por isso mantêm secretas as tais famosas 28 páginas sobre os sauditas nos eventos de 11/9.

A CIA também andou tentando feito doida atrair Moscou para dentro de uma armadilha síria como no Afeganistão dos anos 1980s; e, como fizeram com o golpe em Kiev, a ponto de ordenar que militares turcos, sempre agentes dos EUA, derrubassem um jato Su-24 russo. “Problema” é que o Kremlin não mordeu a maçã envenenada.

Nos idos anos 1980s, o mix de Casa de Saud inundando mercados com seu petróleo, agindo com toda a gangue do petrodólar do CCG para derrubar o preço até $7 por barril em 1985, plus a operação “O Afeganistão É O Vietnã”, terminou por levar a URSS à bancarrota. Pode-se dizer que toda a ação foi brilhante – na concepção e na execução: uma Guerra Híbrida plus Vietnã. Agora, com a coisa de “liderar pela retaguarda” do Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” – mentor de sua política exterior – Obama está tentando repetir o mesmo truque.

Mas epa! Temos um problema. A liderança em Pequim, já preocupada com ajustes no modelo chinês de desenvolvimento, viu claramente os esforços do Império do Caos para Dividir e Governar (e Ocupar) o mundo inteiro. Se a Rússia caísse, a China seria o alvo seguinte.

Ainda praticamente ontem, em 2010, a inteligência dos EUA via a China como sua principal ameaça militar, e pôs-se a andar na direção do Império do Meio, com o tal “pivô para a Ásia”. Mas de repente a CIA deu-se conta de que Moscou gastara um trilhão de dólares para saltar por cima de duas gerações de atraso em matéria de mísseis de defesa e de ataque – para nem falar dos submarinos – as armas de eleição para a 3ª Guerra Mundial.

E foi aí que a Rússia pulou para o trono de principal ameaça. Analisando atentamente o tabuleiro de xadrez, a liderança em Pequim imediatamente acelerou a aliança com Rússia e BRICS como força alternativa – o que gerou terremoto de proporções absolutamente devastadoras em Washington.

Agora, Pequim já fez a reengenharia dos BRICS para operarem como estrutura alternativa séria de poder – com FMI próprio, com sistema SWIFT de compensações internacionais próprio e com seu próprio Banco Mundial.

Nunca subestime a fúria de um Império do Caos enganado. Isso é o que se vê em ação contra os BRICS; Brasil sitiado, desastre na África do Sul, fragilidade na Índia, China e Rússia progressivamente cercadas. Variações de Guerra Híbrida da Ucrânia ao Brasil, pressão crescente na Ásia Central, o barril de pólvora em que foi convertido o “Siriaque”, tudo aponta para uma ofensiva coordenada do Espectro da Plena Dominação para quebrar os BRICS, a parceria estratégica Rússia-China, até quebrar as Novas Rotas da Seda que unem toda a Eurásia.

Guerras do preço do petróleo, colapso do rublo, fluxo gigante de refugiados para a União Europeia (causado pelo Sultão Erdogan “errático”), a Operação Gládio do século 21 remistura tudo, distrai as massas com inimigos imaginários, enquanto simulacros de terroristas do tipo Daesh são manipulados como sofisticadas táticas diversionistas.

Parece tão brilhante, coisa mesmo ‘de mestre’, na concepção e na execução, tão impressionantemente bem narrada, em sentido de ficção televisiva/cinematográfica. Mas que ninguém se engane: vai ter volta.*****

Fonte: Strategic Culture

Guerra Híbrida, de Palmyra ao Panamá

Os Panama Papers, dissecados até o osso, revelaram-se, como já escrevi, essencialmente, como operação de infoguerra iniciada pela Agência de Segurança Nacional dos EUA (ing. US-NSA) – que convenientemente mira contra os “inimigos” do ‘ocidente’ no sul global (como os países BRICS) e variados peões descartáveis.

Publicado originalmente em: 07/04/2016

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No estágio atual, os Panama Papers estão servindo como arma de operação de guerra psicológica (ing. psyops) apresentados como ‘vazamento ativista’, saído diretamente do manual de Guerra Híbrida.

Os incansáveis agentes ‘especialistas’ da mídia-empresa dominante estão tendo muito trabalho para apresentar o ‘vazamento’ monstro como “jornalismo responsável”, sempre sem tocar em nenhuma das graves questões que já apareceram, sobre como o tal ‘vazamento’ teria sido ‘vazado’; como teriam sido seletivamente editados 2,6 terabytes de dados, incluindo 5 milhões de emails; como foram obtidos sem encriptação; como é possível que, de toda essa massa de dados sobre a qual teriam trabalhado mais de 400 jornalistas por mais de um ano, não tenha havido nenhum ‘vazamento’ do ‘vazamento’; e sobre como a informação estaria sendo seletivamente distribuída hoje.

Guardiões do sempre citado “jornalismo responsável” andam divulgando que o material teria vindo de um mosqueteiro digital, um “tocador de corneta para alertar os cidadãos. Não necessariamente. O vazamento já disparou uma guerra de credibilidade entre WikiLeaks e os recentes ‘vazadores’ midiáticos – a ONG de Washington, mantida por fundações norte-americanas, conhecida como ICIJ.

A tese sobre a Agência de Segurança Nacional dos EUA baseia-se no fato de que essa US-NSA é especializada em invadir praticamente qualquer banco de dados e/ou arquivo em qualquer ponto do mundo, para roubar “segredos” e, na sequência, usar os dados assim obtidos para seletivamente destruir/chantagear/proteger quadros seus e/ou “inimigos”, conforme mandem os interesses do governo dos EUA. Acrescente-se a isso o que Ramon Fonseca, sócio fundador de Mossack Fonseca, tem dito: “Já descartamos a possibilidade de trabalho interno. Fomos assaltados e roubados por hackers.”

Resposta a “ameaças estratégicas”

Os Panama Papers funcionam tanto como ataque de precisão quanto como uma “mensagem” para muitos atores: eles que se mantenham em formação, porque, se não, pagarão caro; afinal, o vazamento/hackeamento revela uma rede de conexões entre várias dúzias de empresas, indivíduos e políticos em todo o Sul Global que têm aparecido como superestrelas/astros, ou aspirantes ao posto, das listas negras das sanções impostas pelos EUA.

O foco obsessivo da mídia-empresa dominante – que só tem olhos para os inimigos e/ou “ameaças estratégicas” do ponto de vista do Excepcionalistão – também gera muitas suspeitas. Em “Forças poderosas por trás dos Panama Papers” lê-se o que o sempre alerta governo em Pequim tem a dizer sobre o assunto.

Os Panama Papers também surgem em momento perfeitamente adequado para encaixarem-se numa massiva ofensiva comercial dos norte-americanos. Podem-se ler os tais vazamentos como uma espécie de lembrete do violento poder da ’empresa’ TPP-TTIP: se você não se une ao nosso movimento a favor de um único comércio mundial controlado pelos EUA, jogamos merda sobre você

Claro que é saudável poder dar pelo menos uma olhadela nas imundas entranhas do capitalismo de cassino super-turbinado, também conhecido como “sistema financeiro global”, onde grandes bancos e um exército de tubarões das finanças permitem que empresas ‘secretas’ estacionem ilegalmente o dinheiro que recebem da/para a corrupção.

Paralelamente, também é esclarecedor observar como todas as transações de dinheiro eletrônico são agora completamente rastreáveis. Os Panama Papers estão vindo à tona apenas alguns meses antes que um obscuro tratado global de compartilhamento de informação seja implementado. Se os tubarões financeiros globais conseguirão burlar o acordo é questão ainda em aberto. O detalhe crucialmente importante é que o Panamá não é signatário daquele tratado.

Do lado crucialmente decisivo dos tubarões financeiros, mais de metade das empresas listadas no vazamento/hackeamento massivo são registradas no Reino Unido – ou em “dependências da Coroa”. Podem degustar o doce aroma da vingança: a mídia-empresa norte-americana vinga-se, ao delatar expor ao mundo o que, de fato, é praticamente todo o Império Britânico da Evasão de Impostos.

Não há quem não saiba que a City de Londres opera amplamente como uma gangue de lavagem de dinheiro de categoria mundial. Mas podem esquecer, porque os guardiões do “jornalismo responsável” britânico jamais ‘investigarão’ coisa alguma relacionada ao ‘fenômeno’. Muito mais fácil e popular é ‘noticiar’ que Putin é culpado por associação, em vez de investigar para saber como aconteceu de o pai de David Cameron, ter preferido guardar a fortuna da família (a herança que o primeiro-ministro um dia receberá) bem longe do coletor de impostos.

Ou como o presidente daquela entidade falhada amiga da OTAN, Petro Poroshenko, enfia sua fortuna, não na Ucrânia sem leis e ingovernável, mas nas “protegidas” Ilhas Virgem. E esqueçam, porque absolutamente ninguém investigará o ex-chefe de gabinete do ex-primeiro-ministro de Israel Ariel Sharon, Dov Weisglass, cujo nome, como o do pai de Cameron e de Poroshenko, realmente aparece citado nos Panama Papers.

O mais importante: que ninguém espere por Cayman Papers ou quaisquer Virgin Island Papers – os papers realmente quentes –, tão cedo. A elite real jamais deixará que aconteça.

Panamá ‘editado’

E depois tem o ângulo do Excepcionalistão. Até Bloomberg, há três meses, já denunciou formalmente à opinião pública que o maior paraíso fiscal do mundo é hoje os EUA – completado com Rothschild-in-Reno, notório provedor de serviços de paraíso fiscal. Diferente do Panamá, o que acontece em Reno fica em Reno – e não estamos falando de noitadas selvagens de lap-dancing, nas profundas do deserto de Nevada.

Acrescente aí uma sumarenta fonte com conexões no estado ‘profundo’ a falar de “só 441 norte-americanos” (todos ainda misteriosos), cujos nomes estariam no vazamento/hackeamento: “O escritório em Nevada de Mossack Fonseca recebeu informação prévia, da Agência de Segurança Nacional dos EUA, no sentido de que alertasse o Panamá para que apagasse todos os registros em Nevada. A Agência de Segurança Nacional dos

EUA é mecanismo de controle político. Nada tem a ver com terrorismo, e nem saberia onde olhar, a menos que fosse orientada por insiders estilo “Operação Gladio”.

A guerra que o governo dos EUA faz contra os paraísos fiscais também é, é claro, seletiva. A Suíça tem sido alvo preferencial. Agora, o Panamá. Considerada a tese da Agência de Segurança Nacional dos EUA, é absolutamente claro que bilionários norte-americanos e empresas norte-americanas chaves foram, todos e todas, ‘apagadas(os)’ do ‘vazamento/hackeamento’.

O padrão ouro para que os Panama Papers não se tornem descartáveis como vazamento ‘seletivo’ plus ‘Operação psicológica’ de guerra híbrida, seria, por exemplo, se HSBC, Coutts (subsidiária de RBS) e UBS – e profundamente conectada com Mossack Fonseca — forem investigados a fundo. Se Vitol, corretor de petróleo, ligado ao governante do Azerbaijão Ilham Aliyev e cujo nome aparece nos Panama Papers, vier a ser investigado. Se as imundas conexões entre o Big Oil e o Big Banking ocidental forem expostas.

Mas é claro que todos os comerciantes de armas, barões da droga, oligarcas corruptos e conhecidos sonegadores de impostos continuam a colher recompensas dos próprios crimes, sem que nada e ninguém os perturbe – desde que saibam jogar o jogo do cassino capitalista super turbinado.

Por que agora?

Os Panama Papers tem muito a ver com timing. Por que agora? Afinal essa montanha de informações passou por escrutínio, sob sigilo total, durante mais de um ano.

Os Panama Papers encaixam-se perfeitamente na Guerra Híbrida. Assim como a operação Car Wash no Brasil – que é desdobramento da espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA, contra a Petrobras –, os Panama Papers podem ser vistos como lava-caminhões-monstros, mirada contra o sul global em geral, e contra os BRICS em particular. 

Não por acaso, imediatamente depois de os vazamentos/hackeamentos terem aparecido, o El Supremo do Pentágono Ash Carter, falando no Center for Strategic and International Studies (CSIS) em Washington– vizinho do ICIJ– insistiu mais uma vez que o Pentágono precisava ser mais “ágil” na luta contra os cinco desafios estratégicos dos EUA, que ele listou na seguinte ordem: “Rússia, China, Coreia do Norte, Irã e terrorismo.”

Observem a predominância, em matéria de ameaça, de Rússia, China e Irã – nodos chaves da integração da Eurásia, e todos pesadamente ‘apontados’ nos Panama Papers, sobretudo culpados ‘por associação’.   

O timing da distribuição do vazamento/hackeamento com certeza tem a ver com Palmyra. A recente libertação de Palmyra – que por 3 mil anos é a porta do Sudoeste Asiático para quem venha do ocidente e porta rumo ao Mediterrâneo para quem venha do oriente – foi plano geoestratégico tão brilhantemente concebido e executado, que deixou boquiabertos muitos no Pentágono.

O Daech havia convertido Palmyra numa base chave para ataque total contra Damasco – controlando a única estrada que leva à capital síria.

Assim sendo, só uma contraofensiva meticulosamente coordenada – mais de 20 mil homens, do Exército Árabe Sírio (EAS) a milícias locais, forças especiais do Hezbollah, pasdaran iranianos (inclusive muitos afegãos treinados pelo Irã) e os Spetsnaz russos – conseguiria arrancar de lá os terroristas.

Generais sírios disseram claramente que a Europa (“invadida” por refugiados “libertados” pelo sultão Erdogan da Turquia) sempre preferiu apoiar uns tais “rebeldes moderados” inexistentes – ficção gerada em Washington –, armados pela Turquia e Arábia Saudita. Agora, os europeus têm de encarar o revide, em solo europeu. 

O Exército Árabe Sírio, entrementes, defendeu Damasco; uma Síria unificada e secular e – como os generais sírios destacam com justo orgulho – defendeu também a própria Europa. O trabalho deles não parará em Palmyra. Os objetivos seguintes, para os próximos meses, são Deir ez-Zour, e depois o assalto final a Raqqa, ‘capital’ do falso ‘Califato’.

Assim sendo, que papel teria cabido ao Excepcionalistão – terra da “guerra ao terô” [orig. “war on terra”: era o modo, transliterado, como Bush pronunciava “war on terror” (NTs)] – nessa missão épica?

Nenhum. Nada. Não é acaso que o terrorismo apareça no último lugar na lista de “ameaças estratégicas” do Pentágono. É mais como a ficção que revela a realidade, como na última cena da temporada em curso de House of Cards: “Nós fazemos o terror”.

No caso do Daech, Washington realmente “fez o terror”, no sentido que fez acontecer o terror; o florescimento do falso ‘Califato’ foi decisão premeditada do governo dos EUA. E agora a Rússia fez voar pelos ares – aos olhos do mundo – o autorretrato narcísico do governo dos EUA no qual se traveste como indiscutível campeão da “guerra ao terror”.

Ai! Essa doeu. E em seguida vem a hoje já famosa visita do secretário de estado dos EUA John Kerry a Moscou, há duas semanas, para falar com o presidente Putin.

Pode ter sido parte de uma “grande barganha” na Síria (não, não, nada vazou do que os dois realmente discutiram). E pode ter sido uma retirada tática, com Kerry já tendo reconhecido que a Rússia “venceu” na Síria, mas a OTAN – como o Pentágono – manterá a pressão nas fronteiras ocidentais da Rússia. E a Guerra Híbrida recomeçou quase imediatamente depois, com os Panama Papers.

Nós reinamos sobre mundo uno monolítico

Um “Califato” falso jamais será ameaça estratégica ao Excepcionalistão; mas a integração da Eurásia, sim, é, com certeza.

Não surpreende que o governo dos EUA em Washington esteja alarmado. A Síria já provocou dois desenvolvimentos chaves:

1) a coordenação de alto nível entre Moscou, Damasco, Teerã e Bagdá – mediante o centro de informação unificada de Bagdá –, é já uma antecâmara de como a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) [ing. Shanghai Cooperation Organization (SCO)] pode, no futuro, intervir em qualquer ponto de conflito, como antípoda perfeito da OTAN: trabalhando para erradicar o caos, em vez de o fomentar com o dito “imperialismo humanitário”; e

2) é também uma antecâmara, em termos de cooperação entre estados, de como as Novas Rotas da Seda podem avançar pela Eurásia, integrando cada vez mais China e Rússia com o centro e o sudoeste da Ásia.

Quanto ao governo dos EUA em Washington, as prioridades não mudam. Em primeiro lugar, impedir Rússia e a União Europeia de estabelecerem qualquer parceria bilateral, estratégica/comercial/de negócios que aprofunde a integração da Eurásia.

A Guerra Híbrida mais hardcore na Ucrânia continua a ser o meio mais garantido de impedir que qualquer tipo de integração consiga avançar, assim como a OTAN a distribuir suas ‘patrulhas’ a partir das bases implantadas em estados vassalos da Europa Ocidental.

O objetivo chave geral é impedir a integração da Eurásia, por todos os meios. Quanto a Wall Street, o que importa é construir um fluxo mundial unitário, de mundo uno, de capital norte-americano, que beneficie o sistema de capitalismo de cassino superturbinado controlado pelos EUA – e não a Eurásia. Comparado ao Grande Quadro, o Panamá pode eventualmente deixar uns poucos mortos de beira de estrada. Não bastarão. Preparem-se para o grande arrasto. Para os insaciáveis devoradores de gasolina, caminhões-monstro da Guerra Híbrida, a estrada avança.

Fonte: The Sputnik News

América Latina: gelado vento de golpe sopra do Norte

Publicado originalmente em: 13/04/2016

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Com os fundos para programas de bem-estar secando, em plena recessão global, a velha elite, com ajuda dos EUA, está outra vez usando a linguagem da anticorrupção para repor os pés na região e desestabilizar governos de esquerda eleitos na América Latina.

Velhos perigos, todos bem conhecidos rondam pelas esquinas da América Latina. Mais de uma década de esperança – corporificada nos experimentos sociais na Venezuela – parecem agonizar. A ‘maré rosada’ de vitórias eleitorais, da Venezuela à Bolívia e para cima, até a Nicarágua, parecem estar em período de maré vazante. A Velha Direita rejeitou os estertores e a gritaria dos militares, trocados pela fala melosa do que chamam de “anticorrupção”. Os bolivarianos da Venezuela – a face atual da esquerda naquele país – perdeu as eleições parlamentares; a Bolívia de Evo Morales decidiu não alterar a Constituição para dar ao presidente um quarto mandato presidencial. O eleitorado Argentina rejeitou a Esquerda Peronista, para eleger a direita dos banqueiros. E no Brasil o governo de Dilma Rousseff padece sobre a violenta hostilidade das mídia-empresas monopolistas e do establishment conservador.

Não se pode falar de frieza no continente. No Peru, Verónika Mendoza da Frente Ampla saiu-se muito bem no primeiro turno da eleição presidencial; na Colômbia, as Forças Armadas Revolucionárias, FARCs, preparam-se para assinar um acordo de paz e levar a política deles ao julgamento das urnas. Instituições criadas no momento em que subia a “maré rosada”, como a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (plataforma de comércio regional), a TeleSUR (rede regional de mídia), e várias alianças de energia (como Petrocaribe e Petrosur), permanecem vivas e bastante bem.

Novas correntes políticas e esses alinhamentos institucionais sugerem que a “maré rosada” não se deixará conter facilmente. Ela já deitou raízes na imaginação do povo da América Latina e nas instituições estabelecidas há, já, uma década.

Iraque distrai os EUA

Quando Hugo Chávez da Venezuela e Evo Morales da Bolívia puseram em andamento a aliança bolivariana em 2004, os EUA estavam atolados no Iraque. A Guerra Global ao Terror, que falsamente incluía o Iraque como campo de batalha, absorveu o governo do presidente Bush. Uma tentativa de golpe contra o governo de Chávez em 2002 fracassou, efeito do massivo apoio popular ao governo venezuelano. A esquerda latino-americana beneficiou-se dessa abertura – e, também, dos altos preços das commodities e crescente demanda da China – para construir uma plataforma alternativa, que chamaram de “bolivarianismo”.

Com nome derivado de Simón Bolívar, libertador de vários países da América Latina, do jugo espanhol, o bolivarianismo produziu instituições de desenvolvimento regional. O comércio dentro da região denominado em moedas locais permitiu aos estados regionais produzirem um novo ethos.

Os EUA, que veem a América Latino como o quintal da casa deles, continuaram a buscar oportunidades para minar o bolivarianismo. Em 2006, o embaixador dos EUA na Venezuela, William Brownfield, desenvolveu uma estratégia de “dividir o chavismo” (seguidores de Chávez) e de “isolar Chávez internacionalmente”. Os telegramas diplomáticos dos EUA vazados por WikiLeaks são recheados de conspirações e complôs, com outros embaixadores dos EUA contribuindo, eles também  com ideias e planos próprios para desestabilizar governos leais ao processo bolivariano. Mas pouco aconteceu nos anos Bush. A economia latino-americana beneficiou-se do voraz apetite chinês por commodities que alcançavam altos preços e cujos lucros permitiam aos países construir esquemas de bem-estar para oferecer melhor qualidade de vida às respectivas populações.

Obama move-se para o sul

A crise financeira de 2007-08 atingiu a economia da China e viu a lenta deterioração dos preços das commodities. Só depois de alguns anos o impacto econômico daquele processo atingiu ferozmente a América Latina. Queda abrupta nos preços do petróleo no verão de 2008 implicou brecada forte em muitos dos programas sociais que se haviam tornado essenciais na dinâmica do bolivarianismo. E isso mostrou a fragilidade do experimento, se diretamente confrontado pelo ‘ocidente’ dominante.

O governo do presidente Barack Obama focou atentamente a América Latina.

A primeira ação aconteceu no golpe de 2009 em Honduras contra o governo de tendência de esquerda de Manuel Zelaya. Os EUA reconheceram o novo governo militar. E abriram as portas para posição muito mais agressiva contra estados latino-americanos. A presidência de Ollanta Humala (2011) no Peru, e o segundo governo de Michelle Bachelet (2014) no Chile – ambos ostensivamente de esquerda – rapidamente se retraíram, incluindo no gabinete nomes indicados pelos banqueiros, e fizeram as pazes com a hegemonia dos EUA. Com a morte de Chávez em 2012, os bolivarianos perderam o seu guerreiro mais carismático. O impacto do golpe em Honduras e a morte de Chávez foram sentidos ao longo de toda a espinha dorsal da América Latina: “os EUA voltaram”, era o que se ouvia.

A velha elite entrincheirada

Governos de esquerda na América Latina dependiam pesadamente da exportação de commodities caras. O dinheiro dessas vendas garantiam aos governos da região os meios para criar e manter programas de bem-estar social. O Brasil, por exemplo, pôs-se em guerra contra a fome e a miséria, mediante seus programas Fome Zero (ing. Zero Hunger) e Bolsa Família (ing. Family Allowance).

Mas aqueles governos não conseguiram minar o poder das velhas elites sobre a economia e construir novos fundamentos sobre os quais construir a produção da região. Quando o dinheiro da venda das commodities começou a escassear, os programas sociais logo sofreram, diretamente ou indiretamente. Restavam poucas fontes alternativas de renda. Recorrer aos mercados financeiros internacionais pôs vários países em situação de dependência dos centros hegemônicos, dependência que teve imediatamente impacto político.

As velhas elites latino-americanos mantiveram o poder, mesmo durante os períodos de governos de tendência mais à esquerda. Aquelas elites continuam intimamente conectados aos militares norte-americanos e às embaixadas dos EUA. Telegramas diplomáticos do Departamento de Estado dos EUA distribuídos por WikiLeaks oferecem uma janela pela qual se pode começar a conhecer as intrigas e conspirações que se construíam dentro das embaixadas norte-americanas. Na Bolívia, um diplomata dos EUA reuniu-se com um estrategista (de fato, um ‘marketeiro’), Javier Flores e Branko Marinkovic, da oposição, e discutiram ações para explodir oleodutos e fomentar a violência urbana, para desestabilizar o governo de Evo Morales. Para ajudar a oposição de direita na Nicarágua, a embaixada dos EUA esperava conseguir que “os fundos fluam na direção certa”. Essas conspirações aumentaram a autoconfiança entre as elites e seus aliados e comparsas. E eles esperaram o melhor momento para dar o bote.

A violência avança

A fragilização da economia ofereceu uma oportunidade. Em todo o continente, do Chile ao Brasil, novos relatórios começaram a surgir, sempre com ‘revelações’ de corrupção nos gabinetes e mais altos postos dos governos.

Nenhuma das principais mídia-empresas em todos os países da América Latina jamais antes havia dado sinal de qualquer preocupação com ‘corrupção’, nem jamais haviam dado muita publicidade (e propaganda) a histórias de corrupção cujos personagens eram a velha elite política que as principais mídia-empresas sempre ajudaram a eleger e que, eleitos, ajudavam a dar ‘cobertura’ àquelas mídia-empresas.

Mas, eleitos o Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil e o Partido Socialista no Chile, os dois rapidamente conheceram o hálito fedorento da hipocrisia. No Brasil e na Venezuela houve manifestações de rua em que se reuniram aquela velha elite, a velha mídia-empresa e as classes a elas aliadas. E pronto. Num instante estavam reunidos e coordenados todos os elementos de uma ‘primavera latino-americana’ contra ‘a corrupção’. Tarefa do Departamento de Estado dos EUA seria, só, inventar um nome para essa ‘revolução’ colorida, talvez, dessa vez, musical: Revolução do Tango? Revolução Bossa Nova?

Atos de violência contra líderes políticos locais tornaram-se rotina. Na Venezuela, numa única semana do mês passado, três líderes políticos foram assassinados a sangue frio: o prefeito Marco Tulio Carrillo, de La Ceiba; o deputado César Vera, do Conselho Legislativo de Tachira; e Fritz St. Louis, do partido Grande Frente Patriótica. Logo ao lado, no Brasil, uma semana depois, dois ativistas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST [ing. Rural Landless Workers’ Movement] – Leomar Bhorbak e Vilmar Bordim – foram emboscados e mortos; e o presidente do PT em Mogeiro, Ivanildo Francisco da Silva, foi assassinado em casa. São nomes que se acrescentam à longa lista de ativistas de esquerda que estão sendo assassinados em sequência, na América Latina. Objetivo claro, aí, é intimidar os ativistas.

Não surpreende portanto que a veterana líder da esquerda uruguaia (esposa do ex-presidente José Mujica) e hoje senadora pela Frente Ampla do Uruguai Lucía Topolansky esteja alertando para “uma operação de desestabilização” em curso na América Latina. “Nossos países atravessaram os anos de chumbo da ditadura, seguiram a onda neoliberal que tanto sofrimento causou ao povo” – disse ela. – “E agora, quando aqueles processos democráticos começam a consolidar-se, já aí vem uma onda de desestabilização”. Esse sentimento é claro, também, entre outros líderes da esquerda, do México ao Chile. Todos já sentiram o gelado vento de golpe que sopra do Norte, reforçado pelas ambições de elites locais já carcomidas.

Alguns bolsões de resistência pela esquerda mantêm-se intactos. Rafael Correa do Equador, Daniel Ortega da Nicarágua, Salvador Sánchez Cerén de El Salvador e, claro, Evo Morales da Bolívia chefiam governos que ainda lutam para manter agenda progressista. Os ventos de golpe sopram contra eles, mas parece que esses governos ainda resistem.

João Pedro Stédile, do MST, sugere que as forças progressistas em toda a América Latina não se deixarão intimidar pela derrota de seus governos ou por agressão que lhes venha das velhas elites. A confiança nas lutas de massa ainda é alta.

É o que se vê hoje mesmo, quando o MST e outras forças de esquerdas tomam as ruas para defender o governo da presidenta Dilma Rousseff. As velhas elites ainda não se deram conta de o quanto avançou a consolidação de movimentos de massa como o MST – e que esse tipo de movimento não pode ser quebrado com a facilidade com que se derrubam governos. A América Latina não tem estômago – nem a mais violenta e desesperada velha elite latino-americana – para violência mortal contra movimentos de massa. As velhas elites terão de conviver com movimentos de massa. Equivale a dizer que não conseguirão capturar a sociedade, assim como talvez tenham capturado alguns palácios presidenciais. A luta continua.*****

Fonte: The Hindu

Keiser Report- Truth About Markets

Publicado originalmente em: 23/04/2016

 

Max and Stacy talk about Obama in London, Boris Johnson, Saudi Arabia, the 28 pages.

Fonte: Max Keiser

Is it possible to reduce CO2 emissions and grow the global economy?

Publicado Originalmente: 14/04/2016

The statistic is startling. In the past two years, the global economy has grown by 6.5 percent, but carbon dioxide emissions from energy generation and transport have not grown at all, the International Energy Agency (IEA) reported last month. CO2 emissions in Europe, the United States, and — most stunningly — China have been falling. What is going on?

These numbers raise a key question of huge importance if nations are to avoid the worst effects of climate change: Is the world on a path toward “decoupling” economic activity from carbon dioxide emissions?

Put another way: Is the idea of a future of “green growth,” with prosperity rising and emissions falling, real? Or as some fear, is it a dangerous myth?

When the United Nations holds an official signing ceremony for the Paris climate agreement on April 22, the hope is this high-profile event will ensure political momentum for meeting the Paris pledge to halt global warming at “well below” two degrees Celsius. But even climate scientists elated by the Paris agreement agree that, even with political will, the task will be extremely tough. Many are unsure whether to be optimists, keen to show the job can be done, or pessimists, determined to ensure nobody thinks it will be easy.

In its analysis last month, the IEA, a body linked with the Organization for Economic Co-operation and Development (OECD), reported that global CO2 emissions from energy-related activities have not risen since 2013, staying at 32.1 billion tons even as the global economy grew.

This surprising “decoupling” of emissions from economic activity was led by the two largest emitters, China and the U.S., which both registered declines in emissions of about 1.5 percent.

The IEA finding followed a similar conclusion about global emissions from an international team of climate scientists, headed by Corinne le Quere of the University of East Anglia in England, reported during the Paris climate conference last December.

A good part of the decoupling, both studies agree, is attributable to China. Its turnaround has been “quite remarkable,” says Fergus Green, an analyst of China’s energy policy at the London School of Economics. The country’s coal use grew annually by more than 8 percent between 2000 and 2013, and that growth was the biggest single cause of rising global CO2 emissions. As recently as 2011, China got 80 percent of its electricity from coal.

But growing concern about killer smogs has triggered new controls that mean many coal-burning power plants in China have now been mothballed. Coal burning fell by 3 percent in 2015, by which time the percentage of China’s electricity produced by coal had fallen to 70 percent, according to the IEA.

Chinese emissions from oil and gas burning continue to grow, Green says. But that is more than counterbalanced by a combination of declining use of coal and reductions in energy demand from structural changes in the Chinese economy, with energy-guzzling heavy industries like cement and steel production both now declining.

Per head of population, Chinese emissions exceed those of Europe, even though average income is less than a half that of citizens of the European Union. But China seems set on the road to climate redemption. In Paris, Beijing pledged to peak emissions by 2030. In fact, it may already have done so, says Green. And even if not, he foresees only small increases from now on.

China is following a road already taken by more economically developed nations. The carbon intensity of high-income OECD countries has more than halved since 1970, meaning half as much CO2 is now emitted for every dollar of GDP.

Lately, things have gone further. U.S. emissions have been falling for more than half a decade now, as coal burning is replaced by fracked natural gas and wind power. The United States has become 28 percent richer, but 6 percent cleaner since 2000, says Nate Aden of the World Resources Institute, who reported that, since 2000, 21 countries — all in Europe, except the U.S. and Uzbekistan — have reduced their carbon emissions while growing GDP.

Britain, for instance, grew its economy by 27 percent while cutting emissions by 20 percent between 2000 and 2014.

Part of this national decoupling is a result of advanced economies offshoring heavy industry to places like China, says Aden, with most of the “decouplers” having reduced the industrial share of their economic activity. But this is a minor element, he believes. These 21 nations show an average emissions reduction of 15 percent, but cuts in the industrial share of GDP are just 3 percent.

That said, clearly not all countries are decoupling. Emissions continue to rise in much of Asia and the Middle East. From Turkey to India, enthusiasm for coal remains strong. India has plans to double its already large coal production, which the Delhi government justifies by pointing out that its per-capita emissions remain only one-tenth of those of the U.S. But optimists note that, despite the bluster, India also has big plans for expanding solar energy production.

It is far from clear, says the University of East Anglia’s le Quere, that the world has yet reached peak emissions of CO2 from energy sources — still less that this translates into a peak in greenhouse gas emissions overall. But with the three largest emitters — China, the U.S., and the European Union — all showing evidence of decoupling, the signs are suddenly rather encouraging.

The first hint that decoupling was under way came four years ago, when a report from the Netherlands Environmental Assessment Agency and the European Commission’s Joint Research Center (JRC) found that in 2012,CO2 emissions rose just 1.1 percent globally, while GDP rose 3.5 percent. Greet Janssens-Maenhout of the JRC says now: “There has been continuous and increasing decoupling over the past four years.”

There is no modern precedent. Global CO2 emissions growth briefly faltered in the early 1980s, in 1992, and again in 2009; but in each case this was due to a decline in economic activity.

The biggest cause of decoupling is the dramatic growth of renewable energy. Last year, more than twice as much money was put into new capacity for renewables such as solar and wind power than into new power stations burning fossil fuels, according to a new analysis by the Frankfurt School of Finance and Management. For the first time, the majority of this investment was in developing countries, with China responsible for 36 percent of the total.

The reason has as much to do with price as climate policies. The cost of photovoltaic equipment, much of it manufactured in China, has fallen by 80 percent in the past decade. As a result, auctions for solar power in Texashave recently seen prices as low as 4 cents per kilowatt hour, which is below the price of most coal-generated energy.

Renewables still only deliver about 10 percent of the total electricity generated worldwide. Even so, Ulf Moslener, a coauthor of the Frankfurt report, said recent investment in green energy has cut annual CO2 emissions from all energy sources, including transport, by about 1.5 billion tons, or 5 percent, from where they would otherwise be.

The growth of renewables is being accompanied by a sharp decline in coal burning, not only in China, but in the U.S. and elsewhere. Canadian climate blogger Kyla Mandel recently noted that a quarter of European Union countries no longer burn any coal for power generation.

This process is being amplified by a flight of capital, as investors fear that expensive coal mines and coal-burning power plants may become “stranded assets,” with no markets, as renewables ramp up and limits on CO2 emissions begin to bite. The coal industry has been hit hard, with the largest U.S. coal company, Peabody Energy, filing for Chapter 11 bankruptcy protection just this week.

This concern is likely to spread to other fossil fuels, says British energy analyst and former Greenpeace science director Jeremy Leggett. Current low oil prices may encourage oil burning and could postpone the market penetration of, for instance, electric cars. But low prices also discourage investment in new oil fields. As Leggett put it in a recent blog: “Most fossil fuel companies face a future in which they might not have the capital to expand even if they still want to.”

But there are countervailing trends. The IEA’s emissions audit does not cover all CO2 emissions. Deforestation for the past half century has been a major source of greenhouse gas emissions, although that too now appears to be declining. More worrying — because they are still increasing fast but were left out of the Paris agreement — are emissions from international aviation and shipping.

Expansion plans for the aviation industry could lead to emissions from this source tripling by 2040, says Annie Petsonk of the Environmental Defense Fund. Once these are taken into account, “the decoupling claimed for many nations disappears altogether,” says Kevin Anderson of the University of Manchester in England.

The aviation industry may reach agreement later this year on plans to offset its emissions by investing in United Nations schemes for forest conservation.

But some environmentalists are concerned that the industry will simply be funding projects already promised by governments as part of their plans to meet their Paris pledges. If so, there will be no additional benefit to the planet.

There are growing concerns too about trends for some other greenhouse gases — in particular, the second most-important man-made planet warmer, methane, the main constituent of natural gas. When burned, natural gas produces energy with fewer CO2 emissions than coal. But if distribution systems leak significant amounts of gas, the warming effect of that methane could negate the benefit of switching off coal.

“Methane numbers may undermine the basic thesis [of decoupling],” says climate activist Bill McKibben, who recently wrote in The Nation that U.S. emissions of methane — “CO2’s nasty little brother” — have increased by more than 30 percent. In the article, McKibben pinpointed leakage from fracking as the likely cause.

This is a damaging failure of regulation, but at least it is fixable, at relatively low cost, according to studies by the United Nations Environment Programme. And while methane is a potent greenhouse gas, its lifetime in the atmosphere is roughly a decade, so we won’t be living with the consequences for nearly as long as those from CO2 emissions.

Even if global emissions of CO2 and other greenhouse gases can be curbed, however, this won’t fix climate change, say critics of the decoupling narrative. The big problem is that warming is driven not by annual emissions but by the accumulation of greenhouse gases in the atmosphere. And while methane may disappear relatively quickly, CO2 hangs around for centuries.

Last year, CO2 concentrations in the atmosphere exceeded 400 parts per million (ppm) for the first time. According to the U.N.’s Intergovernmental Panel on Climate Change, keeping global warming below two degrees probably requires keeping this figure below about 450 ppm. That means emitting in total no more than about 800 billion tons of CO2 from all sources — or less than 20 years worth at current rates. In practice, emissions have to be brought down to zero by mid-century.

“Set against the small and rapidly dwindling carbon [emissions] budgets associated with the Paris Agreement… the tentative signs of decoupling are of little relevance,” says Anderson, of Manchester University, an avowed pessimist. “The concept of green growth is very misleading.”

Others are more optimistic. Even if decoupling cannot limit warming to two degrees, it could deliver three or four degrees, after which the world might find ways to draw down CO2 from the atmosphere. But all agree the bottom line is that, as le Quere puts it, “we need to bring emissions down to zero. The faster we decrease the emissions, the less risk we take.”

Decoupling is real, but it is just the start.

FONTE: The Guardian

EUA e China reforçam compromisso com acordo de Paris

Publicado Originalmente: 04/06/2016

Faltando apenas três semanas para a cerimônia de assinatura do Acordo de Paris, que será realizada na sede das Nações Unidas, em Nova York, as duas principais potências globais em matéria de mudanças do clima, Estados Unidos e China, reforçaram seus compromissos com os objetivos do tratado.

Em comunicado conjunto publicado na última quinta-feira (31/03), Washington e Pequim afirmaram que assinarão o Acordo durante a cerimônia em Nova York e que tomarão os “respectivos passos domésticos” para a sua ratificação ainda neste ano.

A mensagem reforça a possibilidade de que o Acordo de Paris entre em vigor até o final de 2016. De acordo com o texto aprovado durante a última Conferência do Clima (COP 21), em dezembro passado na capital francesa, o Acordo vigorará assim que 55 países representando, ao menos, 55% das emissões globais, entreguem a ratificação do documento junto às Nações Unidas. Somente Estados Unidos e China representam cerca de 40% das emissões do mundo.

Por ora, apenas três países dos 193 que concordaram com o texto final em Paris concluíram o processo de ratificação do Acordo, todos pequenas nações insulares do Pacífico – Fiji, Palau e Ilhas Marshall.

Uma hipotética entrada em vigor do Acordo de Paris ainda em 2016 aproveitaria uma brecha aberta pelo texto finalizado na COP 21. Durante o longo processo de negociação do Acordo, o prazo geralmente citado para seu início prático era 2020, para coincidir com o final do Protocolo de Quioto, o instrumento legal internacional atualmente em vigor para contenção das emissões globais de gases de efeito estufa. No entanto, no texto final, esse prazo simplesmente desapareceu, dando lugar paro início automático do Acordo a partir da ratificação por 55 países representando 55% das emissões globais.

Ainda que possível, uma antecipação da entrada em vigor não deverá ter impacto prático, já que muitos dispositivos e regras fundamentais para o funcionamento do Acordo de Paris ainda precisam ser definidos pelos negociadores nos próximos anos, o que atrasaria qualquer efetividade prática até, pelo menos, 2018. No entanto, entende-se que esta antecipação, ainda que meramente simbólica, serviria como um sinal importante de comprometimento dos países com os objetivos de redução de emissões e combate efetivo às mudanças do clima.

FONTE: Página22

Brasil e EUA realizam a III Reunião do Acordo de Cooperação Econômica e Comercial

Postado originalmente em: 30/03/2016

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A III Reunião do Tratado de Cooperação Econômica e Comercial (ATEC) foi realizada nos dias 29 e 30 de março para tratar dos principais temas da agenda atual e dos desafios futuros nas relações econômicas e comerciais Brasil-EUA.

Atendendo ao compromisso alcançado pelo presidente Barack Obama e pela presidenta Dilma Rousseff no sentido de “incrementar esforços para expandir o comércio e os investimentos, bem como aumentar a competitividade e a diversidade de nossas duas economias”, esta foi a primeira reunião da ATEC realizada em nível ministerial, reunindo as mais altas autoridades encarregadas de comércio nos EUA, o representante de Comércio Michael Froman, e no Brasil, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comercio Exterior, Armando Monteiro.

Durante a sessão ministerial, realizada no dia 30, os ministros mantiveram discussões aprofundadas sobre as respectivas abordagens do Brasil e dos EUA em matéria de negociações de comércio e investimentos, o que propiciou uma valiosa oportunidade para trocar informações e identificar pontos de convergência.

À luz da bem sucedida conclusão da Conferência Ministerial da OMC em Nairóbi, no último mês de dezembro, os três ministros também se engajaram em uma produtiva discussão sobre a implementação da Declaração de Nairóbi e compartilharam ideias sobre a próxima reunião ministerial da OMC.

Durante a sessão técnica, realizada no dia 29, autoridades dos dois lados discutiram amplo conjunto de temas de comércio e investimento, incluindo cooperação em foros multilaterais; estratégias para expandir investimentos em manufaturas; biotecnologia agrícola; cooperação regulatória; bem como preocupações específicas de acesso a mercados em ambos os lados.

Ao fim da reunião, o ministro Armando Monteiro realçou o reconhecimento, pelos dois países, dos grandes avanços feitos no último ano para ampliar as relações comerciais: “Nossa agenda, estabelecida a partir do início de 2015, foi focada em remover barreiras não-tarifárias, e evoluiu significativamente com acordos na área de convergência regulatória, facilitação de comércio e propriedade intelectual, temas essenciais para o comércio bilateral, majoritariamente composto por produtos industrializados. Foi uma renovação do comprometimento com a nossa parceria e a evolução constante das nossas relações de comércio e investimentos”.

O ministro Mauro Vieira destacou a importância do mercado dos EUA para as exportações brasileiras, em particular para as exportações de bens manufaturados, o que “demonstra claramente a competitividade da indústria brasileira e a integração das cadeias de valor entre nossos dois países”. 

Bens industriais corresponderam a mais de 60% de nossas exportações para os EUA em 2015 – um claro avanço com relação aos 53% observados em 2014. O ministro ressaltou ainda que “não obstante a importância de nossas exportações tradicionais de produtos agropecuários para os EUA – as quais certamente esperamos ver aumentadas significativamente, com mais exportação de carnes, açúcar e frutas, por exemplo –  os três principais produtos de exportação do Brasil para os EUA são, respectivamente, máquinas, aeronaves e produtos de ferro e aço”.

Próxima reunião da Comissão será realizada em Brasília em 2017

Os EUA são o segundo principal parceiro comercial do Brasil. O intercâmbio bilateral total, somando-se bens e serviços, chegou próximo a USD 100 bilhões em 2015. Os EUA são o principal investidor estrangeiro direto (IED) no Brasil, com um estoque acumulado de investimentos da ordem de USD 110 bilhões, segundo dados do Banco Central do Brasil. Ao mesmo tempo os investimentos brasileiros nos EUA tornam-se cada vez mais relevantes, fortalecendo as sinergias entre as duas maiores economias das Américas. O Brasil investiu USD 1,9 bilhão no EUA em 2015, elevando o estoque acumulado de IED brasileiro nos EUA a mais de USD 13 bilhões.

Fonte: Portal Brasil