Pepe Escobar: Começam hoje 50 anos de guerra de tarifas? 

Trade-War
6/7/2018, Pepe Escobar, Asia Times

Traduzido pela Vila Vudu

Muito mais que primeiro tiro à meia-noite de hoje do que pode converter-se em terrível guerra comercial, a queda de braços de tarifas entre EUA e China deve ser vista no contexto de grande virada no Grande Quadro geopolítico e econômico.

O jogo de passar adiante as culpas, e todos os tipos de cenários de especulação de como pode evoluir a disputa de tarifas, são questões periféricas. O alvo crucialmente decisivo do que hoje se inicia não é algum “livre comércio” que seria disfuncional; o alvo é o projeto “Made in China 2025” – a China autoconfigurada como usina geradora de alta tecnologia equivalente, ou mesmo superando EUA e UE.

É sempre importante destacar que foi a Alemanha que, na verdade, forneceu o molde para “Made in China 2025”, mediante sua estratégia Indústria 4.0.

“Made in China 2025” tem por alvo 10 campos tecno-estratégicos: tecnologia de informação, incluindo redes 5G e cibersegurança; robótica, aeroespaço; engenharia oceânica; ferrovias para vagões de alta velocidade; veículos movidos a novas energias; equipamento elétrico; maquinaria para agricultura; novos materiais; e biomedicina. 

Para que o projeto “Made in China 2025” dê frutos, Pequim já investiu em cinco centros nacionais de produção de inovações e em 48 centros provinciais, parte de um projeto para chegar a 40 centros nacionais até 2025. E em 2030, via uma estratégia paralela, a China já deverá estar estabelecida também como líder no campo da inteligência artificial (IA).

“O Sonho Chinês”, mantra do presidente Xi Jinping, também conhecido como “o grande rejuvenescimento da nação chinesa”, é estritamente ligado não só a “Made in China 2025”, internamente, mas também, externamente, à Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE), conceito que dá organicidade à política exterior da China para todo o futuro planeável. E os dois tópicos – “Made in China 2025” e ICE – são absolutamente inegociáveis. 

Em agudo contraste, não se vê nem sinal no horizonte de qualquer projeto “Made in USA 2025”. A Casa Branca parece modular todo o processo como uma batalha contra a “agressão econômica dos chineses”. A Estratégia de Segurança Nacional define a China como principal força que desafia o poder dos EUA. A Estratégia de Defesa Nacional do Pentágono vê a China como “concorrente estratégico que usa economia predatória”. E como chegamos a isso?

Inovação ou morte 

E indispensável conhecer um pouco do contexto-cenário.

David Harvey, em O Novo Imperialismo, recorre a The Global Gamble: Washington’s Bid for Global Dominance de P. Gowan, para chamar atenção para o quanto ambos veem “a radical reestruturação do capitalismo internacional depois de 1973 como uma série de jogadas, tentadas pelos EUA, interessados em manter a própria posição hegemônica nos assuntos econômicos mundiais contra Europa, Japão e, depois, contra o Leste e o Sudeste da Ásia”.

Antes de o milênio acabar, Harvey já enfatizava o modo como Wall Street e o Tesouro dos EUA eram operados pelo Estado como “instrumento formidável de governança econômica para impulsionar os processos de globalização e as transformações domésticas neoliberais associadas.”

A China por seu lado jogou magistralmente seu jogo de reorientação do capitalismo – investindo sem meias medidas no que se pode descrever como “neoliberalismo com características chinesas”, e lucrando o máximo possível da projeção de poder econômico dos EUA via mercados abertos e os membros da Organização Mundial de Comércio.

Agora a China, em velocidade alucinante, está finalmente pronta a investir na projeção de seu próprio poder econômico. Como Harvey já observou há mais de uma década, o próximo passo para o capitalismo da Ásia Oriental seria “afastar-se do muito que depende do mercado norte-americano”, rumo ao “cultivo de um mercado interno”.

Harvey descreveu o programa de modernização massiva da China como “uma versão interna de reorientação espaço-temporal equivalente ao que os EUA fizeram internamente nos anos 1950s e 1960s mediante a suburbanização e o desenvolvimento do chamado Cinturão do Sol”. Na sequência, a China estaria “gradualmente drenando o capital excedente do Japão, de Taiwan e da Coreia do Sul e, assim, reduzindo os fluxos para os EUA”. Já está acontecendo.

O presidente Trump não é exatamente o que se diria um estrategista geopolítico. A razão para as novas tarifas pode ser forçar as cadeias de suprimento das empresas norte-americanas a reduzir o muito que dependem, hoje, da China. Mas o modo como a economia global foi montada não aguenta o desmanche dessas cadeias de suprimento – com a produção sendo des-deslocalizada de volta aos EUA, como diz Trump. O local, local, local também rege a lógica do capitalismo turbinado: as empresas sempre privilegiarão a mão de obra mais barata e os menores custos de produção, não importa onde estejam.

Agora, comparem isso à China que investe em deslocalização da alta tecnologia integrada com centros de excelência norte-americanos. No que se trate da cabeça do combate na linha da inovação entre China e EUA, a estratégica do Zhongguancun Development Group (ZDG) é caso fascinante.

O grupo ZDG estabeleceu vários centros de inovação fora da China. O principal Centro ZGC de Inovação está instalado em Santa Clara, Califórnia, bem perto de Stanford e dos campus de Google e Apple. Há agora um novo centro em Boston à distância de um grito de Harvard e do MIT.

Esses centros fornecem o pacote completo – desde laboratórios que são o estado da arte até – fator crucialmente importante – o capital, mediante um fundo de investimento. A matrix vem do governo de Pequim, pelo tecnodistrito da cidade. E nem é preciso dizer que o grupo ZDG está integralmente alinhado com a ICE e a ênfase que jamais é esquecida na expansão, para “aprender a experiência de outros países, de um ecossistema de inovação”

Isso, num microcosmo, é do que trata o projeto “Made in China 2025”.

Meio século de guerra comercial?

Assim sendo, o que acontecerá?

Sob o atual tsunami de histeria, a análise sóbria que nos vem de Li Xiao, decano da Escola de Economia da Universidade Jilin, é mais que bem-vinda.

Li vai logo à jugular. Destaca o quanto “a ascensão da China é, essencialmente, um ganho de status dentro do sistema do dólar.” Do ponto de vista de Pequim, é imperativo mudar, mas a mudança será gradual. “O objetivo da internacionalização do yuan não é substituir o dólar. No curto prazo, o sistema do dólar é insubstituível. Nosso objetivo para o yuan é reduzir o risco e o custo, sob o sistema do dólar.”

Com muito realismo, Li também admite que “o conflito entre as duas maiores potências prosseguirá por, no mínimo, 50 anos, talvez mais. Tudo o que está acontecendo hoje é apenas um show preliminar, antes do espetáculo principal da história.”

Implícita na metáfora do show preliminar, antes do espetáculo principal, é a ideia de que a liderança chinesa parece interpretar o primeiro tiro do tarifaço, à meia-noite de hoje, como um modo de reaquecer o que se lê na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. A conclusão, para Pequim é uma só e inescapável: agora, os EUA começaram a ameaçar o Sonho Chinês.

Dado que o Sonho Chinês, o “rejuvenescimento da nação chinesa”, “Made in China 2025”, a ICE, o multipolarismo e a China como motor da integração da Eurásia são itens absolutamente não negociáveis, não surpreende que o cenário esteja montado para forte, inevitável turbulência.*******

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Anatomia do golpe: as pegadas americanas 

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3/7/2017, Tereza Cruvinel – Conversa Afiada

O golpe em curso no Brasil é sofisticada operação político-financeira-jurídico-midiática, tipo guerra híbrida. E será muito difícil deslindá-la”, diz o jornalista Pepe Escobar. E mais difícil fica na medida em que surgem contradições entre seus próprios artífices. A enxurrada de conversas que Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro e um dos operadores do Petrolão, teve e gravou com cardeais do PMDB, induz à ilusória percepção de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff foi apenas um golpe tupuniquim, armado pela elite política carcomida para deter a Lava Jato e lograr a impunidade. O procedimento “legal” que garantiu a troca de Dilma por Temer, para que ela faça o que está fazendo, foi peça de operação maior e mais poderosa desencadeada ainda em 2013 para atender a interesses internos e internacionais. E nela ficaram pegadas da ação norte-americana.

Interesses internos: remover Dilma, criminalizar o PT, inviabilizar Lula como candidato a 2018 e implantar uma política econômica ultra-liberal, encerrando o ciclo inclusivo e distributivista. Interesses externos: alterar a regra do pré-sal e inverter a política externa multilateralista que resultou nos BRICS, na integração sul-americana e em outros alinhamentos Sul-Sul.

As gravações de Machado desmoralizam o processo e seus agentes e complicam a evolução do governo Temer mas nem por isso o inteiro teor da trama pode ser reduzido à confissão de Romero Jucá, de que uma reunião de caciques do PMDB, PSDB, DEM e partidos conservadores menores, em reuniões noturnas, decidiram que era hora de afastar Dilma para se salvarem. E daí vieram a votação de 17 de abril na Câmara, a farsa da comissão especial e a votação do dia 11 de maio no Senado.

Um longo caminho, entretanto, foi percorrido até que estes atos “legais” fossem consumados. Para ele contribuíram a Lava Jato e suas estrelas, a Fiesp com seu suporte a grupos pró-impeachment e o aliciamento de deputados, o mercado com seus jogos especulativos na bolsa e no câmbio para acirrar a crise, Eduardo Cunha e seus asseclas com as pautas bombas na Câmara. E também as obscuras mas perceptíveis ações da NSA, Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, e da CIA, na pavimentação do caminho e na fermentação do clima propício ao desfecho. Os grampos contra Dilma, autoridades do governo e da Petrobrás, os protestos contra o governo, o desmanche econômico e a dissolução da base parlamentar, tudo se entrecruzou entre 2013 e 2016.

Se os que aparecem agora nas conversas gravadas buscaram poder, impunidade e retrocesso ao país de poucos e para poucos, os agentes externos miraram o projeto de soberania nacional e o controle de recursos estratégicos, em particular o petróleo do Pré-Sal. Não por acaso, a aprovação do projeto Serra, que suprime a participação mínima obrigatória da Petrobrás, em 30%, na exploração de todos os campos licitados, entrou na agenda de prioridades legislativas do novo governo.

Muito já se falou da coincidente chegada ao Brasil, em agosto de 2013, de Liliana Ayalde como embaixadora dos Estados Unidos, depois de ter servido no Paraguai entre 2008 e 2011, saindo pouco antes do golpe parlamentar contra o ex-presidente Fernando Lugo. Num telegrama ao Departamento de Estado, em 2009, vazado por Wikileaks, ela disse:. “Temos sido cuidadosos em expressar nosso apoio público às instituições democráticas do Paraguai – não a Lugo pessoalmente”. E num outro, mais tarde : “nossa influência aqui é muito maior que as nossas pegadas”.

O que nunca se falou foi que a própria presidente Dilma, tomando conhecimento dos encontros que Ayalde vinha tendo com expoentes da oposição no Congresso, mandou um emissário avisá-la de que via com preocupação tais movimentos. Eles cessaram, pelo menos ostensivamente. Ayalde havia chegado pouco antes da Lava Jato esquentar e no curso da crise diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos, detonada pela denúncia do Wikleaks de que a NSA havia grampeado Dilma, Petrobrás e outros tantos. Segundo Edward , o ex-agente da NSA que denunciou a bibilhotagem, “em 2013 o Brasil foi o país mais espionado do mundo”. Em Brasília funcionou uma das 16 bases americanas de coleta de informações, uma das maiores.

A regra de exploração do pré-sal e a participação do Brasil nos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, India. Chia e Africa do Sul), especialmente depois da criação, pelo bloco, de um banco de desenvolvimento com capital inicial de US 100 bilhões, encabeçaram as contrariedades americanas com o governo Dilma.

Recuemos um pouco. Em dezembro de 2012, as jornalistas Cátia Seabra e Juliana Rocha publicaram na Folha de São Paulo telegrama diplomático vazado por Wikileaks, relatando a promessa do candidato José Serra a uma executiva da Chevron, de que uma vez eleito mudaria o modelo de partilha da exploração do pré-sal fixado pelo governo Lula: a Petrobrás como exploradora única, a participação obrigatória de 30% em cada campo de extração e o conteúdo nacional dos equipamentos. Estas regras, as petroleiras americanas nunca aceitaram. Elas querem um campo livre como o Iraque pós-Saddam. A Folha teve acesso a seis telegramas relatando o inconformismo delas com o modelo e até reclamando da “falta de senso de urgência do PSDB”. Serra perdeu para Dilma em 2010 mas como senador eleito em 2014, apresentou o projeto agora encampado pelo governo Temer.

No primeiro mandato, Dilma surfava em altos índices de popularidade até que, de repente, a pretexto de um aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus de São Paulo, estouraram as manifestações de junho de 2013. Iniciadas por um grupo com atuação legítima, o Movimento Passe Livre, elas ganham adesão espontânea da classe média (que o governo não compreendeu bem como anseio de participação) e passam a ser dominadas por grupos de direita que, pela primeira vez, davam as caras nas ruas. Alguns, usando máscaras. Outros, praticando o vandalismo. Muitos inocentes úteis entraram no jogo. Mais tarde é que se soube que pelo menos um dos grupos, o MBL, era financiado por uma organização de direita norte-americana da família Koch. E só recentemente um áudio revelou que o grupo (e certamente outros) receberam recursos também do PMDB, PSDB, DEM e SD.

Aparentemente a ferida em Dilma foi pequena. Mas o pequeno filete de sangue atiçou os tubarões. Começava a corrida para devorá-la. A popularidade despencou, a situação econômica desandou, veio a campanha de 2014 e tudo o que se seguiu.

Mas nesta altura, a espionagem da NSA já havia acontecido, tendo talvez como motivação inicial a guerra do pré-sal. Escutando e gravando, encontraram outra coisa, o esquema de corrupção. E aqui entram os sinais de que as informações recolhidas foram decisivas para a decolagem da Lava Jato. Foi logo depois do Junho de 2013 que as investigações avançaram. A partir da prisão do doleiro Alberto Yousseff, numa operação que não tinha conexão com a Petrobrás, o juiz federal Sergio Moro consegue levar para sua alçada em Curitiba as investigações sobre corrupção na empresa que tem sede no Rio, devendo ter ali o juiz natural do caso. Moro havia participado, em 2009, segundo informe diplomático também vazado por Wikileaks, de seminário de cooperação promovido pelo Departamento de Estado, o Projeto Pontes, destinado a treinar juízes, procuradores e policiais federais no combate à lavagem de dinheiro e contraterrorismo. Participaram também agentes do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai. Teria também muitas conexões com procuradores norte-americanos.

Com a prisão de Yousseff, a Lava Jato deslancha como um foguete. Os primeiros presos já se defrontam com uma força tarefa que detinha um mundo de informações sobre o esquema na Petrobrás. Executivos e sócios de empreiteiras rendiam-se às ofertas de delação premiada diante da evidência de que negar era inútil, só agravaria suas penas. O estilo espetaculoso das operações e uma bem sucedida tática de comunicação dos procuradores e delegados federais semeou a indignação popular. Vazamentos seletivos adubaram o ódio ao PT como “cérebro” do esquema.

As coisas foram caminhando juntas, na Lava Jato, na economia e na política. A partir do início do segundo mandato de Dilma, ganharam sincronia fina. Na Câmara, Eduardo Cunha massacrava o governo e a cada derrota o mercado reagia negativamente. A Lava Jato, com a ajuda da mídia, envenenava corações e mentes contra o governo. Os movimentos de direita e pró-impeachment ganharam recursos e músculos para organizar as manifestações que culminaram na de 15 de março. A Fiesp entrou de cabeça na conspiração e a Lava Jato perdeu todo o pudor em exibir sua face política com a perseguição a Lula, a coerção para depor no aeroporto de Congonhas e finalmente, quando ele vira ministro, a detonação da última chance que Dilma teria de rearticular a coalizão, com o vazamento da conversa entre os dois.

No percurso, Dilma e o PT cometeram muitos erros. Erros que não teriam sido fatais para outro governo, não para um que já estava jurado de morte. Mas este não é o assunto agora, nesta revisitação em busca da anatomia do golpe.

Em março, a ajuda externa já fizera sua parte mas as pegadas ficaram pelo caminho. O governo já não conseguia respirar. Mas, pela lei das contradições, a Lava Jato continuou assustando a classe política, sabedora de que poderia “não sobrar ninguém”. É quando os caciques se reúnem, como contou Jucá, e decidiram que era hora de tirar Dilma “para estancar a sangria”.

Desvendar a engrenagem que joga com o destino do Brasil desde 2013 é uma tentação frustrante. Faltam sempre algumas peças no xadrez. Mas é certo que, ainda que incompleta, a narrativa do golpe não é produto de mentes paranoicas. No futuro, os historiadores vão contar a história inteira de 2016, assim como já contaram tudo ou quase tudo sobre 1964.”

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Em tempo: pequeno acréscimo a esse notável texto da notável Cruvinel: o ladrão presidente, quando era um parlamentar do baixo-clero, passou informações sigilosas ao cônsul americano em São Paulo, como demonstrou também o WikiLeaks que flagrou o traidor do Serra. O Temer era tão inexpressivo que a CIA mandava o Consul e não o Embaixador recolher o que ele expelia. – PHA

Única novidade nas guerras econômicas de Trump são os tuítos: EUA tentam manter a hegemonia do dólar 

currency wars
30/6/2018, F. William Engdahl,
 Global Research, Canadá

Traduzido pela Vila Vudu


A única novidade na guerra econômica promovida pelo governo Trump, assalto calculado contra amigos e inimigos, de Rússia à China, ao Irã, à Venezuela e à União Europeia , a chamada ‘guerra das tarifas’, é que, dessa vez, há um presidente que se serve de tuítos como arma de guerra, para desequilibrar o planeta. Desde pelo menos o final dos anos 1970s, Washington serve-se rotineiramente de táticas similares de chantagem econômica e desestabilização, para forçar o que já se converteu em dominação global, não de bens produzidos pelos EUA, mas do dólar como moeda mundial de reserva.

Já por quase cinco décadas, desde 15/8/1971, Washington e Wall Street servem-se de sua posição dominante para forçar dólares papel-moeda inflados pelo mundo, provocar bolhas financeiras e, subsequentemente, empurrar a dívida para níveis impossíveis, até o colapso.

O ponto mais essencial a compreender sobre as ditas “guerras comerciais” de Trump é que nada têm a ver com comércio ou com corrigir o comércio ou algum desequilíbrio nas moedas com os parceiros de exportações dos EUA. Esse mundo foi descartado em 1971 por Nixon e conselheiros.

A economia dos EUA desde 1971 foi convertida em fonte de ganho financeiro que, de fato, converteu os EUA, de nação produtora de bens industriais, em nação cujo objetivo de todos os investimentos é fazer dinheiro gerar mais dinheiro. Empresas como General Motors, que no final dos anos 1960s era a maior fabricante de carros e caminhões do planeta, coração da economia norte-americana, foram atraídas para a especulação, usando seu braço financeiro (GMAC autofinanciadora de veículos) para apostar no cassino financeiro mundial, apostas que deram péssimo resultado quando a bolha imobiliária explodiu nos EUA em março de 2007, e a GM foi estatizada, e os mega bancos de Wall Street foram ‘resgatados’ com dinheiro dos contribuintes e do Fed.

O processo, que descrevi em detalhe em meu livro Gods of Money, estendeu-se por décadas. À altura do ano 2000, os bancos e fundos de investimento de Wall Street dominavam completamente toda a economia dos EUA. Os empregos em fábricas haviam sido ‘exportados’, “deslocalizados”, não por chineses ou alemães ou outros “exploradores gananciosos” como se dizia, mas por pressão dos mesmos bancos de Wall Street que, desde os anos 1980, levaram as empresas a se focar exclusivamente no valor das ações, não na solidez dos próprios produtos. Cabeças corporativas rolavam, se os bancos de Wall Street não aprovassem os números do retorno financeiro. Isso resultou em EUA que são, primariamente, uma economia de serviços, uma economia de consumidores afogados em dívidas, não mais uma economia industrial líder no mundo. Os ditos 1% mais ricos, os oligarcas dos EUA, exigem hoje tributo equivalente do resto do mundo, para sustentar o insustentável. A guerra comercial e econômica de Trump nada é além de golpe desesperado para tentar reproduzir, meio século depois, o que funcionou nos anos 1970s.

A ‘Segunda Revolução Norte-americana’

A transformação que destruiu a antes grande economia industrial norte-americana teve raízes nas transformações dos anos 1970s. A dominância pós-1930s da economia keynesiana, que entendia quedeficit nas contas do estado poderia mitigar os efeitos negativos de recessões ou depressões, deu lugar ao que John D. Rockefeller III em livro intitulado The Second American Revolution, argumentou que seria um regime de desregulação, privatização de empresas estatais, como usinas de eletricidade, sistemas de água e rodovias.

Ao mesmo tempo, os ideólogos do livre mercado do Monte Pélèrin reunidos em torno do economista da Universidade de Chicago Milton Friedman, foram promovidos por Wall Street e pelo establishmentfinanceiro dos EUA que cercava Rockefeller. Friedman tornou-se o guru da economia de livre mercado, operando como conselheiro de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher durante os anos 1980s. Seu dogma do livre mercado foi posto nas trincheiras do FMI e usado para pregar a favor da terapia de choque econômico e desregulação por toda a América Latina e nas economias comunistas do que fora a União Soviética e na Europa Oriental.

O evento chave, no que tenha a ver com a atual guerra econômica e de tarifas de Washington, está associado à decisão, tomada dia 15/8/1971, pelo presidente Nixon, de unilateralmente separar o EUA-dólar, de qualquer correspondente lastro em ouro.

O jogo de guerra comercial de Nixon

A decisão tomada pelo presidente Nixon em agosto de 1971, de separar o EUA-dólar e qualquer possibilidade de ser convertido em ouro dos EUA, foi apenas uma parte, embora crucialmente decisiva, do que se tornou transformação muito maior, que criou a gigantesca dívida global que hoje já está estimada em 233 trilhões de EUA-dólares. Grande parte dessa dívida é denominada em EUA-dólares e pertence a bancos centrais da China ou Japão ou de estados da União Europeia (UE).

Bem antes do verão de 1971, o governo dos EUA já dera luz verde ao Congresso para aprovar restrições comerciais punitivas de facto contra os maiores parceiros comerciais dos EUA, Japão e os aliados europeus da Comunidade Econômica Europeia (CEE), mais especialmente contra Alemanha e França. Ao final da década de 1960, as economias do Japão e da CCE haviam conseguido, de modo significativo, emergir da destruição da guerra, com economia reconstruída pelo molde do que era então o estado-da-arte da tecnologia industrial. As fábricas de aço e de carros, por sua vez, haviam sido produtos de investimentos do tempo de guerra e do imediato pós-guerra. Exportações alemãs e francesas tinham demanda em todo mundo, não só nos EUA.

Efeito disso foi que aquelas economias começaram a acumular quantidades relativamente enormes de dólares nos respectivos bancos centrais; em 1971, cerca de $61 bilhões em dívidas denominadas em dólares estavam no exterior. Nos termos do tratado de 1944, era obrigação dos EUA pagar em ouro, a qualquer momento que os bancos centrais exigissem do Federal Reserve, o correspondente àqueles dólares. O estoque oficial do Federal Reserve caíra, de $25 bilhões, para apenas $12 bilhões, no início de 1971, e a tendência já ganhava ritmo de bola de neve, com outros bancos centrais já preocupados com o valor dos próprios dólares inflacionados. Washington e Wall Street começavam a ver a cláusula do lastro ouro, de Bretton Woods, como uma pedra atada ao pescoço dos EUA, que poderia dar cabo do poder global dos EUA.

Ouro e dólares

O fim do lastro ouro foi precedido por muita chantagem, com Washington usando uma nova lei do Congresso para impor quotas, de início só para têxtis e calçados da Europa e de outras origens. Havia ameaça de estender as quotas também para carros e outros produtos europeus.

Em 1970, a política comercial dos EUA era de fato semelhante à do governo Trump, quase um século depois. Em maio de 1970, o Secretário do Tesouro dos EUA David Kennedy ameaçou que, se os parceiros comerciais dos EUA não tomassem medidas na direção de permitir que os EUA aumentassem suas exportações, o Congresso agiria para limitar as importações para os EUA. “Os países que têmsuperavit têm responsabilidade especial para agir na direção de eliminá-lo. Ou não?” – perguntava Kennedy, sabendo muito bem que uma das maiores razões para o desequilíbrio nas balanças comerciais era o fato de as empresas norte-americanas estarem comprando empresas europeias e asiáticas, forçando um superavit na balança de pagamentos naqueles países, e as exportações norte-americanas já não eram competitivas contra os produtos europeus e japoneses.

Washington usou uma política que os europeus chamaram de “descaso benigno” [orig. “benign neglect”], para deixar que o capital privado fluísse livremente para, principalmente, a Alemanha – e assim os EUA desmontaram as relações monetárias dentro da Comunidade Econômica Europeia. Os excedentes de dólares na Alemanha subiram muito. Em vez de desvalorizar o dólar enormemente inflado, movimento que poderia ter acelerado as exportações nos EUA e aliviado a crise, Washington exigiu que os países da Comunidade Econômica Europeia, principalmente a Alemanha, revalorizassem para cima as respectivas moedas, o que tornou não competitivas as respectivas exportações, num momento vulnerável. No caso do Japão, Washington exigiu que revalorizasse o yen em cerca de 20%, ou o país teria de encarar tarifas para limitar algumas categorias de exportações japonesas para os EUA.

O secretário de comércio de Nixon, Maurice Stansadotou linha muito agressiva contra a Europa. Declarou que “em vários sentidos, nos convertemos em Tio Sucker do resto do mundo”.

Nas palavras do economista Michael Hudson“Os EUA jogaram a luva: ou Europa e Ásia submetiam-se, ou sofreriam retaliações. A máxima tática aplicada aos ‘rebeldes’ nesse caso é ‘Não ataque o líder, se não estiver preparado para matá-lo’.”

Os europeus encolheram-se e obedeceram. A lei comercial dos EUA foi uma declaração de que os EUA, e só os EUA, estavam isentos, como potência global dominante, do GATT ou de qualquer acordo legal que tivessem com outros parceiros.

Nesse ponto, liderados pela França, os bancos centrais da Comunidade Econômica Europeia – exceto a Alemanha, onde Washington aplicou enorme pressão sobre o presidente do Bundesbank, Karl Blessing –começaram a exigir que seus superávits em dólares fossem convertidos em ouro. Quando funcionários alemães sugeriram, já em 1966, que estariam considerando converter em ouro também seus crescentes superavits em dólares, Washington ameaçou Blessing de retirar todas as tropas norte-americanas da Alemanha, país que teria deixado de “apoiar” o dólar.

Para pôr fim ao risco de mais países aliados cobrarem o ouro correspondente aos dólares superavitários, dia 15/8/1971 Richard Nixon, tendo ao lado o então secretário-assistente do Tesouro Paul Volcker, ex-executivo do Banco Chase de Rockefeller, anunciou o fechamento permanente da janela de câmbio de ouro do Fed. Ao mesmo tempo, Nixon impôs uma tarifa de importações de 10% sobre a maioria das importações norte-americanas, como meio de chantagem, para forçar a Comunidade Econômica Europeia e o Japão a aceitarem dólares sem limites e sem lastro ouro, dólares-papel cujo valor nominal foi inflado a um ritmo apavorante. Para comprar o mesmo o que um cidadão norte-americano comprava em 1970, por $385, em comida roupa e outras necessidades, são necessários hoje $2.529. É consequência direta de Nixon ter posto fim ao lastro ouro do dólar.

Num golpe de pena, Nixon e Wall Street removeram a ameaça de credores reivindicarem o ouro correspondente aos papéis norte-americanos em poder deles. As dívidas subiram, e Washington e Wall Street mantêm hoje um sistema comercial mundial dolarizado, no qual sanções do Tesouro dos EUA já são rotina como armas de guerra para forçar amigos e inimigos – sem qualquer diferença no modo como são tratados – a se alinhar de joelhos diante de qualquer coisa que Washington ordene.

Estará a China pronta a desafiar esse sistema do dólar, com tanto da produção chinesa ainda dependente de chips e processadores e de outras sofisticadas tecnologias norte-americanas? É precisamente essa dependência, que a estratégia econômica do projeto “Made in China 2025” de Xi Jinping visa a eliminar. Por sua vez também, empresas da União Europeia com grandes vendas nos EUA, temem as sanções secundárias contra quem continue a comprar petróleo e mantenha outros investimentos com o Irã.

Hoje, um presidente Trump dos EUA tuíta ameaças contra Alemanha ou China por estarem, segundo ele e sem qualquer base fatual, “manipulando a moeda”; e exige que aliados na OTAN aumentem seus gastos em Defesa, em troca do privilégio de serem mantidos sob dominação militar, pelo Pentágono. O estilo mudou, na chantagem econômica com que os EUA atacam o mundo desde os anos 1970s. Mas o conteúdo é sempre o mesmo.

Afiliados da al-Qaeda entre os terroristas ‘do bem’ dos EUA? Forçada a escolher, Israel prefere os terroristas, ao Irã

Cartoon. Terrifying terror. US. Israel. Daesh ISIS. UN. Syria. #1ab

25/7/2018, Sharmine Narwani, The American Conservative

Imagem: Cidade de Manbij

DARAA, Síria – À primeira vista, tudo parece calmo nessa cidade do sul da Síria, onde aconteceram os primeiros protestos há sete anos. Moradores circulam pelas lojas, nos preparativos para o jantar de Iftar, quando interrompem o jejum diário durante o mês santo de Ramadan.

Mas mesmo assim a tensão é palpável nessa cidade hoje sob controle do governo. Há poucas semanas, as conversações de paz organizadas pela Rússia no sul da Síria foram rompidas, quando militantes sustentados pelo ocidente rejeitaram qualquer paz negociada.

Venha a acontecer batalha total no sul, ou não, visitas semana passada aos três governorados do sul da Síria, Daraa, Quneitra e Suweida, revelam uma surpreendente possibilidade: a franquia síria da al-Qaeda – a Frente Nusra – parece estar entrincheirada profundamente entre os militantes sustentados pelos EUA, em cidades e vilarejos chaves estratégicos espalhados por todo o sul.

A imprensa e os think tanks norte-americanos encobrem esse fato, referindo-se sempre a todos os combatentes da oposição como “rebeldes” ou “moderados.” Os mapas deles e só mostram três cores: vermelho para o Exército Árabe Sírio (EAS) e aliados; verde para forças de oposição; e preto para o ISIS.

Mas… onde está a Frente Nusra, que especialistas ocidentais consideram há muito tempo uma das forças mais potentes que combate conte ao Exército Árabe Sírio? Terão sido simplesmente – e convenientemente – apagadas do mapa de batalhas na Síria?

Contatos com especialistas militares sírios, analistas e combatentes da oposição durante minha viagem revelaram que a Frente Nusra está bem viva e ativa nos campos de batalha do sul. O mapa abaixo identifica claramente áreas que Nusra controla no sul, mas há muitas outras áreas que não aparecem nesse mapa, nas quais a Frente Nusra está presente e divide o poder com outros grupos militantes.

Sul da Síria:
Mapa com localização dos militantes mantidos pelos EUA

Apesar de EUA e ONU designarem a Frente Nusra como organização terrorista, o grupo está combatente abertamente ao lado da “Frente Sul,” grupo que reúne 54 milícias de oposição ao governo sírio criado e comandado por uma ‘sala de guerra’ liderada pelos EUA sediada em Aman, Jordânia, chamada Centro de Operações Militares [ing. Military Operations Center (MOC)].

Não é fácil obter informação sobre esse MOC, mas fontes dentro da Síria – de combatentes de oposição e de militares sírios (atuais e aposentados) de alta patente – sugerem que o centro de comando reúna Grã-Bretanha, França, Jordânia, Israel e alguns Estados do Golfo.

Dizem que o MOC fornece dinheiro, armas, salários, inteligência e treinamento para as 54 milícias, muitas das quais não passam de cerca de apenas 200 milicianos, divididos por sua vez em grupos menores, alguns com não mais de poucas dúzias de milicianos.

O general Ahmad al-Issa do Exército Árabe Sírio, comandante da linha de frente em Daraa, diz que oMOC é uma operação liderada pelos EUA que controla os movimentos dos “terroristas” da Frente Sul e é fortemente influenciada pelos objetivos estratégicos de Israel no sul da Síria – um dos quais é tomar o controle sobre suas áreas de fronteira, para criar uma zona tampão (“buffer”) dentro de territórios sírios.

Como soube disso? Issa diz que sua informação é resultado de um cruzamento de várias fontes, incluindo militantes reconciliados/capturados e inteligência do próprio MOC. O general cita o próprio manual doMOC distribuído aos militantes como exemplo do centralismo dos israelenses: “Número 1, jamais ameaçar ou abordar qualquer fronteira israelense de modo algum. Número 2, proteger as fronteiras com o Golan [ocupado por Israel], para que ninguém consiga entrar em Israel.”

Para ilustrar o controle que o MOC exerce sobre os militantes no sul, Issa cita ainda outras regras do Manual: “Número 3, jamais empreender qualquer ação militar sem antes obter autorização do MOC. Número 4, se o MOC ordena que os grupos ataquem ou suspendam o ataque, a ordem deve ser cumprida imediatamente.”

O que acontece se as regras são desobedecidas? “Os salários são cortados,” diz Issa.

Os grupos de oposição armada apoiados pelo MOC são afiliados principalmente ao Exército Sírio Livre (ESL), ele próprio grupo sem definição precisa, que pode ser usado em diferentes formações para diferentes finalidades, formado de militantes que já trocaram de nome e filiação com frequência durante o conflito na Síria.

Ao longo da guerra, o ESL combateu ao lado da Frente Nusra e do ISIS – muitos até se alistaram nesses grupos. Hoje, apesar dos esforços para sanear o ESL e o Front Sul apresentando-os como facções “não sectárias” e não extremistas, como o Exército Yarmouk, a Brigada Mu’tazz Billah, a Divisão Salah al-Din, a Brigada Fajr al-Islam, a Brigada  Fallujah al-Houran, o grupamento Bunyan al-Marsous, a Brigada Saifollah al-Masloul e outras estão realmente ocupando áreas chaves em Daraa, associadas com a Frente Nusra.

Nada disso é novidade para os deputados e senadores norte-americanos. Mesmo antes de o MOC ser criado, em fevereiro de 2014, militantes da Frente Nusra participavam com destaque de manobras militares vitais para o ESL. Como explica um ativista da oposição em Daraa: “O ESL e a Frente Nusra unem-se para operações, mas há um acordo entre eles, para deixar o ESL liderar para efeito externo, porque não querem assustar a Jordânia ou o ocidente (…). O ESL apresenta como se fossem suas, operações que foram executadas de fato pela Frente Nusra.”

Há esforços em todos os níveis, até nos mais altos, para esconder a profundidade da cooperação que liga a Frente Nusra e o ESL. Um comandante do ESL em Daraa diz: “A Frente Nusra toma parte em muitos combates, mas nada informamos sobre isso à sala de operações (MOC).”

É altamente duvidoso que os militares norte-americanos não saibam desses movimentos. Os norte-americanos trabalham em ambiente de “não pergunte, não conte” no que tenha a ver com a cooperação entre ESL e Frente Nusra. Em 2015, em conversa comigo, o porta-voz do CENTCOM tenente comandante Kyle Raines fugiu a uma pergunta sobre por que armas que o Pentágono vetava para combatentes estavam aparecendo em mãos da Frente Nusra. Disse ele: Não temos ‘comando e controle’ sobre essas forças – só os ‘treinamos e capacitamos’. Com quem digam que se aliaram é problema deles.”

Na prática, os EUA não dá sinais de se incomodar com a aliança com a Frente Nusra – apesar de o grupo ser classificado como organização terrorista – contanto que o serviço seja feito.

Já há vários anos se veem armas norte-americanas em mãos da Frente Nusra, inclusive os caros mísseisTOW, armas poderosas que alteraram o rumo dos combates no teatro militar sírio. Quando se fala de armas norte-americanas encontradas em mãos da al-Qaeda no primeiro ou segundo ano de um conflito, assume-se que seja erro de informação. Mas quando o problema persiste depois de sete anos, já começa a parecer que esteja em ação uma política para induzir todos a olhar para outro lado.

Também não é difícil compreender por que mapas norte-americanos ignoram claramente as provas de que há elementos da Frente Nusra ativos nas milícias sustentadas pelos EUA. O grupo, aliás, é mantido fora de acordos de cessar-fogo, apresentado como alvo a ser buscado sempre por ataques militares.

Em dezembro de 2015, a Resolução n. 2.254 do Conselho de Segurança da ONU conclamava os “Estados Membros a impedir e suprimir atos terroristas cometidos especificamente pelo Estado Islâmico no Iraque e Levante (ISIL, também conhecido como Da’ech), a Frente Nusra [ing. Al-Nusra Front (ANF)], e todos os demais indivíduos, grupos, subunidades e entidades associadas com Al Qaeda ou ISIL, e outros grupos terroristas, como determinado pelo Conselho de Segurança” (itálicos meus). Além disso, a Resolução também esclarece que “não se aplicam acordos de cessar-fogo nas ações ofensivas ou defensivas contra esses indivíduos, grupos, subunidades e entidades.”

Essencialmente, significa que o Exército Árabe Sírio e aliados podem atacar quaisquer áreas no sul da Síria onde os milicianos da Frente Nusra – e “entidades associadas” a eles mantêm bases. Com efeito, a lei internacional permite assalto militar sírio contra milícias apoiadas pelos EUA que ocupem os mesmos espaços que a Frente Nusra, e reduz a capacidade para tomar medidas de retaliação, de patrocinadores estrangeiros dessas milícias.

Por isso, a Frente Nusra não aparece nos mapas norte-americanos.

Em entrevista semana passada, o presidente Bashar al-Assad da Síria culpou a “interferência de Israel e dos norte-americanos” pela interrupção dos esforços de reconciliação no sul. O presidente sírio disse queaquela interferência “pressiona os terroristas naquela área, para que trabalhem contra qualquer compromisso ou resolução pacífica.”

Hoje, na fronteira de Israel e Síria, há grande número de acampamentos da Frente Nusra e do ISIS, que Israel claramente prefere ao Exército Árabe Sírio e seus aliados iranianos e Hezbollah. O Wall Street Journal até noticiou ano passado que Israel, pela fronteira, estava secretamente pagando salário, alimento, combustível e munição a militantes.

No início de junho, dois islamistas, ex-membros do ESL (um dos quais também miliciano da Frente Nusra) em Beit Jinn – área estratégica na fronteira de Síria, Líbano e Israel – disse-me que Israel teria garantido salários àquelas milícias durante um ano antes de o acordo de reconciliação ser firmado com o governo sírio. “Todos os meses Israel nos manda $200 mil para continuarmos lutando,” disse um deles. “Nossos líderes seguem os países de fora. Éramos sustentados pelo MOC, continuaram a nos sustentar até o último momento,” disse ele.

Mais cedo naquele dia, na vila de Hadar no Golan sírio, membros da comunidade drusa descreveram umataque sangrento da Frente Nusra em novembro, que deixou 17 mortos: “Todos aqui viram como Israel ajudou os terroristas da Frente Nusra naquele dia. Deram cobertura de artilharia das colinas, para ajudar a Frente Nusra a tomar Hadar. No fim dos combates, Israel leva os terroristas feridos para atendimento médico,” diz Marwan Tawil, professor de inglês em Hadar.

“A linha de cessar-fogo (fronteira sírio-israelense) está a 65 km, entre onde estamos e a Jordânia, é só essa área é controlada pelo Exército Árabe Sírio,” explica o prefeito de Hadar. “60 quilômetros estão com Nusra e Israel, e os outros cinco estão com o Exército Árabe Sírio.”

Israel está tão pesadamente empenhada em manter a Síria e aliados longe de suas fronteiras, quepromoveu ativamente al-Qaeda e outros extremistas no teatro ao sul da Síria. Como explicou o ministro da Defesa de Israel Moshe Ya’alon, em frase que ganhou fama em 2016, “Na Síria, se a escolha é entre Irã e o Estado Islâmico, eu escolho o Estado Islâmico.” Para justificar as intervenções na batalha que está por vir, EUA e Israel dizem que as forças do Irã e do Hezbollah estão presentes no sul, embora não se veja sinal disso em campo, em Daraa e Quneitra.

Múltiplas fontes confirmam isso em Daraa, e insistem que só há uns poucos conselheiros – não soldados – do Hezbollah, em todo o governorado.

Assim sendo, porque o alarde? “É esforço de diplomacia pública para fazer crer que o ocidente teria expulsado do sul, o Irã e o Hezbollah,” explica o general Issa.

EUA, Israel e seus aliados não têm meios para vencer essa luta no sul. Podem apenas prolongar a insegurança por mais algum tempo, antes de o Exército Árabe Sírio decidir lançar uma ação militar contra as mais de 54 milícias da Frente Nusra que ocupam o sul da Síria. O resultado provavelmente será um acordo negociado temperado com umas poucas “batalhas leves” para expulsar os militantes mais linha-dura.

Como me diz um soldado do Exército Árabe Sírio em Daraa: “54 facções numa área pequena mostra fraqueza, não força.” E a cooperação com a Frente Nusra só torna ainda maiores os alvos pintados nelas.

TV 247: De volta do Irã, Pepe Escobar fala sobre programa nuclear, sanções e imperialismo

Pepe Escobar: “Era Putin-Xi superará a (des)ordem liberal ocidental? “

china russia relations
26/3/2018, Pepe Escobar, in The Vineyard of the Saker  (de Asia Times)

A emenda à Constituição chinesa, que passa a permitir mandatos subsequentes ao presidente Xi Jinping – de modo a que fique no poder por tempo suficiente para promover o “rejuvenescimento nacional” –, combinada às eleições na Rússia que confirmaram Vladimir Putin na presidência, garantiu consistência e continuidade à parceria estratégica Rússia-China até bem entrada a próxima década.

Com isso se facilitam a interação entre a Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) e a União Econômica Eurasiana (UEE); a coordenação política dentro da Organização de Cooperação de Xangai, nos BRICS e no G-20; e o movimento em geral rumo à integração da Eurásia.

O fortalecimento do que se deve ver como a era Putin-Xi só pode estar levando pânico aos liberais ocidentais.

Interesses capitalistas sempre acreditaram na própria narrativa de propaganda, que conecta diretamente a expansão capitalista e alguma inevitável expansão da democracia.

O pensamento crítico está afinal desmascarando, no mínimo, essa mais uma grande ilusão.

O que realmente aconteceu desde o início dos anos 1980s foi que o turbocapitalismo ocidental aproveitou-se avidamente de uma variedade de trabalho neoescravo nas Zonas Especiais Econômicas (ZEEs) da China. Combine isso com a proverbial húbris das elites ocidentais, apostando que a China – vista no melhor dos casos como fonte de trabalho barato – e uma Rússia enfraquecida durante os anos 1990s jamais conseguiriam acumular know-how para desafiar o ocidente, geoeconomicamente e geopoliticamente.

O registro histórico é implacável, mostrando que não há qualquer tipo de conexão entre comércio “livre” – usualmente mais livre para os de maior peso – e liberalização da política. Por exemplo, a monarquia prussiana rebaixou barreiras comerciais, o que levou à criação da Zollverein [união aduaneira de estados germânicos] em 1834. E o Terceiro Reich entre 1933 e 1938 ofereceu mistura perigosa de capitalismo e totalitarismo hardcore.

O sistema da China, onde um partido (marxista) controla o Estado para o objetivo de preservar a coesão nacional, com certeza não pode ser descrito como democracia liberal. O dissidente Minxin Pei, autor de China’s Trapped Transition [aprox. ‘a transição chinesa capturada’ (NTs)], já sabia, há 12 anos que o Partido Comunista Chinês jamais tomaria o rumo da democracia liberal ocidental (Pei tomou ao pé da letra as orientações do Pequeno Timoneiro Deng Xiaoping).

Compreendeu corretamente que a China “não tem interesse em se tornar membro do clube [do ocidente]. Querem os benefícios econômicos da ordem ocidental liberal [infelizmente benefícios sempre pra uns poucos! (NTs)], mas rejeitam os valores políticos [que infelizmente também beneficiam só uns poucos! (NTs)] e temem [com sobejas razões (NTs)] suas alianças de segurança. Hoje, a China está em posição suficientemente forte para construir seu próprio clube.”

Mas Pei concluiu erradamente que o PCC sufocaria o crescimento econômico da China (“O prospecto de uma estagnação semelhante à japonesa é real.”) Xi Jinping e seu novo dream team precisam de tempo suficiente para fazer andar o modelo econômico chinês.

Longe da demonização infantiloide 24h/dia, 7 dias por semana, fato é que a Rússia hoje é uma democracia, embora imperfeita. E é importante analisar como uma jovem democracia está exposta, quase indefesa, para ser manipulada.

O terceiro capítulo do novo livro Manifest-Destiny: Democracy as Cognitive Dissonance [aprox. “Destino Manifesto: democracia como cognição dissonante”*] detalha o estupro da Rússia; como as “reformas de livre mercado” de Boris Yeltsin facilitadas pelos “Harvard boys” permitiram que um pequeno grupo de oligarcas bilionários – Mikhail Khodorkovsky, Boris Berezovsky e Roman Abramovich dentre eles – tomassem posse de uma economia que passava então por terapia de choque.

Entre 1991 e 1997 O PIB russo despencou impressionantes 83%; o investimento na economia caiu 92%.

O caso de Khodorkovsky é emblemático. Através da empresa Yukos, o empresário era dono de campos de petróleo na Sibéria; e estava a um passo de vender tudo a interesses empresariais ocidentais, nos idos de 2003, quando Putin saiu ao seu encalço. Não há dúvida de que o processo foi intensamente estudado pela liderança em Pequim. Controlar interesses nacionais chaves é a derradeira absoluta linha vermelha.

Para Putin, como para Xi, o árbitro supremo é o Estado nacional, não uma gang de oligarcas como começa a virar regra em todo o ocidente liberal e antiliberal. No nível dos BRICS, comparem-se aqueles líderes nacionais e o usurpador que está atualmente instalado na presidência do Brasil, e que faz de tudo para entregar a maior parte que consiga entregar das reservas de petróleo na camada pré-sal do Brasil, além da gigante fabricante de aviões Embraer, a interesses não nacionais brasileiros.

Na dúvida, consulte Confúcio

Já se converteu num ritual para os guardiões do establishment ocidental chorar copiosamente sobre o “fim da ordem mundial liberal”. Alguns pelo menos admitem que, afinal, não é “liberal, nem é mundial, nem é ordem”.

Guardiões de mais baixo escalão podem ser mais realistas, e observar como políticos ocidentais já foram amplamente ultrapassados pela fúria popular em miríades de latitudes, sem deixar de acreditar que seja possível “reconstruir a democracia sobre fundamentos morais”.

Não é. Não, sob o credo neoliberal predominante, esse NHA (“Não Há Alternativa”, ing. TINA,There Is No Alternative“). Os guardiões, à esquerda e à direita, simplesmente não conseguem compreender o crescimento das forças populares – porque os que estejam sob influência das forças populares veem claramente o quanto e como os mitos do “estado de direito” e da “soberania nacional” vão rapidamente dissolvendo-se na lama. Aqueles guardiões, no melhor dos casos, lamentam com nostalgia “a perda da influência que a elite um dia teve”.

China, Rússia, Irã e Turquia – todos esses estados implicados na integração da Eurásia – podem ser classificados como sistemas autoritários em diferentes níveis. E há de haver quem argumente que, com exceção da China, todos esses estados ainda têm desempenho econômico abaixo dos respectivos verdadeiros potenciais.

Mesmo assim, todos esses estados valorizam acima de qualquer outro valor a própria soberania nacional, em sistema multipolar. Esse é o contraponto conceitual que esses estados oferecem à (des)ordem (nada)liberal mundial. Assim esses estados respondem ao NHA/TINA.

Quanto à “perda da influência que a elite um dia teve” é palavra-código para o amancebamento de ricos e poderosos que alardeiam democracias falsamente morais, que só fazem desmascarar o medo profundo que aquelas ‘elites’ sentem de que o momento unipolar do ocidente esteja em rápido processo de dissolução.

Todas essas contradições aparecem muito visíveis, quando se examina a União Europeia. A UE, desde o Tratado de Maastricht, foi manobrada para se tornar o que a própria Angela Merkel definiu como Bundesrepublik Europa – República Federal da Europa.

Quem conheça Bruxelas sabe como aquelas ondas de eurocratas isentos de impostos amamentam um sistema kafkiano de regulação burocraticamente ultracentralizado, ao mesmo tempo em que os próprios eurocratas mantêm-se completamente distantes e sem qualquer contato com europeus reais normais.

A noção da União Europeia como promotora de “integração econômica” incluindo pesadas doses de ‘austeridade’ não pode ser mais antidemocrática.

Acrescentem-se a isso os escândalos nos altos escalões do estado, que nada fazem além de desgastar e corroer a fé na primazia do modelo da democracia liberal ocidental. O mais recente envolve a real possibilidade de que o coronel Gaddafi tenha muito provavelmente financiado a campanha presidencial de Sarkozy em 2007 na França; negócio extraordinariamente sinistro pelo qual se veem as políticas de energia, as política da água, e os proverbiais grandes contratos de compra de armas para os quais as democracias liberais ocidentais descartam completamente qualquer preocupação moral decente.

Agora comparem tudo isso e esses, com Xi Jinping, elevado a hexin lingdao (o núcleo da liderança do PCC), espécie de primus inter pares numa versão sínica da República de Platão. A teoria política do Iluminismo greco-romano já não é o único pôquer que rola na cidade. Mas ainda não se vê qualquer sinal de que o ocidente tomado de húbris comece a aprender com Confúcio.

*****

* A expressão cognitive dissonance (ing.) e dissonance cognitive (fr.) aparece, com o significado que nos interessa aos estudos sociais, com Franz Fanon:

“Às vezes as pessoas têm uma crença central, muito forte. Quando são confrontadas com evidências que operam contra aquela crença, é difícil para elas aceitar a nova evidência. Assim se cria um sentimento extremamente desconfortável, que se chama “cognição dissonante“. E, porque lhes é muito importante proteger a crença central já existente, as pessoas racionalizam, ignoram e até negam qualquer evidência que não se encaixe naquela crença central” [Frantz Fanon, Pele negra, máscaras brancas (1963)].

Em geral a expressão aparece traduzida como “dissonância cognitiva”, que é tradução semanticamente errada, uma contradição em termos: a dissonância semântica entre os conteúdos que o conceito aproxima impede ou, no mínimo, dificulta muito, de fato, qualquer cognição logicamente consistente e produtiva para o pensamento. Tudo isso considerado, parece-nos que a única tradução q faz pleno sentido é “cognição dissonante” [NTs].

Pepe Escobar: “O Brasil no epicentro da Guerra Híbrida” (30/03/2016)

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POR  PEPE ESCOBAR– ON 30/03/2016

Que são, nos manuais norte-americanos, as ações não-convencionais contra “forças hostis” a Washington. A centralidade do Pré-Sal no impeachment. Como os super-ricos cooptam a velha classe média

Por Pepe Escobar | Tradução: Vinícius Gomes Melo e Inês Castilho

Revoluções coloridas nunca são demais. Os Estados Unidos, ou o Excepcionalistão, estão sempre atrás de atualizações de suas estratégias para perpetuar a hegemonia do seu Império do Caos.

A matriz ideológica e o modus operandi das revoluções coloridas já são, a essa altura, de domínio público. Nem tanto, ainda, o conceito de Guerra Não-Convencional (UW, na sigla em inglês).

Esse conceito surgiu em 2010, derivado do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais. Eis a citação-chave: O objetivo dos esforços dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […] Num futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês)”.

Potências hostis” são entendidas aqui não apenas no sentido militar; qualquer país que ouse desafiar um fundamento da “ordem” mundial centrada em Washington pode ser rotulado como “hostil” – do Sudão à Argentina.

As ligações perigosas entre as revoluções coloridas e o conceito de Guerra Não-Convencional já desabrocharam, transformando-se em Guerra Híbrida; caso perverso de Flores do Mal. Revolução colorida nada mais é que o primeiro estágio daquilo que se tornará a Guerra Híbrida. E Guerra Híbrida pode ser interpretada essencialmente como a Teoria do Caos armada – um conceito absoluto queridinho dos militares norte-americanos (“a política é a continuidade da guerra por meios linguísticos”). Meu livro Império do Caos, de 2014, trata essencialmente de rastrear uma miríade de suas ramificações.

Essa bem fundamentada tese em três partes esclarece o objetivo central por trás de uma Guerra Híbrida em larga escala: “destruir projetos conectados transnacionais multipolares por meio de conflitos provocados externamente (étnicos, religiosos, políticos etc.) dentro de um país alvo”.Os países do BRICS (Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul) – uma sigla/conceito amaldiçoada no eixo Casa Branca-Wall Street – só tinham de ser os primeiros alvos da Guerra Híbrida. Por uma miríade de razões, entre elas: o plano de realizar comércio e negócios em suas próprias moedas, evitando o dólar norte-americano; a criação do banco de desenvolvimento dos BRICS; a declarada intenção de aumentar a integração na Eurásia, simbolizada pela hoje convergente “Rota da Seda”, liderada pela China – Um Cinturão, Uma Estrada (OBOR, na sigla em inglês), na terminologia oficial – e pela União Econômica da Eurásia, liderada pela Rússia (EEU, na sigla em inglês).

Isso implica em que, mais cedo do que tarde, a Guerra Híbrida atingirá a Ásia Central; o Quirguistão é o candidato ideal a primeiro laboratório para as experiências tipo revolução colorida dos Estados Unidos, ou o Excepcionalistão.

No estágio atual, a Guerra Híbrida está muito ativa nas fronteiras ocidentais da Rússia (Ucrânia), mas ainda embrionária em Xinjiang, oeste longínquo da China, que Pequim microgerencia como um falcão. A Guerra Híbrida também já está sendo aplicada para evitar o estratagema da construção de um oleoduto crucial, a construção do Ramo da Turquia. E será também totalmente aplicada para interromper a Rota da Seda nos Bálcãs – vital para a integração comercial da China com a Europa Oriental.

Uma vez que os BRICS são a única e verdadeira força em contraposição ao Excepcionalistão, foi necessário desenvolver uma estratégia para cada um de seus principais personagens. O jogo foi pesado contra a Rússiade sanções à completa demonização, passando por um ataque frontal a sua moeda, uma guerra de preços do petróleo e até mesmo uma (patética) tentativa de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou. Para um membro mais fraco dos BRICS foi preciso utilizar uma estratégia mais sutil, o que nos leva à complexidade da Guerra Híbrida aplicada à atual, maciça desestabilização política e econômica do Brasil.

No manual da Guerra Híbrida, a percepção da influência de uma vasta “classe média não-engajada” é essencial para chegar ao sucesso, de forma que esses não-engajados tornem-se, mais cedo ou mais tarde, contrários a seus líderes políticos. O processo inclui tudo, de “apoio à insurgência” (como na Síria) a “ampliação do descontentamento por meio de propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo” (como no Brasil). E conforme cresce a insurreição, cresce também a “intensificação da propaganda; e a preparação psicológica da população para a rebelião.” Esse, em resumo, tem sido o caso brasileiro.

Precisamos do nosso próprio Saddam

Um dos maiores objetivos estratégicos do Excepcionalistão é em geral um mix de revolução colorida e Guerra Híbrida. Mas a sociedade brasileira e sua vibrante democracia eram muito sofisticadas para métodos tipo hard, tais como sanções ou a “responsabilidade de proteger” (R2P, na sigla em inglês).

Não por acaso, São Paulo tornou-se o epicentro da Guerra Híbrida contra o Brasil. Capital do estado mais rico do Brasil e também capital econômico-financeira da América Latina, São Paulo é o nódulo central de uma estrutura de poder interconectada nacional e internacionalmente.

O sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil.

A “Primavera Brasileira” foi virtualmente invisível, no início, um fenômeno exclusivo das mídias sociais – tal qual a Síria, no começo de 2011.

Foi quando, em junho de 2013, Edward Snowden revelou as famosas práticas de espionagem da NSA. No Brasil, a questão era espionar a Petrobras. E então, num passe de mágica, um juiz regional de primeira instância, Sérgio Moro, com base numa única fonte – um doleiro, operador de câmbio no mercado negro – teve acesso a um grande volume de documentos sobre a Petrobras. Até o momento, a investigação de dois anos da Lava Jato não revelou como eles conseguiram saber tanto sobre o que chamaram de “célula criminosa” que agia dentro da Petrobras.

O importante é que o modus operandi da revolução colorida – a luta contra a corrupção e “em defesa da democracia” – já estava sendo colocada em prática. Aquele era o primeiro passo da Guerra Híbrida.

Como cunhado pelos Excepcionalistas, há “bons” e “maus” terroristas causando estragos em toda a “Siraq”; no Brasil há uma explosão das figuras do corrupto “bom” e do corrupto “ruim”.

O Wikileaks revelou também como os Excepcionalistas duvidaram da capacidade do Brasil de projetar um submarino nuclear – uma questão de segurança nacional. Como a construtora Odebrecht tornava-se global. Como a Petrobras desenvolveu, por conta própria, a tecnologia para explorar depósitos do pré sal – a maior descoberta de petróleo deste jovem século 21, da qual as Grandes Petrolíferas dos EUA foram excluídas por ninguém menos que Lula.

Então, como resultado das revelações de Snowden, a administração Roussef exigiu que todas as agências do governo usassem empresas estatais em seus serviços de tecnologia. Isso poderia significar que as companhias norte-americanas perderiam até US$ 35 bilhões de receita em dois anos, ao ser excluídos de negociar na 7ª maior economia do mundo – como descobriu o grupo de pesquisa Fundação para a Informação, Tecnologia & Inovação (Information Technology & Innovation Foundation).

O futuro acontece agora

A marcha em direção à Guerra Híbrida no Brasil teve pouco a ver com as tendências políticas de direita ou esquerda. Foi basicamente sobre a mobilização de algumas famílias ultra ricas que governam de fato o país; da compra de grandes parcelas do Congresso; do controle dos meios de comunicação; do comportamento de donos de escravos do século 19 (a escravidão ainda permeia todas as relações sociais no Brasil); e de legitimar tudo isso por meio de uma robusta, embora espúria tradição intelectual.

Eles dariam o sinal para a mobilização da classe média. O sociólogo Jesse de Souza identificou uma freudiana “gratificação substitutiva”, fenômeno pelo qual a classe média brasileira – grande parte da qual clama agora pela mudança do regime – imita os poucos ultra ricos, embora seja impiedosamente explorada por eles, através de um monte de impostos e altíssimas taxas de juros.

Os 0,0001% ultra ricos e as classes médias precisavam de um Outro para demonizar – no estilo Excepcionalista. E nada poderia ser mais perfeito para o velho complexo da elite judicial-policial-midiática do que a figura de um Saddam Hussein tropical: o ex-presidente Lula.

“Movimentos” de ultra direita financiados pelos nefastos Irmãos Kock pipocaram repentinamente nas redes sociais e nos protestos de rua. O procurador geral de justiça do Brasil visitou o Império do Caos chefiando uma equipe da Lava Jato para distribuir informações sobre a Petrobras que poderiam sustentar acusações do Ministério da Justiça. A Lava Jato e o – imensamente corrupto – Congresso brasileiro, que irá agora deliberar sobre o possível impeachment da presidente Roussef, revelaram-se uma coisa só.

Àquela altura, os roteiristas estavar seguros de que a infra-estrutura social para a mudança de regime já havia produzido uma massa crítica anti-governo, permitindo assim o pleno florescimento da revolução colorida. O caminho para um golpe soft estava pavimentado – sem ter sequer de recorrer ao mortal terrorismo urbano (como na Ucrânia). O problema era que, se o golpe soft falhasse – como parece ser pelo menos possível, agora – seria muito difícil desencadear um golpe duro, estilo Pinochet, através da UW, contra a administração sitiada de Roussef; ou seja, executando finalmente a Guerra Híbrida Total.

No nível socioeconômico, a Lava Jato seria um “sucesso” total somente se fosse espelhada por um abrandamento das leis brasileiras que regulam a exploração do petróleo, abrindo-a para as Grandes Petrolíferas dos EUA. Paralelamente, todos os investimentos em programas sociais teriam de ser esmagados.

Ao contrário, o que está acontecendo agora é a mobilização progressiva da sociedade civil brasileira contra o cenário de golpe branco/golpe soft/mudança de regime. Atores cruciais da sociedade brasileira estão se posicionando firmemente contra o impeachment da presidente Rousseff, da igreja católica aos evangélicos; professores universitários do primeiro escalão; ao menos 15 governadores estaduais; massas de trabalhadores sindicalizados e trabalhadores da “economia informal”; artistas; intelectuais de destaque; juristas; a grande maioria dos advogados; e por último, mas não menos importante, o “Brasil profundo” que elegeu Rousseff legalmente, com 54,5 milhões de votos.

A disputa não chegará ao fim até que se ouça o canto de algum homem gordo do Supremo Tribunal Federal. Certo é que os acadêmicos brasileiros independentes já estão lançando as bases para pesquisar a Lava Jato não como uma operação anti-corrupção simples e maciça; mas como estudo de caso final da estratégia geopolítica dos Exceptionalistas, aplicada a um ambiente globalizado sofisticado, dominado por tecnologia da informação e redes sociais. Todo o mundo em desenvolvimento deveria ficar inteiramente alerta – e aprender as relevantes lições, já que o Brasil está fadado a ser visto como último caso da Soft Guerra Híbrida