Sobre Luiz Albuquerque

O Núcleo de Estudos sobre Cooperação e Conflitos Internacionais (NECCINT) da Universidade Federal de Ouro Preto , sob a coordenação do professor Luiz Albuquerque, criou o Observatório de Relações Internacionais para servir como banco de dados e plataforma de pesquisas sobre relações internacionais e direito internacional . O site alimenta nosso trabalho de análise de conjunturas, instrumentaliza nossas pesquisas acadêmicas e disponibiliza material para capacitação profissional. Mas, além de nos servir como ferramenta de trabalho, este site também contribui para a democratização da informação e a promoção do debate acadêmico via internet.

Encontro da Rede Brasileira de Estudos da China – RBCHINA

Caso não esteja visualizando este e-mail corretamente clique aqui

I Encontro da Rede Brasileira de
Estudos da China – RBCHINA

Brasil e China num contexto de incertezas mundiais

Data: 22 e 23 de outubro de 2018
Local: 22/10 – Auditório 03 prédio 43 – PUC Coração Eucarístico
Local: 23/10 – PUC Minas Praça da Liberdade | Auditório Liberdade | Av. Brasil, 2023 – Funcionários

22/10 – Segunda-feira
Campus Coração Eucarístico

  • China e a Economia Global
  • Ciências Sociais e Relações Internacionais na China Contemporânea
  • Desafios e Oportunidades para a Relação Brasil-China

23/10 – Terça-feira
Unidade Praça da Liberdade

  • Filosofia e Cultura da China.

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO COMPLETA

Mais informações: ics.producao@pucminas.br

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Pepe Escobar: Ocidente contra o resto, ou ocidente contra ele mesmo? 

18/9/2018, Pepe Escobar, de Paris, especial para Consortium News

Tradução da Vila Mandinga
Qual a história mais abrangente? Ocidente contra o resto, ou ocidente contra ele mesmo?

O Quarteto Iliberal [ing. Illiberal] – Xi, Putin, Rouhani e Erdogan – está na linha de tiro das mais arrogantes homilias sobre “valores ocidentais”.

iliberalismo[1] [ing. Illiberalism] é arrogantemente e provocativamente desqualificado no ocidente, repetidamente, como uma Invasão dos Tártaros 2.0.* Mas mais perto de casa, o mesmo iliberalismo é responsável pela Guerra civil social nos EUA, com a América de Trump já esquecida há muito, do que tratava o Iluminismo Europeu.

A visão ocidental é um turbilhão de pseudofilosofia pendurada em Hegel, Toynbee, Spengler e em obscuras referências bíblicas, que não para de alertar para um ataque de asiáticos contra a mission civilisatrice “iluminada” do ocidente.

O turbilhão engole qualquer pensamento crítico que avalie o Confucionismo de Xi, o Eurasianismo de Putin, a realpolitik de Rouhani e o Islã Xiita “não ocidentoxicado” [ing. “non-Westoxified”], além dos anseios de Erdogan que arde por liderar a Fraternidade Muçulmana global.

Em vez de pensamento, o ocidente nos dá as mais ridículas “análises” de como a OTAN deveria ser elogiada por ter impedido que a Líbia se tornasse uma Síria – o que, sim, a OTAN realmente fez.

Ao mesmo tempo uma regra de ouro protege uma potência asiática: ninguém jamais critique a Casa de Saud, que, por falar dela, é manifestação consumada de Iliberalismo. Podem passar pela catraca sem pagar, porque, afinal, são “os nossos felasdaputa”.

O surto de xingar iliberais consegue, isso sim, enquadrar, limitar, o que deveria ser um debate crucialmente decisivo sobre um assustado Ocidente contra o resto; e tudo reduz à questão mais urgente de o Ocidente em luta contra ele mesmo. Essa batalha intraocidente já aparece manifesta sob várias formas: Viktor Orban na Hungria, coalizões eurocéticas na Áustria e na Itália, o avanço da ultra direitista “Alternativa para a Alemanha [al. Alternative für Deutschland (AfD)] e os Democratas Suecos. Resumindo: A Vingança dos Deploráveis Europeus.

O ‘Paraíso’ reocupado de Bannon

Nessa frigideira europeia salta Steve Bannon, o estrategista máster que elegeu Donald Trump e, agora, assola o continente como furacão. Está bem próximo de lançar seu próprio think tankThe Movement,em Bruxelas, para fomentar nada menos que uma revolução popular [ing. populist[2]] de direita.

O que vem aí é Bannon apavorando variadas terras na União Europeia, parafraseando o Satã de Milton, em Paraíso Perdido: melhor rei no Inferno, que servo no Paraíso.

A crescente influência de Bannon na Europa chegou ao Festival de Cinema de Veneza,[3] onde o diretor Errol [Sob a Névoa da Guerra (NTs)] Morris apresentou (5/9/2018) um documentário sobre Bannon,American Dharma, baseado em 18 horas de entrevistas com o Svengali em pessoa de Trump.

Bannon conversou com a mídia há duas semanas em Roma, com apoio de Mischaël Modrikamen, presidente do Partido Popular na Bélgica, cotado para liderar The Movement. Em Roma, Bannon voltou a encontrar Matteo Salvini, ministro do Interior da Itália – de quem foi conselheiro “durante horas” e a quem aconselhou a romper uma coalizão política com a estrela cadente de Silvio “Bunga Bunga” Berlusconi. Mas agora Salvini e Berlusconi já voltaram, juntos, ao negócio de vender cavalos.

Bannon identificou corretamente a Itália como vértice da pós-política, na linha de frente da Cruzada para derrotar a União Europeia. A virada pode ser a eleição, em maio de 2019, para o Parlamento Europeu, na qual Bannon antecipa vitória garantida dos movimentos populares e nacionalistas de direita.

Nessa batalha de vida ou morte entre o popular e o Partido de Davos, Bannon quer ser The Undertaker[lit. “agente funerário”] contra um George Soros frouxo.

Bannon está até seduzindo cínicos na França, ao apontar o autodenominado “Júpiter” Emmanuel Macron – já em queda livre nas pesquisas de opinião pública –, como inimigo público n. 1. Semanário norte-americano obscuro [orig. “A faded U.S. newsweekly”[4]] declarou Macron o “Nosso Último Homem” entre “valores europeus” e… o fascismo. Bannon é mais realista: Macron é “banqueiro Rothschild incapaz de fazer dinheiro – definição de loser [lit. fracassado] (…) Ele se vê como um neo-Napoleão.”

Bannon está encontrando eco por toda a Europa, porque identificou o processo pelo qual o ocidente é o caixeiro viajante que vende “socialismo para os muito ricos e os muito pobres”, e [vende] “uma forma brutal de capitalismo darwiniano para o resto do mundo.”

Não poucos europeus compreendem facilmente esse conceito simplista de popularismo de direita, segundo o qual os cidadãos teriam a obrigação de arranjar emprego, proeza impossível quando a imigração ilegal é usada como pretexto para deprimir os salários.

A estratégia política que subjaz a The Movement é unir todos os vetores europeus nacionalistas – total confusão hoje fragmentada em que há soberanistas, neoliberais, nacionalistas radicalizados, racistas, conservadores e extremistas, todos à caça de respeitabilidade.

Diga-se a favor dele, que Bannon compreendeu visceralmente o quanto a União Europeia é vasto espaço de “des-soberania” [ing. “un-sovereignty”] de fato, tomado como refém pela austeridade econômica. A burocracia da União Europeia pode facilmente ser exposta como Central do Iliberalismo: nunca foi democracia.

Não se pode discordar: Bannon realmente introjetou em Salvini a necessidade de continuar a martelar sem parar o quanto e como a liderança da União Europeia é antidemocrática. Mas há um grande problema: The Movement e toda a galáxia do popularismo de direita centram-se quase exclusivamente no papel dos migrantes ilegais –, o que leva os cínicos não ideológicos a suspeitar de que tudo aí não passe de xenofobia de Estado, fantasiada de rebelião das massas.

Entrementes, na Caverna de Platão…

A belga Chantal Mouffe, professora de Teoria Política na University of Westminster e queridinha do café society multicultural, pode ser facilmente apresentada como a anti-Bannon. Identifica uma “crise da hegemonia neoliberal” e é capaz de demonstrar que a pós-política é resultado de Direita e Esquerda estarem afundando juntas num pântano conceitual.

O impasse político de todo o ocidente, mais uma vez, giraria em torno de TINA: There Is No Alternative[Não há Alternativa], nesse caso, à globalização neoliberal. A Deusa Mercado é Atenas e Vênus no mesmo pacote. A questão é como organizar reação politicamente forte contra a absoluta marketização da vida.

Mouffe pelo menos compreende que não basta viver de demonizar o popularismo de direita, como “irracional” – ao mesmo tempo em que se demonizam os “deploráveis”. Mas deposita excessiva esperança na estratégia política fluida do Podemos na Espanha, de La France Insoumise na França, ou de Bernie Sanders nos EUA.

Pode-se dizer que o único político progressista em toda a Europa, que tem projeto e visão claros para o governo é Jeremy Corbyn – hoje forçado a consumir toda a energia que lhe resta, no combate contra uma suja campanha de demonização.[5]

Sanders acaba de lançar um manifesto em que prega que se crie uma Internacional Progressista – capaz de traçar um New Deal 2.0 e um novo Bretton Woods.

Por seu lado, Yanis Varoufakis, ex-ministro grego das Finanças e co-fundador do movimento democrático DiEM25, lamenta o triunfo de uma Internacional Nacionalista – e destaca, pelo menos, que “brotou da fossa do capitalismo financeirizado”.

Mas nem por isso deixa de recorrer aos mesmos velhos atores, quando se trata de promover uma Internacional Progressista: Sanders, Corbyn e seu próprio DiEM25.

A solução conceitual que Mouffe oferece é apostar no que descreve como popularismo de Esquerda [ing.Left populism[6]] – qualquer coisa que vá de “socialismo democrático” até “democracia participativa”, dependendo do “diferente contexto nacional”.

Implica que o “populismo” incansavelmente demonizado pelas elites neoliberais [mas parcialmente ‘salvo’ por Lênin[7] (NTs)] estaria longe de ser alguma perversão tóxica da democracia e poderia ser autenticamente progressista.

Slavoj Zizek, in The Courage of Hopelessness, [port. A coragem do Desespero] não poderia concordar mais, ao destacar que quando as massas “não convencidas pelo discurso capitalista ‘racional’” preferem uma “posição popular antielitista”, isso nada tem a ver com primitivismo de classe inferior.[8]

De fato, Noam Chomsky, já nos idos de 1991, em Necessary Illusions: Thought Control in Democratic Societies, [e até, com mínimas variações, ao vivo, no programa Roda Viva, em 1996 (NTs)] mostrou brilhantemente como realmente funciona a “democracia” ocidental: “Só depois de derrotada a ameaça da participação popular é que as formas democráticas podem ser contempladas em segurança”.

“Então, o que quer a Europa?”, pergunta Zizek. É dele o mérito de ter identificado a “principal contradição” do que chama de “A Nova Ordem Mundial” (na verdade, ainda padecemos, em fogo baixo, na Velha Desordem Mundial). Zizek resume a contradição em poucas palavras: “a impossibilidade estrutural de encontrar alguma [qualquer uma] ordem política global que corresponda à economia capitalista global.”

E por isso o espectro da “mudança” é tão limitado, e por hora completamente capturado pelo popularismo de Direita. Nada pode acontecer de substancial sem real transformação socioeconômica, um novo sistema mundo que substitua o capitalismo de cassino.

Tomando por realidade a dança das sombras da caverna – russofóbica – platônica, enquanto pranteiam“o fim do Atlanticismo,” os guardiões dos “valores ocidentais” preferem adotar tática diversionista.

Continuam a invocar o medo do “iliberal” Putin e de seu “comportamento maligno” que estariam minando a União Europeia, combinados à “armadilha da dívida” que o neocolonialismo inflige a consumidores tolos, via aqueles pérfidos chineses.

Essas elites de modo algum podem compreender que enfrentam suplício que elas próprias criaram, cortesia do popularismo de livre mercado – o ápice do Iliberalismo Ocidental.*******

NOTAS DOS TRADUTORES:

[1] “Democracia iliberal [é aquela que] combina eleições livres e justas com limitações sistemáticas aos direitos dos cidadãos” (“Democracias liberais e iliberais na América Latina”, Peter H. Smith; Melissa R. Ziegler, Departamento de Ciência Política, Universidade de Chicago, Opin. Publica, vol.15 no.2, Campinas Nov. 2009).

A revista Commentary [tão de direita que Woody Allen sugeriu (Annie Hall, 1977) que se fundisse com a revista Dissent, também de direita, para formar nova revista, Dysentery”, diz, sobre filosofias iliberais (aqui traduzido):
“Mais perniciosamente, assim como as filosofias iliberais voltaram com força contra a esquerda, assim também voltaram suas análogas reacionárias contra a direita. Há dois iliberalismos, notavelmente complementares, que se reproduzem por polinização cruzada. E a coisa desenvolveu-se a tal ponto que já mal se consegue ver diferença entre Tucker Carlson e Chomsky, Laura Ingraham e Julian Assange, a Claremont Review e a New Left Review, e por aí vai”. [NTs].

* Parece que aí se misturam metáforas extraídas de duas fontes: “Os bárbaros estão chegando” (Kafavis, trad. José Paulo Paes) e O deserto dos tártaros (Dino Buzzati). Se não, valeu lembrar [NTs].

[2] Há um problema de tradução do adjetivo “populist” (ing.) ao português do Brasil contemporâneo, porque o cognato “populista” (port.) tem definição à parte e não corresponde exatamente a “populist”. A direita brasileira só usa “populista” [jamais “popular”] e sempre em sentido pejorativo, para degradar qualquer iniciativa, movimento ou discurso que não seja de defesa e promoção da exploração pela classe exploradora; “populista” no português do Brasil é quase equivalente a “iniciativa, movimento ou discurso manipulado para enganar os miseráveis iletrados” [aquiaquiaqui…], miseráveis que, sem o maléfico ‘populismo’, conseguiriam facilmente ‘ver a verdade liberal’… Uma parte da esquerda burguesa acadêmica também usa o adjetivo “populista” nessa acepção. E também nessa acepção, “populismo russo”, por exemplo, aparece definido na tradução brasileira do Dicionário de Política de Bobbio, p. 679 [adiante, trecho cortado-colado], em citação de Lênin – super nuançada, precisa e brilhante, mas que a tradução ao português do Brasil imediatamente ‘contamina’:
“O populismo russo caracterizou-se por três elementos; 1) uma devoção mística pelo povo do campo; 2) a rejeição da industrialização por causa do preço que, na forma privatístico-concorrencial do modelo inglês, cobra das classes rurais, com a consequente ideia de se chegar diretamente ao socialismo partindo da estrutura comunitária tradicional própria do campo, alicerçada na comuna rural ouobstina [ru.], pulando a etapa do capitalismo; 3) e, por último, um elemento messiânico-nacionalista, que recebeu da direita eslavófila e a ela o assimila, através do qual a percepção do enorme atraso do país, tão dolorosamente sentida pelos intelectuais russos, transforma-se num sentimento compensatório de superioridade, totalmente irreal, mas nem por isso menos poderoso e eficaz como estímulo para a ação” [itálicos nossos].
Nessa tradução optamos por traduzir populist por “popular”, pq não nos cabe pressupor e fazer crer que Pepe Escobar esteja usando “populist” por “populista” na acepção depreciativa fortemente ideologizada de ultra direita do Instituto Mises ou de Augusto Nunes na Veja. Há também a possibilidade de usar “popularista” em alguns casos – mas também não nos cabe decidir onde.

Esse problema de terminologia se torna particularmente dramático e crucialmente decisivo, se se considera que Mme. Mouffe está propondo um “populismo de Esquerda”, como se lê adiante, no artigo de Pepe Escobar. No Brasil, “populismo de Esquerda” (des)significa alguma espécie de ininteligível e impensável “UDN-do-bem”… Todos os comentários e correções são bem-vindos [NTs].

[3] No orig. “La Biennale”; o lapso já está aqui corrigido. “Trata-se da Biennale, 75ª edição do festival [anual] de cinema; não é La Biennale, a grande exposição de Arte que acontece de maio a meados de novembro nos anos ímpares; a próxima será inaugurada em maio de 2019” [Jean Ranc, 18/9/2018, 4h04, nos Comentários (NTs)].

[4] Parece ter sido Der Spiegel (?) em 2017, como se lê em https://www.afr.com/news/politics/emmanuel-macron-europes-last-man-standing-20171124-gzs6p8 e em https://reaction.life/emmanuel-macron-least-man-letters-back-elysee/ [NTs].

[5] Ver, por exemplo, “Grã-Bretanha, 2018: Elites trabalham para destruir Corbyn”, 28/8/2018, Jonathan Cook, Counterpunch (traduzido noBlog do Alok) [NTs].

[6] Ver nota 2 [NTs].

[7] In Dicionário de Política de Bobbio, p. 679 (ver nota 2) [NTs].

[8] Em português do Brasil, a palavra “populismo” incorpora como traço semântico definitório, precisamente, esse “primitivismo de classe inferior” de que fala Zizek [NTs].

Área de

Como EUA organizam campanhas ‘jornalísticas’ – à moda Trump [e Bolsonaro] – contra Rússia, China… 

5/10/2018, Moon of Alabama [Com atualização para o caso do Brasil]

Tradução da Vila Mandinga

Ontem, vários países divulgaram uma mesma campanha de propaganda, igual em todos os países, contra a Rússia. O contexto foi uma reunião de cúpula da OTAN na qual os EUA pressionam para que a ciberguerra contra o inimigo preferido da OTAN seja intensificada.

No mesmo dia, outra campanha coordenada foi disparada contra a China. O alvo a ser atacado, nesse caso, é a fabricação de chips para computador que os chineses estão promovendo a escala superior. Também relacionada, é a pressão que os EUA fazem sobre Taiwan, para que rompa relações com sua grande mãe-pátria.

A campanha anti-Rússia tem a ver com suposta espionagem, com atos de hacking e operações de propaganda. Grã-Bretanha e Holanda saíram na frente. A Grã-Bretanha acusou o serviço de inteligência militar da Rússia (ru. GRU) de tentar espionar a Organização para a Proibição de Armas Químicas, Opaq [ing. Organisation for the Prohibition of Chemical Weapons (OPCW)] em Haia e na Suíça, de tentar espionar o Ministério de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, de influenciar campanhas relacionadas a eleições na Europa e nos EUA e de hacking contra a agência internacional anti-doping WADA. A mídia-empresa britânica ajudou com muito prazer a injetar drama e a exagerar nas ‘acusações’:

Foreign Office atribuiu seis específicos ataques a hackers apoiados pelos espiões russos do GRU e identificou 12 nomes codificados de grupos de hackers como fachadas para os espiões do GRU russo – Fancy Bear [Ursinho de Brinquedo], Voodoo Bear [Urso Vudu], APT28, Sofacy, Pawnstorm, Sednit, CyberCaliphate, Cyber Berku, BlackEnergy Actors, STRONTIUM, Tsar Team e Sandworm” [sobre todos esses, há farto material na Internet… (NTs)]

Os “nomes codificados de grupos de hackers” que o Guardian tenta vender aos seus leitores-consumidores não são “grupos de hackers: referem-se a alguns métodos para ciberataques. Conhecendo o método, qualquer grupo ou indivíduo competente pode usá-lo. É praticamente impossível determinar algum ‘autor’ nesse tipo de ataque. Além disso, Fancybear, ATP28, Pawn Storm, Sofacy Group, Sednit e Strontium são apenas nomes diferentes para um único e sempre o mesmo método bem conhecido doshackers. Os outros nomes listados referem-se a velhos grupos e ferramentas relacionados a hackerscriminosos. Blackenergy é usado em cibercrimes desde 2007. Há quem diga que um grupo autodenominado Sandworm, pró-Rússia, teria usado o programa na Ucrânia, mas não há prova, nem sinal em que se possa começar a confiar. Lançar todos esses nomes em lista, sem qualquer diferença, fede à campanha FUD (ing. Fear-Uncertainty-Doubt [Medo-Incerteza-Dúvida]), construída para desinformar e meter medo nos cidadãos de bem.

A Holanda, por sua vez, distribuiu um tsunami de informações sobre supostas tentativas de espionagem contra a OPCW em Haia. A ‘notícia’ é que quatro agentes do GRU russo teriam viajado a Haia com passaportes diplomáticos russos, para farejar a rede WiFi da OPCW. (Redes de WiFi são conhecidas por serem muito fáceis de invadir e hackear. Se a OPCW ainda usa esse tipo de rede, é sinal de que ninguém por lá entende das questões relevantes de segurança.) Os funcionários russos teriam agido sob o mais total sigilo, a ponto de fazerem, eles mesmos, a limpeza dos quartos de hotel e do próprio lixo… embora estranhamente carregassem laptops cheios de dados privados, inclusive recibos de táxi, graças aos quais se soube que saíram diretamente de um quartel-general do GRU russo, em Moscou, para o aeroporto. Exatamente como na saga Skripal/Novichok, os ‘espiões russos’ são mais uma vez mostrados como, simultaneamente, supervilões perigosíssimos e os mais completos amadores idiotas. Espiões de verdade não são nem uma coisa nem outra.

O Departamento de Justiça também contribuiu para o massacre midiático, e emitiu novas acusações (pdf) contra os tais supostos agentes do GRU russo que só muito duvidosamente poderiam ter qualquer relação com supostos ataques de hacking. Dado que nenhum desses russos jamais comparecerá diante de tribunal nos EUA, ninguém jamais saberá se tantas e tão vagas acusações têm qualquer traço de verdade.

A campanha anti-Rússia apareceu bem a tempo para a reunião, ontem, dos ministros da Defesa dos países da OTAN, na qual os EUA ‘ofereceram-se’ para usar suas mais maliciosas ciberferramentas, camufladas sob a bandeira da OTAN:

Katie Wheelbarger, principal vice-assistente da Secretaria da Defesa para assuntos de segurança internacional, disse que os EUA estão empenhados em promover ciberoperações ofensivas e defensivas a serviço de seus aliados na OTAN, mas que os EUA manterão controle sobre o próprio pessoal e suas próprias capacidades.


Se os europeus da OTAN, pressionados pelo massacre propagandístico, aceitarem tal coisa, o resultado óbvio será que os EUA terão ainda maior controle sobre as redes e os próprios cidadãos dos países seus aliados na OTAN
 além de, evidentemente, poderem produzir mais ameaças contra a Rússia:

O comando da OTAN prometeu na 5ª-feira fortalecer as defesas da aliança contra ataques a redes de computadores que a Grã-Bretanha garante que são comandados pela inteligência militar russa, ao mesmo tempo em que ordenou que a Rússia ponha fim ao seu comportamento “irresponsável”.

As acusações contra a Rússia, que teria cometido atos super malignos de espionagem e infiltrado agentes seus em campanhas eleitorais são muito hipócritas.

É bem conhecida a escala descomunal da espionagem praticada por EUA e Grã-Bretanha, que Edward Snowden revelou, e que também veio a público no vazamento do “Vault 7” das ferramentas de hackingusadas pela CIA, que Wikileaks revelou. O Pentágono organiza, comanda e executa campanhas gigantes de manipulação pelas mídias sociais [no Brasil do golpe, as campanhas gigantes de manipulação da opinião pública operam PELOS VEÍCULOS COMERCIAIS DA IMPRENSA TRADICIONAL (NTs)]. OGHCQ das ‘comunicações’ britânicas hackeou a maior rede belga de telecomunicações para roubar dados das muitas organizações internacionais que operam em Bruxelas.

Organizações internacionais como a Organização para a Proibição de Armas Químicas, Opaq [ing.Organisation for the Prohibition of Chemical Weapons (OPCW)] estão há muito tempo no alvo de espiões norte-americanos e de suas operações. O Serviço de Segurança Nacional (da Agência de Segurança Nacional) dos EUA hackeou regularmente a OPCW desde, no mínimo, setembro de 2000:

Segundo vazou de Shadow Brokers semana passada, a Agência de Segurança Nacional violou um servidor DNS da Organização para a Proibição de Armas Químicas [ing. Organisation for the Prohibition of Chemical Weapons (OPCW)], que tem sede em Haia, em setembro de 2000, dois anos depois da Lei de Libertação do Iraque e da Operação Raposa do Deserto, mas antes da eleição de Bush.

Foram os EUA quem, em 2002 forçaram a demissão do diretor-geral da OPCW, o brasileiro José M. Bustani [também aqui] porque não aceitou deixar-se usar para propagandear a existência de armas químicas imaginárias no Iraque:

José M. Bustani, diplomata brasileiro, reeleito por unanimidade como diretor-geral a da Organização para Proibição de Armas Químicas, Opaq, que congrega 145 países, foi afastado do posto, hoje – por causa de seu “estilo de administrar” –, depois de repetidas vezes ter-se recusado a pedir demissão como os EUA exigiam. Nenhum substituto foi indicado.

Os EUA chantagearam a Assembleia para que votasse pelo afastamento de Bustani, ameaçando retirar-se da Opaq. Pouco antes, John Bolton – hoje Conselheiro de Segurança Nacional de Trump – ameaçara atacar os filhos de José Bustani, como chantagem para fazê-lo renunciar:

“Recebi um telefonema de John Bolton – foi a primeira vez que falei com ele –, que me disse que tinha ordens para me informar que eu tinha de renunciar ao meu posto na Opaq. Perguntei por quê” – Bustani contou à RT. – “Ele disse que [meu] estilo de administrar não agradava a Washington.”

Bustani respondeu que “nada devo aos EUA”, lembrando ao interlocutor que fora eleito pela assembleia de todos os estados-membros da Opaq. Em tom mais sinistro, Bolton disse: “OK, então haverá retaliação. Prepare-se para aceitar as consequências. Sabemos onde estão seus filhos.”

Segundo Bustani, dois de seus filhos estavam naquele momento em New York, e a filha estava em Londres.

O governo da Rússia precisará de décadas de muito trabalho para alcançar a escala galáctica de hipocrisia, hacking e mentiras na qual EUA e Grã-Bretanha operam.

O tsunami de propaganda contra a Rússia apareceu no mesmo dia em que era lançada campanha similar contra a China. Matéria que estivera em preparação por mais de um ano apareceu em Bloomberg, cuidadosamente cronometrada. ‘Noticiava’ que empresas chinesas teriam manipulado o hardware que fabricavam para a empresa SuperMicro, dos EUA. O mesmo hardware era vendido então também para Apple, Amazon e outras, para seus negócios com servidor de nuvem.

Big Hack: Como a China Usou um Microchip para Invadir Empresas nos EUA:

Instalado na placa-mãe dos servidores, equipes de testes descobriram um microchip, não maior que um grão de arroz, que não estava previsto no design original da placa-mãe.

Apple e Amazon desmentiram imediatamente a ‘notícia’, em termos muito incisivos.

A ‘notícia’ de Bloomberg tem problemas sérios. Para começar, baseia-se integralmente em fontes anônimas, a maioria delas funcionários do governo dos EUA:

Os desmentidos das empresas opõem-se ao que dizem seis altos funcionários da segurança nacional, ativos e não ativos, os quais – em conversas que começaram ainda no governo Obama e prosseguiram no governo Trump – explicaram em detalhes a descoberta dos chips e a investigação ordenada pelo governo.

O modo como os ‘funcionários’ descrevem a ‘logística’ dessa suposta ‘manipulação’ é teoricamente possívelmas não é plausível. Pelo que sei, como me explicaram, seriam necessárias várias manipulações, não só um chip quase microscópico, para conseguir os resultados descritos. Nem a direita-cyber está convencida da veracidade da história. Especialmente estranho é que as mesmas placas-mãe continuem até hoje em uso em operações importantes de segurança do governo dos EUA:

Assumindo que a matéria de Bloomberg esteja correta, implica que a comunidade de inteligência dos EUA durante um período que cobre dois governos, conhecia uma ameaça vinda de fora, e permitiu que a ameaça contaminasse as forças armadas dos EUA. Só se a história é falsa, ou incorreta nos detalhes técnicos relevantes – só nesse caso –, sim, faz sentido que o equipamento de Supermicro continue em uso pelos militares norte-americanos.

Pode haver motivos financeiros por trás da história:

Jornalistas de Bloomberg recebem bônus baseados indiretamente em o quanto conseguem afetar o mercado com o que ‘noticiam’. Essa história com certeza afetou o mercado.

Quando a matéria saiu, o preço das ações de SuperMicro desabou, de $21,40 para abaixo de $9,00 por ação. Hoje está em $12,60:

A história pode ser meio para encobrir algum hacking praticado pela Agência Nacional de Segurança que tenha sido detectado acidentalmente. O mais provável é que seja meia verdade super exagerada, inspirada em algum evento antigo, para impedir a indústria ‘ocidental’ de comprar algum item de produtores chineses.

Seria consistente com outros desses movimentos contra China, que, coincidentemente (ou não) aconteceram no mesmo dia em que a matéria apareceu em Bloomberg.

Primeiro, houve o discurso muito agressivo, que o vice-presidente Pence dos EUA pronunciou ontem:

O vice-presidente Mike Pence acusou a China nessa 5ª-feira, de tentar minar o presidente Donald Trump, que está aplicando dura retórica contra o comércio, a economia e as políticas exteriores da China.

Soando o alarme, Pence alertou outras nações para que tomem cuidado ao negociar com os chineses, condenando a “diplomacia da dívida” do país asiático, que lhe permite arrastar para sua órbita países em desenvolvimento.

Pence também alertou os empresários norte-americanos para que se mantenham atentos aos esforços dos chineses para alavancarem o acesso aos seus mercados, para modificar como mais lhes interesse o comportamento corporativo.

Outro movimento, é novo relatório do Pentágono, alertando contra a compra de equipamento chinês, e que foi lançado via Agência Reuters em apoio à campanha:

A China representa “risco significativo e crescente para o suprimento de materiais” vitais para os militares dos EUA, segundo novo relatório orientado pelo Pentágono, que visa a corrigir fraquezas em indústrias norte-americanas cruciais para a segurança nacional.

O relatório, de quase 150 páginas, ao qual a Reuters teve acesso na 5ª-feira, antes do lançamento formal na 6ª-feira, concluiu que há quase 300 vulnerabilidades que podem afetar materiais e componentes críticos essenciais para as forças armadas dos EUA.

“Um dos achados chaves desse relatório é que a China representa risco significativo e crescente para o suprimento de materiais e tecnologias considerados estratégicos e críticos para a segurança nacional dos EUA” – diz o relatório.

A matéria de Bloomberg, o discurso de Pence e o relatório que o Pentágono ‘vazou’ no mesmo dia, parecem pensados para assustar todo mundo, no sentido de que empresas norte-americanas deixem de usar equipamento chinês ou peças de fabricação chinesa que integrem a cadeia de suprimento.

As acusações e ataques contra a cadeia de suprimento de produtos chineses são, é claro, tão hipócritas quanto as mentiras ‘noticiadas’ contra a Rússia. O primeiro caso conhecido de manipulação da cadeia de suprimento de itens para computadores data de 1982:

Uma operação da CIA para sabotar a indústria soviética, induzindo Moscou a roubar software defeituoso, alcançou sucesso espetacular, como se soube ontem, quando o equipamento provocou enorme explosão num gasoduto na Sibéria.

Mr. Reed escreve que o software “estava programado para reconfigurar a velocidade do bombeamento e as definições de operação da válvula, de modo a produzir pressões muito superiores às que as juntas e rebites do gasoduto poderiam suportar”.

Wikileaks lista 27 casos de manipulação, pelos EUA, de itens da cadeia de suprimentos para hardware e programas de computadores. Quem pesquisar por “supply chain” [ing.] nos arquivos Snowdenencontrará 18 documentos que descrevem tais ‘projetos’.

O governo dos EUA sob Trump – e com John Bolton em posição de mando – copiou o estilo brutal de campanha de Trump, e o usa como ferramenta de sua política exterior. A vitória de Trump nas eleições de 2016 prova que esse tipo de campanha é altamente bem-sucedida, mesmo quando os elementos sobre os quais a campanha é construída sejam duvidosos ou absolutamente falsos. Na escala e na coordenação, as campanhas de propaganda hoje em curso são comparáveis ao que se aplicou aos EUA na preparação, em 2002, para o ataque ao Iraque.

Significa que, como durante a campanha eleitoral de Trump e como se confirma hoje, os veículos de imprensa e de todas as mídias de comunicação têm papel crucialmente decisivo  no efeito que essas campanhas tenham sobre a opinião pública.

Será que esses mesmos veículos e todas as mídias comerciais desmascararão a verdade sobre as mentiras de que são construídas todas as campanhas de ‘seduzir’ a opinião pública? Será que esses mesmos veículos e todas as mídias comerciais saberão expor o trabalho desses agentes, no contexto mais amplo da espionagem e da manipulação que os EUA obram sem parar? Será que esses mesmos veículos explicarão aos eleitores e a todos os cidadãos o real objetivo desse tipo de ‘noticiário’?

Não aposto um tostão nessa possibilidade. *******

Foreign Policvy: Is the Trade War About to Become a Currency War?

 

Some experts figure Beijing might risk further driving down the renminbi against the dollar.

BY KEITH JOHNSON

| OCTOBER 3, 2018, 3:26 PM

Long before he became U.S. president, Donald Trump railed against what he called China’s manipulation of its currency for economic advantage, even when that wasn’t quite true. Now, thanks to Trump’s escalating trade war, China is increasingly tempted to let its currency further slide in value—precisely what the president and the rest of his administration have warned Beijing not to do.

China so far has responded to the Trump administration’s trade war, especially tariffs on $250 billion worth of Chinese imports, with tariffs of its own on U.S. goods, especially agricultural products. But China is running out of tit for tat responses, as it imports much less from the United States than it exports, leaving Beijing looking at other ways to get back at Washington such as throwing up fresh barriers to U.S. businesses and undermining U.S. foreign-policy goals.

But there are still powerful—if risky—economic arrows left in China’s quiver. Over the spring and summer, Beijing found one way to take much of the sting out of U.S. tariffs, by letting its currency slide by about 9 percent against the dollar to the lowest level in several years, making its own exports that much cheaper and largely offsetting the impact of U.S. duties.

For the value of the Chinese renminbi—also known as the yuan—to fall that far, that fast, was a conscious decision, because Beijing still largely controls the value of its currency and could have intervened to stop the slide. And some China trade experts are betting that China’s rulers are now dug in enough against Trump that they could soon let the currency slide again.

“It was a signal to Washington that we don’t like what you are doing, and if you keep slapping on tariffs, our currency is going to weaken significantly, and you’re going to have a currency war on top of a trade war,” Robin Brooks, the chief economist at the Institute of International Finance, the global association for the financial industry, said of this summer’s dive.

In some ways, the earlier move to weaken the renminbi was an easy decision, since the currency had steadily gained in value the prior year, giving it some room to fall without causing serious damage.

But China’s currency is now being pushed downward due to a host of factors. As the United States raises interest rates, it makes Chinese rates relatively less appealing, pushing down the renminbi. Chinese central bankers are also trying to inject more cash into the banking system, essentially pursuing the kind of “looser” monetary policy meant to shore up growth that also tends to push down currencies.

Now, with Trump’s tariffs set to escalate even further, there are fears that China could just let the renminbi fall as it did this summer, essentially unleashing a currency devaluation that would further ramp up bilateral tensions.

In late September, the United States levied 10 percent tariffs on a whopping $200 billion worth of Chinese goods, and the tariff is scheduled to rise to 25 percent in January. Trump has also threatened additional tariffs on $267 billion worth of Chinese products, adding up to essentially everything the country ships to the United States. Those escalating U.S. actions, and especially the likelihood that tariffs will jump to 25 percent next year, are giving trade hawks in China a fresh hearing, Brooks said.

“The expectation is that as tariffs go up to 25 percent, the hawks will be more vocal,” he said.

Moreover, despite Trump’s confident assessment at the United Nations General Assembly meetings last week that “we are winning on every level,” Beijing shows no signs of backing down. “China will not be blackmailed or yield to pressure,” Chinese Foreign Minister Wang Yi said at the same gathering in New York.

But further devaluation would be a risky play for China, which stepped in to stabilize the renminbi in late summer right above a critical psychological threshold of about 7 to the U.S. dollar. If Beijing decides to let the currency slide further in value, it’s not clear when or where it would stop, which could spook Chinese savers and domestic stock markets and undermine the Chinese leadership’s sense of control.

“The challenge for China is that any further move [downward] would be perceived as a shift in policy, and it’s not clear where the limits might be,” said Brad Setser, a former economic official in the Obama administration now at the Council on Foreign Relations.

“They’re more constrained than they were a few months ago, because it would be a much more consequential decision,” he said. “Then again, if the U.S. ends up with tariffs of 25 percent on the majority of its trade with China, that’s also quite significant.”

For China, letting its currency fall in value would serve a couple of different objectives. Depending on how much it slides, it would offset most of the upcoming U.S. tariffs, making Chinese exports about as competitive as they were before the trade war began. That’s an important consideration now that the damage from U.S. tariffs is starting to percolate through the Chinese economy.

But there’s another reason that a falling renminbi might appeal to policymakers in Beijing: It could spook global stock markets, including in the United States. When China devalued the renminbi in the summer of 2015, stock markets around the world shuddered. Given the importance of buoyant stock prices to Trump’s perception of his economic stewardship, such a move could get his attention, Brooks said.

“If the trade hawks in Beijing prevail, they may argue, first of all we need to weaken the currency to offset tariffs, and, second, if we can unsettle the stock market, maybe we can weaken the resolve of the U.S. president,” he said.

But there are plenty of risks to such an action. China suffered massive capital flight during the currency depreciation of 2015 to 2016, as Chinese investors sought to move out of renminbi-denominated assets. Allowing the renminbi to fall further in value could spark another huge capital outflow. Then again, after that episode, Beijing put some restrictions in place to limit capital flight, which might make devaluation more tempting.

The big question remains: Are Chinese policymakers more afraid that the trade war will poleax the economy, or that a cheaper renminbi will lead to another exodus of Chinese capital?

“We don’t know to what extent 2015 so scarred them that they are no longer willing to look at depreciation as a tool, or whether they concluded that they have the available tools to limit capital flight, so they can with some difficulty manage a depreciation,” Setser said.

A cheaper Chinese currency wouldn’t just have impacts at home. It would likely push other emerging-market currencies further down as well, which would make their debt burdens that much harder to bear (even if it would erode some of China’s export advantage). A cheaper renminbi and a flood of Chinese imports would also further anger Japan and the European Union, which have sought to join the Trump administration in a unified response to China’s trading practices in general.

With all the forces pushing down the renminbi, including the trade war, U.S. rate hikes, and more domestic economic stimulus, the only way Beijing can likely avoid further devaluation is by stepping in and actively propping up the currency, as it did in 2015 to 2016 by spending more than $1 trillion in foreign-currency reserves.

That might make U.S. officials in Washington happy, but it would represent an odd about-face for an administration that’s been so vocal about the need for Beijing to stop manipulating its currency.

“The irony for the administration is that in the near term, the United States wants China to continue to manage its exchange rate,” Setser said.

Keith Johnson is Foreign Policy’s global geoeconomics correspondent. @KFJ_FP

Pepe Escobar: Future of Western Democracy Being Played Out In Brazil

IMPERIALISMO DO CAPITAL FINANCEIRO E ‘GUERRAS COMERCIAIS’


Tricontinental Dossier nº 7, Agosto 2018 (InglêsEspanhol e Francês)

Tradução da Vila Mandinga

“Trump reconhece a crise, à sua maneira fascista peculiar. Culpa ‘o outro’, mexicanos, chineses e muçulmanos, pela crise, nunca o sistema. Mas o fato de ele simplesmente reconhecer a crise – é o único político nos EUA q reconhece a crise – é a razão pela qual o povo norte-americano elegeu uma pessoa tão desagradável.”
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Hegemonia da Finança Global

Tricontinental: Institute for Social Research nos debruçamos sobre a natureza essencial dessas ‘guerras comerciais’ que eclodiram entre nossos aliados. A especificidade nem sempre aparece nas discussões sobre tarifas. Recorremos a Prabhat Patnaik, Professor Emérito no Centro para Estudos Econômicos e Planejamento na Universidade Jawaharlal Nehru em Nova Delhi, Índia [ing. Centre for Economic Studies and Planning in the School of Social Sciences at Jawaharlal Nehru University (JNU) in New Delhi (India)], para que nos ajudasse. O prof. Patnaik é um dos mais importantes economistas marxistas da atualidade. É autor de vários textos chaves, dentre os quais Time, Inflation and Growth(1988), Economics and Egalitarianism (1990), Whatever Happened to Imperialismo And Other Essays(1995), Accumulation and Stability Under Capitalism (1997), The Retreat to Unfreedom (2003), The Value of Money (2008), Re-Envisioning Socialism (2011) e (com Utsa Patnaik) A Theory of Imperialismo (2016). Professor Patnaik foi vice-presidente da Comissão de Planejamento de Kerala (2006-2011) e é editor de Social Scientist. É colaborador regular de People’s Democracy.
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Tricontinental: Institute for Social Research (TISR):
 Qual sua primeira impressão sobre as ‘guerras comerciais’ iniciadas por Trump? Trata-se de importante mudança de política, ou é algo diferente, contra o que temos de nos precaver?

Prof. Prabhat Patnaik (Patnaik): Creio que toda a discussão em torno das políticas protecionistas de Trump foi erradamente contextualizada. O quadro típico mostra um vilão chamado Trump que de repente lança uma guerra comercial contra um mundo que, antes, vivia feliz. Esse quadro é completamente errado. Todo o mundo capitalista enfrentava crise séria e prolongada, que é o desfecho do neoliberalismo. O establishment liberal burguês ou não reconhece essa crise, ou, se reconhece, é de má vontade. Trump reconhece a crise, à sua maneira fascista peculiar. Culpa ‘o outro’, mexicanos, chineses e muçulmanos, pela crise, nunca o sistema. O fato de ele simplesmente reconhecer a crise é a razão pela qual o povo norte-americano elegeu uma pessoa tão desagradável.

Não se pode examinar Trump e suas políticas como se fossem isoladas dessa crise. Trump quer resolver a crise que assola os EUA, causada pelo neoliberalismo, dentro dos limites básicos do próprio neoliberalismo, quer dizer, sem violar a característica básica do neoliberalismo – que é a mobilidade da Finança, livre e global.

É indispensável esclarecer o mecanismo mediante o qual o neoliberalismo engendrou essa crise. O neoliberalismo provocou uma deriva global na distribuição de renda, na direção de aumentar os ganhos do capital e reduzir salários. Esse tipo de deriva sempre cria uma tendência ex ante rumo a uma crise de superprodução na economia mundial. Essa tendência permaneceu controlada nos EUA, pelas bolhas ‘dasdotcom’ e ‘da moradia’. Essas bolhas rebentaram uma depois da outra, o que transformou a crise ex anteem crise ex post. Dado que a Finança globalizada rejeita a ideia de o Estado intervir na ‘gestão da demanda’ advogada por Keynes, a crise só poderia ser suavizada, no contexto neoliberal, com a criação de nova bolha. Mas bolhas não são coisa que se possa encomendar sob medida; e, mesmo que sejam formadas, elas inevitavelmente colapsam, o que outra vez precipita mais uma crise.

Trump está tentando escapar dessa situação, aumentando o déficit fiscal, o que os EUA podem fazer sob relativa impunidade porque a moeda deles é considerada ‘boa como ouro’ (e também porque os EUA elevaram recentemente sua taxa de juros, com a promessa de há mais a caminho, o que está sugando finanças de todo o mundo para os EUA); mas se esse estímulo à demanda não ‘goteja pirâmide abaixo’, e só faz gerar empregos em outros países, à custa de inchar cada vez mais a dívida externa dos EUA… nesse caso os EUA passam a precisar de protecionismo.

Portanto, o que Trump está fazendo não é mera intervenção enlouquecida numa ordem liberal que sem ela seria benigna. A política de Trump é coerente. Mas não funcionará porque não passa de política de ‘cada um por si’ que assume, erradamente, que outros países não retaliarão.

Claro que a sugestão de Trump a outras potências não é que não retaliem, mas, sim, que alavanquem as próprias economias nacionais com gastos militares cada vez maiores. Esse gasto, por sua vez, agravará a fuga de capitais, para fora das economias locais, o que fará subir a taxa de juros, que impedirá qualquer incremento na atividade econômica local. Sem esse estímulo, em vez de apenas capitular ao protecionismo norte-americano, as próprias outras potências tornar-se-ão protecionistas. O que frustra a estratégia de Trump.

Para mim, as tarifas são, essencialmente, uma resposta à crise dentro dos EUA cuja gravidade não se deve subestimar, por mais que, claro, gerem outros efeitos simultâneos. Para mencionar apenas um indicador da gravidade da crise, a taxa de mortalidade entre trabalhadores norte-americanos (homens) brancos em anos recentes tem-se mantido alta, mais alta que de qualquer outro país ocidental que não esteja em guerra. Essa alta taxa de mortalidade é efeito da insegurança e da queda na autoestima que sempre acompanha o desemprego e empurra as pessoas na direção do consumo descontrolado de álcool e outras drogas.

Há quem creia que a automação seria a causa dessa crise. A automação, ou em termos mais gerais, processos tecnológicos que reduzem a contratação de mão de obra, é traço perene do capitalismo, sempre afetado pelo desemprego. Mas a globalização sem dúvida agravou a situação do desemprego nos EUA, porque o capital dos EUA transferiu suas unidades de produção para regiões do mundo onde os salários são mais baixos.

TISR: Ligada a essas questão: Essas manobras de Trump representam uma tendência duradoura no atual sistema de ‘livre comércio’, ou não passam de virada temporária, eleitoral?

Patnaik: Ver essas políticas como virada eleitoral temporária é subestimar a crise do capitalismo, que também é crise existencial para o sistema – de cuja profundidade o atual crescimento do fascismo é manifestação. O sistema não pode continuar como tem continuado. Trump crê que, se modificar o ‘livre comércio’, mas mantiver intacto os ‘livres fluxos de capital financeiro’, conseguirá resgatar o sistema. Está errado, porque não pode haver expansão da economia global no mundo que está sendo implantado, de estados-nações sem qualquer controle sobre os capitais.


O que são controles sobre o capital?
 São medidas que um governo toma para regular o fluxo das finanças para dentro e para fora do país. Dentre esses controles estão impostos, exigências de tempo mínimo de permanência do dinheiro, teto para o total de moeda que atravessa fronteiras, dentre outros. Versão doméstica de controles sobre o capital é um Imposto sobre Transação Financeira, cobrado sobre todas as transações com ações, bônus e negócios com derivativos.

Mas Trump, pelo menos, parece estar implicitamente consciente de que é necessária algum movimento duradouro – que está tentando. Contra críticos liberais que veem suas ações como caprichos gratuitos.

TISR: Trump e seus conselheiro creem que essas mudanças de política ajudarão os EUA a recuperar empregos na manufatura que foram perdidos ao longo dos últimos 30 anos. Você acha possível que os EUA recuperem esses empregos?

Patnaik: A estratégia de Trump poderia funcionar se outros países aceitassem a política de ‘cada um por si’ de Trump. Obviamente não aceitarão. Daí que, embora pareça que a estratégia esteja funcionando, as coisas mudarão, quando outros países retaliarem. E quando retaliarem, o simples fato da ‘guerra comercial’ conterá o estímulo para investimentos no mundo da economia, o que agravará a crise.

TISR: Você criticou a ideia de que essa nova guerra comercial pudesse produzir alguma ‘desglobalização’. Por que você acredita que esse recuo aparente, para longe do sistema global, não gerará o potencial para a autarquia?

Patnaik: Para mim, a essência da globalização atual é a globalização da finança. Nesse sentido é que é diferente de episódios anteriores de globalização, e tem impacto profundo sobre a natureza do Estado: o Estado que permanece ‘nação-Estado’ é forçado a aceder às exigências da finança globalizada (se não aceder o país ‘resistente’ viverá fuga de capitais do país e crise financeira). Ainda que o movimento de bens seja protegido, só isso não altera sequer um traço da finança globalizada. Nenhum líder de potência global até hoje falou de impor controles sobre os capitais; assim sendo, essa conversa de ‘desglobalização’, no meu modo de ver, não tem validade.

China e os EUA

TISR: Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ex-presidente do Reserve Bank of India, disse certa vez que China e EUA estão ligados num ‘abraço infernal’ e que suas inter-relações são instáveis e perigosas. Você concorda?

Patnaik: Não. Não aceito os termos desse discurso. Quem transferiu a produção para a China foi o capital norte-americano, em busca de mais lucros. Não se trata portanto de ‘EUA contra China’, mas de ‘EUA contra o capital norte-americano’. Por causa da agitação social e da ira que isso gerou nos EUA, especialmente durante a atual e já longa crise econômica, Trump está tentando – com o protecionismo do Estado norte-americano – limitar os estímulos para que o capital norte-americano transfira a produção para o exterior; mas sem limitar a livre movimentação, pelo planeta, da finança norte-americana, ou, melhor dizendo, da finança internacional. E, para compensar a perda que o capital norte-americano tenha por conta dessa protecionismo, Trump oferece uma compensação na forma de substanciais cortes de impostos para empresas. Por isso minha análise dá lugar específico ao capital norte-americano e o distingue do capital chinês.

TISR: O desempenho aparentemente estável da economia dos EUA terá algum impacto político na China? Que reação você prevê que tenham os chineses, contra a farsa de Trump – além da primeira reação, de elevar também as próprias tarifas?

Patnaik: É óbvio que, além de elevar as próprias tarifas, a China agora tem de depender mais do próprio mercado interno para manter o ritmo do próprio desenvolvimento. Isso exigirá maiores gastos do governo, mais rápido crescimento da agricultura e distribuição mais igualitária da renda dentro da China. São políticas tradicionalmente associadas com o socialismo (assumindo-se que o governo gaste mais em educação, atendimento à saúde e em serviços sociais). O ajuste que as medidas de Trump forçarão a China a fazer podem, sim, ter o efeito de empurrar a China a avançar na direção de políticas socialistas. Na minha opinião, seria excelente resultado.

A China leva grande vantagem nesse ponto – a saber: pode fazer uma transição na direção de políticas orientadas para o próprio mercado, a custo muito baixo. Isso porque, diferente da Índia, a China jamais esteve completamente aberta a fluxos financeiros incontrolados, e assim não há porque temer fuga de capitais durante a transição. E, também diferente da Índia, há superávit de conta corrente na balança de pagamentos, e o país não terá dificuldade para financiar algum déficit durante o período de transição.

Na minha avaliação, a oposição a uma transição para essas políticas mais igualitárias será provavelmente política, por causa das pressões das classes médias chinesas urbanas prósperas, as quais, como as indianas, sempre procuram oportunidades do Ocidente, foram as principais beneficiárias do rápido crescimento da China e têm viés anti-igualdade.

Imperialismo do dólar

TISR: Há alguns anos, Peter Gowan escreveu sobre o Regime Dólar-Wall Street e a senhoriagem do dólar – processo pelo qual o dólar e Wall Street reforçam mutuamente os próprios poderes; a senhoriagem do dólar permitiu aos EUA conviver com altos déficits, assim como permitiu que o sistema financeiro dos EUA se convertesse em principal fonte mundial de crédito. Esse sistema continua vivo?

Patnaik: Apesar de Trump ter anunciado políticas protecionistas e do aumento do déficit fiscal, o que normalmente faria cair o dólar, os EUA estão sugando dinheiro para o país, de todos os cantos do mundo. Essa dinâmica leva a uma apreciação do dólar. É verdade, sim, que aumentaram as taxas de juro nos EUA, e novos aumentos estão anunciados. Mas são movimentos que me sugerem que o papel do dólar como meio estável para entesourar riqueza na economia mundial permanece sem alteração. E poder inalterado do dólar implica também poder inalterado de Wall Street.

TISR: Você acredita que, se Trump continua nessa direção política pode haver novos questionamentos quanto ao papel do dólar como principal moeda mundial de reserva no mundo e quanto ao papel de Wall Street como principal fonte de crédito?

Patnaik: O papel do dólar, e com ele o papel associado de Wall Street, surge porque a economia do mundo capitalista exige que haja meio estável para concentrar riqueza, e no momento não há outra moeda que desempenhe esse papel. O euro, que sempre foi secundário em relação ao dólar, mas por algum tempo deu a impressão de ser possível desafiante, já perdeu força.

Claro que a confiança de qualquer agente na estabilidade de uma moeda advém de o/a agente acreditar que todas as demais pessoas acreditam na estabilidade daquela moeda. Em outras palavras, há aí, dito de outro modo, um instinto de manada, mas esse instinto de manada não é arbitrário, porque não acontece em relação a qualquer moeda. Para que uma moeda alcance o status de moeda ‘boa como ouro’, tem de ter algumas características. O país ao qual ela pertença tem de garantir, no próprio território, a segurança das relações capitalistas de propriedade. Deve ter poder suficiente para garantir, mediante intervenções, inclusive militares, a segurança das relações capitalistas de propriedade também em outros locais. Tem de ser capaz também de bloquear qualquer ameaça inflacionária contra a própria moeda (de modo que o povo não fuja, da moeda, diretamente para o ouro, e a moeda permaneça ‘boa como ouro’), mantendo para isso um exército de reserva de mão de obra industrial e impondo ‘deflação de renda’ ao produtores de mercadorias primárias mediante um sistema econômico global, apoiado sobre sua força militar. E mais e mais e mais. Em outras palavras, para manter o status de sua moeda ‘boa como ouro’, o país tem de ser a potência imperialista hegemônica, o bastião, a casa-lar do capitalismo mundial. Os EUA são e permanecem assim, motivo pelo qual sua moeda continua ‘boa como ouro’, mesmo com todas as dificuldades e mudanças nas políticas econômicas. E assim continuará, no futuro previsível.

É irônico, mas é verdade: depois que a bolha das hipotecas podres colapsou, quando eclodiu uma crise financeira, com os EUA no epicentro, dinheiro do mundo inteiro voou para os EUA, não fugindo, mas entrando no país. Foi como fazer uma ligação de emergência para sua casa, quando você tem um ataque de pânico. Assim também, há hoje influxo semelhante de dinheiro para dentro dos EUA. O fato de ser como ‘a casa’ do capital está portanto conectado a fatores mais profundos que apenas algumas políticas específicas ou determinado desempenho.


O que é imperialismo?
 Patnaik escreve: “Imperialismo implica a supressão – supressão necessária –, dos povos do 3º mundo, das massas trabalhadoras, mediante a operação do capitalismo hegemônico. Essa supressão do povo trabalhador do 3º mundo, pelo capital hegemonista não é algum tipo de conspiração clandestina; é parte do modus operandi essencial do capitalismo. É erro, portanto, identificar imperialismo exclusivamente com os casos em que haja golpe militar, ou intervenção militar por países capitalistas avançados ou sua nação-líder, os EUA. O imperialismo, embora possa vez ou outra praticar essas intervenções, ou ‘diplomacia do canhão’, não é sinônimo de ‘diplomacia do canhão’. Assim, o fato de já não se poder falar hoje de golpes de estado no interesse de uma ou outra empresa multinacional, que se comparassem aos golpes a favor da Union Minière (ativa no Congo) ou da United Fruit Company (ativa na Guatemala) ou da ITT (ativa no Chile), como havia nos anos 1950s e 1960s, não é argumento contra o conceito de imperialismo. Imperialismo não é uma comichão que leva a encenar golpes de estado: é o próprio modo de existência do capitalismo”.


Alternativas?

TISR: O que governos progressistas podem fazer para abrir lugar para si, nesse contexto? O que, por exemplo, o novo governo no México pode fazer para criar espaço para uma agenda social-democrática? Em outras palavras, que políticas financeiras você aconselharia nesse contexto?

Patnaik: Creio que qualquer governo que vise a políticas pró-povo terá, mais cedo ou mais tarde, de introduzir controles sobre os fluxos financeiros transfronteiras. A razão é óbvia: só se pode ouvir ou a finança, ou o povo. Governo que ouça o povo incorre na ira da Finança, contra a qual terá de agir para controlar os fluxos financeiros.

Mas acho que governos como de López Obrador no México, em vez de se porem a gritar do alto do telhado suas intenções de impor controles aos fluxos de capital, deveriam começar por adotar políticas pró-povo, e, quando a Finança se opusesse às suas políticas, então eles imporiam controles sobre os capitais. Em outras palavras, a ação do governo deve parecer uma exigência imposta pelos caprichos da finança, não um de caráter ideológico.

TISR: Você diz que a globalização da Finança permanece ativa, apesar do protecionismo de Trump. Como um governo progressista levanta fundos para uma agenda progressista, nesse período já prolongado de finanças globalizadas?

Patnaik: É preciso estabelecer uma distinção entre Finança e poupança. A finança como tal jamais é problema para país algum, a menos que se autoalgeme e liquide o banco central (como nos países da eurozona) ou dê a ele total autonomia, o que significa que, de fato, o banco central nacional é dirigido por funcionários da União Bancária. Desde que a fuga de capitais seja impedida mediante controles sobre o capital e controle democrático sobre cada banco central nacional, não há problema financeiro que governo progressista, seja como for, não possa enfrentar.

O problema real porém tem a ver com poupanças, e as poupanças podem ser mobilizadas por qualquer governo que vise a adotar políticas pró-pobres mediante impostos aplicados aos ricos, que se tornaram muito mais ricos nesses anos de globalização.

Num país como a Índia, por exemplo, onde o 1% mais rico da população detém 60% da riqueza nacional, proporção que aumentou muito ao longo dos anos de políticas neoliberais e continua a aumentar mesmo hoje, não há imposto digno do nome que algum rico seja obrigado a pagar – o que é escandaloso. O mesmo é verdade, mais ou menos completamente, também em muitos outros países.

Daí que as dificuldades a serem enfrentadas por qualquer governo progressista, seja qual for, advêm, não de alguma limitação econômica objetiva que tenha pela frente; elas advêm do poder do imperialismo mundial, que tem de ser visto hoje, não como imperialismo praticado por EUA, Alemanha ou Japão, mas como imperialismo praticado pelo capital financeiro internacional.****

Debate de vida ou morte: John Mearsheimer & Stephen Cohen, contra o establishment neonconservador neoliberal delirante pirado 

10/10/2018, Federico PIERACCINI, Strategic Culture Foundation

Tradução da Vila Mandinga

“Quanto mais a informação prestável alastra-se e alcança mais e mais pessoas, mais o mundo compreenderá o desastre que são as ações do establishment euro-norte-americano em todo o mundo” [o golpe de 2016 no Brasil é uma dessas ações desastrosas (NTs)].
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Dia 20 de setembro, em New York City, o website Intelligence Squared organizou um debate vitalmente importante para ajudar a compreender muito do que hoje estamos vendo acontecer na cena global.

O debate travou-se em torno de três questões principais. (1) Sobre o papel da OTAN (“A OTAN já não serve à finalidade para a qual foi criada”); (2) sobre a Rússia (“A ameaça russa está super inflada”); e (3) (“É hora de adotar linha dura contra o Irã”).

Para discutir essas importantes questões, lá estava uma seleção de convidados especiais: Derek Chollet, vice-presidente executivo do German Marshall Fund of the United States e ex-secretário-assistente da Defesa dos EUA; Stephen F. Cohen, professor emérito de História e Estudos Russos da New York University; Reuel Marc Gerecht, pesquisador-sênior da Fundação para Defesa das Democracias e ex-analista da CIA; John J. Mearsheimer, cientista-político e professor na University of Chicago; e Kori Schake, vice-diretora geral do International Institute for Strategic Studies.

Analisando a seleção de convidados, vê-se imediatamente que Cohen e Mearsheimer foram convidados para introduzir um ponto de vista realista e coerente na discussão, em oposição [minoritária] aos outros três que têm posição firmemente intervencionista para a política exterior dos EUA, e veem os EUA como a nação indispensável.

Cohen e Mearsheimer trabalham há anos, se não há décadas, para explicar a audiências norte-americanos e internacionais o como e o quanto as políticas hegemonistas de Washington aceleraram o fim do momento unipolar dos EUA e disseminaram o caos pelo planeta.

Cohen, e especialmente Mearsheimer, são pensadores realistas não contaminados. Sem discutir aqui os méritos das diferenças entre conceitos como “realismo ofensivo”, “realismo defensivo” e “equilibradores externos” [ing. offshore balancers[3]], ambos têm visão coerente de por que as ações dos EUA provocaram os resultados que se veem em todo o mundo desde o fim do Muro de Berlin.

Para os que acompanham Cohen e Mearsheimer e se veem como realistas na observação das relações internacionais, assistir a esse debate foi experiência dolorosa e frustrante, mas também imensamente útil para compreender as divisões que se veem hoje. De fato, os outros três participantes da mesa devem ser analisados cuidadosamente.

Derek Chollet pertence ao campo neoliberal, e serviu ao governo Obama. Chollet está no campo dos imperialistas, que, depois do fracasso no Iraque em 2003, optaram por mudar de tática para atacar países soberanos, outros métodos, a saber, golpes de estado organizados a partir de ‘eventos’ como ‘revoluções coloridas’ e a chamada ‘primavera árabe’. Em nome de disseminar a democracia, países como Líbia, Ucrânia e Síria sofreram devastação inominável nas garras dos EUA e aliados.

Para completar o pleno espectro da política externa dos EUA, o ex-agente da CIA Reuel Marc Gerecht foi incluído como linha dura, para repetir os argumentos dos neoconservadores sobreviventes da era Bush.

Kori Schake, ex-conselheira de Bush, completou a seleção letal de neoconservadores neoliberais, representando a posição da OTAN e dos países mais russofóbicos e iranofóbicos da Europa.

Considerando a lista de convidados e as perguntas, era óbvio que emergiriam posições diametralmente opostas. Cohen e Mearsheimer argumentaram praticamente em simbiose, com mínimas diferenças de perspectiva, rumo à mesma conclusão. Os EUA, depois do colapso da União Soviética e do fim da Guerra Fria viram-se como única [última?] superpotência, sem desafiante à vista. A missão de Washington passou a ser a de remontar o mundo à sua imagem e semelhança, exportando democracias pra os quatro cantos do mundo, nem que fosse a porrete, atacando adversários geopolíticos com mísseis soft ou hard. Linha de ação a qual, ironicamente, só fez acelerar o fim do momento unipolar dos EUA.

Mearsheimer and Cohen tentaram reiterar em todas as respostas o modo como Washington só conseguiu causar danos e sofrimentos, para começar, a si mesma e aos norte-americanos, sem parar de pensar e agir do modo mais alucinado.

Sobre a primeira pergunta, sobre a OTAN, ambos, Mearsheimer e Cohen enfatizaram que a expansão da OTAN para o oriente, depois do fim da Guerra Fria, foi e continua a ser a principal causa de instabilidade na Europa. Os três neoliberais neoconservadores – que não estou chamando de “os imperialistas” nem sei por quê – responderam que, de fato, os estados europeus haviam solicitado a presença dos EUA na Europa para protegê-los contra a Rússia.

Os três imperialistas fingiram que não ouviram a resposta clara e direta de Mearsheimer, tomada das campanhas eleitorais de Obama e Trump, de que os aliados europeus só queriam os EUA na Europa para economizar dinheiro e não aumentar os próprios gastos militares. Aparentemente sem ter ouvido o que Mearsheimer disse, os três continuaram a repetir que, dado que a Polônia e países do Báltico solicitaram a presença dos EUA, Washington foi obrigada a responder.

Também foi frustrante para Cohen explicar, pela milésima vez, o quanto os avanços da OTAN rumo às fronteiras da Rússia danificaram gravemente as relações entre Rússia e os EUA, dois países que ele entende que tenham de ser aliados globais em vários fronts.

Mearsheimer chegou a convidar os três imperialistas a pensarem na Doutrina Monroe e em o quanto seria intolerável para os EUA terem uma potência estrangeira plantada militarmente no hemisfério ocidental. Também lembrou a crise dos mísseis em Cuba, gerada pela aproximação, de militares da URSS, de território dos EUA.

Os três imperialistas, encurralados e paralisados pelos argumentos de Cohen e Mearsheimer simplesmente fingiam que não os ouviam ou distorciam tudo, até inverter os argumentos. O imperialista mais violento, não surpreendentemente o ex-agente da CIA, manteve-se agarrado ao argumento arrogante de que a presença dos EUA na Europa seria necessária não só para manter longe os russos, mas também para impedir que a Europa mergulhasse em estado de natureza Hobbesiana, todos se esquartejando uns os outros, como aconteceu em duas guerras mundiais.

Não surpreendentemente, os argumentos usados pelo ex-agente da CIA sobre a OTAN na Europa receberam aplauso entusiástico de Kori Schake e Derek Chollet. A intervenção de Cohen, no sentido de recordar aos presentes que o golpe na Ucrânia foi organizado e pago pelo ocidente foi descartada como mentirosa e ridícula. Derek Chollet garante: “A manifestação da praça Maidan foi espontânea, exigindo mais proximidade da Europa, contra a ameaça de uma ditadura nas mãos de Moscou.”

A segunda pergunta tinha a ver com a primeira, sobre a Rússia e seu papel no mundo. Mais uma vez, Cohen e Mearsheimer tiveram de exercitar toda a paciência que neles houvesse, para explicar ao público em geral o modo como Putin sempre reagiu às provocações do ocidente. A expansão da OTAN para o leste (apesar de Bush ter prometido – verbalmente – a Gorbachev que a OTAN não avançaria além da Alemanha) foi a causa da guerra na Geórgia em 2008 e na Ucrânia em 2014.

Claro que os três imperialistas negaram todos esses argumentos e acusaram Putin de agressão não provocada, confirmando, dentro da cabeça de cada um deles, que, sim, a presença dos EUA na Europa é necessária para resistir contra a Rússia, ator negativo no cenário mundial. Nem Mearsheimer repetir palavras de Kissinger, em sua estratégia para dividir Rússia e China, conseguiu convencer os imperialistas de que a atitude agressiva contra Moscou e Pequim só prejudica os EUA, acelerando o fim do momento unipolar, e criando as condições perfeitas para o nascimento de uma realidade multipolar, que deixará Washington para trás e isolada das demais grandes potências.

Os três imperialistas afirmaram que a cooperação entre Rússia, China e Irã não deve surpreender ninguém, porque ditadores sempre se unem; e, além disso, essa situação não assusta os EUA, que têm capacidade para lutar em vários fronts simultaneamente.

Por sorte, a fala de Cohen, que relembrou os fracassos dos EUA no Afeganistão, Iraque, Síria e Líbia, jogou água fria naquele surto de delírio otimista, e provocou gargalhadas do público presente. Esses momentos serviram para mostra o quanto são ridículos os ‘argumentos’ dos imperialistas. Duas ou três dessas discussões bastaram para abrir os olhos de quem, dentre os presentes, talvez não conhecesse os argumentos com que se podem desmontar as falas sempre repetidas dos imperialistas.

Dois desses momentos de alto valor didático merecem destaque.

O primeiro, foi em resposta ao ex-agente da CIA, que ‘exigia’ um golpe de estado no Irã, e garantia que, sim, os EUA sabem muito bem como fazer golpes bem-sucedidos. A fala de Mearsheimer, que lembrou os fracassos dos EUA no Iraque, Líbia, Síria e Afeganistão arrancou aplausos demorados do público. Mearsheimer lembrou os presentes que exatamente os mesmos argumentos que ele acabava de expor foram usados por Obama e também por Trump, nas respectivas campanhas eleitorais, quando falavam em paz, antes de – e para – chegar à Casa Branca.

O segundo momento, ainda mais efetivo, teve a ver com o Irã. Em resposta a Kori Schake, que ‘exigia’ mais e mais pressão sobre o Irã, por causa de uma suposta interferência do país na região, para, dizia ela, expandir sua influência também para outros países (Síria, Iraque, Líbano e Iêmen), Mearsheimer destacou o espantoso, inacreditável nível de hipocrisia envolvido nessa conversa, quando todos sabem que os EUA são campeões mundiais de mudança de regimes e de interferência em assuntos internos de outros países. Aplauso fortes e demorados deram testemunho da incontestável verdade daquela observação.

Infelizmente, o debate chegou ao fim sem que a maioria do público tivesse realmente recebido informação prestável, e tenha continuado a crer que a OTAN teria qualquer importância fundamental; que a Rússia é a vilã; e que os EUA devem pressionar mais o Irã. De qualquer modo, o número de pessoas que mudaram de opinião depois do debate foi significativo (Mearsheimer e Cohen alteraram as atitudes de cerca de 10% dos presentes, quanto ao tema das duas primeiras perguntas, mas ainda pequeno, comparado ao total.

Como espectador online experimentei sentimentos diferentes. Minha maior frustração foi quanto ao traço “Davi contra Golias” do debate, com os argumentos de Cohen e Mearsheimer em luta contra um paredão de mentiras acumuladas, incansavelmente repetidas pelos veículos da mídia-empresa e amplificadas e rementidas pelos três imperialistas presentes. Sem dúvida o público estava muito mais habituado a ouvir os argumentos dos imperialistas; Cohen e Mearsheimer não tiveram nem tempo suficiente para ultrapassar a barreira do pensamento e do raciocínio petrificados, do lado do público. Ainda assim, uma parte dos presentes mudou completamente seu modo de pensar, depois do debate. Alguns haviam chegado convictos de que a OTAN seria indispensável, e a Rússia seria potência agressora. Saíram sabendo que a OTAN é hoje obsoleta e que a Rússia dessa vez não é a potência agressora.

Emerge de toda essa discussão a conclusão de que Mearsheimer e Cohen são dois intelectuais formidáveis, sem medo de enfrentar, desmontar e destruir grande quantidade de pensamento construído e implantado pela propaganda e jamais criticado.

Hoje, parte fundamental de nossa vida é achar informação prestável. Se não temos informação prestável, não temos os recursos mínimos indispensáveis para votar e eleger representantes que realmente visem a promover nossos interesses. Sem informação prestável, não temos os instrumentos mínimos necessários para modelar e determinar o curso dos eventos nas supostas democracias nas quais vivemos.

Esse debate mostrou o quanto o mundo dos EUA imperialistas é desconectado do mundo real, e especialmente o dano descomunal que esse modo de pensar neoliberal neoconservador causou, conseguindo, ironicamente, produzir resultados opostos aos seus objetivos declarados, e acelerando, exclusivamente, o fim da dominação que os EUA já exerceram sobre o mundo. Quanto mais a informação prestável alastra-se e alcança mais e mais pessoas, mais o mundo compreenderá o desastre que são as ações do establishment euro-norte-americano em todo o mundo [o golpe de 2016 no Brasil é uma dessas ações desastrosas (NTs)].

Cohen e Mearsheimer trabalham, esses sim, a favor de seu país, chamando atenção para o rumo que os EUA estão tomando – decisão e rumo que só trarão, como consequência, mais desastres para os EUA, com efeitos deletérios sobre o papel dos EUA no mundo.


NOTAS

[1] http://mearsheimer.uchicago.edu/

[2] “Tive recentemente o prazer de assistir a uma breve palestra do Professor Stephen F. Cohen intitulada “Putin Repensado” [ing. Rethinking Putin] (no cruzeiro anual de estudos de Nation dia 2/12/2017 (aqui o artigo de Nation e aqui o vídeo). Embora em fala rápida, o Professor Cohen faz trabalho soberbo, explicando o que Putin *não é*. Adiante uma parte da lista do que Putin *não é* (mas, por favor, assistam ao vídeo antes de continuar).” [8/2/2018, The Saker, The Vineyard of the Saker (traduzido em Blok do Alok)] (NTs).

[3] “O conceito de estratégico de “equilibradores externos” [ing. offshore balancers] envolve os EUA não tentarem fazer tudo sozinhos, mas, em vez disso, explorarem rivalidades entre outros estados, para impedir que qualquer deles alcancem força hegemônica e dominação regional” (27/1/2016, Paul Pillar, “The Forgotten Benefits of Offshore Balancing”, National Interest) [NTs].