India quiere descubrir América

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El primer ministro indio, Narendra Modi

Empresarios del país asiático ven en España un puente hacia Latinoamérica

28/05/2017

Cristóbal Colón creyó que navegando hacia el oeste llegaría a las Indias. Las Indias resultaron ser las Américas. Ahora, 525 años después, los indios de India —un país que crece como ningún otro de sus características— quieren seguir los pasos del Almirante, pero con un objetivo mucho más concreto: desembarcar en un mercado de más de 600 millones de consumidores. “Latinoamérica es la última frontera de las empresas indias”, asegura en Nueva Delhi A. Didar Singh, secretario general de FICCI, que agrupa a las Cámaras de Comercio. ¿Y desde dónde quiere zarpar esa gran flota india? Desde España, claro.

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Estamos diante de uma “primavera latina”?

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A inquietude aumenta na América latina: os Estados Unidos e o Reino Unido prepararam uma “primavera” nos moldes da “primavera árabe”. Com certeza, dessa vez, não se tratará de dividir a população em linhas religiosas através do conflito-os latinos são quase todos cristãos-, mas de utilizar dos elementos de identidade cultural locais. O objetivo será portanto o mesmo: não substituir os governos por outros, mas destruir os Estados para erradicar toda a possibilidade de resistência ao imperialismo.

Com o tempo, diversos líderes políticos no mundo reinterpretaram a “primavera árabe”. O que parece revoluções espontâneas contra os governos autoritários é hoje em dia percebido pelo o que é: planos anglo-saxões de desestabilização de toda uma região do mundo para colocar no poder a Irmandade Muçulmana. A lembrança da “revolta árabe de 1916”, na qual Lawrence da Arábia ergueu a região contra o império otomano trazendo esperança de liberdade ao povo para apenas, em seguida, entregá-los ao jugo do Império Britânico- mostra que Londres detém o conhecimento prático.

Parece que os Anglo-Saxões preparam uma nova onda de pseudo-revoluções na América latina. Tudo começou com um decreto de Barack Obama, em 9 de março de 2015, declarando um estado de urgência frente à ameaça extraordinária que a situação na Venezuela poderia se tornar aos Estados Unidos. Esse documento suscita uma onda de indignação no continente, forçando o presidente dos EUA a se justificar diante de uma cúpula internacional. Mas o decreto não foi anulado e os preparativos de uma nova guerra prosseguem.

Diferente do Syrian Accountability Act de George W. Bush (2003), o texto de Obama sobre a Venezuela é um decreto presidencial e não uma lei. Por conseguinte o Executivo não precisa prestar contas ao Legislativo. Se foram precisos oito anos aos Anglo-Saxões para passar o ato no mundo árabe em geral e na Síria em particular, numerosos elementos convencem que será preciso menos tempo para lançar um programa de destruição da América latina.

Os problemas eclodiram no Brasil na ocasião dos Jogos olímpicos, contra a presidente Dilma Rousseff; a qual foi destituída através de um processo parlamentar, certamente legal, mas totalmente contrário ao espírito da Constituição. Este golpe de Estado foi conduzido sob o controle do Banco central– da qual o vice-presidente é Brasilo-Israelense-, por deputados donde muitos são hoje culpados  de corrupção. Os serviçoes de seguridade do Estado restaram estranhamente passivos durante este golpe. Isto porque, durante os Jogos olímpicos, eles foram colocados sob a coordenação… de experts israelenses. Atualmente, o novo persidente, o brasilo-libanês Michel Temer, é, por sua vez, largamente contestado.

A situação é dificilmente melhor no México. O país já está de fato dividido em quatro. O Norte passa por um forte crescimento, enquanto o Sul está em plena recessão. Os dirigentes políticos venderam a sociedade petrolífera nacional e todas as suas reservas, Pemex, aos Estados Unidos (que não precisam mais, portanto, do petróleo do Oriente Médio). Apenas o exército parece ainda crer na pátria.

Explorando os erros econômicos do governo, a oposição venezuelana conseguiu reunir grandes manifestações pacíficas. Simultaneamente, elas organizaram minúsculos grupos extremamente violentos que provocaram a morte de vários policiais e manifestantes. Criando confusão, as agências de mídia internacional deram a impressão que uma revolução começou contra os chavistas, o que não é de todo o caso.

Assim, os três principais Estados latino-americanos foram desestabilizados ao mesmo momento. Parece que os neoconservadores estado-unienses anteciparam uma possível paz na Síria e apressaram o projeto latino-americano.

Sexta-feira, durante um discurso televisionado, o presidente venezuelano Nicolás Maduro adverteu seu povo contra o projeto anglo-saxão da “primavera latina”. Ele repetida e longamente citou os precedentes líbios e sírios, diante uma plateia de intelectuais da região, da qual, sírio de coração, eu estava associado.

Fonte: Al-Watan

Reduzir desigualdades nos centros urbanos é grande desafio atual, diz diretor regional do ONU-Habitat

Publicado em

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Fazer com que o direito à cidade se torne uma realidade para todos os cidadãos é um dos principais desafios atuais, disse o diretor regional do ONU-Habitat para América Latina e Caribe, Elkin Velásquez, em entrevista à emissora do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO TV).

As desigualdades nas cidades e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável foram alguns dos temas abordados na entrevista, concedida dias antes da Terceira Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável (Habitat III).

CLACSO TV: O que se entende por direito à  Cidade?

Elkin Velásquez (EV): O direito à cidade tem a ver com a possibilidade de todos os cidadãos moradores de um entorno urbano terem acesso a bens e serviços de qualidade, a oportunidades, a espaços públicos, ao mínimo e necessário para ter uma qualidade de vida apropriada. Ou seja, em termos gerais, o que se conhece como direito à cidade. Um dos pontos mais importantes da discussão atual, no mundo e na América Latina, é como conseguir que esse direito à cidade se torne real, se materialize e seja garantido para todos os cidadãos.

No relatório “Construção de cidades mais equitativas: políticas públicas para a inclusão na América Latina”, o ONU-Habitat afirma que ao menos 111 milhões de pessoas vivem em assentamentos irregulares, o que representa 23,5% da população urbana da região.

CLACSO TV: Quais são as conclusões mais relevantes desse relatório?

EV: Produzido pelo ONU-Habitat e pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) com o apoio da Fundação Avina, o relatório diz que nos últimos 20 anos na América Latina houve, em termos gerais, uma tendência ao crescimento da desigualdade urbana. Isso é coerente com comportamentos globais em termos de crescimento da desigualdade. É certo que a desigualdade urbana cresceu muito mais nos primeiros 15 anos desse período que analisamos, e nos últimos cinco anos houve uma tendência para a estabilização. No entanto, tememos que com a desaceleração econômica relativa na região, isso posso voltar a cair a níveis de dez anos atrás.

Essa desigualdade se manifesta de diferentes maneiras, no acesso a bens e serviços urbanos, em temas de acesso à segurança, a espaços públicos de qualidade, de acesso à moradia. Por isso, há uma desigualdade urbana que é tridimensional e, por isso, temos que olhar de que forma ela pode ser abordada.

Um segundo ponto é que tradicionalmente as soluções à desigualdade foram abordadas principalmente de uma perspectiva nacional, de políticas nacionais. O que constatamos no relatório é que existem mecanismos, ações de políticas públicas locais que podem ajudar a diminuir a desigualdade. É claro que há políticas nacionais que não dependem de uma autoridade local: políticas nacionais de emprego, políticas fiscais nacionais, mas há ações concretas e locais que contribuem para melhorar a situação da desigualdade ou pelo menos não piorar a situação da desigualdade de um território.

Um terceiro ponto é que a desigualdade urbana tem uma representação na forma urbana, conhecida como “segregação socioespacial”. Nesse sentido, notamos que nas cidades latino-americanas há uma altíssima segregação socioespacial e uma forte fragmentação. São todos resultados de um círculo vicioso de desigualdades, então é necessário focar em políticas públicas corretivas.

CLACSO TV: Que tipo de políticas públicas devem ser implementadas para reduzir essas desigualdades urbanas?

EV: Quando se trata de diminuir a desigualdade urbana, quando se trata de diminuir e de atacar a segregação socioespacial, teríamos também que falar de localização. É muito importante o fator espacial, a localização determina em boa parte o acesso das famílias a bens e serviços públicos de qualidade, a bens e serviços públicos próximos. A localização permite que as famílias possam utilizar melhor as renda, não gastar excessivamente com transporte (quando digo gastar excessivamente é em termos monetários, pecuniários, mas também em termos de tempo, o que para alguns pesquisadores também é um tema pecuniário ou de recursos). Então, é muito importante repensar a cidade segregada e olhar como vamos melhorar a localização das famílias.

Fonte: ONU BR

Latin America Could Cut Its Murder Rate By 50 Percent. Here’s How.

Publicado Originalmente: 04/10/2016

Many deaths are unavoidable. Natural disasters and incurable illnesses can claim lives suddenly, without warning. But there is one untimely death that can be avoided – homicide. It is time for Latin America and the Caribbean to set a bold goal to bring down the murder rate.

The region is one of the world’s deadliest. It is home to just 8 percent of the global population and 33 percent of all homicides. And the problem is getting worse. If nothing is done about it, the regional murder rate will continue risingfrom 21 per 100,000 to 35 per 100,000 by 2030, at least seven times higher than the global average.

We at the Igarapé Institute and Inter-American Development Bank think it is possible to bring down Latin America’s current murder rate by 50 percent in 10 years. This would save as many as 413,000 lives.

It will not be easy. Governments typically resist hard and fast targets associated with crime reduction. Politicians fear the political repercussions of failure. Human rights activists also fear that setting specific milestones could justify repressive tactics on the part of the police.

The costs of inaction are high. In spite of improvements in democratic governance and poverty reduction in Latin America and the Caribbean, violent crime has continued to spiral out of control in many countries and cities. In order to successfully reduce lethal violence, governments need to take on some intractable challenges.

One of the most significant drivers of homicidal violence anywhere is social and economic inequality. It generally follows that the more unequal a setting, the higher the rates of violence. Although poverty and inequality have dropped in most of Latin America, the decline in inequality has not been comparable. In fact,10 of the top 15 most unequal countries on the planet are located there.

Another factor influencing high homicide rates is youth unemployment. Roughly 13 percent of Latin America’s 108 million youth between the ages of 15 and 24 are unemployed. This is three times the rate of adults. Over half of those who do work are tied to the informal economy. Taken together, more than 20 million young people are not being educated, trained or employed. In Brazil, a 1 percent rise in unemployment rates for men leads to a 2.1 percent spike in murders.

High violence rates in Latin America and the Caribbean are also tightly connected to illegitimate and weak security and justice institutions. It is widely recognized that abusive, corrupt and mistrusted institutions can fuel crime (and vice versa). And in spite of massive spending on the region’s security sectors, policing, judicial and penal institutions are underperforming. In Latin America,just two in every 10 murders results in a conviction – the global rate is double that.

A major factor shaping widespread and systemic impunity is organized crime. All Latin American and Caribbean countries are affected to varying degrees by criminal organizations, especially drug cartels that manage an estimated $330 billion in revenue a year. These organizations can have a corrosive effect on policing, justice, penal, and customs institutions.

An abundance of unlicensed firearms, including those trafficked from the U.S. or leaked domestically, are also associated with the region’s disproportionately high burden of gun violence. Moreover, social norms sanctioning machismo and unequal gender relations are credited with shaping high domestic violence rates.

It is worth noting that violence is hyperconcentrated in specific places. About 170 of Latin America’s cities with populations of 250,000 or more have homicide rates above 25 per 100,000. Latin American governments and civil society would do well to start homicide reduction efforts there.

What is more, in large and medium-sized cities across the region, roughly 80 percent of the murders are concentrated in less than 2 percent of the street addresses. Public authorities should focus their limited resources on developing comprehensive solutions specifically for these hot spots. And they cannot do it alone – they need to work in partnership with the private sector and local communities.

The good news is that innovative solutions are spreading across the region. Public authorities, entrepreneurs and scholars are experimenting with data-driven, evidence-based and problem-oriented solutions. Lessons are gradually being learned.

The most successful approaches are comprehensive – focusing both on data-driven policing and access to justice coupled with targeted social and economic programs for at-risk youth and violence prevention. Some also include urban renewal schemes and improving the reliability of public transport in the hardest hit neighborhoods.

A consortium of organizations from across Latin America is launching a new campaign in 2017 to get homicide reduction on the regional agenda. To reduce the homicide rate by 50 percent in 10 years we will focus on the seven countries with the highest murder rates – Brazil, Colombia, El Salvador, Guatemala, Honduras, Mexico, and Venezuela.

The first priority is to promote a conversation about homicide and its complex causes. Next, governments and civil societies need to set clearly defined targets with explicit metrics of success. Working with the private sector, they must restrict investments to evidence-based violence prevention policies and programs. These measures will be key to ending the region’s homicide epidemic once and for all.

FONTE: Instituto Igarapé

Cristina Kirchner: América Latina está recuando politicamente

Publicado originalmente em: 23/07/2016

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Kirchner, que deixou o poder em dezembro de 2015, se reuniu pela primeira vez depois disso com os jornalistas em sua casa na cidade de El Calafate, no sul da Argentina, recebendo os representantes de mídia estrangeira, incluindo emissoras de Telesur e Al-Jazeera, RIA Novosti, Reuters e NODAL, bem como a edição La Jornada.

A ex-presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, acredita que todas as acusações contra ela são desprovidas de fundamento, mas diz que não tem medo da prisão.

“Se você olhar para os jornais ao longo dos últimos três ou quatro anos, verá que eles disseram abertamente que quando eu deixasse o poder, eu teria problemas graves com os tribunais. Será que os jornalistas são clarividentes, ou eram precisamente eles quem tem estado envolvido nesta operação midiático-judicial”, disse ela.

Também durante seu discurso, a ex-presidenta da Argentina Cristina Kirchner apelou ao estudo aprofundado e autêntico da história, observando que as potências mundiais, especialmente os Estados Unidos, interpretam “de sua própria maneira” os fatos históricos e introduzem-nos na consciência de massas.

“A indústria cinematográfica americana é uma máquina para produção e transmissão da cultura e da história contada, é claro, por Hollywood. Quando assiste a um filme sobre a Segunda Guerra Mundial, parece que foram apenas os ianques que obtiveram a vitória”, disse ela.

Falando sobre a ameaça do terrorismo, Kirchner disse que a comunidade internacional deve elaborar o mais rapidamente possível uma nova estratégia de combate, porque os métodos antigos já não fazem efeito.

“Vivemos num mundo muito complexo, num mundo onde não existe uma estratégia clara para combater o terrorismo. Isso impõe a responsabilidade às potências mundiais”, disse Kirchner.

“Eu acho que agora se observa uma falta de liderança na questão do desenvolvimento de uma estratégia diferente para essa luta. Se, no entanto, os velhos métodos continuarem sendo usados — a conquista de países e bombardeio — o mundo ficará pior e pior”, disse ela.

A ex-presidenta argentina Cristina Kirchner destacou que a Argentina, e a América Latina no seu todo, tem passado nos últimos meses por um recuo político que é acompanhado do crescente interesse dos EUA pela região.

“Eu acho que há um retrocesso no que se refere aos governos nacionais e populares da região, há um avanço do que podemos chamar de ‘direita conservadora’, ‘restauradora'”, afirmou a ex-presidenta, acrescentando que já foi abandonada a ideia de unidade regional que prevaleceu tanto no espírito do Mercosul, como da Unasul e da CELAC.

De acordo com ela, desde 2001, depois do ataque de 11 de setembro, os EUA deixaram de intervir na região porque apareceram outras prioridades.

“Essas prioridades se mantêm até hoje, mas os EUA começam novamente a olhar para a região, que sempre foi considerada quase como seu próprio reservatório de alimentos, energia, águas subterrâneas e minerais”, disse Kirchner.

Além disso, Cristina Kirchner notou que o recuo na Argentina apenas é visível analisando dados estatísticos:

“Em 10 de dezembro do ano passado, a Argentina já atingiu o menor nível de endividamento externo em moeda estrangeira em sua história. Nunca tivemos esse nível de redução da dívida”.
O engraçado, segundo ela, é que “o governo conseguiu esta redução da dívida depois de receber o país com a maior dívida soberana do mundo, desemprego de dois dígitos, altos níveis de desemprego e de pobreza”.

Fonte: Sputnik

Crianças latino-americanas sofrem mais com a pobreza, diz Banco Mundial

Criança e avó no interior do Rio Grande do Norte. Foto: Mariana Ceratti/Banco Mundial

Foto: Mariana Ceratti

Publicado Originalmente: 29/06/2016

Uma criança que nasce em um lar pobre tende a sair em desvantagem na corrida pelos melhores postos de trabalho quando adulta — justamente os empregos que poderiam ajudá-la a sair da pobreza. Ela tem menos acesso à educação, corre maior risco de sofrer de desnutrição e, portanto, também pode ficar doente com mais frequência.

Como se não bastasse, o percentual de crianças latino-americanas vivendo abaixo da linha de pobreza (4 dólares/dia) é duas vezes maior que entre os adultos: 36% e 19%, respectivamente. Os dados são de 2014 e vêm do Laboratório contra a Pobreza na América Latina (LAC Equity Lab/Banco Mundial), uma plataforma pública de compartilhamento de dados, indicadores e análises sobre pobreza, desigualdade e prosperidade.

“A pobreza infantil de hoje tem consequências importantes para o futuro da região”, avalia o economista Oscar Calvo-González, do Banco Mundial.

Ele aponta duas possíveis causas para o problema. Uma delas está nos índices de fecundidade da América Latina. Embora eles tenham diminuído nas últimas três décadas, ainda se mantêm mais altos nos lares mais pobres e especialmente entre as adolescentes. De fato, desde a década de 1990, as adolescentes tiveram a menor queda na fecundidade.

O fenômeno se torna mais grave quando se comparam os 20% mais pobres da população com os 20% imediatamente superiores: o índice de fecundidade do primeiro grupo, embora tenha começado a diminuir na última década, ainda é o dobro do segundo.

É possível que as medições de pobreza feitas entre os economistas também ponham as crianças em desvantagem. A pobreza infantil é calculada dividindo-se a renda do domicilio uniformemente entre todos os membros. Naturalmente, em casas com um maior número de crianças, a renda será dividida entre mais pessoas que não trabalham, o que talvez ajude a explicar as diferenças entre a pobreza infantil e a dos adultos.

“Uma limitação óbvia desse método para medir a pobreza é que ele requer assumir hipóteses sobre como se distribui o consumo dentro do lar. É possível que os adultos sacrifiquem seu próprio consumo para proteger as crianças, e então elas seriam menos pobres do que o cálculo sugere”, pondera Oscar Calvo-González.

Independentemente do motivo, o dado é um alerta para que os governos da região dediquem mais recursos e políticas aos latino-americanos de até 14 anos. Sem isso, não só as crianças terão menos chances de vencer a pobreza, perpetuando o ciclo já vivido por seus pais e avós, como também as economias da região seguirão tendo dificuldades.

FONTE: ONU

“Temos de rechaçar a mentalidade do ‘nós contra eles’ que os cínicos tentam nos vender”

Postado originalmente em: 09/07/16

Nota introdutória do autor do post: Devido ao fato de meu posto de observação ser focado nas Américas, as marcações feitas no texto são focadas somente no que diz respeitos às Américas. Acrescento, no entanto, que a entrevista é interessante e vale a pena ser lida na íntegra.

Ao EL PAÍS, Obama fala sobre o avanço do populismo no mundo e as relações com a América Latina

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O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, volta à Espanha —país que visitou nos anos oitenta, quando era um jovem mochileiro em busca de sua identidade— para uma visita mais breve do que se previa. Agora Obama (Havaí, EUA, 1961) chega ao momento em que seu mandato presidencial de oito anos se aproxima do final, em uma semana difícil para os Estados Unidos, depois das mortes filmadas de dois homens negros por disparos da polícia e da matança de cinco policiais por um franco-atirador durante um protesto contra o racismo em Dallas. Chega, também, a um país instalado há alguns meses na provisoriedade política, após duas eleições para definir a composição do Governo espanhol.

Em resposta por escrito às perguntas do EL PAÍS, Obama reforça a necessidade de que os Estados Unidos e seus parceiros europeus se reforcem e aumentem o investimento em defesa. Apesar de comemorar a volta do crescimento da economia espanhola, sustenta que as políticas de austeridade aplicadas na Europa, Espanha incluída, contribuíram para o descontentamento social. Opina que o voto favorável à saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) reflete a sensação, por parte de muitos europeus, de que a globalização lhes deixou em desvantagem.

O democrata Obama, que vê em seu país o candidato republicano Donald Trump colocar seu legado em perigo, reflete sobre a resposta que os Governos devem dar às forças do populismo. E comemora que um dos fatos de sua presidência, o restabelecimento das relações com Cuba, tenha retirado um obstáculo para situar as relações com a América Latina em um dos melhores momentos da história.

Pergunta. Senhor presidente, sua visita à Espanha acontece duas semanas depois das eleições gerais, com um Governo interino e em meio a uma enorme incerteza na Europa. O que o sr. espera do futuro Governo espanhol?

Resposta. Em primeiro lugar, quero dizer que tinha muita vontade de visitar a Espanha, um parceiro europeu indispensável, apesar dos terríveis assassinatos ocorridos nos Estados Unidos me obrigarem a encurtar minha estadia. Tive a oportunidade de percorrer o país com vinte e poucos anos, viajando de mochila pela Europa. Nunca esqueci da hospitalidade do povo espanhol nem de sua maravilhosa cultura, e sempre quis voltar. Michelle se emocionou profundamente com a acolhida dos espanhóis durante sua recente visita. Tivemos a honra de receber suas majestades o rei Felipe VI e a rainha Letícia na Casa Branca no outono passado, e agradeço muito o convite de vir à Espanha.

Apesar de o voto pelo Brexit ter criado, de fato, certa incerteza, é importante recordar que algumas coisas não vão mudar, como os laços indestrutíveis dos Estados Unidos com a Europa, que incluem uma profunda amizade e a sólida aliança entre os Estados Unidos e a Espanha. A relação entre nós existe há séculos. Estamos unidos por vínculos familiares e culturais, incluindo milhões de norte-americanos que celebram sua herança hispânica. A Espanha é um sólido aliado na OTAN, somos muito agradecidos por todas as décadas de acolhida às nossas Forças Armadas e importantes parceiros comerciais. Por isso, os Estados Unidos têm o firme compromisso de manter nossa relação com uma Espanha forte e unida.

Espero e prevejo que o próximo Governo espanhol terá esse mesmo empenho em uma relação sólida com os Estados Unidos e a Europa. Precisamos que a Espanha continue contribuindo para a campanha contra o ISIS, os esforços antiterroristas para prevenir atentados e os esforços da OTAN para fortalecer nossa posição de defesa e dissuasão. Precisamos de uma economia espanhola que cresça, que ajude a sustentar as relações comerciais, o crescimento na UE e o espírito empreendedor, para que a globalização crie postos de trabalho e oportunidades para todo mundo, não só para uns poucos no topo. Precisamos da cooperação da Espanha para enfrentar os desafios internacionais, desde os migrantes desesperados que cruzam o Mediterrâneo até a mudança climática. Tenho confiança de que, qualquer que seja o próximo Governo, a Espanha continuará sendo um aliado sólido.

P. Levando em conta que em uma entrevista recente à revista The Atlantic o sr. afirmou que os norte-americanos “nem sempre têm de ser os que estão na primeira fila”, e que devemos ter consciência de que os Estados Unidos não podem resolver automaticamente todos os problemas, que novas responsabilidades devem assumir Europa e Espanha para lidar com a instabilidade que vai da Síria ao Magreb e a ameaça do terrorismo local?

R. Diferentemente das ameaças tradicionais, como as guerras entre as grandes potências, os perigos mais agudos de hoje são transnacionais, como vemos no norte da África e no Oriente Médio. A guerra civil na Síria causou centenas de milhares de mortos, criou uma catástrofe humanitária, enviou ondas de migrantes e refugiados à Europa e permitiu que o ISIS [Estado Islâmico] tomasse o controle de uma faixa de território no coração do Oriente Médio. As desordens e os conflitos no Magreb empurraram para a fuga muitos homens, mulheres e crianças desesperados, buscando a segurança da Europa. De seus bastiões na Síria e no Iraque, o ISIS dirigiu ou inspirou atentados —alguns cometidos por militantes locais— em muitos países, nos Estados Unidos e em outros membros da OTAN.

Creio que a liderança dos Estados Unidos é indispensável para a segurança e a prosperidade do mundo. Por isso estamos à frente da coalizão mundial para destruir o ISIS, trabalhamos sem descanso em busca de uma solução diplomática para a guerra civil na Síria, oferecemos mais ajuda humanitária que qualquer outro país e promovemos um encontro mundial de refugiados no próximo outono para colocar em andamento novos compromissos.

De outro lado, é evidente que nenhuma nação —sequer uma tão poderosa quanto os Estados Unidos— pode resolver este tipo de problemas transnacionais sozinha. Precisamos de coalizões e acordos de parceria que aproveitem as melhores vantagens de cada país. Vivemos mais seguros quando os países compartilham a obrigação e os custos de manter a segurança e a paz internacional. Por isso agradecemos à Espanha sua contribuição com pessoal para ajudar a treinar as forças iraquianas em sua luta contra o ISIS. É o primeiro país à frente da nova força militar conjunta da OTAN, que estará preparado para ser implantando rapidamente em toda a Europa, e as tropas espanholas são cruciais para as tarefas de segurança marítima da UE e da OTAN no Mediterrâneo. Além disso, a Espanha tem um histórico de destaque nos trabalhos de manutenção da paz, na Bósnia, Líbano e África, entre outros locais. À medida que aumentam as ameaças atuais, precisaremos que a Espanha e nossos aliados europeus continuem envolvendo-se e isso inclui investir mais em nossa defesa comum.

P. O sr. se mostrou cético quanto às políticas de austeridade da UE durante a Grande Recessão e, de fato, adotou políticas opostas nos Estados Unidos. Como avalia o impacto destas políticas na Europa, e especialmente na Espanha?

R. Colaboramos estreitamente no G7 e no G20 com nossos parceiros europeus para tirar a economia mundial do abismo e nos recuperar da pior crise financeira desde a Grande Depressão. Entre outras coisas, fizemos um esforço coletivo para estimular a demanda mundial.

Nos Estados Unidos procedemos em seguida à reforma de nosso setor financeiro, investindo na produção industrial, nas energias limpas, no transporte e na infraestrutura, e em renovar a capacitação dos trabalhadores. Hoje atravessamos o período mais longo de nossa história de criação de emprego do setor privado. Nossas empresas criaram mais de 14 milhões de novos postos de trabalho. Reduzimos nosso índice de desemprego à metade. Os salários começaram a subir. Reduzimos o déficit em quase 75%. Nosso PIB é superior ao de antes da crise. Ainda resta muito a fazer para reduzir a desigualdade econômica e social e ajudar os trabalhadores e as famílias que têm dificuldades para seguir adiante, mas estamos em boa direção.

É verdade que alguns países europeus adotaram uma estratégia econômica diferente, com medidas de austeridade. Creio que essa é uma das razões por que a Europa está tendo um crescimento mais lento. Em certos lugares, estão há uma década estagnados. A Europa começa agora a voltar para onde estava antes da crise. E, em minha opinião, esse foi um fator importante das frustrações e das inquietudes visíveis em muitos países europeus, a preocupação de que os benefícios da integração das economias e da globalização não atingem a todos por igual.

A Espanha, sem dúvida, teve uma trajetória especialmente difícil nos últimos anos. A crise bancária e a recessão atingiram de forma brutal muitos espanhóis, que perderam suas economias e seus postos de trabalho. No entanto, graças a uma combinação de fatores —difíceis reformas estruturais, consolidação fiscal, investimentos e, sobretudo, a capacidade de adaptação dos espanhóis—, a Espanha superou uma etapa. A economia está voltando a crescer, com um dos índices de crescimento mais altos da Europa. Há novas esperanças para o futuro. Sem dúvida, o desemprego continua alto demais, sobretudo entre os jovens. Na Espanha, na Europa e em todo o mundo, vou continuar defendendo políticas que pensem em nossa população, impulsionem o crescimento e criem emprego, como o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento.

P. No contexto do Brexit, com o populismo e o mal-estar econômico, o sr. acredita que o projeto europeu está em perigo?

R. Como disse, creio que uma Europa integrada é um dos maiores triunfos políticos e econômicos de nossa época, e nunca devemos dá-la por concluída. Mas não resta dúvida de que esse projeto de integração está sendo colocado à prova mais do que nunca. Não é momento de complacências. A chegada de imigrantes e refugiados à Europa voltou a concentrar a atenção na política de fronteiras da UE e na capacidade dos Estados-membros de trabalhar juntos para enfrentar desafios compartilhados. O crescimento lento em todo o continente deixou europeus demais, sobretudo jovens, sem trabalho e cheios de frustração. Em todos os nossos países há muitas pessoas que se sentem desfavorecida pela globalização e pela automatização. Muitos desses fatores contribuíram para que o Reino Unido votasse por abandonar a UE.

Faríamos mal em não levar em conta essas forças. Os Governos e as instituições da UE devem demonstrar que estão em contato com as preocupações diárias dos cidadãos e sabem reagir devidamente. Em vez de impedir o comércio ou recorrer ao protecionismo —que sequer é possível em uma economia globalizada—, nossos países, entre eles os Estados Unidos, precisam se esforçar mais para garantir que a globalização, as economias integradas e o comércio criem emprego e oportunidades para todos. Precisamos investir mais em educação, aptidões e formação profissional, que ajudam a reduzir as desigualdades e a fazer com que as pessoas prosperem em uma economia globalizada. E temos de rechaçar a mentalidade do nós contra eles que alguns políticos cínicos tentam nos vender. Temos de ser fiéis aos valores eternos que definem nossas sociedades, cheias de vida e diversidade, e que inspiram em grande parte nossa força: nosso compromisso com a democracia, o pluralismo, a inclusão e a tolerância.

P. Como repercutiu o degelo das relações entre Estados Unidos e Cuba na América Latina, Colômbia e Venezuela, e na posição dos Estados Unidos no hemisfério ocidental?

R. Nossa decisão de colocar fim a meio século de políticas falidas dos Estados Unidos, restabelecer as relações diplomáticas com Cuba e dar início a uma nova era de diálogo com o povo cubano teve um efeito transformador. O mais importante é que alguns laços mais estreitos entre os dois países, mais relações comerciais e mais viagens de norte-americanos para Cuba em intercâmbios educativos e culturais, significarão mais oportunidades econômicas para os cubanos. Cuba não vai mudar da noite para o dia, mas, como vi em minha visita a Havana, os cubanos têm novas esperanças para o futuro, e estamos decididos a colaborar com eles para criar mais oportunidades e mais prosperidade em toda a ilha.

Mas, em geral, já estamos vendo como os vínculos mais fortes entre Estados Unidos e Cuba podem beneficiar toda a região. Estamos intensificando nossa cooperação para prevenir a propagação de doenças, proteger as águas do Caribe e perseguir os narcotraficantes. O Governo cubano acolheu em Havana as negociações de paz entre o Governo da Colômbia e as FARC, às quais os Estados Unidos se uniu —algo que teria sido impensável há alguns anos— e hoje a Colômbia está a ponto de obter uma paz histórica. Apesar de não ter falado muito sobre a Venezuela com o presidente [Raúl] Castro quando estive na ilha, todos os países da região estão interessados em que a Venezuela resolva seus desafios econômicos. Os Estados Unidos continuam pedindo ao Governo e à oposição que entabulem um diálogo profundo. Instamos o Governo da Venezuela a acatar o Estado de direito e a autoridade da Assembleia Nacional, deixar em liberdade os presos políticos e respeitar o processo democrático, incluindo as tentativas legítimas de convocar um referendo revogatório com relação às leis venezuelanas.

Por último, gostaria de destacar que nossa nova estratégia em relação a Cuba eliminou uma armadilha em nossas relações com outros países da região. Os Governos de toda a América receberam com entusiasmo nossa mudança de política. Hoje, os Estados Unidos estão muito mais envolvidos na região do que nas últimas décadas, e a relação entre EUA e as Américas é melhor do que nunca. Em vez de ficarmos parados nos conflitos do passado, olhamos para o futuro. A Espanha faz parte deste novo momento tão promissor na América Latina, e agradecemos a ela que seja um parceiro sólido, disposto a trabalhar conosco pela segurança, a prosperidade e a dignidade que os latino-americanos merecem.

Fonte: El País