Pepe Escobar: Começam hoje 50 anos de guerra de tarifas? 

Trade-War
6/7/2018, Pepe Escobar, Asia Times

Traduzido pela Vila Vudu

Muito mais que primeiro tiro à meia-noite de hoje do que pode converter-se em terrível guerra comercial, a queda de braços de tarifas entre EUA e China deve ser vista no contexto de grande virada no Grande Quadro geopolítico e econômico.

O jogo de passar adiante as culpas, e todos os tipos de cenários de especulação de como pode evoluir a disputa de tarifas, são questões periféricas. O alvo crucialmente decisivo do que hoje se inicia não é algum “livre comércio” que seria disfuncional; o alvo é o projeto “Made in China 2025” – a China autoconfigurada como usina geradora de alta tecnologia equivalente, ou mesmo superando EUA e UE.

É sempre importante destacar que foi a Alemanha que, na verdade, forneceu o molde para “Made in China 2025”, mediante sua estratégia Indústria 4.0.

“Made in China 2025” tem por alvo 10 campos tecno-estratégicos: tecnologia de informação, incluindo redes 5G e cibersegurança; robótica, aeroespaço; engenharia oceânica; ferrovias para vagões de alta velocidade; veículos movidos a novas energias; equipamento elétrico; maquinaria para agricultura; novos materiais; e biomedicina. 

Para que o projeto “Made in China 2025” dê frutos, Pequim já investiu em cinco centros nacionais de produção de inovações e em 48 centros provinciais, parte de um projeto para chegar a 40 centros nacionais até 2025. E em 2030, via uma estratégia paralela, a China já deverá estar estabelecida também como líder no campo da inteligência artificial (IA).

“O Sonho Chinês”, mantra do presidente Xi Jinping, também conhecido como “o grande rejuvenescimento da nação chinesa”, é estritamente ligado não só a “Made in China 2025”, internamente, mas também, externamente, à Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE), conceito que dá organicidade à política exterior da China para todo o futuro planeável. E os dois tópicos – “Made in China 2025” e ICE – são absolutamente inegociáveis. 

Em agudo contraste, não se vê nem sinal no horizonte de qualquer projeto “Made in USA 2025”. A Casa Branca parece modular todo o processo como uma batalha contra a “agressão econômica dos chineses”. A Estratégia de Segurança Nacional define a China como principal força que desafia o poder dos EUA. A Estratégia de Defesa Nacional do Pentágono vê a China como “concorrente estratégico que usa economia predatória”. E como chegamos a isso?

Inovação ou morte 

E indispensável conhecer um pouco do contexto-cenário.

David Harvey, em O Novo Imperialismo, recorre a The Global Gamble: Washington’s Bid for Global Dominance de P. Gowan, para chamar atenção para o quanto ambos veem “a radical reestruturação do capitalismo internacional depois de 1973 como uma série de jogadas, tentadas pelos EUA, interessados em manter a própria posição hegemônica nos assuntos econômicos mundiais contra Europa, Japão e, depois, contra o Leste e o Sudeste da Ásia”.

Antes de o milênio acabar, Harvey já enfatizava o modo como Wall Street e o Tesouro dos EUA eram operados pelo Estado como “instrumento formidável de governança econômica para impulsionar os processos de globalização e as transformações domésticas neoliberais associadas.”

A China por seu lado jogou magistralmente seu jogo de reorientação do capitalismo – investindo sem meias medidas no que se pode descrever como “neoliberalismo com características chinesas”, e lucrando o máximo possível da projeção de poder econômico dos EUA via mercados abertos e os membros da Organização Mundial de Comércio.

Agora a China, em velocidade alucinante, está finalmente pronta a investir na projeção de seu próprio poder econômico. Como Harvey já observou há mais de uma década, o próximo passo para o capitalismo da Ásia Oriental seria “afastar-se do muito que depende do mercado norte-americano”, rumo ao “cultivo de um mercado interno”.

Harvey descreveu o programa de modernização massiva da China como “uma versão interna de reorientação espaço-temporal equivalente ao que os EUA fizeram internamente nos anos 1950s e 1960s mediante a suburbanização e o desenvolvimento do chamado Cinturão do Sol”. Na sequência, a China estaria “gradualmente drenando o capital excedente do Japão, de Taiwan e da Coreia do Sul e, assim, reduzindo os fluxos para os EUA”. Já está acontecendo.

O presidente Trump não é exatamente o que se diria um estrategista geopolítico. A razão para as novas tarifas pode ser forçar as cadeias de suprimento das empresas norte-americanas a reduzir o muito que dependem, hoje, da China. Mas o modo como a economia global foi montada não aguenta o desmanche dessas cadeias de suprimento – com a produção sendo des-deslocalizada de volta aos EUA, como diz Trump. O local, local, local também rege a lógica do capitalismo turbinado: as empresas sempre privilegiarão a mão de obra mais barata e os menores custos de produção, não importa onde estejam.

Agora, comparem isso à China que investe em deslocalização da alta tecnologia integrada com centros de excelência norte-americanos. No que se trate da cabeça do combate na linha da inovação entre China e EUA, a estratégica do Zhongguancun Development Group (ZDG) é caso fascinante.

O grupo ZDG estabeleceu vários centros de inovação fora da China. O principal Centro ZGC de Inovação está instalado em Santa Clara, Califórnia, bem perto de Stanford e dos campus de Google e Apple. Há agora um novo centro em Boston à distância de um grito de Harvard e do MIT.

Esses centros fornecem o pacote completo – desde laboratórios que são o estado da arte até – fator crucialmente importante – o capital, mediante um fundo de investimento. A matrix vem do governo de Pequim, pelo tecnodistrito da cidade. E nem é preciso dizer que o grupo ZDG está integralmente alinhado com a ICE e a ênfase que jamais é esquecida na expansão, para “aprender a experiência de outros países, de um ecossistema de inovação”

Isso, num microcosmo, é do que trata o projeto “Made in China 2025”.

Meio século de guerra comercial?

Assim sendo, o que acontecerá?

Sob o atual tsunami de histeria, a análise sóbria que nos vem de Li Xiao, decano da Escola de Economia da Universidade Jilin, é mais que bem-vinda.

Li vai logo à jugular. Destaca o quanto “a ascensão da China é, essencialmente, um ganho de status dentro do sistema do dólar.” Do ponto de vista de Pequim, é imperativo mudar, mas a mudança será gradual. “O objetivo da internacionalização do yuan não é substituir o dólar. No curto prazo, o sistema do dólar é insubstituível. Nosso objetivo para o yuan é reduzir o risco e o custo, sob o sistema do dólar.”

Com muito realismo, Li também admite que “o conflito entre as duas maiores potências prosseguirá por, no mínimo, 50 anos, talvez mais. Tudo o que está acontecendo hoje é apenas um show preliminar, antes do espetáculo principal da história.”

Implícita na metáfora do show preliminar, antes do espetáculo principal, é a ideia de que a liderança chinesa parece interpretar o primeiro tiro do tarifaço, à meia-noite de hoje, como um modo de reaquecer o que se lê na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. A conclusão, para Pequim é uma só e inescapável: agora, os EUA começaram a ameaçar o Sonho Chinês.

Dado que o Sonho Chinês, o “rejuvenescimento da nação chinesa”, “Made in China 2025”, a ICE, o multipolarismo e a China como motor da integração da Eurásia são itens absolutamente não negociáveis, não surpreende que o cenário esteja montado para forte, inevitável turbulência.*******

Anúncios

China – world power again | DW Documentary

China is on its way to becoming a socialist world power. After a time of revolution and reform, the country is entering a new era. As President Xi Jinping forges the path forward, a question remains: will the Chinese people continue to support him? At the Chinese Communist Party’s convention in fall of 2017, President Xi Jinping sent a clear message to the world: China is entering a new era. Many believe President Xi Jinping has brought the party back on track and has secured the support of the Chinese people. Speaking to delegates in October, Xi said it was time for the nation to be a global leader that could set an example on economic, political and environmental matters. Part of his plan for economic growth is Made in China 2025, an initiative that draws from Germany’s Industry 4.0 plan and aims to make advancements across many industries, including automotive, aircraft, pharmaceutical, and artificial intelligence. _______ Exciting, powerful and informative – DW Documentary is always close to current affairs and international events. Our eclectic mix of award-winning films and reports take you straight to the heart of the story. Dive into different cultures, journey across distant lands, and discover the inner workings of modern-day life. Subscribe and explore the world around you – every day, one DW Documentary at a time.

DW

SCO and BRICS: Bridges to a Shared Future

pic_1528703187
2018-06-10 12:47:00
Source:China Today Author:EVANDRO MENEZES DE CARVALHO

The 18th Shanghai Cooperation Organization (SCO) Summit in Qingdao is an event that proves the Eurasian region has been the most dynamic in the world for the past two decades. Even with all the geopolitical complexity, SCO member countries have assumed their responsibilities in seeking integrated solutions to common problems.
When SCO was founded by its six initial members in June 2001, the organization anticipated what would become the main focus of the international agenda after September 11 in that same year: the fight against terrorism. But it also included fighting extremism and separatism as other types of threats to regional security and stability. SCO has been successful in these areas.
Because of the national needs of its members and international circumstances, SCO has gradually expanded its agenda. The perception that economic development contributes to reducing threats to peace is not new, but the approach of strategically integrating the two goals gains its own dimension in the context of SCO. The admission of India and Pakistan into the organization at the Astana Summit in 2017, comply with this dual imperative. The SCO is gradually coalescing objectives and being fused into a larger undertaking of transformation of the reality of Asia and, potentially, the world.
President Xi has continuously highlighted the importance of building a community with a shared future for humanity. The “Shanghai Spirit” – the core value of the SCO – which is mutual trust, mutual benefit, equality, consultation, respect for diverse civilizations, and pursuit of common development, is in line with Xi’s thought. There is an acknowledgement of the importance of these principles with the aim of forging a community with a shared future in the region. But for that concept to be more than mere rhetoric, it must be accompanied by the reaffirmation and designation of diplomatic practices.
The diplomatic lexicon that shaped the twentieth-century international system is gaining, in this twenty-first century, new terminologies, practices, and symbols from a more active and vibrant East. China is the country that has taken a leading role in the development of this new definition of international relations. The country has been engaged in designing concepts and promoting a network of new international organizations (SCO, AIIB, etc.), funds (Silk Road Fund), multilateral platforms, and forums (Boao Forum for Asia, Belt and Road Initiative, etc.) that seem to point to the emergence of a new grammar for world diplomacy and, consequently, a new way of organizing international society in the future.
Given this scenario, BRICS, as a multilateral political forum, and the New Development Bank, as an international organization, since they have three SCO member countries (China, Russia, and India), should be more actively involved in this large Asian network of formal and informal initiatives of cooperation. It means that, Brazil and South Africa, through BRICS, would have a legitimacy to participate more actively in Asian international relations. By doing so, both countries will be able to expand their diplomatic skills and affinities with Asian countries, learning to act faster and more effectively in a world where countries and organizations in Asia will define the new contours of the world’s future. SCO is one of the pillars of this new global reality.

Evandro Menezes de Carvalho is chief executive editor of the Portuguese version of China Today, director of the Center for BRICS countries Studies at Fluminense Federal University (UFF) and director of the Center for Brazil-China Studies at FGV, Brazil.

Fonte: China Today

Webinar “Investimentos Chineses no Brasil”

INSCREVER-SE 2,4 MIL
Webinar debate investimentos chineses no Brasil. Com a participação de William Pedroso, advogado; Larissa Wachholz, sócia diretora da Vallya; Roberto Dumas, professor; e Augusto Castro – Gerente do Núcleo China na Apex-Brasil.

Pepe Escobar: “Era Putin-Xi superará a (des)ordem liberal ocidental? “

china russia relations
26/3/2018, Pepe Escobar, in The Vineyard of the Saker  (de Asia Times)

A emenda à Constituição chinesa, que passa a permitir mandatos subsequentes ao presidente Xi Jinping – de modo a que fique no poder por tempo suficiente para promover o “rejuvenescimento nacional” –, combinada às eleições na Rússia que confirmaram Vladimir Putin na presidência, garantiu consistência e continuidade à parceria estratégica Rússia-China até bem entrada a próxima década.

Com isso se facilitam a interação entre a Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) e a União Econômica Eurasiana (UEE); a coordenação política dentro da Organização de Cooperação de Xangai, nos BRICS e no G-20; e o movimento em geral rumo à integração da Eurásia.

O fortalecimento do que se deve ver como a era Putin-Xi só pode estar levando pânico aos liberais ocidentais.

Interesses capitalistas sempre acreditaram na própria narrativa de propaganda, que conecta diretamente a expansão capitalista e alguma inevitável expansão da democracia.

O pensamento crítico está afinal desmascarando, no mínimo, essa mais uma grande ilusão.

O que realmente aconteceu desde o início dos anos 1980s foi que o turbocapitalismo ocidental aproveitou-se avidamente de uma variedade de trabalho neoescravo nas Zonas Especiais Econômicas (ZEEs) da China. Combine isso com a proverbial húbris das elites ocidentais, apostando que a China – vista no melhor dos casos como fonte de trabalho barato – e uma Rússia enfraquecida durante os anos 1990s jamais conseguiriam acumular know-how para desafiar o ocidente, geoeconomicamente e geopoliticamente.

O registro histórico é implacável, mostrando que não há qualquer tipo de conexão entre comércio “livre” – usualmente mais livre para os de maior peso – e liberalização da política. Por exemplo, a monarquia prussiana rebaixou barreiras comerciais, o que levou à criação da Zollverein [união aduaneira de estados germânicos] em 1834. E o Terceiro Reich entre 1933 e 1938 ofereceu mistura perigosa de capitalismo e totalitarismo hardcore.

O sistema da China, onde um partido (marxista) controla o Estado para o objetivo de preservar a coesão nacional, com certeza não pode ser descrito como democracia liberal. O dissidente Minxin Pei, autor de China’s Trapped Transition [aprox. ‘a transição chinesa capturada’ (NTs)], já sabia, há 12 anos que o Partido Comunista Chinês jamais tomaria o rumo da democracia liberal ocidental (Pei tomou ao pé da letra as orientações do Pequeno Timoneiro Deng Xiaoping).

Compreendeu corretamente que a China “não tem interesse em se tornar membro do clube [do ocidente]. Querem os benefícios econômicos da ordem ocidental liberal [infelizmente benefícios sempre pra uns poucos! (NTs)], mas rejeitam os valores políticos [que infelizmente também beneficiam só uns poucos! (NTs)] e temem [com sobejas razões (NTs)] suas alianças de segurança. Hoje, a China está em posição suficientemente forte para construir seu próprio clube.”

Mas Pei concluiu erradamente que o PCC sufocaria o crescimento econômico da China (“O prospecto de uma estagnação semelhante à japonesa é real.”) Xi Jinping e seu novo dream team precisam de tempo suficiente para fazer andar o modelo econômico chinês.

Longe da demonização infantiloide 24h/dia, 7 dias por semana, fato é que a Rússia hoje é uma democracia, embora imperfeita. E é importante analisar como uma jovem democracia está exposta, quase indefesa, para ser manipulada.

O terceiro capítulo do novo livro Manifest-Destiny: Democracy as Cognitive Dissonance [aprox. “Destino Manifesto: democracia como cognição dissonante”*] detalha o estupro da Rússia; como as “reformas de livre mercado” de Boris Yeltsin facilitadas pelos “Harvard boys” permitiram que um pequeno grupo de oligarcas bilionários – Mikhail Khodorkovsky, Boris Berezovsky e Roman Abramovich dentre eles – tomassem posse de uma economia que passava então por terapia de choque.

Entre 1991 e 1997 O PIB russo despencou impressionantes 83%; o investimento na economia caiu 92%.

O caso de Khodorkovsky é emblemático. Através da empresa Yukos, o empresário era dono de campos de petróleo na Sibéria; e estava a um passo de vender tudo a interesses empresariais ocidentais, nos idos de 2003, quando Putin saiu ao seu encalço. Não há dúvida de que o processo foi intensamente estudado pela liderança em Pequim. Controlar interesses nacionais chaves é a derradeira absoluta linha vermelha.

Para Putin, como para Xi, o árbitro supremo é o Estado nacional, não uma gang de oligarcas como começa a virar regra em todo o ocidente liberal e antiliberal. No nível dos BRICS, comparem-se aqueles líderes nacionais e o usurpador que está atualmente instalado na presidência do Brasil, e que faz de tudo para entregar a maior parte que consiga entregar das reservas de petróleo na camada pré-sal do Brasil, além da gigante fabricante de aviões Embraer, a interesses não nacionais brasileiros.

Na dúvida, consulte Confúcio

Já se converteu num ritual para os guardiões do establishment ocidental chorar copiosamente sobre o “fim da ordem mundial liberal”. Alguns pelo menos admitem que, afinal, não é “liberal, nem é mundial, nem é ordem”.

Guardiões de mais baixo escalão podem ser mais realistas, e observar como políticos ocidentais já foram amplamente ultrapassados pela fúria popular em miríades de latitudes, sem deixar de acreditar que seja possível “reconstruir a democracia sobre fundamentos morais”.

Não é. Não, sob o credo neoliberal predominante, esse NHA (“Não Há Alternativa”, ing. TINA,There Is No Alternative“). Os guardiões, à esquerda e à direita, simplesmente não conseguem compreender o crescimento das forças populares – porque os que estejam sob influência das forças populares veem claramente o quanto e como os mitos do “estado de direito” e da “soberania nacional” vão rapidamente dissolvendo-se na lama. Aqueles guardiões, no melhor dos casos, lamentam com nostalgia “a perda da influência que a elite um dia teve”.

China, Rússia, Irã e Turquia – todos esses estados implicados na integração da Eurásia – podem ser classificados como sistemas autoritários em diferentes níveis. E há de haver quem argumente que, com exceção da China, todos esses estados ainda têm desempenho econômico abaixo dos respectivos verdadeiros potenciais.

Mesmo assim, todos esses estados valorizam acima de qualquer outro valor a própria soberania nacional, em sistema multipolar. Esse é o contraponto conceitual que esses estados oferecem à (des)ordem (nada)liberal mundial. Assim esses estados respondem ao NHA/TINA.

Quanto à “perda da influência que a elite um dia teve” é palavra-código para o amancebamento de ricos e poderosos que alardeiam democracias falsamente morais, que só fazem desmascarar o medo profundo que aquelas ‘elites’ sentem de que o momento unipolar do ocidente esteja em rápido processo de dissolução.

Todas essas contradições aparecem muito visíveis, quando se examina a União Europeia. A UE, desde o Tratado de Maastricht, foi manobrada para se tornar o que a própria Angela Merkel definiu como Bundesrepublik Europa – República Federal da Europa.

Quem conheça Bruxelas sabe como aquelas ondas de eurocratas isentos de impostos amamentam um sistema kafkiano de regulação burocraticamente ultracentralizado, ao mesmo tempo em que os próprios eurocratas mantêm-se completamente distantes e sem qualquer contato com europeus reais normais.

A noção da União Europeia como promotora de “integração econômica” incluindo pesadas doses de ‘austeridade’ não pode ser mais antidemocrática.

Acrescentem-se a isso os escândalos nos altos escalões do estado, que nada fazem além de desgastar e corroer a fé na primazia do modelo da democracia liberal ocidental. O mais recente envolve a real possibilidade de que o coronel Gaddafi tenha muito provavelmente financiado a campanha presidencial de Sarkozy em 2007 na França; negócio extraordinariamente sinistro pelo qual se veem as políticas de energia, as política da água, e os proverbiais grandes contratos de compra de armas para os quais as democracias liberais ocidentais descartam completamente qualquer preocupação moral decente.

Agora comparem tudo isso e esses, com Xi Jinping, elevado a hexin lingdao (o núcleo da liderança do PCC), espécie de primus inter pares numa versão sínica da República de Platão. A teoria política do Iluminismo greco-romano já não é o único pôquer que rola na cidade. Mas ainda não se vê qualquer sinal de que o ocidente tomado de húbris comece a aprender com Confúcio.

*****

* A expressão cognitive dissonance (ing.) e dissonance cognitive (fr.) aparece, com o significado que nos interessa aos estudos sociais, com Franz Fanon:

“Às vezes as pessoas têm uma crença central, muito forte. Quando são confrontadas com evidências que operam contra aquela crença, é difícil para elas aceitar a nova evidência. Assim se cria um sentimento extremamente desconfortável, que se chama “cognição dissonante“. E, porque lhes é muito importante proteger a crença central já existente, as pessoas racionalizam, ignoram e até negam qualquer evidência que não se encaixe naquela crença central” [Frantz Fanon, Pele negra, máscaras brancas (1963)].

Em geral a expressão aparece traduzida como “dissonância cognitiva”, que é tradução semanticamente errada, uma contradição em termos: a dissonância semântica entre os conteúdos que o conceito aproxima impede ou, no mínimo, dificulta muito, de fato, qualquer cognição logicamente consistente e produtiva para o pensamento. Tudo isso considerado, parece-nos que a única tradução q faz pleno sentido é “cognição dissonante” [NTs].

Trump brinca com a pólvora chinesa  

domingo, 25 de março de 2018

Por Wang Haiqing, colunista da agência de notícias Xinhua, no site Jornalistas Livres:

Em consonância com o apreço cada vez maior dos Estados Unidos pelo unilateralismo, o presidente Donald Trump anunciou seu remédio para as questões comerciais entre China e EUA: um plano para impor até US$ 60 bilhões em tarifas sobre importações de produtos vindos da China e colocar restrições aos investimentos chineses.

As duras medidas de Trump derivam de uma investigação da Secretaria de Comércio dos Estados Unidos, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974, uma ferramenta comercial frequentemente usada por Washington antes do advento da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A lei, que permite ao presidente dos EUA impor unilateralmente barreiras tarifárias, caiu em grande parte em desuso após a fundação da OMC em 1995.

Os EUA tentarem dar lustro a uma lei ultrapassada para a usarem contra um grande parceiro comercial reflete o desrespeito de Washington às regras da OMC, a espinha dorsal do atual sistema global de comércio, e para a qual os Estados Unidos tiveram um papel fundamental na criação.

Isso intensificou a impressão de que os Estados Unidos, na condição de potência hegemônica e de importante criador de regras no sistema global, estão sempre prontos para quebrar as regras que esperam que outros sigam na busca por seus próprios interesses egoístas.

Têm havido muitos exemplos da crescente tendência dos Estados Unidos ao unilateralismo desde que Trump assumiu a presidência.

Os Estados Unidos viraram as costas ao histórico acordo climático de Paris, ameaçaram abandonar o acordo nuclear com o Irã, retirar-se da Organização das Nações Unidas Para a Educação, a Cultura e a Ciência, reduzir maciçamente seu financiamento às Nações Unidas e coagir seus parceiros comerciais a renegociações de pactos como o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), apenas para citar alguns casos.

Ao recorrer ao unilateralismo, Washington renuncia a sua responsabilidade na manutenção do funcionamento de um sistema de comércio global baseado em regras e, ao mesmo tempo, aniquila a perspectiva de um mundo pacífico e mais próspero.

As pesadas tarifas planejadas pelos Estados Unidos sobre as importações chinesas causaram ondas de choque nos mercados de ações pelo mundo e aumentaram o medo generalizado de uma guerra comercial entre as duas maiores economias do planeta.

Dado o volume de comércio entre EUA e China e o fato de que as economias estão mais interconectadas do que nunca, uma guerra comercial no Pacífico causará transtornos em todo o mundo, o que levaria os países a adotar ações comerciais unilaterais em vez de levarem suas disputas à OMC, abalando assim a própria base do sistema global de comércio.

Muito está em jogo caso os Estados Unidos prossigam com sua abordagem truculenta contra a China em relação ao comércio.

Pequim entende essas conquistas vitais e em nenhum momento busca uma guerra comercial com Washington. No entanto, se a administração Trump finalmente decidir lançar uma guerra comercial total contra a China, o país asiático será forçado a revidar.

O presidente Trump certa vez twittou que “as guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar”. Bem, ele talvez queira mudar de ideia quando um conflito de verdade estiver em andamento.

* Link para o texto original:
http://www.xinhuanet.com/english/2018-03/23/c_137060383.htm

Pepe Escobar: “O mito de uma China neoimperial”

cartoon-China-dragon-to-arabian-sea
15/3/2018, Pepe Escobar, Asia Times

O foco geopolítico do ainda novo século 21 cobre o Oceano Índico, do Golfo Persa até o Mar do Sul da China, ao longo de todo o espectro do Sudoeste da Ásia até a Ásia Central e a China.

Assim se configura o principal palco, terrestre e marítimo, das Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE).

O epicentro da mudança do poder global para o Oriente está fazendo voar penas em alguns círculos políticos dos EUA – com proliferação de análises paroquianas que cobrem, da “superdistensão imperial” até “pesadelos” que estariam sendo provocados pelo Sonho Chinês de Xi Jinping.

O argumento básico é que o Imperador Xi estaria obrando para abocanhar poder imperial, com a mitologização das Novas Rotas da Seda.

A ICE tem a ver, com certeza com as massivas reservas chinesas em moeda estrangeira; com o know-how de construção; com o excesso de capacidade em aço, alumínio e concreto; com as parcerias público-privadas para financiamento; com a internacionalização do yuan; e com a plena conectividade dos fluxos de infraestrutura e informação.

Mas a Iniciativa Cinturão e Estrada não é questão de controle geopolítico apoiado em poder militar; tem a ver com maior projeção geopolítica, baseada na conectividade comércio-e-investimentos.

A ICE é de tal modo jogo completamente diferente, que Japão, Índia e o “Quarteto” [ing. “the Quad”] (EUA, Japão, Índia, Austrália) sentiram-se na obrigação de produzir suas próprias mini-ICEs “alternativas”, muito reduzidas – cuja razão de ser essencial é acusar a ICE de “revisionismo”, ao mesmo tempo em que enfatiza a necessidade de lutar contra a dominação global chinesa.

A base da estratégia Indo-Pacífico Livre e Aberto do governo Trump, iniciada em outubro de 2017, era definir a China como ameaça existencial hostil. A Estratégia de Segurança Nacional, ESN [ing.National Security Strategy (NSS)] e a Estratégia de Defesa Nacional, EDN [ing. National Defense Strategy (EDN)] amplificaram a ameaça até convertê-la numa nova doutrina.

A ESN afirma que “China e Rússia desafiam o poder, a influência e interesses dos EUA, tentando erodir a segurança e a prosperidade dos EUA.” A ESN acusa China e Rússia de querer “modelar um mundo que seja a antítese dos valores e interesses dos EUA.” Também acusa Pequim de “procurar desalojar os EUA da região do Indo-Pacífico” e de “expandir o próprio poder à custa da soberania dos demais.”

A Estratégia de Defesa Nacional afirma que Pequim “almeja à hegemonia regional no Indo-Pacífico no curto prazo, e a deslocar os EUA para alcançar proeminência global no futuro.”

Já é o novo normal, no que tenha a ver com vários estratos do complexo norte-americano industrial-militar-de-vigilância. Qualquer outra opinião-avaliação é simplesmente proibida.

Hora de conversar com Kublai Khan

China e Rússia, potências “revisionistas”, são vistas como grande duplo problema quando se considera que há conexão direta entre a ICE e a União Econômica Eurasiana (UEE) [ing. Eurasia Economic Union (EAEU)]. A UEE é, por si mesma, um passo adiante na parceria estratégica Rússia-China anunciada em 2012, crucialmente, um ano antes de Xi anunciar a ICE em Astana e depois em Jakarta.

No fórum da ICE em Pequim, em maio de 2017, o presidente Vladimir Putin da Rússia reafirmou a noção de uma “maior parceria eurasiana”.

O “pivô para a Ásia” russo começou já antes de Maidan em Kiev, o referendo da Crimeia e as subsequentes sanções ocidentais. Foi trabalho em progresso, ao longo de várias sessões na Organização de Cooperação de Xangai, OCX [Shanghai Cooperation Organization (SCO)], dos BRICS e do G-20.

O Cazaquistão é o elo chave que une ICE, UEE e a OCX. Rússia e Cazaquistão são parte de um dos principais corredores de conectividade por terra entre o Leste da Ásia e a Europa –, e o outro atravessa Irã e Turquia.

Xinjiang à Europa Ocidental por trem, via Cazaquistão e Rússia, é hoje viagem de 14 dias, que em breve serão reduzidos a dez. É impulso gigante para o comércio de mercadoria com alto valor agregado – que pavimenta o caminho para os futuros trilhos para trens de alta velocidade, um dos projetos da ICE, que competirá cabeça a cabeça com o transporte marítimo de baixo custo.

Quanto ao impulso de Moscou para ser parte da conectividade econômica ICE/UEE, é um dos vetores da política externa russa. O outro, igualmente importante, é aprofundar relações comerciais/de investimentos entre Alemanha e Rússia, prioridade também para industriais alemães.

A China, por sua vez, é agora o maior investidor estrangeiro em todos os cinco “-stões” da Ásia Central. E é crucial lembrar que a Ásia Central está configurada não só pelos cinco “-stões”, mas também inclui a Mongólia, Xinjiang e o Afeganistão. Daí a urgência, na OCX, para resolver a tragédia afegã, com a participação dos grandes players China, Rússia, Índia, Paquistão e Irã.

A estratégia da ICE, de criar uma rede logística/de conectividade paneurasiana impõe naturalmente a questão de como Pequim administrará esse projeto sem hora para terminar. A ICE ainda não está sequer em fase de implementação, que, oficialmente, começa ano que vem.

É útil comparar as acusações de “revisionismo” e a história da China. Quando Marco Polo chegou à corte Yuan no final do século 13, viu um império multicultural com comércio próspero.

Foram as rotas comerciais da Rota da Seda, não alguma projeção de poder militar, que culminaram na Pax Mongolica. A Pax Sinica do século 21 é sua versão para o século 21. E Xi? Será neoimperador ou versão pós-moderna de Kublai Khan?

A dinastia Yuan não “controlou” Pérsia, Rússia ou Índia. Pérsia, então uma superpotência, conectava o Nilo, a Mesopotâmia e o rio Indo, com comércio com a China. Durante a dinastia Tang, nos séculos 8º e 9º, a China também projetou influência na Ásia Central, por todo o espaço até o Irã norte-oriental.

E isso explica porque o Irã, agora, é esse entroncamento central da ICE e porque a liderança em Teerã quer ver solidificadas as Novas Rotas da Seda. Uma aliança China-Rússia-Irã de interesses – integração da Eurásia – só pode mesmo enervar Washington; afinal, o Pentágono define todos esses atores geopolíticos como “ameaças”.

Historicamente, China e Pérsia foram, por séculos, civilizações agrícolas ricas e bem implantadas, que vez ou outra tiveram de lidar com enxames ocasionais de guerreiros do deserto –, mas que, na maior parte do tempo viveram em contato entre elas, por causa da Rota da Seda. A entente cordialesino-persa está inscrita nessa sólida história.

E isso nos leva ao xis da questão que jaz no coração da demonização/desqualificação sem parar, da ICE.

Trata-se de impedir a emergência não só de um “competidor equivalente”, mas pior: um condomínio comercial/de conectividade possibilitado pela Nova Rota da Seda – que exibirá China, Rússia, Irã e Turquia – aparecerá tão poderoso no Oriente quanto os EUA ainda são hoje, nesse muito desgraçado “Hemisfério Ocidental”.

Nada disso tem qualquer coisa a ver com neoimperialismo chinês. Na dúvida, consulte Kublai Khan.*****