O que significam as sanções contra Rússia e China

18/10/2018, Pepe Escobar, Asia Times 4:09 PM (UTC+8)

Um relatório crucial do Pentágono sobre a base industrial e a “resiliência da cadeia de suprimentos” da Defesa dos EUA acusa a China de “expansão militar” e de conduzir “uma estratégia de agressão econômica”, principalmente porque Pequim é a única fonte de “vários produtos químicos usados em munições” e mísseis.

A Rússia é mencionada apenas uma vez, mas em um parágrafo crucial: como o país que mais “ameaça”, ao lado da China, a indústria de defesa dos EUA.

O Pentágono, nesse relatório, pode não estar advogando guerra total contra ambas, Rússia e China – como se interpretou em algumas áreas. O que o Pentágono faz é configurar a guerra comercial contra a China como ainda mais incandescente, ao mesmo tempo em que expõe os reais motivos por trás das sanções contra a Rússia.

O Departamento de Comércio dos EUA impôs sanções” a 12 empresas russas, acusadas de “agir contra interesses da segurança nacional ou da política exterior dos EUA”. Na prática, significa que as empresas norte-americanas não podem exportar produtos “dual-use” [lit. “de uso duplo”, civil e militar][1] para qualquer das empresas russas sancionadas.

Há razões muito claras por trás dessas sanções – e nada têm a ver com segurança nacional. Trata-se, aí, de mera competição em“livre mercado”.

No olho dessa tempestade está o jato para passageiros Irkut MC-21 – o primeiro no mundo, com capacidade para mais de 130 passageiros, a ter asas construídas de materiais compósitos.

AeroComposit é responsável pelo desenvolvimento dessas asas de materiais compósitos. A parte estimada dos compósitos usados no projeto total chega a 40%.

O motor PD-14 do MS-21 – que não tem potência suficiente para ser empregado em jatos de combate – será fabricado pela Aviadvigatel. Até agora, os MC-21 usavam motores Pratt & Whitney. O PD-14 é o primeiro motor do novo tipo 100% fabricado na Rússia, desde que a URSS desfez-se.

Especialistas em aviação não têm dúvidas de que o MC-21 equipado com motor PD-14 superará facilmente os modelos que lhe fazem concorrência: o Airbus A320 e o Boeing-737.

Há também o motor PD-35 – que está sendo desenvolvido pela empresa Aviadvigatel, especificamente para um modelo de jato de grande porte, produção russo-chinesa, já anunciado, a ser construído em regime de joint venture pela empresa China-Rússia Commercial Aircraft International Corp Ltd (CRAIC), constituída em maio de 2017, em Xangai.

Especialistas em todo o mundo estão convencidos de que esse é o único projeto capaz de abalar o monopólio, que já dura décadas, das empresas Boeing e Airbus.

É possível que as sanções impeçam a Rússia de aperfeiçoar o MC-21 e de investir no novo avião de passageiros? Muito pouco provável. Para Andrei Martyanov, conhecido analista militar russo, essas sanções são, na melhor das hipóteses, “risíveis” – dado que “fabricantes de aviônica e peças” para os ultra sofisticados jatos de combate Su-35 e Su-57 podem facilmente suprir substitutos para os itens ocidentais nos jatos de passageiros

Oh China, como você é ‘maligna’!

Mesmo antes do relatório do Pentágono, já era claro que o objetivo número um do governo Trump em relação à China era, no limite, cortar as longas cadeias de itens produzidos por empresas norte-americanas que operam na Rússia, para suprir projetos russos, e reimplantá-las de volta nos EUA – com todas as suas dezenas de milhares de empregos.

Essa reorganização radical do capitalismo global pode não parecer muito sedutora para as multinacionais norte-americanas, porque perderiam todas as vantagens de custo-benefício que, de início, as levaram para a China. E as vantagens perdidas não serão compensadas com redução de impostos para as empresas.

Piora – do ponto de vista do comércio global: para os falcões da administração Trump, a reindustrialização dos EUA pressupõe a estagnação industrial chinesa. Isso explica, em grande medida, a demonização sem limites, em todos os seus aspectos, do movimento no campo da alta tecnologia chamado “Made in China 2025.

E tudo isso flui em paralelo para hiper demonizar também a Rússia. Assim temos o secretário do Interior dos EUA Ryan Zinke, que ameaçou nada menos do que implantar um bloqueio nos fluxos de energia russa: “Os EUA podem fazer isso, com nossa Marinha, para assegurar que as rotas marítimas permaneçam livres. Se necessário, bloquear (…) para assegurar que a energia deles não chegue ao mercado.”

A demonização comercial e industrial da China chegou a um paroxismo, com o vice-presidente Mike Pence acusando a China de “assédio imprudente”, tentando “difamar” e abalar a credibilidade de Trump e, até, de ser o principal culpado de se imiscuir nas eleições nos EUA, tirando do trono a Rússia. É coisa que não parece sintonizada com alguma estratégia que tenha, por objetivo principal, criar empregos nos EUA.

O Presidente Xi Jinping e seus assessores não são necessariamente avessos a fazer algumas concessões comerciais. Mas isso se torna impossível, do ponto de vista de Pequim, quando os EUA impõem sanções à China ‘porque’ compra sistemas de armas russos.

Pequim pode facilmente prever, escrita no muro das relações comerciais, uma consequência inevitável das acusações de Pence: sanções ao estilo da Lei Magnitsky, que sancionaram indivíduos e empresas russas, podem ser em breve estendidas também aos chineses.

Afinal, Pence disse que a alegada interferência da Rússia nos assuntos dos EUA sumia, em importância, se comparada às ações “malignas” da China.

O embaixador da China nos Estados Unidos, Cui Tiankai , em entrevista à Fox News, fez de tudo para se manter diplomático em alto estilo: “Seria difícil imaginar que um quinto da população mundial pudesse desenvolver-se e prosperar, confiando principalmente não nos próprios esforços, mas dependendo de tecnologia roubada, ou transferida de outros, à força (…) Não é possível. O povo chinês é tão trabalhador e diligente como qualquer outro na face da Terra”.

São posições a serem validadas mais uma vez em Bruxelas nesta semana, na cúpula bienal ASEM – Ásia Europa –, realizada pela primeira vez em 1996. Esse ano, o tema é “Europa e Ásia: parceiros globais e desafios globais”. No topo da agenda estão comércio, investimento e conectividade – pelo menos entre a Europa e a Ásia.

A ofensiva de Washington contra a China não deve ser interpretada sob a ótica de algum “comércio justo”, mas, sim, como estratégia para conter a China no campo tecnológico, o que toca no tema absolutamente crucial: impedir que a China desenvolva a conectividade que sustenta as cadeias de suprimentos estendidas, que estão no coração da iniciativa Cinturão e Estrada (ICE).

Não precisamos de concorrentes

Sinal muito claro de que essas sanções que coincidem sobre Rússia e China têm tudo a ver como o bom velho medo de Brzezinski, de que a Eurásia seja dominada por “concorrentes equivalentes” emergentes, apareceu recentemente, vindo de Wess Mitchell, secretária-assistente de Estado no Gabinete de Negócios Europeus e Asiáticos – cargo que já pertenceu a Victoria “Foda-se a União Europeia” Nuland.

Aqui se lê o depoimento original de Mitchell, à Comissão de Relações Exteriores do Senado. E aqui a versão já saneada pelo Departamento de Estado.

Um trecho crucial, no meio do segundo parágrafo, simplesmente desapareceu: “Permanece entre os principais interesses de segurança nacional dos Estados Unidos impedir que potências hostis dominem a massa de terra eurasiana”.

Não que já não soubessem, mas aí está toda a geopolítica de que Pequim e Moscou precisavam saber.*******


[1] Ver também, para mais detalhes: 29/9/2018, Arkady Savitsky, Strategic Culture Foundation (NTs).

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Pepe Escobar: Começam hoje 50 anos de guerra de tarifas? 

Trade-War
6/7/2018, Pepe Escobar, Asia Times

Traduzido pela Vila Vudu

Muito mais que primeiro tiro à meia-noite de hoje do que pode converter-se em terrível guerra comercial, a queda de braços de tarifas entre EUA e China deve ser vista no contexto de grande virada no Grande Quadro geopolítico e econômico.

O jogo de passar adiante as culpas, e todos os tipos de cenários de especulação de como pode evoluir a disputa de tarifas, são questões periféricas. O alvo crucialmente decisivo do que hoje se inicia não é algum “livre comércio” que seria disfuncional; o alvo é o projeto “Made in China 2025” – a China autoconfigurada como usina geradora de alta tecnologia equivalente, ou mesmo superando EUA e UE.

É sempre importante destacar que foi a Alemanha que, na verdade, forneceu o molde para “Made in China 2025”, mediante sua estratégia Indústria 4.0.

“Made in China 2025” tem por alvo 10 campos tecno-estratégicos: tecnologia de informação, incluindo redes 5G e cibersegurança; robótica, aeroespaço; engenharia oceânica; ferrovias para vagões de alta velocidade; veículos movidos a novas energias; equipamento elétrico; maquinaria para agricultura; novos materiais; e biomedicina. 

Para que o projeto “Made in China 2025” dê frutos, Pequim já investiu em cinco centros nacionais de produção de inovações e em 48 centros provinciais, parte de um projeto para chegar a 40 centros nacionais até 2025. E em 2030, via uma estratégia paralela, a China já deverá estar estabelecida também como líder no campo da inteligência artificial (IA).

“O Sonho Chinês”, mantra do presidente Xi Jinping, também conhecido como “o grande rejuvenescimento da nação chinesa”, é estritamente ligado não só a “Made in China 2025”, internamente, mas também, externamente, à Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE), conceito que dá organicidade à política exterior da China para todo o futuro planeável. E os dois tópicos – “Made in China 2025” e ICE – são absolutamente inegociáveis. 

Em agudo contraste, não se vê nem sinal no horizonte de qualquer projeto “Made in USA 2025”. A Casa Branca parece modular todo o processo como uma batalha contra a “agressão econômica dos chineses”. A Estratégia de Segurança Nacional define a China como principal força que desafia o poder dos EUA. A Estratégia de Defesa Nacional do Pentágono vê a China como “concorrente estratégico que usa economia predatória”. E como chegamos a isso?

Inovação ou morte 

E indispensável conhecer um pouco do contexto-cenário.

David Harvey, em O Novo Imperialismo, recorre a The Global Gamble: Washington’s Bid for Global Dominance de P. Gowan, para chamar atenção para o quanto ambos veem “a radical reestruturação do capitalismo internacional depois de 1973 como uma série de jogadas, tentadas pelos EUA, interessados em manter a própria posição hegemônica nos assuntos econômicos mundiais contra Europa, Japão e, depois, contra o Leste e o Sudeste da Ásia”.

Antes de o milênio acabar, Harvey já enfatizava o modo como Wall Street e o Tesouro dos EUA eram operados pelo Estado como “instrumento formidável de governança econômica para impulsionar os processos de globalização e as transformações domésticas neoliberais associadas.”

A China por seu lado jogou magistralmente seu jogo de reorientação do capitalismo – investindo sem meias medidas no que se pode descrever como “neoliberalismo com características chinesas”, e lucrando o máximo possível da projeção de poder econômico dos EUA via mercados abertos e os membros da Organização Mundial de Comércio.

Agora a China, em velocidade alucinante, está finalmente pronta a investir na projeção de seu próprio poder econômico. Como Harvey já observou há mais de uma década, o próximo passo para o capitalismo da Ásia Oriental seria “afastar-se do muito que depende do mercado norte-americano”, rumo ao “cultivo de um mercado interno”.

Harvey descreveu o programa de modernização massiva da China como “uma versão interna de reorientação espaço-temporal equivalente ao que os EUA fizeram internamente nos anos 1950s e 1960s mediante a suburbanização e o desenvolvimento do chamado Cinturão do Sol”. Na sequência, a China estaria “gradualmente drenando o capital excedente do Japão, de Taiwan e da Coreia do Sul e, assim, reduzindo os fluxos para os EUA”. Já está acontecendo.

O presidente Trump não é exatamente o que se diria um estrategista geopolítico. A razão para as novas tarifas pode ser forçar as cadeias de suprimento das empresas norte-americanas a reduzir o muito que dependem, hoje, da China. Mas o modo como a economia global foi montada não aguenta o desmanche dessas cadeias de suprimento – com a produção sendo des-deslocalizada de volta aos EUA, como diz Trump. O local, local, local também rege a lógica do capitalismo turbinado: as empresas sempre privilegiarão a mão de obra mais barata e os menores custos de produção, não importa onde estejam.

Agora, comparem isso à China que investe em deslocalização da alta tecnologia integrada com centros de excelência norte-americanos. No que se trate da cabeça do combate na linha da inovação entre China e EUA, a estratégica do Zhongguancun Development Group (ZDG) é caso fascinante.

O grupo ZDG estabeleceu vários centros de inovação fora da China. O principal Centro ZGC de Inovação está instalado em Santa Clara, Califórnia, bem perto de Stanford e dos campus de Google e Apple. Há agora um novo centro em Boston à distância de um grito de Harvard e do MIT.

Esses centros fornecem o pacote completo – desde laboratórios que são o estado da arte até – fator crucialmente importante – o capital, mediante um fundo de investimento. A matrix vem do governo de Pequim, pelo tecnodistrito da cidade. E nem é preciso dizer que o grupo ZDG está integralmente alinhado com a ICE e a ênfase que jamais é esquecida na expansão, para “aprender a experiência de outros países, de um ecossistema de inovação”

Isso, num microcosmo, é do que trata o projeto “Made in China 2025”.

Meio século de guerra comercial?

Assim sendo, o que acontecerá?

Sob o atual tsunami de histeria, a análise sóbria que nos vem de Li Xiao, decano da Escola de Economia da Universidade Jilin, é mais que bem-vinda.

Li vai logo à jugular. Destaca o quanto “a ascensão da China é, essencialmente, um ganho de status dentro do sistema do dólar.” Do ponto de vista de Pequim, é imperativo mudar, mas a mudança será gradual. “O objetivo da internacionalização do yuan não é substituir o dólar. No curto prazo, o sistema do dólar é insubstituível. Nosso objetivo para o yuan é reduzir o risco e o custo, sob o sistema do dólar.”

Com muito realismo, Li também admite que “o conflito entre as duas maiores potências prosseguirá por, no mínimo, 50 anos, talvez mais. Tudo o que está acontecendo hoje é apenas um show preliminar, antes do espetáculo principal da história.”

Implícita na metáfora do show preliminar, antes do espetáculo principal, é a ideia de que a liderança chinesa parece interpretar o primeiro tiro do tarifaço, à meia-noite de hoje, como um modo de reaquecer o que se lê na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. A conclusão, para Pequim é uma só e inescapável: agora, os EUA começaram a ameaçar o Sonho Chinês.

Dado que o Sonho Chinês, o “rejuvenescimento da nação chinesa”, “Made in China 2025”, a ICE, o multipolarismo e a China como motor da integração da Eurásia são itens absolutamente não negociáveis, não surpreende que o cenário esteja montado para forte, inevitável turbulência.*******

China – world power again | DW Documentary

China is on its way to becoming a socialist world power. After a time of revolution and reform, the country is entering a new era. As President Xi Jinping forges the path forward, a question remains: will the Chinese people continue to support him? At the Chinese Communist Party’s convention in fall of 2017, President Xi Jinping sent a clear message to the world: China is entering a new era. Many believe President Xi Jinping has brought the party back on track and has secured the support of the Chinese people. Speaking to delegates in October, Xi said it was time for the nation to be a global leader that could set an example on economic, political and environmental matters. Part of his plan for economic growth is Made in China 2025, an initiative that draws from Germany’s Industry 4.0 plan and aims to make advancements across many industries, including automotive, aircraft, pharmaceutical, and artificial intelligence. _______ Exciting, powerful and informative – DW Documentary is always close to current affairs and international events. Our eclectic mix of award-winning films and reports take you straight to the heart of the story. Dive into different cultures, journey across distant lands, and discover the inner workings of modern-day life. Subscribe and explore the world around you – every day, one DW Documentary at a time.

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SCO and BRICS: Bridges to a Shared Future

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2018-06-10 12:47:00
Source:China Today Author:EVANDRO MENEZES DE CARVALHO

The 18th Shanghai Cooperation Organization (SCO) Summit in Qingdao is an event that proves the Eurasian region has been the most dynamic in the world for the past two decades. Even with all the geopolitical complexity, SCO member countries have assumed their responsibilities in seeking integrated solutions to common problems.
When SCO was founded by its six initial members in June 2001, the organization anticipated what would become the main focus of the international agenda after September 11 in that same year: the fight against terrorism. But it also included fighting extremism and separatism as other types of threats to regional security and stability. SCO has been successful in these areas.
Because of the national needs of its members and international circumstances, SCO has gradually expanded its agenda. The perception that economic development contributes to reducing threats to peace is not new, but the approach of strategically integrating the two goals gains its own dimension in the context of SCO. The admission of India and Pakistan into the organization at the Astana Summit in 2017, comply with this dual imperative. The SCO is gradually coalescing objectives and being fused into a larger undertaking of transformation of the reality of Asia and, potentially, the world.
President Xi has continuously highlighted the importance of building a community with a shared future for humanity. The “Shanghai Spirit” – the core value of the SCO – which is mutual trust, mutual benefit, equality, consultation, respect for diverse civilizations, and pursuit of common development, is in line with Xi’s thought. There is an acknowledgement of the importance of these principles with the aim of forging a community with a shared future in the region. But for that concept to be more than mere rhetoric, it must be accompanied by the reaffirmation and designation of diplomatic practices.
The diplomatic lexicon that shaped the twentieth-century international system is gaining, in this twenty-first century, new terminologies, practices, and symbols from a more active and vibrant East. China is the country that has taken a leading role in the development of this new definition of international relations. The country has been engaged in designing concepts and promoting a network of new international organizations (SCO, AIIB, etc.), funds (Silk Road Fund), multilateral platforms, and forums (Boao Forum for Asia, Belt and Road Initiative, etc.) that seem to point to the emergence of a new grammar for world diplomacy and, consequently, a new way of organizing international society in the future.
Given this scenario, BRICS, as a multilateral political forum, and the New Development Bank, as an international organization, since they have three SCO member countries (China, Russia, and India), should be more actively involved in this large Asian network of formal and informal initiatives of cooperation. It means that, Brazil and South Africa, through BRICS, would have a legitimacy to participate more actively in Asian international relations. By doing so, both countries will be able to expand their diplomatic skills and affinities with Asian countries, learning to act faster and more effectively in a world where countries and organizations in Asia will define the new contours of the world’s future. SCO is one of the pillars of this new global reality.

Evandro Menezes de Carvalho is chief executive editor of the Portuguese version of China Today, director of the Center for BRICS countries Studies at Fluminense Federal University (UFF) and director of the Center for Brazil-China Studies at FGV, Brazil.

Fonte: China Today

Webinar “Investimentos Chineses no Brasil”

INSCREVER-SE 2,4 MIL
Webinar debate investimentos chineses no Brasil. Com a participação de William Pedroso, advogado; Larissa Wachholz, sócia diretora da Vallya; Roberto Dumas, professor; e Augusto Castro – Gerente do Núcleo China na Apex-Brasil.

Pepe Escobar: “Era Putin-Xi superará a (des)ordem liberal ocidental? “

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26/3/2018, Pepe Escobar, in The Vineyard of the Saker  (de Asia Times)

A emenda à Constituição chinesa, que passa a permitir mandatos subsequentes ao presidente Xi Jinping – de modo a que fique no poder por tempo suficiente para promover o “rejuvenescimento nacional” –, combinada às eleições na Rússia que confirmaram Vladimir Putin na presidência, garantiu consistência e continuidade à parceria estratégica Rússia-China até bem entrada a próxima década.

Com isso se facilitam a interação entre a Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) e a União Econômica Eurasiana (UEE); a coordenação política dentro da Organização de Cooperação de Xangai, nos BRICS e no G-20; e o movimento em geral rumo à integração da Eurásia.

O fortalecimento do que se deve ver como a era Putin-Xi só pode estar levando pânico aos liberais ocidentais.

Interesses capitalistas sempre acreditaram na própria narrativa de propaganda, que conecta diretamente a expansão capitalista e alguma inevitável expansão da democracia.

O pensamento crítico está afinal desmascarando, no mínimo, essa mais uma grande ilusão.

O que realmente aconteceu desde o início dos anos 1980s foi que o turbocapitalismo ocidental aproveitou-se avidamente de uma variedade de trabalho neoescravo nas Zonas Especiais Econômicas (ZEEs) da China. Combine isso com a proverbial húbris das elites ocidentais, apostando que a China – vista no melhor dos casos como fonte de trabalho barato – e uma Rússia enfraquecida durante os anos 1990s jamais conseguiriam acumular know-how para desafiar o ocidente, geoeconomicamente e geopoliticamente.

O registro histórico é implacável, mostrando que não há qualquer tipo de conexão entre comércio “livre” – usualmente mais livre para os de maior peso – e liberalização da política. Por exemplo, a monarquia prussiana rebaixou barreiras comerciais, o que levou à criação da Zollverein [união aduaneira de estados germânicos] em 1834. E o Terceiro Reich entre 1933 e 1938 ofereceu mistura perigosa de capitalismo e totalitarismo hardcore.

O sistema da China, onde um partido (marxista) controla o Estado para o objetivo de preservar a coesão nacional, com certeza não pode ser descrito como democracia liberal. O dissidente Minxin Pei, autor de China’s Trapped Transition [aprox. ‘a transição chinesa capturada’ (NTs)], já sabia, há 12 anos que o Partido Comunista Chinês jamais tomaria o rumo da democracia liberal ocidental (Pei tomou ao pé da letra as orientações do Pequeno Timoneiro Deng Xiaoping).

Compreendeu corretamente que a China “não tem interesse em se tornar membro do clube [do ocidente]. Querem os benefícios econômicos da ordem ocidental liberal [infelizmente benefícios sempre pra uns poucos! (NTs)], mas rejeitam os valores políticos [que infelizmente também beneficiam só uns poucos! (NTs)] e temem [com sobejas razões (NTs)] suas alianças de segurança. Hoje, a China está em posição suficientemente forte para construir seu próprio clube.”

Mas Pei concluiu erradamente que o PCC sufocaria o crescimento econômico da China (“O prospecto de uma estagnação semelhante à japonesa é real.”) Xi Jinping e seu novo dream team precisam de tempo suficiente para fazer andar o modelo econômico chinês.

Longe da demonização infantiloide 24h/dia, 7 dias por semana, fato é que a Rússia hoje é uma democracia, embora imperfeita. E é importante analisar como uma jovem democracia está exposta, quase indefesa, para ser manipulada.

O terceiro capítulo do novo livro Manifest-Destiny: Democracy as Cognitive Dissonance [aprox. “Destino Manifesto: democracia como cognição dissonante”*] detalha o estupro da Rússia; como as “reformas de livre mercado” de Boris Yeltsin facilitadas pelos “Harvard boys” permitiram que um pequeno grupo de oligarcas bilionários – Mikhail Khodorkovsky, Boris Berezovsky e Roman Abramovich dentre eles – tomassem posse de uma economia que passava então por terapia de choque.

Entre 1991 e 1997 O PIB russo despencou impressionantes 83%; o investimento na economia caiu 92%.

O caso de Khodorkovsky é emblemático. Através da empresa Yukos, o empresário era dono de campos de petróleo na Sibéria; e estava a um passo de vender tudo a interesses empresariais ocidentais, nos idos de 2003, quando Putin saiu ao seu encalço. Não há dúvida de que o processo foi intensamente estudado pela liderança em Pequim. Controlar interesses nacionais chaves é a derradeira absoluta linha vermelha.

Para Putin, como para Xi, o árbitro supremo é o Estado nacional, não uma gang de oligarcas como começa a virar regra em todo o ocidente liberal e antiliberal. No nível dos BRICS, comparem-se aqueles líderes nacionais e o usurpador que está atualmente instalado na presidência do Brasil, e que faz de tudo para entregar a maior parte que consiga entregar das reservas de petróleo na camada pré-sal do Brasil, além da gigante fabricante de aviões Embraer, a interesses não nacionais brasileiros.

Na dúvida, consulte Confúcio

Já se converteu num ritual para os guardiões do establishment ocidental chorar copiosamente sobre o “fim da ordem mundial liberal”. Alguns pelo menos admitem que, afinal, não é “liberal, nem é mundial, nem é ordem”.

Guardiões de mais baixo escalão podem ser mais realistas, e observar como políticos ocidentais já foram amplamente ultrapassados pela fúria popular em miríades de latitudes, sem deixar de acreditar que seja possível “reconstruir a democracia sobre fundamentos morais”.

Não é. Não, sob o credo neoliberal predominante, esse NHA (“Não Há Alternativa”, ing. TINA,There Is No Alternative“). Os guardiões, à esquerda e à direita, simplesmente não conseguem compreender o crescimento das forças populares – porque os que estejam sob influência das forças populares veem claramente o quanto e como os mitos do “estado de direito” e da “soberania nacional” vão rapidamente dissolvendo-se na lama. Aqueles guardiões, no melhor dos casos, lamentam com nostalgia “a perda da influência que a elite um dia teve”.

China, Rússia, Irã e Turquia – todos esses estados implicados na integração da Eurásia – podem ser classificados como sistemas autoritários em diferentes níveis. E há de haver quem argumente que, com exceção da China, todos esses estados ainda têm desempenho econômico abaixo dos respectivos verdadeiros potenciais.

Mesmo assim, todos esses estados valorizam acima de qualquer outro valor a própria soberania nacional, em sistema multipolar. Esse é o contraponto conceitual que esses estados oferecem à (des)ordem (nada)liberal mundial. Assim esses estados respondem ao NHA/TINA.

Quanto à “perda da influência que a elite um dia teve” é palavra-código para o amancebamento de ricos e poderosos que alardeiam democracias falsamente morais, que só fazem desmascarar o medo profundo que aquelas ‘elites’ sentem de que o momento unipolar do ocidente esteja em rápido processo de dissolução.

Todas essas contradições aparecem muito visíveis, quando se examina a União Europeia. A UE, desde o Tratado de Maastricht, foi manobrada para se tornar o que a própria Angela Merkel definiu como Bundesrepublik Europa – República Federal da Europa.

Quem conheça Bruxelas sabe como aquelas ondas de eurocratas isentos de impostos amamentam um sistema kafkiano de regulação burocraticamente ultracentralizado, ao mesmo tempo em que os próprios eurocratas mantêm-se completamente distantes e sem qualquer contato com europeus reais normais.

A noção da União Europeia como promotora de “integração econômica” incluindo pesadas doses de ‘austeridade’ não pode ser mais antidemocrática.

Acrescentem-se a isso os escândalos nos altos escalões do estado, que nada fazem além de desgastar e corroer a fé na primazia do modelo da democracia liberal ocidental. O mais recente envolve a real possibilidade de que o coronel Gaddafi tenha muito provavelmente financiado a campanha presidencial de Sarkozy em 2007 na França; negócio extraordinariamente sinistro pelo qual se veem as políticas de energia, as política da água, e os proverbiais grandes contratos de compra de armas para os quais as democracias liberais ocidentais descartam completamente qualquer preocupação moral decente.

Agora comparem tudo isso e esses, com Xi Jinping, elevado a hexin lingdao (o núcleo da liderança do PCC), espécie de primus inter pares numa versão sínica da República de Platão. A teoria política do Iluminismo greco-romano já não é o único pôquer que rola na cidade. Mas ainda não se vê qualquer sinal de que o ocidente tomado de húbris comece a aprender com Confúcio.

*****

* A expressão cognitive dissonance (ing.) e dissonance cognitive (fr.) aparece, com o significado que nos interessa aos estudos sociais, com Franz Fanon:

“Às vezes as pessoas têm uma crença central, muito forte. Quando são confrontadas com evidências que operam contra aquela crença, é difícil para elas aceitar a nova evidência. Assim se cria um sentimento extremamente desconfortável, que se chama “cognição dissonante“. E, porque lhes é muito importante proteger a crença central já existente, as pessoas racionalizam, ignoram e até negam qualquer evidência que não se encaixe naquela crença central” [Frantz Fanon, Pele negra, máscaras brancas (1963)].

Em geral a expressão aparece traduzida como “dissonância cognitiva”, que é tradução semanticamente errada, uma contradição em termos: a dissonância semântica entre os conteúdos que o conceito aproxima impede ou, no mínimo, dificulta muito, de fato, qualquer cognição logicamente consistente e produtiva para o pensamento. Tudo isso considerado, parece-nos que a única tradução q faz pleno sentido é “cognição dissonante” [NTs].

Trump brinca com a pólvora chinesa  

domingo, 25 de março de 2018

Por Wang Haiqing, colunista da agência de notícias Xinhua, no site Jornalistas Livres:

Em consonância com o apreço cada vez maior dos Estados Unidos pelo unilateralismo, o presidente Donald Trump anunciou seu remédio para as questões comerciais entre China e EUA: um plano para impor até US$ 60 bilhões em tarifas sobre importações de produtos vindos da China e colocar restrições aos investimentos chineses.

As duras medidas de Trump derivam de uma investigação da Secretaria de Comércio dos Estados Unidos, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974, uma ferramenta comercial frequentemente usada por Washington antes do advento da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A lei, que permite ao presidente dos EUA impor unilateralmente barreiras tarifárias, caiu em grande parte em desuso após a fundação da OMC em 1995.

Os EUA tentarem dar lustro a uma lei ultrapassada para a usarem contra um grande parceiro comercial reflete o desrespeito de Washington às regras da OMC, a espinha dorsal do atual sistema global de comércio, e para a qual os Estados Unidos tiveram um papel fundamental na criação.

Isso intensificou a impressão de que os Estados Unidos, na condição de potência hegemônica e de importante criador de regras no sistema global, estão sempre prontos para quebrar as regras que esperam que outros sigam na busca por seus próprios interesses egoístas.

Têm havido muitos exemplos da crescente tendência dos Estados Unidos ao unilateralismo desde que Trump assumiu a presidência.

Os Estados Unidos viraram as costas ao histórico acordo climático de Paris, ameaçaram abandonar o acordo nuclear com o Irã, retirar-se da Organização das Nações Unidas Para a Educação, a Cultura e a Ciência, reduzir maciçamente seu financiamento às Nações Unidas e coagir seus parceiros comerciais a renegociações de pactos como o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), apenas para citar alguns casos.

Ao recorrer ao unilateralismo, Washington renuncia a sua responsabilidade na manutenção do funcionamento de um sistema de comércio global baseado em regras e, ao mesmo tempo, aniquila a perspectiva de um mundo pacífico e mais próspero.

As pesadas tarifas planejadas pelos Estados Unidos sobre as importações chinesas causaram ondas de choque nos mercados de ações pelo mundo e aumentaram o medo generalizado de uma guerra comercial entre as duas maiores economias do planeta.

Dado o volume de comércio entre EUA e China e o fato de que as economias estão mais interconectadas do que nunca, uma guerra comercial no Pacífico causará transtornos em todo o mundo, o que levaria os países a adotar ações comerciais unilaterais em vez de levarem suas disputas à OMC, abalando assim a própria base do sistema global de comércio.

Muito está em jogo caso os Estados Unidos prossigam com sua abordagem truculenta contra a China em relação ao comércio.

Pequim entende essas conquistas vitais e em nenhum momento busca uma guerra comercial com Washington. No entanto, se a administração Trump finalmente decidir lançar uma guerra comercial total contra a China, o país asiático será forçado a revidar.

O presidente Trump certa vez twittou que “as guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar”. Bem, ele talvez queira mudar de ideia quando um conflito de verdade estiver em andamento.

* Link para o texto original:
http://www.xinhuanet.com/english/2018-03/23/c_137060383.htm