Pepe Escobar: “O Brasil no epicentro da Guerra Híbrida” (30/03/2016)

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POR  PEPE ESCOBAR– ON 30/03/2016

Que são, nos manuais norte-americanos, as ações não-convencionais contra “forças hostis” a Washington. A centralidade do Pré-Sal no impeachment. Como os super-ricos cooptam a velha classe média

Por Pepe Escobar | Tradução: Vinícius Gomes Melo e Inês Castilho

Revoluções coloridas nunca são demais. Os Estados Unidos, ou o Excepcionalistão, estão sempre atrás de atualizações de suas estratégias para perpetuar a hegemonia do seu Império do Caos.

A matriz ideológica e o modus operandi das revoluções coloridas já são, a essa altura, de domínio público. Nem tanto, ainda, o conceito de Guerra Não-Convencional (UW, na sigla em inglês).

Esse conceito surgiu em 2010, derivado do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais. Eis a citação-chave: O objetivo dos esforços dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […] Num futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês)”.

Potências hostis” são entendidas aqui não apenas no sentido militar; qualquer país que ouse desafiar um fundamento da “ordem” mundial centrada em Washington pode ser rotulado como “hostil” – do Sudão à Argentina.

As ligações perigosas entre as revoluções coloridas e o conceito de Guerra Não-Convencional já desabrocharam, transformando-se em Guerra Híbrida; caso perverso de Flores do Mal. Revolução colorida nada mais é que o primeiro estágio daquilo que se tornará a Guerra Híbrida. E Guerra Híbrida pode ser interpretada essencialmente como a Teoria do Caos armada – um conceito absoluto queridinho dos militares norte-americanos (“a política é a continuidade da guerra por meios linguísticos”). Meu livro Império do Caos, de 2014, trata essencialmente de rastrear uma miríade de suas ramificações.

Essa bem fundamentada tese em três partes esclarece o objetivo central por trás de uma Guerra Híbrida em larga escala: “destruir projetos conectados transnacionais multipolares por meio de conflitos provocados externamente (étnicos, religiosos, políticos etc.) dentro de um país alvo”.Os países do BRICS (Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul) – uma sigla/conceito amaldiçoada no eixo Casa Branca-Wall Street – só tinham de ser os primeiros alvos da Guerra Híbrida. Por uma miríade de razões, entre elas: o plano de realizar comércio e negócios em suas próprias moedas, evitando o dólar norte-americano; a criação do banco de desenvolvimento dos BRICS; a declarada intenção de aumentar a integração na Eurásia, simbolizada pela hoje convergente “Rota da Seda”, liderada pela China – Um Cinturão, Uma Estrada (OBOR, na sigla em inglês), na terminologia oficial – e pela União Econômica da Eurásia, liderada pela Rússia (EEU, na sigla em inglês).

Isso implica em que, mais cedo do que tarde, a Guerra Híbrida atingirá a Ásia Central; o Quirguistão é o candidato ideal a primeiro laboratório para as experiências tipo revolução colorida dos Estados Unidos, ou o Excepcionalistão.

No estágio atual, a Guerra Híbrida está muito ativa nas fronteiras ocidentais da Rússia (Ucrânia), mas ainda embrionária em Xinjiang, oeste longínquo da China, que Pequim microgerencia como um falcão. A Guerra Híbrida também já está sendo aplicada para evitar o estratagema da construção de um oleoduto crucial, a construção do Ramo da Turquia. E será também totalmente aplicada para interromper a Rota da Seda nos Bálcãs – vital para a integração comercial da China com a Europa Oriental.

Uma vez que os BRICS são a única e verdadeira força em contraposição ao Excepcionalistão, foi necessário desenvolver uma estratégia para cada um de seus principais personagens. O jogo foi pesado contra a Rússiade sanções à completa demonização, passando por um ataque frontal a sua moeda, uma guerra de preços do petróleo e até mesmo uma (patética) tentativa de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou. Para um membro mais fraco dos BRICS foi preciso utilizar uma estratégia mais sutil, o que nos leva à complexidade da Guerra Híbrida aplicada à atual, maciça desestabilização política e econômica do Brasil.

No manual da Guerra Híbrida, a percepção da influência de uma vasta “classe média não-engajada” é essencial para chegar ao sucesso, de forma que esses não-engajados tornem-se, mais cedo ou mais tarde, contrários a seus líderes políticos. O processo inclui tudo, de “apoio à insurgência” (como na Síria) a “ampliação do descontentamento por meio de propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo” (como no Brasil). E conforme cresce a insurreição, cresce também a “intensificação da propaganda; e a preparação psicológica da população para a rebelião.” Esse, em resumo, tem sido o caso brasileiro.

Precisamos do nosso próprio Saddam

Um dos maiores objetivos estratégicos do Excepcionalistão é em geral um mix de revolução colorida e Guerra Híbrida. Mas a sociedade brasileira e sua vibrante democracia eram muito sofisticadas para métodos tipo hard, tais como sanções ou a “responsabilidade de proteger” (R2P, na sigla em inglês).

Não por acaso, São Paulo tornou-se o epicentro da Guerra Híbrida contra o Brasil. Capital do estado mais rico do Brasil e também capital econômico-financeira da América Latina, São Paulo é o nódulo central de uma estrutura de poder interconectada nacional e internacionalmente.

O sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil.

A “Primavera Brasileira” foi virtualmente invisível, no início, um fenômeno exclusivo das mídias sociais – tal qual a Síria, no começo de 2011.

Foi quando, em junho de 2013, Edward Snowden revelou as famosas práticas de espionagem da NSA. No Brasil, a questão era espionar a Petrobras. E então, num passe de mágica, um juiz regional de primeira instância, Sérgio Moro, com base numa única fonte – um doleiro, operador de câmbio no mercado negro – teve acesso a um grande volume de documentos sobre a Petrobras. Até o momento, a investigação de dois anos da Lava Jato não revelou como eles conseguiram saber tanto sobre o que chamaram de “célula criminosa” que agia dentro da Petrobras.

O importante é que o modus operandi da revolução colorida – a luta contra a corrupção e “em defesa da democracia” – já estava sendo colocada em prática. Aquele era o primeiro passo da Guerra Híbrida.

Como cunhado pelos Excepcionalistas, há “bons” e “maus” terroristas causando estragos em toda a “Siraq”; no Brasil há uma explosão das figuras do corrupto “bom” e do corrupto “ruim”.

O Wikileaks revelou também como os Excepcionalistas duvidaram da capacidade do Brasil de projetar um submarino nuclear – uma questão de segurança nacional. Como a construtora Odebrecht tornava-se global. Como a Petrobras desenvolveu, por conta própria, a tecnologia para explorar depósitos do pré sal – a maior descoberta de petróleo deste jovem século 21, da qual as Grandes Petrolíferas dos EUA foram excluídas por ninguém menos que Lula.

Então, como resultado das revelações de Snowden, a administração Roussef exigiu que todas as agências do governo usassem empresas estatais em seus serviços de tecnologia. Isso poderia significar que as companhias norte-americanas perderiam até US$ 35 bilhões de receita em dois anos, ao ser excluídos de negociar na 7ª maior economia do mundo – como descobriu o grupo de pesquisa Fundação para a Informação, Tecnologia & Inovação (Information Technology & Innovation Foundation).

O futuro acontece agora

A marcha em direção à Guerra Híbrida no Brasil teve pouco a ver com as tendências políticas de direita ou esquerda. Foi basicamente sobre a mobilização de algumas famílias ultra ricas que governam de fato o país; da compra de grandes parcelas do Congresso; do controle dos meios de comunicação; do comportamento de donos de escravos do século 19 (a escravidão ainda permeia todas as relações sociais no Brasil); e de legitimar tudo isso por meio de uma robusta, embora espúria tradição intelectual.

Eles dariam o sinal para a mobilização da classe média. O sociólogo Jesse de Souza identificou uma freudiana “gratificação substitutiva”, fenômeno pelo qual a classe média brasileira – grande parte da qual clama agora pela mudança do regime – imita os poucos ultra ricos, embora seja impiedosamente explorada por eles, através de um monte de impostos e altíssimas taxas de juros.

Os 0,0001% ultra ricos e as classes médias precisavam de um Outro para demonizar – no estilo Excepcionalista. E nada poderia ser mais perfeito para o velho complexo da elite judicial-policial-midiática do que a figura de um Saddam Hussein tropical: o ex-presidente Lula.

“Movimentos” de ultra direita financiados pelos nefastos Irmãos Kock pipocaram repentinamente nas redes sociais e nos protestos de rua. O procurador geral de justiça do Brasil visitou o Império do Caos chefiando uma equipe da Lava Jato para distribuir informações sobre a Petrobras que poderiam sustentar acusações do Ministério da Justiça. A Lava Jato e o – imensamente corrupto – Congresso brasileiro, que irá agora deliberar sobre o possível impeachment da presidente Roussef, revelaram-se uma coisa só.

Àquela altura, os roteiristas estavar seguros de que a infra-estrutura social para a mudança de regime já havia produzido uma massa crítica anti-governo, permitindo assim o pleno florescimento da revolução colorida. O caminho para um golpe soft estava pavimentado – sem ter sequer de recorrer ao mortal terrorismo urbano (como na Ucrânia). O problema era que, se o golpe soft falhasse – como parece ser pelo menos possível, agora – seria muito difícil desencadear um golpe duro, estilo Pinochet, através da UW, contra a administração sitiada de Roussef; ou seja, executando finalmente a Guerra Híbrida Total.

No nível socioeconômico, a Lava Jato seria um “sucesso” total somente se fosse espelhada por um abrandamento das leis brasileiras que regulam a exploração do petróleo, abrindo-a para as Grandes Petrolíferas dos EUA. Paralelamente, todos os investimentos em programas sociais teriam de ser esmagados.

Ao contrário, o que está acontecendo agora é a mobilização progressiva da sociedade civil brasileira contra o cenário de golpe branco/golpe soft/mudança de regime. Atores cruciais da sociedade brasileira estão se posicionando firmemente contra o impeachment da presidente Rousseff, da igreja católica aos evangélicos; professores universitários do primeiro escalão; ao menos 15 governadores estaduais; massas de trabalhadores sindicalizados e trabalhadores da “economia informal”; artistas; intelectuais de destaque; juristas; a grande maioria dos advogados; e por último, mas não menos importante, o “Brasil profundo” que elegeu Rousseff legalmente, com 54,5 milhões de votos.

A disputa não chegará ao fim até que se ouça o canto de algum homem gordo do Supremo Tribunal Federal. Certo é que os acadêmicos brasileiros independentes já estão lançando as bases para pesquisar a Lava Jato não como uma operação anti-corrupção simples e maciça; mas como estudo de caso final da estratégia geopolítica dos Exceptionalistas, aplicada a um ambiente globalizado sofisticado, dominado por tecnologia da informação e redes sociais. Todo o mundo em desenvolvimento deveria ficar inteiramente alerta – e aprender as relevantes lições, já que o Brasil está fadado a ser visto como último caso da Soft Guerra Híbrida

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Os EUA e o GOLPE do Impeachment de Dilma – jornalista Pepe Escobar

 

Climate-Smart Poultry Farming Brings Prosperity to Kenya’s Smallholders

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24/10/2016

A barrage of squawks greets Mercy Wairimu every time she steps into the two story chicken coop that stands in her backyard. The poultry farmer from Nakuru County in Kenya beams. The noise from her chickens, which number in the hundreds, reminds her of how far she’s come.

“I have been in this business for ten years now. I used to have a few small indigenous chickens here and there, running around my compound,” explains Mercy. “But then the Kenya Agricultural Productivity and Agribusiness Project (KAPAP) came. It expanded my mind and my business. I now have 1000 birds.”

The KAPAP is a Government of Kenya initiative supported by the World Bank whose aim is to improve agricultural productivity and the incomes of smallholders. It does so through a range of activities, including supporting research and developing agriculture value chains. Farmers have benefited from KAPAP’s provision of new technologies, improved market access and climate-smart agriculture approaches especially in dairy farming, potato and pea cropping, apiculture and poultry rearing, to name just a few. Some of the beneficiaries have even expanded their operations to practice more than one type of farming.

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Scaling Up Urban Energy Efficiency in Mexico

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27/04/2016

Mexico is rapidly urbanizing. Estimates show that by 2027, the country’s urban dwellers will make up 88% of the population. Annual energy consumption has been on the rise, increasing at an annual rate of 2% over the 2000-11 period, and surpassing economic growth which stood at 1.8%. At the same time, Mexico has defined energy efficiency as a transformational priority in its National Energy Strategy, and is implementing reforms aimed at increasing productivity, competition, and overall efficiency in the sector. The country has also placed climate change mitigation and adaptation on top of its national agenda; thus energy efficiency playing a key role in its Nationally Determined Contributions.

Recognizing the importance of cities in achieving the country’s energy and climate change goals, as well as the benefits for cities themselves, the Government of Mexico partnered with the World Bank on a $156 million Municipal Energy Efficiency Project to finance the design and implementation of energy efficiency investments in several Mexican cities across the country.

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Breaking the Link Between Extreme Weather and Extreme Poverty

14/11/2016

In 2013, an estimated one million Filipinos were plunged into poverty after Typhoon Haiyan sapped $12.9 billion from the national economy and destroyed over a million homes.

No sooner had the 2010 Cyclone Aila devastated coastal areas of Bangladesh than unemployment and poverty levels surged 49 percent and 22 percent, respectively.

Economic strains facing Guatemala after Hurricane Stan in 2005 forced 7.3 percent of affected families to send children to work instead of school.

Whenever disaster strikes, it leaves more than just a trail of devastation—it also leaves communities further in the grip of poverty.

And yet, when we hear of natural disasters today, their financial cost—that is, the damage inflicted on buildings, infrastructure, and agricultural production—is what catches the headlines. New research, however, suggests that reducing natural disasters to their monetary impact does not paint the whole picture. In fact, it distorts it.

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Violência na República Democrática do Congo deixa mais de 3 mil mortos em oito meses

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Voluntária leva alimentos para deslocados pelo conflito na região de Kasai (foto de 7 de junho de 2016) Foto: JOHN WESSELS / AFP / AFP

20/06/17

Desde setembro de 2016, a região de Kasai é abalada por uma rebelião que já causou o deslocamento de 1,3 milhão de pessoas

Mais de 3 mil pessoas morreram desde outubro de 2016 na região do Kasai, no centro da República Democrática do Congo (RDC), de acordo com um documento da Nunciatura Apostólica no país. A nota técnica cita 3.383 mortes registradas desde outubro no Kasai, enquanto a ONU registrava um balanço estimado de “mais de 400 mortos”.

O documento apresenta um “resumo dos danos sofridos pelas instituições eclesiásticas” baseado em relatórios a partir de 13 de outubro de 2016 — quando aconteceu um primeiro ataque a uma paróquia.

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Panamá, de construir un canal a fabricar un Estado

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27/12/2016, by Adrián Albiac

Muchos pensarán que el canal de Panamá recibe su nombre de la república que lo alberga; sin embargo, la historia es más bien al revés. En este artículo trataremos de desvelar los orígenes de un país confeccionado por políticos y lobistas de Wall Street.

En la mesita de noche de la suite 1162 del hotel Walford Astoria descansa entreabierta la novela Captain Macklin. Publicada en 1902, relata las aventuras de un joven cadete de West Point y un veterano militar francés que, tras acabar en Honduras, inician una revolución que los llevará hasta la presidencia del país. La historia, más allá de la entretenida acción de la novela, puede que no sea demasiado transcendente; sin embargo, en las manos adecuadas, puede resultar tremendamente inspiradora.

Jon Hay, que además de secretario de Estado de los EE. UU. es un gran lector, es consciente de esto y en su último encuentro con Philippe Bunau-Varilla ha procurado entregarle un ejemplar de la novela al francés. ¿Por qué no fingir ser esos dos grandes aventureros de Captain MacKlin? Al fin y al cabo, ellos también llevan varios meses intentando crear un nuevo país en Centroamérica. Si en la novela MacKlin y el general Laguerre tenían Honduras, ellos tendrán Panamá.

No obstante, retrocedamos un poco. Como todas las buenas historias, esta debe ser contada desde el principio.

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