Pepe Escobar: Começam hoje 50 anos de guerra de tarifas? 

Trade-War
6/7/2018, Pepe Escobar, Asia Times

Traduzido pela Vila Vudu

Muito mais que primeiro tiro à meia-noite de hoje do que pode converter-se em terrível guerra comercial, a queda de braços de tarifas entre EUA e China deve ser vista no contexto de grande virada no Grande Quadro geopolítico e econômico.

O jogo de passar adiante as culpas, e todos os tipos de cenários de especulação de como pode evoluir a disputa de tarifas, são questões periféricas. O alvo crucialmente decisivo do que hoje se inicia não é algum “livre comércio” que seria disfuncional; o alvo é o projeto “Made in China 2025” – a China autoconfigurada como usina geradora de alta tecnologia equivalente, ou mesmo superando EUA e UE.

É sempre importante destacar que foi a Alemanha que, na verdade, forneceu o molde para “Made in China 2025”, mediante sua estratégia Indústria 4.0.

“Made in China 2025” tem por alvo 10 campos tecno-estratégicos: tecnologia de informação, incluindo redes 5G e cibersegurança; robótica, aeroespaço; engenharia oceânica; ferrovias para vagões de alta velocidade; veículos movidos a novas energias; equipamento elétrico; maquinaria para agricultura; novos materiais; e biomedicina. 

Para que o projeto “Made in China 2025” dê frutos, Pequim já investiu em cinco centros nacionais de produção de inovações e em 48 centros provinciais, parte de um projeto para chegar a 40 centros nacionais até 2025. E em 2030, via uma estratégia paralela, a China já deverá estar estabelecida também como líder no campo da inteligência artificial (IA).

“O Sonho Chinês”, mantra do presidente Xi Jinping, também conhecido como “o grande rejuvenescimento da nação chinesa”, é estritamente ligado não só a “Made in China 2025”, internamente, mas também, externamente, à Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE), conceito que dá organicidade à política exterior da China para todo o futuro planeável. E os dois tópicos – “Made in China 2025” e ICE – são absolutamente inegociáveis. 

Em agudo contraste, não se vê nem sinal no horizonte de qualquer projeto “Made in USA 2025”. A Casa Branca parece modular todo o processo como uma batalha contra a “agressão econômica dos chineses”. A Estratégia de Segurança Nacional define a China como principal força que desafia o poder dos EUA. A Estratégia de Defesa Nacional do Pentágono vê a China como “concorrente estratégico que usa economia predatória”. E como chegamos a isso?

Inovação ou morte 

E indispensável conhecer um pouco do contexto-cenário.

David Harvey, em O Novo Imperialismo, recorre a The Global Gamble: Washington’s Bid for Global Dominance de P. Gowan, para chamar atenção para o quanto ambos veem “a radical reestruturação do capitalismo internacional depois de 1973 como uma série de jogadas, tentadas pelos EUA, interessados em manter a própria posição hegemônica nos assuntos econômicos mundiais contra Europa, Japão e, depois, contra o Leste e o Sudeste da Ásia”.

Antes de o milênio acabar, Harvey já enfatizava o modo como Wall Street e o Tesouro dos EUA eram operados pelo Estado como “instrumento formidável de governança econômica para impulsionar os processos de globalização e as transformações domésticas neoliberais associadas.”

A China por seu lado jogou magistralmente seu jogo de reorientação do capitalismo – investindo sem meias medidas no que se pode descrever como “neoliberalismo com características chinesas”, e lucrando o máximo possível da projeção de poder econômico dos EUA via mercados abertos e os membros da Organização Mundial de Comércio.

Agora a China, em velocidade alucinante, está finalmente pronta a investir na projeção de seu próprio poder econômico. Como Harvey já observou há mais de uma década, o próximo passo para o capitalismo da Ásia Oriental seria “afastar-se do muito que depende do mercado norte-americano”, rumo ao “cultivo de um mercado interno”.

Harvey descreveu o programa de modernização massiva da China como “uma versão interna de reorientação espaço-temporal equivalente ao que os EUA fizeram internamente nos anos 1950s e 1960s mediante a suburbanização e o desenvolvimento do chamado Cinturão do Sol”. Na sequência, a China estaria “gradualmente drenando o capital excedente do Japão, de Taiwan e da Coreia do Sul e, assim, reduzindo os fluxos para os EUA”. Já está acontecendo.

O presidente Trump não é exatamente o que se diria um estrategista geopolítico. A razão para as novas tarifas pode ser forçar as cadeias de suprimento das empresas norte-americanas a reduzir o muito que dependem, hoje, da China. Mas o modo como a economia global foi montada não aguenta o desmanche dessas cadeias de suprimento – com a produção sendo des-deslocalizada de volta aos EUA, como diz Trump. O local, local, local também rege a lógica do capitalismo turbinado: as empresas sempre privilegiarão a mão de obra mais barata e os menores custos de produção, não importa onde estejam.

Agora, comparem isso à China que investe em deslocalização da alta tecnologia integrada com centros de excelência norte-americanos. No que se trate da cabeça do combate na linha da inovação entre China e EUA, a estratégica do Zhongguancun Development Group (ZDG) é caso fascinante.

O grupo ZDG estabeleceu vários centros de inovação fora da China. O principal Centro ZGC de Inovação está instalado em Santa Clara, Califórnia, bem perto de Stanford e dos campus de Google e Apple. Há agora um novo centro em Boston à distância de um grito de Harvard e do MIT.

Esses centros fornecem o pacote completo – desde laboratórios que são o estado da arte até – fator crucialmente importante – o capital, mediante um fundo de investimento. A matrix vem do governo de Pequim, pelo tecnodistrito da cidade. E nem é preciso dizer que o grupo ZDG está integralmente alinhado com a ICE e a ênfase que jamais é esquecida na expansão, para “aprender a experiência de outros países, de um ecossistema de inovação”

Isso, num microcosmo, é do que trata o projeto “Made in China 2025”.

Meio século de guerra comercial?

Assim sendo, o que acontecerá?

Sob o atual tsunami de histeria, a análise sóbria que nos vem de Li Xiao, decano da Escola de Economia da Universidade Jilin, é mais que bem-vinda.

Li vai logo à jugular. Destaca o quanto “a ascensão da China é, essencialmente, um ganho de status dentro do sistema do dólar.” Do ponto de vista de Pequim, é imperativo mudar, mas a mudança será gradual. “O objetivo da internacionalização do yuan não é substituir o dólar. No curto prazo, o sistema do dólar é insubstituível. Nosso objetivo para o yuan é reduzir o risco e o custo, sob o sistema do dólar.”

Com muito realismo, Li também admite que “o conflito entre as duas maiores potências prosseguirá por, no mínimo, 50 anos, talvez mais. Tudo o que está acontecendo hoje é apenas um show preliminar, antes do espetáculo principal da história.”

Implícita na metáfora do show preliminar, antes do espetáculo principal, é a ideia de que a liderança chinesa parece interpretar o primeiro tiro do tarifaço, à meia-noite de hoje, como um modo de reaquecer o que se lê na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. A conclusão, para Pequim é uma só e inescapável: agora, os EUA começaram a ameaçar o Sonho Chinês.

Dado que o Sonho Chinês, o “rejuvenescimento da nação chinesa”, “Made in China 2025”, a ICE, o multipolarismo e a China como motor da integração da Eurásia são itens absolutamente não negociáveis, não surpreende que o cenário esteja montado para forte, inevitável turbulência.*******

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Anatomia do golpe: as pegadas americanas 

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3/7/2017, Tereza Cruvinel – Conversa Afiada

O golpe em curso no Brasil é sofisticada operação político-financeira-jurídico-midiática, tipo guerra híbrida. E será muito difícil deslindá-la”, diz o jornalista Pepe Escobar. E mais difícil fica na medida em que surgem contradições entre seus próprios artífices. A enxurrada de conversas que Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro e um dos operadores do Petrolão, teve e gravou com cardeais do PMDB, induz à ilusória percepção de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff foi apenas um golpe tupuniquim, armado pela elite política carcomida para deter a Lava Jato e lograr a impunidade. O procedimento “legal” que garantiu a troca de Dilma por Temer, para que ela faça o que está fazendo, foi peça de operação maior e mais poderosa desencadeada ainda em 2013 para atender a interesses internos e internacionais. E nela ficaram pegadas da ação norte-americana.

Interesses internos: remover Dilma, criminalizar o PT, inviabilizar Lula como candidato a 2018 e implantar uma política econômica ultra-liberal, encerrando o ciclo inclusivo e distributivista. Interesses externos: alterar a regra do pré-sal e inverter a política externa multilateralista que resultou nos BRICS, na integração sul-americana e em outros alinhamentos Sul-Sul.

As gravações de Machado desmoralizam o processo e seus agentes e complicam a evolução do governo Temer mas nem por isso o inteiro teor da trama pode ser reduzido à confissão de Romero Jucá, de que uma reunião de caciques do PMDB, PSDB, DEM e partidos conservadores menores, em reuniões noturnas, decidiram que era hora de afastar Dilma para se salvarem. E daí vieram a votação de 17 de abril na Câmara, a farsa da comissão especial e a votação do dia 11 de maio no Senado.

Um longo caminho, entretanto, foi percorrido até que estes atos “legais” fossem consumados. Para ele contribuíram a Lava Jato e suas estrelas, a Fiesp com seu suporte a grupos pró-impeachment e o aliciamento de deputados, o mercado com seus jogos especulativos na bolsa e no câmbio para acirrar a crise, Eduardo Cunha e seus asseclas com as pautas bombas na Câmara. E também as obscuras mas perceptíveis ações da NSA, Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, e da CIA, na pavimentação do caminho e na fermentação do clima propício ao desfecho. Os grampos contra Dilma, autoridades do governo e da Petrobrás, os protestos contra o governo, o desmanche econômico e a dissolução da base parlamentar, tudo se entrecruzou entre 2013 e 2016.

Se os que aparecem agora nas conversas gravadas buscaram poder, impunidade e retrocesso ao país de poucos e para poucos, os agentes externos miraram o projeto de soberania nacional e o controle de recursos estratégicos, em particular o petróleo do Pré-Sal. Não por acaso, a aprovação do projeto Serra, que suprime a participação mínima obrigatória da Petrobrás, em 30%, na exploração de todos os campos licitados, entrou na agenda de prioridades legislativas do novo governo.

Muito já se falou da coincidente chegada ao Brasil, em agosto de 2013, de Liliana Ayalde como embaixadora dos Estados Unidos, depois de ter servido no Paraguai entre 2008 e 2011, saindo pouco antes do golpe parlamentar contra o ex-presidente Fernando Lugo. Num telegrama ao Departamento de Estado, em 2009, vazado por Wikileaks, ela disse:. “Temos sido cuidadosos em expressar nosso apoio público às instituições democráticas do Paraguai – não a Lugo pessoalmente”. E num outro, mais tarde : “nossa influência aqui é muito maior que as nossas pegadas”.

O que nunca se falou foi que a própria presidente Dilma, tomando conhecimento dos encontros que Ayalde vinha tendo com expoentes da oposição no Congresso, mandou um emissário avisá-la de que via com preocupação tais movimentos. Eles cessaram, pelo menos ostensivamente. Ayalde havia chegado pouco antes da Lava Jato esquentar e no curso da crise diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos, detonada pela denúncia do Wikleaks de que a NSA havia grampeado Dilma, Petrobrás e outros tantos. Segundo Edward , o ex-agente da NSA que denunciou a bibilhotagem, “em 2013 o Brasil foi o país mais espionado do mundo”. Em Brasília funcionou uma das 16 bases americanas de coleta de informações, uma das maiores.

A regra de exploração do pré-sal e a participação do Brasil nos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, India. Chia e Africa do Sul), especialmente depois da criação, pelo bloco, de um banco de desenvolvimento com capital inicial de US 100 bilhões, encabeçaram as contrariedades americanas com o governo Dilma.

Recuemos um pouco. Em dezembro de 2012, as jornalistas Cátia Seabra e Juliana Rocha publicaram na Folha de São Paulo telegrama diplomático vazado por Wikileaks, relatando a promessa do candidato José Serra a uma executiva da Chevron, de que uma vez eleito mudaria o modelo de partilha da exploração do pré-sal fixado pelo governo Lula: a Petrobrás como exploradora única, a participação obrigatória de 30% em cada campo de extração e o conteúdo nacional dos equipamentos. Estas regras, as petroleiras americanas nunca aceitaram. Elas querem um campo livre como o Iraque pós-Saddam. A Folha teve acesso a seis telegramas relatando o inconformismo delas com o modelo e até reclamando da “falta de senso de urgência do PSDB”. Serra perdeu para Dilma em 2010 mas como senador eleito em 2014, apresentou o projeto agora encampado pelo governo Temer.

No primeiro mandato, Dilma surfava em altos índices de popularidade até que, de repente, a pretexto de um aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus de São Paulo, estouraram as manifestações de junho de 2013. Iniciadas por um grupo com atuação legítima, o Movimento Passe Livre, elas ganham adesão espontânea da classe média (que o governo não compreendeu bem como anseio de participação) e passam a ser dominadas por grupos de direita que, pela primeira vez, davam as caras nas ruas. Alguns, usando máscaras. Outros, praticando o vandalismo. Muitos inocentes úteis entraram no jogo. Mais tarde é que se soube que pelo menos um dos grupos, o MBL, era financiado por uma organização de direita norte-americana da família Koch. E só recentemente um áudio revelou que o grupo (e certamente outros) receberam recursos também do PMDB, PSDB, DEM e SD.

Aparentemente a ferida em Dilma foi pequena. Mas o pequeno filete de sangue atiçou os tubarões. Começava a corrida para devorá-la. A popularidade despencou, a situação econômica desandou, veio a campanha de 2014 e tudo o que se seguiu.

Mas nesta altura, a espionagem da NSA já havia acontecido, tendo talvez como motivação inicial a guerra do pré-sal. Escutando e gravando, encontraram outra coisa, o esquema de corrupção. E aqui entram os sinais de que as informações recolhidas foram decisivas para a decolagem da Lava Jato. Foi logo depois do Junho de 2013 que as investigações avançaram. A partir da prisão do doleiro Alberto Yousseff, numa operação que não tinha conexão com a Petrobrás, o juiz federal Sergio Moro consegue levar para sua alçada em Curitiba as investigações sobre corrupção na empresa que tem sede no Rio, devendo ter ali o juiz natural do caso. Moro havia participado, em 2009, segundo informe diplomático também vazado por Wikileaks, de seminário de cooperação promovido pelo Departamento de Estado, o Projeto Pontes, destinado a treinar juízes, procuradores e policiais federais no combate à lavagem de dinheiro e contraterrorismo. Participaram também agentes do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai. Teria também muitas conexões com procuradores norte-americanos.

Com a prisão de Yousseff, a Lava Jato deslancha como um foguete. Os primeiros presos já se defrontam com uma força tarefa que detinha um mundo de informações sobre o esquema na Petrobrás. Executivos e sócios de empreiteiras rendiam-se às ofertas de delação premiada diante da evidência de que negar era inútil, só agravaria suas penas. O estilo espetaculoso das operações e uma bem sucedida tática de comunicação dos procuradores e delegados federais semeou a indignação popular. Vazamentos seletivos adubaram o ódio ao PT como “cérebro” do esquema.

As coisas foram caminhando juntas, na Lava Jato, na economia e na política. A partir do início do segundo mandato de Dilma, ganharam sincronia fina. Na Câmara, Eduardo Cunha massacrava o governo e a cada derrota o mercado reagia negativamente. A Lava Jato, com a ajuda da mídia, envenenava corações e mentes contra o governo. Os movimentos de direita e pró-impeachment ganharam recursos e músculos para organizar as manifestações que culminaram na de 15 de março. A Fiesp entrou de cabeça na conspiração e a Lava Jato perdeu todo o pudor em exibir sua face política com a perseguição a Lula, a coerção para depor no aeroporto de Congonhas e finalmente, quando ele vira ministro, a detonação da última chance que Dilma teria de rearticular a coalizão, com o vazamento da conversa entre os dois.

No percurso, Dilma e o PT cometeram muitos erros. Erros que não teriam sido fatais para outro governo, não para um que já estava jurado de morte. Mas este não é o assunto agora, nesta revisitação em busca da anatomia do golpe.

Em março, a ajuda externa já fizera sua parte mas as pegadas ficaram pelo caminho. O governo já não conseguia respirar. Mas, pela lei das contradições, a Lava Jato continuou assustando a classe política, sabedora de que poderia “não sobrar ninguém”. É quando os caciques se reúnem, como contou Jucá, e decidiram que era hora de tirar Dilma “para estancar a sangria”.

Desvendar a engrenagem que joga com o destino do Brasil desde 2013 é uma tentação frustrante. Faltam sempre algumas peças no xadrez. Mas é certo que, ainda que incompleta, a narrativa do golpe não é produto de mentes paranoicas. No futuro, os historiadores vão contar a história inteira de 2016, assim como já contaram tudo ou quase tudo sobre 1964.”

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Em tempo: pequeno acréscimo a esse notável texto da notável Cruvinel: o ladrão presidente, quando era um parlamentar do baixo-clero, passou informações sigilosas ao cônsul americano em São Paulo, como demonstrou também o WikiLeaks que flagrou o traidor do Serra. O Temer era tão inexpressivo que a CIA mandava o Consul e não o Embaixador recolher o que ele expelia. – PHA

Pepe Escobar: Copa na Rússia é uma grande vitória de Putin

China – world power again | DW Documentary

China is on its way to becoming a socialist world power. After a time of revolution and reform, the country is entering a new era. As President Xi Jinping forges the path forward, a question remains: will the Chinese people continue to support him? At the Chinese Communist Party’s convention in fall of 2017, President Xi Jinping sent a clear message to the world: China is entering a new era. Many believe President Xi Jinping has brought the party back on track and has secured the support of the Chinese people. Speaking to delegates in October, Xi said it was time for the nation to be a global leader that could set an example on economic, political and environmental matters. Part of his plan for economic growth is Made in China 2025, an initiative that draws from Germany’s Industry 4.0 plan and aims to make advancements across many industries, including automotive, aircraft, pharmaceutical, and artificial intelligence. _______ Exciting, powerful and informative – DW Documentary is always close to current affairs and international events. Our eclectic mix of award-winning films and reports take you straight to the heart of the story. Dive into different cultures, journey across distant lands, and discover the inner workings of modern-day life. Subscribe and explore the world around you – every day, one DW Documentary at a time.

DW

Única novidade nas guerras econômicas de Trump são os tuítos: EUA tentam manter a hegemonia do dólar 

currency wars
30/6/2018, F. William Engdahl,
 Global Research, Canadá

Traduzido pela Vila Vudu


A única novidade na guerra econômica promovida pelo governo Trump, assalto calculado contra amigos e inimigos, de Rússia à China, ao Irã, à Venezuela e à União Europeia , a chamada ‘guerra das tarifas’, é que, dessa vez, há um presidente que se serve de tuítos como arma de guerra, para desequilibrar o planeta. Desde pelo menos o final dos anos 1970s, Washington serve-se rotineiramente de táticas similares de chantagem econômica e desestabilização, para forçar o que já se converteu em dominação global, não de bens produzidos pelos EUA, mas do dólar como moeda mundial de reserva.

Já por quase cinco décadas, desde 15/8/1971, Washington e Wall Street servem-se de sua posição dominante para forçar dólares papel-moeda inflados pelo mundo, provocar bolhas financeiras e, subsequentemente, empurrar a dívida para níveis impossíveis, até o colapso.

O ponto mais essencial a compreender sobre as ditas “guerras comerciais” de Trump é que nada têm a ver com comércio ou com corrigir o comércio ou algum desequilíbrio nas moedas com os parceiros de exportações dos EUA. Esse mundo foi descartado em 1971 por Nixon e conselheiros.

A economia dos EUA desde 1971 foi convertida em fonte de ganho financeiro que, de fato, converteu os EUA, de nação produtora de bens industriais, em nação cujo objetivo de todos os investimentos é fazer dinheiro gerar mais dinheiro. Empresas como General Motors, que no final dos anos 1960s era a maior fabricante de carros e caminhões do planeta, coração da economia norte-americana, foram atraídas para a especulação, usando seu braço financeiro (GMAC autofinanciadora de veículos) para apostar no cassino financeiro mundial, apostas que deram péssimo resultado quando a bolha imobiliária explodiu nos EUA em março de 2007, e a GM foi estatizada, e os mega bancos de Wall Street foram ‘resgatados’ com dinheiro dos contribuintes e do Fed.

O processo, que descrevi em detalhe em meu livro Gods of Money, estendeu-se por décadas. À altura do ano 2000, os bancos e fundos de investimento de Wall Street dominavam completamente toda a economia dos EUA. Os empregos em fábricas haviam sido ‘exportados’, “deslocalizados”, não por chineses ou alemães ou outros “exploradores gananciosos” como se dizia, mas por pressão dos mesmos bancos de Wall Street que, desde os anos 1980, levaram as empresas a se focar exclusivamente no valor das ações, não na solidez dos próprios produtos. Cabeças corporativas rolavam, se os bancos de Wall Street não aprovassem os números do retorno financeiro. Isso resultou em EUA que são, primariamente, uma economia de serviços, uma economia de consumidores afogados em dívidas, não mais uma economia industrial líder no mundo. Os ditos 1% mais ricos, os oligarcas dos EUA, exigem hoje tributo equivalente do resto do mundo, para sustentar o insustentável. A guerra comercial e econômica de Trump nada é além de golpe desesperado para tentar reproduzir, meio século depois, o que funcionou nos anos 1970s.

A ‘Segunda Revolução Norte-americana’

A transformação que destruiu a antes grande economia industrial norte-americana teve raízes nas transformações dos anos 1970s. A dominância pós-1930s da economia keynesiana, que entendia quedeficit nas contas do estado poderia mitigar os efeitos negativos de recessões ou depressões, deu lugar ao que John D. Rockefeller III em livro intitulado The Second American Revolution, argumentou que seria um regime de desregulação, privatização de empresas estatais, como usinas de eletricidade, sistemas de água e rodovias.

Ao mesmo tempo, os ideólogos do livre mercado do Monte Pélèrin reunidos em torno do economista da Universidade de Chicago Milton Friedman, foram promovidos por Wall Street e pelo establishmentfinanceiro dos EUA que cercava Rockefeller. Friedman tornou-se o guru da economia de livre mercado, operando como conselheiro de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher durante os anos 1980s. Seu dogma do livre mercado foi posto nas trincheiras do FMI e usado para pregar a favor da terapia de choque econômico e desregulação por toda a América Latina e nas economias comunistas do que fora a União Soviética e na Europa Oriental.

O evento chave, no que tenha a ver com a atual guerra econômica e de tarifas de Washington, está associado à decisão, tomada dia 15/8/1971, pelo presidente Nixon, de unilateralmente separar o EUA-dólar, de qualquer correspondente lastro em ouro.

O jogo de guerra comercial de Nixon

A decisão tomada pelo presidente Nixon em agosto de 1971, de separar o EUA-dólar e qualquer possibilidade de ser convertido em ouro dos EUA, foi apenas uma parte, embora crucialmente decisiva, do que se tornou transformação muito maior, que criou a gigantesca dívida global que hoje já está estimada em 233 trilhões de EUA-dólares. Grande parte dessa dívida é denominada em EUA-dólares e pertence a bancos centrais da China ou Japão ou de estados da União Europeia (UE).

Bem antes do verão de 1971, o governo dos EUA já dera luz verde ao Congresso para aprovar restrições comerciais punitivas de facto contra os maiores parceiros comerciais dos EUA, Japão e os aliados europeus da Comunidade Econômica Europeia (CEE), mais especialmente contra Alemanha e França. Ao final da década de 1960, as economias do Japão e da CCE haviam conseguido, de modo significativo, emergir da destruição da guerra, com economia reconstruída pelo molde do que era então o estado-da-arte da tecnologia industrial. As fábricas de aço e de carros, por sua vez, haviam sido produtos de investimentos do tempo de guerra e do imediato pós-guerra. Exportações alemãs e francesas tinham demanda em todo mundo, não só nos EUA.

Efeito disso foi que aquelas economias começaram a acumular quantidades relativamente enormes de dólares nos respectivos bancos centrais; em 1971, cerca de $61 bilhões em dívidas denominadas em dólares estavam no exterior. Nos termos do tratado de 1944, era obrigação dos EUA pagar em ouro, a qualquer momento que os bancos centrais exigissem do Federal Reserve, o correspondente àqueles dólares. O estoque oficial do Federal Reserve caíra, de $25 bilhões, para apenas $12 bilhões, no início de 1971, e a tendência já ganhava ritmo de bola de neve, com outros bancos centrais já preocupados com o valor dos próprios dólares inflacionados. Washington e Wall Street começavam a ver a cláusula do lastro ouro, de Bretton Woods, como uma pedra atada ao pescoço dos EUA, que poderia dar cabo do poder global dos EUA.

Ouro e dólares

O fim do lastro ouro foi precedido por muita chantagem, com Washington usando uma nova lei do Congresso para impor quotas, de início só para têxtis e calçados da Europa e de outras origens. Havia ameaça de estender as quotas também para carros e outros produtos europeus.

Em 1970, a política comercial dos EUA era de fato semelhante à do governo Trump, quase um século depois. Em maio de 1970, o Secretário do Tesouro dos EUA David Kennedy ameaçou que, se os parceiros comerciais dos EUA não tomassem medidas na direção de permitir que os EUA aumentassem suas exportações, o Congresso agiria para limitar as importações para os EUA. “Os países que têmsuperavit têm responsabilidade especial para agir na direção de eliminá-lo. Ou não?” – perguntava Kennedy, sabendo muito bem que uma das maiores razões para o desequilíbrio nas balanças comerciais era o fato de as empresas norte-americanas estarem comprando empresas europeias e asiáticas, forçando um superavit na balança de pagamentos naqueles países, e as exportações norte-americanas já não eram competitivas contra os produtos europeus e japoneses.

Washington usou uma política que os europeus chamaram de “descaso benigno” [orig. “benign neglect”], para deixar que o capital privado fluísse livremente para, principalmente, a Alemanha – e assim os EUA desmontaram as relações monetárias dentro da Comunidade Econômica Europeia. Os excedentes de dólares na Alemanha subiram muito. Em vez de desvalorizar o dólar enormemente inflado, movimento que poderia ter acelerado as exportações nos EUA e aliviado a crise, Washington exigiu que os países da Comunidade Econômica Europeia, principalmente a Alemanha, revalorizassem para cima as respectivas moedas, o que tornou não competitivas as respectivas exportações, num momento vulnerável. No caso do Japão, Washington exigiu que revalorizasse o yen em cerca de 20%, ou o país teria de encarar tarifas para limitar algumas categorias de exportações japonesas para os EUA.

O secretário de comércio de Nixon, Maurice Stansadotou linha muito agressiva contra a Europa. Declarou que “em vários sentidos, nos convertemos em Tio Sucker do resto do mundo”.

Nas palavras do economista Michael Hudson“Os EUA jogaram a luva: ou Europa e Ásia submetiam-se, ou sofreriam retaliações. A máxima tática aplicada aos ‘rebeldes’ nesse caso é ‘Não ataque o líder, se não estiver preparado para matá-lo’.”

Os europeus encolheram-se e obedeceram. A lei comercial dos EUA foi uma declaração de que os EUA, e só os EUA, estavam isentos, como potência global dominante, do GATT ou de qualquer acordo legal que tivessem com outros parceiros.

Nesse ponto, liderados pela França, os bancos centrais da Comunidade Econômica Europeia – exceto a Alemanha, onde Washington aplicou enorme pressão sobre o presidente do Bundesbank, Karl Blessing –começaram a exigir que seus superávits em dólares fossem convertidos em ouro. Quando funcionários alemães sugeriram, já em 1966, que estariam considerando converter em ouro também seus crescentes superavits em dólares, Washington ameaçou Blessing de retirar todas as tropas norte-americanas da Alemanha, país que teria deixado de “apoiar” o dólar.

Para pôr fim ao risco de mais países aliados cobrarem o ouro correspondente aos dólares superavitários, dia 15/8/1971 Richard Nixon, tendo ao lado o então secretário-assistente do Tesouro Paul Volcker, ex-executivo do Banco Chase de Rockefeller, anunciou o fechamento permanente da janela de câmbio de ouro do Fed. Ao mesmo tempo, Nixon impôs uma tarifa de importações de 10% sobre a maioria das importações norte-americanas, como meio de chantagem, para forçar a Comunidade Econômica Europeia e o Japão a aceitarem dólares sem limites e sem lastro ouro, dólares-papel cujo valor nominal foi inflado a um ritmo apavorante. Para comprar o mesmo o que um cidadão norte-americano comprava em 1970, por $385, em comida roupa e outras necessidades, são necessários hoje $2.529. É consequência direta de Nixon ter posto fim ao lastro ouro do dólar.

Num golpe de pena, Nixon e Wall Street removeram a ameaça de credores reivindicarem o ouro correspondente aos papéis norte-americanos em poder deles. As dívidas subiram, e Washington e Wall Street mantêm hoje um sistema comercial mundial dolarizado, no qual sanções do Tesouro dos EUA já são rotina como armas de guerra para forçar amigos e inimigos – sem qualquer diferença no modo como são tratados – a se alinhar de joelhos diante de qualquer coisa que Washington ordene.

Estará a China pronta a desafiar esse sistema do dólar, com tanto da produção chinesa ainda dependente de chips e processadores e de outras sofisticadas tecnologias norte-americanas? É precisamente essa dependência, que a estratégia econômica do projeto “Made in China 2025” de Xi Jinping visa a eliminar. Por sua vez também, empresas da União Europeia com grandes vendas nos EUA, temem as sanções secundárias contra quem continue a comprar petróleo e mantenha outros investimentos com o Irã.

Hoje, um presidente Trump dos EUA tuíta ameaças contra Alemanha ou China por estarem, segundo ele e sem qualquer base fatual, “manipulando a moeda”; e exige que aliados na OTAN aumentem seus gastos em Defesa, em troca do privilégio de serem mantidos sob dominação militar, pelo Pentágono. O estilo mudou, na chantagem econômica com que os EUA atacam o mundo desde os anos 1970s. Mas o conteúdo é sempre o mesmo.

Pepe Escobar: Metais sexy: peça que faltava no quebra-cabeça coreano

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30/6/2018, Pepe Escobar, Asia Times

Tradução da Vila Vudu

Talvez, afinal, nem se trate de condomínios de luxo nas praias norte-coreanas. Tudo sugere que o xis da questão no abraço que o governo Trump oferece a Kim Jong-un tenha tudo a ver com um dos maiores depósitos de terras raras (ing. rare earth elements, REEs) do mundo, a apenas 150km ao norte de Pyongyang que vale, parece, vários bilhões de EUA-dólares.

Todos os implementos da vida movida a tecnologia do século21 dependem das propriedades químicas e físicas de 17 elementos preciosos da Tabela Periódica, conhecidos como (ing.) REEs.

Atualmente, acredita-se que a China controle mais de 95% da produção global de terras raras , com depósitos estimados em 55 milhões de toneladas. A República Popular Democrática da Coreia, por sua vez, tem pelo menos 20 milhões de toneladas.

Elementos classificados como terras raras não são os únicos metais e minerais altamente estratégicos nesse jogo de poder. Os mesmos depósitos são fontes de tungstênio, zircônio, titânio, háfnio, rênio e molibdênio; todos absolutamente críticos não só para incontáveis outras aplicações militares, mas também usados em armas atômicas.

A metalurgia de terras raras também é essencial para os sistemas de armas de EUA, Rússia e China. O sistema THAAD precisa de elementos de terras raras, assim como os sistemas de mísseis de defesa S-400 e S-500 russos.

Não é exagero pensar em A Arte da Negociação aplicada a elementos de terras raras. Se os EUA não pensarem em algum modo de realmente passar a perna na República Popular Democrática da Coreia para abocanhar recursos de terras raras supostos muito abundantes, o vencedor, mais uma vez, pode ser Pequim. E também Moscou, se se considera a parceria estratégica Rússia-China, hoje já explícita, assumida e reconhecida publicamente.

Todo o quebra-cabeça pode estar girando em torno de quem ofereça melhor retorno sobre investimentos; não em propriedade imobiliária, mas em sexy metal, com o governo de Pyongyang potencialmente na iminência de amealhar fortuna imensa.

Pequim conseguirá cobrir uma possível proposta dos norte-americanos? Esse pode ter sido tópico chave na discussão durante o terceiro encontro, há poucas semanas, entre Kim Jong-un e o presidente Xi Jinping, exatamente quando todo o tabuleiro de xadrez geopolítico está posto na balança.

Quem disse que metais não são sexy?

O pesquisador Marc Sills, em artigo intitulado Strategic Materials Crises and Great Power Conflicts[Crise dos materiais estratégicos e conflitos das grandes potências], diz: “Conflito em torno de materiais estratégicos é inevitável. Os dramas se desenrolarão provavelmente em nas ou próximos das minas, ou ao longo das linhas de transporte pelas quais tenham de transitar os materiais, e especialmente nos gargalos estratégicos do mundo que os militares dos EUA deram-se hoje, de modo geral, a tarefa de controlar. Mais uma vez a equação do poder é escrita de modo a incluir o controle da posse e a capacidade para negar a posse a outros.”

Aplica-se, por exemplo, ao quebra-cabeças na Ucrânia. A Rússia carece muitíssimo do titânio, do zircônio e do háfnio ucranianos para seu complexo industrial-militar.

No início desse ano, pesquisadores japoneses descobriram um depósito de 16 milhões de elementos de terras raras (menos do que há nas reservas norte-coreanas) abaixo do leito do Pacífico Ocidental. Mas é pouco provável que altere a proeminência da China – nem potencialmente da RPDC. A chave em todo o processamento de terras raras é conceber e construir uma cadeia lucrativa de produção, como fizeram os chineses. E isso demanda muito tempo.

Artigos detalhados, como China’s Rare Earth Elements Industry [Indústria chinesa de elementos de terras raras], de Cindy Hurst (2010), publicado pelo Institute for the Analysis of Global Security (IAGS), ou Rare Earth in Selected US Defense Applications [Terras raras em aplicações selecionadas na Defesa dos EUA], de James Hedrick, apresentado no 40º Fórum sobre a Geologia de Minérios Industriais em 2004, mapeiam de modo convincente todas essas conexões.

Sills destaca o modo como, contudo, minérios e metais parecem atrair atenções só das publicações de comércio de mineração: “E isso parece explicar em parte o motivo pelo qual a disputa em torno dos REEsna Coreia conseguiu passar despercebido. Metais não são sexy. Mas armas, sim.”

Metais são, sim, muito sexy, com certeza, para o secretário de Estado Mike Pompeo dos EUA. É muito esclarecedor relembrar o modo como Pompeo, então ainda diretor da CIA, disse a uma Comissão do Senado, em maio de 2017 o quanto o controle estrangeiro sobre elementos de terras raras era “preocupação muito concreta.”

Rode a fita adiante até um ano depois, quando Pompeo, assumindo o Departamento de Estado, enfatizou que recuperaria nova “swagger” [aprox., “uma nova ginga/uma nova manha” (?)], na política exterior nos EUA.

E avance a fita outra vez, até há poucas semanas, com a nova ginga/manha de Pompeo já aplicada às reuniões com Kim Jong-un.

Bem distante de viradas na trama ao estilo de Netflix, uma narrativa bastante possível é Pompeo tentar impressionar Kim com a beleza de um acordo bem lindo e doce, negociado com os EUA, para elementos de terras raras. Mas China e Rússia têm de ser contidas e mantidas à distância. Não é difícil prever que Xi compreenderá rapidamente as implicações.

A RPDC – essa mistura única de Turcomenistão e Romênia pós-URSS – pode estar a um passo de ser integrada numa vasta cadeia de suprimento via uma Rota da Seda de Ferro, com a parceria estratégica Rússia-China investindo ao mesmo tempo em ferrovias, oleodutos, gasodutos e portos paralelos às Zonas Econômicas Especiais [ing. special economic zones (SEZs)] norte-coreanas, que vêm aí, ao estilo chinês.

Como revelou o vice-presidente da Gazprom Vitaly Markelov: “O lado sul-coreano pediu à Gazprom” que reponha em andamento um projeto chave – um gasoduto que passa pela Coreia do Norte, um cordão umbilical entre a Coreia do Sul e a terra continental eurasiana.

Desde discussões chaves na Cúpula do Extremo Leste da Rússia em Vladivostok em setembro de 2017, o mapa do caminho está definido para que Coreia do Sul, China e Rússia conectem a RPDC ao processo de integração da Eurásia, desenvolvendo a agricultura e o poder hídrico e – crucialmente importante – a riqueza mineral.

Por mais que talvez o governo Trump esteja chegando atrasado ao jogo, é impensável que Washington desista de uma parte da (metal)ação.*******

União Europeia: sumário da decomposição 

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16/6/2018, Jacques Sapir, Russeurope en ExilLes Crises

A União Europeia está em decomposição. Já é claro, e cada vez mais a decomposição atropela os discursos combinados e o faz-de-conta dos que nossos amigos italianos chamam de “(h)euroinômanos [org. «euroïnomanes»]. Mas semana passada o processo entrou em nova fase de aceleração.

Bem claramente, a questão dos «migrantes» teve papel de detonador. Sobre essa questão, de fato, acumulam-se erros políticos, um discurso pretensamente moral que não passa de conversa moralista, e enorme hipocrisia. A prova aí está, no caso do navio Aquarius, fretado pela ONG SOS-Méditerranée. Mas no fundo a questão apenas reflete as contradições internas que se desenvolveram no seio da UE. Num sentido, pode-se dizer que são raros os dirigentes que ainda «creem» numa União Europeia federal, por mais que o presidente da França agarre-se desesperadamente a essa fantasia.

A decomposição em curso pode resultar num estouro da UE, assim como pode resultar também na evolução do ‘bloco’ rumo a uma zona comercial de regras leves, organizada em torno de vários círculos de cooperação definidos, eles mesmos, por projetos e problemas particulares. Mas, seja qual for a solução, e ainda que o nome «União Europeia» sobreviva, é claro que já não será a UE como foi imaginada e posta em prática a partir da aprovação do famoso «Acte Unique (fr., Acto Único, port. de Portugal)» de 1986. Estamos assistindo ao fracasso de mais de 30 anos de «construção europeia».

Um processo bem avançado

É preciso fazer um relato das transformações, antigas e recentes, que se impuseram na União Europeia. Falamos muito do Brexit, votado em 2016, e que alguns esperaram inverter, não se sabe por quais traquinagens «legais». Ou, com a votação recente no Parlamento britânico, votação que Mme Theresa May venceu, contra a fração pró-UE,[1] já é claro que, sim, o Brexit acontecerá. O Reino Unido deixará a União Europeia, sim, à meia-noite do dia 29/3/2019, horário do continente.[2] As eleições gerais que aconteceram nos últimos seis meses na Hungria, na Áustria e também na Eslovênia, levaram ao poder (ou lá mantiveram) governos que são muito claramente eurocéticos, o que sugere modificação profunda das regras da UE. Agora, afinal, a ação do governo italiano atual, resultado de uma coalizão entre o M5S e a Lega acabou por trazer à luz essas contradições.

A causa da agitação e do escândalo foi a decisão do ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, de recusar ao navio Aquarius fretado por uma ONG, o direito de desembarcar os migrantes recolhidos. As boas almas elevaram-se contra essa decisão. Mas a decisão respeitou por um lado o direito marítimo internacional,[3] e o fato de a ONG em questão não ter atacado o governo italiano é testemunho disso; e, por outro lado, os casos de urgências humanitárias foram respeitados. Apesar de declarações às vezes muito ruidosas, M. Salvini aceitou que mulheres grávidas e doentes em estado grave fossem desembarcados, e a Guarda Costeira continua as operações de salvação. O Aquarius, que é regularmente seguido por aviões de reconhecimento da Marinha, tanto italianos como franceses, jamais esteve sob risco de naufragar, e está sob escolta da Guarda Costeira italiana – o que até a própria ONG SOS-Méditerranée reconhece.[4]

Hipocrisias franco-alemãs

O que, portanto, está em causa é uma política caracterizada por cegueira ante o real, além de imensa hipocrisia – da União Europeia, mas também de Alemanha e França, em particular. Essa hipocrisia, particularmente, força a Itália a carregar quase que exclusivamente o peso de acolher os «migrantes» nos três últimos anos.

Significativo nesse sentido é o recuo do presidente francês, M. Emmanuel Macron, que – depois de ter denunciado a atitude da Itália em termos morais, mais que políticos[5] – foi obrigado a baixar o tom, sob pena de ver cancelada uma reunião marcada para a 6ª-feira, dia 15, com o primeiro-ministro italiano. Declarando que conviria separar política e emoção, o presidente da França recuou para posição mais razoável, mas ao custo da humilhação internacional. A reunião pôde, afinal acontecer, e os dois dirigentes acertaram uma entente tanto mais cordial quanto mais se sabe que a situação chegara à beira de uma crise grave.[6]

Simultaneamente, essa crise introduziu-se na Alemanha, onde Angela Merkel foi obrigada a se recompor com seu próprio ministro do Interior, Horst Seehofer. Esse último, mantido por uma maioria de deputados da CDU-CSU,[7] quer que a Alemanha aprove um acordo com Grécia e Itália sobre a questão dos migrantes, acordo que permita à Alemanha rejeitar todos os migrantes que não tenham sido previamente registrados. É muito embaraçoso para a chanceler Merkel, que será obrigada a pedir a concordância de Alexis Tsipras e de Giuseppe Conte. Muito claramente, a chanceler aparece enfraquecida por essa crise.

Além do mais, circularam informações sobre uma reunião de três ministros do interior, de Alemanha, Áustria e Itália, sobre a questão da imigração ilegal. São governos que mostram vontade de se coordenarem entre eles. Mas, e todos estão vendo claramente, trata-se de uma coordenaçãointergovernamental, entre estados soberanos, coordenação que contorna assumidamente os procedimentos e hábitos da UE, e que, provavelmente, porá em discussão as próprias regras do bloco. Sinal dos tempos?

Para além da questão dos migrantes

Tudo isso poderia fazer crer que a questão dos «migrantes» esgota a ordem do dia da UE. Mas, se o tema tem, sim, lugar sem dúvida importante, nem por isso é o único– e longe disso. O governo italiano, sempre ele, acaba de anunciar que proporá que o Parlamento não ratifique o Comprehensive Economic and Trade Agreement (CETA) [Acordo Econômico e Comercial Amplo], tratado de livre comércio assinado entre o Canadá e os países da UE.[8] É decisão que, ao término, pode levar à anulação do próprio tratado. Sabe-se que o tratado foi muito contestado, e não sem boas razões, seja do ponto de vista do direito dos consumidores, seja por preocupações com a preservação do meio ambiente, mas também do ponto de vista jurídico. Esse tratado previa o direito dos estados soberanos seja substituído por uma arbitragem comercial. Além disso, essa decisão do governo italiano está em contradição com a vontade da Comissão Europeia de decidir, ela mesma, em lugar dos – e em substituição aos – Estados, todas as questões comerciais. Trata-se aqui, portanto, bem claramente, da reafirmação do papel primeiro, e fundador, da soberania dos Estados.

A decisão tomada pelo governo italiano é, assim, uma espécie de jogar uma pedra na superfície calma do lago, ou melhor, do charco de Bruxelas.[9] Ao mesmo tempo, o governo italiano deixou subentendido que poderia opor-se à reaplicação de sanções contra a Rússia.[10] Aqui também, trata-se de decisão tomada por consenso. Se um país quebra o consenso, outros o seguirão.

Como se vê, as questões econômicas e as questões comerciais têm lugar importante no processo de decomposição da UE. Processo que foi posto em evidência pela decisão da Alemanha de recusar a maior parte das propostas feitas pelo presidente Emmanuel Macron da França.[11] A publicação recente, peloObservatoire français des conjonctures économiques (OFCE) [Observatório francês de conjunturas econômicas] de texto sobre o papel deletério do euro vis-à-vis das economias francesa e italiana confirma isso.[12] De fato, constata-se que «a dupla franco-alemã» não existe, senão nos delírios dos editocratas franceses.

As formas das «narrativas» da crise engendrada pela Itália,[13] para começar nos «noticiosos» da imprensa alemã, mas também nos termos extremamente duros que Emmanuel Macron usou, são sintoma da decomposição da União Europeia, mas são também uma das causas dela. É portanto evidente que a União Europeia já não «protege» e não favorece a paz ou o entendimento entre os povos. Pode-se dizer que, isso sim, faz o contrário.


Capas escandalosas da ‘mídia’ alemã


A volta da soberania das nações

Essa decomposição da UE é processo de longo prazo, engendrado pelas contradições internas à instituição, e também por sua incapacidade crônica para se reformar além de mudanças apenas marginais. Nesse contexto, o gesto de Matteo Salvini no caso do navio Aquarius, aprovemos ou desaprovemos, provocou uma importante cesura. Demonstrou que um país podia ignorar e ignorou as regras da União Europeia. Ao mesmo tempo demonstrou que não existe «soberania europeia», esse mito tão caro a Emmanuel Macron, mas existe… a soberania italiana.

O gesto dos italianos terá consequências. Primeiro, contribui para novamente dar aos italianos alguma confiança no próprio governo e nas capacidades da Itália. É evento importante, num momento em que outros enfrentamentos aproximam-se, principalmente sobre a questão econômica. Mas o gesto do governo italiano é também importante para os outros países da União Europeia. Porque, se a Itália pode recuperar a própria soberania, pode também, num momento de crise, decidir que o país fixa a agenda dos problemas a resolver e que tipo de solução lhes dar – o que é uma definição de soberania –, lição que outros países não esquecerão.

É muito provável que se veja, nos próximos meses, uma aceleração do processo de decomposição ao qual já nos referimos. Ao mesmo tempo, esse ato de recuperar a soberania não é de modo algum incompatível com procurar cooperações nas quais seja possível escolher os parceiros, que não sejam impostos por Bruxelas. Desenham-se portanto os contornos de um outro modo de organização da Europa, uma ordem pós-União Europeia, mas que só poderá afirmar-se quando for oficialmente declarada a morte da velha ordem.*******

[1] https://www.bbc.com/news/uk-politics-44456035

[2] https://www.business.hsbc.fr/fr-fr/fr/article/brexit-5-conseils?cid=HBFR:je:P0:XX:04:1806:007:Brexit&gclid=EAIaIQobChMIo_i2uc3V2wIVQojVCh2WUgcJEAAYASAAEgJH1fD_BwE

[3]  https://www.ouest-france.fr/monde/migrants/aquarius-le-droit-maritime-n-est-pas-adapte-l-afflux-des-migrants-en-mediterranee-5823431

[4] http://www.lefigaro.fr/international/2018/06/15/01003-20180615ARTFIG00298-retarde-par-une-tempete-l-aquarius-ne-rejoindra-l-espagne-que-dimanche.php

[5] https://www.huffingtonpost.fr/2018/06/12/aquarius-emmanuel-macron-denonce-le-cynisme-et-lirresponsablite-de-litalie_a_23456922/

[6] https://www.huffingtonpost.fr/2018/06/15/apres-la-crise-de-laquarius-emmanuel-macron-et-giuseppe-conte-actent-leur-reconciliation_a_23459965/

[7] “A União”, também conhecida como “Partidos da União” é uma aliança política dos partidos democratas cristãos alemães: a União Democrata-Cristã e a União Social-Cristã [NTs, com informações de Wikipedia].

[8] www.lesechos.fr/monde/europe/0301823856135-le-parlement-italien-appele-a-rejeter-le-ceta-2184143.php

[9] Orig. La décision prise par le gouvernement italien constitue donc un pavé dans la mare, ou plutôt le marigot, de Bruxelles [NTs. Correções e comentários são bem-vindos.]

[10] http://www.lefigaro.fr/flash-actu/2018/06/05/97001-20180605FILWWW00134-italie-conte-favorable-a-la-revision-des-sanctions-contre-la-Rússia.php

[11] https://www.romandie.com/news/926189.rom

[12] Villemot S., Ducoudré B., Timbeau X., « TAUX DE CHANGE D’ÉQUILIBRE ET AMPLEUR DES DÉSAJUSTEMENTS INTERNES À LA ZONE EURO », in Revue de l’OFCE, n°156 (2018)

[13] https://www.ft.com/content/087e3a12-6b1e-11e8-8cf3-0c230fa67aec