Espaço Público entrevista Marco Aurélio Garcia

O chefe da Assessoria Especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, nega, em entrevista ao programa Espaço Público, haver uma “queda de braço” entre Brasil e Israel. Mas avalia que o governo daquele país deu um “passo em falso” ao indicar o diplomata Dani Dayan para embaixador em Brasília, em substituição a Reda Mansour, que deixou o cargo no fim de dezembro.

Na semana passada, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, reafirmou que Dayan é o indicado para o cargo. Um dos formuladores da política externa brasileira desde o primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando assumiu o cargo que ocupa até hoje (já no segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff), Marco Aurélio explica que a indicação causou polêmica pelo fato de Dayan ser morador da Cisjordânia, território palestino ocupado por Israel desde 1967, e também ser contrário à criação de um Estado Palestino.

Segundo Garcia, Israel não respeitou a convenção diplomática de mandar as credenciais do candidato a embaixador para que o país anfitrião a pudesse analisar antes de conceder o agrément. “Eu acho que foi um passo em falso dado pelo governo de Israel. Em primeiro lugar, ao romper uma regra diplomática que não é uma frivolidade, é um procedimento que corresponde à gravidade que as relações internacionais têm: isto é, antes de pedir o agrément ao embaixador, noticiar publicamente”, disse.

Nesta entrevista, Garcia também comenta a situação da América Latina. Especificamente sobre a Venezuela, diz que o Brasil tem tido uma postura ativa na defesa de uma saída democrática para o impasse no país vizinho. “Se houver uma solução fora da Constituição, será uma tragédia para o povo venezuelano e para o Brasil, que tem fronteira e interesses econômicos na Venezuela. Além disso, será algo desastroso para o Mercosul e a Unasul [União de Nações Sul-Americanas].”

Garcia ainda fala da conjuntura internacional, revela bastidores das negociações iniciais conduzidas por Lula em torno do acordo nuclear com o Irã e comenta o momento atual do PT. Embora admita não gostar da expressão usada pelo ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, para quem o partido “lambuzou-se”, ele diz entender seu significado e afirma que a legenda vai precisar ser mais inovadora para sair da crise atual do que na época em que foi fundada.

O Espaço Público é apresentado pelo jornalista Paulo Moreira Leite, com a participação do também jornalista Florestan Fernandes Júnior. A entrevista com o chefe da Assessoria Especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais contou, ainda, com a presença do correspondente Anthony Boadle, da Agência Thomson Reuters.

Fonte: YouTube

Sem solução à vista para o impasse diplomático entre Brasil e Israel

Publicado originalmente em: 15/01/2016

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Apesar do incidente diplomático entre Brasil e Israel devido à recusa do Governo brasileiro em aceitar a nomeação do empresário Dani Dayan para o cargo de embaixador de Israel em Brasília, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, confirmou manter a indicação.

Dani Dayan teve destaque na política mundial após ser porta-voz dos cerca de 500 mil colonos judeus na Cisjordânia ocupada.

O modo como Dani Dayan foi indicado desagradou o Governo brasileiro. Netanyahu anunciou a nomeação através do Twitter, sem um documento formal ou aviso prévio ao Itamaraty. Além disso, a diplomacia brasileira também se coloca contra a política de ocupação dos territórios palestinos.

Dayan aguarda desde agosto do ano passado a aceitação por parte do Planalto, e as chances de ele ocupar o cargo se tornam cada vez mais distantes.

O especialista Jorge Mortean acredita que o impasse coloca o Brasil numa posição difícil, já que a postura do país é sempre a favor da paz entre israelenses e palestinos.

“O que acontece, porém, é que Dani Dayan é um colono dentro de um dos assentamentos israelenses nos territórios palestinos ocupados, e isso fere a retórica ideológica da nossa política externa. O atual Governo brasileiro tende a reforçar essa posição e ser um pouco intransigente com qualquer assunto que fira a ordem social palestina, que já é dominada totalmente por políticas de ocupação israelenses.”

Mortean garante que após a postagem, no Twitter, da indicação de Dani Dayan, o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu formalizou a nomeação ao Governo brasileiro.

“Ele anunciou pelo Twitter, mas logo em seguida foi feito o anúncio oficial. Então, não vejo nenhum problema em o primeiro-ministro anunciar seja por qual meio for essa indicação. Ele foi indicado, só não houve o agreement.”

O especialista vê com pesar a situação, considerando que, do ponto de vista das relações internacionais, manter uma embaixada sem um titular formal representa simbolicamente que a relação entre os países está comprometida.

Jorge Mortean acredita que Benjamin Netanyahu realmente vai manter sua decisão e não indicar outro nome para o cargo. Segundo o professor de Relações Internacionais, o primeiro-ministro israelense tem tomado o impasse como uma afronta do Governo brasileiro.

“Se Netanyahu quiser responder à altura, eu acredito que ele não vai indicar outro nome para o cargo, deve manter esse cargo suspenso, enviar um encarregado de negócios ou fazer alguém dentro do corpo diplomático em Brasília assumir esse papel na ausência do embaixador. Não creio que haverá uma próxima indicação da Chancelaria israelense, justamente porque, segundo a leitura brasileira, a indicação desse colono foi uma afronta a toda política externa bilateral que havia se alcançado até então.”

Fonte: Sputnik

Visita do Chanceler da República Federativa do Brasil, Embaixador Mauro Vieira, à Argentina – Comunicado Conjunto – Buenos Aires, 16 de janeiro de 2016

Publicado originalmente em: 14/01/2016

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COMUNICADO CONJUNTO BRASIL-ARGENTINA

Buenos Aires, 14 de janeiro de 2016

O Ministro das Relações Exteriores, Embaixador Mauro Vieira, realizou hoje visita de trabalho à República Argentina, a convite da Chanceler Susana Malcorra. Na ocasião, ratificaram o caráter estratégico da relação que une os dois países, no marco do trigésimo aniversário dos emblemáticos acordos alcançados em Iguaçu, em 1985, e passaram em revista os temas da ampla agenda bilateral.

O encontro constituiu oportunidade para analisar os pontos mais importantes da pauta política e econômica bilateral, bem como os assuntos de interesse comum nos âmbitos regional e internacional.

Nesse sentido, os Chanceleres examinaram o progresso dos temas mais relevantes da relação, com a intenção de dar-lhes seguimento e de promover o aprofundamento das políticas em curso, tais como as relativas à cooperação em ciência e tecnologia, particularmente em assuntos espaciais, nucleares e em aeronáutica, as quais se têm mostrado frutíferas para ambas as partes.

Acordaram, igualmente, impulsionar o desenvolvimento de projetos de infraestrutura que favoreçam a integração física não somente entre Brasil e Argentina, mas também com os demais países da região.

Os Chanceleres congratularam-se pela convocação da Comissão de Monitoramento do Comércio Bilateral e pela decisão de manter diálogo fluido entre os dois Governos em questões relativas ao comércio bilateral.

A respeito da Hidrovia Paraguai-Paraná, acordaram a busca de cursos de ação, no marco do Comitê Intergovernamental da Hidrovia, a fim de lograr uma navegabilidade segura, eficiente e benéfica para todos os países que a integram.

Com relação a questões fronteiriças, congratularam-se pela promulgação, por parte do Brasil, do Acordo sobre Localidades Fronteiriças Vinculadas e alcançaram consenso sobre a necessidade de aprofundar medidas destinadas a facilitar a integração entre os países.

Os Chanceleres acordaram empreender ações conjuntas para a crescente coordenação dos dois países em foros multilaterais e regionais, em especial em temas de direitos humanos e de governança global.

Adicionalmente, analisaram a situação do processo de integração do MERCOSUL, no contexto dos 25 anos da assinatura do Tratado de Assunção, e trocaram opiniões sobre as negociações em curso entre o bloco e a União Europeia. Referiram-se, além disso, a outros processos de integração regional, como UNASUL e CELAC.

A Chanceler Malcorra agradeceu ao seu homólogo brasileiro o permanente apoio que o Brasil confere à posição argentina na Questão das Ilhas Malvinas, refletido mais recentemente nas numerosas declarações adotadas em foros regionais e multilaterais onde tem sido tratada.

Os Chanceleres concordaram em impulsionar mecanismo de seguimento periódico dos temas mais relevantes da agenda bilateral, do qual participem os Ministérios e as autoridades competentes de ambos os países, com o objetivo de trabalhar em conjunto na implementação e continuidade dos projetos que favoreçam o desenvolvimento dos dois países.

O Chanceler Mauro Vieira foi portador de convite da Presidenta Dilma Rousseff para que o Presidente Mauricio Macri realize visita ao Brasil.

Fonte: Itamaraty

 

Será ‘humilhação’ se Brasil aceitar indicação de embaixador israelense, diz diplomata brasileiro

Publicado originalmente em: 07/01/2016

Para Jorio Dauster, signatário de carta enviada ao governo brasileiro em apoio ao não aceite de Dani Dayan, maneira como indicação se deu é ‘inaceitável’.

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A relação diplomática entre Brasil e Israel anda estremecida nos últimos meses com a indicação feita pelo governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Natanyahu, de Dani Dayan para o cargo de embaixador do país em Brasília. Dayan foi presidente do Conselho Yesha, organização que trabalha em prol dos assentamentos judaicos na Cisjordânia, considerados ilegais pela comunidade internacional, e segue sendo um nome importante no movimento pró-assentamentos em terras palestinas.

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Até o momento, o Brasil não respondeu à indicação israelense, o que, em linguagem diplomática, significa uma recusa. Assim, para apoiar a posição brasileira, 41 diplomatas aposentados divulgaram, nesta quinta-feira (07/01), uma carta na qual consideram ser “inaceitável” a forma como a indicação de Dani Dayan ocorreu. Consultado sobre a carta, o Itamaraty disse que não comenta o assunto e que se trata de uma decisão autônoma dos diplomatas aposentados.

Em entrevista a Opera Mundi, o embaixador aposentado Jorio Dauster, porta-voz do grupo, ressaltou que a decisão dos diplomatas de se pronunciarem publicamente sobre o assunto não tem a ver com qualquer apoio ao governo da presidente Dilma Rousseff e sim com a “defesa do Estado brasileiro”. Ele acrescenta que, no caso de o “Brasil ceder [à posição de Israel], nós acreditamos que ele seria humilhado e é a isso que somos contra: a humilhação”.

Após ressaltar que, somados, os signatários da carta têm cerca de 1.700 anos de experiência com diplomacia, Douster, que foi embaixador do Brasil na União Europeia entre 1991 e 1999, esclarece que a indicação de Dayan viola a Convenção de Viena sobre relações diplomáticas. Isso porque “o artigo IV estabelece que um país, se quiser acreditar alguém como embaixador em outro, tem que pedir concordância anteriormente”. No caso em questão, tal procedimento não foi realizado e o Brasil tomou conhecimento da indicação por meio de um post no Twitter de Netanyahu, o que o grupo considera ser “inaceitável”.

O segundo motivo para a oposição à indicação de Dayan, aponta Douster, é que isso “obviamente não foi feito por acaso. O premiê estava querendo criar um fato consumado porque o nome que ele estava indicando é de um homem que foi presidente do Conselho de Assentamentos na Cisjordânia. Oras, esses assentamentos são considerados pela ONU como sendo ilegais. Assim, o fato de mandar como embaixador uma pessoa que estaria contra o voto do Brasil nas Nações Unidas não é uma designação que poderia ser simpática ao governo brasileiro”.

Questionado se tal posicionamento poderia sinalizar uma pressão por parte de Israel para que o Brasil reconheça os assentamentos — tal como observado por alguns analistas internacionais —, Douster avalia que “em diplomacia não existe nada automático”. “O voto do Brasil na ONU é o que regula a posição do país”.

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Confira a entrevista:  

OM: Por que os senhores resolveram se pronunciar em apoio ao governo brasileiro e contra a nomeação de Dani Dayan como embaixador de Israel no Brasil?

Jorio Dauster: O motivo principal é que temos pelo menos 1.700 anos de experiência diplomática acumulada e temos conhecimento de que o Artigo IV da Convenção de Viena sobre relações diplomáticas estabelece que um país, se quiser acreditar alguém como embaixador em outro, tem que pedir concordância. Mas também diz nessa Convenção de 1961 que um país, se quiser recusar, não precisa dar as razões. Todas as relações diplomáticas são baseadas nessa Convenção.

O primeiro-ministro Netanyahu, que é também chanceler, não é novato, ele conhece as regras. Ninguém manda um embaixador sem que tenha antes mandado um pedido secreto de concordância. E o país tem o direito de aceitar ou não. Nesse caso, o governo brasileiro não recebeu um pedido, mas uma declaração no Twitter, feita pelo primeiro-ministro — antes que tivesse sido enviado um comunicado ao Brasil — declarando que estava mandando o senhor Dani Dayan como embaixador.

Isso já é inaceitável em termos de relações diplomáticas e é a primeira razão pela qual estamos defendendo a posição brasileira, já que se trata de uma norma do direito internacional de que Brasil e Israel são signatários.

E a segunda é que obviamente isso não foi feito por acaso. O primeiro-ministro estava querendo criar um fato consumado porque o nome que ele estava indicando era o de um homem que foi presidente do Conselho de Assentamentos judeus na Cisjordânia. Oras, esses assentamentos são considerados pela imensa maioria da ONU — não pela totalidade dos membros porque há uns dois ou três que votam com Israel ou se abstêm — como sendo ilegais. Assim, o fato de mandar como embaixador uma pessoa que estaria contra o voto do Brasil nas Nações Unidas não é uma designação que poderia ser simpática ao governo brasileiro.

O governo e o Itamaraty estão muito corretos em ficar em silêncio. Eles não devem responder. O silêncio em diplomacia é um ‘não’. Então, já foi dada a resposta a Israel. O que queremos é que esse incidente seja superado. Queremos que as relações com Israel sejam as melhores possíveis.

Mas, como existe um movimento crescente que pode influenciar a opinião pública brasileira, que não tem conhecimento desses detalhes diplomáticos, preferimos vir a público. E não se trata de uma posição de apoio ao governo em geral, é uma posição apartidária; temos entre os assinantes pessoas de todos os tipos e posições políticas. Trata-se de uma posição daqueles que defendem o Estado brasileiro. Entendo que o que estamos fazendo é mostrar, inclusive internacionalmente, que o Brasil não é um anão diplomático, tal como foi caracterizado por um funcionário israelense tempos atrás.

OM: O possível aceite por parte do governo brasileiro pode ser entendido como um reconhecimento aos assentamentos de colonos judeus em territórios palestinos?

JD: Em diplomacia não existe nada automático. Tem o voto do Brasil na ONU e é ele que regula a posição do Brasil. Nós como diplomatas aposentados temos apenas que saber que, a menos que o Brasil um dia retire seu voto, está valendo a posição que já foi tomada.

OM: Recentemente, o governo israelense falou em “crise diplomática” e prometeu adotar “ferramentas alternativas” contra o Brasil por causa do não aceite. Que impacto isso pode ter?

JD: Ameaças desse tipo não devem pressionar um país como o Brasil. Nós temos uma dimensão tal que não somos qualquer “paiseco”, um país banana, que tenha que se assustar com declarações que, às vezes, são declarações infelizes de funcionários até menores, como já aconteceu. Muitas vezes, essas declarações são feitas por ânimos de pessoas que não têm o controle de um diplomata e por isso não levamos isso a sério.

OM: Com base em sua experiência diplomática, considera ser possível que o Brasil siga resistindo às investidas de Israel e da opinião pública brasileira?

JD: É tudo que nós esperamos e é por isso que tomamos publicamente essa posição. Não há forma mais franca e honesta de colocar nossa posição. Ressalto que não é um movimento partidário, não estamos lidando com este ou aquele governo. Fosse quem fosse o presidente no momento, nós nos pronunciaríamos nessa direção porque consideramos que é isso que o Brasil precisa ter como postura.

OM: A imprensa israelense já considera, com base em fontes não reveladas, a possibilidade de que Dayan seja nomeado cônsul-geral de Los Angeles ou Nova York e outra pessoa seja indicada para a diplomacia no Brasil. Caso se confirme este cenário, que impacto isso pode ter na política interna israelense?

JD: Isso eu e meus colegas não comentamos. Tomamos posição sobre o Brasil. Sobre Israel, quem deve falar são os israelenses.

OM: Então, se esta posição se confirmar, o Brasil entra no cenário da política internacional como um ator mais relevante, com posição mais influente, do que a que tem tido nos últimos anos do governo Dilma?

JD: Eu não creio que isso esteja ligado à política externa em geral, nem estou aqui para entrar na discussão da política externa. É um incidente específico. Se o Brasil cedesse, nós acreditamos que ele seria humilhado e é a isso que somos contra: a humilhação. Agora, qualquer embaixador que seja aceito pelo Brasil eu desejaria que ele pudesse nos convidar, os 41 diplomatas, para poder almoçar ou jantar com ele. Seria o maior prazer e passaríamos a ajudar muito a ação dele no Brasil.

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Confira abaixo a íntegra da carta enviada pelos diplomatas ao governo brasileiro:

Carta Aberta

Nós, os diplomatas aposentados abaixo assinados, lembrando a memória do Embaixador Luís Martins de Sousa Dantas, que salvou centenas de judeus do Holocausto; orgulhosos do papel desempenhado pelo Brasil nas Nações Unidas quando, sendo Osvaldo Aranha Presidente da Assembleia Geral, foi sancionada a criação do estado de Israel, 

Consideramos inaceitável que o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, haja anunciado publicamente o nome de quem pretendia indicar como novo embaixador de seu país no Brasil antes de submetê-lo, como é norma, a nosso governo. Essa quebra da praxe diplomática parece proposital, numa tentativa de criar fato consumado, uma vez que o indicado, Dani Dayan, ocupou entre 2007 e 2013 a presidência do Conselho Yesha, responsável pelos assentamentos na Cisjordânia considerados ilegais pela comunidade internacional, e já se declarou contrário à criação do Estado Palestino, que conta com o apoio do governo brasileiro e que já foi reconhecido por mais de 70% dos países membros das Nações Unidas.

Nessas condições, apoiamos a postura do governo brasileiro na matéria e fazemos votos de que o presente episódio seja superado prontamente a fim de podermos, em conjunto, reforçar os vínculos entre os dois países num momento histórico em que o espírito de conciliação se torna imperativo. 

Signatários: Adhemar Bahadian;Amaury Porto de Oliveira, Armando Victor Boisson Cardoso, Brian Michael Fraser Neele, Carlos Alberto Leite Barbosa, Carlos Eduardo Alves de Souza, Christiano Whitaker, Edgar Telles Ribeiro, Fernando Guimarães Reis, Fernando Silva Alves, Geraldo Holanda Cavalcanti, Heloisa Vilhena de Araujo, Hildebrando Tadeu Valladares, Janine-Monique Bustani, Joaquim A. Whitaker Salles, Jorio Dauster, José Maurício Bustani, José Viegas Filho, Julio Cesar Gomes dos Santos, Luciano Rosa, Luiz Augusto de Castro Neves, Luiz Fachini-Gomes, Luiz Felipe Lampreia, Luiz Orlando Carone Gelio, Marcílio Marques Moreira, Marcio Dias, Maria Celina Azevedo Rodrigues, Oswaldo Portella, Roberto Abdenur, Ronaldo Mota Sardenberg, Samuel Pinheiro Guimarães, Sergio Fernando Guarischi Bath, Sergio A. Florencio Sobrinho, Sergio Henrique Nabuco de Castro, Sergio Serra, Stelio Amarante, Thereza Quintella, Vera Pedrosa, Virgílio Moretzsohn de Andrade, Washington Luis P. Sousa.

Fonte: Opera Mundi

Brasil à Venezuela: “Não há lugar para soluções fora da institucionalidade”

Publicado originalmente em: 05/01/2016

Em nota, diplomacia brasileira faz advertência a Maduro sobre manobras na Assembleia.

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Maduro e Dilma em 2015. Ebc.

 

O processo eleitoral na Venezuela, e seus desdobramentos, já vinham se desenhando como uma encruzilhada para a diplomacia brasileira: dependendo do comportamento do Governo de Nicolas Maduro frente a uma derrota, ficaria insustentável para o Ministério das Relações Exteriores e o Governo Dilma Rousseff manter a política de advertências mais privadas do que públicas a eventuais desvios do venezuelano às normas democrática e do Mercosul. Nesta terça, veio a mudança mais significativa. Horas antes da esperada e tensa instalação da nova Assembleia da Venezuela, com maioria qualificada da oposição pela primeira vez em 16 anos, o Itamaraty lançou uma dura nota sobre a situação. Ante os movimentos do chavismo de usar seus tentáculos na Justiça para arrebatar a vantagem opositora, a diplomacia brasileira afirmou: “Não há lugar, na América do Sul do século XXI, para soluções políticas fora da institucionalidade e do mais absoluto respeito à democracia e ao Estado de Direito”.

O texto é uma crítica inequívoca à tentativa do chavismo de impugnar, via Justiça, a posse de deputados da oposição. Sem eles, os antichavistas perdem a maioria capaz de propor mudanças constitucionais e indicar postos-chaves na Administração públicas, entre outras prerrogativas. Por outro lado, preocupa também o Brasil a ascensão de um discurso radicalizado na oposição, com a escolha do dinossauro Henry Ramos Allup, do tradicional partido Ação Democrática, como presidente da Casa. Na queda de braço, ganham os radicais de ambos os lados, e não interlocutores de Brasília, como o governador de Miranda, o opositor Henrique Capriles.

Não é a primeira vez que o chavismo lança mão de “soluções políticas fora da institucionalidade” ante uma derrota. Depois de reveses importantes, como nas eleições municipais na década passada, o então presidente Hugo Chávez praticamente esvaziou a prefeitura metropolitana de Caracas, cuja eleição fora vencida por um opositor, para nomear uma espécie de interventor chavista. Lá, como agora, choveram críticas à vista grossa brasileira à manobra – a diplomacia brasileira sempre repetiu que fazia chegar a Caracas suas ponderações. Ocorre que, agora, a conjuntura internacional também mudou. Trata-se do Poder Legislativo, central para o já precário equilíbrio democrático da Venezuela. Sem falar no fator Mauricio Macri. O novo presidente argentino traz para mesa do Mercosul o desconforto com Maduro e pressiona Brasília. Tanto na Argentina como no Brasil, a Venezuela é um assunto de alta voltagem na política interna, mas Macri, à diferença de Dilma Rousseff, ganha pontos com sua base cada vez que fustiga publicamente Caracas.

Sinais prévios e militares

A nota soma às advertências prévias da gestão Dilma Rousseff a Maduro a respeito do processo. Antes das eleições, a presidenta enviou uma carta privada a Maduro com observações sobre o pleito. Ainda no começo do ano, o Itamaraty também lançou nota criticando a prisão do prefeito opositor Antonio Ledezma.

Entre diplomatas latino-americanos com longa experiência na região, inclusive entre simpatizantes do chavismo, o momento é de preocupação. O aprofundamento da crise econômica na Venezuela e a ofensiva de sobrevivência de um dividido chavismo povoado de militares em posições-chave, inclusive econômicas, traz dúvidas a respeito da efetividade de advertências diplomáticas.

 Fonte: El País

Orville Schell on a Bright Spot in U.S.-China Relations

Publicado originalmente em 31 de dezembro de 2015.

Climate change offers a classic opportunity—a common foe that could bring a new and much needed stability to Sino-U.S. relations

The level of mistrust between Washington and Beijing is very high these days. Disagreements have multiplied in recent years, with the U.S. resisting China’s gambits in the South and East China seas, disapproving of President Xi Jinping’s courtship of Russian President Vladimir Putin and warily eyeing other efforts to project Chinese economic and military power. And there remains the enormous disparity between the two countries’ political systems and values, exemplified by Beijing’s recent arrests of lawyers, stifling of NGOs, harassment of artists and intellectuals, censorship of the media and hacking of U.S. databases.

Beijing, too, has questions about U.S. intentions: Is our “pivot to Asia” not aimed at containing China? Do we still believe in regime change? What do all the belligerent utterances issuing from the Republican primary portend?

There is one potentially bright spot in this fraught tableau, a place where both national interests are aligned: climate change. Indeed, Presidents Obama and Xi have already begun weaving together an effective fabric of common purpose that helped the recent U.N. climate conference succeed in Paris last month.

For this partnership to become a real game-changer, far more courageous leadership is needed, especially as the U.S. continues, as it should, to hedge its bets against the possibility of a more adversarial relationship. The task for the U.S. is to persuade Chinese leaders that, even as we actively counter their overreach, we far prefer a peaceable and collaborative path forward.

Climate change offers a classic opportunity—exactly the kind of common foe that, despite years of hostility, brought Richard Nixon and Henry Kissinger together with Mao Zedong and Zhou Enlai in 1972 to counter the Soviet Union. Climate change provides another such opening, and both sides should exploit it by appointing special ambassadors and initiating an active round of shuttle diplomacy. A success would not only help to confront global warming but could also bring a new and much needed stability to Sino-U.S. relations.

Mr. Schell is Arthur Ross Director of the Center on U.S.-China Relations at the Asia Society and co-author, with John Delury, of “Wealth and Power: China’s Long March to the 21st Century.”

Fonte: Wall Street Journal

Economic crisis cannot justify Brazil’s absence from global security debate

Publicado originalmente em: 13/12/2015

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For the past two years, Brazil was, of the world’s top ten economies, the only country without a single participant at the Munich Security Conference. Equally telling, Latin America was the only region without any representation during the debates. Brazil’s participation in the upcoming conference in February 2016 is crucial to avoid the country’s exclusion from the global debate about how to address security challenges — and to prevent that the rules and norms that will shape the 21st century will be made by a small group of traditional actors alone.

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The Munich Security Conference, which takes place on a yearly basis since 1963, is the world’s most important independent forum for international security policy makers from around the globe. Rather than signing official documents or a final communiqué, leaders come to Munich for discreet backroom diplomacy. Informal meetings away from the public eye are used to explore opportunities for negotiations vis-à-vis complex security challenges, ranging from the civil war in Ukraine and Yemen to Syria and the global refugee crisis. In any given year, around twenty Heads of State and Government, fifty foreign and defense ministers and ninety government delegations participate.

Similar to the World Economic Forum (WEF) in the economic realm, it is at the Munich Security Conference where leaders seek to, in their official remarks, set the global security agenda. In 2003, during a panel discussion, Germany’s Foreign Minister Joschka Fischer famously told Donald Rumsfeld, in a mix of German and English, that he was “not convinced” of the United States’ argument that war against Iraq was necessary. The verbal confrontation would become one of the defining moments of the rift between Germany and the United States in the run-up to the Iraq War. It was also an unmistakable sign that Germany would, along with France, assume a leading role in the anti-war coalition.

At the 2007 conference, Russia’s President Vladimir Putin gave a strong-worded and much-remembered speech about the evils of unipolarity, which led to a sharp response by John McCain, who would become the Republican presidential candidate a year later. Six years later, on the final day of the conference, Iranian Foreign Minister Ali Akbar Salehi expressed the willingness of his country to accept the US’s negotiated bid on the Iranian nuclear program. In 2014 and 2015, important discussions took place regarding the conflict in Ukraine and Syria. Simply put, no country or organization interested in playing a role in the discussion about global security challenges can afford not to be at the Munich Security Conference.

In 2016, the war against the Islamic State and the global refugee crisis will loom large during debates in Bavaria. Together, they currently pose the most urgent and complex global security challenge that impossibly can be solved by a small number of rich countries alone. More importantly, the decisions taken vis-à-vis the crisis in Syria will affect future conflicts and the way the international community reacts to them.

And yet, for the past two years, Brazil was, of the world’s top ten economies, the only country without a single participant at the Munich Security Conference. Equally telling, Latin America was the only region without any representation during the debates. Brazil’s participation in February 2016 is crucial to avoid the country’s exclusion from the global debate about how to address security challenges — and to prevent that the rules and norms that will shape the 21st century will be made by a small group of traditional actors alone.

Brazil’s absence from the debates in Munich is part of a worrying trend. When it comes to the dominant themes in global affairs over the past twelve months, such as the rise of the Islamic State, the global refugee crisis or the ongoing civil war in Ukraine, Brazil has rarely gone beyond the role of a bystander, ceding airtime to traditional powers. Yet Brasília could be far more pro-active in the global discussion about how to effectively address the challenges listed above, and positively influence dynamics — as it has done, in the past years, regarding humanitarian intervention, internet governance, peacekeeping, conflict resolution and defending democracy. Canada’s new government has recently shown that it is not neccessary to be a great power to have an impact in the global discussion about refugees. That requires, first of all, being in the room when such things are discussed. However, when it comes to international security policy, Brazil’s government currently does not seem to consider Woody Allan’s famous saying that “90 percent of life is simply showing up.”

A Brazilian participant such as Defense Minister Aldo Rebelo, Foreign Minister Mauro Vieira, Special Advisor Marco Aurélio Garcia, Ambassador Antonio Patriota (who was in Munich in 2013 as Foreign Minister) or President Rousseff herself could provide a valuable perspective on security challenges from the Global South. Yet more worryingly, Brazil’s absence sends a clear message to the other participants that the country does not seek a place at the table when the world’s most complex security challenges are debated. This undermines Brazil’s campaign for a permanent seat on the UN Security Council: Brazil was, in 2014 and 2015, the only G4 member that lacked any representation.

Brazil’s current economic crisis cannot justify such aloofness. After all, what is the use of a country that is only ready to help address global challenges when its economy is going well? In fact, scaling back foreign policy initiatives as a reaction to the economic crisis underestimates how foreign policy can help the economy: Large companies like  Airbus, Boeing and Raytheon (a major American defense contractor) are always present in Munich to network with key figures in the defense establishment, while Embraer and other Brazilian players in the defense industry are not.

Our global debate today is out of balance, and we can no longer solve global challenge by merely relying on a few countries’ wisdom. The dramatic failures of addressing key challenges over the past decades are clear indicators that new actors such as Brazil must contribute to finding meaningful solutions. Merely sending a senior policy maker to Munich in February is, of course, little more than a symbol — yet an important one, nonetheless, showing that Brazil, despite its economic and political crisis, is aware of its global responsibilites.

Fonte: Post-Western World