Os efeitos da extinção da megafauna

Postado em 13/10/2017 por Felipe Poli Rodrigues

Postado Originalmente em 10/10/2017

Megafauna

Docente do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro, Mauro Galetti lidera um grupo de pesquisadores do Brasil, Dinamarca, Espanha, Suíçaa, EUA, África do Sul e Austrália, que aponta os impactos da extinção da megafauna em todo o planeta. A publicação acaba de sair da revista Biological Reviews. Os autores compilaram informações sobre quais as consequências da extinção extinção de mamutes, preguiças-gigantes, tigres-dente-de-sabres entre outros nas interações ecológicas.

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Interações tróficas e indiretas entre a megafauna e seu ambiente, aqui exemplificado pelo elefante (Loxodonta africana) africano, e outros dois animais de megafauna já extintos: a preguiça gigante (Megatherium americanum) da América do Sul e o marsupial gigante Diprotodon optatum da Austrália.

Todos os anos diversos grupos de pesquisa tentam solucionar quais fatores levaram a megafauna a extinção? – Bom, achamos que seria mais interessante perguntar, “Quais as consequências da extinção da megafauna?” comenta Galetti.

Neste trabalho os pesquisadores focaram como a extinção da megafauna afetou parasitas, predadores, ecossistemas e outros processos ecológicos. – Se você fosse um parasita dentro de uma preguiça-gigante, você teve duas alterantivas antes da extinção da preguiça, ou você buscou outro hospedeiro, e muitas vezes foi o próprio homem, ou você se extinguiu junto com a preguiça, complementa Galetti.

Com a extinção de mais de 177 espécies de megafauna da América do Sul, muitas interações e espécies associadas a megafauna foram extintas. Um exemplo é uma espécies de morcegos-vampiro-gigante que provavelmente foram extintas depois da extinção da megafauna. – Sem esses gigantes para chupar o sangue, o vampiro-gigante deve ter morrido de fome, diz Galetti. O trabalho aponta que muitos parasitas que tem o homem, cachorro e gado como hospedeiro provavelmente evoluíram em grandes mamíferos. A berne e a bicheira por exemplo, devem ter “saltado” da megafauna para os homens e seus animais domésticos.

O trabalho de Galetti e colaboradores tem grandes implicações para a atual onda de extinção que nosso planeta passa, a chamada Sexta Extinção.

Este estudo também incluiu: Marcos Moléon, Pedro Jordano, Mathias M. Pires, Paulo R. Guimarães Jr., Thomas Pape, Elizabeth Nichols, Dennis Hansen, Jens M. Olesen, Michael Munk, Jacqueline S. de Mattos, Andreas H. Schweiger, Norman Owen-Smith, Christopher N. Johnson, Robert J. Marquis and Jens-Christian Svenning.

Link para o artigo:

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/brv.12374/full

Fonte: Envolverde

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Financiamento fóssil sob pressão

Postado em 13/10/2017 por Felipe Poli Rodrigues

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Campanha internacional busca pressionar o Banco Mundial a encerrar o financiamento de projetos de desenvolvimento que utilizem ou incentivem o uso de combustíveis fósseis

Nos últimos anos, o Banco Mundial tem se tornado uma das instituições financeiras multilaterais com atuação mais estridente na agenda global sobre mudança do clima, buscando engajar o setor financeiro internacional no esforço para reduzir as emissões de gases de efeito estufa através do financiamento de projetos de energia limpa, principalmente em países em desenvolvimento. Esta preocupação tem sido reforçada em discursos e declarações públicas do presidente da instituição, o economista sul-coreano Jim Yong Kim.

“Acabar com a pobreza extrema e lutar contra a mudança do clima estão inextricavelmente ligados. Não podemos fazer um sem o outro”, disse Kim em março de 2016, pouco antes do Acordo de Paris entrar em vigor. “Precisamos ajudar os países a fazer a escolha certa entre as fontes fósseis de energia e as alternativas renováveis. Isto significa que precisamos direcionar a concessão de financiamento para onde ele fará a maior diferença”.

Em setembro passado, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, Kim e o secretário-geral da instituição, António Guterres, anunciaram um conjunto de planos para acelerar o fluxo de financiamento para ação climática através de uma nova plataforma dedicada a identificar e facilitar investimentos transformacionais nos países em desenvolvimento. Dentre as ações propostas, o apoio à transição para fontes mais limpas de energia aparece com destaque no planejamento.

Entretanto, no caso do Banco Mundial, discursos e práticas podem não estar muito alinhados no que diz respeito à questão climática. No começo de 2017, um relatório da ONG Bank Information Center (BIC) apontou que a instituição continua financiando massivamente projetos que utilizam ou que incentivam o uso de energia fóssil.

“O Banco Mundial tem se comprometido a ajudar os países a adotar um caminho para o desenvolvimento de baixo carbono, especificamente através da redução dos subsídios aos combustíveis fósseis e da promoção da taxação do carbono”, disse Nezir Sinani, uma das responsáveis pelo estudo, à Deutsche Welle à época de seu lançamento. “No entanto, a política de empréstimo do Banco faz o contrário, ao induzir reduções fiscais às usinas de energia à carvão e à infraestrutura de exploração e exportação deste combustível”.

O estudo analisou o programa de financiamento para políticas de desenvolvimento pelo Banco Mundial, que concentra cerca de 1/3 dos recursos financeiros da instituição. Os resultados apontam que, nos últimos dez anos, a instituição operou financiamentos na casa dos US$ 5 bilhões em quatro países em desenvolvimento (Indonésia, Peru, Egito e Moçambique) que apoiaram projetos que colocaram o clima, as florestas e as pessoas em risco.

“A política de empréstimos do Banco Mundial está criando subsídios para projetos de carvão, gás e petróleo em detrimento de iniciativas para construir e expandir a infraestrutura para a energia eólica, solar e geotérmica e para a proteção das florestas tropicais vulneráveis”, apontam os autores do estudo.

Nesse contexto, diversas organizações e movimentos sociais em todo o mundo se uniram nas últimas semanas na campanha internacional The Big Shift Global, com o objetivo de pressionar as instituições financeiras multilaterais – entre elas, o Banco Mundial – a suspender seu aporte a projetos baseados em energia suja e direcionar os recursos para projetos de energia limpa que alcancem e beneficiem às comunidades mais vulneráveis à mudança do clima.

“O Banco Mundial concorda que a mudança do clima está afetando as pessoas mais pobres do planeta. Seu objetivo é acabar com a pobreza extrema em todo mundo nesta geração. No entanto, ele ainda apoia diversos projetos que contribuem para a mudança do clima”, afirmam as organizações responsáveis pela campanha – entre eles, Climate Action Network (CAN International), Christian Aid, E3G e Overseas Development Institute (ODI).

 

O foco inicial da campanha é pressionar a direção do Banco Mundial nos próximos dias, quando a instituição realizará seu encontro anual em sua sede, na capital dos Estados Unidos, Washington, além de realizar atividades de mobilização durante a Conferência do Clima de Bonn (COP 23).

As instituições financeiras multilaterais regionais também serão foco de atuação da campanha nos próximos meses, com o objetivo de ampliar as opções de financiamento para o desenvolvimento a partir da promoção de energia limpa.

“Queremos que o ponto de vista das pessoas sobre financiamento para energia seja considerado pelos bancos multilaterais de desenvolvimento, seus diretores e executivos, bem como pelos chefes de governo e ministros de finanças dos países membros”, afirmam os responsáveis pela campanha. “É fundamental alinhar as decisões tomadas por estas instituições e seus gestores com objetivos de longo prazo para segurança climática e pobreza – e isso inevitavelmente passa por uma mudança em favor do financiamento de energia limpa, sustentável e renovável para todos”.

Fonte: Página 22

Poluição causa 19 milhões de mortes precoces por ano, diz ONU

Publicado por Felipe Poli Rodrigues

Publicado originalmente em 03/10/2017

Em relatório divulgado recentemente, a ONU Meio Ambiente aponta que a poluição tira precocemente a vida de 19 milhões de pessoas a cada ano. Documento apresenta 50 ações concretas para reduzir a contaminação e o despejo de resíduos na natureza. Além de elencar soluções, o levantamento cobra compromissos da comunidade internacional para proteger habitats e ecossistemas.

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Em relatório divulgado recentemente, a ONU Meio Ambiente aponta que a poluição tira precocemente a vida de 19 milhões de pessoas por ano. Documento apresenta 50 ações concretas para reduzir a contaminação e o despejo de resíduos na natureza. Além de elencar soluções, o levantamento cobra compromissos da comunidade internacional para proteger habitats e ecossistemas.

“A poluição é um desafio universal, mas a boa notícia é que já sabemos o que precisamos fazer para prevenir e reduzir”, disse o diretor-executivo da agência das Nações Unidas, Erik Solheim, por ocasião do lançamento da pesquisa, na semana passada (28).

O dirigente ressaltou que “agora a responsabilidade é sobre governos, empresas, cidades e autoridades locais, sociedade civil e indivíduos em todo o mundo para se comprometerem a vencer a poluição em todas as suas formas”.

Segundo o relatório, a poluição afeta especialmente as populações em situação de pobreza e é uma ameaça direta aos direitos humanos. Na avaliação da ONU Meio Ambiente, os esforços atuais de Estados, setor privado e cidadãos foram limitados, o que dificultou uma resposta coordenada.

A publicação sugere cinco estratégias globais: um pacto sobre poluição, tornando-a uma prioridade para todos; o fortalecimento das políticas ambientais; o consumo e a produção sustentáveis, com ações para mudar os estilos de vida, reduzir e gerenciar adequadamente os resíduos; investimentos em produção e consumo mais limpos; e parcerias para a inovação, que permitam o compartilhamento de conhecimentos e a realização de pesquisas transdisciplinares.

O documento enfatiza que, embora algumas formas de poluição tenham sido reduzidas à medida que as tecnologias e as estratégias de gerenciamento avançaram, a má utilização dos recursos naturais segue sendo um risco para a humanidade.

“Se os padrões de consumo e produção continuarem como estão, o modelo econômico linear ‘pegue-use-descarte’ irá sobrecarregar gravemente um planeta já poluído, afetando as gerações atuais e futuras”, aponta o relatório.

Acesse a publicação na íntegra clicando aqui.

Fonte: ONU Brasil

Província argentina trata água como questão de Estado

Postado em 24/08/2017 por Felipe Poli Rodrigues

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Imagine você no meio de um deserto. Agora, imagine este deserto na margem leste da cordilheira dos Andes, na América do Sul. Um solo árido, com muito pedregulho, de vegetação rasteira e escassa. Como sobreviver neste ambiente hostil e seco? Onde a amplitude térmica é enorme, com variações de 30°C entre dia e noite no verão. O índice pluviométrico é baixíssimo e na época das chuvas, as precipitações podem chegar a no máximo 40 mm. Essa é a situação da província argentina de Mendoza, uma das regiões de agricultura mais produtiva da Argentina.

Graças às técnicas seculares de irrigação dos Huarpes, habitantes originais da região, foram criados oásis para possibilitar a agricultura e condições básicas para a vida humana. Esses oásis foram possíveis graças à água proveniente do degelo da cordilheira dos Andes. Um ano com pouca neve na cordilheira no inverno gera primavera e verão com escassez de água na região.

Por razões de sobrevivência, o povo Huarpe aprendeu a tratar e valorizar a água, pois sabia que sem este poderoso elemento da natureza, a vida ficava comprometida.

Quando os espanhóis dominaram aquela região, eles foram sábios o suficiente para preservar as técnicas de tratamento da água e irrigação dos Huarpes.

Com a chegada de novos imigrantes, predominantemente espanhóis, italianos e também franceses, e o desenvolvimento econômico da região, Mendoza assumiu uma vocação agrícola baseada em frutas provenientes de regiões áridas, do mediterrâneo ou oriente médio. A força da agricultura vem dos seguintes cultivos: uva para produção de vinho, alho, cebola, azeitona, ameixa, nozes, castanhas e outras frutas secas. Os oásis cresceram, mas a terra só tinha valor se tivesse irrigação, ou se estivesse dentro de um oásis, que por sua vez é irrigado. Portanto, o elemento água continua tendo um valor muito maior que a terra, pela razão de oferta e demanda. Quem tem água, tem vida, quem não tem, perece de forme sede.

Por razões econômicas e também de sobrevivência, a água devia ser tratada como um bem maior, com um assunto estratégico, como um assunto de Estado e não de governo. A diferença é que os assuntos de governo podem mudar radicalmente conforme os governantes e legisladores de turno, enquanto o tema de Estado é um assunto estratégico e de extrema importância para a sustentabilidade da sociedade. Portanto, ele deve ser tratado com visão de longo prazo, de forma a atender ás demandas de sobrevivência de uma civilização e não ás demandas econômicas ou políticas de um governo passageiro ou interesses particulares de setores da sociedade.

Com esta visão estratégica e de longo prazo, se criou uma autarquia independente do governo da província, exclusivamente para a gestão das águas. A província de Mendoza conta com um “Governador das Águas”, como se conhece popularmente ao “Superintendente de Irrigación”, o qual é aprovado pelo Senado local. Esta autarquia se chama “Departamento General de Irrigación”

O objetivo principal do Governador das Águas é manter a província viva, pois sem água não há como manter as condições básicas que permitem habitar a região.

Quando a água é vista como um elemento que pode ser definitivo como um divisor fundamental entre a vida e a morte, não resta outra saída que criar mecanismos de gestão eficientes.

No Brasil, onde na maioria do território a água é abundante, tendemos a menosprezar os preciosos serviços  da água que a natureza abundante nos entrega. Temos rios poluídos, rios cobertos, rios mortos, rios canalizados, rios represados e até rios lindos.

Se a visão de nossa sociedade e lideranças com respeito a água não mudar de forma radical, teremos um futuro sombrio, e nosso presente já dá sinais de alerta, com a “crise hídrica” ou a também chamada crise de abastecimento de água no estado de São Paulo, que é considerado o estado mais rico na nação. Onde não há água, não há vida e muito menos riqueza.

Com água limpa há saúde, com água poluída há doença e morte. A água do nosso país não pode ser tratada daqui pra frente da mesma forma que foi tratada no passado.

Enquanto não tratarmos o assunto da água como um tema de Estado, que atenda às necessidades de uma sociedade viva e saudável e com visão de longo prazo, estaremos à mercê de São Pedro.

Fonte: Envolverde

Entra em vigor convenção global sobre redução do uso de mercúrio

Postado em 23/08/2017 por Felipe Poli Rodrigues

Postado originalmente em 21/08/2017

Entrou em vigor neste mês (16) a Convenção de Minamata sobre Mercúrio, tratado internacional que prevê medidas para combater o uso do metal pesado. O pacto prevê a proibição da abertura de novas minas da substância, bem como o fechamento das já existentes. Outra obrigação será a regulação das minas artesanais e de pequena escala de ouro, onde o metal pesado é utilizado.

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“Os governos dos países signatários da convenção estão agora legalmente obrigados a tomar uma série de medidas para proteger a saúde humana e o meio ambiente, tratando o mercúrio ao longo da sua vida útil”, informou em declaração a ONU Meio Ambiente.

O tratado prevê a redução do uso e das emissões de mercúrio. Como o metal é indestrutível, o acordo também estipula condições para o armazenamento provisório e para o descarte final de resíduos do metal. A Convenção representa o primeiro esforço global para a proteção do meio ambiente e da saúde em quase uma década.

O documento entrou em vigor 90 dias após a ratificação mínima exigida de 50 países, no dia 18 de maio. A Convenção possui 74 membros e 128 países signatários.

“A Convenção de Minamata mostra que o esforço global para proteger o nosso planeta e seus habitantes pode continuar reunindo as nações do mundo. Fizemos isso antes, pela proteção da camada de ozônio, e hoje o fazemos pela redução do mercúrio, como também precisamos fazê-lo pela luta contra as mudanças climáticas, uma causa para a qual a Convenção de Minamata será muito importante. Juntos, podemos mudar as nossas atitudes”, defendeu o diretor-executivo do PNUMA, Erik Solheim.

Segundo a ONU Meio Ambiente, até 8,9 mil toneladas do metal pesado são lançadas nos ecossistemas anualmente. Embora seja encontrado na natureza, o mercúrio também é liberado no ambiente indevidamente, por atividades humanas, como a queima de carbono e o garimpo, explica a agência da ONU.

Atualmente, atividades de mineração expõem 15 milhões de trabalhadores vivendo em 70 países ao risco de intoxicação por mercúrio, incluindo crianças. O mercúrio está na lista das Nações Unidas das dez substâncias químicas que mais ameaçam a saúde do planeta.

“Não há um nível de exposição seguro à substância nem cura para a intoxicação por mercúrio, que, em níveis altos, pode causar danos neurológicos irreversíveis”, disse a ONU Meio Ambiente.

Bebês ainda durante a gestação estão entre os segmentos populacionais mais vulneráveis, ao lado de pessoas que consomem o pescado envenenado, dos indivíduos que têm contato com a substância no ambiente de trabalho e dos moradores de zonas próximas a locais contaminados. Regiões com temperaturas baixas favorecem a acumulação do metal, o que aumenta os riscos para seus habitantes.

O nome do acordo vem do caso mais desastroso de contaminação envolvendo a substância. Em maio de 1956, no Japão, após o despejo contínuo desde 1930 de rejeitos industriais nos afluentes da Baía de Minamata, moradores da região começaram a ter convulsões, psicoses e desmaios — alguns japoneses chegaram a entrar em coma. Perícias concluíram que cerca de mil pessoas haviam sido envenenadas com mercúrio.

A primeira reunião dos Estados-membros signatários da Convenção de Minamata acontecerá em Genebra, de 24 a 29 de setembro.

Fonte: ONU Brasil

A água brasileira corre para as multinacionais

Postado em 12/08/2017 por Felipe Poli Rodrigues

Postado originalmente em 11/08/2017

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Uma corporação canadense já controla o abastecimento de 17 milhões de brasileiros. Outras estão à espreita numa privatização tramada sem nenhum debate com a sociedade

A história do Brasil, não é novidade, foi forjada por uma sucessão de saques contra as nossas riquezas naturais. A lista é longa: pau-brasil, açúcar, ouro, diamantes, algodão, café, ferro, borracha, nióbio, sal, mogno, petróleo, etc. Como o que está ruim pode piorar, como diria um pessimista empedernido, eis que agora podemos acrescentar a água a esta lista.

Antes já comprovadamente explorada na irrigação e dando base para o que hoje é chamado de “exportação da água virtual” com a venda de frutas e de soja para fora do país (há outros itens, mas estes são os mais relevantes), o controle dos recursos hídricos avança no país por parte das multinacionais. A água nossa de cada dia já gera, há muito tempo, lucro para alguns grupos econômicos estrangeiros vindos de países sem a mesma abundância em mananciais como tem Brasil. Há razões para essas empresas se instalarem aqui no nosso país. Basta afirmar que para produzir 1 quilo de banana são gastos 790 litros de água, segundo o site da Waterfootprint [1] (organização que mede o gasto de água para produzir alguns alimentos e produtos). No caso da soja, para produzir 1 quilo desta leguminosa são necessários 1.500 litros de água. Adivinhe o nome do país que se tornou o maior produtor de soja no mundo.

Sobre a apropriação da água para a fruticultura irrigada, pergunte aos moradores do entorno do Canal da Integração construído pelo então governador do Ceará, Ciro Gomes, o que eles acham da presença das grandes empresas de fruticultura na Chapada do Apodi cearense e o acesso que eles tem sobre aquela água. É que por lá a água tem dono, e não são os moradores locais. Experimente ter que amarrar a si próprio em uma estaca para descer em um canal e conseguir uma lata de água durante a madrugada correndo o risco de ser pego por seguranças e ainda ser acusado de roubo. Nem todos são convidados para o banquete do progresso da agricultura em grande escala e mecanizada do Apodi.

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Quero tratar também de outra forma de comercializar/mercantilizar/privatizar a água. É sobre o que vem acontecendo com a administração das distribuidoras de água do nosso país. Desde a Era Collor de Mello, aprofundando-se no “reinado” de Fernando Henrique Cardoso e nos governos petistas, a posse deste serviço pelos estados e municípios vem sendo lentamente desconstruída e repassada para empresas privadas. Não tenho nada contra as empresas privadas, mas água é importante demais para ficar sobre o controle de algumas empresas. Privatizar pode significar privar as pessoas do acesso a um bem natural em muitos casos. Se você não pode pagar a conta da água, você será privado do acesso a ela nas torneiras da sua casa. Empresas privadas precisam pagar funcionários, impostos e ter lucro. E quanto mais lucro melhor para garantir a sobrevivência no mundo cruel dos negócios. É a natureza delas. Goste-se ou não, é assim que funciona. Se você pensa que é diferente, pergunte aos bolivianos sobre a relação nada amigável entre eles e a empresa estadunidense Bechtel que administrou a distribuição da água por lá e causou tamanho revolta com o aumento das tarifas impagáveis pelos mais pobres e o consequente corte da água para as suas casas. Não por acaso, aconteceu a chamada Guerra da Água causando a morte de mais de setenta pessoas nas ruas de Cochabamba no ano 2000. Pode também perguntar aos franceses por que as empresas distribuidoras de água na França, que por décadas foram administras por empresas privadas, passaram a ser reestatizadas em vários municípios de lá, incluindo Paris. No entanto, o Brasil segue o caminho da privatização da água já fracassado em outros países. Por que será?

A linguagem não é neutra. Mas o que há entre a não neutralidade da linguagem e a privatização da água no Brasil? Simples: ela é utilizada a favor da justificativa do repasse das nossas águas para as mãos de multinacionais. Você lerá/verá/escutará cada vez mais que a água é um bem econômico e assim deve ser tratada. Interessante é que nunca se afirma que por isso mesmo ela deva ser administrada pelo Estado e gerar mais dividendos para melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes. Outro artifício linguístico é falar em concessão do saneamento básico. Concessão é com-ceder, ceder o que se tem para outrem. No Brasil o governo diz conceder para passar a ideia de que a estatal continuará a pertencer ao governo, mesmo que ela passe a ser administrada por uma empresa privada tirando todo o poder governamental sobre a mesma. Tenta-se fantasiar o boi de cavalo. Será difícil retomá-la para o âmbito governamental em um país onde o mundo privado já domina os governos. Com relação a palavra saneamento, o primeiro lampejo mental para a população em geral é lembrar de esgoto. Quem não quer melhorar a situação do acesso e tratamento dos esgotos brasileiros. Você acredita que as empresas privadas vão sair por aí cavando asfalto para promover o aceso aos esgotos nas nossas favelas? Sejamos sinceros, onde já tem será mantido, onde não tem, não terá por iniciativa delas.

Um outro elemento linguístico utilizado para ajudar a convencer a todos da boa natureza da privatização da água é o discurso da escassez para amedrontar a população. Esta é outra estratégia que vem dando certo. Não que a escassez não exista. Ela é real e mortífera em várias partes do globo. Mas onde não é realidade ou não tão impactante, a escassez tem sido amplificada por parte da mídia. “Ficaremos sem água”, “a água está acabando,” “é preciso economizar água,” “Não desperdice água,” “o desperdício é causado porque a água é gratuita,” etc. Não há no mesmo discurso o chamamento da atenção para o fato de que 70% da água doce no planeta são gastos com irrigação e menos de 10% em uso doméstico. O discurso é tão eficaz, que existem crianças policiando o banho dos pais. Não que não devamos economizar água, longe disso. O problema é culpar o usuário comum quando ele não é o grande vilão da história.

Outro bom exemplo da linguagem a serviço da manipulação é a forma como o atual governo e as mídias encontraram para retratar as negociações para as privatizações das estatais da água. Primeiro era por meio da Parceria Público Privada – PPP. Então surgiu agora o Programa de Parceria de Investimento – PPI. Tudo falácia. No final é o dinheiro público financiando a compra das empresas públicas por empresas privadas e ainda com garantia de lucros nos contratos. Sem essa garantia, os grupos econômicos não consideram a amizade com o governo tão sincera.

O bom e velho BNDES foi acionado pelo governo da vez para ajudar a “democratizar o saneamento” com o PPI. Bondade não tem limite para este Banco de Desenvolvimento. E seus atos bondosos incluem a pressão para que os estados concedam a administração das suas distribuidoras de água para a privatização, digo, concessão (mas é privatização, mesmo). A fila vai começar com a CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro. O BNDES está financiando grupos econômicos que queiram entrar no negócio da água e 18 estados estão na fila para entregar o leite a um bebê faminto.

Mas se engana quem pensa que as multinacionais da água ainda vão chegar. Hoje o Brasil já tem 17 milhões de pessoas, em 12 estados brasileiros, são atendidas na distribuição de suas águas pela Bookfield, uma multinacional canadense. Ela comprou esta “fatia do mercado” da Odebrecht Ambiental. Parece pouco, mas o valor da transação foi de quase 3 bilhões de reais. Não é um mercado para qualquer um, como se vê.

O Ouro Branco, como é chamada a água em contraposição ao título de Ouro Negro dado ao petróleo, é um bom negócio, mas não para as populações carentes. Em um pequeno livrinho chamado O Manifesto da Água (2002), de autoria Riccardo Petrella e em outro livro publicado pela canadense Maude Barlow intitulado O Convênio Azul: a crise global da água e a batalha futura pelo direito a água (2009) [2], as consequências negativas para as comunidades e positivas para as empresas estão descritas com vários exemplos ao redor do planeta. São Paulo conhece bem as negativas quando sofreu um choque com o racionamento provocado pela ideia do lucro primeiro, população depois. É que 49,7% da Sabesp pertencem a empresas privadas. Vários analistas da questão hídrica culparam a empresa por não ter investido na melhoria da infraestrutura por anos, uma das causas do problema. Teoricamente o governo paulista tem maioria de 0,3 para a tomada de decisões. Mas nós todos sabemos como falham as teorias…

O avanço das ondas das novas privatizações vem como um tsunami. O problema é que agora não há mais estatais como Vale do Rio Doce, Embraer, Telebras, Rede Ferroviária, etc. Tudo já foi vendido nos anos noventa. Se é preciso satisfazer a sede dos grupos econômicos, que venha a bebida disponível no momento e esta é a água nossa de cada.

Fonte: Envolverde

ECO21 – O Brasil na contramão com o desmatamento e a energia nuclear

Postado em 12/08/2017 por Felipe Poli Rodrigues

Postado originalmente em 12/08/2017

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Diversos acontecimentos neste mês de Julho chamaram a atenção particularmente no Brasil. No campo político, a possível abertura de um processo de impeachment ao Presidente Temer na Câmara dos Deputados foi o fato mais significativo. Nas suas articulações, o Presidente Temer decidiu agradar a bancada ruralista enviando ao Congresso Nacional um Projeto de Lei que diminui em 350 mil hectares a Floresta Nacional do Jamanxin, uma das principais Unidades de Conservação do país. Este PL, segundo diversos analistas e organizações ambientalistas, como o IPAM Amazônia, “anistia a grilagem e pode gerar um desmatamento adicional de mais de 138 mil hectares, até  2030, provocando a emissão de 67 milhões de toneladas de CO2. Se passar, o PL representará uma confirmação de que o desmatamento fugiu do controle e que, paradoxalmente, tem o aval do Governo”.

O desmatamento do Bioma Chaco, no Paraguai, para fazer carvão, e na, Bolívia, para plantar soja, se soma à destruição do Cerrado que muito em breve será transformado num deserto sem recursos hídricos. Essa situação leva a uma análise mais aprofundada sobre o desaparecimento das florestas tropicais no mundo. O Professor Luiz Marques da UNICAMP, num artigo recente adverte que estaríamos vivenciando o último século das florestas tropicais. Reproduzindo dados de 2001 do Earth Observatory da NASA ele informa: “se a taxa atual de desmatamento continuar, as florestas tropicais desaparecerão dentro de 100 anos, provocando efeitos desconhecidos sobre o clima global e eliminando a maioria das espécies vegetais e animais no Planeta”.

Essa observação se encontra fundamentada em observações de imagens de satélite e nelas a região amazônica figura em primeiro lugar. No dia 10 deste fatídico Julho, a publicação científica PNAS da Academia Nacional de Ciências dos EUA, alertou que a atividade humana está precipitando a “aniquilação biológica” e promovendo um evento de extinção em massa, que seria o sexto fenômeno deste tipo na evolução da vida na Terra. Dois dias depois, aconteceu o colapso da plataforma de gelo Larsen C na Antártida, provocando a formação de um gigantesco iceberg, estimado em um trilhão de toneladas de gelo. O iceberg tem quase a mesma área de algumas ilhas muito conhecidas; é maior que Bali, Trinidad e um pouco menor que Córsega, Chipre ou Porto Rico.

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Mas a dramática realidade planetária não se limita a isso, neste mês a National Oceanic & Atmospheric Administration (NOAA) dos EUA revelou o aparecimento de uma gigantesca “zona morta” no Golfo do México de 15 mil km2, quase 15 vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro, onde a água não tem oxigênio suficiente para que os peixes sobrevivam. Isso se deve aos agrotóxicos e produtos químicos utilizados pelos agricultores a quilômetros de distância.

É o que o jornalista e ambientalista Dal Marcondes chama de “terra envenenada” citando um informe da FAO: “os solos estão contaminados por conta das atividades dos homens, que descartam uma grande quantidade de produtos químicos nas áreas utilizadas para produzir alimentos”. Por sorte surge uma esperança, Nicolas Hulot, Ministro da Transição Ecológica e Solidária da França de Macron, decidiu banir alguns agrotóxicos, fechar l7 centrais nucleares até 2025, proibir até 2040 o uso de carros com combustível fóssil, e levar a França a zerar as emissões de CO2 até 2050.

Na Coreia do Sul, O novo Presidente Moon Jae-In, prometeu que o país acabará com a dependência de energia nuclear e investirá em fontes de energia renováveis. Ele espera que o país entre em uma “era livre da energia nuclear” assim como o governo espanhol que decidiu fechar a sua central nuclear de Santa Maria Garoña, a mais antiga do país. Enquanto isso o Brasil vai à contramão pensando em terminar de construir a central nuclear de Angra 3.

Acompanhando as boas notícias, a empresa Tesla concluiu uma enorme usina solar de 55.000 painéis na ilha havaiana de Kauai, que permitirá o armazenamento de energia em escala industrial. Como resultado, 44% da energia da ilha virão de fontes renováveis. Será a primeira iniciativa solar a fornecer energia de forma confiável 24 horas por dia, 7 dias por semana. O Havaí estabeleceu metas de eliminar todas as fontes de energia não renováveis até 2045. Aloha spirit!

Fonte: Envolverde