O que significam as sanções contra Rússia e China

18/10/2018, Pepe Escobar, Asia Times 4:09 PM (UTC+8)

Um relatório crucial do Pentágono sobre a base industrial e a “resiliência da cadeia de suprimentos” da Defesa dos EUA acusa a China de “expansão militar” e de conduzir “uma estratégia de agressão econômica”, principalmente porque Pequim é a única fonte de “vários produtos químicos usados em munições” e mísseis.

A Rússia é mencionada apenas uma vez, mas em um parágrafo crucial: como o país que mais “ameaça”, ao lado da China, a indústria de defesa dos EUA.

O Pentágono, nesse relatório, pode não estar advogando guerra total contra ambas, Rússia e China – como se interpretou em algumas áreas. O que o Pentágono faz é configurar a guerra comercial contra a China como ainda mais incandescente, ao mesmo tempo em que expõe os reais motivos por trás das sanções contra a Rússia.

O Departamento de Comércio dos EUA impôs sanções” a 12 empresas russas, acusadas de “agir contra interesses da segurança nacional ou da política exterior dos EUA”. Na prática, significa que as empresas norte-americanas não podem exportar produtos “dual-use” [lit. “de uso duplo”, civil e militar][1] para qualquer das empresas russas sancionadas.

Há razões muito claras por trás dessas sanções – e nada têm a ver com segurança nacional. Trata-se, aí, de mera competição em“livre mercado”.

No olho dessa tempestade está o jato para passageiros Irkut MC-21 – o primeiro no mundo, com capacidade para mais de 130 passageiros, a ter asas construídas de materiais compósitos.

AeroComposit é responsável pelo desenvolvimento dessas asas de materiais compósitos. A parte estimada dos compósitos usados no projeto total chega a 40%.

O motor PD-14 do MS-21 – que não tem potência suficiente para ser empregado em jatos de combate – será fabricado pela Aviadvigatel. Até agora, os MC-21 usavam motores Pratt & Whitney. O PD-14 é o primeiro motor do novo tipo 100% fabricado na Rússia, desde que a URSS desfez-se.

Especialistas em aviação não têm dúvidas de que o MC-21 equipado com motor PD-14 superará facilmente os modelos que lhe fazem concorrência: o Airbus A320 e o Boeing-737.

Há também o motor PD-35 – que está sendo desenvolvido pela empresa Aviadvigatel, especificamente para um modelo de jato de grande porte, produção russo-chinesa, já anunciado, a ser construído em regime de joint venture pela empresa China-Rússia Commercial Aircraft International Corp Ltd (CRAIC), constituída em maio de 2017, em Xangai.

Especialistas em todo o mundo estão convencidos de que esse é o único projeto capaz de abalar o monopólio, que já dura décadas, das empresas Boeing e Airbus.

É possível que as sanções impeçam a Rússia de aperfeiçoar o MC-21 e de investir no novo avião de passageiros? Muito pouco provável. Para Andrei Martyanov, conhecido analista militar russo, essas sanções são, na melhor das hipóteses, “risíveis” – dado que “fabricantes de aviônica e peças” para os ultra sofisticados jatos de combate Su-35 e Su-57 podem facilmente suprir substitutos para os itens ocidentais nos jatos de passageiros

Oh China, como você é ‘maligna’!

Mesmo antes do relatório do Pentágono, já era claro que o objetivo número um do governo Trump em relação à China era, no limite, cortar as longas cadeias de itens produzidos por empresas norte-americanas que operam na Rússia, para suprir projetos russos, e reimplantá-las de volta nos EUA – com todas as suas dezenas de milhares de empregos.

Essa reorganização radical do capitalismo global pode não parecer muito sedutora para as multinacionais norte-americanas, porque perderiam todas as vantagens de custo-benefício que, de início, as levaram para a China. E as vantagens perdidas não serão compensadas com redução de impostos para as empresas.

Piora – do ponto de vista do comércio global: para os falcões da administração Trump, a reindustrialização dos EUA pressupõe a estagnação industrial chinesa. Isso explica, em grande medida, a demonização sem limites, em todos os seus aspectos, do movimento no campo da alta tecnologia chamado “Made in China 2025.

E tudo isso flui em paralelo para hiper demonizar também a Rússia. Assim temos o secretário do Interior dos EUA Ryan Zinke, que ameaçou nada menos do que implantar um bloqueio nos fluxos de energia russa: “Os EUA podem fazer isso, com nossa Marinha, para assegurar que as rotas marítimas permaneçam livres. Se necessário, bloquear (…) para assegurar que a energia deles não chegue ao mercado.”

A demonização comercial e industrial da China chegou a um paroxismo, com o vice-presidente Mike Pence acusando a China de “assédio imprudente”, tentando “difamar” e abalar a credibilidade de Trump e, até, de ser o principal culpado de se imiscuir nas eleições nos EUA, tirando do trono a Rússia. É coisa que não parece sintonizada com alguma estratégia que tenha, por objetivo principal, criar empregos nos EUA.

O Presidente Xi Jinping e seus assessores não são necessariamente avessos a fazer algumas concessões comerciais. Mas isso se torna impossível, do ponto de vista de Pequim, quando os EUA impõem sanções à China ‘porque’ compra sistemas de armas russos.

Pequim pode facilmente prever, escrita no muro das relações comerciais, uma consequência inevitável das acusações de Pence: sanções ao estilo da Lei Magnitsky, que sancionaram indivíduos e empresas russas, podem ser em breve estendidas também aos chineses.

Afinal, Pence disse que a alegada interferência da Rússia nos assuntos dos EUA sumia, em importância, se comparada às ações “malignas” da China.

O embaixador da China nos Estados Unidos, Cui Tiankai , em entrevista à Fox News, fez de tudo para se manter diplomático em alto estilo: “Seria difícil imaginar que um quinto da população mundial pudesse desenvolver-se e prosperar, confiando principalmente não nos próprios esforços, mas dependendo de tecnologia roubada, ou transferida de outros, à força (…) Não é possível. O povo chinês é tão trabalhador e diligente como qualquer outro na face da Terra”.

São posições a serem validadas mais uma vez em Bruxelas nesta semana, na cúpula bienal ASEM – Ásia Europa –, realizada pela primeira vez em 1996. Esse ano, o tema é “Europa e Ásia: parceiros globais e desafios globais”. No topo da agenda estão comércio, investimento e conectividade – pelo menos entre a Europa e a Ásia.

A ofensiva de Washington contra a China não deve ser interpretada sob a ótica de algum “comércio justo”, mas, sim, como estratégia para conter a China no campo tecnológico, o que toca no tema absolutamente crucial: impedir que a China desenvolva a conectividade que sustenta as cadeias de suprimentos estendidas, que estão no coração da iniciativa Cinturão e Estrada (ICE).

Não precisamos de concorrentes

Sinal muito claro de que essas sanções que coincidem sobre Rússia e China têm tudo a ver como o bom velho medo de Brzezinski, de que a Eurásia seja dominada por “concorrentes equivalentes” emergentes, apareceu recentemente, vindo de Wess Mitchell, secretária-assistente de Estado no Gabinete de Negócios Europeus e Asiáticos – cargo que já pertenceu a Victoria “Foda-se a União Europeia” Nuland.

Aqui se lê o depoimento original de Mitchell, à Comissão de Relações Exteriores do Senado. E aqui a versão já saneada pelo Departamento de Estado.

Um trecho crucial, no meio do segundo parágrafo, simplesmente desapareceu: “Permanece entre os principais interesses de segurança nacional dos Estados Unidos impedir que potências hostis dominem a massa de terra eurasiana”.

Não que já não soubessem, mas aí está toda a geopolítica de que Pequim e Moscou precisavam saber.*******


[1] Ver também, para mais detalhes: 29/9/2018, Arkady Savitsky, Strategic Culture Foundation (NTs).

Pepe Escobar: Copa na Rússia é uma grande vitória de Putin

Pepe Escobar: “Era Putin-Xi superará a (des)ordem liberal ocidental? “

china russia relations
26/3/2018, Pepe Escobar, in The Vineyard of the Saker  (de Asia Times)

A emenda à Constituição chinesa, que passa a permitir mandatos subsequentes ao presidente Xi Jinping – de modo a que fique no poder por tempo suficiente para promover o “rejuvenescimento nacional” –, combinada às eleições na Rússia que confirmaram Vladimir Putin na presidência, garantiu consistência e continuidade à parceria estratégica Rússia-China até bem entrada a próxima década.

Com isso se facilitam a interação entre a Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) e a União Econômica Eurasiana (UEE); a coordenação política dentro da Organização de Cooperação de Xangai, nos BRICS e no G-20; e o movimento em geral rumo à integração da Eurásia.

O fortalecimento do que se deve ver como a era Putin-Xi só pode estar levando pânico aos liberais ocidentais.

Interesses capitalistas sempre acreditaram na própria narrativa de propaganda, que conecta diretamente a expansão capitalista e alguma inevitável expansão da democracia.

O pensamento crítico está afinal desmascarando, no mínimo, essa mais uma grande ilusão.

O que realmente aconteceu desde o início dos anos 1980s foi que o turbocapitalismo ocidental aproveitou-se avidamente de uma variedade de trabalho neoescravo nas Zonas Especiais Econômicas (ZEEs) da China. Combine isso com a proverbial húbris das elites ocidentais, apostando que a China – vista no melhor dos casos como fonte de trabalho barato – e uma Rússia enfraquecida durante os anos 1990s jamais conseguiriam acumular know-how para desafiar o ocidente, geoeconomicamente e geopoliticamente.

O registro histórico é implacável, mostrando que não há qualquer tipo de conexão entre comércio “livre” – usualmente mais livre para os de maior peso – e liberalização da política. Por exemplo, a monarquia prussiana rebaixou barreiras comerciais, o que levou à criação da Zollverein [união aduaneira de estados germânicos] em 1834. E o Terceiro Reich entre 1933 e 1938 ofereceu mistura perigosa de capitalismo e totalitarismo hardcore.

O sistema da China, onde um partido (marxista) controla o Estado para o objetivo de preservar a coesão nacional, com certeza não pode ser descrito como democracia liberal. O dissidente Minxin Pei, autor de China’s Trapped Transition [aprox. ‘a transição chinesa capturada’ (NTs)], já sabia, há 12 anos que o Partido Comunista Chinês jamais tomaria o rumo da democracia liberal ocidental (Pei tomou ao pé da letra as orientações do Pequeno Timoneiro Deng Xiaoping).

Compreendeu corretamente que a China “não tem interesse em se tornar membro do clube [do ocidente]. Querem os benefícios econômicos da ordem ocidental liberal [infelizmente benefícios sempre pra uns poucos! (NTs)], mas rejeitam os valores políticos [que infelizmente também beneficiam só uns poucos! (NTs)] e temem [com sobejas razões (NTs)] suas alianças de segurança. Hoje, a China está em posição suficientemente forte para construir seu próprio clube.”

Mas Pei concluiu erradamente que o PCC sufocaria o crescimento econômico da China (“O prospecto de uma estagnação semelhante à japonesa é real.”) Xi Jinping e seu novo dream team precisam de tempo suficiente para fazer andar o modelo econômico chinês.

Longe da demonização infantiloide 24h/dia, 7 dias por semana, fato é que a Rússia hoje é uma democracia, embora imperfeita. E é importante analisar como uma jovem democracia está exposta, quase indefesa, para ser manipulada.

O terceiro capítulo do novo livro Manifest-Destiny: Democracy as Cognitive Dissonance [aprox. “Destino Manifesto: democracia como cognição dissonante”*] detalha o estupro da Rússia; como as “reformas de livre mercado” de Boris Yeltsin facilitadas pelos “Harvard boys” permitiram que um pequeno grupo de oligarcas bilionários – Mikhail Khodorkovsky, Boris Berezovsky e Roman Abramovich dentre eles – tomassem posse de uma economia que passava então por terapia de choque.

Entre 1991 e 1997 O PIB russo despencou impressionantes 83%; o investimento na economia caiu 92%.

O caso de Khodorkovsky é emblemático. Através da empresa Yukos, o empresário era dono de campos de petróleo na Sibéria; e estava a um passo de vender tudo a interesses empresariais ocidentais, nos idos de 2003, quando Putin saiu ao seu encalço. Não há dúvida de que o processo foi intensamente estudado pela liderança em Pequim. Controlar interesses nacionais chaves é a derradeira absoluta linha vermelha.

Para Putin, como para Xi, o árbitro supremo é o Estado nacional, não uma gang de oligarcas como começa a virar regra em todo o ocidente liberal e antiliberal. No nível dos BRICS, comparem-se aqueles líderes nacionais e o usurpador que está atualmente instalado na presidência do Brasil, e que faz de tudo para entregar a maior parte que consiga entregar das reservas de petróleo na camada pré-sal do Brasil, além da gigante fabricante de aviões Embraer, a interesses não nacionais brasileiros.

Na dúvida, consulte Confúcio

Já se converteu num ritual para os guardiões do establishment ocidental chorar copiosamente sobre o “fim da ordem mundial liberal”. Alguns pelo menos admitem que, afinal, não é “liberal, nem é mundial, nem é ordem”.

Guardiões de mais baixo escalão podem ser mais realistas, e observar como políticos ocidentais já foram amplamente ultrapassados pela fúria popular em miríades de latitudes, sem deixar de acreditar que seja possível “reconstruir a democracia sobre fundamentos morais”.

Não é. Não, sob o credo neoliberal predominante, esse NHA (“Não Há Alternativa”, ing. TINA,There Is No Alternative“). Os guardiões, à esquerda e à direita, simplesmente não conseguem compreender o crescimento das forças populares – porque os que estejam sob influência das forças populares veem claramente o quanto e como os mitos do “estado de direito” e da “soberania nacional” vão rapidamente dissolvendo-se na lama. Aqueles guardiões, no melhor dos casos, lamentam com nostalgia “a perda da influência que a elite um dia teve”.

China, Rússia, Irã e Turquia – todos esses estados implicados na integração da Eurásia – podem ser classificados como sistemas autoritários em diferentes níveis. E há de haver quem argumente que, com exceção da China, todos esses estados ainda têm desempenho econômico abaixo dos respectivos verdadeiros potenciais.

Mesmo assim, todos esses estados valorizam acima de qualquer outro valor a própria soberania nacional, em sistema multipolar. Esse é o contraponto conceitual que esses estados oferecem à (des)ordem (nada)liberal mundial. Assim esses estados respondem ao NHA/TINA.

Quanto à “perda da influência que a elite um dia teve” é palavra-código para o amancebamento de ricos e poderosos que alardeiam democracias falsamente morais, que só fazem desmascarar o medo profundo que aquelas ‘elites’ sentem de que o momento unipolar do ocidente esteja em rápido processo de dissolução.

Todas essas contradições aparecem muito visíveis, quando se examina a União Europeia. A UE, desde o Tratado de Maastricht, foi manobrada para se tornar o que a própria Angela Merkel definiu como Bundesrepublik Europa – República Federal da Europa.

Quem conheça Bruxelas sabe como aquelas ondas de eurocratas isentos de impostos amamentam um sistema kafkiano de regulação burocraticamente ultracentralizado, ao mesmo tempo em que os próprios eurocratas mantêm-se completamente distantes e sem qualquer contato com europeus reais normais.

A noção da União Europeia como promotora de “integração econômica” incluindo pesadas doses de ‘austeridade’ não pode ser mais antidemocrática.

Acrescentem-se a isso os escândalos nos altos escalões do estado, que nada fazem além de desgastar e corroer a fé na primazia do modelo da democracia liberal ocidental. O mais recente envolve a real possibilidade de que o coronel Gaddafi tenha muito provavelmente financiado a campanha presidencial de Sarkozy em 2007 na França; negócio extraordinariamente sinistro pelo qual se veem as políticas de energia, as política da água, e os proverbiais grandes contratos de compra de armas para os quais as democracias liberais ocidentais descartam completamente qualquer preocupação moral decente.

Agora comparem tudo isso e esses, com Xi Jinping, elevado a hexin lingdao (o núcleo da liderança do PCC), espécie de primus inter pares numa versão sínica da República de Platão. A teoria política do Iluminismo greco-romano já não é o único pôquer que rola na cidade. Mas ainda não se vê qualquer sinal de que o ocidente tomado de húbris comece a aprender com Confúcio.

*****

* A expressão cognitive dissonance (ing.) e dissonance cognitive (fr.) aparece, com o significado que nos interessa aos estudos sociais, com Franz Fanon:

“Às vezes as pessoas têm uma crença central, muito forte. Quando são confrontadas com evidências que operam contra aquela crença, é difícil para elas aceitar a nova evidência. Assim se cria um sentimento extremamente desconfortável, que se chama “cognição dissonante“. E, porque lhes é muito importante proteger a crença central já existente, as pessoas racionalizam, ignoram e até negam qualquer evidência que não se encaixe naquela crença central” [Frantz Fanon, Pele negra, máscaras brancas (1963)].

Em geral a expressão aparece traduzida como “dissonância cognitiva”, que é tradução semanticamente errada, uma contradição em termos: a dissonância semântica entre os conteúdos que o conceito aproxima impede ou, no mínimo, dificulta muito, de fato, qualquer cognição logicamente consistente e produtiva para o pensamento. Tudo isso considerado, parece-nos que a única tradução q faz pleno sentido é “cognição dissonante” [NTs].

Pepe Escobar: “Guerra na Síria, paz de Sochi”

Guerra na Síria, paz de Sochi 
24/11/2017, Pepe Escobar, Asia Times

Numa bem coreografada reunião, o presidente Vladimir Putin da Rússia define um futuro de paz para a Síria, depois de o país ser libertado da ocupação por terroristas.

A principal conclusão da reunião trilateral, de duas horas, entre Rússia-Irã-Turquia em Sochi sobre o futuro da Síria foi expressa pelo presidente Putin da Rússia:

“Os presidentes do Irã e da Turquia apoiaram a iniciativa de promover um Congresso de Todos os Sírios, para diálogo nacional na Síria. Concordamos em realizar esse importante evento no nível adequado e garantir a participação de representantes dos diferentes setores da sociedade síria.”

Na prática, significa que os ministérios de Relações Exteriores e departamentos da Defesa de Rússia, Irã e Turquia assumem agora a missão de “reunir na mesa de negociações delegados de vários partidos políticos, da oposição interna e externa, de grupos étnicos e confessionais”.

MAPA

Putin destacou que “em nossa opinião comum, o sucesso no campo de combates que nos aproxima da libertação de todo o território sírio, livre afinal de militantes pavimenta a trilha para uma etapa qualitativamente nova na solução da crise. Falo das reais possibilidades de alcançarmos normalização e ajuste político abrangentes e de longo prazo, no período pós-conflito.”

Tantas linhas vermelhas

Fontes diplomáticas confirmaram para Asia Times que grande parte das discussões em Sochi foram dedicadas à exposição, pelo presidente Putin, aos presidentes do Irã, Hassan Rouhani, e da Turquia, Recep Erdogan, da questão de como uma nova configuração pode ser alcançada num tabuleiro de xadrez em permanente transformação.

Por trás das gentilezas diplomáticas, as tensões fervem. E por isso as atuais negociações de paz de Astana entre Rússia-Irã-Turquia interconectam-se com a recente reunião de cúpula Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, CEAP [ing. APEC] em Danang.

Em Danang, Putin e Trump podem não ter tido reunião bilateral crucial. Mas Sergey Lavrov e Rex Tillerson emitiram declaração conjunta sobre a Síria – sem mencionar, o que é muito significativo, Astana; em vez disso, deram ênfase a processo da ONU em Genebra que anda lentamente (há nova rodada de conversações marcadas para a próxima semana).

Questão extremamente controversa – que nenhuma das partes admite claramente – é a presença de tropas estrangeiras na Síria. Do ponto de vista de Washington, todas as forças russas, iranianas e turcas devem deixar a Síria.

Mas aí surge o caso do Pentágono, que está na Síria sem autorização da ONU (Rússia e Irã foram convidados por Damasco).

Não se vê sinal algum de que o Pentágono planeje abandonar as bases que implantou em território recentemente recapturado pelas “Forças Democráticas Sírias” (FDS) que os EUA apoiam, todas em áreas contíguas a campos sírios de petróleo e gás. O secretário de Defesa dos EUA James Mattis insiste em que as forças dos EUA devem ficar onde estão na Síria para “impedir que apareça um ISIS2.0.” Para Damasco essa é linha vermelha absoluta.

Depois, vêm as linhas vermelhas de Ancara. Para Erdogan, o problema é o Partido da União Democrática Curda [tu. PYD] e suas Unidades de Proteção do Povo [tu. YPG), que comandam as Forças Democráticas Sírias. O porta-voz de Erdogan Ibrahim Kalin diz com todas as letras: “A questão do PYD-YPG continua a ser linha vermelha para a Turquia.”

Diferente de Ankara, Moscou não considera PYD/YPG como “organizações terroristas”. O PYD sem dúvida será convidado às reuniões de Sochi. E Ankara – que está sob tremenda pressão econômica – pouco pode fazer.

No front iraniano, o que Teerã quer na Síria não é exatamente o que Moscou-Washington podem estar querendo conseguir.

Lavrov desmentiu empenhadamente que haja algum acordo EUA-Rússia para tirar do sudoeste da Síria as forças apoiadas pelo Irã – reforçando que foram convidadas por Damasco e estão em situação legal. Desde julho a posição oficial do Ministério de Relações Exteriores do Irã é que os atuais acordos de cessar-fogo devem ser expandidos para todo o país, mas “levando em conta as realidades em campo”. Nenhuma palavras sobre as forças sírias deixarem a Síria.

Affair finamente cronometrado

O encontro de Sochi foi cronometrado em detalhes. Antes, Putin teve conversas telefônicas detalhadas com ambos, Trump e o rei Salman da Arábia Saudita (o rei, não MBS); com o emir do Qatar; com Sisi do Egito; e com Bibi Netanyahu de Israel. Paralelamente a um encontro dos altos escalões militares de Síria e Rússia, apareceu o presidente Bashar al-Assad da Síria. Foi visita de surpresa-não-surpresa a Sochi, para dizer a Putin, pessoalmente, que sem a campanha militar da Rússia, a Síria não teria sobrevivido como estado soberano.

Os fatos em campo são claríssimos: o Exército Árabe Sírio (EAS) – expandido e completamente retreinado, re-equipado e remotivado – reconquistou Aleppo, Palmyra, Deir Ezzor e quase todo o sudeste; fronteiras com Iraque e Líbano estão abertas e seguras; acordos de cessar-fogo estão vigentes em mais de 2.500 cidades; a  Turquia desistiu de anos de trabalho de armar e apoiar “rebeldes moderados” e agora é parte da solução; ISIS/Daech está em fuga, agora reduzido a  insignificante insurgência rural/desértica.

O Daech está quase morto – embora sempre possa haver uma Volta dos Mortos-vivos, com algum obscuro neo-al-Baghdadi querendo fazer-se de Califa-no-exílio. O presidente Rouhani do Irã declarou o fim do Daech. O primeiro-ministro do Iraque Haidar al-Abadi foi mais realista: disse que o Daech está sendo derrotado militarmente, mas que só declarará vitória final depois de os bandidos jihadistas estarem definitivamente extintos no deserto.

O ato final será a Batalha de Idlib – onde milhares de remanescentes/aderentes da Frente al-Nusra estão encurralados. A Turquia tem tropas em Idlib. Putin e Erdogan com certeza negociaram a posição de Ankara. Assim, cabe ao ministro da Defesa turco convencer os grupos de oposição não aliados de al-Nusra a aparecerem e sentarem à mesa de negociações em Sochi.

Num plano operacional, como pude verificar em Bagdá no início do mês, é o que está acontecendo. Conselheiros do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã, o Exército do Iraque, as Hashd al-Shaabi, conhecidas como Unidades de Mobilização Popular (UMPs), o Exército Árabe Sírio e o Hezbollah trabalhando em sincronia, como parte do mecanismo “4+1” (Rússia, Síria, Irã, Iraque plusHezbollah). O correspondente quartel-general de contraterrorismo está instalado em Bagdá.

É o Oleogasodutostão tudo outra vez

Putin falou a Rouhani e Erdogan em Sochi sobre o “compromisso da liderança síria com os princípios de solução pacífica para a crise política, da disposição dos sírios para fazer uma reforma constitucional e realizar eleição livre, supervisionada pela ONU.”

Essa ordem estará aberta a completo escrutínio. O que nos leva ao principal partido contra: a Casa de Saud e, mais especificamente, a visão de MBS.

O chamado Alto Comitê de Negociações, ACN [ing. High Negotiations Committee (HNC)] – que na essência são as facções da oposição síria arregimentadas pela Casa de Saud – está em completa confusão. O presidente, Royad Hijab, foi demitido recentemente em circunstâncias obscuras. Aquelas facções voltaram a se reunir em Riad, paralelamente à reunião em Sochi, com os sauditas reduzidos, basicamente, a gritos de “Assad tem de sair”.

A guerra de MBS contra o Iêmen é total desastre – para nem falar da horrenda crise humanitária que MBS criou. O bloqueio contra o Qatar já degenerou e é visto como total farsa. A flagrante interferência em assuntos do Líbano, com a saga de Hariri tomado como refém também já é farsa completa. A Arábia Saudita foi derrotada no Iraque e na Síria. Os próximos movimentos de política externa de MBS são horrivelmente imprevisíveis.

Para completar, parece que um dossiê chave não foi discutido em Sochi: quem financiará a reconstrução da infraestrutura/economia da Síria.

Turquia e Irã não podem pagar tudo. Rússia talvez ajude só marginalmente.  China já deixou claro que quer a Síria como um entroncamento no Levante, para as Novas Rotas da Seda, chamada hoje Iniciativa Cinturão e Estrada – mas não é prioridade, comparada a Paquistão ou Irã. A União Europeia está focada no seu próprio psicodrama interior de proporções monstro. E o Golfo – essencialmente Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – é furiosamente anti-4+1.

No que tenha a ver com Sochi, outro coringa no baralho é como uma possível entente Trump-Putin será vista por Pentágono, CIA e na Colina do Capitólio – redutos que sempre recusarão a ideia de um processo de paz liderado por Putin e sem “Assad tem de sair”.

Muito do que o futuro reserva depende de quem controlará os campos sírios de petróleo e gás. É o Oleogasodutostão tudo outra vez: todas as guerras são guerras por energia. Damasco simplesmente não aceitará uma bonança de energia para as Forças Democráticas Sírias apoiadas pelos EUA e hoje comandadas pelas YPG curdas.

E a Rússia tampouco. Além de Moscou manter uma base estratégica no Mediterrâneo oriental, a Gazprom eventualmente desejará ser parceira/operadora num novo e viável oleogasoduto Irã-Iraque-Síria, cujo principal cliente será a União Europeia. Depois de Sochi, a guerra real – no Oleogasodutostão – está só começando.

Des bombardiers nucléaires russes et US dépêchés vers la Corée du Nord

La Russie et les États-Unis ont dépêché leurs bombardiers porteurs d’armes nucléaires aux frontières de la Corée du Nord sur fond de tensions provoquées par l’échange de menaces d’une attaque nucléaire entre Washington et Pyongyang, d’après le journal The Sun.

Des bombardiers nucléaires russes et US dépêchés vers la Corée du Nord

Un bombardier furtif américain Northrop B-2 Spirit capable de porter jusqu’à 31500 kg de bombes dont des armes nucléaires, a décollé le weekend dernier de la base aérienne de Whiteman, dans le Missouri, pour une mission de longue durée dans la région Asie-Pacifique, a annoncé le journal britannique The Sun.

La Russie a elle-aussi envoyé des bombardiers stratégiques dans cette région, dans le cadre d’exercices de routine organisés le 30 octobre, d’après le ministère russe de la Défense.

Des chasseurs F-18 américains et des F-15, F-4 et F-2A japonais ont escorté deux bombardiers lourds russes Tupolev Tu-95MS sur certains secteurs de leur vol alors qu’ils survolaient les eaux internationales de la mer du Japon et de la partie occidentale du Pacifique.

Selon The Sun, la menace d’une guerre nucléaire impliquant la Corée du Nord ne cesse de s’accroître, si des bombardiers stratégiques de deux grandes puissances comme la Russie et les États-Unis s’approchent presque simultanément des frontières nord-coréennes.

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Force spéciale US aux portes de la Russie

Force spéciale US aux portes de la Russie

Washington «installe silencieusement» ses forces spéciales à la frontière russe, a écrit Nick Truse, chroniqueur du journal The Nation.

Durant l’année dernière, le nombre d’effectifs des forces spéciales américaines en Europe « a quadruplé ». Et maintenant, des unités d’élite américaines sont stationnées dans presque tous les pays voisins de la frontière ouest de la Russie, dit l’auteur.

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