Brasil: Império do Caos ataca novamente

Publicado originalmente em: 26/04/2016

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Pouco depois de a moção pró-impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff ser aprovada no Congresso do Brasil, por deputados que resolvi chamar de hienas da Guerra Híbrida, o presidente-coroado Michel “Até tu, Brutus?!” Temer, um dos articuladores do golpe, mandou um de seus senadores a Washington como garoto-de-recados especial, para dar notícias sobre o golpe em andamento. O senador em questão não cumpria missão oficial da Comissão de Relações Exteriores do Senado do Brasil.

Michel “Até tu, Brutus?!” Temer assustou-se com a reação da mídia global, a qual está vendo cada dia mais vê claramente que o golpe que ele está fazendo é o que é (golpe) – aliado de Brutus-2, presidente notoriamente corrupto da Câmara de Deputados do Brasil, Eduardo Cunha.

A missão do tal senador era lançar uma ofensiva de Propaganda/Relações Públicas para desconstruir a narrativa que insiste que golpe é golpe, e a qual, segundo Brutus-1 estaria “desmoralizando instituições brasileiras”.

Nonsense. O senador office-boy foi mandado dizer ao Departamento de Estado dos EUA que tudo por aqui está andando conforme a encomenda.

Em Washington, o senador office-boy resmungou que “explicaremos que o Brasil não é uma república de bananas”. Ora… Não era. Mas graças às hienas da Guerra Híbrida, é.

Quando se tem um homem que administra 11 contas bancárias ilegais na Suíça; cujo nome aparece listado nos Panama Papers, que já está sendo investigado pela Suprema Corte… e que, mesmo assim, continua a comandar o destino político de toda a nação, sim, sim, aí está uma república de bananas.

Quando você tem um juiz de paróquia, provinciano, que ameaça pôr na prisão o ex-presidente Lula, por ser proprietário de um apartamento modesto onde vive e por visitar um sítio modesto de amigos, mas, ao mesmo tempo, não cuida de investigar o Brutus-2, e juiz provinciano que opera irmanado àqueles pomposos juízes da pomposa Corte Suprema paroquial provinciana… sim, aí está uma república de bananas.

Comparem agora a reação-zero de Washington, e a reação de Moscou. O Ministério de Relações Exteriores da Rússia, mediante a irrepreensível porta-voz Maria Zakharova, chamou a atenção do mundo para a parceira crucial que liga todos os países BRICS, e as posições comuns que Brasil e Rússia têm defendido juntos dentro do G20. E Moscou deixou claro que os problemas do Brasil têm de ser resolvidos “no quadro constitucional legal e sem qualquer interferência externa”.

Todo mundo sabe o que significa “interferência externa”.

Dominação de Pleno Espectro Rearmada

Estou acompanhando o golpe em andamento no Brasil, com especial atenção à Guerra Híbrida movida/apoiada pelos EUA para destruir “o projeto neodesenvolvimentista para a América Latina – que unia pelo menos parte das elites locais, investia no desenvolvimento de mercados internos, em associação com as classes trabalhadoras”. O objetivo chave da Guerra Híbrida no caso do golpe no Brasil é instalar uma restauração neoliberal.

Obviamente, o alvo chave tinha de ser o Brasil, estado membro dos BRICS e sétima maior economia do mundo.

Falcões imperiais [ver também “Preocupações com a ‘Bala de Prata’ nem tão eficaz”, in Rússia e China, 2016: Como planejam  enfrentar a guerra econômica dos EUA], já estão indo diretamente ao ponto, quando listam as armas e objetivos da Guerra Híbrida, que o Pentágono definiu em 2002 como “Doutrina da Dominação de Pleno Espectro”: “O poder dos EUA vem de nossa superior força militar, sim. Qualquer coisa que expanda o alcance dos mercados dos EUA – como a Parceria Trans-Pacífico no comércio, por exemplo – acrescenta-se ao arsenal do poder dos EUA. Mas em sentido mais profundo, o poder dos EUA é produto da dominação da economia dos EUA sobre o mundo”.

Mas fato é que a economia norte-americana já está longe de dominar o mundo. O que hoje realmente preocupa são as forças que orientam “os negócios para longe dos EUA, ou permitem que outras nações construam arquitetura financeira rival e menos vulnerável a sanções, mesmo que a uma montanha delas”.

“Arquitetura financeira rival” é perfeita tradução de “BRICS”. E nem “uma montanha de sanções” bastaram para fazer o Irã curvar-se e pedir penico ao Tio Sam; Teerã continuará a praticar uma “economia de resistência”. Não por acaso, dois dos países BRICS – Rússia e China – além do Irã, aparecem entre as cinco principais ameaças existenciais listadas pelo Pentágono, além das bombas atômicas da Coreia do Norte e, em último lugar na lista, “terrorismo“.

Guerra Fria 2.0 é essencialmente Rússia e China – mas o Brasil também é ator chave. Edward Snowden revelou como a espionagem contra o Brasil, pela Agência de Segurança Nacional centrava-se na Petrobrás, cuja tecnologia proprietária foi responsável pela maior descoberta de petróleo, ao nascer do século 21: os depósitos do pré-sal em águas do Brasil. O Big Oil norte-americano está excluído da exploração dessa riqueza.

E “Big EUA Oil excluído é anátema – e exige mobilização imediata das técnicas e táticas de Guerra Híbrida reunidas na [doutrina] de Dominação de Pleno Espectro.

As elites comprador brasileiras correram a se oferecer para jogar o jogo. Já há mais de dois anos analistas de JP Morgan oferecem seminários aos guerrilheiros da macroeconomia neoliberal, ensinando táticas e golpes para desestabilizar o governo Rousseff.

Lobbies da indústria, comércio, banking e agronegócio ostensivamente se puseram na defesa do impeachment, que representaria, na avaliação deles, o fim do experimento social-democrata dos governos Lula-Dilma.

Assim sendo, não surpreende que o presidente herdeiro coroado Michel “Até tu, Brutus?!” Temer tenha acordo tão amplo com o Big Capital – incluindo juros ilimitados sobre a dívida pública (muito acima da norma internacional); a relação entre dívida e PIB, que terá de subir; mais empréstimos caros; e o corolário, cortes na atenção pública à saúde e à educação dos brasileiros.

No que tenha a ver com Washington, não há dúvidas e é questão fechada para os Democratas e Republicanos: absolutamente não se admite que haja poder regional autônomo no Atlântico Sul abençoado por riqueza ecológica única do mundo (pensem na Floresta Amazônica, toda aquela água, que se soma ao aquífero Guarani) e, como se isso fosse pouca coisa, ainda muito intimamente conectado aos BRICS-chave, Rússia e China, que já têm sua própria parceria estratégica.

O fator pré-sal é a cereja nesse bolo tropical. Absolutamente de modo algum, não e não, o Big Oil dos EUA não permitirá que a Petrobrás tenha o monopólio para explorar aquele petróleo todo. E, sendo necessário, afinal de contas, a 4ª Frota dos EUA já está posicionada no Atlântico Sul.

Um BRICS derrubado, ainda faltam dois

A “guerra ao terô [“terror”, no sotaque de Bush] declarada pelo regime Cheney distraiu a atenção do Empire of Chaos por tempo demais. Agora, finalmente, está em andamento uma ofensiva do caos global contra os BRICs – coordenada em todo o planeta.

Do Sudoeste da Ásia ao Sul da Ásia, o sonho da Guerra Híbrida será criar alguma espécie de caos iraquiano para substituir os governos de Arábia Saudita, Irã, Paquistão e Egito – e o Império “Liderar pela Retaguarda” do Caos está fazendo o possível na Síria, onde ainda nada conseguiu, por mais que a “dinastia Assad”, ao longo de décadas, tenha sido aliada “secreta” dos EUA.

Os Masters of the Universe que controlam o cordame que move Obama, eterno office-boy deles, resolveu que seria chegada a hora de apunhalar a Casa de Saud pelas costas – o que não chega a ser, afinal, má ideia – por causa do Irã. O pensamento desejante dominante ‘ensinava’ que seria fácil pôr o gás natural iraniano na Europa, em lugar do gás natural russo, o que derrubaria a economia russa. Absolutamente não funcionou.

Mas ainda há outra possibilidade: o gás natural do Qatar, pelo gasoduto que atravessa Arábia Saudita e Síria, também poderia substituir o gás natural russo vendido à Europa. Esse é hoje o principal objetivo da CIA na Síria – o instrumento não importa: Daech, falso Califato, vale tudo, porque nada disso é coisa alguma além de propaganda.

A CIA também está gostando de ver a Arábia Saudita destruir a economia russa com aquela guerra dos preços do petróleo – e não querem que os sauditas parem; por isso mantêm secretas as tais famosas 28 páginas sobre os sauditas nos eventos de 11/9.

A CIA também andou tentando feito doida atrair Moscou para dentro de uma armadilha síria como no Afeganistão dos anos 1980s; e, como fizeram com o golpe em Kiev, a ponto de ordenar que militares turcos, sempre agentes dos EUA, derrubassem um jato Su-24 russo. “Problema” é que o Kremlin não mordeu a maçã envenenada.

Nos idos anos 1980s, o mix de Casa de Saud inundando mercados com seu petróleo, agindo com toda a gangue do petrodólar do CCG para derrubar o preço até $7 por barril em 1985, plus a operação “O Afeganistão É O Vietnã”, terminou por levar a URSS à bancarrota. Pode-se dizer que toda a ação foi brilhante – na concepção e na execução: uma Guerra Híbrida plus Vietnã. Agora, com a coisa de “liderar pela retaguarda” do Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” – mentor de sua política exterior – Obama está tentando repetir o mesmo truque.

Mas epa! Temos um problema. A liderança em Pequim, já preocupada com ajustes no modelo chinês de desenvolvimento, viu claramente os esforços do Império do Caos para Dividir e Governar (e Ocupar) o mundo inteiro. Se a Rússia caísse, a China seria o alvo seguinte.

Ainda praticamente ontem, em 2010, a inteligência dos EUA via a China como sua principal ameaça militar, e pôs-se a andar na direção do Império do Meio, com o tal “pivô para a Ásia”. Mas de repente a CIA deu-se conta de que Moscou gastara um trilhão de dólares para saltar por cima de duas gerações de atraso em matéria de mísseis de defesa e de ataque – para nem falar dos submarinos – as armas de eleição para a 3ª Guerra Mundial.

E foi aí que a Rússia pulou para o trono de principal ameaça. Analisando atentamente o tabuleiro de xadrez, a liderança em Pequim imediatamente acelerou a aliança com Rússia e BRICS como força alternativa – o que gerou terremoto de proporções absolutamente devastadoras em Washington.

Agora, Pequim já fez a reengenharia dos BRICS para operarem como estrutura alternativa séria de poder – com FMI próprio, com sistema SWIFT de compensações internacionais próprio e com seu próprio Banco Mundial.

Nunca subestime a fúria de um Império do Caos enganado. Isso é o que se vê em ação contra os BRICS; Brasil sitiado, desastre na África do Sul, fragilidade na Índia, China e Rússia progressivamente cercadas. Variações de Guerra Híbrida da Ucrânia ao Brasil, pressão crescente na Ásia Central, o barril de pólvora em que foi convertido o “Siriaque”, tudo aponta para uma ofensiva coordenada do Espectro da Plena Dominação para quebrar os BRICS, a parceria estratégica Rússia-China, até quebrar as Novas Rotas da Seda que unem toda a Eurásia.

Guerras do preço do petróleo, colapso do rublo, fluxo gigante de refugiados para a União Europeia (causado pelo Sultão Erdogan “errático”), a Operação Gládio do século 21 remistura tudo, distrai as massas com inimigos imaginários, enquanto simulacros de terroristas do tipo Daesh são manipulados como sofisticadas táticas diversionistas.

Parece tão brilhante, coisa mesmo ‘de mestre’, na concepção e na execução, tão impressionantemente bem narrada, em sentido de ficção televisiva/cinematográfica. Mas que ninguém se engane: vai ter volta.*****

Fonte: Strategic Culture

Guerra Híbrida, de Palmyra ao Panamá

Os Panama Papers, dissecados até o osso, revelaram-se, como já escrevi, essencialmente, como operação de infoguerra iniciada pela Agência de Segurança Nacional dos EUA (ing. US-NSA) – que convenientemente mira contra os “inimigos” do ‘ocidente’ no sul global (como os países BRICS) e variados peões descartáveis.

Publicado originalmente em: 07/04/2016

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No estágio atual, os Panama Papers estão servindo como arma de operação de guerra psicológica (ing. psyops) apresentados como ‘vazamento ativista’, saído diretamente do manual de Guerra Híbrida.

Os incansáveis agentes ‘especialistas’ da mídia-empresa dominante estão tendo muito trabalho para apresentar o ‘vazamento’ monstro como “jornalismo responsável”, sempre sem tocar em nenhuma das graves questões que já apareceram, sobre como o tal ‘vazamento’ teria sido ‘vazado’; como teriam sido seletivamente editados 2,6 terabytes de dados, incluindo 5 milhões de emails; como foram obtidos sem encriptação; como é possível que, de toda essa massa de dados sobre a qual teriam trabalhado mais de 400 jornalistas por mais de um ano, não tenha havido nenhum ‘vazamento’ do ‘vazamento’; e sobre como a informação estaria sendo seletivamente distribuída hoje.

Guardiões do sempre citado “jornalismo responsável” andam divulgando que o material teria vindo de um mosqueteiro digital, um “tocador de corneta para alertar os cidadãos. Não necessariamente. O vazamento já disparou uma guerra de credibilidade entre WikiLeaks e os recentes ‘vazadores’ midiáticos – a ONG de Washington, mantida por fundações norte-americanas, conhecida como ICIJ.

A tese sobre a Agência de Segurança Nacional dos EUA baseia-se no fato de que essa US-NSA é especializada em invadir praticamente qualquer banco de dados e/ou arquivo em qualquer ponto do mundo, para roubar “segredos” e, na sequência, usar os dados assim obtidos para seletivamente destruir/chantagear/proteger quadros seus e/ou “inimigos”, conforme mandem os interesses do governo dos EUA. Acrescente-se a isso o que Ramon Fonseca, sócio fundador de Mossack Fonseca, tem dito: “Já descartamos a possibilidade de trabalho interno. Fomos assaltados e roubados por hackers.”

Resposta a “ameaças estratégicas”

Os Panama Papers funcionam tanto como ataque de precisão quanto como uma “mensagem” para muitos atores: eles que se mantenham em formação, porque, se não, pagarão caro; afinal, o vazamento/hackeamento revela uma rede de conexões entre várias dúzias de empresas, indivíduos e políticos em todo o Sul Global que têm aparecido como superestrelas/astros, ou aspirantes ao posto, das listas negras das sanções impostas pelos EUA.

O foco obsessivo da mídia-empresa dominante – que só tem olhos para os inimigos e/ou “ameaças estratégicas” do ponto de vista do Excepcionalistão – também gera muitas suspeitas. Em “Forças poderosas por trás dos Panama Papers” lê-se o que o sempre alerta governo em Pequim tem a dizer sobre o assunto.

Os Panama Papers também surgem em momento perfeitamente adequado para encaixarem-se numa massiva ofensiva comercial dos norte-americanos. Podem-se ler os tais vazamentos como uma espécie de lembrete do violento poder da ’empresa’ TPP-TTIP: se você não se une ao nosso movimento a favor de um único comércio mundial controlado pelos EUA, jogamos merda sobre você

Claro que é saudável poder dar pelo menos uma olhadela nas imundas entranhas do capitalismo de cassino super-turbinado, também conhecido como “sistema financeiro global”, onde grandes bancos e um exército de tubarões das finanças permitem que empresas ‘secretas’ estacionem ilegalmente o dinheiro que recebem da/para a corrupção.

Paralelamente, também é esclarecedor observar como todas as transações de dinheiro eletrônico são agora completamente rastreáveis. Os Panama Papers estão vindo à tona apenas alguns meses antes que um obscuro tratado global de compartilhamento de informação seja implementado. Se os tubarões financeiros globais conseguirão burlar o acordo é questão ainda em aberto. O detalhe crucialmente importante é que o Panamá não é signatário daquele tratado.

Do lado crucialmente decisivo dos tubarões financeiros, mais de metade das empresas listadas no vazamento/hackeamento massivo são registradas no Reino Unido – ou em “dependências da Coroa”. Podem degustar o doce aroma da vingança: a mídia-empresa norte-americana vinga-se, ao delatar expor ao mundo o que, de fato, é praticamente todo o Império Britânico da Evasão de Impostos.

Não há quem não saiba que a City de Londres opera amplamente como uma gangue de lavagem de dinheiro de categoria mundial. Mas podem esquecer, porque os guardiões do “jornalismo responsável” britânico jamais ‘investigarão’ coisa alguma relacionada ao ‘fenômeno’. Muito mais fácil e popular é ‘noticiar’ que Putin é culpado por associação, em vez de investigar para saber como aconteceu de o pai de David Cameron, ter preferido guardar a fortuna da família (a herança que o primeiro-ministro um dia receberá) bem longe do coletor de impostos.

Ou como o presidente daquela entidade falhada amiga da OTAN, Petro Poroshenko, enfia sua fortuna, não na Ucrânia sem leis e ingovernável, mas nas “protegidas” Ilhas Virgem. E esqueçam, porque absolutamente ninguém investigará o ex-chefe de gabinete do ex-primeiro-ministro de Israel Ariel Sharon, Dov Weisglass, cujo nome, como o do pai de Cameron e de Poroshenko, realmente aparece citado nos Panama Papers.

O mais importante: que ninguém espere por Cayman Papers ou quaisquer Virgin Island Papers – os papers realmente quentes –, tão cedo. A elite real jamais deixará que aconteça.

Panamá ‘editado’

E depois tem o ângulo do Excepcionalistão. Até Bloomberg, há três meses, já denunciou formalmente à opinião pública que o maior paraíso fiscal do mundo é hoje os EUA – completado com Rothschild-in-Reno, notório provedor de serviços de paraíso fiscal. Diferente do Panamá, o que acontece em Reno fica em Reno – e não estamos falando de noitadas selvagens de lap-dancing, nas profundas do deserto de Nevada.

Acrescente aí uma sumarenta fonte com conexões no estado ‘profundo’ a falar de “só 441 norte-americanos” (todos ainda misteriosos), cujos nomes estariam no vazamento/hackeamento: “O escritório em Nevada de Mossack Fonseca recebeu informação prévia, da Agência de Segurança Nacional dos EUA, no sentido de que alertasse o Panamá para que apagasse todos os registros em Nevada. A Agência de Segurança Nacional dos

EUA é mecanismo de controle político. Nada tem a ver com terrorismo, e nem saberia onde olhar, a menos que fosse orientada por insiders estilo “Operação Gladio”.

A guerra que o governo dos EUA faz contra os paraísos fiscais também é, é claro, seletiva. A Suíça tem sido alvo preferencial. Agora, o Panamá. Considerada a tese da Agência de Segurança Nacional dos EUA, é absolutamente claro que bilionários norte-americanos e empresas norte-americanas chaves foram, todos e todas, ‘apagadas(os)’ do ‘vazamento/hackeamento’.

O padrão ouro para que os Panama Papers não se tornem descartáveis como vazamento ‘seletivo’ plus ‘Operação psicológica’ de guerra híbrida, seria, por exemplo, se HSBC, Coutts (subsidiária de RBS) e UBS – e profundamente conectada com Mossack Fonseca — forem investigados a fundo. Se Vitol, corretor de petróleo, ligado ao governante do Azerbaijão Ilham Aliyev e cujo nome aparece nos Panama Papers, vier a ser investigado. Se as imundas conexões entre o Big Oil e o Big Banking ocidental forem expostas.

Mas é claro que todos os comerciantes de armas, barões da droga, oligarcas corruptos e conhecidos sonegadores de impostos continuam a colher recompensas dos próprios crimes, sem que nada e ninguém os perturbe – desde que saibam jogar o jogo do cassino capitalista super turbinado.

Por que agora?

Os Panama Papers tem muito a ver com timing. Por que agora? Afinal essa montanha de informações passou por escrutínio, sob sigilo total, durante mais de um ano.

Os Panama Papers encaixam-se perfeitamente na Guerra Híbrida. Assim como a operação Car Wash no Brasil – que é desdobramento da espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA, contra a Petrobras –, os Panama Papers podem ser vistos como lava-caminhões-monstros, mirada contra o sul global em geral, e contra os BRICS em particular. 

Não por acaso, imediatamente depois de os vazamentos/hackeamentos terem aparecido, o El Supremo do Pentágono Ash Carter, falando no Center for Strategic and International Studies (CSIS) em Washington– vizinho do ICIJ– insistiu mais uma vez que o Pentágono precisava ser mais “ágil” na luta contra os cinco desafios estratégicos dos EUA, que ele listou na seguinte ordem: “Rússia, China, Coreia do Norte, Irã e terrorismo.”

Observem a predominância, em matéria de ameaça, de Rússia, China e Irã – nodos chaves da integração da Eurásia, e todos pesadamente ‘apontados’ nos Panama Papers, sobretudo culpados ‘por associação’.   

O timing da distribuição do vazamento/hackeamento com certeza tem a ver com Palmyra. A recente libertação de Palmyra – que por 3 mil anos é a porta do Sudoeste Asiático para quem venha do ocidente e porta rumo ao Mediterrâneo para quem venha do oriente – foi plano geoestratégico tão brilhantemente concebido e executado, que deixou boquiabertos muitos no Pentágono.

O Daech havia convertido Palmyra numa base chave para ataque total contra Damasco – controlando a única estrada que leva à capital síria.

Assim sendo, só uma contraofensiva meticulosamente coordenada – mais de 20 mil homens, do Exército Árabe Sírio (EAS) a milícias locais, forças especiais do Hezbollah, pasdaran iranianos (inclusive muitos afegãos treinados pelo Irã) e os Spetsnaz russos – conseguiria arrancar de lá os terroristas.

Generais sírios disseram claramente que a Europa (“invadida” por refugiados “libertados” pelo sultão Erdogan da Turquia) sempre preferiu apoiar uns tais “rebeldes moderados” inexistentes – ficção gerada em Washington –, armados pela Turquia e Arábia Saudita. Agora, os europeus têm de encarar o revide, em solo europeu. 

O Exército Árabe Sírio, entrementes, defendeu Damasco; uma Síria unificada e secular e – como os generais sírios destacam com justo orgulho – defendeu também a própria Europa. O trabalho deles não parará em Palmyra. Os objetivos seguintes, para os próximos meses, são Deir ez-Zour, e depois o assalto final a Raqqa, ‘capital’ do falso ‘Califato’.

Assim sendo, que papel teria cabido ao Excepcionalistão – terra da “guerra ao terô” [orig. “war on terra”: era o modo, transliterado, como Bush pronunciava “war on terror” (NTs)] – nessa missão épica?

Nenhum. Nada. Não é acaso que o terrorismo apareça no último lugar na lista de “ameaças estratégicas” do Pentágono. É mais como a ficção que revela a realidade, como na última cena da temporada em curso de House of Cards: “Nós fazemos o terror”.

No caso do Daech, Washington realmente “fez o terror”, no sentido que fez acontecer o terror; o florescimento do falso ‘Califato’ foi decisão premeditada do governo dos EUA. E agora a Rússia fez voar pelos ares – aos olhos do mundo – o autorretrato narcísico do governo dos EUA no qual se traveste como indiscutível campeão da “guerra ao terror”.

Ai! Essa doeu. E em seguida vem a hoje já famosa visita do secretário de estado dos EUA John Kerry a Moscou, há duas semanas, para falar com o presidente Putin.

Pode ter sido parte de uma “grande barganha” na Síria (não, não, nada vazou do que os dois realmente discutiram). E pode ter sido uma retirada tática, com Kerry já tendo reconhecido que a Rússia “venceu” na Síria, mas a OTAN – como o Pentágono – manterá a pressão nas fronteiras ocidentais da Rússia. E a Guerra Híbrida recomeçou quase imediatamente depois, com os Panama Papers.

Nós reinamos sobre mundo uno monolítico

Um “Califato” falso jamais será ameaça estratégica ao Excepcionalistão; mas a integração da Eurásia, sim, é, com certeza.

Não surpreende que o governo dos EUA em Washington esteja alarmado. A Síria já provocou dois desenvolvimentos chaves:

1) a coordenação de alto nível entre Moscou, Damasco, Teerã e Bagdá – mediante o centro de informação unificada de Bagdá –, é já uma antecâmara de como a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) [ing. Shanghai Cooperation Organization (SCO)] pode, no futuro, intervir em qualquer ponto de conflito, como antípoda perfeito da OTAN: trabalhando para erradicar o caos, em vez de o fomentar com o dito “imperialismo humanitário”; e

2) é também uma antecâmara, em termos de cooperação entre estados, de como as Novas Rotas da Seda podem avançar pela Eurásia, integrando cada vez mais China e Rússia com o centro e o sudoeste da Ásia.

Quanto ao governo dos EUA em Washington, as prioridades não mudam. Em primeiro lugar, impedir Rússia e a União Europeia de estabelecerem qualquer parceria bilateral, estratégica/comercial/de negócios que aprofunde a integração da Eurásia.

A Guerra Híbrida mais hardcore na Ucrânia continua a ser o meio mais garantido de impedir que qualquer tipo de integração consiga avançar, assim como a OTAN a distribuir suas ‘patrulhas’ a partir das bases implantadas em estados vassalos da Europa Ocidental.

O objetivo chave geral é impedir a integração da Eurásia, por todos os meios. Quanto a Wall Street, o que importa é construir um fluxo mundial unitário, de mundo uno, de capital norte-americano, que beneficie o sistema de capitalismo de cassino superturbinado controlado pelos EUA – e não a Eurásia. Comparado ao Grande Quadro, o Panamá pode eventualmente deixar uns poucos mortos de beira de estrada. Não bastarão. Preparem-se para o grande arrasto. Para os insaciáveis devoradores de gasolina, caminhões-monstro da Guerra Híbrida, a estrada avança.

Fonte: The Sputnik News

Why Did Russia’s Pivot to Asia Fail?

Publicado originalmente em 24 de abril de 2016.

On the surface, the concept of a Russian pivot to Asia made sense, particularly greater cooperation between Moscow and Beijing. But, as a pair of fellows from the Mercator Institute for China Studies in Berlin and a senior associate at the Carnegie Moscow Center made clear in separate articles published this month, Russia’s Asia pivot has failed so far to bring benefits to Moscow.

Two years after the Kremlin’s rift with the West, Moscow’s hopes that a new business relationship with Asia would make up for Russia’s losses have not materialized,” Alexander Gabuev of the Carnegie Moscow Center begins his analysis of Russia’s pivot to “nowhere.”

Thomas S. Eder and Mikko Huotari began their recent Foreign Affairs article by remarking, “Ever since Europe imposed sanctions on Russia for its invasion of Ukraine, Moscow has held high hopes of countering them by strengthening its alliance with China on energy, defense, and agricultural trade and investments.”

What’s at the core of this failure? One place to look is at the motivation for increasing cooperation in both Moscow and Beijing. Russia’s deteriorating relations (and trade) with Europe precipitated a search elsewhere for partners. For this reason, the $400 billion gas deal signed in May 2014 drew headlines. But the devil, as always, was in the details: Russia would be getting less money per cubic meter of gas than when it sold to western Europe and in the past two years the construction dates have been pushed further into the future.

Russia needs China, but China has options.

Gabuev makes this case in reference to Russia’s seeming inability to work with Asian financial institutions, citing Russia’s only big success with Chinese banks as a $2 billion loan to Gazprom. Beyond that, little was forthcoming:

The reasons are obvious. It turns out that even the Big Four Chinese banks have been complying with Western sanctions, although Beijing officially condemns the sanctions. Given the choice between the opportunity to increase their presence in Russia’s high-risk market (previously small and now even more shriveled with GDP in constant decline) and the potential to strengthen their positions in the huge and stable markets of the United States and the EU, Chinese banks are opting for the latter. A “strategic partnership” does not rule out financial judiciousness.

In the energy realm, Eder and Huotari point to the fact that Russia is but one of many hydrocarbon suppliers for China, “including Angola, Equatorial Guinea, Iraq, Turkmenistan, and perhaps, soon, Iran—that are helping China diversify its energy sources…”

And in some cases, like that of Turkmenistan, Russia’s losses have been China’s gains. Over the past few years, trade of Turkmen gas to Russia (for resale to Europe) has dried up. In January, Gazprom announced it would stop buying from Turkmenistan altogether after the trade had already plummeted from a high of 40 billion cubic meters of gas in 2008 to 4 bcm in 2015. Meanwhile, Turkmenistan shifted exports to China. In the first three months of 2016 alone, Turkmenistan supplied China with 10.6 bcm of gas–a 33 percent increase over the same period in 2015. The Central Asia-China pipeline already has three operational lines and a fourth is under construction which will increase capacity to 85 bcm per year.

In essence,” Eder and Huotari write, “rather than playing Europe by engaging with China, Russia is getting played by China.”

For sake of argument, consider how Russia’s Asia pivot has differed from the United States’ pivot (excuse me, rebalance) to Asia. As Shannon Tiezzi and I argued in a recent article for FiveThirtyEight, one of core aspects of the U.S. pivot was simply showing up in Asia. Much of the United States’ increased involvement in the region focused on participating in multilateral forums which many Asian powers prioritize as venues to build consensus and conduct diplomacy. At the same time, bilateral interactions with China have also received increased attention.

Russia’s Asia pivot has focused primarily in China, to the exclusion of other powers. Gabuev comments that Russian President Vladimir Putin’s decision to skip last year’s East Asia Summit and the APEC summit was a “blunder”:

Putin is famous for disliking multilateral events and only attending them for the sake of one-on-one meetings. But Putin’s snub of APEC, where symbolic gestures are fundamental to policy and international relations, was interpreted to mean only one thing: Russia was not pivoting to Asia, it was pivoting to becoming China’s junior partner.

In the end, Russia’s pivot to Asia will continue to underperform as long as the Russian economy is withered and its relations with Europe tense. That said, the two share a number of strategic interests and the failure of this pivot doesn’t necessarily undermine the political sympathy Beijing has for Moscow.

Fonte: The Diplomat

An Interview with Russian Economist Vasily Koltashov

Publicado originalmente em 12 de abril de 2016.

The following is an interview with Russian economist Vasily Koltashov, by Ulrich Heyden, published in Telepolis (Germany) on March 31, 2016, translated to English for CounterPunch

The ‘Moscow Economic Forum 2016’ took place on March 23, 24. There, much criticism of the economic policies of the Russian government was voiced. Greater support of Russian industry through easier access to loans was advocated. The following interview was conducted by German journalist Ulrich Heyden with Russian economist Vasily Koltashov shortly after the forum took place. For a report on the Moscow Economic Forum, see Ulrich Heyden’s article in CounterPunch on April 8, 2016.

Vasily Koltashov is the head of the economic research department at the Moscow-based Institute of Globalization and Social Movements. He says Western economic sanctions and the resulting economic turmoil has the Russian people restless. And there are increasing tensions within the Russian elite, torn between reconciliation with the West or an independent course for the country.

Ulrich Heyden: How to explain the sharpness of the criticisms of the Russian government that were voiced at the Moscow Economic Forum?

Vasily Koltashov: There are two opposing camps in Russia. The so-called liberal camp has the support of the EU and the United States and, temporarily, of the main reigns of power in Russia. But there is also a patriotic opposition which hates the liberal opposition. And the liberal opposition hates the patriotic opposition.

What do you mean by “patriotic opposition”?

The patriotic opposition is a new phenomenon in Russia. It arose after 2008, mainly due to the global financial crisis. The main criticism of the patriotic opposition relates to social and economic issues and not issues of elections, human rights or foreign policy.

The patriotic opposition arose because of the crisis that arose over the commodity exports Russian capitalism.

Can one say that the Economic Forum was a national gathering of liberals, conservatives and the left-wing people?

There were practically no liberals at the meeting.

The Moscow Economic Forum has met every year since 2013. Was there anything new this year?

The Economic Forum is in a crisis. It has an important role, but it is not developing. Year after year, the same statements are made.

What is missing?

A concrete plan on how the country can be led out of the crisis is needed. That plan must take into account the needs and concerns of the population. People are increasingly faced with hardship. Standards of living are falling. Real, monthly wages in the regions have fallen in the past year and a half, from an average of 20,000 rubles to 15,000 (197 euros, U.H.). But in Moscow, you can still hear of salaries amounting to 20,000 rubles (263 euros, U.H.).

The people are very concerned. They want an economic policy that increases their standard of living and protects them from unemployment and the loss of value of their money. But at the Moscow Economic Forum, one hears of measures to support industry, cheap loans for industry and more efforts to re-industrialize Russia. Many Russians would not understand how such measures could save them from the consequences of the present turmoil.

Was the conflict in Novorossiya (eastern Ukraine) an issue?

There was, understandably, discussion at the Forum on the situation in Novorossiya, the uprising in eastern Ukraine. Russian and EU’s elites implement common neoliberal policies. At the same time, they are in conflict with each other over events in Ukraine. The peoples need a different policy, a non-neoliberal Eurasian integration. Neither Russian nor European elites are capable of implementing it.

The quite popular economic adviser to Vladimir Putin, Sergei Glasew, spoke at the Economic Forum in favour of increases in the money supply.

Glasew is popular, but it he has rather peculiar views. He says, for example, the ruble is undervalued. He is wrong. The ruble is overvalued, because the single national market has been destroyed. If the price of oil continues to fall, the ruble’s exchange rate will also continue to decline. The central bank keeps the ruble on a strong footing in relation to the poor economy.

Glasew thinks an increase in the money supply will have no negative impact because the ruble is undervalued. I believe, that when the increase in money supply is not accompanied by an increase in demand for Russian goods, this will lead to increased inflation.

What economic policies do the liberals and patriots stand for in Russia?

The members of the Moscow middle class and government functionaries think and hope that Russia will get along with the West. Then the economy will develop well. This is the message in liberal media. The patriotic media cannot convince the people, that the economic situation would be improved by supporting the industrialists with greater state support.

What do you suggest?

Our Institute of Globalization and Social Movements has presented a concrete plan. We propose a state program providing for the construction of housing for the citizens at affordable mortgage loans of one to three per cent. This housing program is to be carried out with Russian materials, Russian construction and Russian workers. We propose to build new roads and railways and to renew public transport.

How will this be financed?

Firstly, Russia has substantial financial reserves. Secondly, the money supply could be increased. Our proposed construction program will trigger economic growth. The money that is generated will find its way into state coffers.

You have just criticized Putin’s economic adviser Glasew for his plan to increase the money supply.

We are for increasing the money supply only as a first impetus for growth. We do not want to give away money to the industrialists. We know they would like to have cheap loans. But cheap loans in today’s conditions would only lead to an increase in inflation, because there is already turmoil at the highest level. Even a reduction in the central interest rate will lead to the growth of inflation.

At the business forum there were disaster scenarios. One got the impression that the economy will collapse soon if there is no support of Russian industry. Are these exaggerations?

I believe that the economy may collapse one way or the other. Industry in Russia is really rather poorly developed. Production is declining. There are occasional redundancies. Part-time working hours have been introduced. Wages have often been cut. Unemployment is not particularly high, at six per cent. But the reason for low unemployment is the very low wages.

Were there concrete, positive results at the Economic Forum?

A positive result was a clear commitment to a protectionist policy. This means that Russia must withdraw from the World Trade Organization (WTO). In my opinion, more steps are required to strengthen the Eurasian Economic Union before it could aspire to be an alternative to the European Union. But the Eurasian Union [which is planned as the next step of integration after the existing Eurasian Economic Community, U.H.] cannot develop according to the EU model, which is a hierarchy headed by Germany and including prominent roles for France (and perhaps Italy). Then there are Poland, Romania and Hungary, countries of third and fourth rank. For them, the EU has more disadvantages than advantages.

The members of the Eurasian Economic Union and the Customs Union (Russia, Belarus, Armenia, Kyrgyzstan, Kazakhstan, U.H.) currently have no concrete benefits from economic integration.

The Eurasian Economic Union and the Eurasian Customs Union were formed according to terms of the World Trade Organization (WTO). Admission of Russia into the WTO makes the Eurasian Economic Union pointless. The Eurasian Union only makes sense as an organization if it is competing for influence against the EU because the EU is pursuing an active policy of expansion towards the east. In 2013-14, the EU won over official Ukraine. Russia has absorbed Crimea but shied away from anything similar for Donbass. It is still unclear who is pulling Belarus into whose sphere of influence. For the West, Putin’s replacement by someone carrying out orders from the outside is on the agenda.

‘A turn is almost in the air’

There would be no hierarchy of power in the Eurasian Union?

In the Eurasian Union will function according to a different form of integration. No integration can succeed based on a free market and free foreign trade. A common, protected market supporting domestic demand is needed. Such a project would be an alternative to the EU and would entice some states to leave the latter. That’s how the Eurasian Economic Union, called a “dangerous project” in Brussels when it was formed, could actually become so.

Is it possible that the Russian leadership could eventually turn into true Keynesians and encourage the state to target housing and road-building projects?

In 2017, the economic situation will become so bad that a turn will be in the air. Attempts by the Russian government to find accommodation with the West would push Russia towards forming a neoliberal government, which would very quickly become totally unpopular. Health and education services would be completely destroyed; customs duties would be lowered and the state would sell blocks of its assets. This policy would intensify the contradictions in society because the people are demanding that we take into account their interests.

The patriotic camp will benefit from this development?

Russian society is divided into two parts–the Belyje lenti (people who wear white ribbons), representing liberal positions, and the people wearing the orange and black St. George ribbon, who hold patriotic and protectionist attitudes and long for a post-Soviet integration.

These are two very strong movements. However, the Belyje lentimovement is primarily a Moscow movement and the number of its supporters is limited. The patriotic forces have more than 90 per cent of the population behind it. The only way to prevent the patriotic forces from coming to power are policies creating economic growth, meaning that Russia would return to the situation that existed in 2008. But this is not possible.

Because oil prices are so low…?

And there will be no increase in oil prices in the foreseeable future The turmoil in Russia is already quite deep and neoliberal recipes will do nothing to get the country out of that. They would only start a second wave of crisis. This year, there will be a severe economic slump in China, a recession in the United States and possibly a recession in the euro zone. That means there will be many events pushing down the price of oil and metals and thus worsening the situation of the Russian economy. In my estimation, this development will increase support for the patriotic camp.

Is it possible that the ‘United Russia’ party would not get an absolute majority in the Duma elections to take place on September 18?

This party is not popular. The chairman of United Russia is Prime Minister Dmitry Medvedev. His government has failed. He is synonymous with the beginning of the economic turmoil. He succeeded Prime Minister Putin in 2012 at a time of economic growth and now the economy is in its current, pathetic state. It may well be that the members and deputies stage an internal uprising and an ‘insurgent’ Parliament is elected. Many deputies of United Russia do not agree with the neoliberal course. With a neoliberal program, they could not look the voters in the eye.

So can we expect to see surprises?

I had a conversation in a Russian region with a journalist. I asked him, how it is possible that your newspaper criticizes Putin so firmly? He answered, “Who is your Putin? He is far away; perhaps he does not exist. It’s the regional governor who has the power.” That’s the political authority he is wary of. In contrast to the situation in Moscow, local authorities can defy the central power at critical moments and organize rallies of dissatisfied citizens.

How stable is the position of Vladimir Putin?

A considerable portion of the ruling elite wants to come to an agreement with the West and remove Putin from office. The people who are working with Putin and are hit by the sanctions do not want this. There are serious conflicts in the Russian elite that are not public but which can affect the Duma elections to take place on September 18. Much is still unclear. Will Putin lead a party contesting the Duma elections? What will be the role of the Popular Front founded by Putin in 2011?

Ulrich Heyden is a German journalist and author. Since 1992, he has been a freelance correspondent in Moscow for German media, including for Telepolis. He is a co-producer of the 45-minute documentary film (sub-titled in English) ‘Wildfire: The Odessa atrocities of May 2, 2014’, released in February 2015. The film documents the arson attack on the Trade Union House in Odessa which left 42 people dead on that day. In May 2015, Ulrich Heyden’s new book was published (in German, titled ‘War of the oligarchs: The tug of war over Ukraine’, published by PapyRossa). He can be reached at heyden@list.ru. His website is http://www.ulrich-heyden.de.

Fonte: Counter Punch

Pepe Escobar: Brasil e Rússia sob ataque de “Guerra Híbrida”[1]

28/3/2016, Pepe Escobar, RT

“Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada

Não bordaram ainda com desenhos finos

A trama vã de nossos míseros destinos,

É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.”

As flores do mal [1857], Charles Baudelaire, sem indicação do tradutor

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Revoluções Coloridas nunca bastariam. O Excepcionalistão vive à procura de grandes atualizações de estratégia capazes de garantir a hegemonia perpétua do Império do Caos.

A matriz ideológica e o modus operandi das revoluções coloridas já são, hoje, assunto de domínio público. Mas não, ainda, o conceito de Guerra Não Convencional (GNC) [orig. Unconventional War (UW).

Essa guerra não convencional apareceu explicada no manual das Forças Especiais para Guerra Não Convencional dos EUA, em 2010. O parágrafo chave é:

“1-1. A intenção dos esforços de GNC dos EUA é explorar vulnerabilidades políticas, militares, econômicos e psicológicos de um poder hostil, mediante o desenvolvimento e sustentação de forças de resistência, para alcançar os objetivos estratégicos dos EUA. (…) para o futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerra irregular”

“Hostil” não se aplica apenas a potências militares; qualquer estado que se atreva a desafiar alguma trama importante para a “ordem” mundial Washington-cêntrica – do Sudão à Argentina –, pode ser declarado “hostil”.

Hoje, as ligações perigosas entre Revoluções Coloridas e Guerra Não Convencional já desabrocharam, como Guerra Híbrida: caso pervertido de Flores do Mal. Uma ‘revolução colorida’ é apenas o primeiro estágio do que, adiante, será convertido em Guerra Híbrida. E Guerra Híbrida pode ser interpretada, na essência, como a teoria-do-caos armada – paixão conceitual dos militares dos EUA (“política é a continuação da guerra por meios linguísticos”). No fundo, meu livro de 2014, Empire of Chaos rastreia as miríades de manifestações desse conceito.

Os detalhados e bem construídos argumentos [de Andrew Koribko, um dos capítulos já traduzidos, e outros em tradução (NTs)] dessa tese em três partes esclarece perfeitamente o objetivo central por trás de uma grande Guerra Híbrida:

O grande objetivo por trás de toda e qualquer Guerra Híbrida é esfacelar projetos multipolares transnacionais conectivos, mediante conflitos de identidade provocados de fora para dentro (étnicos, religiosos, regionais, políticos, etc.), dentro de um estado de trânsito tomado como alvo.”

Os BRICS – palavra/conceito de péssima reputação em Washington e no Eixo de Wall Street – teriam de ser os alvos preferenciais de Guerra Híbrida. Por incontáveis razões, dentre as quais: o movimento na direção de comerciar e negociar em suas próprias respectivas moedas, deixando de lado o dólar norte-americano; a criação do Banco de Desenvolvimento dos BRICS; o confessado interesse na direção da integração da Eurásia, simbolizada pelos projetos: Novas Rotas da Seda – ou, na terminologia oficial, Um Cinturão, uma Estrada [ing. One Belt, One Road (OBOR)] liderados pela China; e União Econômica Eurasiana (UEE) liderada pela Rússia.

Implica que a Guerra Híbrida mais cedo ou mais tarde atingirá a Ásia Central: o Quirguistão é candidato ideal a laboratório primário para experimentos tipo revolução colorida, do Excepcionalistão.

No estado em que estamos hoje, a Guerra Híbrida está muito ativa nas fronteiras ocidentais da Rússia (Ucrânia) mas ainda é embrionária em Xinjiang, no extremo oeste da China, que Pequim micro administra como falcão. A Guerra Híbrida também já está sendo aplicada para impedir um gambito crucial do Oleogasodutostão: a construção do Ramo Turco. E também será acionada de pleno para interromper a Rota da Seda dos Bálcãs – essencial para os negócios/comércio da China com a Europa Ocidental.

Dado que os BRICS são o único real contra poder ante o Excepcionalistão, foi preciso desenvolver uma estratégia para cada um dos principais atores. Jogaram tudo contra a Rússia – de sanções à mais total demonização; de ataque contra a moeda russa até uma guerra dos preços do petróleo, que incluiu até algumas (patéticas) tentativas de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou.

Para nódulo mais fraco no grupo BRICS, teria de ser desenvolvida estratégia mais sutil. O que afinal nos leva até a complexíssima Guerra Híbrida que se vê hoje lançada com o objetivo de conseguir a mais massiva e real desestabilização política/econômica do Brasil.

No Manual dos EUA para Guerra Não Convencional lê-se que fazer balançar as percepções de uma vasta “população média não engajada” é essencial na rota do sucesso, até que esses “não engajados” acabem por voltar-se contra os líderes políticos.

O processo inclui de tudo, de “apoiar grupos insurgentes” (como foi feito na Síria) até implantar “o mais amplo descontentamento, mediante propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo” (como no Brasil). E, à medida que uma insurreição vá crescendo, deve-se “intensificar a propaganda e a preparação psicológica da população para a rebelião”. Assim, num parágrafo, está pintado o caso do Brasil.

Precisamos de um Saddam para chamar de nosso

O principal objetivo do Excepcionalistão é quase sempre conseguir um mix de revolução colorida e guerra não convencional. Mas a sociedade brasileira e sua vibrante democracia sempre seriam sofisticadas demais para uma abordagem de Guerra Não Convencional hardcore, como sanções ou o conto da “Responsabilidade de Proteger” (R2P).

Não surpreende que São Paulo tenha sido convertido em epicentro da Guerra Híbrida contra o Brasil. São Paulo, o estado mais rico do Brasil, onde está também a capital econômica e financeira da América Latina, é o nodo chave numa estrutura de poder interconectada nacional/internacional.

O sistema da finança global centrado em Wall Street – e que governa virtualmente todo o Ocidente – simplesmente não poderia de modo algum permitir qualquer ação de plena soberania nacional, num ator regional com a importância do Brasil.

A ‘Primavera Brasileira”, de início, foi virtualmente invisível, fenômeno exclusivamente das mídias sociais – como na Síria, no início de 2011.

Então, em junho de 2013, Edward Snowden vazou aquelas sempre as mesmas práticas de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA. No Brasil, a ASN-EUA espionava a Petrobrás por todos os lados. E então, de repente, sem mais nem menos, um juiz regional, Sergio Moro, baseado numa única fonte – depoimento de um corretor clandestino de câmbio no mercado negro (“doleiro”) – teve acesso a uma grande lixeira de documentos da Petrobrás. Até agora, a investigação de corrupção que já dura dois anos, “Operação Car Wash”, ainda não revelou como conseguiram saber tanto sobre o que os próprios investigadores chamam de “célula criminosa” que agiria dentro da Petrobrás.

O que realmente interessa é que o modus operandi da revolução colorida – a “luta contra a corrupção” e “em defesa da democracia” – já estava posta em andamento. Foi o primeiro passo da Guerra Híbrida.

Assim como o Excepcionalistão inventou terroristas “bons” e terroristas “maus” cujos confrontos criaram a mais terrível confusão e agitações por todo o “Siriaque”, no Brasil surgiu a figura do corrupto “bom” e do corrupto “mau”.

Wikileaks também revelou como o Excepcionalistão classificava o Brasil como “ameaça à segurança nacional dos EUA”, porque poderia projetar um submarino nuclear [esse Wicki-telegrama é de 2009, o mesmo ano do ‘curso’ que o juiz Moro fez no Rio de Janeiro. Só pode ter sido por acaso (NTs)]; como a empresa construtora Odebrecht estava-se tornando global; como a Petrobrás desenvolvera, a própria empresa, a tecnologia para explorar os depósitos de petróleo do pré-sal (a maior descoberta de petróleo confirmada desse início do século 21, da qual o Big Oil foi excluído por, ninguém mais, ninguém menos, que o presidente Lula.[2]

Adiante, por efeito das revelações de Snowden, o governo Rousseff passou a exigir que todas as agências governamentais usassem empresas de tecnologia estatais, para atender todas as necessidades do governo. Significaria que as empresas norte-americanas do setor perderiam, em dois anos, ganhos já previstos de $35 bilhões, se fossem alijadas dos negócios de tecnologia da 7ª maior economia do mundo – como o grupo Information Technology & Innovation Foundation rapidamente descobriu.

O futuro acontece agora

A marcha na direção de Guerra Híbrida no Brasil pouco tem a ver com direita ou esquerda política. Consiste, basicamente, de mobilizar algumas famílias ricas que realmente governam o país; subornar fatias imensas do Congresso; pôr sob estrito controle as principais empresas de mídia; pôr-se a agir como senhores de engenho de escravos do século 19 (as relações sociais da escravidão ainda permeiam todas as relações na sociedade brasileira); e legitimar a coisa toda com discursos de uma tradição intelectual robusta, mas oca.

Todos esses dariam o sinal para mobilizar as classes médias altas.

O sociólogo Jesse de Souza identificou um fenômeno freudiano de “gratificação de substituição”, pelo qual as classes médias altas brasileiras – que, em grandes números vivem agora a exigir mudança de regime – imitam os poucos muito ricos, ao mesmo tempo em que são cruelmente exploradas por eles, mediante montanhas de impostos e taxas de juros estratosféricas.

Os 0,0001% mais ricos e as classes médias altas precisavam de um Outro para demonizar – à moda do Excepcionalistão. E ninguém seria mais perfeito para o complexo judicial-policial-midiático-velhas-elites-comprador, que a figura que tratariam de converter num Saddam Hussein tropical: o ex-presidente Lula.

“Movimentos” de ultradireita financiados pelos nefandos Koch Brothers repentinamente começaram a surgir nas redes sociais e em movimentos de rua. O advogado-geral do Brasil visitou o Império do Caos chefiando uma equipe da “Operação Car Wash para entregar informações da Petrobrás que talvez levassem a uma acusação formal pelo Departamento de Estado.

A “Operação Car Wash” e o – imensamente corrupto – Congresso brasileiro, o mesmo que, agora, vai decidir sobre um possível impeachment da presidenta Rousseff, já se mostram absolutamente indistinguíveis, uma e outro.

Àquela altura, os autores do roteiro estavam certos de que já havia uma infraestrutura implantada para mudança de regime no Brasil na numa massa-crítica anti-governo, o que pode levar ao pleno desabrochar da revolução colorida. E assim se pavimentou a trilha para um golpe soft no Brasil – sem nem ser preciso recorrer ao letal terrorismo urbano (como na Ucrânia).

Problema hoje é que, se o tal golpe sofrer falhar – como agora já parece pelo menos possível que falhe –, será muito difícil desencadear golpe hard, de estilo Pinochet, com recursos de Guerra Não Convencional, contra o governo sitiado de Rousseff; vale dizer, completar o ciclo de uma Guerra Híbrida Total.

Num plano socioeconômico, a “Operação Car Wash” só seria plenamente “bem-sucedida” se levasse a um afrouxamento das leis brasileiras sobre exploração de petróleo, abertura do país ao Big Oil dos EUA. Paralelamente, todos os gastos em programas sociais teriam de ser esmagados.

Mas, diferente disso, o que se vê agora é a mobilização progressiva da sociedade civil no Brasil contra esse cenário de golpe branco/soft em cenário de golpe/mudança de regime.

Atores crucialmente importantes na sociedade brasileira estão agora firmemente posicionados contra o impeachment da presidenta Rousseff, da Igreja Católica a grandes igrejas evangélicas; professores universitários respeitados; pelo menos 15 governadores de estados; artistas, massas de trabalhadores da ‘economia informal’, sindicalistas; intelectuais públicos; a grande maioria dos principais advogados do país; e afinal, mas não menos importante, o “Brasil profundo” que votou e elegeu Rousseff legalmente, com 54,5 milhões de votos.

Ainda não acabou e só acabará quando algum homem gordo na Suprema Corte do Brasil cantar. O que é certo é que já há pensadores brasileiros independentes que começam a construir as bases teóricas para estudar a “OperaçãoCar Wash” não como mera ‘investigação’ ou ‘movimento’ massivo “contra a corrupção”; mas, isso sim, como legítimo caso exemplar, a ser estudado, de estratégia geopolítica do Excepcionalistão aplicada a um ambiente globalizado sofisticado, com ativas redes sociais e dominado pelas TIs.

Todo o mundo em desenvolvimento muito tem a ganhar, se se mantiver com os olhos bem abertos – e aprender as lições que dali brotem, porque é bem possível que o Brasil venha a entrar para a história como caso exemplar de Guerra Híbrida ( Soft )*****

Fonte: Blog do Alok

Guerras Híbridas” Abordagem adaptativa pós-tudo da ‘mudança de regime’

Entreouvido na Vila Vudu:

Em 1964, tudo que aí se lê era arroz com feijão, e as famílias discutiam essas questões à mesa, em casa, no trabalho, na universidade, na feira (pelo menos, com certeza, em Porto Alegre/RS), e todo mundo sabia que a razão pela qual não há golpes nos EUA, é que nos EUA não há embaixada dos EUA. .

Mas, hoje, analfabetizadas na/pela universidade da ditadura dos anos 70-80 e na/pela universidade da tucanaria da privataria nos anos 80-90, 2000, as pessoas já não conhecem, sequer, o Manual de Golpes da CIA, que se atualiza, mas, melhorar, não melhora.

Então aí vai: ABC de golpe, hoje chamado “Guerra Híbrida”.

E o Brasil estamos no olho do furacão, mais uma vez.

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4/3/2016, Andrew Korybko, Oriental Review

  1. A lei da Guerra Híbrida

Guerra Híbrida é um dos mais significativos desenvolvimentos estratégicos que os EUA jamais promoveram ou encabeçaram, e a transição das Revoluções Coloridas para Guerras Não Convencionais certamente dominará as tendências a serem empregadas para desestabilizar países, nas próximas décadas.

Os não habituados a abordar a geopolítica a partir da perspectiva da Guerra Híbrida podem ter alguma dificuldade para compreender onde devem ocorrer as próximas, mas na verdade é fácil identificar as regiões e os países mais expostos ao risco dessa nova modalidade de agressão pelos EUA.

A chave para acertar nessa previsão é aceitar que Guerras Híbridas são conflitos assimétricos, cuja meta é sabotar interesses geoeconômicos concretos. A partir desse ponto, torna-se relativamente fácil apontar onde os EUA atacarão a seguir.

Essa série de artigos começa por expor os padrões que há por trás da Guerra Híbrida, conduzindo o leitor na direção de compreender melhor seus contornos estratégicos. Depois, demonstrarei que o quadro previamente elaborado já foi posto em ação durante as guerras dos EUA contra a Síria e a Ucrânia – os dois primeiros estados vítimas da Guerra Híbrida dos norte-americanos. Na parte seguinte, revisarei todas as lições que já devemos ter aprendido até aqui, e as aplicarei para prever os próximos teatros de Guerra Híbrida movida pelos EUA e, neles, os gatilhos geopolíticos mais vulneráveis e expostos. Artigos futuros portanto serão dedicados àquelas regiões, para mostrar por que são estrategicamente e sociopoliticamente tão vulneráveis a se tornarem as próximas vítimas da guerra pós-moderna que os EUA já fazem contra o mundo.

O padrão geral da Guerra Híbrida

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Primeira coisa que se tem de saber sobre Guerras Híbridas é que nunca, em tempo algum, haverá Guerra Híbrida contra aliado dos EUA ou em lugar onde os EUA já tenham implantado interesses infraestruturais. Os processos caóticos disparados durante o golpe pós-moderno para mudança de regime não podem ser plenamente controlados e, potencialmente, poderiam gerar o mesmo tipo de revide geopolítico contra os EUA que Washington tenta direta ou indiretamente canalizar na direção de seus rivais multipolares.

Correspondentemente, aí está a razão pela qual os EUA jamais tentarão Guerra Híbrida onde haja interesses seus definidos como “grandes demais para falir”, embora essa avaliação seja sempre contemporaneamente relativa e possa mudar rapidamente, conforme as circunstâncias geopolíticas. Ainda assim, a regra geral a não esquecer é que os EUA jamais sabotarão intencionalmente seus próprios interesses, a menos que haja algum benefício de terra arrasada numa retirada; nesse contexto, pode-se pensar numa destruição da Arábia Saudita, se algum dia os EUA forem expulsos do Oriente Médio.

Determinantes geoestratégico-econômicos:

Antes de tratar dos fundamentos geoeconômicos da Guerra Híbrida, é importante registrar que os EUA também têm objetivos geoestratégicos (por exemplo, prender a Rússia num atoleiro predeterminado). O “Brzezinski Reverso”, como o autor o tem chamado, é aplicável simultaneamente à Europa Oriental, através do Donbass; ao Cáucaso, através de Nagorno-Karabakh; e à Ásia Central, através do Fergana Valley, e se for sincronizado mediante provocações cronometricamente coordenadas, nesse caso essa tríade de armadilhas podem-se comprovar letalmente eficientes para manter permanentemente enredado o urso russo.

Esse esquema maquiavélico sempre permanecerá como um risco, porque se baseia numa realidade geopolítica irrefutável, e o melhor que Moscou pode fazer é tentar impedir a conflagração concomitante de sua periferia pós-soviética, ou rapidamente e adequadamente responder, no momento em que elas emergem, às crises que os EUA provocam.

Os elementos geoestratégicos da Guerra Híbrida são portanto de algum modo não explicáveis a partir dos elementos geoeconômicos, especialmente no caso da Rússia. De fato, para tornar o padrão examinado mais amplamente pertinente a outros alvos, como China e Irã, é preciso omitir o estratagema “Brzezinski Reverso” como pré-requisito e, em vez de focar nele, dar mais atenção às motivações econômicas que os EUA têm em cada caso.

O grande objetivo por trás de toda e qualquer Guerra Híbrida é esfacelar projetos multipolares transnacionais conectivos, mediante conflitos de identidade provocados de fora para dentro (étnicos, religiosos, regionais, políticos, etc.), dentro de um estado de trânsito tomado como alvo.

Esse padrão pode ser claramente visto na Síria e na Ucrânia, e é a Lei da Guerra Híbrida. As específicas táticas e tecnologias sociais utilizadas em cada desestabilização podem variar, mas o conceito estratégico permanece fiel a essa concepção básica.

Tomando em conta esse objetivo final, é agora possível andar do teórico ao prático, e começar a traçar as rotas geográficas de vários projetos sobre os quais os EUA querem fazer mira.

Para qualificar, os projetos multipolares transnacionais conectivos a serem tomados por alvo podem ser (a) de base na energia, ou (b) projetos institucionais ou (c) econômicos, e quanto mais essas três categorias se superpuserem, mais provável que um cenário de Guerra Híbrida esteja sendo planejado para aquele determinado país.

Vulnerabilidades sociopolíticas estruturais:

Uma vez que os EUA tenham identificado seu alvo, começam a procurar por vulnerabilidades estruturais que explorarão na Guerra Híbrida vindoura. Contextualmente, essas vulnerabilidades não são objetos físicos a serem sabotados, como usinas de energia e estradas (embora essas também sejam listadas, mas por diferentes equipes de desestabilização), mas características sociopolíticas a serem manipuladas para enfatizar ‘sedutoramente’ uma dada ‘fissura’ de demografia no tecido nacional existente e, assim, ‘legitimar’ a revolta dos envolvidos, provocada de fora do país, contra as autoridades locais.

As vulnerabilidades estruturais abaixo listadas são as que mais se veem relacionadas à preparação para uma Guerra Híbrida; e se cada uma dessas puder ser associada a uma específica área geográfica, cresce a probabilidade de que seja usada para galvanizar os polos opostos na construção de uma Revolução Colorida e para demarcações territoriais preliminares para a Guerra Não Convencional:

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* etnicidade;

* religião;

* história;

* regiões administrativas;

* desigualdades socioeconômicas;

* geografia física.

Quanto maior a sobreposição que se possa obter entre esses diferentes fatores, mais potente a energia potencial da Guerra Híbrida; e cada variável que se sobrepõe multiplica exponencialmente a viabilidade geral de toda a campanha e sua chance de ‘permanecer no poder’.

Precondicionamento:

As Guerras Híbridas são sempre precedidas por um período de precondicionamento societal e estrutural. O precondicionamento societal tem a ver com aspectos informacionais e de soft power que maximizam a aceitação, por grupos demográficos chaves, da desestabilização que logo terá início, e os levam a crer que algum tipo de ação (ou aceitação passiva de ação empreendida por outros) é indispensável para alterar o presente estado de coisas

[A frase já viralizada, que Aécio Neves/seus marketeiros distribuíram ontem pelo Twitter: “Isso é inadmissível” – tão perfeitamente oca de significação relevante quanto o “Eu amo muito isso”, da propaganda das lojas McDonald –, é exemplo de ação que aspira a precondicionar a sociedade para uma ‘mudança’ suposta necessária e inadiável (NTs)].

O segundo tipo de precondicionamento, aqui dito “estrutural” tem a ver com os variados truques aos quais os EUA recorrem, para empurrar o governo alvo a agravar, sem que essa seja sua intenção, as várias diferenças políticas que já tenham sido identificadas, com o objetivo de criar clivagens de ressentimento identitário que, então, tornam todo o grupo mais suscetível ao precondicionamento societal e à ação subsequente de ONGs que coordenarão a organização política (a grande maioria das ONGs encarregadas dessa parte do ‘projeto’ são ligadas à Soros Foundation e/ou ao National Endowment for Democracy, do Congresso dos EUA).

[Aqui, bom exemplo é a ‘discussão’ que a mídia comercial dominante está promovendo no Brasil nesse momento, em torno de “Impeachment é golpe”/”Impeachment é legal”. Evidentemente, impeachment sem causa criminosa comprovada é golpe; e impeachment como definido na Constituição Federal, que exige causa criminosa comprovada, também evidentemente é legal e não é golpe. Sem explicar nenhuma dessas realidades, a mídia comercial põe-se a recolher opiniões de magistrados, o mais recente o ex-ministro do STF Eros Grau, que ‘declaram’ que “impeachment não é golpe”, sem nada acrescentar. – Assim, precisamente, é o golpe que se ‘ensina’ que não haveria. A confusão é total e, como se explica nesse artigo, é buscada. É golpe (NTs).]

Para expandir as táticas de precondicionamento estrutural, um dos meios mais frequentemente empregados e globalmente reconhecidos são as sanções. O objetivo implícito das sanções (embora nem sempre alcançado) sempre foi “tornar a vida mais difícil” para o cidadão médio, de tal modo que ele/ela torne-se mais permeável à ideia da mudança de regime e, assim, possa ser mais facilmente induzido/a a agir movido/a por impulsos que lhe foram instilados de fora.

Menos conhecidos, contudo, são os métodos mais oblíquos para alcançar esse objetivo, mas hoje implementados praticamente em todo o planeta, que envolvem o poder que os EUA têm para afetar algumas das funções orçamentárias dos estados-alvos de golpe, a saber, a renda com que podem contar e em que, precisamente, essa renda é gasta.

A queda global nos preços da energia e das commodities atingiu com extraordinária dureza os estados exportadores, muitos dos quais são desproporcionalmente dependentes da venda daqueles recursos para cumprir suas metas fiscais; e a queda na renda, em quase todos os casos, leva a cortes em gastos sociais.

Paralelamente, alguns estados enfrentam ameaças à sua segurança fabricadas nos EUA às quais são obrigadas a responder com urgência, o que exige deles ainda maios gastos não previstos, dessa vez para seus programas de defesa, dinheiro que, sem as ‘ameaças à segurança’ seria gasto e programas sociais.

Individualmente tomadas, cada uma dessas ‘trilhas’ visa a forçar o estado-alvo de golpe a ter de cortar gastos, o que cria dificuldades novas e serve como incubadora para as condições de médio prazo necessárias para o sucesso de uma Revolução Colorida – primeiro estágio de uma Guerra Híbrida.

No caso de um estado entrar em situação de, ao mesmo tempo, redução na arrecadação e aumento não planejado de gastos para defesa, que force cortes de gastos sociais, pode acontecer de a Revolução Colorida converter-se em projeto não mais de médio, mas de curto prazo, dependendo da severidade da crise doméstica resultante e do sucesso que as ONGs inspiradas e mantidas pelos EUA alcancem na organização política de blocos de oposição ao governo.******

Fonte: Oriental Review

Sergey Lavrov’s article “Russia’s Foreign Policy: Historical Background” for “Russia in Global Affairs” magazine, March 3, 2016

Published originally in: 03/03/2016

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International relations have entered a very difficult period, and Russia once again finds itself at the crossroads of key trends that determine the vector of future global development.

Many different opinions have been expressed in this connection including the fear that we have a distorted view of the international situation and Russia’s international standing. I perceive this as an echo of the eternal dispute between pro-Western liberals and the advocates of Russia’s unique path. There are also those, both in Russia and outside of it, who believe that Russia is doomed to drag behind, trying to catch up with the West and forced to bend to other players’ rules, and hence will be unable to claim its rightful place in international affairs. I’d like to use this opportunity to express some of my views and to back them with examples from history and historical parallels.

It is an established fact that a substantiated policy is impossible without reliance on history. This reference to history is absolutely justified, especially considering recent celebrations. In 2015, we celebrated the 70th anniversary of Victory in WWII, and in 2014, we marked a century since the start of WWI. In 2012, we marked 200 years of the Battle of Borodino and 400 years of Moscow’s liberation from the Polish invaders. If we look at these events carefully, we’ll see that they clearly point to Russia’s special role in European and global history.

History doesn’t confirm the widespread belief that Russia has always camped in Europe’s backyard and has been Europe’s political outsider. I’d like to remind you that the adoption of Christianity in Russia in 988 – we marked 1025 years of that event quite recently – boosted the development of state institutions, social relations and culture and eventually made Kievan Rus a full member of the European community. At that time, dynastic marriages were the best gauge of a country’s role in the system of international relations. In the 11th century, three daughters of Grand Prince Yaroslav the Wise became the queens of Norway and Denmark, Hungary and France. Yaroslav’s sister married the Polish king and granddaughter the German emperor.

Numerous scientific investigations bear witness to the high cultural and spiritual level of Rus of those days, a level that was frequently higher than in western European states. Many prominent Western thinkers recognized that Rus was part of the European context. At the same time, Russian people possessed a cultural matrix of their own and an original type of spirituality and never merged with the West. It is instructive to recall in this connection what was for my people a tragic and in many respects critical epoch of the Mongolian invasion. The great Russian poet and writer Alexander Pushkin wrote: “The barbarians did not dare to leave an enslaved Rus in their rear and returned to their Eastern steppes. Christian enlightenment was saved by a ravaged and dying Russia.” We also know an alternative view offered by prominent historian and ethnologist Lev Gumilyov, who believed that the Mongolian invasion had prompted the emergence of a new Russian ethnos and that the Great Steppe had given us an additional impetus for development.

However that may be, it is clear that the said period was extremely important for the assertion of the Russian State’s independent role in Eurasia. Let us recall in this connection the policy pursued by Grand Prince Alexander Nevsky, who opted to temporarily submit to Golden Horde rulers, who were tolerant of Christianity, in order to uphold the Russians’ right to have a faith of their own and to decide their fate, despite the European West’s attempts to put Russian lands under full control and to deprive Russians of their identity. I am confident that this wise and forward-looking policy is in our genes.

Rus bent under but was not broken by the heavy Mongolian yoke, and managed to emerge from this dire trial as a single state, which was later regarded by both the West and the East as the successor to the Byzantine Empire that ceased to exist in 1453. An imposing country stretching along what was practically the entire eastern perimeter of Europe, Russia began a natural expansion towards the Urals and Siberia, absorbing their huge territories. Already then it was a powerful balancing factor in European political combinations, including the well-known Thirty Years’ War that gave birth to the Westphalian system of international relations, whose principles, primarily respect for state sovereignty, are of importance even today.

At this point we are approaching a dilemma that has been evident for several centuries. While the rapidly developing Moscow state naturally played an increasing role in European affairs, the European countries had apprehensions about the nascent giant in the East and tried to isolate it whenever possible and prevent it from taking part in Europe’s most important affairs.

The seeming contradiction between the traditional social order and a striving for modernisation based on the most advanced experience also dates back centuries. In reality, a rapidly developing state is bound to try and make a leap forward, relying on modern technology, which does not necessarily imply the renunciation of its “cultural code.” There are many examples of Eastern societies modernising without the radical breakdown of their traditions. This is all the more typical of Russia that is essentially a branch of European civilisation.

Incidentally, the need for modernisation based on European achievements was clearly manifest in Russian society under Tsar Alexis, while talented and ambitious Peter the Great gave it a strong boost. Relying on tough domestic measures and resolute, and successful, foreign policy, Peter the Great managed to put Russia into the category of Europe’s leading countries in a little over two decades. Since that time Russia’s position could no longer be ignored. Not a single European issue can be resolved without Russia’s opinion.

It wouldn’t be accurate to assume that everyone was happy about this state of affairs. Repeated attempts to return this country into the pre-Peter times were made over subsequent centuries but failed. In the middle 18th century Russia played a key role in a pan-European conflict – the Seven Years’ War. At that time, Russian troops made a triumphal entry into Berlin, the capital of Prussia under Frederick II who had a reputation for invincibility. Prussia was saved from an inevitable rout only because Empress Elizabeth died a sudden death and was succeeded by Peter III who sympathised with Frederick II. This turn in German history is still referred to as the Miracle of the House of Brandenburg. Russia’s size, power and influence grew substantially under Catherine the Great when, as then Chancellor Alexander Bezborodko put it, “Not a single cannon in Europe could be fired without our consent.”

I’d like to quote the opinion of a reputable researcher of Russian history, Hélène Carrère d’Encausse, the permanent secretary of the French Academy. She said the Russian Empire was the greatest empire of all times in the totality of all parameters – its size, an ability to administer its territories and the longevity of its existence. Following Russian philosopher Nikolai Berdyayev, she insists that history has imbued Russia with the mission of being a link between the East and the West.

During at least the past two centuries any attempts to unite Europe without Russia and against it have inevitably led to grim tragedies, the consequences of which were always overcome with the decisive participation of our country. I’m referring, in part, to the Napoleonic wars upon the completion of which Russia rescued the system of international relations that was based on the balance of forces and mutual consideration for national interests and ruled out the total dominance of one state in Europe. We remember that Emperor Alexander I took an active role in the drafting of decisions of the 1815 Vienna Congress that ensured the development of Europe without serious armed clashes during the subsequent 40 years.

Incidentally, to a certain extent the ideas of Alexander I could be described as a prototype of the concept on subordinating national interests to common goals, primarily, the maintenance of peace and order in Europe. As the Russian emperor said, “there can be no more English, French, Russian or Austrian policy. There can be only one policy – a common policy that must be accepted by both peoples and sovereigns for common happiness.”

By the same token, the Vienna system was destroyed in the wake of the desire to marginalise Russia in European affairs. Paris was obsessed with this idea during the reign of Emperor Napoleon III. In his attempt to forge an anti-Russian alliance, the French monarch was willing, as a hapless chess grandmaster, to sacrifice all the other figures. How did it play out? Indeed, Russia was defeated in the Crimean War of 1853-1856, the consequences of which it managed to overcome soon due to a consistent and far-sighted policy pursued by Chancellor Alexander Gorchakov. As for Napoleon III, he ended his rule in German captivity, and the nightmare of the Franco-German confrontation loomed over Western Europe for decades.

Here is another Crimean War-related episode. As we know, the Austrian Emperor refused to help Russia, which, a few years earlier, in 1849, had come to his help during the Hungarian revolt. Then Austrian Foreign Minister Felix Schwarzenberg famously said: “Europe would be astonished by the extent of Austria’s ingratitude.” In general, the imbalance of pan-European mechanisms triggered a chain of events that led to the First World War.

Notably, back then Russian diplomacy also advanced ideas that were ahead of their time. The Hague Peace conferences of 1899 and 1907, convened at the initiative of Emperor Nicholas II, were the first attempts to agree on curbing the arms race and stopping preparations for a devastating war. But not many people know about it.

The First World War claimed lives and caused the suffering of countless millions of people and led to the collapse of four empires. In this connection, it is appropriate to recall yet another anniversary, which will be marked next year – the 100th anniversary of the Russian Revolution. Today we are faced with the need to develop a balanced and objective assessment of those events, especially in an environment where, particularly in the West, many are willing to use this date to mount even more information attacks on Russia, and to portray the 1917 Revolution as a barbaric coup that dragged down all of European history. Even worse, they want to equate the Soviet regime to Nazism, and partially blame it for starting WWII.

Without a doubt, the Revolution of 1917 and the ensuing Civil War were a terrible tragedy for our nation. However, all other revolutions were tragic as well. This does not prevent our French colleagues from extolling their upheaval, which, in addition to the slogans of liberty, equality and fraternity, also involved the use of the guillotine, and rivers of blood.

Undoubtedly, the Russian Revolution was a major event which impacted world history in many controversial ways. It has become regarded as a kind of experiment in implementing socialist ideas, which were then widely spread across Europe. The people supported them, because wide masses gravitated towards social organisation with reliance on the collective and community principles.

Serious researchers clearly see the impact of reforms in the Soviet Union on the formation of the so-called welfare state in Western Europe in the post-WWII period. European governments decided to introduce unprecedented measures of social protection under the influence of the example of the Soviet Union in an effort to cut the ground from under the feet of the left-wing political forces.

One can say that the 40 years following World War II were a surprisingly good time for Western Europe, which was spared the need to make its own major decisions under the umbrella of the US-Soviet confrontation and enjoyed unique opportunities for steady development.

In these circumstances, Western European countries have implemented several ideas regarding ​​conversion of the capitalist and socialist models, which, as a preferred form of socioeconomic progress, were promoted by Pitirim Sorokin and other outstanding thinkers of the 20th century. Over the past 20 years, we have been witnessing the reverse process in Europe and the United States: the reduction of the middle class, increased social inequality, and the dismantling of controls over big business.

The role which the Soviet Union played in decolonisation, and promoting international relations principles, such as the independent development of nations and their right to self-determination, is undeniable.

I will not dwell on the points related to Europe slipping into WWII. Clearly, the anti-Russian aspirations of the European elites, and their desire to unleash Hitler’s war machine on the Soviet Union played their fatal part here. Redressing the situation after this terrible disaster involved the participation of our country as a key partner in determining the parameters of the European and the world order.

In this context, the notion of the “clash of two totalitarianisms,” which is now actively inculcated in European minds, including at schools, is groundless and immoral. The Soviet Union, for all its evils, never aimed to destroy entire nations. Winston Churchill, who all his life was a principled opponent of the Soviet Union and played a major role in going from the WWII alliance to a new confrontation with the Soviet Union, said that graciousness, i.e. life in accordance with conscience, is the Russian way of doing things.

If you take an unbiased look at the smaller European countries, which previously were part of the Warsaw Treaty, and are now members of the EU or NATO, it is clear that the issue was not about going from subjugation to freedom, which Western masterminds like to talk about, but rather a change of leadership. Russian President Vladimir Putin spoke about it not long ago. The representatives of these countries concede behind closed doors that they can’t take any significant decision without the green light from Washington or Brussels.

It seems that in the context of the 100th anniversary of the Russian Revolution, it is important for us to understand the continuity of Russian history, which should include all of its periods without exception, and the importance of the synthesis of all the positive traditions and historical experience as the basis for making dynamic advances and upholding the rightful role of our country as a leading centre of the modern world, and a provider of the values of sustainable development, security and stability.

The post-war world order relied on confrontation between two world systems and was far from ideal, yet it was sufficient to preserve international peace and to avoid the worst possible temptation – the use of weapons of mass destruction, primarily nuclear weapons. There is no substance behind the popular belief that the Soviet Union’s dissolution signified Western victory in the Cold War. It was the result of our people’s will for change plus an unlucky chain of events.

These developments resulted in a truly tectonic shift in the international landscape. In fact, they changed global politics altogether, considering that the end of the Cold War and related ideological confrontation offered a unique opportunity to change the European architecture on the principles of indivisible and equal security and broad cooperation without dividing lines.

We had a practical chance to mend Europe’s divide and implement the dream of a common European home, which many European thinkers and politicians, including President Charles de Gaulle of France, wholeheartedly embraced. Russia was fully open to this option and advanced many proposals and initiatives in this connection. Logically, we should have created a new foundation for European security by strengthening the military and political components of the Organisation for Security and Cooperation in Europe (OSCE). Vladimir Putin said in a recent interview with the German newspaper Bild that German politician Egon Bahr proposed similar approaches.

Unfortunately, our Western partners chose differently. They opted to expand NATO eastward and to advance the geopolitical space they controlled closer to the Russian border. This is the essence of the systemic problems that have soured Russia’s relations with the United States and the European Union. It is notable that George Kennan, the architect of the US policy of containment of the Soviet Union, said in his winter years that the ratification of NATO expansion was “a tragic mistake.”

The underlying problem of this Western policy is that it disregarded the global context. The current globalised world is based on an unprecedented interconnection between countries, and so it’s impossible to develop relations between Russia and the EU as if they remained at the core of global politics as during the Cold War. We must take note of the powerful processes that are underway in Asia Pacific, the Middle East, Africa and Latin America.

Rapid changes in all areas of international life is the primary sign of the current stage. Indicatively, they often take an unexpected turn. Thus, the concept of “the end of history” developed by well-known US sociologist and political researcher Francis Fukuyama, that was popular in the 1990s, has become clearly inconsistent today. According to this concept, rapid globalisation signals the ultimate victory of the liberal capitalist model, whereas all other models should adapt to it under the guidance of the wise Western teachers.

In reality, the second wave of globalisation (the first occurred before World War I) led to the dispersal of global economic might and, hence, of political influence, and to the emergence of new and large centres of power, primarily in the Asia-Pacific Region. China’s rapid upsurge is the clearest example. Owing to unprecedented economic growth rates, in just three decades it became the second and, calculated as per purchasing power parity, the first economy in the world. This example illustrates an axiomatic fact – there are many development models– which rules out the monotony of existence within the uniform, Western frame of reference.

Consequently, there has been a relative reduction in the influence of the so-called “historical West” that was used to seeing itself as the master of the human race’s destinies for almost five centuries. The competition on the shaping of the world order in the 21st century has toughened. The transition from the Cold War to a new international system proved to be much longer and more painful than it seemed 20-25 years ago.

Against this backdrop, one of the basic issues in international affairs is the form that is being acquired by this generally natural competition between the world’s leading powers. We see how the United States and the US-led Western alliance are trying to preserve their dominant positions by any available method or, to use the American lexicon, ensure their “global leadership”. Many diverse ways of exerting pressure, economic sanctions and even direct armed intervention are being used. Large-scale information wars are being waged. Technology of unconstitutional change of governments by launching “colour” revolutions has been tried and tested. Importantly, democratic revolutions appear to be destructive for the nations targeted by such actions. Our country that went through a historical period of encouraging artificial transformations abroad, firmly proceeds from the preference of evolutionary changes that should be carried out in the forms and at a speed that conform to the traditions of a society and its level of development.

 Western propaganda habitually accuses Russia of “revisionism,” and the alleged desire to destroy the established international system, as if it was us who bombed Yugoslavia in 1999 in violation of the UN Charter and the Helsinki Final Act, as if it was Russia that ignored international law by invading Iraq in 2003 and distorted UN Security Council resolutions by overthrowing Muammar Gaddafi’s regime by force in Libya in 2011. There are many examples.

This discourse about “revisionism” does not hold water. It is based on the simple and even primitive logic that only Washington can set the tune in world affairs. In line with this logic, the principle once formulated by George Orwell and moved to the international level, sounds like the following: all states are equal but some states are more equal than others. However, today international relations are too sophisticated a mechanism to be controlled from one centre. This is obvious given the results of US interference: There is virtually no state in Libya; Iraq is balancing on the brink of disintegration, and so on and so forth.

A reliable solution to the problems of the modern world can only be achieved through serious and honest cooperation between the leading states and their associations in order to address common challenges. Such an interaction should include all the colours of the modern world, and be based on its cultural and civilisational diversity, as well as reflect the interests of the international community’s key components.

We know from experience that when these principles are applied in practice, it is possible to achieve specific and tangible results, such as the agreement on the Iranian nuclear programme, the elimination of Syrian chemical weapons, the agreement on stopping hostilities in Syria, and the development of the basic parameters of the global climate agreement. This shows the need to restore the culture of compromise, the reliance on the diplomatic work, which can be difficult, even exhausting, but which remains, in essence, the only way to ensure a mutually acceptable solution to problems by peaceful means.

Our approaches are shared by most countries of the world, including our Chinese partners, other BRICS and SCO nations, and our friends in the EAEU, the CSTO, and the CIS. In other words, we can say that Russia is fighting not against someone, but for the resolution of all the issues on an equal and mutually respectful basis, which alone can serve as a reliable foundation for a long-term improvement of international relations.

Our most important task is to join our efforts against not some far-fetched, but very real challenges, among which the terrorist aggression is the most pressing one. The extremists from ISIS, Jabhat an-Nusra and the like managed for the first time to establish control over large territories in Syria and Iraq. They are trying to extend their influence to other countries and regions, and are committing acts of terrorism around the world. Underestimating this risk is nothing short of criminal shortsightedness.

The Russian President called for forming a broad-based front in order to defeat the terrorists militarily. The Russian Aerospace Forces make an important contribution to this effort. At the same time, we are working hard to establish collective actions regarding the political settlement of the conflicts in this crisis-ridden region.

Importantly, the long-term success can only be achieved on the basis of movement to the partnership of civilisations based on respectful interaction of diverse cultures and religions. We believe that human solidarity must have a moral basis formed by traditional values ​​that are largely shared by the world’s leading religions. In this connection, I would like to draw your attention to the joint statement by Patriarch Kirill and Pope Francis, in which, among other things, they have expressed support for the family as a natural centre of life of individuals and society.

I repeat, we are not seeking confrontation with the United States, or the European Union, or NATO. On the contrary, Russia is open to the widest possible cooperation with its Western partners. We continue to believe that the best way to ensure the interests of the peoples living in Europe is to form a common economic and humanitarian space from the Atlantic to the Pacific, so that the newly formed Eurasian Economic Union could be an integrating link between Europe and Asia Pacific. We strive to do our best to overcome obstacles on that way, including the settlement of the Ukraine crisis caused by the coup in Kiev in February 2014, on the basis of the Minsk Agreements.

I’d like to quote wise and politically experienced Henry Kissinger, who, speaking recently in Moscow, said that “Russia should be perceived as an essential element of any new global equilibrium, not primarily as a threat to the United States… I am here to argue for the possibility of a dialogue that seeks to merge our futures rather than elaborate our conflicts. This requires respect by both sides of the vital values and interest of the other.”  We share such an approach. And we will continue to defend the principles of law and justice in international affairs.

Speaking about Russia’s role in the world as a great power, Russian philosopher Ivan Ilyin said that the greatness of a country is not determined by the size of its territory or the number of its inhabitants, but by the capacity of its people and its government to take on the burden of great world problems and to deal with these problems in a creative manner. A great power is the one which, asserting its existence and its interest … introduces a creative and meaningful legal idea to ​​the entire assembly of the nations, the entire “concert” of the peoples and states. It is difficult to disagree with these words.

Source: The Ministry of Foreign Affairs of the Russian Federation