Pepe Escobar: “G20 Made in China e seu significado geopolítico “

g20-china-2016
5/9/2016, Pepe Escobar, RT

Fonte: RT Tradução da Vila Vudu

Xi da China, para Putin da Rússia:
“Consegui! Cada vez q ñ usamos petrodólares, bebemos uma” http://goo.gl/FIuA5J
O que acaba de acontecer em Hangzhou, China, tem imensa importância geoeconômica. Pequim, desde o início, tratou com extrema seriedade o G20: foi construído como festa da China, não de algum ocidente decadente. Muito menos, como festa de Washington.

Delineando a agenda para as discussões, o presidente Xi Jinping foi diretamente ao ponto, também geopoliticamente, e definiu o tom: “A velha mentalidade retrógrada de Guerra Fria tem de ser descartada. Temos de desenvolver com urgência um novo conceito de segurança inclusivo, amplo, de cooperação e sustentável.”

Integrem-se isso e as chamadas “quatro prescrições” de Xi – [construir horizontes comerciais] “inovadores, revigorados, interconectados e inclusivos” – necessárias para devolver à vida a economia mundial.

Agindo como Principal Estadista Mundial de facto, Xi então passou, na abertura da reunião, a introduzir um pacote de projetos – resultado de planejamento excruciante, ao longo de meses, na preparação para Hangzhou.

O pacote está projetado para repor a economia global na trilha do crescimento e, ao mesmo tempo, pôr em operação mais regras amistosas made in China para a arquitetura e a governança econômica global.

A meta não poderia ser mais ambiciosa: esmagar o crescente sentimento anticomércio e antiglobalização que cresce principalmente no ocidente (do Brexit a Trump), ao mesmo tempo em que faz agrados no público seleto que o ouve – supostamente o mais importante conjunto de líderes mundiais que já pisaram no país em toda a história da China – embora, ao mesmo tempo, no longo prazo, vise a sobrepujar os EUA no quadro do poder mundial.

É virada previsível, mas nem por isso menos notável, para a China, que colheu benefícios da globalização, mais que qualquer outro país do planeta – com crescimento, ao longo dos últimos 30 anos, impulsionado por investimento estrangeiro direto e um dilúvio de exportações.

Mas agora a geoeconomia entrou em área extremamente preocupante de turbulência. Desde o fim da Guerra Fria em 1989 – e, até, da própria “história” segundo professores paroquianos – jamais as coisas foram tão difíceis. A ganância levou a globalização a ser “derrotada” pela desigualdade. Em resumo, baixa inflação – devida à concorrência global – levou às previsíveis políticas monetárias “expansionistas”, que inflacionaram moradia, educação e atenção à saúde, sacrificando a classe média e deixando que fluxo incontrolado e ilimitado de riqueza fluísse para uma minoria de 1% dos proprietários.

Mesmo na desaceleração, a China foi responsável por mais que 25% do crescimento econômico global em 2015. E continua a ser o motor global vital – ao mesmo tempo em que carrega o peso autoatribuído de representar o Sul Global na governança econômica global.

O investimento chinês outbound aumentou 62%, para valor recorde de $100 bilhões nos primeiros sete meses de 2016, segundo o Ministério de Comércio da China. Mas há um problema, que os economistas apelidaram de “ambiente de investimento assimétrico”: a China continua mais fechada que outros países BRICS ao investimento externo, especialmente em setores de serviços.

Construção dos BRICS

A reunião dedicada aos BRICS, à margem do G20 não foi espetacular per se. Mas foi onde Xi detalhou a agenda da China no G20 e deu o tom para a 8ª reunião de cúpula do grupo, em Goa, em outubro. Segundo um relatório do think-tank econômico para os BRICS da Tsinghua University em Pequim, a China deve aprofundar essas conexões multilaterais para “ter maior influência e forçar o ocidente a retroceder no processo de fixar as regras internacionais”.

É movimento de longo alcance – mas já está em andamento. Zhu Jiejin, da Fudan University em Xangai, resume: “O grupo BRICS é um teste para a nova filosofia da China em relações internacionais – embora o fruto ainda vá demorar muito tempo para amadurecer.”

Tuíto RT https://twitter.com/RT_com/status/772771430383714304

Interconexão ou morte

Tudo em Hangzhou foi milimetricamente calculado.

Por exemplos, os lugares na mesa do G20: cadeiras tai-shi clássicas da dinastia Ming (“assentos para grandes senhores imperiais”) com almofadas cinzas macias; folhas de papel sob pesos de papel verde-claros nas duas pontas; um pote de porcelana com uma caneta; uma xícara de chá em porcelana verde; um “selo” quadrado de jade – quase tão grande quanto um selo imperial – que era, de fato, uma tomada de microfone.

E considerem a geopolítica da foto oficial: Merkel e Erdogan ao lado de Xi, porque a Turquia hospedou o G20 ano passado, e a Alemanha hospedará em 2017; perfeita simetria para Putin e Obama; perfeita simetria para dois outros países BRICS, Modi da Índia; e, do Brasil, Temer, O Usurpador – um em cada ponta, mas ainda na primeira fila; Shinzo Abe do Japão na segunda fila, bem como Renzi da Itália e, da Grã-Bretanha, Theresa “estamos abertos a negócios” May.

E por que Hangzhou, afinal? Tratando-se de China, tudo começa com uma analogia histórica. Hangzhou já era conhecida como “a Herdade da Seda” antes, até, de haver a milenar Rota da Seda. Conecte isso, agora, com as Novas Rotas da Seda extremamente ambiciosas de Xi – o nome oficial é projeto é “Um Cinturão, uma Estrada” [ing. One Belt, One Road (OBOR)] na denominação oficial – que alguns analistas chineses gostam de descrever como “uma moderna sinfonia de conectividade.”

O projeto “Um Cinturão, uma Estrada” de Xi é, de fato, as “quatro prescrições”, em prática: crescimento econômico movido por um frenesi de conectividade “inclusiva”, especialmente entre nações em desenvolvimento.

A liderança em Pequim está totalmente dedicada ao projeto “Um Cinturão, Uma Estrada” como o movimento geoeconômico mais transformador na região do Pacífico Asiático, conectando a maior parte da Ásia à China – e à Europa; e tudo isso, é claro, totalmente entretecido com a reinterpretação turbinada que Xi dá à globalização. Por isso tenho dito que é o projeto de mais amplo alcance para o jovem século 21: do lado dos EUA, o “projeto” concorrente é mais do caótico mesmo.

Mesmo antes de Hangzhou, os ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G20 reuniram-se em Chengdu, dias 23-24 de julho, para discutir a conectividade da infraestrutura global. O communiqué teve de repetir o óbvio: maior interconectividade é a demanda que define a economia global do século 21 e a chave para promover desenvolvimento sustentável e prosperidade partilhada.

Disso trata o projeto “Um Cinturão, Uma Estrada”. A empresa chinesa de consultoria SWS Research estimou num relatório sobre “Um Cinturão, Uma Estrada” que o investimento total necessário para construir a infraestrutura aproxima-se de espantosos $3,26 trilhões.

Projetos de linha de frente incluem o Corredor Econômico China-Paquistão [ing. CPEC], definido pelo ministro de Relações Exteriores da China Wang Yi como “o primeiro movimento da sinfonia que é a Iniciativa Cinturão e Estrada”. E há também a bonança trazida pelo ferrovia para vagões de alta velocidade – incluindo tudo, da ferrovia China-Tailândia dentro da rede ferroviária Trans-Ásia, à outra ferrovia Jakarta-Bandung, na Indonésia, também para trens de alta velocidade.

Tuíto ONU https://twitter.com/UN_News_Centre/status/772751669901811712

Aqui se veem os principais atores chineses por trás da expansão de “Um Cinturão, Uma Estrada”, e a visão de Xi, de uma arquitetura global econômica reformada. É impossível compreender para onde caminha a China, sem considerar o papel de cada um deles.

E, claro, há a própria cidade de Hangzhou – um centro de inovação tecnológica de excepcional qualidade para economia da informação e produção inteligente.

Pode-se dizer que a principal estrela desse G20, além de Xi, foi Jack Ma, fundador da gigante de e-commerce Alibaba, fundada em 1999, listada em New York em 2014 e surgida da consolidação de vários milhares de empresas chinesas que formam a nova “Chinese imprint”.

O quartel-general da Alibaba é Hangzhou. E não por acaso, todos – de Justin Trudeau do Canadá a Joko Widodo da Indonésia – visitaram o campus Xixi da empresa, guiados por Ma, todos com um olho a chance de promover produtos de seus países pela plataforma da Alibaba. Perto dali há uma Cidade dos Sonhos – um centro que ajudou a lançar mais de 680 startups chinesas em apenas um ano.

Antes do G20 houve lá um B20, – cúpula de empresários e negócios, focada no desenvolvimento de pequenas e médias empresas (PMEs) – na qual o atilado Ma, admitindo que “vivemos momento crucial, quando as pessoas reagem contra a globalização ou o livre comércio”, promoveu empenhadamente o advento de uma plataforma eletrônica mundial para negócios (ing., eWTP). Ma descreveu a eWTP como “um mecanismo para diálogo público-privado no desenvolvimento de comércio eletrônico transfronteiras”, o qual “ajudará empresas pequenas e médias, países em desenvolvimento, as mulheres e os mais jovens a participar na economia global.”

Também não por acaso, Widodo da Indonésia convidou Ma como conselheiro econômico. A Indonésia tem nada menos que 56 milhões de pequenas e médias empresas, como disse o presidente; assim sendo, uma das prioridades nacionais é estimular a cooperação entre as PMEs na Indonésia e Alibaba, para ajudá-las a entrar no mercado chinês e global.

Claro que não é um jardim de rosas. Entre as cinco forças-tarefas presentes à B20 havia atores sinistros, como Laurence Fink, presidente do mega Fundo BlackRock, com assento na comissão de finanças, ou Dow Chemical na comissão de comércio e investimento. Mesmo assim, o alvo chave – mais importante – era e continua a ser ajudar as PMEs no mundo em desenvolvimento, para que se tornem globais.

O que foi realmente decidido no G20 da China só será visível no longo prazo. No encerramento do encontro, Xi destacou que o G20 concordara com promover o multilateralismo no comércio e trabalhar contra o protecionismo (amplas evidências do contrário, no pé em que estão as coisas), ao mesmo tempo em que se desenvolve o primeiro traços de regras para o investimento transfronteiras (todos as aplicarão?)

Disse também que o G20 concordou com prosseguir na reforma do FMI e do Banco Mundial, para dar mais espaço e direitos aos mercados emergentes (não com Hillary ou Trump no governo dos EUA).

Mas seja como for, a “mensagem” da China é absolutamente clara e visível: fixou-se afinal uma trilha geoeconômica para o futuro e o país passa a fazer lobby insistente para que muitas e muitas nações unam-se em torno desses primeiros traços de uma estrutura ganha-ganha. E seja qual for o futuro do acintosamente confrontacional “pivô para a Ásia” – com o braço TPP de “OTAN comercial” e tudo – Pequim não se manterá imóvel e calada ante a intimidação pelos EUA, ou ameaças ao que o governo chinês entende que sejam interesses vitais de segurança da China.

O G20 em Hangzhou mostrou que a China está pronta para exibir sua força econômica e para desempenhar papel muito mais ativo na geoeconomia. É claro que Pequim prefere jogar o jogo num sistema de comércio multilateral organizado em torno da OMC. Washington, em vez disso, tenta viciar o jogo com ‘regras’ novas: as ‘parcerias’ TPP e TTIP.

He Weiwen, da Sociedade de Estudos da OMC da China, pode ter acertado na mosca do negócio (da China), quando observou que “Os EUA disseram, há algum tempo, que não podem deixar que a China defina as regras, mas os EUA a definirem todas as regras tampouco é processo que seduza corações e mentes, porque EUA só consideram interesses dos EUA.”

Impeachment de Dilma Rousseff : Entrevista com o jornalista Pepe Escobar

Pepe Escobar: “The Next War”

CrossTalk: Brazilian Coup?

Entenda a crise política no Brasil por uma perspectiva geopolítica. Pepe Escobar: “O Brasil no epicentro da ‘Guerra Híbrida'”

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Por Pepe Escobar, no site Outras Palavras:

Revoluções coloridas nunca são demais. Os Estados Unidos, ou o Excepcionalistão, estão sempre atrás de atualizações de suas estratégias para perpetuar a hegemonia do seu Império do Caos.

A matriz ideológica e o modus operandi das revoluções coloridas já são, a essa altura, de domínio público. Nem tanto, ainda, o conceito de Guerra Não-Convencional (UW, na sigla em inglês).

Esse conceito surgiu em 2010, derivado do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais. Eis a citação-chave: “O objetivo dos esforços dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […] Num futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês)”.

Potências hostis” são entendidas aqui não apenas no sentido militar; qualquer país que ouse desafiar um fundamento da “ordem” mundial centrada em Washington pode ser rotulado como “hostil” – do Sudão à Argentina.

As ligações perigosas entre as revoluções coloridas e o conceito de Guerra Não-Convencional já desabrocharam, transformando-se em Guerra Híbrida; caso perverso de Flores do Mal. Revolução colorida nada mais é que o primeiro estágio daquilo que se tornará a Guerra Híbrida. E Guerra Híbrida pode ser interpretada essencialmente como a Teoria do Caos armada – um conceito absoluto queridinho dos militares norte-americanos (“a política é a continuidade da guerra por meios linguísticos”). Meu livro Império do Caos, de 2014, trata essencialmente de rastrear uma miríade de suas ramificações.

Essa bem fundamentada tese em três partes esclarece o objetivo central por trás de uma Guerra Híbrida em larga escala: “destruir projetos conectados transnacionais multipolares por meio de conflitos provocados externamente (étnicos, religiosos, políticos etc.) dentro de um país alvo”.

Os países do BRICS (Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul) – uma sigla/conceito amaldiçoada no eixo Casa Branca-Wall Street – só tinham de ser os primeiros alvos da Guerra Híbrida. Por uma miríade de razões, entre elas: o plano de realizar comércio e negócios em suas próprias moedas, evitando o dólar norte-americano; a criação do banco de desenvolvimento dos BRICS; a declarada intenção de aumentar a integração na Eurásia, simbolizada pela hoje convergente “Rota da Seda”, liderada pela China – Um Cinturão, Uma Estrada (OBOR, na sigla em inglês), na terminologia oficial – e pela União Econômica da Eurásia, liderada pela Rússia (EEU, na sigla em inglês).

Isso implica em que, mais cedo do que tarde, a Guerra Híbrida atingirá a Ásia Central; o Quirguistão é o candidato ideal a primeiro laboratório para as experiências tipo revolução colorida dos Estados Unidos, ou o Excepcionalistão.

No estágio atual, a Guerra Híbrida está muito ativa nas fronteiras ocidentais da Rússia (Ucrânia), mas ainda embrionária em Xinjiang, oeste longínquo da China, que Pequim microgerencia como um falcão. A Guerra Híbrida também já está sendo aplicada para evitar o estratagema da construção de um oleoduto crucial, a construção do Ramo da Turquia. E será também totalmente aplicada para interromper a Rota da Seda nos Bálcãs – vital para a integração comercial da China com a Europa Oriental.

Uma vez que os BRICS são a única e verdadeira força em contraposição ao Excepcionalistão, foi necessário desenvolver uma estratégia para cada um de seus principais personagens. O jogo foi pesado contra a Rússia – de sanções à completa demonização, passando por um ataque frontal a sua moeda, uma guerra de preços do petróleo e até mesmo uma (patética) tentativa de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou. Para um membro mais fraco dos BRICS foi preciso utilizar uma estratégia mais sutil, o que nos leva à complexidade da Guerra Híbrida aplicada à atual, maciça desestabilização política e econômica do Brasil.

No manual da Guerra Híbrida, a percepção da influência de uma vasta “classe média não-engajada” é essencial para chegar ao sucesso, de forma que esses não-engajados tornem-se, mais cedo ou mais tarde, contrários a seus líderes políticos. O processo inclui tudo, de “apoio à insurgência” (como na Síria) a “ampliação do descontentamento por meio de propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo” (como no Brasil). E conforme cresce a insurreição, cresce também a “intensificação da propaganda; e a preparação psicológica da população para a rebelião.” Esse, em resumo, tem sido o caso brasileiro.

Precisamos do nosso próprio Saddam

Um dos maiores objetivos estratégicos do Excepcionalistão é em geral um mix de revolução colorida e Guerra Híbrida. Mas a sociedade brasileira e sua vibrante democracia eram muito sofisticadas para métodos tipo hard, tais como sanções ou a “responsabilidade de proteger” (R2P, na sigla em inglês).

Não por acaso, São Paulo tornou-seo epicentro da Guerra Híbrida contra o Brasil. Capital do estado mais rico do Brasil e também capital econômico-financeira da América Latina, São Paulo é o nódulo central de uma estrutura de poder interconectada nacional e internacionalmente.

O sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil.

A “Primavera Brasileira” foi virtualmente invisível, no início, um fenômeno exclusivo das mídias sociais – tal qual a Síria, no começo de 2011.

Foi quando, em junho de 2013, Edward Snowden revelou as famosas práticas de espionagem da NSA. No Brasil, a questão era espionar a Petrobras. E então, num passe de mágica, um juiz regional de primeira instância, Sérgio Moro, com base numa única fonte – um doleiro, operador de câmbio no mercado negro – teve acesso a um grande volume de documentos sobre a Petrobras. Até o momento, a investigação de dois anos da Lava Jato não revelou como eles conseguiram saber tanto sobre o que chamaram de “célula criminosa” que agia dentro da Petrobras.

O importante é que o modus operandi da revolução colorida – a luta contra a corrupção e “em defesa da democracia” – já estava sendo colocada em prática. Aquele era o primeiro passo da Guerra Híbrida.

Como cunhado pelos Excepcionalistas, há “bons” e “maus” terroristas causando estragos em toda a “Siraq”; no Brasil há uma explosão das figuras do corrupto “bom” e do corrupto “ruim”.

O Wikileaks revelou também como os Excepcionalistas duvidaram da capacidade do Brasil de projetar um submarino nuclear – uma questão de segurança nacional. Como a construtora Odebrecht tornava-se global. Como a Petrobras desenvolveu, por conta própria, a tecnologia para explorar depósitos do pré sal – a maior descoberta de petróleo deste jovem século 21, da qual as Grandes Petrolíferas dos EUA foram excluidas por ninguém menos que Lula.

Então, como resultado das revelações de Snowden, a administração Roussef exigiu que todas as agências do governo usassem empresas estatais em seus serviços de tecnologia. Isso poderia significar que as companhias norte-americanas perderiam até US$ 35 bilhões de receita em dois anos, ao ser excluídos de negociar na 7ª maior economia do mundo – como descobriu o grupo de pesquisa Fundação para a Informação, Tecnologia & Inovação (Information Technology & Innovation Foundation).

O futuro acontece agora

A marcha em direção à Guerra Híbrida no Brasil teve pouco a ver com as tendências políticas de direita ou esquerda. Foi basicamente sobre a mobilização de algumas famílias ultra ricas que governam de fato o país; da compra de grandes parcelas do Congresso; do controle dos meios de comunicação; do comportamento de donos de escravos do século 19 (a escravidão ainda permeia todas as relações sociais no Brasil); e de legitimar tudo isso por meio de uma robusta, embora espúria tradição intelectual.

Eles dariam o sinal para a mobilização da classe média. O sociólogo Jesse de Souza identificou uma freudiana “gratificação substitutiva”, fenômeno pelo qual a classe média brasileira – grande parte da qual clama agora pela mudança do regime – imita os poucos ultra ricos, embora seja impiedosamente explorada por eles, através de um monte de impostos e altíssimas taxas de juros.

Os 0,0001% ultra ricos e as classes médias precisavam de um Outro para demonizar – no estilo Excepcionalista. E nada poderia ser mais perfeito para o velho complexo da elite judicial-policial-midiática do que a figura de um Saddam Hussein tropical: o ex-presidente Lula.

“Movimentos” de ultra direita financiados pelos nefastos Irmãos Kock pipocaram repentinamente nas redes sociais e nos protestos de rua. O procurador geral de justiça do Brasil visitou o Império do Caos chefiando uma equipe da Lava Jato para distribuir informações sobre a Petrobras que poderiam sustentar acusações do Ministério da Justiça. A Lava Jato e o – imensamente corrupto – Congresso brasileiro, que irá agora deliberar sobre o possível impeachment da presidente Roussef, revelaram-se uma coisa só.

Àquela altura, os roteiristas estavar seguros de que a infra-estrutura social para a mudança de regime já havia produzido uma massa crítica anti-governo, permitindo assim o pleno florescimento da revolução colorida. O caminho para um golpe soft estava pavimentado – sem ter sequer de recorrer ao mortal terrorismo urbano (como na Ucrânia). O problema era que, se o golpe soft falhasse – como parece ser pelo menos possível, agora – seria muito difícil desencadear um golpe duro, estilo Pinochet, através da UW, contra a administração sitiada de Roussef; ou seja, executando finalmente a Guerra Híbrida Total.

No nível socioeconômico, a Lava Jato seria um “sucesso” total somente se fosse espelhada por um abrandamento das leis brasileiras que regulam a exploração do petróleo, abrindo-a para as Grandes Petrolíferas dos EUA. Paralelamente, todos os investimentos em programas sociais teriam de ser esmagados.

Ao contrário, o que está acontecendo agora é a mobilização progressiva da sociedade civil brasileira contra o cenário de golpe branco/golpe soft/mudança de regime. Atores cruciais da sociedade brasileira estão se posicionando firmemente contra o impeachment da presidente Rousseff, da igreja católica aos evangélicos; professores universitários do primeiro escalão; ao menos 15 governadores estaduais; massas de trabalhadores sindicalizados e trabalhadores da “economia informal”; artistas; intelectuais de destaque; juristas; a grande maioria dos advogados; e por último, mas não menos importante, o “Brasil profundo” que elegeu Rousseff legalmente, com 54,5 milhões de votos.

A disputa não chegará ao fim até que se ouça o canto de algum homem gordo do Supremo Tribunal Federal. Certo é que os acadêmicos brasileiros independentes já estão lançando as bases para pesquisar a Lava Jato não como uma operação anti-corrupção simples e maciça; mas como estudo de caso final da estratégia geopolítica dos Exceptionalistas, aplicada a um ambiente globalizado sofisticado, dominado por tecnologia da informação e redes sociais. Todo o mundo em desenvolvimento deveria ficar inteiramente alerta – e aprender as relevantes lições, já que o Brasil está fadado a ser visto como último caso da Soft Guerra Híbrida.

* Tradução de Vinícius Gomes Melo e Inês Castilho.

The Heat: What China’s two sessions and 5-year plan mean moving forward pt1

União Jihadi Europeia

Publicado originalmente em 25/03/2016.

Passaram-se quatro meses, antes que Salah Abdeslam – um dos supostos membros do comando que atacou em Paris 13/11– fosse capturado em Bruxelas, depois de um tiroteio. Ele não fugira para a Síria; não arredara pé de sua toca de endereço conhecido em Molenbeek.

Passaram-se apenas quatro dias até desvendar o complô seguinte – um ataque coordenado de jihadistas no aeroporto de Bruxelas e numa estação de metro a 500 metros de distância da sede da União Europeia.

Sob cenário de revide, foi altamente previsível. O ministro de Relações Exteriores da Bélgica Didier Reynders até alertara durante o fim de semana que ataques eram iminentes. Mais preocupante é o vazamento de que os serviços secretos belgas – e as agências de inteligência ocidentais – tinham informação “precisa” sobre o risco de ataque contra o aeroporto e um provável ataque contra o metrô.

Ainda mais significativamente, e antes da prisão de Abdeslam, um passarinho contou a ninguém menos que o sultão neo-otomano Erdogan, governante de um “aliado chave da OTAN”, que “Não há motivo algum pelo qual a bomba que explodiu em Ancara não possa explodir em Bruxelas, em qualquer outra cidade europeia.” Erdogan tentava aí, é claro, traçar uma sórdida falsa conexão entre curdos e salafistas-jihadistas. Mesmo assim soou como se enunciasse um misto de profecia e ameaça.

Schengen: acordo morto-vivo

A Europa mais uma vez foi afogada na mesma velha litania pervertida. Dois irmãos jihadistas suicidas. Um especialista ISIS/ISIL/Daech na fabricação de bombas – que pode ter fabricado os coletes explosivos usados em Paris, carregados com Triperóxido de Triacetona [ing. Triacetone Triperoxide (TATP)]. Um bombardeador de aeroporto foragido, que deixa um testamento no próprio laptop. Um misterioso rifle encontrado próximo dos jihadistas detonados. Nenhum passaporte encontrado – pelo menos, até agora. Mas, sim, em vez de passaporte, encontrou-se uma incriminatória bandeira do ISIS/ISIL/Daech.

Um tsunami de policiais congestionaram as ruas das capitais europeias para “aliviar a ansiedade pública” e “atuar como fator de contenção” – como se esse show de força atuasse para reforçar alguma coisa, além do medo.

O Departamento de Estado dos EUA – para não falhar em seu espetacular recorde de sandices e estupidezes – imediatamente vomitou que o ISIS/ISIL/Daech está “sob pressão”. É possível até que diplomatas norte-americanos tenham dado um telefonema a seu “aliado na OTAN” Erdogan, para quem o falso “Califato” pode, no mínimo, ser aproveitado como agente pré-posicionado e acionável no tabuleiro de xadrez do Oriente Médio.

Vagalhões de políticos da União Europeia babaram as mais oportunas lágrimas de crocodilo sobre os ternos Zegna, lamentando “um ataque contra a Europa democrática” – ataque o qual, vale lembrar, foi perpetrado por cidadãos nascidos e criados na União Europeia, convertidos em transformers jihadistas na guerra feita à distância contra a Síria, e pesadamente apoiados por variados estados-membro da União Europeia.

Índices de audiência para o mais recente show da União Europeia – a selvagem promoção do tal “desafio à segurança” da Fortaleza Europa – saíram pelo telhado. Em mais de uma capital da União Europeia, torres do relógio badalaram em uníssono “celebrando” a demonização dos refugiados e a decapitação do multiculturalismo.

E o Acordo Schengen, que já andava em passo de morto vivo, foi atingido por golpes de serra elétrica e está agora, ora essa, muito mais morto.

O fim do acordo Schengen pode custar à União Europeia coisa como $100 bilhões. Mas a xenofobia e a islamofobia – garantidas a todos sem custo adicional – nunca estiveram tão prósperas.

Fontes da Europol juram que pelo menos 5 mil jihadistas teriam entrado na União Europeia disfarçados de refugiados. Ninguém até agora perguntou: mas se foram tão positivamente identificados, por que ainda não foram presos? Pelo menos 400 deles podem estar prontos para gerar terror por toda a Europa.

Maria Zakharova, porta-voz do ministério de Relações Exteriores da Rússia, escapando agilmente de um caldeirão de desinformação, pelo menos já fez lembrar a todos o triste resultado de uma política de padrões ambíguos (da UE), que faz diferença em terroristas “do bem” (seus “rebeldes moderados”) e “do mal”.

O aeroporto de Bruxelas está a poucos quilômetros de distância do quartel-general da OTAN – cuja suposta missão é manter a segurança da Europa enquanto, na prática, vai atuando como um Robocop, da África à Ásia Central. Os jihadistas, por sua vez, miraram contra um aeroporto suposto de segurança máxima e uma estação de Metrô da qual se vai a pé, facilmente, até Barlaymont, quartel-general da Comissão Europeia (CE). Poderiam igualmente ter planejado atacar duas usinas nucleares em Doel e Tihange.

O fato de o ISIS/ISIL/Daech estar explodindo cidadãos da União Europeia e de muitas outras nacionalidades bem debaixo dos narizes da OTAN tem, necessariamente, de erguer sobrancelhas de desconfiança. Sobretudo se se sabe que, para a OTAN e sua lamentável galeria de Drs. Fantásticos, Breedloves/Breed-ódios [aprox. “gera-amores/gera-ódios”], o “inimigo” não é o salafismo-jihadismo, mas a Rússia “do mal”.

Que tal uma Responsabilidade de Proteger (R2P) para a Europa?

É sempre iluminador examinar como a Think-Tank-elândia está lendo a cena. Depois de Paris, houve muitos elogios entusiásticos, quando a França declarou-se “em guerra”, ampliou a própria “atividade militar” no Oriente Médio e fez aprovar uma “Lei Patriota” à francesa, destinada a continuar vigente por muito tempo.

Agora, os pensadores do Excepcionalistão estão inconformados, porque a União Europeia não tem exército (na verdade, tem: o exército da OTAN) e, assim sendo, “não tem como reagir” ao que batizaram de “9/11 belga”. É claro que a OTAN pode “reagir”: pode marchar sobre o ISIS/ISIL/Daech em todo o “Siriaque” invocando a “Responsabilidade de Proteger”, nesse caso centenas de milhões de civis na União Europeia). Mas essa não é nem algum dia foi prioridade.

Pôr a culpa toda na Bélgica, que seria estado falhado, é fácil demais. É parte do quebra cabeça, mas não é o xis da questão.

Esperem agora que os “líderes” da União Europeia reúnam-se para fazer alguma coisa, qualquer coisa, sobre/para/contra o ISIS/ISIL/Daech. Talvez lhes oferecer – ou deixarem-se humilhar por – um acordo do tipo do acordo (ilegal, nos termos da lei internacional) que firmaram recentemente com Erdogan seu “aliado na OTAN”, e que ameaça imigrantes como se fossem peça de mercadoria barata e passa por cima de incontáveis barreiras logísticas e legais.

Imediatamente em sequência, com os mortos de Bruxelas ainda insepultos, o primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu mais uma vez ‘exige’ uma “zona segura” na Síria – e onde mais seria? –, insistindo em que a segurança da Europa começa pela Turquia.

A crise dos refugiados da Europa também começou pela Turquia: foi Ancara quem os expulsou em massa, para começar, dos campos turcos de contenção. Questão legítima é se Ancara teria colhões para inundar a Europa sob ondas de refugiados, se não tivesse luz verde de Washington. Nesse caso, a ‘justificativa’ seria meter a Turquia à força, dentro da União Europeia – é a cláusula de Erdogan, de que as negociações nessa direção sejam aceleradas – para reforçar o status anti-Rússia da própria UE.

A União Europeia sempre pode oferecer ao ISIS/ISIL/Daech um negócio do tipo “Vocês não nos bombardeiam aqui na Europa, e nós não bombardeamos vocês no Siriaque”. Mas, calma! Esse acordo (informal) já existe e está operante, via a coalizão CCG-OTAN liderada pelos EUA.

Que ninguém espere que os políticos da União Europeia liguem os pontos e vejam que a guerra clandestina da União Europeia contra a Síria – especialmente mediante o fornecimento de armas, por Grã-Bretanha e França, a legiões de “rebeldes moderados” – está gerando o correspondente revide. Esperem só o inferno de “segurança” reforçada nos aeroportos servido com garrafas de Perrier.

Já é hoje mais do que estabelecido que que houve em Washington uma “decisão desejante” [ing. willful decision], de deixar ISIS/ISIL/Daech – que nasceu em Camp Bacca, prisão norte-americana no Iraque – crescer e prosperar. O aeroporto de Bruxelas estava em nível absolutamente máximo de segurança. Uma célula salafista-jihadista conseguiu escapar de uma monumental caçada policial por toda a cidade de Bruxelas, por quatro meses.

Um gambito da Operação Gladio – conduzida por CIA/OTAN, exatamente como nos velhos tempos – ainda é hipótese de trabalho muito sólida. A Operação Gladio implantou na inteligência ocidental um princípio inamovível de inteligência, pelo qual se justificaria matar civis, em nome de causa superior.

Deter e fazer regredir a cooperação econômica/comercial entre Rússia e Europa ainda é objetivo chave do Excepcionalistão. O que nos leva a uma subtrama: a mídia-empresa comercial ocidental continuará a bater na tecla [ou no gatilho] segundo o qual todos aqueles horríveis “muçulmanos” sapateiam sobre “nossos valores” – enquanto na Rússia, claro, cada vez que o terror ataca, a culta é toda de Putin por causa de seu “autoritarismo e violência” no norte do Cáucaso.

Em ambiente de Gladio do século 21, ataques sob bandeira falsa que levam à subversão da democracia por uma estratégia de tensão crescente servem agora a mais um objetivo: controlar e manipular a opinião pública europeia – pelo medo, pelo terrorismo e por agentes provocadores (ISIS/ISIL/Daech encaixam-se perfeitamente nesse quadro) –, para o objetivo orwelliano final de manter a Europa pressionada e submissa aos imperativos geopolíticos do Excepcionalistão.

O objetivo orwelliano sempre é reinar sobre uma Sociedade do Medo. Pelo menos, todos já sabemos que os bandidos do falso “Califato” nunca se darão o trabalho de atacar a OTAN, autodescrita como defensora dos “valores” da Europa. É ou não é?

Fonte original: Sputnik news

Fonte Traduzida: O empastelador