Impeachment de Dilma Rousseff : Entrevista com o jornalista Pepe Escobar

Pepe Escobar: “The Next War”

CrossTalk: Brazilian Coup?

Entenda a crise política no Brasil por uma perspectiva geopolítica. Pepe Escobar: “O Brasil no epicentro da ‘Guerra Híbrida'”

Chess-World-1.jpg

Por Pepe Escobar, no site Outras Palavras:

Revoluções coloridas nunca são demais. Os Estados Unidos, ou o Excepcionalistão, estão sempre atrás de atualizações de suas estratégias para perpetuar a hegemonia do seu Império do Caos.

A matriz ideológica e o modus operandi das revoluções coloridas já são, a essa altura, de domínio público. Nem tanto, ainda, o conceito de Guerra Não-Convencional (UW, na sigla em inglês).

Esse conceito surgiu em 2010, derivado do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais. Eis a citação-chave: “O objetivo dos esforços dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […] Num futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês)”.

Potências hostis” são entendidas aqui não apenas no sentido militar; qualquer país que ouse desafiar um fundamento da “ordem” mundial centrada em Washington pode ser rotulado como “hostil” – do Sudão à Argentina.

As ligações perigosas entre as revoluções coloridas e o conceito de Guerra Não-Convencional já desabrocharam, transformando-se em Guerra Híbrida; caso perverso de Flores do Mal. Revolução colorida nada mais é que o primeiro estágio daquilo que se tornará a Guerra Híbrida. E Guerra Híbrida pode ser interpretada essencialmente como a Teoria do Caos armada – um conceito absoluto queridinho dos militares norte-americanos (“a política é a continuidade da guerra por meios linguísticos”). Meu livro Império do Caos, de 2014, trata essencialmente de rastrear uma miríade de suas ramificações.

Essa bem fundamentada tese em três partes esclarece o objetivo central por trás de uma Guerra Híbrida em larga escala: “destruir projetos conectados transnacionais multipolares por meio de conflitos provocados externamente (étnicos, religiosos, políticos etc.) dentro de um país alvo”.

Os países do BRICS (Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul) – uma sigla/conceito amaldiçoada no eixo Casa Branca-Wall Street – só tinham de ser os primeiros alvos da Guerra Híbrida. Por uma miríade de razões, entre elas: o plano de realizar comércio e negócios em suas próprias moedas, evitando o dólar norte-americano; a criação do banco de desenvolvimento dos BRICS; a declarada intenção de aumentar a integração na Eurásia, simbolizada pela hoje convergente “Rota da Seda”, liderada pela China – Um Cinturão, Uma Estrada (OBOR, na sigla em inglês), na terminologia oficial – e pela União Econômica da Eurásia, liderada pela Rússia (EEU, na sigla em inglês).

Isso implica em que, mais cedo do que tarde, a Guerra Híbrida atingirá a Ásia Central; o Quirguistão é o candidato ideal a primeiro laboratório para as experiências tipo revolução colorida dos Estados Unidos, ou o Excepcionalistão.

No estágio atual, a Guerra Híbrida está muito ativa nas fronteiras ocidentais da Rússia (Ucrânia), mas ainda embrionária em Xinjiang, oeste longínquo da China, que Pequim microgerencia como um falcão. A Guerra Híbrida também já está sendo aplicada para evitar o estratagema da construção de um oleoduto crucial, a construção do Ramo da Turquia. E será também totalmente aplicada para interromper a Rota da Seda nos Bálcãs – vital para a integração comercial da China com a Europa Oriental.

Uma vez que os BRICS são a única e verdadeira força em contraposição ao Excepcionalistão, foi necessário desenvolver uma estratégia para cada um de seus principais personagens. O jogo foi pesado contra a Rússia – de sanções à completa demonização, passando por um ataque frontal a sua moeda, uma guerra de preços do petróleo e até mesmo uma (patética) tentativa de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou. Para um membro mais fraco dos BRICS foi preciso utilizar uma estratégia mais sutil, o que nos leva à complexidade da Guerra Híbrida aplicada à atual, maciça desestabilização política e econômica do Brasil.

No manual da Guerra Híbrida, a percepção da influência de uma vasta “classe média não-engajada” é essencial para chegar ao sucesso, de forma que esses não-engajados tornem-se, mais cedo ou mais tarde, contrários a seus líderes políticos. O processo inclui tudo, de “apoio à insurgência” (como na Síria) a “ampliação do descontentamento por meio de propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo” (como no Brasil). E conforme cresce a insurreição, cresce também a “intensificação da propaganda; e a preparação psicológica da população para a rebelião.” Esse, em resumo, tem sido o caso brasileiro.

Precisamos do nosso próprio Saddam

Um dos maiores objetivos estratégicos do Excepcionalistão é em geral um mix de revolução colorida e Guerra Híbrida. Mas a sociedade brasileira e sua vibrante democracia eram muito sofisticadas para métodos tipo hard, tais como sanções ou a “responsabilidade de proteger” (R2P, na sigla em inglês).

Não por acaso, São Paulo tornou-seo epicentro da Guerra Híbrida contra o Brasil. Capital do estado mais rico do Brasil e também capital econômico-financeira da América Latina, São Paulo é o nódulo central de uma estrutura de poder interconectada nacional e internacionalmente.

O sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil.

A “Primavera Brasileira” foi virtualmente invisível, no início, um fenômeno exclusivo das mídias sociais – tal qual a Síria, no começo de 2011.

Foi quando, em junho de 2013, Edward Snowden revelou as famosas práticas de espionagem da NSA. No Brasil, a questão era espionar a Petrobras. E então, num passe de mágica, um juiz regional de primeira instância, Sérgio Moro, com base numa única fonte – um doleiro, operador de câmbio no mercado negro – teve acesso a um grande volume de documentos sobre a Petrobras. Até o momento, a investigação de dois anos da Lava Jato não revelou como eles conseguiram saber tanto sobre o que chamaram de “célula criminosa” que agia dentro da Petrobras.

O importante é que o modus operandi da revolução colorida – a luta contra a corrupção e “em defesa da democracia” – já estava sendo colocada em prática. Aquele era o primeiro passo da Guerra Híbrida.

Como cunhado pelos Excepcionalistas, há “bons” e “maus” terroristas causando estragos em toda a “Siraq”; no Brasil há uma explosão das figuras do corrupto “bom” e do corrupto “ruim”.

O Wikileaks revelou também como os Excepcionalistas duvidaram da capacidade do Brasil de projetar um submarino nuclear – uma questão de segurança nacional. Como a construtora Odebrecht tornava-se global. Como a Petrobras desenvolveu, por conta própria, a tecnologia para explorar depósitos do pré sal – a maior descoberta de petróleo deste jovem século 21, da qual as Grandes Petrolíferas dos EUA foram excluidas por ninguém menos que Lula.

Então, como resultado das revelações de Snowden, a administração Roussef exigiu que todas as agências do governo usassem empresas estatais em seus serviços de tecnologia. Isso poderia significar que as companhias norte-americanas perderiam até US$ 35 bilhões de receita em dois anos, ao ser excluídos de negociar na 7ª maior economia do mundo – como descobriu o grupo de pesquisa Fundação para a Informação, Tecnologia & Inovação (Information Technology & Innovation Foundation).

O futuro acontece agora

A marcha em direção à Guerra Híbrida no Brasil teve pouco a ver com as tendências políticas de direita ou esquerda. Foi basicamente sobre a mobilização de algumas famílias ultra ricas que governam de fato o país; da compra de grandes parcelas do Congresso; do controle dos meios de comunicação; do comportamento de donos de escravos do século 19 (a escravidão ainda permeia todas as relações sociais no Brasil); e de legitimar tudo isso por meio de uma robusta, embora espúria tradição intelectual.

Eles dariam o sinal para a mobilização da classe média. O sociólogo Jesse de Souza identificou uma freudiana “gratificação substitutiva”, fenômeno pelo qual a classe média brasileira – grande parte da qual clama agora pela mudança do regime – imita os poucos ultra ricos, embora seja impiedosamente explorada por eles, através de um monte de impostos e altíssimas taxas de juros.

Os 0,0001% ultra ricos e as classes médias precisavam de um Outro para demonizar – no estilo Excepcionalista. E nada poderia ser mais perfeito para o velho complexo da elite judicial-policial-midiática do que a figura de um Saddam Hussein tropical: o ex-presidente Lula.

“Movimentos” de ultra direita financiados pelos nefastos Irmãos Kock pipocaram repentinamente nas redes sociais e nos protestos de rua. O procurador geral de justiça do Brasil visitou o Império do Caos chefiando uma equipe da Lava Jato para distribuir informações sobre a Petrobras que poderiam sustentar acusações do Ministério da Justiça. A Lava Jato e o – imensamente corrupto – Congresso brasileiro, que irá agora deliberar sobre o possível impeachment da presidente Roussef, revelaram-se uma coisa só.

Àquela altura, os roteiristas estavar seguros de que a infra-estrutura social para a mudança de regime já havia produzido uma massa crítica anti-governo, permitindo assim o pleno florescimento da revolução colorida. O caminho para um golpe soft estava pavimentado – sem ter sequer de recorrer ao mortal terrorismo urbano (como na Ucrânia). O problema era que, se o golpe soft falhasse – como parece ser pelo menos possível, agora – seria muito difícil desencadear um golpe duro, estilo Pinochet, através da UW, contra a administração sitiada de Roussef; ou seja, executando finalmente a Guerra Híbrida Total.

No nível socioeconômico, a Lava Jato seria um “sucesso” total somente se fosse espelhada por um abrandamento das leis brasileiras que regulam a exploração do petróleo, abrindo-a para as Grandes Petrolíferas dos EUA. Paralelamente, todos os investimentos em programas sociais teriam de ser esmagados.

Ao contrário, o que está acontecendo agora é a mobilização progressiva da sociedade civil brasileira contra o cenário de golpe branco/golpe soft/mudança de regime. Atores cruciais da sociedade brasileira estão se posicionando firmemente contra o impeachment da presidente Rousseff, da igreja católica aos evangélicos; professores universitários do primeiro escalão; ao menos 15 governadores estaduais; massas de trabalhadores sindicalizados e trabalhadores da “economia informal”; artistas; intelectuais de destaque; juristas; a grande maioria dos advogados; e por último, mas não menos importante, o “Brasil profundo” que elegeu Rousseff legalmente, com 54,5 milhões de votos.

A disputa não chegará ao fim até que se ouça o canto de algum homem gordo do Supremo Tribunal Federal. Certo é que os acadêmicos brasileiros independentes já estão lançando as bases para pesquisar a Lava Jato não como uma operação anti-corrupção simples e maciça; mas como estudo de caso final da estratégia geopolítica dos Exceptionalistas, aplicada a um ambiente globalizado sofisticado, dominado por tecnologia da informação e redes sociais. Todo o mundo em desenvolvimento deveria ficar inteiramente alerta – e aprender as relevantes lições, já que o Brasil está fadado a ser visto como último caso da Soft Guerra Híbrida.

* Tradução de Vinícius Gomes Melo e Inês Castilho.

The Heat: What China’s two sessions and 5-year plan mean moving forward pt1

União Jihadi Europeia

Publicado originalmente em 25/03/2016.

Passaram-se quatro meses, antes que Salah Abdeslam – um dos supostos membros do comando que atacou em Paris 13/11– fosse capturado em Bruxelas, depois de um tiroteio. Ele não fugira para a Síria; não arredara pé de sua toca de endereço conhecido em Molenbeek.

Passaram-se apenas quatro dias até desvendar o complô seguinte – um ataque coordenado de jihadistas no aeroporto de Bruxelas e numa estação de metro a 500 metros de distância da sede da União Europeia.

Sob cenário de revide, foi altamente previsível. O ministro de Relações Exteriores da Bélgica Didier Reynders até alertara durante o fim de semana que ataques eram iminentes. Mais preocupante é o vazamento de que os serviços secretos belgas – e as agências de inteligência ocidentais – tinham informação “precisa” sobre o risco de ataque contra o aeroporto e um provável ataque contra o metrô.

Ainda mais significativamente, e antes da prisão de Abdeslam, um passarinho contou a ninguém menos que o sultão neo-otomano Erdogan, governante de um “aliado chave da OTAN”, que “Não há motivo algum pelo qual a bomba que explodiu em Ancara não possa explodir em Bruxelas, em qualquer outra cidade europeia.” Erdogan tentava aí, é claro, traçar uma sórdida falsa conexão entre curdos e salafistas-jihadistas. Mesmo assim soou como se enunciasse um misto de profecia e ameaça.

Schengen: acordo morto-vivo

A Europa mais uma vez foi afogada na mesma velha litania pervertida. Dois irmãos jihadistas suicidas. Um especialista ISIS/ISIL/Daech na fabricação de bombas – que pode ter fabricado os coletes explosivos usados em Paris, carregados com Triperóxido de Triacetona [ing. Triacetone Triperoxide (TATP)]. Um bombardeador de aeroporto foragido, que deixa um testamento no próprio laptop. Um misterioso rifle encontrado próximo dos jihadistas detonados. Nenhum passaporte encontrado – pelo menos, até agora. Mas, sim, em vez de passaporte, encontrou-se uma incriminatória bandeira do ISIS/ISIL/Daech.

Um tsunami de policiais congestionaram as ruas das capitais europeias para “aliviar a ansiedade pública” e “atuar como fator de contenção” – como se esse show de força atuasse para reforçar alguma coisa, além do medo.

O Departamento de Estado dos EUA – para não falhar em seu espetacular recorde de sandices e estupidezes – imediatamente vomitou que o ISIS/ISIL/Daech está “sob pressão”. É possível até que diplomatas norte-americanos tenham dado um telefonema a seu “aliado na OTAN” Erdogan, para quem o falso “Califato” pode, no mínimo, ser aproveitado como agente pré-posicionado e acionável no tabuleiro de xadrez do Oriente Médio.

Vagalhões de políticos da União Europeia babaram as mais oportunas lágrimas de crocodilo sobre os ternos Zegna, lamentando “um ataque contra a Europa democrática” – ataque o qual, vale lembrar, foi perpetrado por cidadãos nascidos e criados na União Europeia, convertidos em transformers jihadistas na guerra feita à distância contra a Síria, e pesadamente apoiados por variados estados-membro da União Europeia.

Índices de audiência para o mais recente show da União Europeia – a selvagem promoção do tal “desafio à segurança” da Fortaleza Europa – saíram pelo telhado. Em mais de uma capital da União Europeia, torres do relógio badalaram em uníssono “celebrando” a demonização dos refugiados e a decapitação do multiculturalismo.

E o Acordo Schengen, que já andava em passo de morto vivo, foi atingido por golpes de serra elétrica e está agora, ora essa, muito mais morto.

O fim do acordo Schengen pode custar à União Europeia coisa como $100 bilhões. Mas a xenofobia e a islamofobia – garantidas a todos sem custo adicional – nunca estiveram tão prósperas.

Fontes da Europol juram que pelo menos 5 mil jihadistas teriam entrado na União Europeia disfarçados de refugiados. Ninguém até agora perguntou: mas se foram tão positivamente identificados, por que ainda não foram presos? Pelo menos 400 deles podem estar prontos para gerar terror por toda a Europa.

Maria Zakharova, porta-voz do ministério de Relações Exteriores da Rússia, escapando agilmente de um caldeirão de desinformação, pelo menos já fez lembrar a todos o triste resultado de uma política de padrões ambíguos (da UE), que faz diferença em terroristas “do bem” (seus “rebeldes moderados”) e “do mal”.

O aeroporto de Bruxelas está a poucos quilômetros de distância do quartel-general da OTAN – cuja suposta missão é manter a segurança da Europa enquanto, na prática, vai atuando como um Robocop, da África à Ásia Central. Os jihadistas, por sua vez, miraram contra um aeroporto suposto de segurança máxima e uma estação de Metrô da qual se vai a pé, facilmente, até Barlaymont, quartel-general da Comissão Europeia (CE). Poderiam igualmente ter planejado atacar duas usinas nucleares em Doel e Tihange.

O fato de o ISIS/ISIL/Daech estar explodindo cidadãos da União Europeia e de muitas outras nacionalidades bem debaixo dos narizes da OTAN tem, necessariamente, de erguer sobrancelhas de desconfiança. Sobretudo se se sabe que, para a OTAN e sua lamentável galeria de Drs. Fantásticos, Breedloves/Breed-ódios [aprox. “gera-amores/gera-ódios”], o “inimigo” não é o salafismo-jihadismo, mas a Rússia “do mal”.

Que tal uma Responsabilidade de Proteger (R2P) para a Europa?

É sempre iluminador examinar como a Think-Tank-elândia está lendo a cena. Depois de Paris, houve muitos elogios entusiásticos, quando a França declarou-se “em guerra”, ampliou a própria “atividade militar” no Oriente Médio e fez aprovar uma “Lei Patriota” à francesa, destinada a continuar vigente por muito tempo.

Agora, os pensadores do Excepcionalistão estão inconformados, porque a União Europeia não tem exército (na verdade, tem: o exército da OTAN) e, assim sendo, “não tem como reagir” ao que batizaram de “9/11 belga”. É claro que a OTAN pode “reagir”: pode marchar sobre o ISIS/ISIL/Daech em todo o “Siriaque” invocando a “Responsabilidade de Proteger”, nesse caso centenas de milhões de civis na União Europeia). Mas essa não é nem algum dia foi prioridade.

Pôr a culpa toda na Bélgica, que seria estado falhado, é fácil demais. É parte do quebra cabeça, mas não é o xis da questão.

Esperem agora que os “líderes” da União Europeia reúnam-se para fazer alguma coisa, qualquer coisa, sobre/para/contra o ISIS/ISIL/Daech. Talvez lhes oferecer – ou deixarem-se humilhar por – um acordo do tipo do acordo (ilegal, nos termos da lei internacional) que firmaram recentemente com Erdogan seu “aliado na OTAN”, e que ameaça imigrantes como se fossem peça de mercadoria barata e passa por cima de incontáveis barreiras logísticas e legais.

Imediatamente em sequência, com os mortos de Bruxelas ainda insepultos, o primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu mais uma vez ‘exige’ uma “zona segura” na Síria – e onde mais seria? –, insistindo em que a segurança da Europa começa pela Turquia.

A crise dos refugiados da Europa também começou pela Turquia: foi Ancara quem os expulsou em massa, para começar, dos campos turcos de contenção. Questão legítima é se Ancara teria colhões para inundar a Europa sob ondas de refugiados, se não tivesse luz verde de Washington. Nesse caso, a ‘justificativa’ seria meter a Turquia à força, dentro da União Europeia – é a cláusula de Erdogan, de que as negociações nessa direção sejam aceleradas – para reforçar o status anti-Rússia da própria UE.

A União Europeia sempre pode oferecer ao ISIS/ISIL/Daech um negócio do tipo “Vocês não nos bombardeiam aqui na Europa, e nós não bombardeamos vocês no Siriaque”. Mas, calma! Esse acordo (informal) já existe e está operante, via a coalizão CCG-OTAN liderada pelos EUA.

Que ninguém espere que os políticos da União Europeia liguem os pontos e vejam que a guerra clandestina da União Europeia contra a Síria – especialmente mediante o fornecimento de armas, por Grã-Bretanha e França, a legiões de “rebeldes moderados” – está gerando o correspondente revide. Esperem só o inferno de “segurança” reforçada nos aeroportos servido com garrafas de Perrier.

Já é hoje mais do que estabelecido que que houve em Washington uma “decisão desejante” [ing. willful decision], de deixar ISIS/ISIL/Daech – que nasceu em Camp Bacca, prisão norte-americana no Iraque – crescer e prosperar. O aeroporto de Bruxelas estava em nível absolutamente máximo de segurança. Uma célula salafista-jihadista conseguiu escapar de uma monumental caçada policial por toda a cidade de Bruxelas, por quatro meses.

Um gambito da Operação Gladio – conduzida por CIA/OTAN, exatamente como nos velhos tempos – ainda é hipótese de trabalho muito sólida. A Operação Gladio implantou na inteligência ocidental um princípio inamovível de inteligência, pelo qual se justificaria matar civis, em nome de causa superior.

Deter e fazer regredir a cooperação econômica/comercial entre Rússia e Europa ainda é objetivo chave do Excepcionalistão. O que nos leva a uma subtrama: a mídia-empresa comercial ocidental continuará a bater na tecla [ou no gatilho] segundo o qual todos aqueles horríveis “muçulmanos” sapateiam sobre “nossos valores” – enquanto na Rússia, claro, cada vez que o terror ataca, a culta é toda de Putin por causa de seu “autoritarismo e violência” no norte do Cáucaso.

Em ambiente de Gladio do século 21, ataques sob bandeira falsa que levam à subversão da democracia por uma estratégia de tensão crescente servem agora a mais um objetivo: controlar e manipular a opinião pública europeia – pelo medo, pelo terrorismo e por agentes provocadores (ISIS/ISIL/Daech encaixam-se perfeitamente nesse quadro) –, para o objetivo orwelliano final de manter a Europa pressionada e submissa aos imperativos geopolíticos do Excepcionalistão.

O objetivo orwelliano sempre é reinar sobre uma Sociedade do Medo. Pelo menos, todos já sabemos que os bandidos do falso “Califato” nunca se darão o trabalho de atacar a OTAN, autodescrita como defensora dos “valores” da Europa. É ou não é?

Fonte original: Sputnik news

Fonte Traduzida: O empastelador

Pepe Escobar: A luta é de vida ou morte (porque Lula é BRICS)

brics-01041-paresh-nath-humor-politico-internacional.jpg
8/3/2016,
Pepe Escobar, RT

“BRICS” é a sigla mais amaldiçoada no eixo av. Beltway [onde ficam várias instituições do governo dos EUA em Washington]-Wall Street, e por razão de peso: a consolidação dos BRICS é o único projeto orgânico, de alcance global, com potencial para afrouxar a garra que o Excepcionalistão mantém apertada no pescoço da chamada “comunidade internacional”.

Assim sendo, não é surpresa que as três potências chaves dos BRICS estejam sendo atacadas simultaneamente, em várias frentes, já faz algum tempo. Contra a Rússia, a questão é a Ucrânia e a Síria, a guerra do preço do petróleo, o ataque furioso contra o rublo e a demonização ininterrupta da tal “agressão russa”. Contra a China, a coisa é uma dita “agressão chinesa” no Mar do Sul da China e o (fracassado) ataque às Bolsas de Shanghai/Shenzhen.

O Brasil é o elo mais fraco dessas três potências emergências crucialmente importantes. Já no final de 2014 era visível que os suspeitos de sempre fariam qualquer coisa para desestabilizar a sétima maior economia do mundo, visando a uma boa velha ‘mudança de regime’. Para tanto criaram um coquetel político-conceitual tóxico (“ingovernabilidade”), a ser usado para jogar de cara na lama toda a economia brasileira.

Há incontáveis razões para o golpe, dentre elas: a consolidação do Banco de Desenvolvimento dos BRICS; o impulso concertado entre os países BRICS para negociarem nas respectivas moedas, deixando de lado o dólar norte-americano e visando a construir outra moeda global de reserva que tome o lugar do dólar; a construção de um cabo submarino gigante de telecomunicações por fibra ótica que conecta Brasil e Europa, além do cabo BRICS, que une a América do Sul ao Leste da Ásia – ambos fora de qualquer controle pelos EUA.

E acima de tudo, como sempre, o desejo pervertido obcecado do Excepcionalistão: privatizar a imensa riqueza natural do Brasil. Mais uma vez, é o petróleo.

Peguem esse Lula, ou…

WikiLeaks Já expôs há muito tempo, em 2009, o quanto o Big Oilestava ativo no Brasil, tentando modificar, servindo-se de todos os meios de extorsão, uma lei proposta pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido também como Lula, que estabelece que a estatal Petrobrás (lucrativa) será a única operadora de todas as bacias de petróleo no mar, da mais importante descoberta de petróleo desse jovem século 21: as reservas de petróleo do pré-sal.

Lula não só deixou à distância o Big Oil – especialmente ExxonMobil e Chevron –, mas também abriu a exploração do petróleo no Brasil à Sinopec chinesa – parte da parceria estratégica Brasil-China (BRICS dentro de BRICS).

O inferno não conhece fúria maior que a do Excepcionalistão descartado. Como a Máfia, o Excepcionalistão nunca esquece; mais dia menos dia Lula teria de pagar, como Putin tem de pagar por ter-se livrado dos oligarcas cleptocratas amigos dos EUA.

A bola começou a rolar quando Edward Snowden revelou que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (ing. NSA) andava espionando a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, e vários altos funcionários da Petrobrás. Continuou com o fato de que a Polícia Federal do Brasil coopera, recebe treinamento e/ou são controladas de perto por ambos, o FBI e a CIA (sobretudo na esfera do antiterrorismo). E prosseguiu via os dois anos de investigações da Operação Car Wash, que revelou vasta rede de corrupção que envolve atores dentro da Petrobrás, as maiores empresas construtoras brasileiras e políticos do partido governante Workers’ Party.

A rede de corrupção parece ser real – mas com “provas” quase sempre exclusivamente orais, sem nenhum tipo de comprovação documental, e obtidas de trapaceiros conhecidos e/ou neomentirosos seriais que acusam qualquer um de qualquer coisa em troca de redução na própria pena.

Mas para os Procuradores encarregados da Operação Car Wash, o verdadeiro negócio sempre foi, desde o início, como envolver Lula em fosse o que fosse.

Entra o neo-Elliott Ness tropical

Chega-se assim à encenação espetacularizada, à moda Hollywood, na 6ª-feira passada em São Paulo, que disparou ondas de choque por todo o planeta. Lula “detido”, interrogado, humilhado em público (comentei esses eventos em “Terremoto no Brasil”).

O Plano A na blitz à moda Hollywood contra Lula era ambicioso movimento para subir as apostas; não só se pavimentaria o caminho para o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (q seria declarada “culpada por associação”), como, também, já se neutralizaria Lula, impedindo-o de candidatar-se à presidência em 2018. E não havia Plano B.

Como não seria difícil prever que aconteceria – e acontece muito nas ‘montagens’ do FBI – toda a ‘operação’ saiu pela culatra.

Lula, em discurso-aula, master class em matéria de discurso político, reproduzido ao vivo por todo o país pela internet, não só se consagrou como mártir de uma conspiração ignóbil, mas, mais que isso, energizou suas tropas de massa. Até respeitáveis vozes conservadoras condenaram o show à moda Hollywood, de um ministro da Suprema Corte a um ex-ministro da Justiça, que serviu a governo anterior aos doWorkers’ Party, além do conhecido professor e economista Bresser Pereira (um dos fundadores do PSDB, que nasceu como partido da social-democracia do Brasil, mas virou a casaca e é hoje defensor das políticas neoliberais do Excepcionalistão e lidera a oposição de direita).

Bresser disse claramente que a Suprema Corte deveria intervir na Operação Car Wash para impedir novos abusos. Os advogados de Lula, por sua vez, requereram à Suprema Corte que detalhasse a jurisprudência que embasaria as acusações assacadas contra Lula. Mais que isso, um advogado que teve papel de destaque na blitz hollywoodiana disse que Lula respondeu a tudo que lhe foi perguntado durante o interrogatório de quase quatro horas, sem piscar – eram as mesmas perguntas que já lhe haviam sido feitas antes.

O professor e advogado Celso Bandeira de Mello, por sua vez, foi diretamente ao ponto: as classes médias altas no Brasil – nas quais se reúnem quantidades estupefacientes de arrogância, ignorância e preconceito, e cujo maior sonho de toda uma vida é alcançar um apartamento em Miami – estão apavoradas, mortas de medo de que Lula volte a concorrer à presidência – e vença – em 2018.

E isso nos leva afinal ao juiz mandante e carrasco executor de toda a cena: Sergio Moro, protagonista de “Operação Car Wash“.

Ninguém em sã consciência dirá que Moro teve carreira acadêmica da qual alguém se orgulharia. Não é de modo nenhum teoricista peso pesado. Formou-se advogado em 1995 numa universidade medíocre de um dos estados do sul do Brasil e fez algumas viagens aos EUA, uma das quais paga pelo Departamento de Estado, para aprender sobre lavagem de dinheiro.

Como já comentei, a chef-d’oeuvre da produção intelectual de Moro é artigo antigo, de 2004, publicado numa revista obscura, nos idos de 2004 (“Considerações sobre Mãos Limpas”, revista CEJ, n. 26, Julho-Set. 2004), no qual claramente prega a “subversão autoritária da ordem judicial para alcançar alvos específicos” e o uso dos veículos de mídia para envenenar a atmosfera política.

Quer dizer, o juiz Moro literalmente transpôs a famosa operação da Justiça italiana de 1990s Mani Pulite (“Mãos Limpas”) da Itália para o seu próprio gabinete – e pôs-se a instrumentalizar os veículos da grande mídia brasileira e o próprio judiciário, para alcançar uma espécie de “deslegitimação total” do sistema político. Mas não quer deslegitimar todo o sistema político: só quer deslegitimar o Workers’ Party, como se as elites comprador que povoam todo o espectro da direita no Brasil fossem querubins.

Assim sendo, não surpreende que Moro tenha contado com a companhia solidária, enquanto se desenrolava a Operação Car Wash, do oligopólio midiático da família Marinho – o império midiático O Globo–, verdadeiro ninho de reacionários, nenhum deles particularmente inteligente, que mantiveram íntimas relações com a ditadura militar que, no Brasil, durou mais de 20 anos.

Não por acaso, o grupo Globo foi informado sobre a “prisão” hollywoodiana que Moro aplicaria ao presidente Lula antes de a operação começar, e pode providenciar cobertura que efetivamente tudo encobriu, ao estilo CNN.

Moro é visto por muitos no Brasil como um sub Elliot Ness nativo. Advogados que têm acompanhado o trabalho dele dizem que o homem cultiva a imagem de que o Workers’ Party seria uma gangue que viveria a sanguessugar o aparelho do Estado, com vistas a entregar tudo, em cacos, aos ‘sindicatos’.

Segundo um desses advogados, que falou com a mídia independente no Brasil, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Moro é cercado por um punhado de Procuradores fanáticos, com pouco ou nenhum saber jurídico, que fazem pose de Antonio di Pietro (mas sem a solidez do Procurador milanês que trabalhou na Operação Mãos Limpas).

Ainda pior, Moro não dá sinais de preocupar-se com a evidência de que depois que o sistema político italiano implodiu, ali só prosperaram os Berlusconi. No Brasil, certamente se veria a ascensão ao poder de algum palhaço/idiota de bairro, elevado ao trono pela Rede Globo – cujas práticas oligopolistas já são bastante berlusconianas.

Pinochets digitais

Pode-se dizer que a blitz à moda Hollywood contra Lula guarda semelhanças diretas com a primeira tentativa de golpe de Estado no Chile, em 1973, que testou as águas em termos de resposta popular, antes do golpe real. No remix brasileiro, jornalistas globais fazem as vezes de Pinochets digitais. Mas as ruas em São Paulo já mostramgraffiti que dizem “Não vai ter golpe” e “Golpe militar – nunca mais.”

Sim, porque tudo, nesse episódio tem a ver com um golpe branco – sob a forma de impeachment da presidenta Rousseff e com Lula atrás das grades. Mas velhos vícios (militares) são duros de matar: vários jornalistas próximos da Rede Globo e ativos agora na Internet já ‘conclamaram’ os militares a tomar as ruas e “neutralizar” as milícias populares. E isso é só o começo. A direita brasileira está organizando manifestações para o próximo domingo, exigindo – e o que mais exigiriam? – o impeachment da presidenta.

A Operação Car Wash teve o mérito de investigar a corrupção, a colusão e o tráfico de influência no Brasil, país no qual tradicionalmente a corrupção corre solta. Mas todos, todos os políticos e todos os partidos políticos teriam de ser investigados – inclusive e sobretudo – porque em todos os casos esses são corruptos conhecidos há muito tempo! – os representantes das elites comprador brasileiras. A Operação Car Wash não opera igualmente contra todos. Porque o projeto político aliado aos Procuradores do juiz Moro absolutamente não está interessado em fazer “justiça”; a única coisa que interessa a eles é perpetuar uma crise política viciosa, como meio para fazer fracassar a 7ª maior economia do mundo, para, com isso, alcançarem seu Santo Graal: ou aquela velha suja ‘mudança de regime’, ou algum golpe branco.

Mas 2016 não é 1973. Hoje já se sabe quem, no mundo, é doido por golpes para mudar regimes.*****

Fonte: RT