Pepe Escobar: Começam hoje 50 anos de guerra de tarifas? 

Trade-War
6/7/2018, Pepe Escobar, Asia Times

Traduzido pela Vila Vudu

Muito mais que primeiro tiro à meia-noite de hoje do que pode converter-se em terrível guerra comercial, a queda de braços de tarifas entre EUA e China deve ser vista no contexto de grande virada no Grande Quadro geopolítico e econômico.

O jogo de passar adiante as culpas, e todos os tipos de cenários de especulação de como pode evoluir a disputa de tarifas, são questões periféricas. O alvo crucialmente decisivo do que hoje se inicia não é algum “livre comércio” que seria disfuncional; o alvo é o projeto “Made in China 2025” – a China autoconfigurada como usina geradora de alta tecnologia equivalente, ou mesmo superando EUA e UE.

É sempre importante destacar que foi a Alemanha que, na verdade, forneceu o molde para “Made in China 2025”, mediante sua estratégia Indústria 4.0.

“Made in China 2025” tem por alvo 10 campos tecno-estratégicos: tecnologia de informação, incluindo redes 5G e cibersegurança; robótica, aeroespaço; engenharia oceânica; ferrovias para vagões de alta velocidade; veículos movidos a novas energias; equipamento elétrico; maquinaria para agricultura; novos materiais; e biomedicina. 

Para que o projeto “Made in China 2025” dê frutos, Pequim já investiu em cinco centros nacionais de produção de inovações e em 48 centros provinciais, parte de um projeto para chegar a 40 centros nacionais até 2025. E em 2030, via uma estratégia paralela, a China já deverá estar estabelecida também como líder no campo da inteligência artificial (IA).

“O Sonho Chinês”, mantra do presidente Xi Jinping, também conhecido como “o grande rejuvenescimento da nação chinesa”, é estritamente ligado não só a “Made in China 2025”, internamente, mas também, externamente, à Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE), conceito que dá organicidade à política exterior da China para todo o futuro planeável. E os dois tópicos – “Made in China 2025” e ICE – são absolutamente inegociáveis. 

Em agudo contraste, não se vê nem sinal no horizonte de qualquer projeto “Made in USA 2025”. A Casa Branca parece modular todo o processo como uma batalha contra a “agressão econômica dos chineses”. A Estratégia de Segurança Nacional define a China como principal força que desafia o poder dos EUA. A Estratégia de Defesa Nacional do Pentágono vê a China como “concorrente estratégico que usa economia predatória”. E como chegamos a isso?

Inovação ou morte 

E indispensável conhecer um pouco do contexto-cenário.

David Harvey, em O Novo Imperialismo, recorre a The Global Gamble: Washington’s Bid for Global Dominance de P. Gowan, para chamar atenção para o quanto ambos veem “a radical reestruturação do capitalismo internacional depois de 1973 como uma série de jogadas, tentadas pelos EUA, interessados em manter a própria posição hegemônica nos assuntos econômicos mundiais contra Europa, Japão e, depois, contra o Leste e o Sudeste da Ásia”.

Antes de o milênio acabar, Harvey já enfatizava o modo como Wall Street e o Tesouro dos EUA eram operados pelo Estado como “instrumento formidável de governança econômica para impulsionar os processos de globalização e as transformações domésticas neoliberais associadas.”

A China por seu lado jogou magistralmente seu jogo de reorientação do capitalismo – investindo sem meias medidas no que se pode descrever como “neoliberalismo com características chinesas”, e lucrando o máximo possível da projeção de poder econômico dos EUA via mercados abertos e os membros da Organização Mundial de Comércio.

Agora a China, em velocidade alucinante, está finalmente pronta a investir na projeção de seu próprio poder econômico. Como Harvey já observou há mais de uma década, o próximo passo para o capitalismo da Ásia Oriental seria “afastar-se do muito que depende do mercado norte-americano”, rumo ao “cultivo de um mercado interno”.

Harvey descreveu o programa de modernização massiva da China como “uma versão interna de reorientação espaço-temporal equivalente ao que os EUA fizeram internamente nos anos 1950s e 1960s mediante a suburbanização e o desenvolvimento do chamado Cinturão do Sol”. Na sequência, a China estaria “gradualmente drenando o capital excedente do Japão, de Taiwan e da Coreia do Sul e, assim, reduzindo os fluxos para os EUA”. Já está acontecendo.

O presidente Trump não é exatamente o que se diria um estrategista geopolítico. A razão para as novas tarifas pode ser forçar as cadeias de suprimento das empresas norte-americanas a reduzir o muito que dependem, hoje, da China. Mas o modo como a economia global foi montada não aguenta o desmanche dessas cadeias de suprimento – com a produção sendo des-deslocalizada de volta aos EUA, como diz Trump. O local, local, local também rege a lógica do capitalismo turbinado: as empresas sempre privilegiarão a mão de obra mais barata e os menores custos de produção, não importa onde estejam.

Agora, comparem isso à China que investe em deslocalização da alta tecnologia integrada com centros de excelência norte-americanos. No que se trate da cabeça do combate na linha da inovação entre China e EUA, a estratégica do Zhongguancun Development Group (ZDG) é caso fascinante.

O grupo ZDG estabeleceu vários centros de inovação fora da China. O principal Centro ZGC de Inovação está instalado em Santa Clara, Califórnia, bem perto de Stanford e dos campus de Google e Apple. Há agora um novo centro em Boston à distância de um grito de Harvard e do MIT.

Esses centros fornecem o pacote completo – desde laboratórios que são o estado da arte até – fator crucialmente importante – o capital, mediante um fundo de investimento. A matrix vem do governo de Pequim, pelo tecnodistrito da cidade. E nem é preciso dizer que o grupo ZDG está integralmente alinhado com a ICE e a ênfase que jamais é esquecida na expansão, para “aprender a experiência de outros países, de um ecossistema de inovação”

Isso, num microcosmo, é do que trata o projeto “Made in China 2025”.

Meio século de guerra comercial?

Assim sendo, o que acontecerá?

Sob o atual tsunami de histeria, a análise sóbria que nos vem de Li Xiao, decano da Escola de Economia da Universidade Jilin, é mais que bem-vinda.

Li vai logo à jugular. Destaca o quanto “a ascensão da China é, essencialmente, um ganho de status dentro do sistema do dólar.” Do ponto de vista de Pequim, é imperativo mudar, mas a mudança será gradual. “O objetivo da internacionalização do yuan não é substituir o dólar. No curto prazo, o sistema do dólar é insubstituível. Nosso objetivo para o yuan é reduzir o risco e o custo, sob o sistema do dólar.”

Com muito realismo, Li também admite que “o conflito entre as duas maiores potências prosseguirá por, no mínimo, 50 anos, talvez mais. Tudo o que está acontecendo hoje é apenas um show preliminar, antes do espetáculo principal da história.”

Implícita na metáfora do show preliminar, antes do espetáculo principal, é a ideia de que a liderança chinesa parece interpretar o primeiro tiro do tarifaço, à meia-noite de hoje, como um modo de reaquecer o que se lê na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. A conclusão, para Pequim é uma só e inescapável: agora, os EUA começaram a ameaçar o Sonho Chinês.

Dado que o Sonho Chinês, o “rejuvenescimento da nação chinesa”, “Made in China 2025”, a ICE, o multipolarismo e a China como motor da integração da Eurásia são itens absolutamente não negociáveis, não surpreende que o cenário esteja montado para forte, inevitável turbulência.*******

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Pepe Escobar: Copa na Rússia é uma grande vitória de Putin

Pepe Escobar sobre Trump, Kim e Putin

TV 247: De volta do Irã, Pepe Escobar fala sobre programa nuclear, sanções e imperialismo

Pepe Escobar: “Era Putin-Xi superará a (des)ordem liberal ocidental? “

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26/3/2018, Pepe Escobar, in The Vineyard of the Saker  (de Asia Times)

A emenda à Constituição chinesa, que passa a permitir mandatos subsequentes ao presidente Xi Jinping – de modo a que fique no poder por tempo suficiente para promover o “rejuvenescimento nacional” –, combinada às eleições na Rússia que confirmaram Vladimir Putin na presidência, garantiu consistência e continuidade à parceria estratégica Rússia-China até bem entrada a próxima década.

Com isso se facilitam a interação entre a Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) e a União Econômica Eurasiana (UEE); a coordenação política dentro da Organização de Cooperação de Xangai, nos BRICS e no G-20; e o movimento em geral rumo à integração da Eurásia.

O fortalecimento do que se deve ver como a era Putin-Xi só pode estar levando pânico aos liberais ocidentais.

Interesses capitalistas sempre acreditaram na própria narrativa de propaganda, que conecta diretamente a expansão capitalista e alguma inevitável expansão da democracia.

O pensamento crítico está afinal desmascarando, no mínimo, essa mais uma grande ilusão.

O que realmente aconteceu desde o início dos anos 1980s foi que o turbocapitalismo ocidental aproveitou-se avidamente de uma variedade de trabalho neoescravo nas Zonas Especiais Econômicas (ZEEs) da China. Combine isso com a proverbial húbris das elites ocidentais, apostando que a China – vista no melhor dos casos como fonte de trabalho barato – e uma Rússia enfraquecida durante os anos 1990s jamais conseguiriam acumular know-how para desafiar o ocidente, geoeconomicamente e geopoliticamente.

O registro histórico é implacável, mostrando que não há qualquer tipo de conexão entre comércio “livre” – usualmente mais livre para os de maior peso – e liberalização da política. Por exemplo, a monarquia prussiana rebaixou barreiras comerciais, o que levou à criação da Zollverein [união aduaneira de estados germânicos] em 1834. E o Terceiro Reich entre 1933 e 1938 ofereceu mistura perigosa de capitalismo e totalitarismo hardcore.

O sistema da China, onde um partido (marxista) controla o Estado para o objetivo de preservar a coesão nacional, com certeza não pode ser descrito como democracia liberal. O dissidente Minxin Pei, autor de China’s Trapped Transition [aprox. ‘a transição chinesa capturada’ (NTs)], já sabia, há 12 anos que o Partido Comunista Chinês jamais tomaria o rumo da democracia liberal ocidental (Pei tomou ao pé da letra as orientações do Pequeno Timoneiro Deng Xiaoping).

Compreendeu corretamente que a China “não tem interesse em se tornar membro do clube [do ocidente]. Querem os benefícios econômicos da ordem ocidental liberal [infelizmente benefícios sempre pra uns poucos! (NTs)], mas rejeitam os valores políticos [que infelizmente também beneficiam só uns poucos! (NTs)] e temem [com sobejas razões (NTs)] suas alianças de segurança. Hoje, a China está em posição suficientemente forte para construir seu próprio clube.”

Mas Pei concluiu erradamente que o PCC sufocaria o crescimento econômico da China (“O prospecto de uma estagnação semelhante à japonesa é real.”) Xi Jinping e seu novo dream team precisam de tempo suficiente para fazer andar o modelo econômico chinês.

Longe da demonização infantiloide 24h/dia, 7 dias por semana, fato é que a Rússia hoje é uma democracia, embora imperfeita. E é importante analisar como uma jovem democracia está exposta, quase indefesa, para ser manipulada.

O terceiro capítulo do novo livro Manifest-Destiny: Democracy as Cognitive Dissonance [aprox. “Destino Manifesto: democracia como cognição dissonante”*] detalha o estupro da Rússia; como as “reformas de livre mercado” de Boris Yeltsin facilitadas pelos “Harvard boys” permitiram que um pequeno grupo de oligarcas bilionários – Mikhail Khodorkovsky, Boris Berezovsky e Roman Abramovich dentre eles – tomassem posse de uma economia que passava então por terapia de choque.

Entre 1991 e 1997 O PIB russo despencou impressionantes 83%; o investimento na economia caiu 92%.

O caso de Khodorkovsky é emblemático. Através da empresa Yukos, o empresário era dono de campos de petróleo na Sibéria; e estava a um passo de vender tudo a interesses empresariais ocidentais, nos idos de 2003, quando Putin saiu ao seu encalço. Não há dúvida de que o processo foi intensamente estudado pela liderança em Pequim. Controlar interesses nacionais chaves é a derradeira absoluta linha vermelha.

Para Putin, como para Xi, o árbitro supremo é o Estado nacional, não uma gang de oligarcas como começa a virar regra em todo o ocidente liberal e antiliberal. No nível dos BRICS, comparem-se aqueles líderes nacionais e o usurpador que está atualmente instalado na presidência do Brasil, e que faz de tudo para entregar a maior parte que consiga entregar das reservas de petróleo na camada pré-sal do Brasil, além da gigante fabricante de aviões Embraer, a interesses não nacionais brasileiros.

Na dúvida, consulte Confúcio

Já se converteu num ritual para os guardiões do establishment ocidental chorar copiosamente sobre o “fim da ordem mundial liberal”. Alguns pelo menos admitem que, afinal, não é “liberal, nem é mundial, nem é ordem”.

Guardiões de mais baixo escalão podem ser mais realistas, e observar como políticos ocidentais já foram amplamente ultrapassados pela fúria popular em miríades de latitudes, sem deixar de acreditar que seja possível “reconstruir a democracia sobre fundamentos morais”.

Não é. Não, sob o credo neoliberal predominante, esse NHA (“Não Há Alternativa”, ing. TINA,There Is No Alternative“). Os guardiões, à esquerda e à direita, simplesmente não conseguem compreender o crescimento das forças populares – porque os que estejam sob influência das forças populares veem claramente o quanto e como os mitos do “estado de direito” e da “soberania nacional” vão rapidamente dissolvendo-se na lama. Aqueles guardiões, no melhor dos casos, lamentam com nostalgia “a perda da influência que a elite um dia teve”.

China, Rússia, Irã e Turquia – todos esses estados implicados na integração da Eurásia – podem ser classificados como sistemas autoritários em diferentes níveis. E há de haver quem argumente que, com exceção da China, todos esses estados ainda têm desempenho econômico abaixo dos respectivos verdadeiros potenciais.

Mesmo assim, todos esses estados valorizam acima de qualquer outro valor a própria soberania nacional, em sistema multipolar. Esse é o contraponto conceitual que esses estados oferecem à (des)ordem (nada)liberal mundial. Assim esses estados respondem ao NHA/TINA.

Quanto à “perda da influência que a elite um dia teve” é palavra-código para o amancebamento de ricos e poderosos que alardeiam democracias falsamente morais, que só fazem desmascarar o medo profundo que aquelas ‘elites’ sentem de que o momento unipolar do ocidente esteja em rápido processo de dissolução.

Todas essas contradições aparecem muito visíveis, quando se examina a União Europeia. A UE, desde o Tratado de Maastricht, foi manobrada para se tornar o que a própria Angela Merkel definiu como Bundesrepublik Europa – República Federal da Europa.

Quem conheça Bruxelas sabe como aquelas ondas de eurocratas isentos de impostos amamentam um sistema kafkiano de regulação burocraticamente ultracentralizado, ao mesmo tempo em que os próprios eurocratas mantêm-se completamente distantes e sem qualquer contato com europeus reais normais.

A noção da União Europeia como promotora de “integração econômica” incluindo pesadas doses de ‘austeridade’ não pode ser mais antidemocrática.

Acrescentem-se a isso os escândalos nos altos escalões do estado, que nada fazem além de desgastar e corroer a fé na primazia do modelo da democracia liberal ocidental. O mais recente envolve a real possibilidade de que o coronel Gaddafi tenha muito provavelmente financiado a campanha presidencial de Sarkozy em 2007 na França; negócio extraordinariamente sinistro pelo qual se veem as políticas de energia, as política da água, e os proverbiais grandes contratos de compra de armas para os quais as democracias liberais ocidentais descartam completamente qualquer preocupação moral decente.

Agora comparem tudo isso e esses, com Xi Jinping, elevado a hexin lingdao (o núcleo da liderança do PCC), espécie de primus inter pares numa versão sínica da República de Platão. A teoria política do Iluminismo greco-romano já não é o único pôquer que rola na cidade. Mas ainda não se vê qualquer sinal de que o ocidente tomado de húbris comece a aprender com Confúcio.

*****

* A expressão cognitive dissonance (ing.) e dissonance cognitive (fr.) aparece, com o significado que nos interessa aos estudos sociais, com Franz Fanon:

“Às vezes as pessoas têm uma crença central, muito forte. Quando são confrontadas com evidências que operam contra aquela crença, é difícil para elas aceitar a nova evidência. Assim se cria um sentimento extremamente desconfortável, que se chama “cognição dissonante“. E, porque lhes é muito importante proteger a crença central já existente, as pessoas racionalizam, ignoram e até negam qualquer evidência que não se encaixe naquela crença central” [Frantz Fanon, Pele negra, máscaras brancas (1963)].

Em geral a expressão aparece traduzida como “dissonância cognitiva”, que é tradução semanticamente errada, uma contradição em termos: a dissonância semântica entre os conteúdos que o conceito aproxima impede ou, no mínimo, dificulta muito, de fato, qualquer cognição logicamente consistente e produtiva para o pensamento. Tudo isso considerado, parece-nos que a única tradução q faz pleno sentido é “cognição dissonante” [NTs].

Pepe Escobar: “O Brasil no epicentro da Guerra Híbrida” (30/03/2016)

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POR  PEPE ESCOBAR– ON 30/03/2016

Que são, nos manuais norte-americanos, as ações não-convencionais contra “forças hostis” a Washington. A centralidade do Pré-Sal no impeachment. Como os super-ricos cooptam a velha classe média

Por Pepe Escobar | Tradução: Vinícius Gomes Melo e Inês Castilho

Revoluções coloridas nunca são demais. Os Estados Unidos, ou o Excepcionalistão, estão sempre atrás de atualizações de suas estratégias para perpetuar a hegemonia do seu Império do Caos.

A matriz ideológica e o modus operandi das revoluções coloridas já são, a essa altura, de domínio público. Nem tanto, ainda, o conceito de Guerra Não-Convencional (UW, na sigla em inglês).

Esse conceito surgiu em 2010, derivado do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais. Eis a citação-chave: O objetivo dos esforços dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […] Num futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês)”.

Potências hostis” são entendidas aqui não apenas no sentido militar; qualquer país que ouse desafiar um fundamento da “ordem” mundial centrada em Washington pode ser rotulado como “hostil” – do Sudão à Argentina.

As ligações perigosas entre as revoluções coloridas e o conceito de Guerra Não-Convencional já desabrocharam, transformando-se em Guerra Híbrida; caso perverso de Flores do Mal. Revolução colorida nada mais é que o primeiro estágio daquilo que se tornará a Guerra Híbrida. E Guerra Híbrida pode ser interpretada essencialmente como a Teoria do Caos armada – um conceito absoluto queridinho dos militares norte-americanos (“a política é a continuidade da guerra por meios linguísticos”). Meu livro Império do Caos, de 2014, trata essencialmente de rastrear uma miríade de suas ramificações.

Essa bem fundamentada tese em três partes esclarece o objetivo central por trás de uma Guerra Híbrida em larga escala: “destruir projetos conectados transnacionais multipolares por meio de conflitos provocados externamente (étnicos, religiosos, políticos etc.) dentro de um país alvo”.Os países do BRICS (Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul) – uma sigla/conceito amaldiçoada no eixo Casa Branca-Wall Street – só tinham de ser os primeiros alvos da Guerra Híbrida. Por uma miríade de razões, entre elas: o plano de realizar comércio e negócios em suas próprias moedas, evitando o dólar norte-americano; a criação do banco de desenvolvimento dos BRICS; a declarada intenção de aumentar a integração na Eurásia, simbolizada pela hoje convergente “Rota da Seda”, liderada pela China – Um Cinturão, Uma Estrada (OBOR, na sigla em inglês), na terminologia oficial – e pela União Econômica da Eurásia, liderada pela Rússia (EEU, na sigla em inglês).

Isso implica em que, mais cedo do que tarde, a Guerra Híbrida atingirá a Ásia Central; o Quirguistão é o candidato ideal a primeiro laboratório para as experiências tipo revolução colorida dos Estados Unidos, ou o Excepcionalistão.

No estágio atual, a Guerra Híbrida está muito ativa nas fronteiras ocidentais da Rússia (Ucrânia), mas ainda embrionária em Xinjiang, oeste longínquo da China, que Pequim microgerencia como um falcão. A Guerra Híbrida também já está sendo aplicada para evitar o estratagema da construção de um oleoduto crucial, a construção do Ramo da Turquia. E será também totalmente aplicada para interromper a Rota da Seda nos Bálcãs – vital para a integração comercial da China com a Europa Oriental.

Uma vez que os BRICS são a única e verdadeira força em contraposição ao Excepcionalistão, foi necessário desenvolver uma estratégia para cada um de seus principais personagens. O jogo foi pesado contra a Rússiade sanções à completa demonização, passando por um ataque frontal a sua moeda, uma guerra de preços do petróleo e até mesmo uma (patética) tentativa de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou. Para um membro mais fraco dos BRICS foi preciso utilizar uma estratégia mais sutil, o que nos leva à complexidade da Guerra Híbrida aplicada à atual, maciça desestabilização política e econômica do Brasil.

No manual da Guerra Híbrida, a percepção da influência de uma vasta “classe média não-engajada” é essencial para chegar ao sucesso, de forma que esses não-engajados tornem-se, mais cedo ou mais tarde, contrários a seus líderes políticos. O processo inclui tudo, de “apoio à insurgência” (como na Síria) a “ampliação do descontentamento por meio de propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo” (como no Brasil). E conforme cresce a insurreição, cresce também a “intensificação da propaganda; e a preparação psicológica da população para a rebelião.” Esse, em resumo, tem sido o caso brasileiro.

Precisamos do nosso próprio Saddam

Um dos maiores objetivos estratégicos do Excepcionalistão é em geral um mix de revolução colorida e Guerra Híbrida. Mas a sociedade brasileira e sua vibrante democracia eram muito sofisticadas para métodos tipo hard, tais como sanções ou a “responsabilidade de proteger” (R2P, na sigla em inglês).

Não por acaso, São Paulo tornou-se o epicentro da Guerra Híbrida contra o Brasil. Capital do estado mais rico do Brasil e também capital econômico-financeira da América Latina, São Paulo é o nódulo central de uma estrutura de poder interconectada nacional e internacionalmente.

O sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil.

A “Primavera Brasileira” foi virtualmente invisível, no início, um fenômeno exclusivo das mídias sociais – tal qual a Síria, no começo de 2011.

Foi quando, em junho de 2013, Edward Snowden revelou as famosas práticas de espionagem da NSA. No Brasil, a questão era espionar a Petrobras. E então, num passe de mágica, um juiz regional de primeira instância, Sérgio Moro, com base numa única fonte – um doleiro, operador de câmbio no mercado negro – teve acesso a um grande volume de documentos sobre a Petrobras. Até o momento, a investigação de dois anos da Lava Jato não revelou como eles conseguiram saber tanto sobre o que chamaram de “célula criminosa” que agia dentro da Petrobras.

O importante é que o modus operandi da revolução colorida – a luta contra a corrupção e “em defesa da democracia” – já estava sendo colocada em prática. Aquele era o primeiro passo da Guerra Híbrida.

Como cunhado pelos Excepcionalistas, há “bons” e “maus” terroristas causando estragos em toda a “Siraq”; no Brasil há uma explosão das figuras do corrupto “bom” e do corrupto “ruim”.

O Wikileaks revelou também como os Excepcionalistas duvidaram da capacidade do Brasil de projetar um submarino nuclear – uma questão de segurança nacional. Como a construtora Odebrecht tornava-se global. Como a Petrobras desenvolveu, por conta própria, a tecnologia para explorar depósitos do pré sal – a maior descoberta de petróleo deste jovem século 21, da qual as Grandes Petrolíferas dos EUA foram excluídas por ninguém menos que Lula.

Então, como resultado das revelações de Snowden, a administração Roussef exigiu que todas as agências do governo usassem empresas estatais em seus serviços de tecnologia. Isso poderia significar que as companhias norte-americanas perderiam até US$ 35 bilhões de receita em dois anos, ao ser excluídos de negociar na 7ª maior economia do mundo – como descobriu o grupo de pesquisa Fundação para a Informação, Tecnologia & Inovação (Information Technology & Innovation Foundation).

O futuro acontece agora

A marcha em direção à Guerra Híbrida no Brasil teve pouco a ver com as tendências políticas de direita ou esquerda. Foi basicamente sobre a mobilização de algumas famílias ultra ricas que governam de fato o país; da compra de grandes parcelas do Congresso; do controle dos meios de comunicação; do comportamento de donos de escravos do século 19 (a escravidão ainda permeia todas as relações sociais no Brasil); e de legitimar tudo isso por meio de uma robusta, embora espúria tradição intelectual.

Eles dariam o sinal para a mobilização da classe média. O sociólogo Jesse de Souza identificou uma freudiana “gratificação substitutiva”, fenômeno pelo qual a classe média brasileira – grande parte da qual clama agora pela mudança do regime – imita os poucos ultra ricos, embora seja impiedosamente explorada por eles, através de um monte de impostos e altíssimas taxas de juros.

Os 0,0001% ultra ricos e as classes médias precisavam de um Outro para demonizar – no estilo Excepcionalista. E nada poderia ser mais perfeito para o velho complexo da elite judicial-policial-midiática do que a figura de um Saddam Hussein tropical: o ex-presidente Lula.

“Movimentos” de ultra direita financiados pelos nefastos Irmãos Kock pipocaram repentinamente nas redes sociais e nos protestos de rua. O procurador geral de justiça do Brasil visitou o Império do Caos chefiando uma equipe da Lava Jato para distribuir informações sobre a Petrobras que poderiam sustentar acusações do Ministério da Justiça. A Lava Jato e o – imensamente corrupto – Congresso brasileiro, que irá agora deliberar sobre o possível impeachment da presidente Roussef, revelaram-se uma coisa só.

Àquela altura, os roteiristas estavar seguros de que a infra-estrutura social para a mudança de regime já havia produzido uma massa crítica anti-governo, permitindo assim o pleno florescimento da revolução colorida. O caminho para um golpe soft estava pavimentado – sem ter sequer de recorrer ao mortal terrorismo urbano (como na Ucrânia). O problema era que, se o golpe soft falhasse – como parece ser pelo menos possível, agora – seria muito difícil desencadear um golpe duro, estilo Pinochet, através da UW, contra a administração sitiada de Roussef; ou seja, executando finalmente a Guerra Híbrida Total.

No nível socioeconômico, a Lava Jato seria um “sucesso” total somente se fosse espelhada por um abrandamento das leis brasileiras que regulam a exploração do petróleo, abrindo-a para as Grandes Petrolíferas dos EUA. Paralelamente, todos os investimentos em programas sociais teriam de ser esmagados.

Ao contrário, o que está acontecendo agora é a mobilização progressiva da sociedade civil brasileira contra o cenário de golpe branco/golpe soft/mudança de regime. Atores cruciais da sociedade brasileira estão se posicionando firmemente contra o impeachment da presidente Rousseff, da igreja católica aos evangélicos; professores universitários do primeiro escalão; ao menos 15 governadores estaduais; massas de trabalhadores sindicalizados e trabalhadores da “economia informal”; artistas; intelectuais de destaque; juristas; a grande maioria dos advogados; e por último, mas não menos importante, o “Brasil profundo” que elegeu Rousseff legalmente, com 54,5 milhões de votos.

A disputa não chegará ao fim até que se ouça o canto de algum homem gordo do Supremo Tribunal Federal. Certo é que os acadêmicos brasileiros independentes já estão lançando as bases para pesquisar a Lava Jato não como uma operação anti-corrupção simples e maciça; mas como estudo de caso final da estratégia geopolítica dos Exceptionalistas, aplicada a um ambiente globalizado sofisticado, dominado por tecnologia da informação e redes sociais. Todo o mundo em desenvolvimento deveria ficar inteiramente alerta – e aprender as relevantes lições, já que o Brasil está fadado a ser visto como último caso da Soft Guerra Híbrida

Pepe Escobar: “O mito de uma China neoimperial”

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15/3/2018, Pepe Escobar, Asia Times

O foco geopolítico do ainda novo século 21 cobre o Oceano Índico, do Golfo Persa até o Mar do Sul da China, ao longo de todo o espectro do Sudoeste da Ásia até a Ásia Central e a China.

Assim se configura o principal palco, terrestre e marítimo, das Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE).

O epicentro da mudança do poder global para o Oriente está fazendo voar penas em alguns círculos políticos dos EUA – com proliferação de análises paroquianas que cobrem, da “superdistensão imperial” até “pesadelos” que estariam sendo provocados pelo Sonho Chinês de Xi Jinping.

O argumento básico é que o Imperador Xi estaria obrando para abocanhar poder imperial, com a mitologização das Novas Rotas da Seda.

A ICE tem a ver, com certeza com as massivas reservas chinesas em moeda estrangeira; com o know-how de construção; com o excesso de capacidade em aço, alumínio e concreto; com as parcerias público-privadas para financiamento; com a internacionalização do yuan; e com a plena conectividade dos fluxos de infraestrutura e informação.

Mas a Iniciativa Cinturão e Estrada não é questão de controle geopolítico apoiado em poder militar; tem a ver com maior projeção geopolítica, baseada na conectividade comércio-e-investimentos.

A ICE é de tal modo jogo completamente diferente, que Japão, Índia e o “Quarteto” [ing. “the Quad”] (EUA, Japão, Índia, Austrália) sentiram-se na obrigação de produzir suas próprias mini-ICEs “alternativas”, muito reduzidas – cuja razão de ser essencial é acusar a ICE de “revisionismo”, ao mesmo tempo em que enfatiza a necessidade de lutar contra a dominação global chinesa.

A base da estratégia Indo-Pacífico Livre e Aberto do governo Trump, iniciada em outubro de 2017, era definir a China como ameaça existencial hostil. A Estratégia de Segurança Nacional, ESN [ing.National Security Strategy (NSS)] e a Estratégia de Defesa Nacional, EDN [ing. National Defense Strategy (EDN)] amplificaram a ameaça até convertê-la numa nova doutrina.

A ESN afirma que “China e Rússia desafiam o poder, a influência e interesses dos EUA, tentando erodir a segurança e a prosperidade dos EUA.” A ESN acusa China e Rússia de querer “modelar um mundo que seja a antítese dos valores e interesses dos EUA.” Também acusa Pequim de “procurar desalojar os EUA da região do Indo-Pacífico” e de “expandir o próprio poder à custa da soberania dos demais.”

A Estratégia de Defesa Nacional afirma que Pequim “almeja à hegemonia regional no Indo-Pacífico no curto prazo, e a deslocar os EUA para alcançar proeminência global no futuro.”

Já é o novo normal, no que tenha a ver com vários estratos do complexo norte-americano industrial-militar-de-vigilância. Qualquer outra opinião-avaliação é simplesmente proibida.

Hora de conversar com Kublai Khan

China e Rússia, potências “revisionistas”, são vistas como grande duplo problema quando se considera que há conexão direta entre a ICE e a União Econômica Eurasiana (UEE) [ing. Eurasia Economic Union (EAEU)]. A UEE é, por si mesma, um passo adiante na parceria estratégica Rússia-China anunciada em 2012, crucialmente, um ano antes de Xi anunciar a ICE em Astana e depois em Jakarta.

No fórum da ICE em Pequim, em maio de 2017, o presidente Vladimir Putin da Rússia reafirmou a noção de uma “maior parceria eurasiana”.

O “pivô para a Ásia” russo começou já antes de Maidan em Kiev, o referendo da Crimeia e as subsequentes sanções ocidentais. Foi trabalho em progresso, ao longo de várias sessões na Organização de Cooperação de Xangai, OCX [Shanghai Cooperation Organization (SCO)], dos BRICS e do G-20.

O Cazaquistão é o elo chave que une ICE, UEE e a OCX. Rússia e Cazaquistão são parte de um dos principais corredores de conectividade por terra entre o Leste da Ásia e a Europa –, e o outro atravessa Irã e Turquia.

Xinjiang à Europa Ocidental por trem, via Cazaquistão e Rússia, é hoje viagem de 14 dias, que em breve serão reduzidos a dez. É impulso gigante para o comércio de mercadoria com alto valor agregado – que pavimenta o caminho para os futuros trilhos para trens de alta velocidade, um dos projetos da ICE, que competirá cabeça a cabeça com o transporte marítimo de baixo custo.

Quanto ao impulso de Moscou para ser parte da conectividade econômica ICE/UEE, é um dos vetores da política externa russa. O outro, igualmente importante, é aprofundar relações comerciais/de investimentos entre Alemanha e Rússia, prioridade também para industriais alemães.

A China, por sua vez, é agora o maior investidor estrangeiro em todos os cinco “-stões” da Ásia Central. E é crucial lembrar que a Ásia Central está configurada não só pelos cinco “-stões”, mas também inclui a Mongólia, Xinjiang e o Afeganistão. Daí a urgência, na OCX, para resolver a tragédia afegã, com a participação dos grandes players China, Rússia, Índia, Paquistão e Irã.

A estratégia da ICE, de criar uma rede logística/de conectividade paneurasiana impõe naturalmente a questão de como Pequim administrará esse projeto sem hora para terminar. A ICE ainda não está sequer em fase de implementação, que, oficialmente, começa ano que vem.

É útil comparar as acusações de “revisionismo” e a história da China. Quando Marco Polo chegou à corte Yuan no final do século 13, viu um império multicultural com comércio próspero.

Foram as rotas comerciais da Rota da Seda, não alguma projeção de poder militar, que culminaram na Pax Mongolica. A Pax Sinica do século 21 é sua versão para o século 21. E Xi? Será neoimperador ou versão pós-moderna de Kublai Khan?

A dinastia Yuan não “controlou” Pérsia, Rússia ou Índia. Pérsia, então uma superpotência, conectava o Nilo, a Mesopotâmia e o rio Indo, com comércio com a China. Durante a dinastia Tang, nos séculos 8º e 9º, a China também projetou influência na Ásia Central, por todo o espaço até o Irã norte-oriental.

E isso explica porque o Irã, agora, é esse entroncamento central da ICE e porque a liderança em Teerã quer ver solidificadas as Novas Rotas da Seda. Uma aliança China-Rússia-Irã de interesses – integração da Eurásia – só pode mesmo enervar Washington; afinal, o Pentágono define todos esses atores geopolíticos como “ameaças”.

Historicamente, China e Pérsia foram, por séculos, civilizações agrícolas ricas e bem implantadas, que vez ou outra tiveram de lidar com enxames ocasionais de guerreiros do deserto –, mas que, na maior parte do tempo viveram em contato entre elas, por causa da Rota da Seda. A entente cordialesino-persa está inscrita nessa sólida história.

E isso nos leva ao xis da questão que jaz no coração da demonização/desqualificação sem parar, da ICE.

Trata-se de impedir a emergência não só de um “competidor equivalente”, mas pior: um condomínio comercial/de conectividade possibilitado pela Nova Rota da Seda – que exibirá China, Rússia, Irã e Turquia – aparecerá tão poderoso no Oriente quanto os EUA ainda são hoje, nesse muito desgraçado “Hemisfério Ocidental”.

Nada disso tem qualquer coisa a ver com neoimperialismo chinês. Na dúvida, consulte Kublai Khan.*****