Pepe Escobar: “Bem-vindos às guerras por acordos comerciais”

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28/5/2015, Pepe Escobar, Asia Times Online
BANGKOK — A China continua a crescer nada desprezíveis 7%. Mesmo assim, por causa da desvalorização do yuan e de uma queda abrupta no mercado de ações, em muitas capitais a narrativa circulante é de que um Armagedon ter-se-ia abatido sobre o modelo econômico que ao longo dos anos gerou crescimento que sextuplicou o PIB da China.

Poucos sabem que Pequim, simultaneamente, está engajada numa tarefa titânica: mudar seu vetor de crescimento, das exportações para investimento massivo em serviços; enfrentar o papel negativo ou só de autossatisfação das empresas estatais; e desinflar pelo menos três bolhas – da dívida, da especulação imobiliária e do mercado de ações –, no contexto de uma virtual estagnação econômica global.

Tudo isso, enquanto praticamente não há qualquer cobertura na mídia ocidental, sobre o impulso puxado pela China rumo à integração do comércio eurasiano, que ajudará eventualmente a consolidar o Império do Meio como a maior economia do planeta.

O que nos leva a uma subtrama crucial no Grande Quadro: o Sudeste da Ásia.

Daqui a quatro meses, a Associação de Nações do Sudeste Asiático,ANSA [ing. Association of Southeast Asian Nations (ASEAN)], de dez membros, estará integrada, via a Comunidade Econômica da ANSA, CEANSA [ing. ASEAN Economic Community (AEC)].

A Comunidade Econômica da Associação de Nações do Sudeste Asiático não é pouca coisa. Estamos falando da integração econômica de um mercado combinado de 620 milhões de pessoas, e PIB coletivo de $2,5 trilhões.

Claro, ainda é uma ANSA dividida. Em termos gerais, os países do interior do continente do Sudeste da Ásia são mais próximos da China; a franja marítima do mesmo Sudeste da Ásia é mais confrontacional – dentre outros motivos porque os EUA só fazem insuflar o confronto. Vai demorar até que haja um código de conduta baseado em regras para o Mar do Sul da China, assinado por todos os participantes.

Mesmo assim, ainda que haja contraste visível entre a área continental e a área marítima do Sudeste da Ásia, e a integração das duas áreas possa conter mais retórica que fatos – pelo menos no curto prazo –, Pequim não parece estar preocupada com o grande jogo. Afinal de contas, a China é inextrincavelmente conectada ao sudeste asiático continental.

Considerem Cambodia, Laos, Myanmar e Tailândia. É mercado coletivo de 150 milhões de pessoas e PIB de mais de $500 bilhões. Inclua esses quatro no contexto da sub-região do Grande Mekong, que inclui as províncias de Guangxi e Yunnan do sul da China, e tem-se mercado de 350 milhões de pessoas e PIB de mais de $1 trilhão. A conclusão, como Pequim vê as coisas, é inevitável: o Sudeste Asiático é o quintal do sul da China.

TPP versus PERA

A Parceria Trans-Pacífico [ing. Trans-Pacific Partnership (TPP)] comandada pelos EUA é amplamente considerada, em inúmeras latitudes da ANSA, como componente chave da ‘pivotagem para Ásia’.

Se a ANSA já é dividida, a TPP só acentua a divisão. Só quatro países da ANSA – Brunei, Malásia, Cingapura e Vietnã – estão envolvidos em negociações dos acordos da [parceria] TPP. Os outros seis países preferem a Parceria Econômica Regional Ampla, PERA [ing. Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP)].

A PERA é ideia ambiciosa que aspira a converter-se maior acordo de livre comércio do mundo; 46% da população da Terra, com PIB conjunto de $17 trilhões e 40% do comércio mundial. A parceria PERA inclui 10 nações da ANSA plus China, Japão, Coreia do Sul, Índia, Austrália e Nova Zelândia. Diferente da [parceria] TPP, liderada pelos EUA, a [parceria] PERA é liderada pela China.

Ainda que haja substancial grau de vontade política, será impossível para esses 16 países concluir suas negociações nos próximos quatro meses – para anunciar a constituição da [parceria] PERA simultaneamente ao início da Comunidade Econômica da ANSA, CEANSA. Seria forte estímulo à noção partilhada da “centralidade” da ANSA.

Problemas e mais problemas por todos os lados. Para começar, a grave disputa China-Japão pelas ilhas Diaoyu/Senkaku. E a sempre crescente confusão entre China/Vietnã/Filipinas no Mar do Sul da China. Competição e desconfiança é a norma. Muitas dessas nações veem a Austrália como um cavalo de Troia. Assim sendo, é pouco provável que se alcance algum consenso antes de 2017.

A ideia da Parceria Econômica Regional Ampla, PERA, nasceu em novembro de 2012 numa reunião de cúpula da ANSA no Cambodia. Até hoje já aconteceram nove rodadas de negociações. Curiosamente, a ideia inicial partiu do Japão – de um mecanismo que combinasse a multidão de acordos bilaterais que a ANSA construíra entre seus parceiros. Mas atualmente a China está na liderança.

E como se não bastasse a disputa entre as ‘parcerias’ TPP e PERA, há também a Área de Livre Comércio do Pacífico Asiático, ALCPA [ing. Free Trade Area of the Asia-Pacific (FTAAP)]. Foi introduzida na reunião da Associação dos Países Exportadores de Petróleo (APEP) em Pequim, ano passado, pela – obviamente – China, para distanciar do ideário da [parceria] TPP as nações cujo principal parceiro comercial é a China.

Joseph Purigannan de Foreign Policy in Focus resumiu bem todo esse frenesi: “Se se conectam todos esses desenvolvimentos de ‘mega acordos de livre comércio”, o que se vê é na verdade a intensificação do que se pode chamar de guerra por território entre os grandes players.” Quer dizer que, mais uma vez, é guerra Chinavs. EUA, guerreada por procuração.

A Big Pharma manda

A parceria trans-Atlântico, TPP, é divulgada nos EUA como se visasse a fixar padrões comuns para quase a metade da economia mundial.

Mas essa parceria TPP – negociada sob máximo segredo poderososlobbies empresariais bem longe de qualquer controle, longe até de qualquer conhecimento, público – é essencialmente a OTAN ‘comercial’ (e parceira íntima da outra ‘parceria’ orientada para a UE, a TTIP). A TPP foi desenvolvida como braço econômico/comercial do ‘pivoteamento para a Ásia’ – com dois sonhos ardentes embutidos: excluir a China e diluir a influência do Japão. E, sobretudo, a TPPvisa a impedir que grande parte da Ásia – e dentro dela, as nações da ANSA – consigam chegar a qualquer acordo que não inclua os EUA.

A reação da China é sutil, não frontal. Pequim está apostando, de fato, em multiplicar os acordos – da Parceria Econômica Regional Ampla, PERA, para a Área de Livre Comércio do Pacífico Asiático, ALCPA. O objetivo final é reduzir a hegemonia do dólar norte-americano (não esqueçamos: a TPP é baseada no dólar).

Mesmo depois de ter assegurado a aprovação no Congresso, mês passado, para uma tramitação rápida que leve a um acordo, o presidente Obama e o todo poderoso lobby comercial pró TPP estão encontrando muita dificuldade para convencer os 12 parceiros – muito desiguais – nessa ‘parceria’ TPP].

Para a futura geração de drogas biológicas, por exemplo, a ‘parceria’TPP privilegia abertamente as gigantes da indústria farmacêutica, “Big Pharma“, como a Pfizer, e a Takeda do Japão. A TPP opõe-se a empresas de propriedade estatal – muito importantes em economias como Cingapura, Malásia e Vietnã –, em benefício de concorrentes estrangeiras, na disputa por contratos com os governos desses países.

TPP quer pôr fim ao tratamento preferencial que a Malásia garante a malaios étnicos no business, moradia, educação e contratos com o estado – um dos fundamentos do modelo de desenvolvimento da Malásia.

Sob o pretexto de cortar tarifas sobre tecidos “sensíveis”, as grandes corporações têxteis dos EUA, como Unifil, querem impedir o Vietnã de vender roupas baratas, feitas na China, no mercado dos EUA.

E EUA e Japão continuam em séria oposição na agricultura e na indústria automobilística, ainda discutindo, por exemplo, em que ponto um veículo inclui conteúdo local suficiente para qualificar-se à isenção de impostos.

O primeiro-ministro general Prayut Chan-ocha está convencido de que a ‘parceria’ TPP tanto pode salvar como pode quebrar a Tailândia – com ênfase na parte “quebrar”. Foi o que disse a importante grupo de visitantes do Conselho de Comércio EUA-ANSA.

Bangkok está aterrorizada, temendo que aquelas leis sobre patentes de medicamentos – por exemplo, o direito de fabricar medicamentos genéricos – sejam substituídas por leis extremamente restritivas, ditadas pelos suspeitos de sempre: a “Big Pharma“.

Um cinturão, uma Rota, um banco

No final, tudo sempre volta à fórmula hoje legendária do presidente Xi Jinping da China, I Tai I Lu (“Um Cinturão, Uma Rota”). Também conhecida como a estratégia da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda, da qual um dos componentes chaves é a exportação de todos os modos de tecnologia chinesa de conectividade para outras nações ANSA.

Começa com o Fundo Rota da Seda, de $40 bilhões, anunciado no final do ano passado. Mas outras vias de investimento para redes de infraestrutura – autoestradas, ferrovias, portos – devem vir através do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, BAII [ing. Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB)].

O BAII portanto pode também ser interpretado como uma extensão do modelo chinês de exportações. A diferença é que, em vez de exportar bens e serviços, a China estará exportando expertise em infraestrutura, além do seu excesso de capacidade doméstica de produção.

Um desses projetos é uma ferrovia da província de Yunnan atravessando Laos e Tailândia até Malásia e Cingapura – com a Indonésia ali bem próxima (onde a China já disputa com o Japão o contrato para construir os primeiros 160 km de ferrovia para trens de alta velocidade entre Jacarta e Bandung). A China construiu nada menos que 17 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade – 55% do total mundial – em apenas 12 anos.

Washington não está exatamente apreciando muito as relações cada vez mais próximas entre Pequim e Bangkok. A China, por sua parte, gostaria que seus laços com a Tailândia servissem como protótipo para o relacionamento com outras nações ANSA.

Daí a pressa que mostram os empresários chineses para investir em outras nações ANSA, usando a Tailândia como sua base regional de investimentos. Trata-se sempre de investir em nações com potencial excelente para tornarem-se bases de produção chinesa.

No futuro imediato, é inevitável a integração econômica nas terras continentais do Sudeste Asiático. É possível que vá de Myanmar ao Vietnã. E logo, por ferrovia, do sul da China, pelo Laos, até o Golfo da Tailândia; e por Myanmar, até o Oceano Índico.

O mercado de trabalho está cada vez mais integrado. Há cinco milhões de pessoas de Myanmar, Cambodia e Laos já trabalhando na Tailândia – a maior parte dos quais legalmente. O comércio de fronteira está crescendo – uma vez que “fronteiras” institucionais pouco significam nas regiões centrais do sudeste da Ásia (como tampouco significam muito entre Afeganistão e Paquistão, por exemplo).

Mas ainda é jogo muito aberto. Tudo aí tem a ver com conectividade. Com cadeias globais de produção. Tem a ver com regras comerciais harmonizadas. Mas quase tudo aí é um jogo de poder de apostas tremendamente altas: para determinar quem – EUA ou China – virá eventualmente a fixar as regras globais para comércio e investimento.

Fonte: Asia Times

Síria e Iraque são também guerras pela água. E outras virão.

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27/8/2015, Moon of Alabama


Foreign Affairs
traz artigo cuja leitura recomendo sobre as guerras pela água entre Turquia, Síria e Iraque: Rivers of Babylon.

Turquia construiu muitas, muitas barragens por todo o país, para produzir eletricidade, mas também para irrigação. Quando viajei pelo leste da Turquia nos anos 1990s muitos novos projetos, partes doSoutheastern Anatolia Project (tu. GAP), eram visíveis; e água recentemente retida em barragens era fornecida às regiões secas do sudeste mediante canais abertos. Muita daquela água era perdida por causa da evaporação, mas também por que as novas plantações usavam espécies que exigem água intensiva numa região quente e em muitos pontos desértica.

A água agora oferecida a fazendeiros turcos antes corria pelo Eufrates e Tigre, para a Síria e Iraque. Três anos secos na Síria, 2006-2009, induziram muitos fazendeiros a deixar as terras secas e mudar-se para as cidades, onde só poucos deles encontravam trabalho:
À altura de 2011, fracasso de colheitas por causa da seca empurrara cerca de 1,5 milhão de ex-agricultores a emigrar das próprias terras; essa legião de desenraizados virou fonte de recrutas para o Exército Sírio Livre e outros grupos como o Estado Islâmico (também chamadoISIS) e para al-Qaeda. Testemunhos recolhidos por repórteres e ativistas nas zonas de conflito sugerem que a falta de qualquer ajuda do governo durante a seca foi o fator central de motivação para a rebelião antigoverno. Além disso, estudo de 2011 mostram que as hoje fortalezas dos rebeldes em Aleppo, Deir al-Zour, e Raqqa estavam entre as áreas mais duramente atingidas pelo fracasso das colheitas.
A situação no Iraque é similar, se não pior. Grandes regiões perderam a base de sua agricultura e os agricultores pedem soluções e mais apoio.
Em Karbala, Iraque, agricultores estão em desespero e já consideram abandonar suas terras. Em Bagdá, as periferias mais pobres dependem da Cruz Vermelha até para a água de beber. Em algumas ocasiões, a Cruz Vermelha teve de fornecer 150 mil litros por dia. Mais para o sul, as áreas centrais do Irã, as maiores áreas alagadas de todo o Oriente Médio, estão desaparecendo, depois de terem sido re-inundadas depois que Saddam Hussein foi deposto. Em Chibayish, cidade nas áreas alagadas que um dos autores desse artigo visitou recentemente, os búfalos e os peixes estão morrendo. Atualmente, a agricultura ali sustenta no mínimo 60 mil pessoas. Esses e mais centenas de milhares de outros enfrentarão dificuldades muito maiores, se os recursos d’água continuarem a definhar.
A falta de água não é a única razão para as guerras na Síria e Iraque. Mas torna esses países mais propensos a conflitos internos e mais vulneráveis a intromissão de atores externos.

Mas os governos de Síria e Iraque podem fazer pouco para ajudar seus agricultores. Embora haja acordos sobre um fluxo mínimo de água a ser preservado entre Turquia, Síria e Iraque, não há meios pelos quais Síria e Iraque possam realmente pressionar a Turquia para que desimpeça o fluxo de água e preserve o fluxo fixado nos acordos.
Embora acordos vigentes entre Síria e Turquia devam garantir fluxo de 500 metros cúbicos por segundo, 46% dos quais vão para o Iraque, durante o verão os fluxos podem ser muito menores. Segundo Jasim al Asadi, hidrologista de Nature Iraque, quando o Eufrates alcança Nasiriyah no sul do Iraque, é necessário um fluxo mínimo de 90 metros cúbicos por segundo, para uso municipal, industrial e agrícola. Às vezes, o fluxo cai para 18 metros cúbicos por segundo – razão pela qual não surpreende que as áreas alagadas estejam diminuindo rapidamente.Antes da construção da maior barragem nos anos 1970s, o fluxo médio no Eufrates era de 720 metros cúbicos por segundo. Agora, é de cerca de 260 quando entra no Iraque.
Quase dois terços do fluxo que o Iraque recebia já não chegam. Não há meio para substituí-lo. Além disso, a pouca água que está fluindo atualmente pode acabar rapidamente:
As barragens na Turquia, que já ultrapassam 140, têm muito maior capacidade de armazenamento que as que ficam a jusante. E quando as novas barragens turcas estiverem completadas em poucos anos, cerca de 1,2 milhão a mais de hectares serão irrigados dentro da Turquia – aumento de oito vezes, em relação ao que há hoje.[1]

Dada a relativamente melhor saúde hídrica da Turquia, seria razoável supor que o país pararia de construir barragens que tanto dificultam a sobrevivência dos países vizinhos à jusante dos rios. Mas o país fez exatamente o oposto, e planeja concluir 1.700 novas barragens e açudes dentro de suas fronteiras.
A matéria de Foreign Affairs nada diz sobre outro projeto turco que desvia ainda mais água para longe de seus vizinhos do sul. Em 1974 a Turquia invadiu e desde então ocupou o norte de Chipre. Os moradores gregos nativos daquelas áreas ocupadas foram dizimados em processo de ‘limpeza’ étnica, e 150 mil turcos foram transferidos da Turquia e implantados naquela terra grega.

E a Turquia construiu agora aquedutos para fornecer água do território turco às áreas ocupadas da ilha:
Um aqueduto recentemente concluído que cruza pelo fundo do Mediterrâneo levará 75 milhões de metros cúbicos de água fresca anualmente, da Turquia para o norte, i.e. para a parte turca da dividida ilha de Chipre.

A água que chegará pelo aqueduto tornará os turcos cipriotas, que já recebem subsídios de Ancara para sua sobrevivência econômica, ainda mais dependentes da Turquia. Um cenário é, assim, que por estarem mais intimamente ligados ao continente, os cipriotas turcos terão menos liberdade quando negociarem a reunificação com os compatriotas cipriotas gregos, o que tornará difícil alcançar alguma solução.
Outro projeto turco, que vai e vem ao longo dos anos, são planos para construir aquedutos e gasodutos até Israel: Israel espera fornecer gás à Turquia e a Turquia forneceria água a Israel. Água que, além de outras utilidades, faria terrível falta na Síria e no Iraque.

Precisamos de um processo de solução global, com instrumentos para fazer valer os acordos, para regular os fluxos naturais de água através de fronteiras. A alternativa é grave ampliação das guerras entre países que usam água extensivamente em seus próprios territórios, enquanto países localizados à jusante dos rios morrem de sede.

A situação de Turquia, Síria, Iraque não é a única guerra pela água que há hoje no mundo. Paquistão e Índia lutam pela Caxemira ocupada pela Índia, onde estão as nascentes do sistema do rio Indo. O Indo é a água que mantém vivo o Paquistão, e a Índia tem usado ocontrole que tem sobre a Caxemira para pressionar o Paquistão. A próxima guerra entre Índia e Paquistão pode estar a uma seca de distância; e pode ser guerra nuclear.

Outra guerra pela água está fermentando entre Uzbequistão e Tadjiquistão. A Etiópia está construindo uma megabarragem no Nilo que ameaça o principal suprimento de água do Egito. Nada garante que o Egito permita que a construção chegue ao fim. Todos esses casos já levaram ou levarão a guerras entre países ou a guerras civis por causa da água (da falta dela).

O fluxo de água entre países é uma das poucas questões que carecem de governança global. Um livro de regras e um corpo judicial global que determine que todos os povos ao longo de um curso de água devem beneficiar-se dele. Megaprojetos como o GAPna Turquia teriam de ser julgados por aquele corpo judicial e suas regras teriam de ser apoiadas em poderes coercitivos significativos.

É isso ou, se não for isso, haverá muitas guerras, muito intensas, de disputa pelo acesso à água. *****


[1] “Uma das principais razões para os projetos insanos dessas barragens turcas jamais concluídas, por falar delas, é inundar os vales e privar os curdos turcos de terreno onde se possam esconder e abrigar-se (…). Os curdos turcos sempre se opuseram firmemente àquelas barragens” (Bart, 27/8/2015, 2:05:00 PM | 3, nos Comentários a esse postado) [NTs].

Fonte: Moons of Alabama

Pepe Escobar: “O mito de uma ‘ameaça’ russa “

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26/8/2015, Pepe Escobar, Sputnik

Não passa uma semana sem que o Pentágono ponha-se a se lamuriar contra alguma terrível “ameaça” russa.

O comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas dos EUA, Martin Dempsey, entrou em território de “não sabidos sabidos”, que pertence por a direito Donald Rumsfeld, quando, recentemente, tentou conceituar a “ameaça”: “Ameaças são a combinação, ou o agregado, de capacidades e intenções. Deixemos de lado por enquanto as intenções, porque não sei o que a Rússia intenta.”

Bom. Dempsey pelo menos admite que não sabe do que fala. Saiba ou não saiba, parece saber que a Rússia é mesmo uma “ameaça” – no espaço, no ciberespaço, nos mísseis cruzadores disparados em terra, submarinos.

E é principalmente ameaça à OTAN: “Uma das coisas que a Rússia parece, sim, que faz, é desacreditar a OTAN, ou, ainda mais sinistramente, criar condições para o fracasso da OTAN.”

Quer dizer que a Rússia “parece, sim, que faz” desacreditar uma OTAN já autodesacreditada. Terrível “ameaça”.

Todos esses jogos retóricos acontecem enquanto a OTAN “parece, sim, que faz” aprontar-se para confrontar diretamente a Rússia. E que ninguém se engane: Moscou toma a beligerância da OTAN, sim, como ameaça real.

É PGS vs. S-500

A avançada contra a “ameaça” acontece bem quando a Think-tankelândia dos EUA está recarregando a ideia de conter a Rússia. O conhecido centro Stratfor, fachada da CIA, já lançou peça de propaganda elogiando o cérebro-em-chefe da Guerra Fria George Kennan como autor da “política de contenção da Rússia”.

O aparelho da inteligência dos EUA pensava que estivesse falando sério. Não ironizava. Mas antes de morrer Kennan disse que, àquela altura, já era preciso conter os EUA, não a Rússia [The Choice: Global Domination or Global Leadership, Basic Books, março, 2004 (NTs)].

Conter a Rússia – mediante a expansão da União Europeia e OTAN – é serviço que nunca deixou de ser tentado, verdadeiro work in progress, porque o imperativo geopolítico nunca mudou; como o Dr. Zbigniew “O Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski nunca se cansou de repetir, tudo sempre teve a ver com deter a – ameaçadora – emergência de uma potência eurasiana capaz de desafiar os EUA.

Até que a noção de “contensão” foi expandida para incluir o desmantelamento da própria Rússia. E também inclui o paradoxo interno de que a expansão infinita da OTAN na direção leste torna a Europa menos, não mais, segura.

Assumindo-se que venha a acontecer uma confrontação letal Rússia-OTAN, as armas táticas nucleares russas derrubarão todos os aeroportos da OTAN em menos de 20 minutos. Dempsey – em declarações cifradas – admite.

O que de modo nenhum ele pode admitir é que, se Washington já não tivesse há muito tempo tomado a decisão fatal, o movimento organizado entre os russos, de impedir o avanço infinito da OTAN e de atualizar o arsenal nuclear, não teria sido necessário. 

Geopoliticamente, o Pentágono afinal viu para que lado estão soprando os ventos da parceria global estratégica: a favor de Rússia-China. Essa mudança crucialmente decisiva, que altera o equilíbrio global de poder, também significa que as forças militares conjuntas de China e Rússia são superiores às da OTAN.

Em termos de poder militar, a Rússia tem mísseis de ataque e defesa superiores aos dos EUA, com a nova geração do sistema de mísseis terra-ar, o S-500, capaz de interceptar alvos supersônicos e que blinda completamente o espaço aéreo russo.

Além disso, apesar da turbulência financeira de curto prazo, a estratégica conjunta sino-russa para a Eurásia – uma interpenetração da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda com a União Econômica Eurasiana, UEE [Eurasian Economic Union, EEU] – com certeza favorece o desenvolvimento das duas economias e da região em geral, em termos que podem superar o crescimento somado de EUA e UE à altura de 2030.

À OTAN só resta encenar poderio militar montado para shows de TV como “Atlantic Resolve” para “tranquilizar a região” – principalmente os histéricos Polônia e países do Bálticos.

Moscou, entrementes, já deixou claro que nações que admitam em seu território os sistemas norte-americanos de mísseis antibalísticos terão de enfrentar os sistemas de mísseis de alerta precoce instalados em Kaliningrad.

E o major-general Kirill Makarov, vice-comandante das Forças de Defesa Aeroespaciais da Rússia, também já deixou claro que Moscou está atualizando suas capacidades aéreas e de mísseis de defesa, para pulverizar toda e qualquer ameaça –  real – que o país receba do Prompt Global Strike (PGS) dos EUA.

Na doutrina militar russa de dezembro de 2014, o crescimento militar da OTAN      e o PGS dos EUA aparecem listados como principais ameaças de segurança. O vice-ministro da Defesa, Yuri Borisov, destacou que “a Rússia tem as capacidades necessárias, e será obrigada a desenvolver sistema como o PGS.”

Onde está nosso butim?

Os jogos retóricos do Pentágono servem também para mascarar um processo de apostas realmente muito altas. Essencialmente, trata-se de guerra por energia – centrada na disputa pelo controle do petróleo, gás natural e recursos minerais da Rússia e da Ásia Central.[1] Quem controlará essa riqueza? Os testa-de-ferro dos oligarcas “supervisionados” pelos chefes em New York e Londres? Ou a Rússia e seus parceiros na Ásia Central? Daí a incansável guerra de propaganda.

Há quem argumente que os Masters of the Universe promoveram a ressurreição dos velhos álibis geopolíticos da contensão/ameaças – estimulados pelo que se pode chamar de conexão Brzezinski/Stratfor –, para encobrir, ou esconder, outro fato impressionante.

Eis o fato: a verdadeira razão da Guerra Fria 2.0 é que o poder financeiro New York/Londres sofreu perda de mais de um trilhão de dólares, quando o presidente Putin arrancou a Rússia daqueles esquemas de saqueio.

E o mesmo se aplica a todo o golpe em Kiev – forçado pelas mesmas forças financeiras de New York/Londres, para impedir que Putin destruísse suas operações de saqueio na Ucrânia (as quais, por falar delas, prosseguem inalteradas, pelo menos no domínio das terras agricultáveis).

Contensão/ameaças também estão sendo usadas freneticamente para impedir a qualquer custo que se constitua uma parceria estratégica entre Rússia e Alemanha – que a conexão Brzezinski/Stratfor vê como ameaça existencial aos EUA.

O sonho molhado dessa conexão – que, vale lembrar, os neoconservadores também sonham – seria um retorno glorioso à época em que a Rússia foi saqueada livremente, nos anos 1990s, quando o complexo industrial militar russo colapsou, e o ocidente assaltava recursos naturais naquela região, como se fossem donos do mundo. Não vai acontecer outra vez.

Assim sendo, qual o Plano B do Pentágono? Criar condições para fazer da Europa cenário de guerra potencialmente nuclear. Não há ameaça mais real que essa. *****


[1] E também as guerras pela água. Ver “Síria e Iraque são também guerras  pela água. E outras virão.”

Fonte: Moons of Alabama

Pepe Escobar: Pipelineistan — the Iran-Pak-China connection

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Iranian Foreign Minister Javad Zarif has just been to Islamabad to talk serious business with Pakistani Prime Minister Nawaz Sharif. And the serious business had to be Pipelineistan – as in what next for the Iran-Pakistan (IP) gas pipeline.

Zarif essentially said that IP is a go – again – as soon as sanctions against Iran start to melt, by late 2015 or early 2016. Iran has already invested $2 billion in the Iranian stretch of IP, and China will finance the Pakistani stretch.

This is a major Pipelinestan gambit, as Asia Times has previously reported. And as a side note, as soon as IP goes online, all those years of incessant harassing by successive Bush and Obama administrations will finally come down to nought.

China West-East Gas Pipeline

Even before Zarif hit Pakistan something serious was going on in … Karamay. You may have not heard of Karamay, but this town in Xinjiang is right at the center of the Eurasian action; it has just hosted the 2015 China-Pakistan Economic Corridor Forum.

As we all know, the China-Pakistan Economic Corridor (CPEC) is an absolutely key component, worth $46 billion, of the China-driven New Silk Roads. CPEC will link Kashgar in Xinjiang to the Arabian Sea port of Gwadar via highways (essentially an upgrade of the fabled Karakoram Highway), railways, industrial parks, fiber optic networks and – eventually – a pipeline.

And that pipeline will be no less than an extension up north of IP.

As part of CPEC, for instance, last month TBEA Xinjiang SunOasis — a Chinese company — finished the biggest solar power plant in Pakistan, for $215 million, in only three months.

At Karamay, China and Pakistan signed 20 CPEC-related cooperation agreements. They even issued a Karamay manifesto, stressing the political/economic importance of the Silk Road Economic Belt and the 21st-Century Maritime Silk Road. CPEC is the largest China-Pakistan joint project since the construction of the Karakoram highway in 1979. And CPEC is only one among six economic corridors to be developed as part of the New Silk Roads.

Yet the full impact of CPEC will only be noted by the next decade. That’s when the New Silk Road for the bulk of China’s energy imports from the Middle East will be cut short by no less than 12,000 kilometers.

Ashgabat wakes up

Meanwhile, Turkmengaz — Turkmenistan’s national gas company — has taken a 51% stake in a consortium still seeking to build the perennially troubled TAPI (Turkmenistan-Afghanistan-Pakistan-India) gas pipeline, a serious competitor to IP if it ever gets built.

That’s a game-changer because the Turkmen will now be in charge of the construction and operation of TAPI Ltd. The cost is a whopping $10 billion (IP will cost three times less); investment to the tune of $4 billion and $6 billion in debt.

Still it all comes back to the same problem; who wants to invest in a steel umbilical cord prone to all sorts of sabotage traversing a war zone — western Afghanistan all the way to Kandahar? In theory, “host countries” should be responsible for TAPI’s security; in the case of Afghanistan, that qualifies as black humor.

For the moment, Turkmengaz can only count on the Manila-based but Japan/US-controlled Asian Development Bank (ADB). That’s not much. The notoriously opaque regime in Ashgabat says it’s seeking other backers — but no one knows where and how.

TAPI is still a pipe dream. Pakistan and India are not seriously considering it viable even in the medium term. So it’s back to IP.

Even after sanctions are lifted, Iran will need to find an ocean of investment — at least $180 billion — to upgrade its energy infrastructure and be able to start exporting natural gas to Europe, in competition with Gazprom.

So Iran’s privileged Pipelineistan play for the near future will be Asia – from Southwest Asia (Iraq and Oman) to South Asia (Pakistan). With China ready to instantly capitalize on every surge of Iran’s natural gas production.

(Copyright 2015 Asia Times Holdings Limited, a duly registered Hong Kong company. All rights reserved. Please contact us about sales, syndication and republishing.)

Fonte: Asia Times

Pepe Escobar: CHINA: DO QUE É QUE TRATA A MAIS NOVA ‘GUERRA’ DE MOEDAS

Pepe Escobar Пепе Эскобар 
Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu

Quando os EUA metem-se em ‘alívio quantitativo’ perene, tudo bem. Quando a União Europeia agarra-se ao seu ‘alívio quantitativo’, tudo bem. Mas quando o Banco da China decide que interessa à nação deixar o yuan cair um pouco, em vez de subir infinitamente… é o Apocalipse.

Bastou o Banco da China desvalorizar o yuan, dois dias consecutivos – movendo-se dentro da banda de 2% que tem para mover-se –, para os proverbiais mortos-vivos financeiros globais pirarem completamente.

Esqueçam a histeria. O xis da questão é que Pequim está injetando mais combustível num jogo longo e bastante complexo: soltar a taxa de câmbio em yuan; deixar que flutue livremente contra o dólar norte-americano; e estabelecer o yuan como moeda global de reserva.

Trata-se pois, essencialmente, de liberar a taxa de câmbio – não de alguma ‘guerra’ monetária, como reza a boataria frenética, de Washington/Wall Street a Tóquio, via Londres e Bruxelas.

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O Banco Popular da China
Observemos a reação de alguns especialistas

Ex-presidente não executivo [orig. non-executive] do [banco de investimentos] Morgan Stanley na Ásia, Stephen Roach, veio com a muito previsível ortodoxia à Deusa do Mercado, alertando para a “clara possibilidade de escaramuça nova e cada vez mais desestabilizante na guerra monetária global que continua a se ampliar. A corrida para o fundo acaba de se tornar bem mais traiçoeira.”

Nota escrita por um grupo de analistas do HSBC é mais realista: “A pressão de depreciação sobre moedas asiáticas pela ação da China, deve diminuir, dado que a nação não visa à construir um yuan muito mais fraco. Fazê-lo seria contradizer o objetivo de promover maior uso global do yuan.”

Mas é Chantavarn Sucharitakul, diretora-assistente do Banco da Tailândia, quem acerta a cabeça do prego no que tenha a ver com toda a Ásia: “O impacto de longo prazo deve ser avaliado em termos de se maior flexibilidade do yuan pode beneficiar a reforma econômica da China, ao mesmo tempo em que depreciar o yuan pode ser positivo para o crescimento econômico da China, que beneficiaria também o comércio regional.”

O próprio Banco da China, em declaração, destaca que a depreciação permitirá que os mercados tenham maior influência sobre a taxa de câmbio do yuan.

Crucialmente importante, destaca também que não há base econômica para a desvalorização, e faz referência ao atual enorme superávit em conta corrente e às gigantescas reservas da China em moeda estrangeira.

Na interpretação de Pequim, o forte laço mantido com o dólar norte-americano interferiu na competitividade da China vis-à-vis seus principais parceiros comerciais – Japão e Europa.

Quer dizer que é hora de sacudir o (balançante) bote. Daí a histeria sobre “guerra monetária” – porque o resultado prático, no médio prazo, será novo impulso às exportações chinesas.

Quando os EUA metem-se em ‘alívio quantitativo’ perene, tudo bem. Quando a União Europeia abraça o seu ‘alívio quantitativo’, tudo bem. Mas quando o Banco da China decide que interessa à nação deixar o yuan cair um pouco, em vez de subir infinitamente… é o Apocalipse.

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QE: Quantitative Easing, alívio quantitativo
É só fazer as contas

Manter o yuan acompanhando de perto o dólar norte-americano serviu muito bem à China – até agora. Os alívios quantitativos na União Europeia e no Japão levaram a euro mais fraco e a yuan mais fraco –, mas o yuan permaneceu estável em relação ao dólar norte-americano.

Tradução: desde junho-2014, já há mais de um ano, a real taxa de câmbio do yuan vinha sendo a mais forte do mundo, tendo crescido 13,5%, mais que a do dólar norte-americano (12,8%).

Não foi difícil para Pequim, fazer as contas: o forte laço mantido com o dólar norte-americano interferiu na competitividade da China vis-à-vis seus principais parceiros comerciais – Japão e Europa.

E simples desvalorização de 2% pode não ser suficiente para fazer aumentar as exportações chinesas. Afinal, o yuan apreciou-se mais de 10% ao longo do ano passado em relação aos principais parceiros comerciais da China.

Daí o que se ouve em Pequim, de insiders, sobre “vozes poderosas no governo” que estariam empurrando o Banco da China para desvalorização total, do yuan, de 10%. Bom… Isso, com certeza, impulsionaria as exportações.

Assim sendo, a desvalorização dessa semana – que gerou tanta histeria – parece apontar para mais algumas desvalorizações aí à frente, pela estrada.

Se se considera que se trata de China, onde o planejamento é feito com anos de antecedência, sem frenesis do dia para a noite, como é prática no território da Deusa do Mercado, vê-se que o jogo tem a ver com converter o yuan em moeda global oficial de reserva.

Uma equipe de especialistas do FMI esteve recentemente em Xangai, falando com funcionários do banco central chinês e do Sistema Chinês de Comércio Exterior e Câmbio [orig. China Foreign Exchange Trading System], que supervisiona o comércio de moeda na China, para estabelecer se o yuan pode ser incluído na cesta, criada pelo FMI, de moedas que gozam de special drawing rights (SDR).

Não surpreendentemente, o próprio FMI elogiou a recente desvalorização: “a China pode, e deve, procurar chegar a sistema de taxa de câmbio realmente flutuante, dentro dos próximos dois ou três anos.”

E o FMI também admite que “taxa de câmbio mais determinada pelo mercado facilitaria as operações SDR, no caso de o renminbi vir a ser incluído, adiante, na cesta de moedas.”

É disso, portanto, que se trata: ajustes chineses, já de olho no processo de preparar o yuan para que se qualifique ao status de moeda de reserva. A decisão final do FMI é esperada para o final de 2015, outono de 2016.

Um yuan internacionalizado estabelecido como moeda global de reserva implica taxa de câmbio “determinada pelo mercado”. É o objetivo ao qual visa o Banco da China. O resto é só tempestade em xícara de chá (de dólares norte-americanos).

Fonte: Liberato

CrossTalk: Tehran Pivot? (Ft. Pepe Escobar & Gareth Porter)

Pepe Escobar: Operation Tomahawk The Caliph

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THE ROVING EYE

By Pepe Escobar

The Tomahawks are finally flying again – propelled by newspeak. 42 Tomahawks fired from a Sixth Fleet destroyer parked in Mare Nostrum, plus F-22s raising hell and Hellfires spouted by drones, that’s a neat mini-Shock and Awe to honor Caliph Ibrahim, aka Abu Bakr al -Baghdadi, self-declared leader of Islamic State.

It’s all so surgical. All targets – from “suspected” weapons depots to the mayor’s mansion in Raqqah (the HQ of The Caliph’s goons) and assorted checkpoints – were duly obliterated, along with “dozens of”, perhaps 120, jihadis.

And praise those “over 40” (Samantha Power) or “over 50” (John Kerry) international allies in the coalition of the unwilling; America is never alone, although in this case mightily escorted, de facto, only by the usual Gulf petrodollar dictatorships and the realm of King Playstation, Jordan, all none too keen to engage in “kinetic activities”.

Aseptic newspeak aside, no one has seen or heard a mighty Gulf Cooperation Council air force deployed to bomb Syria. After all the vassals are scared as hell to tell their own populations they are – once again – bombing a fellow Arab nation. As for Damascus, it meekly said it was “notified” by the Pentagon its own territory would be bombed. Nobody really knows what the Pentagon is exactly telling Damascus.

The Pentagon calls it just the beginning of a “sustained campaign” – code for Long War, which is one of the original denominations of the Global War on Terror (GWOT) anyway. And yes, for all practical purposes this is a coalition of one. Let’s call it Operation Tomahawk The Caliph.

I am Khorasan
Hold your F-22s. Not really. The tomahawking had barely begun when an Israeli, made in USA Patriot missile shot a Syrian Su-24 which had allegedly “violated” Israeli air space over the Golan Heights. How about that in terms of sending a graphic message in close coordination with the Pentagon?

So this is not only about bombing The Caliph. It is a back-door preamble to bombing Bashar al-Assad and his forces. And also about bombing – with eight strikes west of Aleppo – a ghost; an al-Qaeda cell of the mysterious Khorasan group.

No wonder global fans of the Marvel Comics school of geopolitics are puzzled. Two simultaneous villains? Yep. And the other bad guy is even more evil than The Caliph.

Astonishing mediocrity Ben Rhodes, Obama’s deputy national security adviser, has defined Khorasan as “a group of extremists that is comprised of a number of individuals who we’ve been tracking for a long time.”

The Obama administration’s unison newspeak is that Khorasan includes former al-Qaeda assets not only from across the Middle East – including al-Qaeda in Iraq and Jabhat al-Nusra – but also Pakistan, as in an ultra-hardcore extension of the Pakistani Taliban.

What a mess. Al-Qaeda in Iraq is the embryo of ISIS, which turned into IS. Jabhat al-Nusra is the al-Qaeda franchise in Syria, approved by CEO Ayman al-Zawahiri. Both despise each other, and yet Khorasan holds the merit of bundling Caliph’s goons and al-Qaeda goons together. Additionally, for Washington Jabhat al-Nusra tend to qualify as “moderate” jihadis – almost like “our bastards”. Too messy? No problem; when in doubt, bomb everybody.

The Caliph, then, is old news. Those ghostly Khorasan goons are the real deal – so evil that the Pentagon is convinced their “plotting was imminent” leading to a new 9/11.

The ghost in the GWOT machine
Khorasan is the perfect ghost in the GWOT machine; the target of a war within a war. Because Obama in fact launched two wars – as he sent two different notifications to Congress under the War Powers Resolution to cover both The Caliph and Khorasan.

And what’s in a name? Well, a thinly disguised extra demonization of Iran, why not – as historic Khorasan, the previous Parthia, stretched from mainly Iran towards Afghanistan.

Khorasan is theoretically led by The Joker, sorry, al-Qaeda honcho Muhsin al-Fadhli, born in Kuwait in 1981, a “senior facilitator and financier” to Abu Musab al-Zarqawi in Iraq, in the priceless assessment of the State Department. Although Ayman al-Zawahiri, ever PR-conscious, has not claimed the credit, the Pentagon is convinced he sent al-Fadhli to the Syrian part of the Caliphate to attract Western jihadis with EU passports capable of evading airport security and plant bombs on commercial jets.

The Treasury Department is convinced al-Fadhli even led an al-Qaeda cell in Iran – demonization habits die hard -, “facilitating” jihadi travel to Afghanistan or Iraq.

And what a neat contrast to the Society of the Spectacle-addicted Caliph. Khorasan is pure darkness. Nobody knows how many; how long they’ve existed; what do they really want.

By contrast, there are about 190,000 live human beings left in bombed out Raqqa. Nobody is talking about collateral damage – although the body count is already on, and The Caliph’s slick PR operation will be certainly advertising them on YouTube. As for The Caliph’s goons, they will predictably use Mao tactics and dissolve like fish in the sea. The Pentagon will soon be bombing vast tracts of desert for nothing – if that’s not the case already.

There is no “Free Syrian Army” – that Qatari myth – anymore. There are no “moderate” jihadis left in Syria. They are all fighting for The Caliph or for al-Zawahiri. And still the Obama administration extracted a Congressional OK to train and weaponize “moderate rebels”.

US ambassador to the UN Samantha Power – Undisputed Queen of Batshit Craziness – at least got one thing right. Their “training” will “service these troops in the same struggle that they’ve been in since the beginning of this conflict against the Assad regime.” So yes – this “sustained campaign” is the back door to “Assad must go” remixed.

People who are really capable of defeating The Caliph’s goons don’t tomahawk. They are the Syrian Arab Army (roughly 35,000 dead so far killed in action against ISIS/ISIL/IS and/or al-Qaeda); Hezbollah; Iranian Revolutionary Guards advisers/operatives; and Kurdish militias. It won’t happen. This season’s blockbuster is the Empire of Chaos bombing The Caliph and the ghost in the GWOT machine. Two tickets for the price of one. Because we protect you even from “unknown unknown” evil.

Pepe Escobar is the author of Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War (Nimble Books, 2007), Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge (Nimble Books, 2007), and Obama does Globalistan (Nimble Books, 2009).

He may be reached at pepeasia@yahoo.com.

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Fonte: Asia Times