Síria e Iraque são também guerras pela água. E outras virão.

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27/8/2015, Moon of Alabama


Foreign Affairs
traz artigo cuja leitura recomendo sobre as guerras pela água entre Turquia, Síria e Iraque: Rivers of Babylon.

Turquia construiu muitas, muitas barragens por todo o país, para produzir eletricidade, mas também para irrigação. Quando viajei pelo leste da Turquia nos anos 1990s muitos novos projetos, partes doSoutheastern Anatolia Project (tu. GAP), eram visíveis; e água recentemente retida em barragens era fornecida às regiões secas do sudeste mediante canais abertos. Muita daquela água era perdida por causa da evaporação, mas também por que as novas plantações usavam espécies que exigem água intensiva numa região quente e em muitos pontos desértica.

A água agora oferecida a fazendeiros turcos antes corria pelo Eufrates e Tigre, para a Síria e Iraque. Três anos secos na Síria, 2006-2009, induziram muitos fazendeiros a deixar as terras secas e mudar-se para as cidades, onde só poucos deles encontravam trabalho:
À altura de 2011, fracasso de colheitas por causa da seca empurrara cerca de 1,5 milhão de ex-agricultores a emigrar das próprias terras; essa legião de desenraizados virou fonte de recrutas para o Exército Sírio Livre e outros grupos como o Estado Islâmico (também chamadoISIS) e para al-Qaeda. Testemunhos recolhidos por repórteres e ativistas nas zonas de conflito sugerem que a falta de qualquer ajuda do governo durante a seca foi o fator central de motivação para a rebelião antigoverno. Além disso, estudo de 2011 mostram que as hoje fortalezas dos rebeldes em Aleppo, Deir al-Zour, e Raqqa estavam entre as áreas mais duramente atingidas pelo fracasso das colheitas.
A situação no Iraque é similar, se não pior. Grandes regiões perderam a base de sua agricultura e os agricultores pedem soluções e mais apoio.
Em Karbala, Iraque, agricultores estão em desespero e já consideram abandonar suas terras. Em Bagdá, as periferias mais pobres dependem da Cruz Vermelha até para a água de beber. Em algumas ocasiões, a Cruz Vermelha teve de fornecer 150 mil litros por dia. Mais para o sul, as áreas centrais do Irã, as maiores áreas alagadas de todo o Oriente Médio, estão desaparecendo, depois de terem sido re-inundadas depois que Saddam Hussein foi deposto. Em Chibayish, cidade nas áreas alagadas que um dos autores desse artigo visitou recentemente, os búfalos e os peixes estão morrendo. Atualmente, a agricultura ali sustenta no mínimo 60 mil pessoas. Esses e mais centenas de milhares de outros enfrentarão dificuldades muito maiores, se os recursos d’água continuarem a definhar.
A falta de água não é a única razão para as guerras na Síria e Iraque. Mas torna esses países mais propensos a conflitos internos e mais vulneráveis a intromissão de atores externos.

Mas os governos de Síria e Iraque podem fazer pouco para ajudar seus agricultores. Embora haja acordos sobre um fluxo mínimo de água a ser preservado entre Turquia, Síria e Iraque, não há meios pelos quais Síria e Iraque possam realmente pressionar a Turquia para que desimpeça o fluxo de água e preserve o fluxo fixado nos acordos.
Embora acordos vigentes entre Síria e Turquia devam garantir fluxo de 500 metros cúbicos por segundo, 46% dos quais vão para o Iraque, durante o verão os fluxos podem ser muito menores. Segundo Jasim al Asadi, hidrologista de Nature Iraque, quando o Eufrates alcança Nasiriyah no sul do Iraque, é necessário um fluxo mínimo de 90 metros cúbicos por segundo, para uso municipal, industrial e agrícola. Às vezes, o fluxo cai para 18 metros cúbicos por segundo – razão pela qual não surpreende que as áreas alagadas estejam diminuindo rapidamente.Antes da construção da maior barragem nos anos 1970s, o fluxo médio no Eufrates era de 720 metros cúbicos por segundo. Agora, é de cerca de 260 quando entra no Iraque.
Quase dois terços do fluxo que o Iraque recebia já não chegam. Não há meio para substituí-lo. Além disso, a pouca água que está fluindo atualmente pode acabar rapidamente:
As barragens na Turquia, que já ultrapassam 140, têm muito maior capacidade de armazenamento que as que ficam a jusante. E quando as novas barragens turcas estiverem completadas em poucos anos, cerca de 1,2 milhão a mais de hectares serão irrigados dentro da Turquia – aumento de oito vezes, em relação ao que há hoje.[1]

Dada a relativamente melhor saúde hídrica da Turquia, seria razoável supor que o país pararia de construir barragens que tanto dificultam a sobrevivência dos países vizinhos à jusante dos rios. Mas o país fez exatamente o oposto, e planeja concluir 1.700 novas barragens e açudes dentro de suas fronteiras.
A matéria de Foreign Affairs nada diz sobre outro projeto turco que desvia ainda mais água para longe de seus vizinhos do sul. Em 1974 a Turquia invadiu e desde então ocupou o norte de Chipre. Os moradores gregos nativos daquelas áreas ocupadas foram dizimados em processo de ‘limpeza’ étnica, e 150 mil turcos foram transferidos da Turquia e implantados naquela terra grega.

E a Turquia construiu agora aquedutos para fornecer água do território turco às áreas ocupadas da ilha:
Um aqueduto recentemente concluído que cruza pelo fundo do Mediterrâneo levará 75 milhões de metros cúbicos de água fresca anualmente, da Turquia para o norte, i.e. para a parte turca da dividida ilha de Chipre.

A água que chegará pelo aqueduto tornará os turcos cipriotas, que já recebem subsídios de Ancara para sua sobrevivência econômica, ainda mais dependentes da Turquia. Um cenário é, assim, que por estarem mais intimamente ligados ao continente, os cipriotas turcos terão menos liberdade quando negociarem a reunificação com os compatriotas cipriotas gregos, o que tornará difícil alcançar alguma solução.
Outro projeto turco, que vai e vem ao longo dos anos, são planos para construir aquedutos e gasodutos até Israel: Israel espera fornecer gás à Turquia e a Turquia forneceria água a Israel. Água que, além de outras utilidades, faria terrível falta na Síria e no Iraque.

Precisamos de um processo de solução global, com instrumentos para fazer valer os acordos, para regular os fluxos naturais de água através de fronteiras. A alternativa é grave ampliação das guerras entre países que usam água extensivamente em seus próprios territórios, enquanto países localizados à jusante dos rios morrem de sede.

A situação de Turquia, Síria, Iraque não é a única guerra pela água que há hoje no mundo. Paquistão e Índia lutam pela Caxemira ocupada pela Índia, onde estão as nascentes do sistema do rio Indo. O Indo é a água que mantém vivo o Paquistão, e a Índia tem usado ocontrole que tem sobre a Caxemira para pressionar o Paquistão. A próxima guerra entre Índia e Paquistão pode estar a uma seca de distância; e pode ser guerra nuclear.

Outra guerra pela água está fermentando entre Uzbequistão e Tadjiquistão. A Etiópia está construindo uma megabarragem no Nilo que ameaça o principal suprimento de água do Egito. Nada garante que o Egito permita que a construção chegue ao fim. Todos esses casos já levaram ou levarão a guerras entre países ou a guerras civis por causa da água (da falta dela).

O fluxo de água entre países é uma das poucas questões que carecem de governança global. Um livro de regras e um corpo judicial global que determine que todos os povos ao longo de um curso de água devem beneficiar-se dele. Megaprojetos como o GAPna Turquia teriam de ser julgados por aquele corpo judicial e suas regras teriam de ser apoiadas em poderes coercitivos significativos.

É isso ou, se não for isso, haverá muitas guerras, muito intensas, de disputa pelo acesso à água. *****


[1] “Uma das principais razões para os projetos insanos dessas barragens turcas jamais concluídas, por falar delas, é inundar os vales e privar os curdos turcos de terreno onde se possam esconder e abrigar-se (…). Os curdos turcos sempre se opuseram firmemente àquelas barragens” (Bart, 27/8/2015, 2:05:00 PM | 3, nos Comentários a esse postado) [NTs].

Fonte: Moons of Alabama

Pepe Escobar: Pipelineistan — the Iran-Pak-China connection

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Iranian Foreign Minister Javad Zarif has just been to Islamabad to talk serious business with Pakistani Prime Minister Nawaz Sharif. And the serious business had to be Pipelineistan – as in what next for the Iran-Pakistan (IP) gas pipeline.

Zarif essentially said that IP is a go – again – as soon as sanctions against Iran start to melt, by late 2015 or early 2016. Iran has already invested $2 billion in the Iranian stretch of IP, and China will finance the Pakistani stretch.

This is a major Pipelinestan gambit, as Asia Times has previously reported. And as a side note, as soon as IP goes online, all those years of incessant harassing by successive Bush and Obama administrations will finally come down to nought.

China West-East Gas Pipeline

Even before Zarif hit Pakistan something serious was going on in … Karamay. You may have not heard of Karamay, but this town in Xinjiang is right at the center of the Eurasian action; it has just hosted the 2015 China-Pakistan Economic Corridor Forum.

As we all know, the China-Pakistan Economic Corridor (CPEC) is an absolutely key component, worth $46 billion, of the China-driven New Silk Roads. CPEC will link Kashgar in Xinjiang to the Arabian Sea port of Gwadar via highways (essentially an upgrade of the fabled Karakoram Highway), railways, industrial parks, fiber optic networks and – eventually – a pipeline.

And that pipeline will be no less than an extension up north of IP.

As part of CPEC, for instance, last month TBEA Xinjiang SunOasis — a Chinese company — finished the biggest solar power plant in Pakistan, for $215 million, in only three months.

At Karamay, China and Pakistan signed 20 CPEC-related cooperation agreements. They even issued a Karamay manifesto, stressing the political/economic importance of the Silk Road Economic Belt and the 21st-Century Maritime Silk Road. CPEC is the largest China-Pakistan joint project since the construction of the Karakoram highway in 1979. And CPEC is only one among six economic corridors to be developed as part of the New Silk Roads.

Yet the full impact of CPEC will only be noted by the next decade. That’s when the New Silk Road for the bulk of China’s energy imports from the Middle East will be cut short by no less than 12,000 kilometers.

Ashgabat wakes up

Meanwhile, Turkmengaz — Turkmenistan’s national gas company — has taken a 51% stake in a consortium still seeking to build the perennially troubled TAPI (Turkmenistan-Afghanistan-Pakistan-India) gas pipeline, a serious competitor to IP if it ever gets built.

That’s a game-changer because the Turkmen will now be in charge of the construction and operation of TAPI Ltd. The cost is a whopping $10 billion (IP will cost three times less); investment to the tune of $4 billion and $6 billion in debt.

Still it all comes back to the same problem; who wants to invest in a steel umbilical cord prone to all sorts of sabotage traversing a war zone — western Afghanistan all the way to Kandahar? In theory, “host countries” should be responsible for TAPI’s security; in the case of Afghanistan, that qualifies as black humor.

For the moment, Turkmengaz can only count on the Manila-based but Japan/US-controlled Asian Development Bank (ADB). That’s not much. The notoriously opaque regime in Ashgabat says it’s seeking other backers — but no one knows where and how.

TAPI is still a pipe dream. Pakistan and India are not seriously considering it viable even in the medium term. So it’s back to IP.

Even after sanctions are lifted, Iran will need to find an ocean of investment — at least $180 billion — to upgrade its energy infrastructure and be able to start exporting natural gas to Europe, in competition with Gazprom.

So Iran’s privileged Pipelineistan play for the near future will be Asia – from Southwest Asia (Iraq and Oman) to South Asia (Pakistan). With China ready to instantly capitalize on every surge of Iran’s natural gas production.

(Copyright 2015 Asia Times Holdings Limited, a duly registered Hong Kong company. All rights reserved. Please contact us about sales, syndication and republishing.)

Fonte: Asia Times

Mas… E qual é o verdadeiro negócio com o Irã?

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31/7/2015, The Saker, The Vineyard of the Saker

Tenho de começar a coluna com um mea culpa: desde pelo menos 2007, vivo a prever que os EUA atacarão o Irã; e até agora, sempre errei completamente. O ataque nunca aconteceu. Mas acertei, ou pelo menos espero ter acertado, nas razões pelas quais esse ataque não conseguiu se materializar, pelo menos até agora. Em termos puramente militares, um ataque contra o Irã não poderia ser bem-sucedido, porque o Irã tinha opções demais, para contra-ataque assimétrico. Mas as verdadeiras razões por trás do fracasso certo de qualquer ataque dos EUA contra o Irã estão enterradas sob uma montanha de mitos que cercam a questão nuclear iraniana. Hoje, proponho examinar, embora não muito profundamente, o maior desses mitos.

O mito: Irã trabalha num programa militar nuclear

Esse, claro, é o principal mito, a pedra basilar de todas as demais tolices que se escreveram sobre o Irã. A resiliência desse mito baseia-se num fator simples: é impossível provar uma premissa que comece com “não”. Assim como o Iraque jamais pôde provar que não tinha armas de destruição em massa, o Irã não pode provar que não tem programa militar nuclear. A comunidade de inteligência dos EUA mostrou nível de coragem realmente surpreendente quando, apesar da pressão imensa de neoconservadores que endossavam esse mito, a comunidade concluiu, no 2007 NIE, que o Irã tivera um programa nuclear no passado, mas parou de trabalhar nele. Mesmo assim, o bom-senso nos confirma o que se pode descrever como “prova circunstancial eloquente” de que o Irã não tem qualquer intenção de desenvolver alguma arma nuclear.

Para começar, desenvolver realmente uma arma nuclear não significaria que o Irã conseguiria usá-la, muito menos contra Israel. À parte a bomba propriamente dita, capacidade nuclear implica ter todos os seguintes itens:

– Possibilidade de testar a bomba nuclear (se não é testada, não tem qualquer serventia).

– Sistema de transporte e disparo (míssil, avião).

– Habilidades para proteger a bomba nuclear e o sistema de transporte/disparo contra ataque preventivo para desarmá-los.

– E o mais importante de tudo: uma estratégia de guerra, uma doutrina militar sobre como usar a capacidade nuclear.

Fato é que o Irã não tem como testar bomba alguma, sem que o planeta tome conhecimento. O Irã não tem sistema confiável e que sobreviva, para transportar e disparar a bomba; e, mais importante ainda, o Irã não pode nem cogitar de usar bomba atômica contra EUA ou Israel, sem sofrer ataque devastador de retaliação. Tenham em mente que, embora, com certeza total, os militares israelenses não tenham meios pelos quais ferir significativamente o Irã com armas convencionais, o estado judeu com certeza também total tem meios pelos quais ferir gravemente o Irã, com o vasto e sofisticado arsenal nuclear israelense. Em outras palavras, usar nukes seria suicídio para o Irã.

Pregadores e defensores do mito das armas nucleares iranianas vivem a citar a República Popular Democrática da Coreia, a “Coreia do Norte”, como “prova de que bombas atômicas são proteção eficaz contra ataques do Tio Sam”. O problema é que essa gente não presta atenção a uma diferença crucial: a capital da Coreia do Sul, Seul, está dentro da área de alcance dos tiros, e a RPDC tem vastíssima capacidade militar convencional, a qual, embora envelhecida e pouco sofisticada, mesmo assim pode causar dano terrível à Coreia do Sul e às forças dos EUA ali alocadas. Segundo a Wikipedia, a RPDC tem 9,495 milhões de pessoal ativo, da reserva e paramilitares (inclusive 180 mil soldados de forças especiais), o que faz da ‘Coreia do Norte’ a maior organização militar da face do planeta. E tudo isso, literalmente, a apenas uns poucos passos de caminhada de distância de Seul! Bem diferente disso, o Irã absolutamente não tem poder para projetar capacidades que tornariam possível atacar Israel.

Quando encurralados por argumentos lógicos irrespondíveis, os apoiadores/pregadores do mito do programa militar nuclear do Irã voltam sempre ao clichê super desgastado de “muçulmanos são fanáticos”, todos querendo “morrer por Alá” e toda a correspondente restante imbecilidade ‘ensinada’ ao público pelos veículos da imprensa-empresa. O problema aí é que há exatamente nenhuma prova, provas zero, que demonstre a dita “insanidade” dos líderes iranianos (e, não, não, Ahmadinejad jamais disse que o Irã varreria Israel do mapa). De fato, considerando que desde 1979 os EUA vêm fazendo tudo que seja imaginável para derrubar a República Islâmica ou, no mínimo, para criar um pretexto para poder atacá-la, eu diria que os iranianos são gente extremamente sofisticada e altamente inteligente. O modo como o Irã usou os neoconservadores norte-americanos para fazer os EUA atacarem o Iraque (o pior inimigo dos iranianos), em vez de o Irã ter de atacar, me parece movimento simplesmente brilhantíssimo. Não, os iranianos não são, absolutamente não, doidos; eles sabem que ter uma arma nuclear não ajudará a proteger o Irã; e eles sabem que jamais poderiam usá-la, sem determinar o fim da República Islâmica. Além disso, os que tanto acreditam que os muçulmanos sejam doidos com tendência ao suicídio nuclear, jamais tiveram a ideia de bombardear o Paquistão. Quero dizer: por que o Irã, sim, mas o Paquistão, não?

A realidade: o Irã é ameaça civilizacional à hegemonia dos EUA, a Israel e ao Reino da Arábia Saudita

Essa é a real razão de todas as tensões, agitar de sabres e histeria: o Irã representa enorme ameaça política, social, econômica, religiosa e até civilizacional aos EUA, a Israel e aos sauditas. Diferente do regime saudita obscurantista e totalitário, a República Islâmica é democrática, democracia islâmica, socialmente progressista, capaz de alcançar sucessos realmente espantosos, no plano econômico, científico e social, sob condições extremamente duras, que incluíram, desde sanções econômicas e políticas impostas pelos EUA, até uma devastadora guerra, que durou sete anos, contra o Iraque (integralmente apoiado e armado até os dentes por EUA, União Soviética e França). Oh, claro, o Irã não é sociedade perfeita e sem mácula, mas, comparado ao resto do Oriente Médio, é realmente um paraíso sobre a Terra.

Que o Irã tenha alcançado tudo que alcançou, em aberto e total desafio contra ambos, EUA e Israel, é absolutamente inaceitável para o Império Anglo-sionista. Só isso já basta, como razão para desejarem fazer ao Irã o que recentemente fizeram à Líbia e à Síria. Quanto aos sauditas, não só o reino medieval wahhabista deles aparece como ainda mais flagrantemente bárbaro, se comparado ao Irã, mas, também, há uma considerável minoria xiita que vive quase exatamente sobre os maiores campos de petróleo do reino. Na verdade, por alguma ironia do destino, se se examina um mapa da Arábia Saudita ou do Iraque, logo se vê que os xiitas vivem quase exatamente sobre os mais ricos campos de petróleo dos dois países. Por fim, o Irã é aliado natural do regime alawita na Síria e, especialmente, do Hezbollah no Líbano.

Um aspecto dos sucessos da República Islâmica é que o Irã esteve, como ainda está, trabalhando num programa nuclear para finalidades civis. Primeiro, o Irã sempre precisou de fonte alternativa de energia e por isso, já nos aos 1950s, os EUA forneceram ao Irã inúmeras tecnologias nucleares civis, sob programa Atoms for Peace. Segundo, o Irã também está engajado em pesquisa nuclear, também para finalidades médicas; e ter programa de pesquisa nuclear civil é fonte de grande prestígio.

Mas ainda mais importante que isso, o programa nuclear iraniano converteu-se em um símbolo de soberania. Tio Sam diz “não, você não pode”, e o Irã replica “ah, podemos sim, podemos e faremos.” Esse é o verdadeiro ‘crime’ cuja ‘culpa’ pesa sobre o Irã: ter desafiado a hegemonia anglo-sionista sobre o Oriente Médio.

Pode haver muitas razões pelas quais os EUA assinaram afinal esse acordo ‘P5+1’ com o Irã. Vão de simples “fadiga imperial” até um desejo, em Obama, de mostrar o ‘acordo’ como feito de sua presidência (absolutamente catastrófica, sem nem o acordo para exibir). Pode também ter acontecido de o establishment de segurança dos EUA ter feito contas (certas) e concluído que os EUA simplesmente não teriam fôlego para fazer guerra ao Irã. Seja qual for a causa, fato é que o acordo foi afinal firmado, e esse é resultado, mesmo que provisório, extremamente bom.

Potencialmente, o Irã pode desempenhar papel crucial e altamente benéfico no Oriente Médio, primeiro e sobretudo, como único país realmente capaz de dar conta do Daesh (também chamado “Estado Islâmico”, ISIL e ISIS) e de estabilizar o Iraque. Sim, é verdade: enquanto os EUA continuarem a apoiar a al-Qaeda na Síria, os horrores só continuarão. De fato, algum analista da CIA particularmente mais pervertido poderia argumentar que dar poder ao Irã pode tornar menos arriscada a derrubada do regime sírio, porque, mesmo no caso de Damasco cair frente à al-Qaeda, o Irã ainda teria meios para conter os terroristas.

Seja qual for o caso, a verdade é que, hoje, só o Irã e o Hezbollah estão impedindo o Daesh de assumir o controle de toda a região. Assim sendo, eu não descartaria totalmente a possibilidade de a CIA & Co. ter aliviado a pressão sobre o Irã, mesmo temporariamente, para dar ‘um aperto’ no Daesh (empurrando os dois lados na direção do conflito, como ensina a velha anglo-tradição).

Aqui tenho de voltar ao mea culpa inicial. Passei anos prevendo que os EUA atacariam o Irã e, em vez de ataque, o que se tem hoje é um Plano Amplo Conjunto de Ação (PACA) [ing. Joint Comprehensive Action Plan, JCAP] entre o Irã e o P5+1.

Confesso que estou tão feliz com o acordo, quanto descrente de que venha a ser implementado. Estou feliz, porque, se o acordo for levado a sério, pode realmente fazer sentido e diluir uma situação desnecessariamente perigosa. Mas também estou muito cético. Quando observo a reação histérica do lobby israelense nos EUA, custo a acreditar que o acordo, algum dia, venha a ser cumprido pelos EUA. Afinal de contas, se os neocons não controlam completamente a Casa Branca, com certeza controlam todo o Congresso e a imprensa-empresa nos EUA. E nem o fato de que a maioria dos judeus norte-americanos apoiam o acordo com o Irã os deterá. Como já disse incontáveis vezes, o sionismo não é questão étnica nem religiosa, é uma ideologia; e os judeus norte-americanos não têm mais influência sobre o regime dos 1% no poder, que os norte-americanos não judeus. Quanto aos 1%, eles só são leais a eles mesmos. Significa que os siodoidos [orig. Ziocrazies] conseguirão destruir o acordo com o Irã? Honestamente não sei, mas confesso que, por natureza, não tendo ao otimismo. *****

UN endorses Iran nuclear deal unanimously, paving way for sanctions relief

Origins of ISIS – Special Coverage

Publicado em 5 de mar de 2015

In a special report, RT America examines the origins, power and expansion of the terrorist group known as the Islamic State (IS, formerly known as ISIS). RT’s Ben Swann delves into the roots of the organization while Ameera David explains how the group amasses the millions of dollars it requires to operate. Finally, Manuel Rapalo explores how the Iraqi army fell apart despite benefiting from billions of dollars of US money – and military hardware – meant to ensure security.

Fonte: RT

Kurdi-stand? (ft Chatham House analyst Fadi Hakura)

Sweden to recognise Palestinian state

Sweden is to “recognise the state of Palestine”, Prime Minister Stefan Lofven has said, the first long-term EU member country to do so.palestine-flag_77994423_77994422“The conflict between Israel and Palestine can only be solved with a two-state solution,” he said during his inaugural address in parliament.

It should be “negotiated in accordance with international law”, he said.

Sweden last month voted out the centre-right Alliance coalition of Fredrik Reinfeldt after eight years.

That allowed the Social Democrats led by Mr Lofven to form a government with other parties on the left including the Greens.

“A two-state solution requires mutual recognition and a will to peaceful co-existence. Sweden will therefore recognise the state of Palestine,” Mr Lofven said on Friday, without giving a timeline for the recognition.

Sweden will join more than 130 other countries that recognise a Palestinian state.

Most of the EU’s 28 member states have refrained from recognising Palestinian statehood and those that do – such as Hungary, Poland and Slovakia – did so before joining the bloc.

Long campaign

The Palestinians have long sought to establish an independent, sovereign state in the West Bank, including East Jerusalem as its capital, and the Gaza Strip – occupied by Israel during the 1967 Six Day War.

Correspondents say Sweden’s move is likely to be strongly criticised by Israel and the US, who argue that an independent Palestinian state should only emerge through negotiations.

In 1988, the late Palestinian leader Yasser Arafat unilaterally declared a Palestinian state within the pre-June 1967 lines.

This won recognition from about 100 countries, mainly Arab, Communist and non-aligned states – several of them in Latin America.

The 1993 Oslo Accord between the Palestine Liberation Organisation (PLO) and Israel led to mutual recognition. However, two decades of on-off peace talks have since failed to produce a permanent settlement.

In 2012, the UN General Assembly voted to upgrade the status of the Palestinians to that of a “non-member observer state”.

It followed a failed bid to join the international body as a full member state in 2011 because of a lack of support in the UN Security Council.

BBC News