Depois de fracassar no Iraque, na Síria, no Líbano e no Iêmen, Arábia Saudita tenta uma “vitória” na Palestina 

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24/6/2018, Elijah J Magnier, Blog

Tradução: Vila Vudu

A Arábia Saudita está à procura de uma “vitória” depois de repetidas derrotas de sua política exterior no Oriente Médio. Na Síria, a rica petromonarquia, apesar de ter consumido dezenas de bilhões de dólares na empreitada, não conseguiu a tão desejada ‘mudança de regime’. Tirou jihadistas da cadeia e facilitou-lhes a viagem para o Levante para que convertessem a Síria num “estado falhado” que jamais conseguisse opor-se à expansão do Wahhabismo e de Israel. No Iêmen, mais de 40 mil pessoas foram mortas no bombardeio e nos ataques indiscriminados de sauditas-Emirados contra o mais pobre dos países muçulmanos no Oriente Médio. Resultado disso, 22 milhões de pessoas, segundo o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, carecem hoje de urgente socorro humanitário. No Iraque – talvez o maior desapontamento que os sauditas sofreram –, o governo central em Bagdá conseguiu evitar que a Mesopotâmia fosse dividida. E no Líbano, aliados sauditas não conseguiram assegurar maioria nas eleições para o Parlamento, na qual os aliados do Irã saíram vitoriosos.

Só restou aos sauditas um último “dossiê” que ainda podem tentar promover: é a vez da Palestina.

A mídia israelense Maariv comentou um encontro secreto entre o príncipe coroado saudita Mohammad Bin Salman e o primeiro-ministro de Israel Benyamin Netanyahu no Palácio Real da Jordânia, em Aman, semana passada. A notícia foi ‘vazada’ para os jornais – no típico estilo israelense para fugir de qualquer responsabilidade direta. Claramente, Israel quer beneficiar-se da oportunidade de Trump na presidência, para obter o maior número possível de concessões, mais do que jamais obteve de qualquer presidente dos EUA. Mas Trump começou por disparar ameaças contra líderes árabes, especificamente contra as ricas petromonarquias. Disse que só estariam no poder graças à proteção que lhes dá o exército norte-americano. E se quisessem que as coisas continuassem nesse pé… Foi e é ameaça clara.

Trump fez pior, impondo aos sauditas pesadas contas a pagar, a título de “acordos comerciais”. E aproveitou-se também da submissão dos árabes e de aceitarem esse tipo de relação de uma só mão, para atrair para o seu lado o jovem príncipe coroado, forçando a criação de um relacionamento em alta velocidade entre os sauditas e Israel. Para proteger o reino, a Arábia Saudita não enviou delegação a Israel, mas fechou os olhos quando os EUA reconheceram “Jerusalém como capital de Israel”.

O Bahrein, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e o Qatar já haviam estabelecido relações com Tel Aviv. Mas a Arábia Saudita é ainda vista como guardião da “Pedra Preta” mais sagrada dos muçulmanos, da “casa de Deus” em Meca construída por Abraão e que dezenas de milhões de muçulmanos visitam a cada ano. Assim sendo, a reunião cuja notícia vazou, entre o futuro rei e o líder israelense Netanyahu é evento significativo. É o começo da integração e de reconhecimento mais oficial de Israel pelos sauditas. Não há dúvidas de que é parte do que Trump e Israel estão preparando, a que deram o título de “o acordo do século”.

Na verdade, os EUA preparam-se para anunciar unilateralmente seu tal “acordo do século”. Unilateralmente, porque a principal parte envolvida, os palestinos, recusam qualquer acordo que considere Jerusalém como capital de Israel, que extinga o direito dos refugiados de retornar à Palestina e que separe Gaza e Cisjordânia. Como se espera, Trump exigirá que a Arábia Saudita (e os Emirados) financie seu “acordo”, apresentando tentações financeiras à Autoridade Palestina, ou a Palestina será atacada por pesadas sanções. Os EUA já cortaram $65 milhões da dotação desse ano garantida à Palestina pela Agência da ONU para Refugiados (UNRWA). Israel acusa a UNRWA de estar contribuindo para o crescimento, não para a redução do número de refugiados palestinos. Essa queixa, formulada por Israel, visa a pôr fim, para todos os palestinos até à possibilidade de retornarem à Palestina.

O presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas boicotou e criticou duramente o establishmentnorte-americano, desde o reconhecimento ilegal de Jerusalém como capital de Israel. É onde a Arábia Saudita terá maior serventia.

Abbas recusou-se a receber o principal assessor e genro do presidente dos EUA Jared Kushner e Jason Greenblatt, representante especial de Trump para negociações internacionais. Abbas sabe que não pode tomar nenhuma decisão que vá além de sua autoridade pessoal, por maior que seja a pressão de EUA ou dos sauditas contra seu cargo na Autoridade Palestina.

Na verdade, o apoio do Golfo à decisão de Trump, em relação a Jerusalém e a todas as demais escolhas políticas que garantam vantagem desmedida a Israel à custa de direitos dos palestinos, está fazendo aumentar sempre mais o isolamento da Arábia Saudita, entre as populações árabes e muçulmanas (que andam na direção oposta aos próprios ditos governantes). Israel e os EUA carregam a Arábia Saudita com eles, para garantir alguma legitimidade oficial ao tal “acordo do século”. Mas, mais uma vez, não se pode esquecer que a Palestina arde, em fogo desde que Trump anunciou Jerusalém como capital de Israel. Os palestinos continuarão a escalar em solo, custe o que custar em vidas humanas, porque estão em causa seus direitos mais fundamentais. E de modo algum cederão nesses direitos, quer a Arábia Saudita aprove os delírios de Israel ou não.

O príncipe coroado Mohammad Bin Salman tem os meios para pressionar o rei Abdallah da Jordânia, guardião haxemita dos sítios sagrados de Jerusalém, usando poder financeiro para oferecer soluções à crise econômica pela qual a Jordânia passa. Mas a Arábia Saudita não pode de modo algum oferecer Jerusalém a Trump ou, na verdade, a Netanyahu, porque al-Aqsa pertence a todos os crentes, não só ao palestinos.

Parece inacreditável que a Arábia Saudita não perceba que está empurrando os palestinos para os braços do Irã – único país, além da Síria e aliados no “Eixo da Resistência”, que recusa a hegemonia dos EUA, não importa o quanto Trump os ameace. Forçar a mão dos palestinos não levará a nenhum efeito positivo. Só fará escalar as agitações na Palestina e gerará mais motivos e pretextos “legítimos” para a ação dos jihadistas no Oriente Médio, ajudando-os a conseguir mais e mais novos recrutas para lutar contra os países que se submeteram cegamente ao desejo de EUA-Israel – o que sempre custa alto preço – e ignoraram a vontade do povo.*******

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Afiliados da al-Qaeda entre os terroristas ‘do bem’ dos EUA? Forçada a escolher, Israel prefere os terroristas, ao Irã

Cartoon. Terrifying terror. US. Israel. Daesh ISIS. UN. Syria. #1ab

25/7/2018, Sharmine Narwani, The American Conservative

Imagem: Cidade de Manbij

DARAA, Síria – À primeira vista, tudo parece calmo nessa cidade do sul da Síria, onde aconteceram os primeiros protestos há sete anos. Moradores circulam pelas lojas, nos preparativos para o jantar de Iftar, quando interrompem o jejum diário durante o mês santo de Ramadan.

Mas mesmo assim a tensão é palpável nessa cidade hoje sob controle do governo. Há poucas semanas, as conversações de paz organizadas pela Rússia no sul da Síria foram rompidas, quando militantes sustentados pelo ocidente rejeitaram qualquer paz negociada.

Venha a acontecer batalha total no sul, ou não, visitas semana passada aos três governorados do sul da Síria, Daraa, Quneitra e Suweida, revelam uma surpreendente possibilidade: a franquia síria da al-Qaeda – a Frente Nusra – parece estar entrincheirada profundamente entre os militantes sustentados pelos EUA, em cidades e vilarejos chaves estratégicos espalhados por todo o sul.

A imprensa e os think tanks norte-americanos encobrem esse fato, referindo-se sempre a todos os combatentes da oposição como “rebeldes” ou “moderados.” Os mapas deles e só mostram três cores: vermelho para o Exército Árabe Sírio (EAS) e aliados; verde para forças de oposição; e preto para o ISIS.

Mas… onde está a Frente Nusra, que especialistas ocidentais consideram há muito tempo uma das forças mais potentes que combate conte ao Exército Árabe Sírio? Terão sido simplesmente – e convenientemente – apagadas do mapa de batalhas na Síria?

Contatos com especialistas militares sírios, analistas e combatentes da oposição durante minha viagem revelaram que a Frente Nusra está bem viva e ativa nos campos de batalha do sul. O mapa abaixo identifica claramente áreas que Nusra controla no sul, mas há muitas outras áreas que não aparecem nesse mapa, nas quais a Frente Nusra está presente e divide o poder com outros grupos militantes.

Sul da Síria:
Mapa com localização dos militantes mantidos pelos EUA

Apesar de EUA e ONU designarem a Frente Nusra como organização terrorista, o grupo está combatente abertamente ao lado da “Frente Sul,” grupo que reúne 54 milícias de oposição ao governo sírio criado e comandado por uma ‘sala de guerra’ liderada pelos EUA sediada em Aman, Jordânia, chamada Centro de Operações Militares [ing. Military Operations Center (MOC)].

Não é fácil obter informação sobre esse MOC, mas fontes dentro da Síria – de combatentes de oposição e de militares sírios (atuais e aposentados) de alta patente – sugerem que o centro de comando reúna Grã-Bretanha, França, Jordânia, Israel e alguns Estados do Golfo.

Dizem que o MOC fornece dinheiro, armas, salários, inteligência e treinamento para as 54 milícias, muitas das quais não passam de cerca de apenas 200 milicianos, divididos por sua vez em grupos menores, alguns com não mais de poucas dúzias de milicianos.

O general Ahmad al-Issa do Exército Árabe Sírio, comandante da linha de frente em Daraa, diz que oMOC é uma operação liderada pelos EUA que controla os movimentos dos “terroristas” da Frente Sul e é fortemente influenciada pelos objetivos estratégicos de Israel no sul da Síria – um dos quais é tomar o controle sobre suas áreas de fronteira, para criar uma zona tampão (“buffer”) dentro de territórios sírios.

Como soube disso? Issa diz que sua informação é resultado de um cruzamento de várias fontes, incluindo militantes reconciliados/capturados e inteligência do próprio MOC. O general cita o próprio manual doMOC distribuído aos militantes como exemplo do centralismo dos israelenses: “Número 1, jamais ameaçar ou abordar qualquer fronteira israelense de modo algum. Número 2, proteger as fronteiras com o Golan [ocupado por Israel], para que ninguém consiga entrar em Israel.”

Para ilustrar o controle que o MOC exerce sobre os militantes no sul, Issa cita ainda outras regras do Manual: “Número 3, jamais empreender qualquer ação militar sem antes obter autorização do MOC. Número 4, se o MOC ordena que os grupos ataquem ou suspendam o ataque, a ordem deve ser cumprida imediatamente.”

O que acontece se as regras são desobedecidas? “Os salários são cortados,” diz Issa.

Os grupos de oposição armada apoiados pelo MOC são afiliados principalmente ao Exército Sírio Livre (ESL), ele próprio grupo sem definição precisa, que pode ser usado em diferentes formações para diferentes finalidades, formado de militantes que já trocaram de nome e filiação com frequência durante o conflito na Síria.

Ao longo da guerra, o ESL combateu ao lado da Frente Nusra e do ISIS – muitos até se alistaram nesses grupos. Hoje, apesar dos esforços para sanear o ESL e o Front Sul apresentando-os como facções “não sectárias” e não extremistas, como o Exército Yarmouk, a Brigada Mu’tazz Billah, a Divisão Salah al-Din, a Brigada Fajr al-Islam, a Brigada  Fallujah al-Houran, o grupamento Bunyan al-Marsous, a Brigada Saifollah al-Masloul e outras estão realmente ocupando áreas chaves em Daraa, associadas com a Frente Nusra.

Nada disso é novidade para os deputados e senadores norte-americanos. Mesmo antes de o MOC ser criado, em fevereiro de 2014, militantes da Frente Nusra participavam com destaque de manobras militares vitais para o ESL. Como explica um ativista da oposição em Daraa: “O ESL e a Frente Nusra unem-se para operações, mas há um acordo entre eles, para deixar o ESL liderar para efeito externo, porque não querem assustar a Jordânia ou o ocidente (…). O ESL apresenta como se fossem suas, operações que foram executadas de fato pela Frente Nusra.”

Há esforços em todos os níveis, até nos mais altos, para esconder a profundidade da cooperação que liga a Frente Nusra e o ESL. Um comandante do ESL em Daraa diz: “A Frente Nusra toma parte em muitos combates, mas nada informamos sobre isso à sala de operações (MOC).”

É altamente duvidoso que os militares norte-americanos não saibam desses movimentos. Os norte-americanos trabalham em ambiente de “não pergunte, não conte” no que tenha a ver com a cooperação entre ESL e Frente Nusra. Em 2015, em conversa comigo, o porta-voz do CENTCOM tenente comandante Kyle Raines fugiu a uma pergunta sobre por que armas que o Pentágono vetava para combatentes estavam aparecendo em mãos da Frente Nusra. Disse ele: Não temos ‘comando e controle’ sobre essas forças – só os ‘treinamos e capacitamos’. Com quem digam que se aliaram é problema deles.”

Na prática, os EUA não dá sinais de se incomodar com a aliança com a Frente Nusra – apesar de o grupo ser classificado como organização terrorista – contanto que o serviço seja feito.

Já há vários anos se veem armas norte-americanas em mãos da Frente Nusra, inclusive os caros mísseisTOW, armas poderosas que alteraram o rumo dos combates no teatro militar sírio. Quando se fala de armas norte-americanas encontradas em mãos da al-Qaeda no primeiro ou segundo ano de um conflito, assume-se que seja erro de informação. Mas quando o problema persiste depois de sete anos, já começa a parecer que esteja em ação uma política para induzir todos a olhar para outro lado.

Também não é difícil compreender por que mapas norte-americanos ignoram claramente as provas de que há elementos da Frente Nusra ativos nas milícias sustentadas pelos EUA. O grupo, aliás, é mantido fora de acordos de cessar-fogo, apresentado como alvo a ser buscado sempre por ataques militares.

Em dezembro de 2015, a Resolução n. 2.254 do Conselho de Segurança da ONU conclamava os “Estados Membros a impedir e suprimir atos terroristas cometidos especificamente pelo Estado Islâmico no Iraque e Levante (ISIL, também conhecido como Da’ech), a Frente Nusra [ing. Al-Nusra Front (ANF)], e todos os demais indivíduos, grupos, subunidades e entidades associadas com Al Qaeda ou ISIL, e outros grupos terroristas, como determinado pelo Conselho de Segurança” (itálicos meus). Além disso, a Resolução também esclarece que “não se aplicam acordos de cessar-fogo nas ações ofensivas ou defensivas contra esses indivíduos, grupos, subunidades e entidades.”

Essencialmente, significa que o Exército Árabe Sírio e aliados podem atacar quaisquer áreas no sul da Síria onde os milicianos da Frente Nusra – e “entidades associadas” a eles mantêm bases. Com efeito, a lei internacional permite assalto militar sírio contra milícias apoiadas pelos EUA que ocupem os mesmos espaços que a Frente Nusra, e reduz a capacidade para tomar medidas de retaliação, de patrocinadores estrangeiros dessas milícias.

Por isso, a Frente Nusra não aparece nos mapas norte-americanos.

Em entrevista semana passada, o presidente Bashar al-Assad da Síria culpou a “interferência de Israel e dos norte-americanos” pela interrupção dos esforços de reconciliação no sul. O presidente sírio disse queaquela interferência “pressiona os terroristas naquela área, para que trabalhem contra qualquer compromisso ou resolução pacífica.”

Hoje, na fronteira de Israel e Síria, há grande número de acampamentos da Frente Nusra e do ISIS, que Israel claramente prefere ao Exército Árabe Sírio e seus aliados iranianos e Hezbollah. O Wall Street Journal até noticiou ano passado que Israel, pela fronteira, estava secretamente pagando salário, alimento, combustível e munição a militantes.

No início de junho, dois islamistas, ex-membros do ESL (um dos quais também miliciano da Frente Nusra) em Beit Jinn – área estratégica na fronteira de Síria, Líbano e Israel – disse-me que Israel teria garantido salários àquelas milícias durante um ano antes de o acordo de reconciliação ser firmado com o governo sírio. “Todos os meses Israel nos manda $200 mil para continuarmos lutando,” disse um deles. “Nossos líderes seguem os países de fora. Éramos sustentados pelo MOC, continuaram a nos sustentar até o último momento,” disse ele.

Mais cedo naquele dia, na vila de Hadar no Golan sírio, membros da comunidade drusa descreveram umataque sangrento da Frente Nusra em novembro, que deixou 17 mortos: “Todos aqui viram como Israel ajudou os terroristas da Frente Nusra naquele dia. Deram cobertura de artilharia das colinas, para ajudar a Frente Nusra a tomar Hadar. No fim dos combates, Israel leva os terroristas feridos para atendimento médico,” diz Marwan Tawil, professor de inglês em Hadar.

“A linha de cessar-fogo (fronteira sírio-israelense) está a 65 km, entre onde estamos e a Jordânia, é só essa área é controlada pelo Exército Árabe Sírio,” explica o prefeito de Hadar. “60 quilômetros estão com Nusra e Israel, e os outros cinco estão com o Exército Árabe Sírio.”

Israel está tão pesadamente empenhada em manter a Síria e aliados longe de suas fronteiras, quepromoveu ativamente al-Qaeda e outros extremistas no teatro ao sul da Síria. Como explicou o ministro da Defesa de Israel Moshe Ya’alon, em frase que ganhou fama em 2016, “Na Síria, se a escolha é entre Irã e o Estado Islâmico, eu escolho o Estado Islâmico.” Para justificar as intervenções na batalha que está por vir, EUA e Israel dizem que as forças do Irã e do Hezbollah estão presentes no sul, embora não se veja sinal disso em campo, em Daraa e Quneitra.

Múltiplas fontes confirmam isso em Daraa, e insistem que só há uns poucos conselheiros – não soldados – do Hezbollah, em todo o governorado.

Assim sendo, porque o alarde? “É esforço de diplomacia pública para fazer crer que o ocidente teria expulsado do sul, o Irã e o Hezbollah,” explica o general Issa.

EUA, Israel e seus aliados não têm meios para vencer essa luta no sul. Podem apenas prolongar a insegurança por mais algum tempo, antes de o Exército Árabe Sírio decidir lançar uma ação militar contra as mais de 54 milícias da Frente Nusra que ocupam o sul da Síria. O resultado provavelmente será um acordo negociado temperado com umas poucas “batalhas leves” para expulsar os militantes mais linha-dura.

Como me diz um soldado do Exército Árabe Sírio em Daraa: “54 facções numa área pequena mostra fraqueza, não força.” E a cooperação com a Frente Nusra só torna ainda maiores os alvos pintados nelas.

Pepe EscobarFantasma de Gaddafi assombra o morto-vivo Rei Sarkô 

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22/3/2018, Pepe Escobar, Asia Times
A guerra da OTAN contra a Líbia, em 2011 foi vendida unanimemente em todo o Ocidente como operação humanitária inadiável contra o proverbial ditador do mal de sempre (Hillary Clinton: “Viemos, vimos, ele morreu“.). Rússia e China manifestaram-se firmemente contra a invasão.

Agora, em virada histórica surpreendente, o fantasma do Coronel Muammar Gaddafi parece ter voltado para assombrar o ex-presidente Nicolas Sarkozy da França, autonomeado superstarespetacular da tal R2P (“responsabilidade de proteger”). A “bomba Coronel Sarkô” explodiu na 4ª-feira à noite: o ex-presidente havia sido indiciado e estava sob investigação formal por corrupção passiva, financiamento ilegal de campanha e apropriação fraudulenta de fundos do Estado líbio.

Sarkozy passou toda a 3ª-feira, das 8 da manhã até meia-noite, respondendo perguntas sob custódia policial, de investigadores especialistas em corrupção, evasão fiscal e lavagem de dinheiro. Permitiram que dormisse em casa, mas sob o compromisso de voltar na manhã seguinte, e novamente passou o dia sendo interrogado, até ser solto, depois de pagar fiança, no início da noite.

“Investigação formal”, pela lei francesa, significa que há “indício sério e/ou não desmentido” que sugere que alguém tenha envolvimento em algum tipo de crime. O passo seguinte pode ser o julgamento, mas a investigação também pode não encontrar coisa alguma ou chegar a um beco sem saída.

Sarkozy já foi alvo de nada menos que 10 diferentes investigações até agora – sete das quais estão em andamento.

establishment francês, como se podia adivinhar que aconteceria, está lívido. Uma leva de políticos, a maioria dos quais de centro-direita, voaram em enxame para os programas de ‘análise’ política, para demonstrar apoio ao ex-presidente e enfatizar o direito à “presunção de inocência”. Exatamente o oposto do que fizeram no enredo de espionagem que se desenrola em Salisbury, onde o Kremlin e o presidente Putin já foram condenados e executados, sem qualquer prova de crime algum.

Sarkozy, ridicularizado pelos progressistas, que o apelidaram de “Rei Sarkô” durante o mandato, é suspeito de ter usado dinheiro de Gaddafi para financiar sua campanha presidencial de 2007.

E nesse caso, as provas existem. Dentre outras peças explosivas, há um documento oficial do governo líbio, obtido no curso de uma investigação feita pelo blog francês Mediapart, que prova que Gaddafi entregou nada menos que 50 milhões de euros à campanha de Sarkozy.

É quase o dobro dos 21 milhões de euros que a lei francesa permitia naquela época para gastos de campanhas eleitorais. Os supostos fundos também infringiriam leis contra a participação de estrangeiros, também, como doadores de fundos, em campanhas eleitorais.

O intermediário-chave em toda a operação foi o vendedor franco-argelino de armas, Ziad Takiedinne, o qual, em 2005 e 2007 organizou visitas de Sarkô e sua corte à Líbia. Também participaram do esquema um banco líbio e um banco alemão.

O ex-primeiro-ministro líbio Baghdadi al-Mahmoudi confirmou que o documento é autêntico e tudo que a polícia já encontrou é verdade.

Muito antes disso, já havia confirmação, por Abdullah Senoussi, ex-diretor de inteligência militar de Gaddafi, e em notebooks pertencentes ao ex-ministro do petróleo da Líbia Choukri Ghanem, misteriosamente afogado em Viena, em abril de 2012.

Em novembro de 2016, o próprio Takiedinne – o homem que apresentou Sarkô a Gaddafi – admitiu ter entregue pessoalmente no Ministério do Interior francês várias malas cheias de dinheiro preparadas em Trípoli, totalizando 5 milhões de euros. Disse que recebera o dinheiro, de Sanoussi.

Investigadores, que já estavam de posse de novas provas há várias semanas, também estão convencidos que conseguiram esclarecer também o papel de outro intermediário, Alexandre Djouhri, que vivia na Suíça e tinha contado com o ex-secretário-geral do Palácio do Eliseu, Claude Gueant. Gueant também está sob investigação formal, acusado de fraude fiscal.

Todos na França ainda recordam o Rei Sarkô fazendo pose de Libertador da Líbia – disputando furiosamente o centro da foto com o desavergonhadamente autoproclamado ‘filósofo’ fake Bernard-Henri Levy, codinome “BHL”.

Em setembro de 2011, comentei, para Asia Times – ver, por exemplo, aqui e aqui – as incontáveis razões pelas quais Gaddafi teria de ser derrubado, a maior parte das quais relacionadas a interesses geoeconômicos da França e aos sonhos de glória transmediterrânea do Rei Sarkô (“Estamos alinhados com o povo árabe, em sua ânsia de liberdade”).

Como agora se vê, é possível que o coronel, sim, é que tenha operado como fazedor do (falso) Rei.*****

Área de anexos

Visualizar o vídeo Hillary Clinton on Gaddafi: We came, we saw, he died do YouTube

Hillary Clinton on Gaddafi: We came, we saw, he died

 

Pepe Escobar: “Guerra na Síria, paz de Sochi”

Guerra na Síria, paz de Sochi 
24/11/2017, Pepe Escobar, Asia Times

Numa bem coreografada reunião, o presidente Vladimir Putin da Rússia define um futuro de paz para a Síria, depois de o país ser libertado da ocupação por terroristas.

A principal conclusão da reunião trilateral, de duas horas, entre Rússia-Irã-Turquia em Sochi sobre o futuro da Síria foi expressa pelo presidente Putin da Rússia:

“Os presidentes do Irã e da Turquia apoiaram a iniciativa de promover um Congresso de Todos os Sírios, para diálogo nacional na Síria. Concordamos em realizar esse importante evento no nível adequado e garantir a participação de representantes dos diferentes setores da sociedade síria.”

Na prática, significa que os ministérios de Relações Exteriores e departamentos da Defesa de Rússia, Irã e Turquia assumem agora a missão de “reunir na mesa de negociações delegados de vários partidos políticos, da oposição interna e externa, de grupos étnicos e confessionais”.

MAPA

Putin destacou que “em nossa opinião comum, o sucesso no campo de combates que nos aproxima da libertação de todo o território sírio, livre afinal de militantes pavimenta a trilha para uma etapa qualitativamente nova na solução da crise. Falo das reais possibilidades de alcançarmos normalização e ajuste político abrangentes e de longo prazo, no período pós-conflito.”

Tantas linhas vermelhas

Fontes diplomáticas confirmaram para Asia Times que grande parte das discussões em Sochi foram dedicadas à exposição, pelo presidente Putin, aos presidentes do Irã, Hassan Rouhani, e da Turquia, Recep Erdogan, da questão de como uma nova configuração pode ser alcançada num tabuleiro de xadrez em permanente transformação.

Por trás das gentilezas diplomáticas, as tensões fervem. E por isso as atuais negociações de paz de Astana entre Rússia-Irã-Turquia interconectam-se com a recente reunião de cúpula Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, CEAP [ing. APEC] em Danang.

Em Danang, Putin e Trump podem não ter tido reunião bilateral crucial. Mas Sergey Lavrov e Rex Tillerson emitiram declaração conjunta sobre a Síria – sem mencionar, o que é muito significativo, Astana; em vez disso, deram ênfase a processo da ONU em Genebra que anda lentamente (há nova rodada de conversações marcadas para a próxima semana).

Questão extremamente controversa – que nenhuma das partes admite claramente – é a presença de tropas estrangeiras na Síria. Do ponto de vista de Washington, todas as forças russas, iranianas e turcas devem deixar a Síria.

Mas aí surge o caso do Pentágono, que está na Síria sem autorização da ONU (Rússia e Irã foram convidados por Damasco).

Não se vê sinal algum de que o Pentágono planeje abandonar as bases que implantou em território recentemente recapturado pelas “Forças Democráticas Sírias” (FDS) que os EUA apoiam, todas em áreas contíguas a campos sírios de petróleo e gás. O secretário de Defesa dos EUA James Mattis insiste em que as forças dos EUA devem ficar onde estão na Síria para “impedir que apareça um ISIS2.0.” Para Damasco essa é linha vermelha absoluta.

Depois, vêm as linhas vermelhas de Ancara. Para Erdogan, o problema é o Partido da União Democrática Curda [tu. PYD] e suas Unidades de Proteção do Povo [tu. YPG), que comandam as Forças Democráticas Sírias. O porta-voz de Erdogan Ibrahim Kalin diz com todas as letras: “A questão do PYD-YPG continua a ser linha vermelha para a Turquia.”

Diferente de Ankara, Moscou não considera PYD/YPG como “organizações terroristas”. O PYD sem dúvida será convidado às reuniões de Sochi. E Ankara – que está sob tremenda pressão econômica – pouco pode fazer.

No front iraniano, o que Teerã quer na Síria não é exatamente o que Moscou-Washington podem estar querendo conseguir.

Lavrov desmentiu empenhadamente que haja algum acordo EUA-Rússia para tirar do sudoeste da Síria as forças apoiadas pelo Irã – reforçando que foram convidadas por Damasco e estão em situação legal. Desde julho a posição oficial do Ministério de Relações Exteriores do Irã é que os atuais acordos de cessar-fogo devem ser expandidos para todo o país, mas “levando em conta as realidades em campo”. Nenhuma palavras sobre as forças sírias deixarem a Síria.

Affair finamente cronometrado

O encontro de Sochi foi cronometrado em detalhes. Antes, Putin teve conversas telefônicas detalhadas com ambos, Trump e o rei Salman da Arábia Saudita (o rei, não MBS); com o emir do Qatar; com Sisi do Egito; e com Bibi Netanyahu de Israel. Paralelamente a um encontro dos altos escalões militares de Síria e Rússia, apareceu o presidente Bashar al-Assad da Síria. Foi visita de surpresa-não-surpresa a Sochi, para dizer a Putin, pessoalmente, que sem a campanha militar da Rússia, a Síria não teria sobrevivido como estado soberano.

Os fatos em campo são claríssimos: o Exército Árabe Sírio (EAS) – expandido e completamente retreinado, re-equipado e remotivado – reconquistou Aleppo, Palmyra, Deir Ezzor e quase todo o sudeste; fronteiras com Iraque e Líbano estão abertas e seguras; acordos de cessar-fogo estão vigentes em mais de 2.500 cidades; a  Turquia desistiu de anos de trabalho de armar e apoiar “rebeldes moderados” e agora é parte da solução; ISIS/Daech está em fuga, agora reduzido a  insignificante insurgência rural/desértica.

O Daech está quase morto – embora sempre possa haver uma Volta dos Mortos-vivos, com algum obscuro neo-al-Baghdadi querendo fazer-se de Califa-no-exílio. O presidente Rouhani do Irã declarou o fim do Daech. O primeiro-ministro do Iraque Haidar al-Abadi foi mais realista: disse que o Daech está sendo derrotado militarmente, mas que só declarará vitória final depois de os bandidos jihadistas estarem definitivamente extintos no deserto.

O ato final será a Batalha de Idlib – onde milhares de remanescentes/aderentes da Frente al-Nusra estão encurralados. A Turquia tem tropas em Idlib. Putin e Erdogan com certeza negociaram a posição de Ankara. Assim, cabe ao ministro da Defesa turco convencer os grupos de oposição não aliados de al-Nusra a aparecerem e sentarem à mesa de negociações em Sochi.

Num plano operacional, como pude verificar em Bagdá no início do mês, é o que está acontecendo. Conselheiros do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã, o Exército do Iraque, as Hashd al-Shaabi, conhecidas como Unidades de Mobilização Popular (UMPs), o Exército Árabe Sírio e o Hezbollah trabalhando em sincronia, como parte do mecanismo “4+1” (Rússia, Síria, Irã, Iraque plusHezbollah). O correspondente quartel-general de contraterrorismo está instalado em Bagdá.

É o Oleogasodutostão tudo outra vez

Putin falou a Rouhani e Erdogan em Sochi sobre o “compromisso da liderança síria com os princípios de solução pacífica para a crise política, da disposição dos sírios para fazer uma reforma constitucional e realizar eleição livre, supervisionada pela ONU.”

Essa ordem estará aberta a completo escrutínio. O que nos leva ao principal partido contra: a Casa de Saud e, mais especificamente, a visão de MBS.

O chamado Alto Comitê de Negociações, ACN [ing. High Negotiations Committee (HNC)] – que na essência são as facções da oposição síria arregimentadas pela Casa de Saud – está em completa confusão. O presidente, Royad Hijab, foi demitido recentemente em circunstâncias obscuras. Aquelas facções voltaram a se reunir em Riad, paralelamente à reunião em Sochi, com os sauditas reduzidos, basicamente, a gritos de “Assad tem de sair”.

A guerra de MBS contra o Iêmen é total desastre – para nem falar da horrenda crise humanitária que MBS criou. O bloqueio contra o Qatar já degenerou e é visto como total farsa. A flagrante interferência em assuntos do Líbano, com a saga de Hariri tomado como refém também já é farsa completa. A Arábia Saudita foi derrotada no Iraque e na Síria. Os próximos movimentos de política externa de MBS são horrivelmente imprevisíveis.

Para completar, parece que um dossiê chave não foi discutido em Sochi: quem financiará a reconstrução da infraestrutura/economia da Síria.

Turquia e Irã não podem pagar tudo. Rússia talvez ajude só marginalmente.  China já deixou claro que quer a Síria como um entroncamento no Levante, para as Novas Rotas da Seda, chamada hoje Iniciativa Cinturão e Estrada – mas não é prioridade, comparada a Paquistão ou Irã. A União Europeia está focada no seu próprio psicodrama interior de proporções monstro. E o Golfo – essencialmente Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – é furiosamente anti-4+1.

No que tenha a ver com Sochi, outro coringa no baralho é como uma possível entente Trump-Putin será vista por Pentágono, CIA e na Colina do Capitólio – redutos que sempre recusarão a ideia de um processo de paz liderado por Putin e sem “Assad tem de sair”.

Muito do que o futuro reserva depende de quem controlará os campos sírios de petróleo e gás. É o Oleogasodutostão tudo outra vez: todas as guerras são guerras por energia. Damasco simplesmente não aceitará uma bonança de energia para as Forças Democráticas Sírias apoiadas pelos EUA e hoje comandadas pelas YPG curdas.

E a Rússia tampouco. Além de Moscou manter uma base estratégica no Mediterrâneo oriental, a Gazprom eventualmente desejará ser parceira/operadora num novo e viável oleogasoduto Irã-Iraque-Síria, cujo principal cliente será a União Europeia. Depois de Sochi, a guerra real – no Oleogasodutostão – está só começando.

La démission du Premier ministre libanais sur instruction de Ryad: le prélude à une nouvelle agression contre le Liban

La démission du Premier ministre libanais sur instruction de Ryad: le prélude à une nouvelle agression contre le Liban

La démission du Premier ministre libanais, Saad Al-Hariri, à partir de Ryad, quelques minutes après sa rencontre avec le Prince héritier Mohamed Ben Salman, est le signal à une agression israélienne programmée contre le Liban.

Saad Al-Hariri qui  jouit également de la nationalité saoudienne, a présenté sa démission en estimant que sa vie était menacée.

En réalité, cette démission relève d’un plan concerté mis au point conjointement par le Prince héritier Mohamed Ben Salman et le Premier ministre israélien Benyamin Netanyahu visant à stopper les progrès enregistrés jusqu’ici par le Hezbollah libanais et ses alliés syrien et iranien dans la région.

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