Pepe Escobar: China e Índia velejam para águas agitadas 

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Novo Grande Jogo
China e Índia velejam para águas agitadas 
12/12/2017, Pepe EscobarAsia Times

O Corredor Bangladesh-China-Índia-Myanmar, que inclui um oleoduto da Baía de Bengala até a província de Yunnan, também está no coração do projeto das Rotas da Seda, bem como o Corredor Econômico China-Paquistão [ing. China-Pakistan Economic CorridorCPEC]. Estende-se de Xinjiang até Gwadar e inclui elos de fibra-ótica, zonas econômicas e investimentos em novas rodovias e portos.

Por fim, há a Rota Marítima da Seda, que parte do litoral do sudeste da China rumo ao Oceano Índico e o Chifre da África, antes de tomar o rumo de Veneza na Itália e Rotterdam na Holanda. No coração dessa teia há portos e logística de infraestrutura.

Mesmo assim, muito se falou do fato de Islamabad ter sido excluída do negócio de $14 bilhões do Corredor Econômico China-Paquistão, para construir a Barragem Diamer-Bhasha. Naquela ocasião a mídia sugeriu que os termos do financiamento chinês não teriam interessado ao Paquistão. A mídia também noticiou que a exigência por Pequim, de que se usasse o renminbi na Zona Franca de Gwadar, comprometeria a “soberania econômica” do Paquistão.

Mas fato é que a iniciativa CPEC de $57 bilhões é realmente uma hidra de muitas cabeças, com plano de longo prazo para construir no programa inicial de 2014 e até 2030 33 projetos de infraestrutura. Dos que há na lista original, 21 são relacionados à energia, 16 têm a ver com geração e transmissão de energia, e oito são relacionados ao desenvolvimento do porto de Gwadar. Outros quatro envolvem projetos de transporte.

Negociação dura

A construção já começou em 18 desses programas. Mas pode ainda haver problemas à frente. “Por melhores que sejam as relações China-Paquistão, é inegável que haverá discrepâncias num programa dessa envergadura”, disse Du Youkang, diretor de pesquisa sobre o Paquistão na Fudan University. “Estamos falando de dúzias de projetos de bilhão de dólares e de centenas de projetos menores.”

Outra vez, há uma impressão de que o Paquistão pode estar recebendo um tratamento muito duro de Pequim. Geopoliticamente, do ponto de vista da China, o CPEC, e especialmente o desenvolvimento de Gwadar, é essencial à estratégia marítima e comercial dos chineses. Num só passo, deixa para trás do Mar do Sul da China, o Estreito de Malaca e a Baía de Bengala.

“Em vez do risco de as rotas serem interrompidas pela Marinha dos EUA e de seus aliados indo-japoneses, a China poderia usar o porto do terminal do CPEC em Gwadar como sua base de operações para encurtar muito suas Rotas Marítimas de Comunicação [ing. Sea Lines of Communication, SLOC] com a África” – revelou relatório de Global Research.

É possível que aí haja um ponto de atrito entre o CPEC e o Corredor de Crescimento Ásia-África [ing.Asia-Africa Growth CorridorAAGC], acordo de cooperação econômica entre os governos de Índia e Japão. No fim, tudo se resume à robusta concorrência entre Índia e China, do Golfo de Omã até o Mar da Arábia, importante trecho da região do Indo-Pacífico. Claro, se trata sempre da rivalidade entre os portos de Gwadar no Baloquistão paquistanês e de Chabahar no Baloquistão iraniano, separados por apenas 80 km.

O acordo de Chabahar assinado entre o primeiro-ministro da Índia Narendra Modi e o presidente do Irã Hassan Rouhani em maio passado é, de fato, resposta da Índia ao CPEC. A Índia investirá $500 milhões para expandir e operar Chabahar além de outros projetos, incluída uma usina de liquefação de gás natural.

Corredor Estratégico

Índia já finalizou planos para construir uma ferrovia de 900km de Chabahar para Bamiyan no Afeganistão e já está construindo uma estrada de 220km em Nimruz, que será estendida até Chabahar. Assim, o porto de Chabahar fica integrado ao corredor econômico e estratégico que liga Índia ao Afeganistão e à Ásia Central. Como eu já comentei para o Asia Times nos idos de 2009, tudo isso tem a ver com o Baloquistão como entroncamento chave no Novo Grande Jogo na Eurásia.

O Baloquistão realmente conecta Oriente Médio, Ásia Central e Sul da Ásia; e tem 1.600km de litoral, do Estreito de Ormuz a Karachi. Simplesmente não poderia ser mais estratégico com suas fontes naturais de petróleo, gás natural, urânio, carvão, ouro e minério de ferro.

Diferente de Bandar Abbas, Chabahar é o único porto de águas profundas do Irã, assim como Gwadar, e oferece acesso crucialmente importante ao Oceano Índico. Implica um “ganha-ganha” para o Irã, com investimento indiano, que já ampliou a presença de Teerã na Ásia Central e Sul da Ásia, bem como no Mar da Arábia e no Oceano Índico.

Índia é a segundo maior importador de petróleo do Irã, atrás só da China. Assim, além de aumentar o comércio indiano, o porto de Chabahar dará maior segurança energética ao país, graças a importações de petróleo, não só do Irã, mas também do Oriente Médio e, potencialmente, também do Mar Cáspio.

Porta da percepção

A porta está aberta para uma parceria política, econômica, comercial e de investimentos entre Índia e Irã, que pode evoluir para uma aliança estratégica. Índia, como sabemos, é parte dos BRICS, e o Irã espera vir a se tornar membro pleno da Organização de Cooperação de Xangai [ing. Shanghai Cooperation Organization, SCO. Já é possível ver convergirem politicamente e economicamente os países (B)RICS[infelizmente sem o Brasil, que a CIA já arrancou do grupo – mediante golpe de estado para ‘mudança de regime’ em 2016 (NTs)] e a SCO, convergência política e econômica mediante o desenvolvimento do comércio.

A estratégia Chabahar recebeu forte impulso domingo passado, quando o presidente Rouhani do Irã inaugurou uma nova extensão do porto, a ser servida por um aeroporto internacional. Com isso Chabahar estará ligada não só ao Corredor de Transporte Norte-Sul dentro do Irã, mas também ao Corredor Internacional de Transporte [ing. North-South Transportation CorridorINSTC], que se estende de Bandar Abbas no Golfo Persa até a Rússia, a Ásia Central e a Eurásia, antes de se conectar à Europa.

Irã, Índia e Rússia são todos membros chaves do INSTC, mas isso não implica que haja alguma facilidade extra entre os elos Teerã e Islamabad da corrente. O presidente Rouhani foi muito claro sobre isso. “Todos devemos buscar concorrência positiva”, disse ele. “Consideramos também bem-vindos outros portos na região, o desenvolvimento de Gwadar é bem-vindo”.

Relatórios de um think tank regional tendem a exagerar o peso de uma ameaça, pelo Baloquistão, contra a integração econômica do Sul da Ásia. Mesmo assim, a questão chave ainda é como a Índia conseguirá usar Chabahar para confrontar diretamente o entroncamento chinês de Gwadar. O financiamento e o planejamento do CPEC, previsto para ser um grande porto de águas profundas, incluindo o aeroporto e instalações navais, conectado a Xinjiang por uma rede de estradas, ferrovias gasodutos e oleodutos, reduzem consideravelmente as dimensões da aposta em Chabahar. Estrategicamente, Gwadar representa a China presente no Oceano Índico próxima do Estreito de Ormuz, e faz dela potência sobre dois oceanos.

Com especialistas insistindo que a narrativa da ameaça chinesa não prosperará, não surpreende que Nova Delhi interprete Gwadar essencialmente como a segunda maior economia do mundo preparando uma base naval e um posto de escuta estratégicos. Isso, por sua vez, ameaçaria a Marinha Indiana no Mar da Arábia até o Golfo de Omã, ao mesmo tempo em que a cerca na Ásia Ocidental.

“No futuro, se navios da Marinha chinesa operarem a partir de Gwadar, haverá com o que nos preocupar. Teremos de pensar em meios para mitigar o desafio” – disse o almirante Sunil Lanba, chefe da Marinha da Índia, em sua conferência anual com a imprensa.

Naturalmente, a Marinha do Irã tem uma base em Chabahar. Mas para Nova Delhi, o que importa é Gwadar com a Marinha do Paquistão comprando oito submarinos novos da China. O almirante Lanba dedicou-se demoradamente a tranquilizar sua audiência. “Estamos presentes 24 horas por dia, sete dias por semana, em áreas chaves do Golfo de Áden ao Estreito de Malaca, bem como nos Estreitos de Sunda e Lombok” – insistiu.

Tudo isso se traduz em a Índia impor-se no Indo-Pacífico. E ainda não se cuida das questões mais difíceis do equilíbrio de poder que envolvem o país e o vizinho Paquistão. Dentre os problemas que há aí se inclui a Índia investir num sistema de mísseis de defesa que, em teoria, poderia neutralizar, como força de contenção, a capacidade do Paquistão para segundo ataque nuclear.

Tudo isso converte essa questão num redemoinho de projeções de poder, esferas de influência, segurança e comércio. No final, a única certeza é que esse teatro de sombras que envolve China, Índia, Irã e Paquistão, com os EUA como um terceiro ativo, está no coração do Novo Grande Jogo na Eurásia.

 

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Nove países com poder nuclear têm um arsenal de 14.934 armas

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Países que possuem armas reduziram reservas nucleares nos últimos anos, mas multiplicaram investimento

Publicado originalmente em 06/10/17

As armas nucleares estão em poder de nove países. Estados UnidosRússiaFrançaReino UnidoÍndiaPaquistãoChinaIsrael e Coreia do Norte armazenavam no começo de 2017 quase 15.000 dispositivos desse tipo, de acordo com dados do Instituto de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (SIPRI).

Esses Estados reduziram suas reservas atômicas nos últimos anos, mas multiplicaram o orçamento e estão em um ambicioso processo de renovação. O Escritório de Orçamentos do Congresso norte-americano anunciou um investimento de 400 bilhões de dólares (1,26 trilhão de reais) durante o próximo decênio e o Parlamento britânico aprovou há um ano, com respaldo de 80% dos deputados, a renovação de seu envelhecido arsenal com um custo inicial de 40 bilhões de libras (165 bilhões de reais).

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Brazilian Malaise in the ‘Asian Century’

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Is Brasília paying attention to Asia?

12/09/17

The world is rapidly heading east. Evidence of this trend abounds in the west, especially in the realm of foreign policy-making. Former U.S. President Barack Obama inaugurated his mandate with an acknowledgment of Asia’s major role in the world. The “Pivot to Asia” doctrine, conceived to position Washington in favorable ways towards the recently noticed preeminence of China and India, not to mention the heightened importance of Japan, Indonesia and Russia. It would not take much longer for France, England and Germany to follow the same track and start investing heavily in bilateral and multilateral relations with eastern nations. Even a few peripheral states have managed to adapt their diplomatic strategies in order to better handle tomorrow’s international economics and politics – deeply influenced by the rise of Asia.

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China and India: A Lesson in Conflict Resolution

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In a violent world, the two behemoths offer a welcome respite.

01/09/17

China and India just reminded the world – especially those who have seen the slaughter in the killing fields in the Middle East and Africa – that differences among people can be settled without firing a shot, without anyone getting killed. The dispute began when China started to pave a road in a Himalayan region at a plateau in Doklam, a territory China considers part of its land but India recognizes as part of the kingdom of Bhutan, its close ally. India sent its troops to stop China, and in turn China sent its troops to reinforce its claims.

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Crescem as tensões na fronteira entre Índia e China

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16/08/17

Estão aumentando as tensões na fronteira entre Índia e China, mais precisamente na região de Doklam, nos Himalaias, que é um território reivindicado pela China e pelo Butão. As ações começaram no mês de junho deste ano (2017) e a Índia posicionou tropas no Tibete, após ter ocorrido um pedido de ajuda do Butão para a resolução deste impasse. O Governo chinês, por sua vez, alertou que a Índia deve retirar suas tropas imediatamente.

É importante lembrar que Índia e China já travaram uma guerra por questões fronteiriças* no ano de 1962, durante a Guerra Fria. Naquele contexto a China obteve a vitória, conseguindo anexar uma parte dos territórios em disputa. A conjuntura política e militar do sistema internacional e dos atores envolvidos é muito diferente no período atual e a probabilidade de que estas tensões escalem para um conflito armado é pequena, devido à posse de armamento nuclear por ambas as partes.

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Índia amplia sua atuação no Sul global

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22/08/17

A Índia, em parceria com a Agência das Nações Unidas para Cooperação Sul-Sul (UNOSSC, sigla em inglês), criou recentemente o Fundo Índia-ONU de Parceria para o Desenvolvimento. Como pontapé inicial, o país asiático já contribuiu com um milhão de dólares.

Esta iniciativa visa apoiar projetos de desenvolvimento sustentável em países do Sul global, em especial aqueles de menor renda per capita, e as pequenas ilhas-Estado. Ela também servirá para o alcance dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, tais como ações de combate à pobreza, à subnutrição e às mudanças climáticas.

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The Partition: The British game of ‘divide and rule’

Texto 52

10/08/2017, by Sashi Tharoor

On August 15, 1947, India won independence: a moment of birth that was also an abortion, since freedom came with the horrors of the partition, when East and West Pakistan were hacked off the stooped shoulders of India by the departing British.

Seventy years later, it is hard to look back without horror at the savagery of the country’s vivisection, when rioting, rape and murder scarred the land, millions were uprooted from their homes, and billions of rupees worth of property were damaged and destroyed. Within months, India and Pakistan were embroiled in a war over Kashmir, the consequences of which still affect us today.

There was an intangible partition, too. Friendships were destroyed, families ruined, geography hacked, history misread, tradition denied, minds and hearts torn apart. The creation and perpetuation of Hindu-Muslim antagonism was the most significant accomplishment of British imperial policy: the colonial project of “divide et impera” (divide and rule) fomented religious antagonisms to facilitate continued imperial rule and reached its tragic culmination in 1947.

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