Pepe Escobar: “O Brasil no epicentro da Guerra Híbrida” (30/03/2016)

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POR  PEPE ESCOBAR– ON 30/03/2016

Que são, nos manuais norte-americanos, as ações não-convencionais contra “forças hostis” a Washington. A centralidade do Pré-Sal no impeachment. Como os super-ricos cooptam a velha classe média

Por Pepe Escobar | Tradução: Vinícius Gomes Melo e Inês Castilho

Revoluções coloridas nunca são demais. Os Estados Unidos, ou o Excepcionalistão, estão sempre atrás de atualizações de suas estratégias para perpetuar a hegemonia do seu Império do Caos.

A matriz ideológica e o modus operandi das revoluções coloridas já são, a essa altura, de domínio público. Nem tanto, ainda, o conceito de Guerra Não-Convencional (UW, na sigla em inglês).

Esse conceito surgiu em 2010, derivado do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais. Eis a citação-chave: O objetivo dos esforços dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […] Num futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês)”.

Potências hostis” são entendidas aqui não apenas no sentido militar; qualquer país que ouse desafiar um fundamento da “ordem” mundial centrada em Washington pode ser rotulado como “hostil” – do Sudão à Argentina.

As ligações perigosas entre as revoluções coloridas e o conceito de Guerra Não-Convencional já desabrocharam, transformando-se em Guerra Híbrida; caso perverso de Flores do Mal. Revolução colorida nada mais é que o primeiro estágio daquilo que se tornará a Guerra Híbrida. E Guerra Híbrida pode ser interpretada essencialmente como a Teoria do Caos armada – um conceito absoluto queridinho dos militares norte-americanos (“a política é a continuidade da guerra por meios linguísticos”). Meu livro Império do Caos, de 2014, trata essencialmente de rastrear uma miríade de suas ramificações.

Essa bem fundamentada tese em três partes esclarece o objetivo central por trás de uma Guerra Híbrida em larga escala: “destruir projetos conectados transnacionais multipolares por meio de conflitos provocados externamente (étnicos, religiosos, políticos etc.) dentro de um país alvo”.Os países do BRICS (Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul) – uma sigla/conceito amaldiçoada no eixo Casa Branca-Wall Street – só tinham de ser os primeiros alvos da Guerra Híbrida. Por uma miríade de razões, entre elas: o plano de realizar comércio e negócios em suas próprias moedas, evitando o dólar norte-americano; a criação do banco de desenvolvimento dos BRICS; a declarada intenção de aumentar a integração na Eurásia, simbolizada pela hoje convergente “Rota da Seda”, liderada pela China – Um Cinturão, Uma Estrada (OBOR, na sigla em inglês), na terminologia oficial – e pela União Econômica da Eurásia, liderada pela Rússia (EEU, na sigla em inglês).

Isso implica em que, mais cedo do que tarde, a Guerra Híbrida atingirá a Ásia Central; o Quirguistão é o candidato ideal a primeiro laboratório para as experiências tipo revolução colorida dos Estados Unidos, ou o Excepcionalistão.

No estágio atual, a Guerra Híbrida está muito ativa nas fronteiras ocidentais da Rússia (Ucrânia), mas ainda embrionária em Xinjiang, oeste longínquo da China, que Pequim microgerencia como um falcão. A Guerra Híbrida também já está sendo aplicada para evitar o estratagema da construção de um oleoduto crucial, a construção do Ramo da Turquia. E será também totalmente aplicada para interromper a Rota da Seda nos Bálcãs – vital para a integração comercial da China com a Europa Oriental.

Uma vez que os BRICS são a única e verdadeira força em contraposição ao Excepcionalistão, foi necessário desenvolver uma estratégia para cada um de seus principais personagens. O jogo foi pesado contra a Rússiade sanções à completa demonização, passando por um ataque frontal a sua moeda, uma guerra de preços do petróleo e até mesmo uma (patética) tentativa de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou. Para um membro mais fraco dos BRICS foi preciso utilizar uma estratégia mais sutil, o que nos leva à complexidade da Guerra Híbrida aplicada à atual, maciça desestabilização política e econômica do Brasil.

No manual da Guerra Híbrida, a percepção da influência de uma vasta “classe média não-engajada” é essencial para chegar ao sucesso, de forma que esses não-engajados tornem-se, mais cedo ou mais tarde, contrários a seus líderes políticos. O processo inclui tudo, de “apoio à insurgência” (como na Síria) a “ampliação do descontentamento por meio de propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo” (como no Brasil). E conforme cresce a insurreição, cresce também a “intensificação da propaganda; e a preparação psicológica da população para a rebelião.” Esse, em resumo, tem sido o caso brasileiro.

Precisamos do nosso próprio Saddam

Um dos maiores objetivos estratégicos do Excepcionalistão é em geral um mix de revolução colorida e Guerra Híbrida. Mas a sociedade brasileira e sua vibrante democracia eram muito sofisticadas para métodos tipo hard, tais como sanções ou a “responsabilidade de proteger” (R2P, na sigla em inglês).

Não por acaso, São Paulo tornou-se o epicentro da Guerra Híbrida contra o Brasil. Capital do estado mais rico do Brasil e também capital econômico-financeira da América Latina, São Paulo é o nódulo central de uma estrutura de poder interconectada nacional e internacionalmente.

O sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil.

A “Primavera Brasileira” foi virtualmente invisível, no início, um fenômeno exclusivo das mídias sociais – tal qual a Síria, no começo de 2011.

Foi quando, em junho de 2013, Edward Snowden revelou as famosas práticas de espionagem da NSA. No Brasil, a questão era espionar a Petrobras. E então, num passe de mágica, um juiz regional de primeira instância, Sérgio Moro, com base numa única fonte – um doleiro, operador de câmbio no mercado negro – teve acesso a um grande volume de documentos sobre a Petrobras. Até o momento, a investigação de dois anos da Lava Jato não revelou como eles conseguiram saber tanto sobre o que chamaram de “célula criminosa” que agia dentro da Petrobras.

O importante é que o modus operandi da revolução colorida – a luta contra a corrupção e “em defesa da democracia” – já estava sendo colocada em prática. Aquele era o primeiro passo da Guerra Híbrida.

Como cunhado pelos Excepcionalistas, há “bons” e “maus” terroristas causando estragos em toda a “Siraq”; no Brasil há uma explosão das figuras do corrupto “bom” e do corrupto “ruim”.

O Wikileaks revelou também como os Excepcionalistas duvidaram da capacidade do Brasil de projetar um submarino nuclear – uma questão de segurança nacional. Como a construtora Odebrecht tornava-se global. Como a Petrobras desenvolveu, por conta própria, a tecnologia para explorar depósitos do pré sal – a maior descoberta de petróleo deste jovem século 21, da qual as Grandes Petrolíferas dos EUA foram excluídas por ninguém menos que Lula.

Então, como resultado das revelações de Snowden, a administração Roussef exigiu que todas as agências do governo usassem empresas estatais em seus serviços de tecnologia. Isso poderia significar que as companhias norte-americanas perderiam até US$ 35 bilhões de receita em dois anos, ao ser excluídos de negociar na 7ª maior economia do mundo – como descobriu o grupo de pesquisa Fundação para a Informação, Tecnologia & Inovação (Information Technology & Innovation Foundation).

O futuro acontece agora

A marcha em direção à Guerra Híbrida no Brasil teve pouco a ver com as tendências políticas de direita ou esquerda. Foi basicamente sobre a mobilização de algumas famílias ultra ricas que governam de fato o país; da compra de grandes parcelas do Congresso; do controle dos meios de comunicação; do comportamento de donos de escravos do século 19 (a escravidão ainda permeia todas as relações sociais no Brasil); e de legitimar tudo isso por meio de uma robusta, embora espúria tradição intelectual.

Eles dariam o sinal para a mobilização da classe média. O sociólogo Jesse de Souza identificou uma freudiana “gratificação substitutiva”, fenômeno pelo qual a classe média brasileira – grande parte da qual clama agora pela mudança do regime – imita os poucos ultra ricos, embora seja impiedosamente explorada por eles, através de um monte de impostos e altíssimas taxas de juros.

Os 0,0001% ultra ricos e as classes médias precisavam de um Outro para demonizar – no estilo Excepcionalista. E nada poderia ser mais perfeito para o velho complexo da elite judicial-policial-midiática do que a figura de um Saddam Hussein tropical: o ex-presidente Lula.

“Movimentos” de ultra direita financiados pelos nefastos Irmãos Kock pipocaram repentinamente nas redes sociais e nos protestos de rua. O procurador geral de justiça do Brasil visitou o Império do Caos chefiando uma equipe da Lava Jato para distribuir informações sobre a Petrobras que poderiam sustentar acusações do Ministério da Justiça. A Lava Jato e o – imensamente corrupto – Congresso brasileiro, que irá agora deliberar sobre o possível impeachment da presidente Roussef, revelaram-se uma coisa só.

Àquela altura, os roteiristas estavar seguros de que a infra-estrutura social para a mudança de regime já havia produzido uma massa crítica anti-governo, permitindo assim o pleno florescimento da revolução colorida. O caminho para um golpe soft estava pavimentado – sem ter sequer de recorrer ao mortal terrorismo urbano (como na Ucrânia). O problema era que, se o golpe soft falhasse – como parece ser pelo menos possível, agora – seria muito difícil desencadear um golpe duro, estilo Pinochet, através da UW, contra a administração sitiada de Roussef; ou seja, executando finalmente a Guerra Híbrida Total.

No nível socioeconômico, a Lava Jato seria um “sucesso” total somente se fosse espelhada por um abrandamento das leis brasileiras que regulam a exploração do petróleo, abrindo-a para as Grandes Petrolíferas dos EUA. Paralelamente, todos os investimentos em programas sociais teriam de ser esmagados.

Ao contrário, o que está acontecendo agora é a mobilização progressiva da sociedade civil brasileira contra o cenário de golpe branco/golpe soft/mudança de regime. Atores cruciais da sociedade brasileira estão se posicionando firmemente contra o impeachment da presidente Rousseff, da igreja católica aos evangélicos; professores universitários do primeiro escalão; ao menos 15 governadores estaduais; massas de trabalhadores sindicalizados e trabalhadores da “economia informal”; artistas; intelectuais de destaque; juristas; a grande maioria dos advogados; e por último, mas não menos importante, o “Brasil profundo” que elegeu Rousseff legalmente, com 54,5 milhões de votos.

A disputa não chegará ao fim até que se ouça o canto de algum homem gordo do Supremo Tribunal Federal. Certo é que os acadêmicos brasileiros independentes já estão lançando as bases para pesquisar a Lava Jato não como uma operação anti-corrupção simples e maciça; mas como estudo de caso final da estratégia geopolítica dos Exceptionalistas, aplicada a um ambiente globalizado sofisticado, dominado por tecnologia da informação e redes sociais. Todo o mundo em desenvolvimento deveria ficar inteiramente alerta – e aprender as relevantes lições, já que o Brasil está fadado a ser visto como último caso da Soft Guerra Híbrida

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O golpe como elemento da Guerra Híbrida

Elements-of-hybrid-war

Por José Álvaro de Lima Cardoso, no site Outras Palavras:

quarta-feira, 28 de março de 2018
Circula um vídeo na internet que reforça o que já se sabia há alguns anos: estruturas do governo dos Estados Unidos auxiliaram os responsáveis pela Lava Jato no fornecimento de informações que comprometeram políticos, funcionários públicos, e executivos de grandes empresas brasileiras. A troca de informações que possibilitou a montagem dos inquéritos foi realizada informalmente, sem a autorização do Ministério da Justiça, como prevê a Lei. Essas informações sobre a parceria entre os procuradores e os órgãos de justiça e informações dos EUA foram reveladas, no vídeo mencionado, por Kenneth Blanco, em julho de 2017, na ocasião vice procurador geral adjunto do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ). O vice procurador ao fazer o comentário, exaltava as supostas vantagens do esquema, por processar os casos de maneira mais rápida e “efetiva”.Esse tipo de relação pode ser considerado por alguns procuradores um método muito eficiente e ágil. Mas, ao que se sabe, é absolutamente ilegal. Cooperação internacional neste nível, entre procuradores brasileiros com Departamento de Justiça, polícia federal, e outros organismos de país estrangeiro, baseados apenas na “confiança”, sem seguir os procedimentos previstos pela legislação, obviamente é uma flagrante ilegalidade, para a qual as estruturas do golpe procuram dar uma aparência de naturalidade.

Como vem denunciando, pelo menos desde 2016, o jornalista brasileiro Pepe Escobar (especialista em análise geopolítica), o Brasil foi vítima da chamada Guerra Híbrida, guerra Não-Convencional, que se vale de instrumentos linguísticos e simbólicos, com metodologia altamente sofisticada. Esse tipo de método utiliza “aliados internos” para perpetração do golpe, no Judiciário, entre as empresas, no Parlamento e outras estruturas do Estado. Essa metodologia de guerra, desenvolvida principalmente pelos EUA, tem como objetivo central garantir os interesses do império e destruir projetos que, de uma forma ou outra, não se coadunem com os seus interesses. Segundo Escobar, os países que compõem o BRICS (Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul) foram os primeiros alvos da Guerra Híbrida, por uma série de razões, principalmente de caráter geopolítico.

A Guerra Híbrida visa assegurar a perpetuação da hegemonia econômica, política e militar dos EUA. Esse tipo de guerra surgiu em 2010, a partir do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais do Exército dos EUA. Diz o manual: “O objetivo dos esforços dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […]. Num futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês) ” (no artigo “O Brasil no epicentro da Guerra Híbrida, Escobar, Outras Palavras, 2016”).

O golpe no Brasil foi por petróleo, claro, porque esta é uma obsessão e uma necessidade dos EUA (e o pré-sal contém recursos que podem alcançar R$ 30 trilhões). Mas também por água, por estatais rentáveis e estratégicas, pela riqueza da Amazônia, pela aproximação do Brasil de Rússia e China, pela fundação do Banco de Desenvolvimento do BRICS, e assim por diante. Um dos elementos decisivos do envolvimento dos EUA no golpe foi a política definida nos BRICS, de substituição gradativa do dólar como moeda de referência nas transações internacionais. A hegemonia mundial dos EUA, que se encontra estremecida, está diretamente relacionada, em boa parte, ao fato de poder emitir dólar à vontade e esta ser a moeda utilizada no grosso do comércio internacional.Outra explicação crucial do envolvimento dos EUA no golpe, como apontou o historiador Moniz Bandeira, é a tentativa de impedir que se crie outra potência no continente americano. Uma potência na América do Sul e ligada comercial e militarmente à China e à Rússia é tudo o que os Estados Unidos não querem. Não por acaso, dentre as dezenas de ações destrutivas dos golpistas, uma das primeiras foi prender o Almirante Othon da Silva, coordenador do projeto nuclear do Brasil, e alvejar o projeto de construção do submarino a propulsão nuclear, fundamental para a guarda e segurança da chamada Amazônia Azul.

Em 2013 o jornalista norte-americano Glenn Greenwald já havia denunciado que o Brasil era o grande alvo das ações de espionagem dos Estados Unidos. Segundo o jornalista, o governo estadunidense espionou inclusive mensagens de e-mails da presidenta Dilma Rousseff e de seus assessores mais próximos, além da Petrobrás. O objetivo da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês), segundo Greenwald, era buscar detalhes da comunicação da presidenta com sua equipe. Segundo o jornalista, naquela ocasião, o Brasil era o principal alvo dos Estados Unidos.

O que está em jogo no golpe é muito mais que petróleo. Os Estados Unidos não têm interesse em um desenvolvimento autônomo e soberano do Brasil, pelo potencial que tem o país de rivalizar com os interesses estratégicos dos EUA na Região. Processos como Unasul e CELAC confrontavam os EUA no hemisfério, e novas instituições, como o Banco do BRICS e o Acordo Contingente de Reservas do BRICS ajudavam a construir alternativas contra hegemônicas ao Banco Mundial e o FMI, instituições sobre as quais os EUA têm um controle quase absoluto.

A ONU prevê que, no ritmo atual, as reservas hídricas do globo reduzirão 40% até 2030, o que poderá provocar uma “guerra pela água” no mundo. Os EUA e a Europa enfrentam grave problema de falta de água, a maioria dos rios dos EUA e do Velho Continente estão contaminados. É neste contexto que tem também que ser entendido o golpe de Estado no Brasil. Tudo indica que um dos interesses do golpe é se apropriar do Aquífero Guarani, maior reserva subterrânea de água doce do mundo. O Aquífero que está localizado na parte sul da América do Sul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) coloca a Região como detentora de 47% das reservas superficiais e subterrâneas de água do mundo. Os EUA sabem que não há nação que consiga manter-se dominante sem água potável em abundância, por isso seu interesse em intensificar o domínio político e militar na região, além do acesso à água existente em abundância no Canadá, garantida por acordos como o do NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre EUA, Canadá e México).

A partir de 2013, quando o golpe intensificou suas articulações para a perpetração do golpe no Brasil, o tabuleiro conjuntural se tornou bastante mais complexo e perigoso. Mas é certo que se quisermos, em algum momento, recuperar a democracia e a condição do Brasil de país soberano, teremos que procurar entender detalhadamente o quadro conjuntural, agir com destemor, e ter muita paciência histórica.

Pepe Escobar fala sobre a guerra híbrida contra o Brasil.

Maduro e Castro Tentam envolver o Brasil no conflito

Postado originalmente – 17/05/17

O Castrochavismo em atitude desesperada procura envolver o Brasil em seu conflito. Partindo para um assunto sensível a todos os Venezuelanos que é o reclamo de posse da área de Esequibo na Guyana.

Chávez foi complacente com a questão de Esequibo seguindo a linha de Cuba, que era de não discutir fronteiras pois isso era uma questão colonialista. Mas apresentava mapas com a região como contestada.

A tentativa tem sido sempre de sufocar economicamente o pequeno país. Os reclamos da Venezuela equivalem a 2/3 do território da Guyana.

Na noite de 16 Maio (terça-feira), a Venezuela lançou uma típica ação de Guerra Híbrida (Desinformação). Através de um meio nacionalista chamado ANTROCANAL (@antrocanal), com a #EsequiboEsVenezuela, lançaram uma campanha de que o Exército Brasileiro iniciaria, após o período de chuvas, perfurações petrolíferas no sul da região de Esequibo.

E mensagem é baseada nas fontes do próprio Governo da Guyana. Tendo como início uma declaração do Embaixador Talbot, daquele país, em Brasília DF. A edição do dia 12 MAIO 2017, do Government News  Brief, edição oficial do Governo da Guyana tem a declaração do Embaixador.

Também é uma ação pela posição do Presidente Michel Temer, ter recebido a líder oposicionista venezuelana Lilian Tintori, em 11 MAIO 2017. Pela primeira vez um político não chavista é recebido no Palácio do Planalto, em 18 anos.

Fonte: Defesanet

The New Normal: Cold War 2.0

Published originally in: 06/05/2016

We are all living in Hybrid War time. From R2P (“responsibility to protect”) to color revolutions, from currency attacks to stock market manipulations.

Pepe-Escobar

From judicial-financial-political-media enabled “soft” coups – as in Brazil – to support for “moderate” jihadis, multiple stages of Hybrid War now cross-pollinate and generate a vortex of new mutant viruses.

Hybrid War, a Beltway concept, has even been turned upside down by the conceptualizers. NATO, affecting puzzlement at the very existence of the concept, interprets the Russian “invasion” of Ukraine as Hybrid War. That serves prime Hybrid War purveyors such as the RAND corporation to take it further, peddling war game scenarios of Russia being able to invade and conquer the Baltic states — Estonia, Latvia, and Lithuania — in less than 60 hours.And that, in turn, foments even more Western military hysteria, encapsulated by the new NATO commander, a.k.a. Dr. Strangelove; Gen. Curtis Scaparrotti, who made sure he would come up with a stage entrance worthy of his predecessor, Philip Breedlove/ Breedhate.

Slightly amused at the whole conceptual circus, Russians respond with actions. Extra deployments in our Western borderlands? No problem; here’s your asymmetrical answer. And say hello, soon, to our new toy: the S-500s.

What Hillary wants

The notion that Moscow would have any interest at all to capture Baltic states is ludicrous in itself. But with the evidence of direct occupation of Afghanistan (the Taliban will never quit) and R2P in Libya (a failed state devastated by militias) spelling miserable failure, NATO badly needs a “success”. Enter warmongering rhetoric and conceptual manipulation – and this when it’s actually Washington that is deploying Hybrid War all across the chessboard.

Reality occurs beyond NATO’s looking glass. Russia is way ahead of the Pentagon/NATO in A2AD — anti-access/area denial; Russian missiles and submarines may easily prevent NATO fighter jets from flying in Central Europe and NATO ships from “patrolling” the Baltic Sea. For the “indispensable nation”, that hurts – so bad.Relentless rhetorical hysteria masks the real high-stakes game in play. And that’s where US presidential candidate Hillary Clinton fits in. Throughout her campaign, Clinton has extolled “a major strategic objective of our transatlantic alliance”. The major “strategic objective” is none other than the Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) – a NATO-on-trade complementing political and military NATO.

The fact that TTIP, after the latest Dutch leaks, now runs the risk of being mired in Walking Dead territory may be a temporary setback. The imperial “project” is clear; to configure NATO, which already mutated into a global Robocop (Afghanistan, Libya, Syria), into an integrated political-economic-commercial-military alliance. Always under Washington’s command, of course. And including key peripheral vassals/contributors, such as the Gulf petromonarchies and Israel.

The imperial “enemy”, of course, would have to be the only authentic project available for the 21st century: Eurasia integration – which ranges from the Chinese-led New Silk Roads to the Russia-led Eurasia Economic Union; BRICS integration, which includes their New Development Bank (NDB), in tandem with the Chinese Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB); a resurgent, still independent Iran – Eurasia-connected; and all other independent poles among Non-Aligned Movement (NAM) nations.

This is the ultimate, ongoing 21st confrontation that will keep generating multiple, localized hybrid warfare forms – as it takes place not only across Eurasia but across the whole Global South. It’s all interlocked – from Maidan to the secret TTIP negotiations; from provoking China in the South China Sea to an oil price war and an attack on the ruble; from the NSA spying on Petrobras feeding a slow motion, legalistic regime change process in Brazil to an EU ravaged by twin plagues; a refugee crisis ultimately provoked by NATO’s wars (and instrumentalized by Turkey) coupled with Salafi-jhadi terrorism also spawned by the same wars.Even with France and Germany still dithering – as in paying too heavy a price for sanctions on Russia — Washington’s “project” counts on a ravaged EU being a perpetual hostage of NATO. And ultimately, a hostage of NATO on trade – because of those US geostrategic imperatives against Eurasia integration. 

This implies another necessity; the conceptual war – it’s the evil Russians who are waging Hybrid War, not us! —  must be won at all costs, by instilling constant fear into the average EU citizen. In parallel, it’s also essential to put on a show; thus one of the most massive US-designed military operations on European soil since the end of the Cold War – complete with Navy and Air Force displaying nuclear capability. 

This is the new normal; Cold War 2.0, 24/7. 

By Pepe Escobar

Source: Sputnik News

How Russia and China Are Planning to Counter US Economic Warfare

Posted originally in: 16/04/2016

There is no better example of ‘hybrid war’ that Washington’s economic and financial war against Moscow.

Russia-China

Iran’s Supreme Leader Ali Khamenei told a large group of people in the holy city of Mashhad on Sunday that “The Americans did not act on what they promised in the [Iranian] nuclear accord [the JCPOA]; they did not do what they should have done. According to Foreign Minister [Javad Zarif], they brought something on paper but prevented materialization of the objectives of the Islamic Republic of Iran through many diversionary ways.”

This statement during the Supreme Leader’s key Nowruz (New Year) address should be understood as a flashing amber light: it was no rhetorical flourish. And it was not a simple dig at America (as some may suppose). It was perhaps more of a gentle warning to the Iranian government to “take care” of the possible political consequences.

What is happening is significant: for whatever motive, the U.S. Treasury is busy emptying much of the JCPOA sanctions relief of any real substance (and their motive is something which deserves careful attention). The Supreme Leader also noted that Iran is experiencing difficulties in repatriating its formerly frozen, external funds.

U.S. Treasury officials, since “implementation” day, have been doing the rounds, warning European banks that the U.S. sanctions on Iran remain in place, and that European banks should not think, even for a second, of tapping the dollar or euro bond markets in order to finance trade with Iran, or to become involved with financing infrastructure projects in Iran.

Banks well understand the message: touch Iranian commerce and you will be whacked with a billion dollar fine – against which there is no appeal, no clear legal framework – and no argument countenanced.  The banks (understandably) are shying off. Not a single bank or financial lending institution turned up when Iranian President Hassan Rouhani visited Paris to hold meetings with the local business élite.

The influential Keyhan Iranian newspaper wrote on March 14 on this matter that: “Speaking at the UN General Assembly session in September, Rouhani stated: ‘Today a new phase of relations has started in Iran’s relations with the world.’ He also stated in a live radio and television discussion with the people on 23 Tir: ‘The step-by-step implementation of this document could slowly remove the bricks of the wall of mistrust.’

Keyhan continues: “These remarks were made at a time when the Western side, headed by America, does not have any intention to remove or even shorten the wall of mistrust between itself and Iran. … Moreover, they are delaying the implementation of their JCPOA commitments. Lifting the sanctions has remained merely as a promise on a piece of paper, so much so that it has roused the protest of Iranian politicians.”

“The American side is promoting conditions in such a way that today even European banks and companies do not dare to establish financial relations with Iran – since all of them fear America’s reaction in the form of sanctions [imposed on those same banks]. Actually, the reason for the delay in the commencement of the European banks’ financial cooperation with the Iranian banks and the failure to facilitate banking and economic transactions, is because many of the American sanctions are still in place, and Iranian banks’ financial transactions are [still] facing restrictions. Moreover, given their continuing fear of the biting legislations and penalties for violations of the Americans’ old sanctions, European financial institutions are concerned about violating the American sanctions that continue to be in force …

“It is pointless to expect the US administration to cooperate with Iran given the comments of the US officials, including [National Security Advisor] Susan Rice, since the Americans’ comments and behaviour reveal their non-compliance with their obligations and speak of the absence of the US administration’s political will to implement even its minimum obligations.”

Here Keyhan is specifically referring to Susan Rice’s observation to Jeffrey Goldberg in the Atlantic that, “The Iran deal was never primarily about trying to open a new era of relations between the US and Iran. The aim was very simply to make a dangerous country less dangerous. No one had any expectation that Iran would be a more benign actor.”

Keyhan continues: “Any action on the international scene calls for suitable and appropriate reaction. Therefore, we cannot expect a government like the US administration that seizes every single opportunity to restrict our county, to lift the sanctions. Rice’s recent comments are only a small part of the increasing anti-Iranian rhetoric of the American officials in recent months. These remarks should actually be regarded as a sign … that the dream of the JCPOA is nothing but wishful thinking and far from reality.” (Emphasis added).

The Supreme Leader’s nudge therefore was intended for the ears of the government: Do not build too much politically on this accord: beware its foundations may turn out to be built on sand.

‘Silver Bullet’ Worries

Recently U.S. Treasury Secretary Jacob Lew gave a talk at Carnegie, on the Evolution of Sanctions and Lessons for the Future, on which David Ignatius commented: “Economic sanctions have become the ‘silver bullet’ of American foreign policy over the past decade, because they’re cheaper and more effective in compelling adversaries than traditional military power. But Jack Lew warns of a ‘risk of overuse’ that could neuter the sanctions weapon and harm America. His caution against overuse comes as some Republican members of Congress are fighting to maintain U.S. sanctions on the Iranian nuclear program despite last year’s deal limiting that Iranian threat.”

So what is going on here? If Lew is warning against sanction overreach, why is it that it is precisely his department that is the one that is so assiduously undermining sanctions relief for Iran – “particularly since Lew’s larger point is that sanctions won’t work if countries don’t get the reward they were promised — in the removal of sanctions — once they accede to U.S. Demands”, in the paraphrase by Ignatius himself?

One reason for this apparent contradiction implicit in Lew’s remarks probably is China: Recall that when China’s stock markets were in freefall and hemorrhaging foreign exchange, as it sought to support the Yuan – China blamed the U.S. Fed (U.S. Reserve Bank) for its problems – and promptly was derided for making such an “outlandish” accusation.

Actually, what the Fed was then doing was stating its intent to raise interest rates (for the best of motives naturally!) – just as those, such as Goldman Sachs, have been advising. U.S. Corporate and bank profits are sliding badly, and in “times of financial depletion,” as the old adage goes, “bringing capital home becomes the priority” – and a strong dollar does exactly that.

But the Peoples’ Bank of China (PBOC) did a bit more than just whine about the Fed actions, it reacted:  It allowed the Yuan to weaken, which induced turmoil across a global financial world (already concerned about China’s economic slowing); then raised the Yuan value to squeeze out speculation, betting on further falls in the Yuan; then let it weaken again as the Fed comments started to slide in favor of interest rate hikes, and a strong dollar – until finally, as Zero Hedge has noted:

Zerohedge: And since Janet delivered, PBOC has strengthened the Yuan Fix by the most since 2005!!

Zerohedge: And since Janet delivered, PBOC has strengthened the Yuan Fix by the most since 2005!!

“It appeared the messaging from The People’s Bank Of China to The Fed was heard loud and understood. Having exercised its will to weaken the Yuan (implying turmoil is possible), Janet Yellen (Fed Chair) delivered the dovish goods [i.e. indicated that global conditions trumped the advice of the likes of Goldman Sachs to strengthen the dollar], and so China ‘allowed’ the Yuan to rally back. In a double-whammy for everyone involved, the biggest 3-day strengthening of the Yuan fix since 2005 also pushed the Yuan forwards, back to their richest relative to spot since Aug 2014 – once again showing their might against the dastardly speculative shorts.”

In short, the Ignatius’s “silver bullet” of foreign policy (the U.S. Treasury Wars against any potential competitor to U.S. political or financial hegemony) is facing a growing “hybrid” financial war, just as NATO has been complaining that it is having to adjust to “hybrid” conventional war – from the likes of Russia.

So, as the U.S. tries to expand its reach, for example by claiming legal jurisdiction over the Bank of China, and by blacklisting one of China’s largest telecom companies, thus forbidding any U.S. company from doing business with China’s ZTE, China is pushing back. It has just demonstrated convincingly that U.S. Treasury “silver bullets” can fall short.

Zerohedge: Crushing shorts as Yuan forwards collapse back to their ‘richest’ relative to spot since Aug 2014

Zerohedge: Crushing shorts as Yuan forwards collapse back to their ‘richest’ relative to spot since Aug 2014

This, we think, may have been Lew’s point — one directed, possibly, at Congress, which has become truly passionate about its new-found “neutron bomb” (as a former Treasury official described its geo-financial warfare).

In respect to Russia, this is important: Russia and America seem to be edging towards some sort of “grand bargain” over Syria (and possibly Ukraine too), which is likely to involve the Europeans lifting, in mid-2016, their sanctions imposed on Russia. But again, the U.S. is likely nonetheless to maintain its own sanctions (or even add to them, as some in the U.S. Congress are arguing).

Source of three graphs: Zero Hedge

Source of three graphs: Zero Hedge

So, if Russia, like Iran and China become disenchanted with promises of U.S. sanctions relaxation – then, as the Keyhan author noted, a suitable and appropriate (i.e. adverse) reaction, will ensue.

Boomerang Effect

What the Fed and Lew seem to have assimilated is that the U.S. and European economies are now so vulnerable and volatile that China and Russia can, as it were, whack-back at America – especially where China and Russia co-ordinate strategically. Yellen specifically signaled “weakening world growth” and “less confidence in the renormalization process” as reasons for the Fed backtrack.

Ironically, David Ignatius in his article gives the game away: Lew is not going soft, saying that the US needs to use its tools more prudently; far from it. His point is different, and Ignatius exposes it inadvertently:

“U.S. power flows from our unmatched military might, yes. But in a deeper way, it’s a product of the dominance of the U.S. economy. Anything that expands the reach of U.S. markets — such as the Trans-Pacific Partnership in trade, for example — adds to the arsenal of U.S. power. Conversely, U.S. power is limited by measures that drive business away from America, or allow other nations to build a rival financial architecture that’s less encumbered by a smorgasbord of sanctions.”

This latter point precisely is what is frightening Lew and Ignatius. The tables are turning: in fact, the U.S. and Europe may be becoming more vulnerable to retaliation (e.g. Europe, with Russia’s retaliatory sanctions on European agricultural products) than China and Russia are, to unilateral Treasury or Fed warfare.

This is the new hybrid war (and not the hot air issuing from NATO). Lew and Ignatius know that a parallel “architecture” is under construction, and that Congress’ addiction to new sanctions is just speeding it into place.

So, why then is the U.S. Treasury so zealous in undermining the effectiveness of JCPOA’s agreed lifting of sanctions? Well, probably because Iran has less leverage over the global financial system than either China or Russia. But also perhaps, because “Iran sanctions” are (erroneously) viewed by U.S. leaders as the Treasury’s “jewel in its crown” of geo-financial success.

What may be missing from this hubristic interpretation, however, is the understanding that Iran’s experience will not be lost on the others, nor on the SCO when it convenes its next meetings on how to combat Western “color revolution” operations (with Iran likely joining that organization as a member, rather than an observer, this summer).

Source: Russia Insider

Entenda a crise política no Brasil por uma perspectiva geopolítica. Pepe Escobar: “O Brasil no epicentro da ‘Guerra Híbrida'”

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Por Pepe Escobar, no site Outras Palavras:

Revoluções coloridas nunca são demais. Os Estados Unidos, ou o Excepcionalistão, estão sempre atrás de atualizações de suas estratégias para perpetuar a hegemonia do seu Império do Caos.

A matriz ideológica e o modus operandi das revoluções coloridas já são, a essa altura, de domínio público. Nem tanto, ainda, o conceito de Guerra Não-Convencional (UW, na sigla em inglês).

Esse conceito surgiu em 2010, derivado do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais. Eis a citação-chave: “O objetivo dos esforços dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […] Num futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês)”.

Potências hostis” são entendidas aqui não apenas no sentido militar; qualquer país que ouse desafiar um fundamento da “ordem” mundial centrada em Washington pode ser rotulado como “hostil” – do Sudão à Argentina.

As ligações perigosas entre as revoluções coloridas e o conceito de Guerra Não-Convencional já desabrocharam, transformando-se em Guerra Híbrida; caso perverso de Flores do Mal. Revolução colorida nada mais é que o primeiro estágio daquilo que se tornará a Guerra Híbrida. E Guerra Híbrida pode ser interpretada essencialmente como a Teoria do Caos armada – um conceito absoluto queridinho dos militares norte-americanos (“a política é a continuidade da guerra por meios linguísticos”). Meu livro Império do Caos, de 2014, trata essencialmente de rastrear uma miríade de suas ramificações.

Essa bem fundamentada tese em três partes esclarece o objetivo central por trás de uma Guerra Híbrida em larga escala: “destruir projetos conectados transnacionais multipolares por meio de conflitos provocados externamente (étnicos, religiosos, políticos etc.) dentro de um país alvo”.

Os países do BRICS (Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul) – uma sigla/conceito amaldiçoada no eixo Casa Branca-Wall Street – só tinham de ser os primeiros alvos da Guerra Híbrida. Por uma miríade de razões, entre elas: o plano de realizar comércio e negócios em suas próprias moedas, evitando o dólar norte-americano; a criação do banco de desenvolvimento dos BRICS; a declarada intenção de aumentar a integração na Eurásia, simbolizada pela hoje convergente “Rota da Seda”, liderada pela China – Um Cinturão, Uma Estrada (OBOR, na sigla em inglês), na terminologia oficial – e pela União Econômica da Eurásia, liderada pela Rússia (EEU, na sigla em inglês).

Isso implica em que, mais cedo do que tarde, a Guerra Híbrida atingirá a Ásia Central; o Quirguistão é o candidato ideal a primeiro laboratório para as experiências tipo revolução colorida dos Estados Unidos, ou o Excepcionalistão.

No estágio atual, a Guerra Híbrida está muito ativa nas fronteiras ocidentais da Rússia (Ucrânia), mas ainda embrionária em Xinjiang, oeste longínquo da China, que Pequim microgerencia como um falcão. A Guerra Híbrida também já está sendo aplicada para evitar o estratagema da construção de um oleoduto crucial, a construção do Ramo da Turquia. E será também totalmente aplicada para interromper a Rota da Seda nos Bálcãs – vital para a integração comercial da China com a Europa Oriental.

Uma vez que os BRICS são a única e verdadeira força em contraposição ao Excepcionalistão, foi necessário desenvolver uma estratégia para cada um de seus principais personagens. O jogo foi pesado contra a Rússia – de sanções à completa demonização, passando por um ataque frontal a sua moeda, uma guerra de preços do petróleo e até mesmo uma (patética) tentativa de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou. Para um membro mais fraco dos BRICS foi preciso utilizar uma estratégia mais sutil, o que nos leva à complexidade da Guerra Híbrida aplicada à atual, maciça desestabilização política e econômica do Brasil.

No manual da Guerra Híbrida, a percepção da influência de uma vasta “classe média não-engajada” é essencial para chegar ao sucesso, de forma que esses não-engajados tornem-se, mais cedo ou mais tarde, contrários a seus líderes políticos. O processo inclui tudo, de “apoio à insurgência” (como na Síria) a “ampliação do descontentamento por meio de propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo” (como no Brasil). E conforme cresce a insurreição, cresce também a “intensificação da propaganda; e a preparação psicológica da população para a rebelião.” Esse, em resumo, tem sido o caso brasileiro.

Precisamos do nosso próprio Saddam

Um dos maiores objetivos estratégicos do Excepcionalistão é em geral um mix de revolução colorida e Guerra Híbrida. Mas a sociedade brasileira e sua vibrante democracia eram muito sofisticadas para métodos tipo hard, tais como sanções ou a “responsabilidade de proteger” (R2P, na sigla em inglês).

Não por acaso, São Paulo tornou-seo epicentro da Guerra Híbrida contra o Brasil. Capital do estado mais rico do Brasil e também capital econômico-financeira da América Latina, São Paulo é o nódulo central de uma estrutura de poder interconectada nacional e internacionalmente.

O sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil.

A “Primavera Brasileira” foi virtualmente invisível, no início, um fenômeno exclusivo das mídias sociais – tal qual a Síria, no começo de 2011.

Foi quando, em junho de 2013, Edward Snowden revelou as famosas práticas de espionagem da NSA. No Brasil, a questão era espionar a Petrobras. E então, num passe de mágica, um juiz regional de primeira instância, Sérgio Moro, com base numa única fonte – um doleiro, operador de câmbio no mercado negro – teve acesso a um grande volume de documentos sobre a Petrobras. Até o momento, a investigação de dois anos da Lava Jato não revelou como eles conseguiram saber tanto sobre o que chamaram de “célula criminosa” que agia dentro da Petrobras.

O importante é que o modus operandi da revolução colorida – a luta contra a corrupção e “em defesa da democracia” – já estava sendo colocada em prática. Aquele era o primeiro passo da Guerra Híbrida.

Como cunhado pelos Excepcionalistas, há “bons” e “maus” terroristas causando estragos em toda a “Siraq”; no Brasil há uma explosão das figuras do corrupto “bom” e do corrupto “ruim”.

O Wikileaks revelou também como os Excepcionalistas duvidaram da capacidade do Brasil de projetar um submarino nuclear – uma questão de segurança nacional. Como a construtora Odebrecht tornava-se global. Como a Petrobras desenvolveu, por conta própria, a tecnologia para explorar depósitos do pré sal – a maior descoberta de petróleo deste jovem século 21, da qual as Grandes Petrolíferas dos EUA foram excluidas por ninguém menos que Lula.

Então, como resultado das revelações de Snowden, a administração Roussef exigiu que todas as agências do governo usassem empresas estatais em seus serviços de tecnologia. Isso poderia significar que as companhias norte-americanas perderiam até US$ 35 bilhões de receita em dois anos, ao ser excluídos de negociar na 7ª maior economia do mundo – como descobriu o grupo de pesquisa Fundação para a Informação, Tecnologia & Inovação (Information Technology & Innovation Foundation).

O futuro acontece agora

A marcha em direção à Guerra Híbrida no Brasil teve pouco a ver com as tendências políticas de direita ou esquerda. Foi basicamente sobre a mobilização de algumas famílias ultra ricas que governam de fato o país; da compra de grandes parcelas do Congresso; do controle dos meios de comunicação; do comportamento de donos de escravos do século 19 (a escravidão ainda permeia todas as relações sociais no Brasil); e de legitimar tudo isso por meio de uma robusta, embora espúria tradição intelectual.

Eles dariam o sinal para a mobilização da classe média. O sociólogo Jesse de Souza identificou uma freudiana “gratificação substitutiva”, fenômeno pelo qual a classe média brasileira – grande parte da qual clama agora pela mudança do regime – imita os poucos ultra ricos, embora seja impiedosamente explorada por eles, através de um monte de impostos e altíssimas taxas de juros.

Os 0,0001% ultra ricos e as classes médias precisavam de um Outro para demonizar – no estilo Excepcionalista. E nada poderia ser mais perfeito para o velho complexo da elite judicial-policial-midiática do que a figura de um Saddam Hussein tropical: o ex-presidente Lula.

“Movimentos” de ultra direita financiados pelos nefastos Irmãos Kock pipocaram repentinamente nas redes sociais e nos protestos de rua. O procurador geral de justiça do Brasil visitou o Império do Caos chefiando uma equipe da Lava Jato para distribuir informações sobre a Petrobras que poderiam sustentar acusações do Ministério da Justiça. A Lava Jato e o – imensamente corrupto – Congresso brasileiro, que irá agora deliberar sobre o possível impeachment da presidente Roussef, revelaram-se uma coisa só.

Àquela altura, os roteiristas estavar seguros de que a infra-estrutura social para a mudança de regime já havia produzido uma massa crítica anti-governo, permitindo assim o pleno florescimento da revolução colorida. O caminho para um golpe soft estava pavimentado – sem ter sequer de recorrer ao mortal terrorismo urbano (como na Ucrânia). O problema era que, se o golpe soft falhasse – como parece ser pelo menos possível, agora – seria muito difícil desencadear um golpe duro, estilo Pinochet, através da UW, contra a administração sitiada de Roussef; ou seja, executando finalmente a Guerra Híbrida Total.

No nível socioeconômico, a Lava Jato seria um “sucesso” total somente se fosse espelhada por um abrandamento das leis brasileiras que regulam a exploração do petróleo, abrindo-a para as Grandes Petrolíferas dos EUA. Paralelamente, todos os investimentos em programas sociais teriam de ser esmagados.

Ao contrário, o que está acontecendo agora é a mobilização progressiva da sociedade civil brasileira contra o cenário de golpe branco/golpe soft/mudança de regime. Atores cruciais da sociedade brasileira estão se posicionando firmemente contra o impeachment da presidente Rousseff, da igreja católica aos evangélicos; professores universitários do primeiro escalão; ao menos 15 governadores estaduais; massas de trabalhadores sindicalizados e trabalhadores da “economia informal”; artistas; intelectuais de destaque; juristas; a grande maioria dos advogados; e por último, mas não menos importante, o “Brasil profundo” que elegeu Rousseff legalmente, com 54,5 milhões de votos.

A disputa não chegará ao fim até que se ouça o canto de algum homem gordo do Supremo Tribunal Federal. Certo é que os acadêmicos brasileiros independentes já estão lançando as bases para pesquisar a Lava Jato não como uma operação anti-corrupção simples e maciça; mas como estudo de caso final da estratégia geopolítica dos Exceptionalistas, aplicada a um ambiente globalizado sofisticado, dominado por tecnologia da informação e redes sociais. Todo o mundo em desenvolvimento deveria ficar inteiramente alerta – e aprender as relevantes lições, já que o Brasil está fadado a ser visto como último caso da Soft Guerra Híbrida.

* Tradução de Vinícius Gomes Melo e Inês Castilho.