Historiador brasileiro, Lincoln Secco: política de bem-estar social como uma resposta do capitalismo à Revolução Russa e como a austeridade se torna cada vez mais viável sem um sistema político que a ameace.

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01/05/2017

O Dia dos Trabalhadores em 2017 assume um significado especial. Nos 100 anos da Revolução Russa, que em geral mudou a geopolítica, é inevitável revisitar a trajetória dos direitos trabalhistas que foram conquistadas ao longo do século. Para o historiador brasileiro Lincoln Secco, tais conquistas estão sendo atacadas atualmente em todo o mundo, em um caminho cada vez mais aberto à austeridade.

“Em suma, o ano de 1917 mudou as características do mundo. A Revolução Russa nesse ano impulsionou o movimento comunista internacional. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os comunistas chegaram ao poder em vários países e o capitalismo foi forçado a fazer muitas reformas. Eles tiveram que dar uma resposta aos comunistas, que eram uma ameaça. Neste contexto, o modelo de estado social emergiu, foi uma tentativa de humanizar o capitalismo e dizer ‘olha como o capitalismo pode ser ainda melhor para os trabalhadores do que o próprio socialismo”, diz Secco.

Doutor em História Econômica da Universidade de São Paulo (USP), Secco analisou o contexto e o impacto da Revolução Russa no mundo. De acordo com o estudioso, a evidência de que a política do ‘Estado-providência’ foi uma reação ao sistema implantado pelos soviéticos é que a sua implementação está em cheque nos países europeus que a adotaram.

Na sua opinião, os cortes nos benefícios do Estado de bem-estar são cada vez mais comuns em nome da austeridade como uma solução para as crises financeiras. Além disso, Secco lembrou que as políticas de austeridade surgiram na década de 1980, precisamente quando a União Soviética começou a declinar, o que abriu espaço para os governos liberais da época.

“O estado de bem-estar está sendo atacado na Europa, bem como os direitos trabalhistas em todo o mundo. Alguns historiadores e analistas internacionais argumentam que isto é assim porque não há mais qualquer ameaça ao capitalismo, nenhum sistema político capaz de competir com os valores ocidentais. Como não há concorrência de outro sistema político, não há mais necessidade de fazer concessões aos trabalhadores “, eu disse.

Falando sobre o papel das marchas populares, Secco observa que sempre que a população vai protestar, há “políticos profissionais e partidos de ocasião para canalizar suas vozes.”

“Os setores populares que se manifestam carecem de organização para governar”, eu disse. O historiador exemplifica com a Revolução Francesa (1789-1799), quando a burguesia chegou ao poder após intensos protestos e conseguiram derrubar a monarquia.

Na Revolução Russa de Fevereiro de 1917, que, segundo Secco, foi um marco para a Revolução de Outubro do mesmo ano, algo como aconteceu: As pessoas que tomaram a rua para a renúncia do czar ​​não foram os únicos que tomaram o poder. Na visão do acadêmico, outro exemplo são os protestos no Brasil em 2013, que acabaram canalizados pela oposição ao governo da então presidente Dilma Rousseff.

            “A população tem êxito ao se auto organizar para protestar suas demandas e chega a derrubar um governo, mas não logra instituir outro. Os partidos ou políticos profissionais que estão organizados acabam sequestrando a voz popular, tomando seu lugar, disputando sua representação” disse o historiador.

Fonte: Sputnik Brasil

 

Quase 300 mil migrantes chegaram à Europa pelo mar nos últimos 8 meses, diz OIM

Publicado Originalmente: 14/09/2016

Quase 300 mil migrantes e refugiados chegaram à Europa pelo mar entre o início deste ano e meados de setembro – a maioria entrando pela Grécia e através da Itália –, advertiu a Organização Internacional para as Migrações (OIM) na terça-feira (13).

Do total de 294.450 migrantes e refugiados que desembarcaram no continente europeu, 126.931 chegaram via Itália e 165.015 através da Grécia. De acordo com os dados da organização, a Itália experimentou um ligeiro aumento de chegadas, em comparação ao período de janeiro até o final de setembro de 2015.

O número de pessoas que chegaram à Grécia, por sua vez, sofreu uma queda de quase 50% em relação à mesma época no ano passado, passando de 381.996 para 165.015 chegadas.

“Enquanto as chegadas à Itália, em 2016, em grande parte seguiram os padrões dos desembarques mensais de 2015, com a Grécia foi diferente. Houve muito menos migrantes e refugiados provenientes da Turquia este ano, em comparação com o ano passado”, apontou a OIM.

A agência parceira da ONU acrescentou que, embora o número total de chegadas seja baixo, o número de mortes entre os migrantes e refugiados do Mediterrâneo chegou agora, passando o último fim de semana, a 3.207 – superando o total de 456 registrado no mesmo período em 2015.

A agência internacional de migração observou ainda que, segundo o Projeto Migrantes Desparecidos – que documenta as mortes e os desaparecimentos ao longo das rotas migratórias em todo o mundo –, as fatalidades ocorridas no Mediterrâneo no ano passado ficaram em 2.751 até 12 de setembro de 2015.

Nos últimos anos, a Grécia e a Itália se tornaram a principal porta de entrada para muitos refugiados e migrantes que tentam chegar à Europa por mar.

Em relação à região sul da Europa e ao Mediterrâneo como um todo, de janeiro até o final de agosto, a OIM relatou um total de 354.618 chegadas através do Mediterrâneo.

No próximo dia 19 de setembro (segunda-feira) acontece a Reunião de Alto Nível sobre Grandes Movimentos de Refugiados e Migrantes, cujo objetivo é aproximar os países de uma abordagem mais humana e coordenada para o tema.

FONTE: ONU

Eight reasons Leave won the UK’s referendum on the EU

The UK has voted to quit the European Union following a referendum on its membership. So how did the Leave campaign win?

 

1. Brexit economic warnings backfire

Mark Carney with the UK's new £5 noteImage copyrightEPA

What started off as a trickle soon became a steady stream and ended up as a flood.

The public was bombarded with warnings about how they would be poorer if they voted to leave the EU but, in the end, weren’t convinced by what they were told and/or believed it was a price worth paying.

The CBI, the IMF, the OECD, the IFS – an alphabet soup of experts lined up to say economic growth would be hobbled, unemployment would go up, the pound would plummet and British business would be left in a no man’s land outside the EU.

The Bank of England raised the prospect of a recession while The Treasury said it would be forced to put income tax up and slash spending on the NHS, schools and defence.

If that wasn’t enough, President Obama suggested the UK would go to the “back of the queue” in terms of securing a trade deal with the US while top EU official Donald Tusk hinted at the end of Western political civilization.

Some on the Remain side accepted this was overkill and that so-called “Project Fear” had got a bit out of hand while the Leave campaign was quick to dismiss the naysayers as wealthy, unaccountable elites with their own vested interests talking down Britain.

But the fact the public discounted so readily the advice of experts points to something more than just a revolt against the establishment. It suggested far more people felt left behind and untouched by the economic benefits of five decades of EU involvement being trumpeted.

How will Brexit affect your finances?


2. £350m NHS claim gets traction

Vote Leave battle busImage copyrightGETTY IMAGES

The assertion that leaving the EU would free up £350m a week extra to spend on the NHS is the kind of political slogan that campaigns dream of: striking, easy to understand and attractive to voters of different ages and political persuasions.

No surprise then that Vote Leave chose to splash it across the side of their battle bus.

The fact that the claim does not stand up to much scrutiny – the figure is calculated using sums which were disputed by the Treasury Select Committee and described as potentially misleading by the UK Statistics Authority – did not reduce its potency.

Remain campaigner Angela Eagle may have told her opponents to “get that lie off your bus” but polling suggests it gained traction and was the single most remembered figure from the campaign, with many people believing that money handed over to the EU to be a member should be spent in the UK instead.

In that sense, it served as a powerful illustration of how the UK could be better off outside the EU.


3. Farage makes immigration the defining issue

Nigel Farage at the launch of a UKIP posterImage copyrightEPA

If they didn’t quite bet the farm on the issue of immigration, Leave played what they knew was their trump card often and they played it successfully.

The issue fed into wider questions of national and cultural identity, which suited Leave’s message – particularly to lower income voters.

The result suggested that concerns about levels of migration into the UK over the past 10 years, their impact on society, and what might happen in the next 20 years were more widely felt and ran even deeper than people had suspected.

Just as crucially, it suggested Leave’s central argument that the UK cannot control the number of people coming into the country while remaining in the EU really hit home.

Turkey was a key weapon in Leave’s armoury and, although claims that the UK would not be able to stop it entering the EU were firmly denied, there was enough uncertainty about this – a fact that the ongoing migrant crisis in Europe unquestionably fed into.

The language and imagery used by the Leave campaign came in for criticism and there were recurring tensions between the Conservative dominated official Leave movement, Nigel Farage’s UKIP roadshow and the separate Leave.EU group.

But their various messages resonated and segued with their central proposition that a vote to leave was a once in a generation chance to take control and assert national sovereignty.


4. Public stop listening to PM

David Cameron on the BBC's Question Time showImage copyrightPA

David Cameron may have won one leadership contest, one (or two if you include the 2010 coalition-forming one) general elections and two referendums in the past ten years but this was the moment his luck ran out.

By putting himself front and centre of the Remain campaign, and framing the decision as a question of trust, he staked his political future and personal reputation on the outcome.

Having put so much store on his ability to secure a fundamental change in the UK’s relationship with the EU, it was inevitable that the concessions he came back with following nine months of negotiations would be dismissed as a damp squib by Eurosceptics in his party.

But this summed up a deeper problem. Having constantly stated that he would “not rule anything out” if he didn’t get what he wanted, trying to enthuse the UK to stay in on the basis of reforms most believed were modest at best was always going to be a difficult sell.

Throughout the process, he found himself at odds with many Conservatives who have never quite reconciled themselves to his decision to go into coalition after the 2010 election and the compromises that brought.

Unsuited to winning over Labour supporters, the prime minister was not able to persuade enough floating voters to give him the benefit of the doubt.

It was his failure to get the outcome he wanted, coupled with his desire to try and unify the country after the bruising campaign, that prompted him to say he would stand down as PM by October.


5. Labour fail to connect with voters

Labour's shadow cabinetImage copyrightPA

The Remain campaign always needed Labour voters to win the referendum and the fact that they did not play ball will be the subject of a long and acrimonious post-mortem within the opposition.

Not only did Labour – 90% of whose MPs backed staying in the EU – badly misjudge the mood of its supporters, when it realised something was wrong during the campaign, it was unable to do much about it.

Despite sending in big beasts such as Gordon Brown and Sadiq Khan to talk up the benefits of the EU, and hinting that further controls on immigration would be needed, it was unable to shift the impression of a growing schism between those running the party and its base.

Although Alan Johnson, the head of Labour In, has been singled out for criticism, it is likely that Jeremy Corbyn – who declined to share a platform with pro-EU politicians of other parties – will take most of the blame.

Critics have said his lukewarm support for the EU – which he summed up as 7 out of ten in one appearance – filtered through to the entire campaign and his emphasis on the need for a “social Europe” simply did not resonate with enough people.


6. Big beasts – Boris Johnson and Michael Gove

Boris Johnson holding a lobster on a visit to SuffolkImage copyrightPA

We always knew a handful of cabinet ministers would support Brexit but it was Michael Gove and Boris Johnson’s declaration of support which really put rocket boosters under the campaign.

The justice secretary brought intellectual heft and strategic nous to the table while the former mayor of London, after a bout of soul-searching, brought star appeal and ability to appeal across the party divide.

The two men were deployed deftly, Boris Johnson cast in the role of foot soldier as he criss-crossed the country on the Vote Leave bus, pulling pints and brandishing cornish pasties in his wake.

Meanwhile, Mr Gove did much of the heavy lifting, helping to put together Leave’s post-Brexit manifesto as well as facing the public in TV referendum specials on Sky News and the BBC.

Then there was Nigel Farage, the face of Euroscepticism in the UK but also a potential loose cannon for the Conservative dominated official campaign? The UKIP leader, as is his forte, did his own thing and occasionally provoked controversy but also played a vital role on the ground in motivating his party’s supporters and numerous others to go to the polls.


7. Older voters flock to polls

A man and a woman on a stroll in SussexImage copyrightPA

While experts will pore over the finer details of turnout over the coming days and weeks, the cry will inevitably go up that it was older voters which won it for Leave – particularly in the south, south-west, Midlands and the north east.

It is a matter of fact that the older you are, the more likely you are to make the effort to vote – 78% of those 65 or over voted in the 2015 election, compared with 43% of 18-24 year olds and 54% of 25-34 year olds.

Despite the last minute rush to register – which saw 2.6 million people sign up, many of them younger voters, between 15 May and the extended deadline of 9 June – the breakdown may not be radically different this time.

Factor in research suggesting that support for Brexit was significantly higher among those aged 55 and over than among younger age groups – three out of every five voters aged 65 or over said they wanted to leave – then you have the foundation for Friday’s result.

Of course, it is not as simple as that, with many younger voters will also have supported Brexit across England and Wales. But a big inter-generational divide in voting patterns is just one of the many talking points going forward.


8. Europe always slightly alien

Couple wearing Union Jack suitsImage copyrightAFP

The UK’s relationship with Europe has never been simple nor static.

It took the country years to join what was then the European Community and, even then, when it was last put to the vote in 1975 many backed it grudgingly or for narrow economic reasons.

Many of those have since changed their minds, with their earlier ambivalence turning into outright hostility. There have been decades of scepticism towards the EU among politicians and in large parts of the UK media.

The younger generation were generally seen as pro-EU but it remains to be seen – once the details of the voting is looked into – how the result broke down by age.

What appears clear from the campaign is that the vote to Leave was as much a statement about the country’s national identity, and all that involves, as it was about its economic and political future.

Fonte: BBC News

Why Russia isn’t as strong as people think

Published on April 7, 2016

George Friedman explains how population disparity and the loss of a critical buffer comprised of European countries along the border of Russia, have weakened the country.

Business Insider

Keiser Report- Truth About Markets

Publicado originalmente em: 23/04/2016

 

Max and Stacy talk about Obama in London, Boris Johnson, Saudi Arabia, the 28 pages.

Fonte: Max Keiser

‘Desde a Grécia antiga, a dívida foi um instrumento de dominação’

As dívidas funcionam para estabelecer e reproduzir relações de dependência colonial, determinando formas particulares de dominação econômica e política.

Publicado originalmente em: 08/04/2016

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Para o estudioso grego, a dívida externa e o predomínio das forças do mercado na política transformam as instituições e os laços sociais, e substituem a soberania popular pela soberania do mercado.

Você retoma o conceito de “pós-democracia” como categoria de análise vigente. De acordo com essa perspectiva, como é possível reativar os mecanismos democráticos?

O termo “pós-democracia” surge na última década, na sociologia e na teoria política, para compreender conceitualmente e marcar criticamente as patologias contemporâneas da democracia liberal, sobretudo com relação às condições estabelecidas pelo capitalismo tardio. Nesse tipo de regime, o aspecto formal das instituições democráticas permanece intacto: por exemplo, as eleições se desenvolvem normalmente para as transições de um governo a outro. Ainda assim, a magnitude do debate eleitoral se transforma num espetáculo controlado, manejado por especialistas e regulado pelos meios de comunicação dominantes, onde se tratam os temas selecionados por eles e onde a cidadania fica reduzida a um papel passivo. Então, quando se tenta realizar uma mudança real (como na Grécia, em 2015), os governos percebem que os alcances de seus movimentos estão bastante restringidos pelas – supostamente independentes – instituições supranacionais (o Banco Central Europeu, o FMI, etc). Nesse sentido, a política em tempos pós-democráticos se forma cada vez mais pela interação entre os governos eleitos e pelas instituições da elite, assim como pelos organismos que representam majoritariamente os interesses comerciais. Esse predomínio das forças do mercado na política não é considerado escandaloso, como foi no passado, algo que deveria ser camuflado de alguma forma, e que agora não é ocultado de nenhuma forma. Isso é abertamente abraçado e, de fato, as instituições públicas ficam subordinadas à essa dinâmica. A nova gestão pública, nesse sentido, buscou reformar as instituições – hospitais, universidades, etc – de acordo com os interesses do setor privado. Logo, a pós-democracia significa “democracia sem `demos´”, como apontou Jacques Rancière, um sistema onde o povo desaparece da cena política e seu papel é ocupado por uma aristocracia tecnocrática, onde a soberania popular é substituída pela soberania do mercado. Em outras palavras, o “povo” é registrado na esfera política como a “população”, como um conjunto numérico de individualidades a ser administrado e disciplinado biopoliticamente. Quando as resistências emergem, quando as novas subjetividades democráticas e populares se formulam, suas demandas são denunciadas e desacreditadas, sob a etiqueta do perigoso e irresponsável “populismo”. Se a defensa das instituições democráticas e dos interesses populares hoje leva o nome de populismo, então talvez o populismo deveria ser tomado e canalizado em direções progressistas.

– É possível traçar um limite geopolítico de acordo sobre esses conceitos?

– Obviamente. O termo “pós-democracia” foi formulado por Colin Crouch, entre outros, a partir da experiência europeia. Não há dúvidas, porém, que captura uma dinâmica global, visível numa variedade de países e regiões. É por isso que se verifica tal amplitude do uso de “pós-democracia” e “pós-política”. Sendo suficientemente flexíveis desde o seu início, os termos se reúnem cada vez mais, para descrever os fenômenos políticos em diversas regiões do mundo, fora do contexto do oeste europeu, onde está terminologia surgiu originalmente. Ao mesmo tempo, a crise global iniciada em 2008, e que foi especialmente localizada na Europa, deixou em evidência, através da implementação de certas medidas de austeridade draconianas no sul da Europa, um aprofundamento adicional da orientação pós-democrática. Hoje, a Europa parece estar diante de um novo desafio: como avaliar o estabelecimento e a consolidação – através da crueldade – de uma sociedade da dívida neoliberal? Esse é o sinal de um aprofundamento da pós-democracia, ou talvez signifique a passagem para um estágio além da pós-democracia? Se for assim, a pergunta é: em que ela se transformou exatamente? Embora não existam respostas conclusivas, estão se instalando, e talvez seja tempo de começar a plantear algumas perguntas. Para compreender completamente a nossa situação, devemos considerar que o neoliberalismo alemão não deve ser confundido com o laissez-faire, com o resultado de uma ordem natural espontânea (a mão invisível do mercado), e sim, como destacou Foucault, com una vigilância permanente, atividade e intervenção. Essa intervenção é de uma natureza particular, bem diferente, por exemplo, de um Estado de Bem-estar: seu objetivo – às vezes imposto com imensa brutalidade – é condicionar o cenário para uma possível economia de mercado que intervém na população e reforma o próprio laço social. Como alguns comentaristas defendem, esse é o estatismo sem Estado, estatismo a favor da mercantilização, acompanhado pela liquidação de toda regulação do mercado e das relações de trabalho, etc. Novamente, esse movimento não é particular da Europa. Por exemplo, a América Latina se está aproximando agora desse modelo. O Chile é um exemplo de país que viveu uma brutal imposição de um sistema similar, desde os Anos 70. Essas são dinâmicas globais, e somente podem ser abordadas a nível global.

– Isso significa que o Estado se reduz à administração da dívida?

Desde a antiga Grécia, a dívida foi um instrumento de dominação e exploração, e sempre foi muito brutal. Não devemos esquecer que o estabelecimento da democracia de Atenas está relacionado com o cerceamento da participação dos servos, devido às suas dívidas. Também sabemos que as dívidas, atualmente, funcionam para estabelecer e reproduzir relações de dependência colonial. Em muitas conjunturas históricas, as relações de dívida estruturam o laço social, determinando as formas particulares de dominação econômica e política. Quando isso acontece – e acontece porque a dívida funciona simultaneamente como uma força econômica, política e moral – é porque produz e condiciona tipos particulares de subjetividades individuais e coletivas, manipulando a dinâmica psicossocial da culpa, da vergonha e do sadismo, e aí é quando falamos de “sociedades de dívida”. Em décadas recentes, por exemplo, o pêndulo entre os dois espíritos de capitalismo, típicos da modernidade – o primeiro espírito, o weberiano, do ascetismo associado a uma “sociedade da proibição” e o segundo espírito, do consumo, associado a uma “sociedade do desfrute ordenado” – tomou uma forma marcada pela dialéctica entre o estímulo do crédito e a estigmatização da dívida. No caso da Grécia contemporânea – que não é um caso isolado – vimos como as forças institucionais promovem, ao mesmo tempo, todas essas opções. No princípio, antes da crise, a acumulação da dívida estava permitida, e inclusive se propagou, com o impulso do “espírito consumista” do capitalismo. Logo, as mesmas instituições elevaram a dívida a níveis patológicos, para serem castigados com formas de servidão pós-modernas. Essas lógicas foram aplicadas tanto em nível subjetivo como em nível estatal. Em qualquer caso, as acumulações da dívida, assim como o castigo do endividamento, constituem momentos antiéticos desse mesmo mecanismo, e só resta a construção subjetiva a serviço da hierarquia social. Então, quando o laço entre os dois falhas, até mesmo o cancelamento da dívida e o perdão da mesma são evocados, para sustentar a ordem social. Voltando à Grécia, muitos anos depois da crise, a troica também aceitou processos de reestruturação de dívidas. Esse cancelamento da dívida (de forma parcial) fracassou na hora de fazer alguma diferença real na viabilidade a longo prazo da dívida grega, ou na situação atual do povo grego. As promessas de uma gestão mais suportável da dívida ainda são utilizadas, como um futuro sonhado. Essa é razão pela qual a experiência argentina continua sendo tão importante: porque a reestruturação de dívida não era um mote publicitário, ou uma concessão parcial, oferecida em troca de uma continuidade das relações de dependência. Ao contrário, foi massiva e imposta por um governo democrático-popular, afirmando sua independência.

Por que você sustenta que é necessário estudar as políticas desenvolvidas na América do Sul?

Justamente porque essas políticas foram inicialmente introduzidas na América do Sul, as primeiras resistências também foram articuladas nessa região. Assim, o fim da ditadura de Pinochet no Chile, o colapso do pacto de Ponto Fixo na Venezuela e o fracasso do neoliberalismo patrocinado pelo FMI na Argentina confluem numa série de projetos políticos que redirecionaram o equilíbrio do poder voltado à participação popular no processo de tomada de decisões, facilitando a incorporação socioeconômica dos setores empobrecidos e regulando os efeitos da globalização neoliberal.

– Alguns comentaristas qualificam essa tendência como “progressista”, de “esquerda” ou “populismo inclusivo”, com o objetivo de distinguir seu perfil e suas implicações políticas da extrema direita, ou do “populismo excludente”, próprio da experiência europeia.

– Minha opinião sobre esse assunto é que a maioria dos movimentos de extrema direita, nunca foram, estritamente falando, populistas, e não deveriam ser descritos como tais: seu principal ponto de referência é a “nação” – não num sentido anticolonial, mas sim no sentido étnico, inclusive racista, do termo –, e seu adversário não é esse 1% da população, os mais ricos do mundo, e sim os outros grupos étnicos: os refugiados, os imigrantes, etc. Ainda assim, a diferenciação entre a direita como ícone do populismo excludente (no modelo europeu) e a esquerda como exemplo do populismo inclusivo (no modelo sul-americano) é um primeiro passo, e importante, porque registra o potencial democrático das demandas populares e dos movimentos e partidos que as representam. O que também é interessante é que a crise econômica europeia e os efeitos da sua gestão neoliberal foram deslocando o tradicional sistema de partidos em países como a Grécia, a Espanha e Portugal, tornando possível o surgimento de outros partidos. Duas situações aparecem, a partir disso: na primeira, os países europeus – especialmente os que integram a Zona Euro – passam a estar mais limitados em suas opções, devido ao avanço da integração transnacional, algo que limita severamente o poder de suas negociações e suas chances de desafiar minimamente a hegemonia liberal pan-europeia – por exemplo, a transformação do retumbante “NÃO”, dado pelo povo grego no referendo de julho 2015, num novo acordo memorando com a troica. Creio que seria preciso uma tendência igualitária, capaz de representar uma grande variedade de países europeus, poderia reverter essa situação. Ou seja, só haverá esperança se a Espanha e outros países seguirem o exemplo da Grécia e de Portugal. O segundo desafio, é que esses projetos devem refletir sobre as limitações de projetos similares na América do Sul, os quais tiveram que enfrentar as recentes derrotas eleitorais, como no caso da Argentina e da Venezuela. É possível aprender dos acertos e também dos erros, como ficou mais evidentes no caso venezuelano? Dessa incapacidade para introduzir um modelo econômico sustentável? Desse fracasso na hora de substituir uma liderança carismática por uma crescente participação das instituições? De suas dificuldades no cultivo de um novo ethos democrático político, e novos tipos de desejo e consumo, capazes de diminuir nossa dependência da globalização neoliberal?

 

– Então, é possível pensar numa saída regional também para a América do Sul?

Esse é um enorme desafio para todas as forças que se opõem ao neoliberalismo pós-democrático. Porque não devemos esquecer que o problema – a falta de coordenação transnacional – sempre esteve presente, e é obviamente muito difícil de enfrentar. Da mesma forma, um “internacionalismo”, baseado na ONU, demonstrou ser às vezes impotente, e o problema da dívida é um bom exemplo disso. De alguma forma, as forças pós-democráticas institucionais podem se mover com eficácia entre a orquestração da ação transnacional, e, ao mesmo tempo, a manipulação das sensibilidades nacionais, quando seja necessário. A velha estratégia colonialista de “dividir para governar” é sempre útil. Em contraste a ela, a longa história dos movimentos de resistência demostra que o pensamento e a ação simultânea, a nível nacional e internacional, é extremadamente difícil de articular. Porém, algumas medidas para os processos de reestruturação da dívida soberana – iniciados com o caso da Argentina –, como a aprovação do novo marco legal na ONU, têm impacto em qualquer parte do mundo.

– Que consequências trazem a neutralização do antagonismo político, próprio da pós-democracia?

Em efeito, a orientação pós-democrática margina o antagonismo político, priorizando uma perspectiva tecnocrática das questões em jogo, e buscando a falta de alternativas. O mais importante não é seguir as prescrições universais das políticas neoliberais, mas sim estabelecer que é preciso desfrutá-las! Entretanto, os efeitos secundários das políticas desse tipo – que são usualmente impostas sob o pretexto de reduzir uma dívida artificialmente inflada – incluem o desemprego massivo, um colapso dos salários, das aposentadorias e dos programas de ajuda social, da perda de direitos sociais e trabalhistas, uma espiral descendente da mobilidade social e da expulsão da cidadania das instâncias de tomada de decisões. Posteriormente, surgem necessariamente a indignação social e os protestos. A necessidade de questionar e criticar, junto com a necessidade de limitar a concentração do poder nas mãos das elites irresponsáveis. John Keane falou sobre o que ele chama de “democracias monitoradas”, que é um uso pragmático dos procedimentos democráticos, baseados numa pressão pública para combater a concentração de um poder inexplicável. Aqui, os mecanismos de representação da sociedade civil se combinam com novas formas de monitoramento público do exercício do poder e do controle da corrupção. Não obstante, isso não deve confundir nossas práticas democráticas, para não impor a elas a necessidade de se manter numa postura meramente defensiva. Se a democracia está reduzida a uma variedade de esquemas de vigilância e mecanismos de controle que lidam com um poder que é visto como ilegítimo, então a “soberania popular”, a base da nossa tradição democrática, será perdida para sempre, e não rejuvenescida. Meu medo é que o resultado final do argumento da “democracia vigiada” seja a legitimação indireta de uma teoria elitista, e até mesmo o retorno ao liberalismo oligárquico. Nesse sentido, devemos ser claros, a democracia supõe um autogoverno no nível mais básico: se trata de uma demanda em favor da igualdade de direitos da participação na tomada de decisões, que seja capaz de convocar a totalidade dos cidadãos. Contudo, não podemos esperar que os cidadãos estejam sempre alertas, dispostos a dedicar seu tempo e sua energia em debater e decidir sobre todas as coisas. É por isso que os gregos antigos estabeleceram um conjunto de prêmios para a participação e um conjunto de castigos para aqueles que não participavam na vida democrática pública. Sabemos também, graças a Maquiavel, que uma dificuldade importante do atual cenário tem a ver com o desejo: diferente do desejo dos ricos e poderosos, baseado em possuir “mais e más”, o desejo do povo, dos marginados e oprimidos, é um desejo definido negativamente. O povo deseja, primeiro, “não ser dominado”, e certamente desejam não sê-lo de uma maneira brutal, antidemocrática e pouco digna. É por isso que as lutas populares enfrentam dificuldades em estabelecer suas metas e, paradoxalmente, tendem a aceitar os objetivos dos seus adversários. Portanto, quando um povo previamente empobrecido e excluído recupera, por exemplo, um status de classe média, pode acontecer desse mesmo povo negar sua situação passada e começar a se comportar de uma maneira hierárquica, elitista e excludente.

– Em outra entrevista, você lembrou que os regimes políticos europeus são frágeis, porque o mercado ocupa um lugar central, o que se debilita facilmente, já que nenhuma pessoa pode se apaixonar pelo mercado. Entretanto, os altos e baixos da economia mostram que o mercado também pode seduzir.

Se nos concentramos nas regiões que mencionamos, a Europa (com sua crise econômica centrada especialmente no Sul) e a América do Sul, podemos dizer que vivem uma trajetória similar, mas com uma disposição diferente das etapas históricas. A Europa, por exemplo, se enfrenta a uma crise parecida à que levou à moratória na Argentina. Com o domínio do ordoliberalismo alemão, baseado na chantagem e na extorsão, num “consentimento” forçado, onde a dívida funciona como o instrumento principal da disciplina subjetiva e coletiva. Enquanto a Argentina, depois de passar pelo colapso de um sistema construído em torno da dívida e da coerção, e após a reconstrução da sua economia e da democracia, atualmente parecem ter se esquecido das dificuldades do passado e se voltaram a abraçar as promessas de um futuro dominado por um consumo neoliberal imaginário. Muitos setores na Argentina optaram por um retorno à “normalidade”, um regresso ao capitalismo tardio. Não há nada de extremadamente inusual nisso. Sabemos, graças a Jacques Lacan, que as pessoas desejam aquilo que lhes falta. O objeto que cumpre essa função não é eterno nem fixo, está histórica e culturalmente determinado. E o mais importante, isso também pode variar entre o âmbito público e o privado. Em seu livro “Shifting Involvements”, o economista alemão Albert Hirschman demonstrou como a nossa vida pode seguir um ritmo circular, passando por períodos de intensa participação pública inspirada em ideais altruístas, ou por uma despolitização extrema nos períodos em que os interesses individuais e a realização pessoal ganham prioridade.

Fonte: Carta Maior

Our refugee system is failing. Here’s how we can fix it

Published on Mar 24, 2016

A million refugees arrived in Europe this year, says Alexander Betts, and “our response, frankly, has been pathetic.”

Betts studies forced migration, the impossible choice for families between the camps, urban poverty and dangerous illegal journeys to safety.

In this insightful talk, he offers four ways to change the way we treat refugees, so they can make an immediate contribution to their new homes. “There’s nothing inevitable about refugees being a cost,” Betts says. “They’re human beings with skills, talents, aspirations, with the ability to make contributions — if we let them.”

TED