“Temos de rechaçar a mentalidade do ‘nós contra eles’ que os cínicos tentam nos vender”

Postado originalmente em: 09/07/16

Nota introdutória do autor do post: Devido ao fato de meu posto de observação ser focado nas Américas, as marcações feitas no texto são focadas somente no que diz respeitos às Américas. Acrescento, no entanto, que a entrevista é interessante e vale a pena ser lida na íntegra.

Ao EL PAÍS, Obama fala sobre o avanço do populismo no mundo e as relações com a América Latina

obama

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, volta à Espanha —país que visitou nos anos oitenta, quando era um jovem mochileiro em busca de sua identidade— para uma visita mais breve do que se previa. Agora Obama (Havaí, EUA, 1961) chega ao momento em que seu mandato presidencial de oito anos se aproxima do final, em uma semana difícil para os Estados Unidos, depois das mortes filmadas de dois homens negros por disparos da polícia e da matança de cinco policiais por um franco-atirador durante um protesto contra o racismo em Dallas. Chega, também, a um país instalado há alguns meses na provisoriedade política, após duas eleições para definir a composição do Governo espanhol.

Em resposta por escrito às perguntas do EL PAÍS, Obama reforça a necessidade de que os Estados Unidos e seus parceiros europeus se reforcem e aumentem o investimento em defesa. Apesar de comemorar a volta do crescimento da economia espanhola, sustenta que as políticas de austeridade aplicadas na Europa, Espanha incluída, contribuíram para o descontentamento social. Opina que o voto favorável à saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) reflete a sensação, por parte de muitos europeus, de que a globalização lhes deixou em desvantagem.

O democrata Obama, que vê em seu país o candidato republicano Donald Trump colocar seu legado em perigo, reflete sobre a resposta que os Governos devem dar às forças do populismo. E comemora que um dos fatos de sua presidência, o restabelecimento das relações com Cuba, tenha retirado um obstáculo para situar as relações com a América Latina em um dos melhores momentos da história.

Pergunta. Senhor presidente, sua visita à Espanha acontece duas semanas depois das eleições gerais, com um Governo interino e em meio a uma enorme incerteza na Europa. O que o sr. espera do futuro Governo espanhol?

Resposta. Em primeiro lugar, quero dizer que tinha muita vontade de visitar a Espanha, um parceiro europeu indispensável, apesar dos terríveis assassinatos ocorridos nos Estados Unidos me obrigarem a encurtar minha estadia. Tive a oportunidade de percorrer o país com vinte e poucos anos, viajando de mochila pela Europa. Nunca esqueci da hospitalidade do povo espanhol nem de sua maravilhosa cultura, e sempre quis voltar. Michelle se emocionou profundamente com a acolhida dos espanhóis durante sua recente visita. Tivemos a honra de receber suas majestades o rei Felipe VI e a rainha Letícia na Casa Branca no outono passado, e agradeço muito o convite de vir à Espanha.

Apesar de o voto pelo Brexit ter criado, de fato, certa incerteza, é importante recordar que algumas coisas não vão mudar, como os laços indestrutíveis dos Estados Unidos com a Europa, que incluem uma profunda amizade e a sólida aliança entre os Estados Unidos e a Espanha. A relação entre nós existe há séculos. Estamos unidos por vínculos familiares e culturais, incluindo milhões de norte-americanos que celebram sua herança hispânica. A Espanha é um sólido aliado na OTAN, somos muito agradecidos por todas as décadas de acolhida às nossas Forças Armadas e importantes parceiros comerciais. Por isso, os Estados Unidos têm o firme compromisso de manter nossa relação com uma Espanha forte e unida.

Espero e prevejo que o próximo Governo espanhol terá esse mesmo empenho em uma relação sólida com os Estados Unidos e a Europa. Precisamos que a Espanha continue contribuindo para a campanha contra o ISIS, os esforços antiterroristas para prevenir atentados e os esforços da OTAN para fortalecer nossa posição de defesa e dissuasão. Precisamos de uma economia espanhola que cresça, que ajude a sustentar as relações comerciais, o crescimento na UE e o espírito empreendedor, para que a globalização crie postos de trabalho e oportunidades para todo mundo, não só para uns poucos no topo. Precisamos da cooperação da Espanha para enfrentar os desafios internacionais, desde os migrantes desesperados que cruzam o Mediterrâneo até a mudança climática. Tenho confiança de que, qualquer que seja o próximo Governo, a Espanha continuará sendo um aliado sólido.

P. Levando em conta que em uma entrevista recente à revista The Atlantic o sr. afirmou que os norte-americanos “nem sempre têm de ser os que estão na primeira fila”, e que devemos ter consciência de que os Estados Unidos não podem resolver automaticamente todos os problemas, que novas responsabilidades devem assumir Europa e Espanha para lidar com a instabilidade que vai da Síria ao Magreb e a ameaça do terrorismo local?

R. Diferentemente das ameaças tradicionais, como as guerras entre as grandes potências, os perigos mais agudos de hoje são transnacionais, como vemos no norte da África e no Oriente Médio. A guerra civil na Síria causou centenas de milhares de mortos, criou uma catástrofe humanitária, enviou ondas de migrantes e refugiados à Europa e permitiu que o ISIS [Estado Islâmico] tomasse o controle de uma faixa de território no coração do Oriente Médio. As desordens e os conflitos no Magreb empurraram para a fuga muitos homens, mulheres e crianças desesperados, buscando a segurança da Europa. De seus bastiões na Síria e no Iraque, o ISIS dirigiu ou inspirou atentados —alguns cometidos por militantes locais— em muitos países, nos Estados Unidos e em outros membros da OTAN.

Creio que a liderança dos Estados Unidos é indispensável para a segurança e a prosperidade do mundo. Por isso estamos à frente da coalizão mundial para destruir o ISIS, trabalhamos sem descanso em busca de uma solução diplomática para a guerra civil na Síria, oferecemos mais ajuda humanitária que qualquer outro país e promovemos um encontro mundial de refugiados no próximo outono para colocar em andamento novos compromissos.

De outro lado, é evidente que nenhuma nação —sequer uma tão poderosa quanto os Estados Unidos— pode resolver este tipo de problemas transnacionais sozinha. Precisamos de coalizões e acordos de parceria que aproveitem as melhores vantagens de cada país. Vivemos mais seguros quando os países compartilham a obrigação e os custos de manter a segurança e a paz internacional. Por isso agradecemos à Espanha sua contribuição com pessoal para ajudar a treinar as forças iraquianas em sua luta contra o ISIS. É o primeiro país à frente da nova força militar conjunta da OTAN, que estará preparado para ser implantando rapidamente em toda a Europa, e as tropas espanholas são cruciais para as tarefas de segurança marítima da UE e da OTAN no Mediterrâneo. Além disso, a Espanha tem um histórico de destaque nos trabalhos de manutenção da paz, na Bósnia, Líbano e África, entre outros locais. À medida que aumentam as ameaças atuais, precisaremos que a Espanha e nossos aliados europeus continuem envolvendo-se e isso inclui investir mais em nossa defesa comum.

P. O sr. se mostrou cético quanto às políticas de austeridade da UE durante a Grande Recessão e, de fato, adotou políticas opostas nos Estados Unidos. Como avalia o impacto destas políticas na Europa, e especialmente na Espanha?

R. Colaboramos estreitamente no G7 e no G20 com nossos parceiros europeus para tirar a economia mundial do abismo e nos recuperar da pior crise financeira desde a Grande Depressão. Entre outras coisas, fizemos um esforço coletivo para estimular a demanda mundial.

Nos Estados Unidos procedemos em seguida à reforma de nosso setor financeiro, investindo na produção industrial, nas energias limpas, no transporte e na infraestrutura, e em renovar a capacitação dos trabalhadores. Hoje atravessamos o período mais longo de nossa história de criação de emprego do setor privado. Nossas empresas criaram mais de 14 milhões de novos postos de trabalho. Reduzimos nosso índice de desemprego à metade. Os salários começaram a subir. Reduzimos o déficit em quase 75%. Nosso PIB é superior ao de antes da crise. Ainda resta muito a fazer para reduzir a desigualdade econômica e social e ajudar os trabalhadores e as famílias que têm dificuldades para seguir adiante, mas estamos em boa direção.

É verdade que alguns países europeus adotaram uma estratégia econômica diferente, com medidas de austeridade. Creio que essa é uma das razões por que a Europa está tendo um crescimento mais lento. Em certos lugares, estão há uma década estagnados. A Europa começa agora a voltar para onde estava antes da crise. E, em minha opinião, esse foi um fator importante das frustrações e das inquietudes visíveis em muitos países europeus, a preocupação de que os benefícios da integração das economias e da globalização não atingem a todos por igual.

A Espanha, sem dúvida, teve uma trajetória especialmente difícil nos últimos anos. A crise bancária e a recessão atingiram de forma brutal muitos espanhóis, que perderam suas economias e seus postos de trabalho. No entanto, graças a uma combinação de fatores —difíceis reformas estruturais, consolidação fiscal, investimentos e, sobretudo, a capacidade de adaptação dos espanhóis—, a Espanha superou uma etapa. A economia está voltando a crescer, com um dos índices de crescimento mais altos da Europa. Há novas esperanças para o futuro. Sem dúvida, o desemprego continua alto demais, sobretudo entre os jovens. Na Espanha, na Europa e em todo o mundo, vou continuar defendendo políticas que pensem em nossa população, impulsionem o crescimento e criem emprego, como o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento.

P. No contexto do Brexit, com o populismo e o mal-estar econômico, o sr. acredita que o projeto europeu está em perigo?

R. Como disse, creio que uma Europa integrada é um dos maiores triunfos políticos e econômicos de nossa época, e nunca devemos dá-la por concluída. Mas não resta dúvida de que esse projeto de integração está sendo colocado à prova mais do que nunca. Não é momento de complacências. A chegada de imigrantes e refugiados à Europa voltou a concentrar a atenção na política de fronteiras da UE e na capacidade dos Estados-membros de trabalhar juntos para enfrentar desafios compartilhados. O crescimento lento em todo o continente deixou europeus demais, sobretudo jovens, sem trabalho e cheios de frustração. Em todos os nossos países há muitas pessoas que se sentem desfavorecida pela globalização e pela automatização. Muitos desses fatores contribuíram para que o Reino Unido votasse por abandonar a UE.

Faríamos mal em não levar em conta essas forças. Os Governos e as instituições da UE devem demonstrar que estão em contato com as preocupações diárias dos cidadãos e sabem reagir devidamente. Em vez de impedir o comércio ou recorrer ao protecionismo —que sequer é possível em uma economia globalizada—, nossos países, entre eles os Estados Unidos, precisam se esforçar mais para garantir que a globalização, as economias integradas e o comércio criem emprego e oportunidades para todos. Precisamos investir mais em educação, aptidões e formação profissional, que ajudam a reduzir as desigualdades e a fazer com que as pessoas prosperem em uma economia globalizada. E temos de rechaçar a mentalidade do nós contra eles que alguns políticos cínicos tentam nos vender. Temos de ser fiéis aos valores eternos que definem nossas sociedades, cheias de vida e diversidade, e que inspiram em grande parte nossa força: nosso compromisso com a democracia, o pluralismo, a inclusão e a tolerância.

P. Como repercutiu o degelo das relações entre Estados Unidos e Cuba na América Latina, Colômbia e Venezuela, e na posição dos Estados Unidos no hemisfério ocidental?

R. Nossa decisão de colocar fim a meio século de políticas falidas dos Estados Unidos, restabelecer as relações diplomáticas com Cuba e dar início a uma nova era de diálogo com o povo cubano teve um efeito transformador. O mais importante é que alguns laços mais estreitos entre os dois países, mais relações comerciais e mais viagens de norte-americanos para Cuba em intercâmbios educativos e culturais, significarão mais oportunidades econômicas para os cubanos. Cuba não vai mudar da noite para o dia, mas, como vi em minha visita a Havana, os cubanos têm novas esperanças para o futuro, e estamos decididos a colaborar com eles para criar mais oportunidades e mais prosperidade em toda a ilha.

Mas, em geral, já estamos vendo como os vínculos mais fortes entre Estados Unidos e Cuba podem beneficiar toda a região. Estamos intensificando nossa cooperação para prevenir a propagação de doenças, proteger as águas do Caribe e perseguir os narcotraficantes. O Governo cubano acolheu em Havana as negociações de paz entre o Governo da Colômbia e as FARC, às quais os Estados Unidos se uniu —algo que teria sido impensável há alguns anos— e hoje a Colômbia está a ponto de obter uma paz histórica. Apesar de não ter falado muito sobre a Venezuela com o presidente [Raúl] Castro quando estive na ilha, todos os países da região estão interessados em que a Venezuela resolva seus desafios econômicos. Os Estados Unidos continuam pedindo ao Governo e à oposição que entabulem um diálogo profundo. Instamos o Governo da Venezuela a acatar o Estado de direito e a autoridade da Assembleia Nacional, deixar em liberdade os presos políticos e respeitar o processo democrático, incluindo as tentativas legítimas de convocar um referendo revogatório com relação às leis venezuelanas.

Por último, gostaria de destacar que nossa nova estratégia em relação a Cuba eliminou uma armadilha em nossas relações com outros países da região. Os Governos de toda a América receberam com entusiasmo nossa mudança de política. Hoje, os Estados Unidos estão muito mais envolvidos na região do que nas últimas décadas, e a relação entre EUA e as Américas é melhor do que nunca. Em vez de ficarmos parados nos conflitos do passado, olhamos para o futuro. A Espanha faz parte deste novo momento tão promissor na América Latina, e agradecemos a ela que seja um parceiro sólido, disposto a trabalhar conosco pela segurança, a prosperidade e a dignidade que os latino-americanos merecem.

Fonte: El País

Com apoio da OPAS, médicas cubanas melhoram atendimento básico de saúde em cidade satélite de Brasília

Publicado originalmente em: 11/03/2016

Santa Maria é uma região administrativa do Distrito Federal, localizada a aproximadamente 26 km do centro de Brasília. Segundo Oswaldo Ibañez Gonzalez, assessor da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) para o Programa Mais Médicos, há dezenas de médicos de Cuba trabalhando na região. O Centro de Saúde nº 2 de Santa Maria recebeu as profissionais cubanas Lina Maria Perez Gonzalez e Maria Eugênia Sanchez, ambas com especialização em Medicina Familiar e Geriatria e mais de 20 anos de experiência.

Lina Maria começou a trabalhar em 1987 em Cuba. Antes de integrar o Programa Mais Médicos, ela esteve por duas vezes na Venezuela, em missões internacionais. “Quando cheguei aqui comecei a trabalhar com uma equipe nova, fazendo o cadastramento de toda a população. Além disso, faço também muitas visitas domiciliares. E a aceitação da população tem sido muito boa. Todo mundo já me conhece, nas ruas, visitando pacientes acamados ou aqueles que têm alguma limitação física que não podem ir ao consultório.”

Uma de suas pacientes nesta situação é Anezia Athanazia Santos da Silva, uma senhora de 86 anos, portadora de Alzheimer: “Eu tinha muita dificuldade de levar a minha mãe até o médico, porque ela é cadeirante e acamada. Só de colocar e tirar do transporte ela já sentia muitas dores. Agora ela fica no conforto dela e a médica vem aqui. E a qualidade do atendimento é perfeita. O programa é maravilhoso para a gente”, conta Maria Aparecida, filha e cuidadora de Anezia.

Como médica eu já tenho mais de 25 anos de experiência e sou pós-graduada há 13. A primeira missão internacional que participei foi na Guatemala, entre os anos de 1999 e 2001, em pleno desastre do furacão Mitch. Eu fazia parte da brigada avançada que trabalhou no país. E me incorporei ao Programa Mais Médicos em novembro de 2013”, diz a cubana Maria Eugênia Sanchez.

O assessor da OPAS/OMS Oswaldo Ibañez diz que a aceitação da população ao programa tem sido alta no Distrito Federal: “Inclusive quando chegamos aos lugares e começamos a visitar os médicos cubanos, os usuários às vezes pensam que vamos trocar os profissionais e na hora já reagem, dizendo que os médicos não podem ir embora e que têm que permanecer. Quando nos reunimos com as equipes de saúde, eles mostram como melhoraram os indicadores de saúde, seja no aumento do número de consultas a hipertensos, diabéticos, asmáticos, seja no trabalho de prevenção e promoção e saúde nas comunidades.

Segundo Heider Aurélio Pinto, secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, o Programa Mais Médicos tem três dimensões: o investimento em infraestrutura das unidades básicas de saúde, o provimento emergencial de médicos e a mudança na formação e expansão nas vagas de graduação e residência em Medicina, para aumentar o número de médicos brasileiros no futuro.

“Essa mudança é também qualitativa porque ela transforma a formação dos médicos no país, tanto na graduação como na residência, priorizando aquilo que acomete a maior parte da população. Além disso, foi criada uma especialidade raiz no Brasil, que pela lei é a Medicina Geral de Família e Comunidade, disciplina que será obrigatória para todos os profissionais que queiram fazer residência. O Brasil precisa sim de mais médicos e a alternativa é a expansão com qualidade, para termos um índice de 2,7 médicos por mil habitantes em 2026.

O programa já selecionou 18.240 médicos – brasileiros e estrangeiros – para atendimento em 4.058 municípios, uma cobertura de 73% do território brasileiro. Cerca de 63 milhões de brasileiros que não possuíam atendimento médico passaram a contar com profissionais devido ao Mais Médicos, incluindo 34 distritos indígenas.

Objetivo é suprir a carência de médicos nos municípios do interior e nas periferias das grandes cidades

O ‘Mais Médicos’ é um Programa de saúde lançado em 8 de julho de 2013 pelo Governo Federal, cujo objetivo é suprir a carência de médicos nos municípios do interior e nas periferias das grandes cidades do Brasil.

Médicos brasileiros tiveram prioridade em preencher as vagas do programa. As vagas remanescentes foram oferecidas primeiramente a brasileiros formados em universidades no exterior e em seguida a médicos estrangeiros, que trabalham sob uma autorização temporária para praticar Medicina, limitada à provisão de atenção básica de saúde e restrita às regiões onde serão direcionados pelo Programa.

A OPAS/OMS no Brasil e o Ministério de Saúde assinaram um Termo de Cooperação para colaborar na expansão do acesso da população brasileira à atenção básica de saúde. O termo inclui diversas linhas de ação, desde documentar, disseminar informação a prover aconselhamento técnico e apoio à capacitação e treinamento continuado aos médicos selecionados, seguindo as recomendações do Código Global de Práticas em Recrutamento Internacional de Pessoal de Saúde da OMS. A OPAS/OMS também assinou um Acordo de Cooperação de natureza similar com o Ministério de Saúde Pública de Cuba.

Os médicos cubanos trabalham nos municípios que não foram selecionados por nenhum médico (brasileiros ou estrangeiros) nas primeiras rodadas de recrutamento. A maioria destes municípios tem 20% ou mais da população vivendo em extrema pobreza, e a maior parte deles está nas regiões Norte e Nordeste do país. Todos os médicos fazem um treinamento de três semanas de duração, uma semana de acolhimento nos estados aos quais serão destinados e um módulo de avaliação.

Fonte: ONU Brasil

Chefe de Direitos Humanos da ONU elogia plano de Barack Obama para fechar Guantánamo

guantanamo

Publicado originalmente em: 24/02/2016

Centro de detenção tem sido uma “mancha” no histórico dos Estados Unidos, pelos últimos 14 anos. Chefe de Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra’ad Al Hussein espera que presos tenham julgamentos justos nos países para onde serão transferidos, caso o centro seja efetivamente fechado.

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, elogiou o plano, anunciado nesta terça-feira (23) pelo presidente norte-americano Barack Obama, para fechar o centro de detenção da baía de Guantánamo, localizado em território norte-americano em Cuba. A estratégia, já apresentada por Obama ao Congresso dos Estados Unidos, prevê a transferência de 30 a 60 presos para o território do país. Os outros 91 detidos poderão ser realocados em outras nações.

De acordo com Al Hussein, Guantánamo tem sido, pelos últimos 14 anos, uma mancha no histórico e na reputação dos Estados Unidos, no que diz respeito aos direitos humanos. O dirigente das Nações Unidas espera que “mais nenhum obstáculo seja colocado no caminho de sua implementação (do plano de Obama)”. Entre os estados norte-americanos cogitados para receber parte da população carcerária da prisão estão o Colorado, Kansas e a Carolina do Sul.

“Todos os detidos de Guantánamo devem ser transferidos para centros de detenção regulares nos Estados Unidos ou em outros países, onde julgamentos justos, diante de cortes civis, e as devidas garantias processuais possam ser oferecidos em acordo com normas e padrões internacionais”, disse o alto comissário. “Se houver evidências insuficientes para acusá-los com qualquer crime, eles têm que ser libertados para seu país de origem ou para um terceiro país, caso corram risco de perseguição em sua pátria.”

O chefe de Direitos Humanos também lembrou que Guantánamo já foi citada por governos repressivos como uma justificativa para suas próprias ações. Segundo Al Hussein, a implementação do plano proposto por Obama não pode deixar nenhum preso em situação de detenção indefinida, sem acusação ou julgamento.

Fonte: ONU Brasil

Charge: Angeli

Retrospectiva ‘Mundo’: terroristas, refugiados e América Latina

Os acontecimentos ao redor do mundo em 2015, em grande parte, passam pelo terrorismo, o agravamento da crise dos refugiados sírios em corrente migratória para a Europa e uma virada à direita na América Latina, mais recentemente com a eleição de Mauricio Macri na Argentina.

Fonte: TV Folha

Marcos Weissheimer: “CIA USA A MÍDIA PARA ‘IMPLODIR’ GOVERNOS”

images

Por Marco Weissheimer, no site Sul-21:

Entre 2004 e 2011, o escritor e professor cubano Raúl Antonio Capote Fernández atuou, a pedido da inteligência cubana, como agente duplo infiltrado na CIA. Raúl Capote foi contatado muito jovem por pessoas ligadas à agência de inteligência norte-americana e convidado a participar de um projeto que pretendia criar uma “oposição de novo tipo” em Cuba, capaz de, após o desaparecimento de Fidel Castro, iniciar uma “revolução suave” que acabasse por derrubar o governo de Havana. A sua missão era formar líderes universitários e criar o projeto “Genesis”, com o objetivo de estabelecer em Cuba a estratégia do “golpe suave”, elaborada por autores como Gene Sharp.

Em entrevista ao Sul21, Raúl Capote conta essa experiência, relata como ela fracassou em Cuba e diz que ela já foi aplicada em países como Venezuela, Irã e Líbia e que segue sendo implementada em diversas regiões do mundo. “A ideia da guerra não violenta consiste em ir solapando os pilares de um governo até que ele imploda. O objetivo não é fazer com que um governo renuncie. Se isso acontecer, o projeto fracassou. A ideia é que o governo imploda e que isso cause caos. Com o país em caos, é possível recorrer a meios mais extremos”, assinala.

Raúl Capote veio a Porto Alegre a convite da Associação Cultural José Martí/RS para participar de uma série de encontros e debates. Ele mantém o blog El Adversário Cubano, onde conta outros detalhes sobre essa história e sobre outras “guerras não violentas” em curso no planeta.

Como é que você começou a trabalhar com assuntos de segurança em Cuba e sob que circunstâncias se tornou um agente duplo, atuando infiltrado na CIA?

Isso começou em 1986. Eu era um jovem inquieto e rebelde que fazia parte de uma organização chamada Associação Hermanos Saiz, que agrupava jovens poetas, pintores e escritores. Esse espírito rebelde para nós era algo muito natural. Fomos ensinados a ser assim. Creio que os serviços especiais norte-americanos confundiram esse espírito de rebeldia com um espírito de possível oposição ao sistema. Eles começaram a se aproximar de nós. Eu vivia em Cienfuegos, no centro-sul de Cuba, uma cidade que tinha uma importância estratégica nesta época porque a revolução queria convertê-la num centro industrial para o país. Havia muitas obras em construção, entre elas uma central Eletronuclear e fábricas de todo tipo. Era uma cidade muito jovem e onde trabalhavam muitos cubanos que tinham se formado na União Soviética e em outros países do campo socialista. Creio que essa conjuntura de ser uma cidade jovem e industrial, com muitos jovens interessados em temas da cultura, da política e da economia, chamou a atenção da CIA.

Eles começaram a se aproximar de nós por meio de organizações não-governamentais. A primeira pessoa que veio falar conosco foi Denis Reichler, um jornalista freelancer da revista Paris Match, que para nós era uma espécie de ídolo do jornalismo esportivo. O que admirávamos nele era sua atuação como jornalista que havia estado na África e em muitos outros lugares. Era uma referência positiva para se aproximar de um grupo de jovens tão rebelde. Ele nos colocou em contato com organizações não-governamentais que, supostamente, estavam interessadas em financiar projetos artísticos em Cuba. Nos colocou em contato com pessoas que começaram a planejar ajuda econômica e a trabalhar conosco, em um processo de aproximação que buscava ganhar a nossa confiança. Éramos jovens e estávamos começando a fazer literatura ou artes plásticas. Ainda não tínhamos nenhuma obra, só tentativas.

Era um processo de aproximação feito com muita cautela e sem pressa. Neste período, a Segurança de Estado cubana entrou em contato comigo, me explicou o que estava acontecendo, que aquelas pessoas não pertenciam, de fato, a organizações não governamentais e quais eram as suas reais intenções. Isso me dava três possibilidades. A primeira era seguir trabalhando com eles. A segunda era interromper o trabalho e o contato com eles. E a terceira possibilidade, que me foi proposta pela segurança cubana, era seguir trabalhando com eles, converter-me em um agente da segurança cubana e tratar de decifrar quais eram os planos dessas pessoas no mundo da cultura e das artes, especialmente junto à juventude.

Esse contato com a agência de segurança cubana e o trabalho que se seguiu daí aconteceram ainda em 1986?

Sim, em 1986. Para mim era algo extraordinário. Nos anos 80, existia na sociedade cubana toda uma mística sobre o trabalho da segurança cubana, que sempre foi muito popular. Havia uma história legendária sobre ela, que tinha frustrado planos da CIA contra Cuba. Pertencer a essa organização me pareceu algo maravilhoso. Não avaliava, então, o quão complicado seria o trabalho que eu teria que enfrentar nem a quantidade de renúncias que eu teria que fazer. Eu tinha 20 anos quando comecei esse trabalho. Foi um longo processo. Houve um momento em que ocorreu uma interrupção desse movimento de aproximação feito pelos inimigos de Cuba. Em 1987, houve uma grande denúncia pública. Mais de 30 agentes da segurança cubana expuseram o trabalho de quase 96 oficiais da CIA que estavam atuando dentro do país.

Isso fez com que a CIA se tornasse mais cautelosa e tomasse algumas precauções. Passaram-se então alguns anos de contato muito leve por meio de algum jornalista ou de um representante de uma ong. Em 1994 eu fui morar em Havana e passei a trabalhar como organizador do sindicato de trabalhadores da cultura na cidade. Era uma mudança radical em muitos sentidos. Até então eu trabalhava com um universo de 3 ou 4 mil jovens e passei a dirigir 40 mil trabalhadores da cultura. Isso me tornou um alvo ainda mais interessante para a CIA. Eu era líder de um sindicato onde estavam praticamente todos os trabalhadores da cultura – artistas, músicos, escritores. Era um sindicato muito forte. Aí os contatos voltaram.

Eles passaram a me visitar com um plano mais complicado. Começaram a falar em dar informações sobre como se movia esse mundo da cultura, sobre como os jovens viam a Revolução naquele momento, etc. Esse processo vai se incrementando com o passar dos anos até 2004. Neste período, entramos em contato com associações e fundações mais vinculadas com o governo dos Estados Unidos como a Usaid e a Fundação Panamericana para o Desenvolvimento. Em 2004 começou então o processo do meu recrutamento pela CIA. Neste ano, conheci muitos oficiais da agência, inclusive aquele que seria meu chefe mais tarde.

Conheceu esses oficiais da CIA em Cuba mesmo?

Sim, em Cuba. Em 2004, então, eles me recrutam e eu me converto em um agente da CIA com uma tarefa muito específica. Minha tarefa não era fazer espionagem, até porque eu não tinha acesso mesmo a informações muito importantes, ou praticar ações encobertas ou atos terroristas, como normalmente faziam em Cuba. O meu trabalho era promover a guerra cultural, a guerra no terreno das ideias, que eles definem muito bem ao chamar de guerra cultural. Nós usamos expressões complicadas para isso como subversão político-ideológica ou algo do gênero. Eles simplificam. É guerra cultural mesmo. O que eu não imaginava era chegar a conhecer o quanto de verdade havia no controle real que a CIA tem sobre os meios de comunicação e a indústria cultural nos Estados Unidos e no mundo inteiro. Descobri que isso existe de fato, não é teoria da conspiração como alguns acreditam.

A CIA utiliza o cinema, as rádios, as televisões os jornais e outros canais a partir de um plano prévio. A agência criou um departamento que se especializou neste tipo de guerra cultural. Eu entrei neste mundo e conheci muitas pessoas que trabalhavam nele. Em 2005, eu me converti em chefe de um projeto específico da CIA em Cuba, chamado de Projeto Gênesis.

Você chegou a ir aos Estados Unidos para fazer algum tipo de treinamento especial ou para reuniões?

Sim, tive contato direto com eles. O Gênesis era um projeto muito bem pensado e que me permitiu conhecer também como a CIA estava trabalhando na América Latina com a mesma ideia de guerra cultural. Esse projeto não foi uma novidade cubana, mas sim o resultado de um trabalho realizado pelos Estados Unidos em muitas regiões da América Latina. Ele começou a ser implementado no processo de transição democrática na América Latina, no Chile e em muitos outros lugares. Essa experiência partiu da constatação de que as universidades latino-americanas tinham sido nas últimas décadas um foco de insurreição e de formação de militantes de esquerda. Eles decidiram mudar isso e converter a universidade latino-americana em um centro de produção do pensamento da direita e não da esquerda. Eles pensavam que o fato de essas universidades terem atravessado um período de repressão muito grande, quando muitos professores e estudantes militantes de esquerda foram mortos, facilitava um pouco esse trabalho de conversão.

Assim, começaram a implementar em toda a América Latina um milionário plano de integração acadêmica. Muitos estudantes e professores foram fazer esse intercâmbio nos Estados Unidos, onde realizaram diversos cursos, entre eles o famoso curso de liderança. A ideia era criar uma nova classe dirigente dentro das universidades e, por consequência, nos seus respectivos países. A quantidade de líderes mundiais hoje que são fruto desses programas é impressionante. Esse processo foi aplicado na Venezuela, por exemplo, com uma ênfase muito forte, a partir de 2009.

Entre 2003 e 2004 se enviava, mensalmente, um grupo de dez estudantes com um professor para cursos de formação e liderança na antiga Iugoslávia, atual Sérvia, sob a coordenação do antigo grupo de resistência sérvio, onde estava Srdja Popovic e uma série de jovens que contavam a experiência da derrubada de Milosevic.

Participavam desses cursos também o Instituto Albert Einstein, o Instituto de Luta pela Guerra Não Violenta, criado pelos sérvios, o multimilionário húngaro George Soros que colocou muito dinheiro neste projeto, e o Instituto Republicano Internacional que recebia fundos do governo norte-americano e o aplicavam nestes cursos. Aí se formaram muitos dos líderes da chamada Primavera Árabe e muitos líderes da oposição síria. Criou-se toda uma estrutura para fomentar o uso da chamada luta não violenta e do golpe suave. Estudantes venezuelanos, acompanhados de alguns professores, começaram a fazer esses cursos de forma periódica. O objetivo era repetir esse processo em Cuba, para formar ativistas especializados no manejo da guerra não violenta.

Eu recebi uma preparação intensa de como se organiza um golpe suave para derrubar um governo, quais são as medidas fundamentais para construir essa estratégia. É claro que, dentro de Cuba, seria muito mais difícil fazer essa formação. A alternativa encontrada foi usar o sistema de bolsas de estudo para promover o intercâmbio de estudantes. A ideia era propor, por exemplo, uma bolsa de estudos de seis meses ou mais em Jerusalém para um estudante de história ou ciências sociais. Ou então oferecer para uma jovem estudante de arte uma bolsa em Colônia, na Alemanha. Escolheu-se universidades muito pontuais, que não fossem norte-americanas e que pudessem ser atrativas para determinadas áreas de interesse. Mas os cursos oferecidos nestas universidades não eram exatamente sobre arte ou sobre história, mas sim sobre formação de lideranças, com cursos de inglês, cursos de táticas de guerra não convencional, sobre como funcionavam as organizações democráticas. O objetivo era que, mais tarde, esses estudantes se transformassem em elementos de mudança em Cuba.

E os estudantes que recebiam essas bolsas, sabiam da real natureza desse intercâmbio?

Não sabiam. O truque da bolsa era que, em geral, oferecia um curso de seis meses. As pessoas supunham que o curso era relacionado com a sua especialidade. Por que não passar seis meses em Jerusalém, Colônia ou outro local, com tudo pago, recebendo um curso de inglês, entre outras coisas? – pensavam. A agência estimava que, se cada dez estudantes, um se convertesse em um futuro opositor, já seria um grande lucro.

Esse plano começou a ser implementado em Cuba com muita força a partir de 2005, 2006, sem muitos resultados. Para surpresa da CIA, não houve muitos interessados pelos cursos, que não tiveram o impacto esperado junto aos jovens cubanos. Além disso, eu é que estava dirigindo a operação…Era possível que não tivesse êxito…(risos). Outro plano envolvendo a minha atuação como agente era fazer com que eu ocupasse uma posição elevada dentro do Ministério da Educação. Pretendiam me dar todo o apoio possível para tanto, apoio acadêmico e inclusive monetário. A ideia era me converter em uma pessoa imprescindível no sistema de educação cubano por minhas relações e contatos no mundo acadêmico.

Uma das coisas mais importantes para eles nesta época era o tempo que lhes restava. Estavam muito preocupados com essa questão temporal, pois aguardavam o momento do desaparecimento de Fidel. Avaliavam que muitos dos líderes históricos da Revolução Cubana não estariam mais em condições de assumir o posto de comando quando isso acontecesse. Trabalhavam com um período de dez ou quinze anos, no qual se formaria em Cuba uma nova oposição, que não teria nada a ver com a oposição anterior, que eles próprios consideravam desprestigiada e sem base social. Queriam criar uma oposição de novo tipo.

Como pretendiam fazer isso?

A estratégia utilizada em Cuba se diferenciou um pouco daquela usada em outros lugares. Eles queriam formar uma oposição de esquerda, pois avaliavam que uma oposição de direita não teria êxito em Cuba, pelo enraizamento da tradição e do pensamento revolucionário e também pelo fato que a direita nunca teve uma posição muito significativa junto ao povo cubano. Passaram a tentar criar, então, organizações que fossem supostamente de esquerda. Essa era a estratégia central do projeto Genesis. Para nos auxiliar nesta tarefa, nos deram acesso a modernos meios eletrônicos de comunicação que nos permitiram acessar a internet, as redes sociais e outros espaços. A ideia era nos dotar de uma grande capacidade de mobilização e começar a gerar conteúdo dentro do país. Isso tudo seria feito em segredo, em baixo perfil, nos treinando no uso dessas novas tecnologias.

Em 2007, me entregaram um equipamento de comunicação que se conectava por satélite com o Departamento de Defesa e que não podia ser rastreado. Esse equipamento permitia que eu tivesse comunicação direta com meu chefe em Washington e também criar uma rede em Cuba indetectável. De forma concomitante com isso, se começou outro projeto por meio do qual começaram a introduzir telefones celulares no país. Em função do bloqueio imposto pelos Estados Unidos, Cuba não tinha muitos celulares. Eles começaram a distribuir celulares de maneira gratuita, por diferentes meios, e criaram o programa ZunZuneo, que pretendia ser uma espécie de twitter cubano.

Essa rede começou a distribuir mensagens de texto principalmente e notícias relacionadas ao esporte, à cultura e às artes. A ideia era criar dentro do país um hábito de consultar essa rede e fazer com que as pessoas confiassem nela. Assim, no momento necessário, ela começaria a enviar mensagens para mobilizar ações contra a revolução. Fizeram alguns testes no país, em determinados momentos, que não deram resultado, mas seguiram implementando o projeto. Mais tarde, fizeram alguns aperfeiçoamentos e criaram outro sistema que se chamou Piramideo, parecido com o ZunZuneo, mas com alguns acréscimos fruto de experiências no Oriente Médio, especialmente no Irã, onde foi utilizado como ferramenta de mobilização em determinadas situações dentro do país.

Qual foi o impacto dessas iniciativas na sociedade cubana, especialmente junto à juventude? Elas tiveram visibilidade?

Tudo era feito pensando em um determinado momento no futuro de Cuba onde deveria ocorrer uma mudança de governo. Eles pensavam que isso ocorreria entre 2015 e 2016, que é exatamente o momento que estamos vivendo agora. Neste momento, segundo o planejamento feito, já deveria estar formada uma oposição social de novo tipo, saída da universidade e integrada principalmente por estudantes e professores, mas também por artistas, pequenos comerciantes e representantes de outros setores que apoiassem essa ideia. O surgimento público desse novo movimento político se daria através do lançamento da organização Fundação Genesis para a Liberdade, que deveria se dar em um ano em que ocorressem eleições em Cuba (que ocorrem a cada cinco anos).

Essa organização até poderia ser considerada uma fundação, mas de “genesis” não tinha nada e de liberdade muito menos. Em primeiro lugar, porque o líder da organização, eu no caso, era um agente da CIA. Em segundo lugar, eu não podia tomar nenhuma decisão sem ouvir o grupo consultivo que era constituído por oficiais da CIA. Então, de liberdade não tinha nada. Por meio dessa fundação, se esperava criar um ou mais de um partido político supostamente de esquerda. O discurso desse novo partido consistiria em dizer que era preciso reformar e modernizar o socialismo cubano. A nossa principal palavra de ordem era esta: modernizar. “Precisamos colocar o socialismo à altura do tempo”, “a época heroica já passou”, “ninguém mais faz isso no mundo”…diríamos coisas assim.

Eles acreditavam que, com o desaparecimento de líderes históricos carismáticos da Revolução como Fidel, esse novo movimento político teria um grande impacto na sociedade cubana levando inclusive a uma fratura na unidade interna do país. O nascimento da Fundação Genesis como organização seria acompanhado por uma grande campanha midiática. Haveria uma coletiva de imprensa com alguns dos mais importantes meios de comunicação do mundo. O passo seguinte seria organizar ações de rua, manifestações, ocupação de espaços públicos de maneira pacífica com o objetivo de causar impacto na sociedade.

Qual era a meta principal dessa tática?

Em resumo, aplicar a cartilha de Gene Sharp, teórico do golpe suave. A ideia da guerra não violenta consiste em ir solapando os pilares de um governo até que ele imploda. O objetivo não é fazer com que um governo renuncie. Se isso acontecer, o projeto fracassou. A ideia é que o governo imploda e que isso cause caos. Com o país em caos, é possível recorrer a meios mais extremos. A meta em Cuba era esta: causar um caos tal no país que fizesse desabar todos os pilares da revolução. Neste cenário, várias possibilidades eram consideradas, entre elas, uma “intervenção humanitária” dos Estados Unidos no país. Outra era a instalação de um governo de transição que levasse a um governo de direita.

O truque fundamental do projeto Genesis era que tinha supostamente um discurso de esquerda, mas as propostas reais que defendia consistiam em privatizar praticamente tudo, inclusive a saúde e a seguridade social. Era um socialismo anti-socialista e anti-social, com terríveis medidas de austeridade. Eles diziam para não nos preocuparmos, pois o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e a comunidade cubana no exterior iriam apoiar a “reconstrução do país”. Mas esse projeto nunca conseguiu ter base social nem conseguiu formar estudantes como pretendia…

E você, na condição de agente duplo, se esforçava na implantação do projeto ou trabalhava contra ele?

Fazia tudo o que podia para que não tivesse resultado. Era um jogo de xadrez muito interessante. Eu tinha que fazer com que eles acreditassem que estava funcionando e, na prática, fazer com que não funcionasse. Era bem difícil. Mas o projeto tinha muitos pontos débeis. Um deles era a crença de que a revolução dependia de uma única pessoa. Acreditar que a Revolução Cubana é Fidel é um erro. Outro erro era acreditar que os cubanos são pessoas ingênuas.

Em 2006, Fidel anunciou que estava se afastando de suas funções por problemas de saúde e que seria substituído por Raul (seu irmão, Raul Castro). Esse era um momento propício para aplicar a estratégia da Fundação Genesis e eles precipitaram um conjunto de ações. Acreditavam que poderia ocorrer um levante no centro de Havana.

Para tanto, usaram um médico chamado Darsi Ferrer, um contrarrevolucionário desconhecido. No dia 13 de agosto de 2006, data de aniversário de Fidel, ele deveria provocar um levante em Havana e convocar uma coletiva para dizer que o país estava mergulhado no caos, que havia militares sublevados e que a população não queria Raul no governo. Planejaram gravar em um estúdio, de modo muito parecido com o que fizeram na Líbia onde filmaram ações que, na verdade, não estavam acontecendo. O plano era filmar cenários de repressão como se os militares cubanos estivessem reprimindo a população, e transmitir essas imagens para todo o mundo. A mim me surpreendeu muito que um oficial da CIA em Cuba tivesse o poder de pautar e subordinar os mais importantes meios de comunicação do mundo. Era isso que estava se planejando ali.

E qual era o seu papel neste plano?

Quando essas imagens do “caos” em Cuba tivessem sido transmitidas ao mundo, eu deveria convocar uma coletiva de imprensa e pedir uma intervenção militar dos Estados Unidos para conter as violações de direitos humanos. Eu não era um contrarrevolucionário ou opositor, mas um professor e acadêmico conhecido no país. A credibilidade da minha aparição seria maior. Fiquei com um grande conflito interno neste período. Eu jamais iria fazer aquele pedido de intervenção militar dos Estados Unidos.

O que aconteceu, então?

As coisas começaram a dar errado para eles muito rapidamente. Depois do anúncio do afastamento de Fidel, passaram-se alguns dias e não houve nenhum caos no país, que seguiu funcionando normalmente. Não houve manifestações, protestos, nada. As pessoas seguiram com suas vidas. O outro problema que ocorreu é que o médico escolhido para desencadear o levante ficou sabendo que os principais canais de Miami estavam dizendo que um opositor cubano chamado Darsi Ferrer iria se imolar pela democracia. Aquilo foi uma surpresa total, pois não estava em seus planos colocar fogo no próprio corpo e morrer. Ele ficou convencido que iam matá-lo e, no dia 13 de agosto, ao invés de ir ao lugar escolhido para a execução do plano, sai de casa e inventa uma desculpa para não ir até lá. E o projeto fracassa.

Quando você abandona a condição de agente duplo?

Em 2010, quando a Líbia entrou em situação de guerra civil, o governo cubano me pediu para participar de uma denúncia pública para que as pessoas ficassem sabendo como esse tipo de golpe é tramado. Era uma decisão muito difícil, pois trazia riscos para mim e para minha família. Mas aceitei a proposta e começamos a gravar um conjunto de programas chamado “As razões de Cuba”, onde um grupo de agentes como eu vai à televisão contar o que tinham vivenciado. O programa foi dividido em capítulos. O meu foi ao ar em 4 de abril de 2011, onde contei tudo isso na televisão.

Fora de Cuba, se fala muito da situação de restrição de acesso à internet e às redes sociais na ilha, que haveria controle e a população não teria livre acesso à rede. Qual é mesmo a situação do acesso à internet em Cuba?

Sim, constantemente se acusa o governo cubano de não permitir o livre acesso à internet. É uma grande mentira. Se formos olhar os discursos de Fidel nos anos 90, veremos que a revolução cubana sempre defendeu o acesso livre à internet. O problema é que os donos da internet são os norte-americanos, Cuba está cercada de cabos submarinos de fibra ótica, mas não pode usá-los por causa do bloqueio. Cuba não tem acesso à tecnologia necessária para garantir o acesso à internet para todos os seus cidadãos por que as empresas são proibidas, pelos Estados Unidos, de negociar com Cuba. Em função desse quadro, o acesso à internet tornou-se muito caro para Cuba. E ela é lenta porque é preciso uma infraestrutura que garanta que o sinal chegue em todos os lugares do país. Nós acreditamos que a internet é uma ferramenta para defender e propagar a revolução. Os Estados Unidos não querem que Cuba tenha livre acesso à internet, porque sabem isso significaria que poderíamos divulgar muito mais nossas ideias também.

É impossível no mundo hoje que uma sociedade se desenvolva sem a internet. Nós temos a Universidade de Ciências Informáticas, que é uma das maiores da América Latina e forma todos os anos milhares de engenheiros criadores de softwares e técnicos nesta área. É uma universidade que se auto-financia com a venda desses softwares. Temos escolas técnicas em todas as províncias que formam milhares de jovens para o uso das redes sociais e das novas tecnologias. Apesar do alto custo que ainda representa, a acesso e uso da internet em Cuba tem aumentado enormemente, apesar de todos os bloqueios que ainda sofremos.

Fonte: Sul 21 (Via Blog do Miro)

Líder de las FARC insta a perseverar en diálogos de paz

timochenko.jpg_1718483346

En un comunicado emitido este viernes, alias Timochenko, cuestionó la posición del Gobierno en Cuba, que a su juicio parece empeñado en reducir los alcances de las negociaciones a la aceptación de condenas y penas por parte de los mandos de la guerrilla. El líder de las Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC-EP), Timoleón Jiménez, alias Timochenko, reiteró la disposición del grupo insurgente para encontrar soluciones al conflicto armado e instó a que continúen los Diálogos de Paz. “Tales diálogos no deben romperse por ningún motivo”, insistió Londoño, a través de un comunicado reciente publicado este viernes. Timochenko, recordó el clamor unánime de sus compatriotas el pasado 9 de abril a favor de la aplicación del cese al fuego bilateral y el término de la guerra interna, que ha durado más de medio siglo. Además de respaldar los diálogos de paz en La Habana (Cuba), entre el Gobierno y las FARC-EP, los asistentes a la multitudinaria marcha por la paz exigieron también iniciar reuniones formales con el Ejército de Liberación Nacional (ELN), otro de los grupos insurgentes activos en el país, agregó. Vea también → FARC pide tregua bilateral tras nuevos combates en Cauca En su pronunciamiento aclaró que su posición ha sido la de reconocer en todo momento la parte de la responsabilidad que les corresponde. “Pero el Estado también deben asumir con franqueza la suya, carece de sentido pretender que la dirigencia insurgente resulte condenada como culpable única y que además se someta a penas que la excluirán de la política a futuro”, añadió. De lo que se trata -consideró- es de hallar una salida concertada, un acuerdo entre dos partes que desean poner fin al largo calvario de la confrontación entre los hijos de una misma patria. Lea → Seis comuneros indígenas son asesinados en el Cauca colombiano

EN CONTEXTO -> El pasado miércoles el presidente colombiano, Juan Manuel Santos, ordenó reanudar los bombardeos contra los campamentos de las FARC-EP, tras la muerte de 11 efectivos del ejército en el departamento de El Cauca, durante un enfrentamiento con miembros de ese grupo guerrillero.

infografiaabc_dialogospaz_corregida.jpg_1060144981

Fonte: Telesur

Bolivia y Venezuela destacan carácter humanitario del ALBA

nicolas-maduro.jpg_1718483346

Fecha de publicación 20 octubre 2014

Evo Morales y Nicolás Maduro recalcaron la importancia de compartir conocimientos científicos para contribuir a procedimientos que curen el ébola. También ratificaron su voluntad de aportar a la ONU más esfuerzos en la lucha contra la enfermedad.

Los presidentes de Bolivia, Evo Morales; y Venezuela, Nicolás Maduro, saludaron este lunes el carácter humanitario de la cumbre de la Alianza Bolivariana de los Pueblos de Nuestra América (ALBA) realizada en Cuba y ratificaron que este organismo de integración seguirá abogando por el servicio a la humanidad y no por las guerras que destruyen al mundo.

En declaraciones a la prensa hechas después de la cumbre, los jefes de Estado sostuvieron que “el ALBA demostró una vez más que continuará abogando por la paz y por soluciones diplomáticas y eficientes a los problemas del mundo”.

“Creemos que el ALBA una vez más demuestra que nuestro centro es el ser humano, el ser humano visto en su concepto de humanidad. Una vez más se demuestra que lo social está en el centro y la capacidad para que reaccionemos rápido”, dijo Maduro.

El Presidente venezolano recordó palabras de su homólogo de Nicaragua, Daniel Ortega, y expresó que “si se usaran todos los recursos y las capacidades que se usan para la guerra al servicio de la humanidad, pues otro mundo habría”.

Por su parte, Evo Morales, manifestó su satisfacción por la cumbre realizada en La Habana y dijo que “estoy mucho más convencido de que Cuba está en la vanguardia del tema de solidaridad, por encima de las diferencias cronológicas, pragmáticas (…) Y por eso es esta reunión (…) Cuba nos educa en temas de salud y de solidaridad”.

Agregó que para los países del ALBA la prioridad número uno es la vida (…) defender la vida y agradeció a su homólogo cubano, Raúl Castro, por la participación y la orientación en la cumbre.

Maduro dijo que Hay que atender la solución estructural del problema, hay que ir a África y agregó que “todos los pueblos del mundo merecen un sistema de sanitario eficiente.

“Ver la salud como un derecho humano y no como una mercancía, esta es una conclusión vital de esta cumbre”, concluyó.

Este lunes, los países del ALBA concretaron una iniciativa de acción conjunta que establece, entre otras cosas, contribuir en el “mejoramiento profesional de los expertos en la lucha contra el ébola” y “asegurar grupos médicos de reserva e insumos médicos para el manejo de la enfermedad”.

El bloque regional también instará a crear “un esfuerzo conjunto para crear capacidades para el diagnóstico” así como un entrenamiento de especialistas “que se conviertan en asesores y facilitadores” que puedan “extender a los países del ALBA y del Caribe el programa de capacitación”.

Para ver la resolución completa, haga click aquí.

Fonte: TelesurTV