Estudo prevê 9 °C de aquecimento

aquecimentoshutterstock_72385261

Postado em 28/09/2016 por Felipe Poli Rodrigues

Postado originalmente em:27/08/2016

Pesquisadora diz que temperatura terrestre nos próximos milênios subiria cerca de 5 graus mesmo se emissões de carbono parassem hoje; outros cientistas contestam dado.

Uma afirmação extraordinária foi feita por uma cientista americana nesta segunda-feira (26): mesmo se as emissões de carbono parassem hoje, a Terra estaria comprometida, no longo prazo, com um aquecimento global de 5 °C. Mantidas as emissões atuais, chegaríamos a 9oC. Os resultados derivam de uma reconstrução inédita das temperaturas globais nos últimos 2 milhões de anos, publicada na edição on-line da revista Nature, um dos principais periódicos científicos do mundo.

Afirmações extraordinárias, porém, requerem evidências extraordinárias. E alguns cientistas dizem que estas faltaram ao trabalho.

Mal foi colocado no ar, o artigo de Carolyn Snyder, da Universidade Stanford, teve sua conclusão principal criticada pelo climatologista Gavin Schmidt, diretor do Centro Goddard de Estudos Espaciais da Nasa. Embora elogie a série de dados compilada pela pesquisadora, Shmidt diz que a projeção de aquecimento futuro está “simplesmente errada”. Outros especialistas vão na mesma linha.

A dificuldade é que a autora usou uma abordagem muito simplista para estimar o aquecimento pelo CO2”, disse ao OC o climatologista Richard Alley, da Universidade da Pensilvânia, também nos EUA. Alley é especialista em reconstruir o clima antigo da Terra com base em análise do gelo da Groenlândia e da Antártida. Ele não diz que os números do novo estudo estão errados, porém. “Ele dá um limite superior, não a melhor estimativa”, afirmou.

No centro da controvérsia está um indicador conhecido como “sensibilidade climática”. Grosso modo, ele é definido como quanto o planeta aquece quando a concentração de gás carbônico na atmosfera dobra. Esse parâmetro foi calculado pela primeira vez em 1896 pelo químico sueco Svante Arrhenius (o mesmo da teoria de ácidos e bases que inferniza estudantes do ensino médio) em cerca de 5oC. E não mudou tanto assim nos últimos 120 anos: em 2013, o IPCC, o comitê de climatologistas da ONU, estimou a sensibilidade climática em um mínimo de 1,5oC e um máximo de 4,5oC. Ou seja, algo em torno de 3oC.

Os cientistas têm dificuldade em estimar com muita precisão a sensibilidade climática porque a Terra tem várias maneiras diferentes de responder ao CO2 adicional no longo prazo. Algumas causam ainda mais aquecimento, outras atuam no sentido contrário. São os chamados mecanismos de feedback climático. Entre eles está a reação de oceanos, florestas e mantos de gelo.

No passado, durante as eras glaciais, esses mecanismos agiram em ambos os sentidos, ajudando a tirar e pôr o mundo em eras do gelo. Por exemplo, quando variações periódicas (naturais) na órbita terrestre favoreceram o acúmulo de gelo nas regiões polares, há centenas de milhares de anos, a luz solar refletida pelo gelo ajudou a esfriar ainda mais a Terra – e a fazer mais gelo. Quando, milênios depois, essas mesmas variações orbitais esquentaram um pouquinho a Terra, a enorme quantidade de CO2 dissolvida nos oceanos escapou para a atmosfera (pense numa garrafa de refrigerante quente sendo aberta), produzindo períodos quentes, como o atual.

Em seu estudo, Snyder apresenta um parâmetro chamado “sensibilidade do sistema terrestre”, ou seja, quanto a Terra esquentaria no horizonte de milênios caso a quantidade de CO2 no ar dobrasse.

Para chegar a esse número, primeiro ela fez um trabalho de presidiário: montou uma série contínua de temperatura da superfície terrestre com base em 20 mil dados contidos em 59 amostras de subsolo oceânico (a composição química dos microrganismos mortos e depositados no fundo do mar permite inferir as temperaturas ao longo do tempo), de 2 milhões de anos atrás até o presente. Depois, ela comparou as temperaturas de sua série com aquelas obtidas no registro do gelo da Antártida, que são mais precisas do que as dos sedimentos oceânicos, mas só recuam até 800 mil anos atrás.

De posse de uma correlação entre temperaturas médias globais e temperaturas na Antártida, Snyder percebeu que aquelas variavam também numa forte correlação com as flutuações na concentração de gases de efeito estufa, que é medida com grande precisão no gelo polar. O passo lógico seguinte foi estimar a variação de temperatura causada ao longo dos milênios para cada mudança no equilíbrio de radiação da Terra causado pelos gases de efeito estufa. Daí veio a medida de sensibilidade do sistema climático de 7oC a 13oC causada pela duplicação do CO2 em relação à era pré-industrial – o que, mantida a concentração atual (42% maior do que a pré-industrial), nos daria 5oC de aquecimento no longo prazo mesmo se de hoje em diante ninguém emitisse mais um grama de carbono.

“A autora pegou a história da temperatura e do CO2 (e outros gases-estufa) ao longo dos ciclos glaciais e estimou o efeito de aquecimento do CO2 assumindo que toda a mudança de temperatura fosse causada pelo CO2”, disse Alley. Segundo ele, isso superestima o papel do carbono.

“Um grande conjunto de evidências independentes indica que o aquecimento que vamos sofrer pelo aumento do CO2 será grande e importante para nós, mas não tão grande quanto o indicado pelo novo estudo”, afirmou o americano.

Procurada pelo OC, Carolyn Snyder evitou polemizar com Schmidt. Mas disse que seu estudo não traz “uma previsão ou predição do aquecimento no futuro”. A pesquisa, segundo a autora, segue trabalhos publicados anteriormente que definiram a sensibilidade do sistema climático como a correlação entre temperaturas globais e gases de efeito estufa, como maneira de resumir padrões climáticos da Terra no passado. “Mas isso é uma correlação observada no passado, não um teste de causalidade”, explica.

Segundo ela, essa sensibilidade do sistema terrestre contrasta com a sensibilidade climática por incluir respostas de outras partes do planeta, como vegetação, poeira e mantos de gelo. Ela afirma ter estimado também a sensibilidade climática nesses mesmos 800 mil anos, num estudo ainda em revisão para publicação – e encontrado um número menor, “consistente com os modelos climáticos do IPCC”.

Fonte: Envolverde

O clima hoje, os dramas de amanhã

Publicado em 25/09/2016 por Felipe Poli Rodrigues

Publicado originalmente: 23/09/2016

Este ano El Niño elevou a concentração de gases estufa a um nível recorde.

As notícias vêm de várias partes. Do centro do Brasil, as informações de que o Rio Araguaia, um dos maiores do País, já “perdeu mais de 100 de suas ilhas”, com o assoreamento documentado pelos cientistas da Universidade Federal de Goiás. Os cardumes de peixes desapareceram (O Popular, 18/9). O canal principal de navegação reduziu-se de mais de 70 metros para 5 metros. E o auge da seca ainda não chegou, está previsto para outubro. Segundo o jornal, “a drenagem de água para fins de agricultura contribui para o agravamento da crise”.

Mas o problema não é só lá. Goiânia e Aparecida de Goiânia sofrem sem água em partes das cidades, porque fazendas desviaram o curso de um rio. Também nas proximidades houve outros desvios no leito do Rio Meia Ponte, que abastece 50% da capital; por isso a captação ali teve de ser baixada de 80 para 30 litros por segundo. A Ilha do Bananal só existe agora como ilha durante parte do ano porque o Rio Javaés, borda ocidental dessa ilha, só tem água durante dois meses no ano. Em vários outros municípios, incluídos Anápolis e Cidade Ocidental, de maior porte, a crise na captação também é forte. Só na Serra das Areias 15 nascentes e 9 cachoeiras secaram.

O Plano de Recursos Hídricos do Estado segue em marcha lenta – quando segue – na Assembleia Legislativa goiana. E o Araguaia é apenas um dos exemplos. Vários outros rios estão sendo assoreados com resíduos que vêm das culturas agropecuárias em faixas de preservação. Na histórica cidade de Goiás, o Rio das Almas pode ser atravessado a pé, depois que plantadores de cana-de-açúcar passaram a captar água nas partes mais altas.

Goiás é parte do problema do Centro-Oeste e de outras faixas de transição onde é feita a conversão de florestas para lavoura, podendo aumentar a temperatura da superfície em até 5 graus Celsius e reduzi r em 30% a quantidade de água que retorna para a atmosfera em forma de vapor (Estado, 18/9). Queimadas são cada vez mais frequentes. O desmatamento em partes da Amazônia ficou em 5 mil quilômetros quadrados em 2015.

Há outros ângulos. A Secretaria de Abastecimento goiana lançou no final de agosto o Plano Estadual de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas. Um dos objetivos é reduzir a emissão de carbono na agricultura. Planeja-se recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas; ampliar o plantio direto em oito milhões de hectares; ampliar a fixação biológica de nitrogênio em 5,5 milhões de hectares. As várias ações deverão permitir a redução de emissões em 2,25 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalentes, graças também ao incremento de áreas de florestas plantadas em 50 mil hectares por ano, à adoção de sistemas agroflorestais em 4 milhões, à fixação biológica do nitrogênio em 5,5 milhões de hectares.

A cada dia surgem mais notícias inquietantes. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) há pouco informou que a extração de matérias-primas triplicou em quatro décadas; contribui fortemente para as mudanças climáticas e para a contaminação da atmosfera com o uso intensivo de combustíveis fósseis. Estudo da Fundação Oswaldo Cruz concluiu que a região amazônica poderá sofrer mudanças climáticas bruscas nos próximos 25 anos por causa do desmatamento; a temperatura aumentará 5 graus Celsius e o volume de chuvas diminuirá 25% (geodireito, 19/9).

climadireitoshumanos-630x311

Para completar a preocupação com o calor recorde que já está por aqui, estudo recente do Painel do Clima (IPCC), publicado na revista Nature, atualizou a correlação entre volumes de emissão de gases do efeito estufa (GEE) e aumentos da temperatura média na Terra até o fim do século – a continuarem como hoje as políticas, o aumento será entre 3,2 e 4,4 graus. Mesmo que os países cumpram os compromissos voluntários assumidos no passado, o aumento ficaria entre 2,9 e 3,8 graus. E mesmo que se excluam causas, como a liberação de metano pelo Ártico, do permafrost siberiano e do fundo dos oceanos, perdas nas florestas tropicais, ficar abaixo do aumento de 2 graus na temperatura em 2075 pressupõe o abandono do carvão e do petróleo como combustíveis e sua substituição por energias limpas e renováveis; a eletrificação dos transportes; técnicas de sequestro de carbono; grandes projetos de reflorestamento; agricultura e pecuária de alta produtividade e baixo carbono (Eco-finanças, 11/7).

Essa transição pressupõe investimentos de US$ 3 trilhões por ano (quando se fala hoje em US$ 100 bilhões), fora retirar subsídios de US$ 1 trilhão para combustíveis fósseis.

Não é exatamente nessas direções que vamos caminhando. Este ano, El Niño aumentou a concentração de gases do efeito estufa para nível recorde (Reuters, 13/6), ultrapassando pela primeira vez 400 partes por milhão. Mudanças climáticas estão provocando deslocamento de nuvens para os polos e exposição de zonas tropical e subtropical do planeta à radiação solar e desertificação, segundo pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego. Este ano, seca e excesso de chuvas em regiões produtoras brasileiras já contribuíram para queda de 0,3% no PIB agropecuário de um trimestre.

Para outubro está prevista uma reunião em Kigali, capital de Ruanda, de dirigentes de todas as partes do mundo, na tentativa de alcançar um acordo que permita chegar ao fim do século com aumento de apenas 0,5% na temperatura, equivalente a metade da elevação que já provocamos desde o início da revolução industrial. O foco principal estará na redução de hidrofluorcarbonos, ou HFCs, encontrados em aparelhos de ar-condicionado, geladeiras e aerossóis. E em seu período de vida de 13,4 anos eles causam 1.300 vezes o aquecimento que o dióxido de carbono provoca ao longo de cem anos.

As negociações já duram sete anos. E a implementação terá custo muito alto. Vai-se chegar a um bom final?

Fonte: Envolverde

PNUD e governo debatem alternativas para preservar camada de ozônio sem aumentar aquecimento global

Publicado em 22/09/2016 por Felipe Poli Rodrigues

Publicado originalmente em: 21/09/2016

Parceria entre PNUD e governo brasileiro permitiu eliminação de 17 mil toneladas de substâncias com potencial de destruição da camada de ozônio. Em evento comemorativo do Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozônio, agências da ONU e representantes do governo, sociedade civil e setor privado debateram novos caminhos do Protocolo de Montreal.

6405553723_60f7fee6fa_b-1

Em comemoração ao Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozônio — celebrado na última sexta-feira (16) —, o Ministério brasileiro do Meio Ambiente reuniu em Brasília especialistas e representantes do governo, setor privado e organizações internacionais para debater a implementação do Protocolo de Montreal.

No Brasil, as metas do tratado têm sido buscadas pela indústria e o Estado sob a liderança do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que lidera as iniciativas nacionais do Protocolo desde 2012. A parceria entre a ONU e o governo para o tema, porém, já dura quase três décadas.

A agência da ONU presta assistência técnica e operacional à pasta do meio ambiente para desenvolver estratégias de redução das emissões de HCFCs — substâncias danosas à camada de ozônio.

“Essa cooperação possibilitou a eliminação de 17 mil toneladas de substâncias com potencial de destruição da camada de ozônio e de aquecimento global”, destacou o diretor nacional do PNUD no Brasil, Didier Trebucq.

O representante das Nações Unidas ressaltou ainda que, “sob o aspecto social e econômico, o trabalho que o PNUD vem executando, sob a coordenação do Ministério do Meio Ambiente, tem permitido que as pequenas e médias empresas recebam os recursos e assistência técnica do Fundo Multilateral garantindo a sua sustentabilidade econômica”.

“Graças às ações conjuntas, o excesso da radiação ultravioleta sobre os seres vivos têm sido evitado. Espera-se que a recuperação da camada de ozônio ocorra até a metade deste século”, afirmou o secretário de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério, Everton Lucero.

O integrante da pasta falou ainda do legado positivo do Protocolo de Montreal para outros tratados internacionais sobre questões ambientais. “Estamos diante de uma história de sucesso que espero sirva de exemplo para outras iniciativas, e possamos ter esse mesmo grau de engajamento com as metas do Acordo de Paris”, disse.

“O acordo do Protocolo é um dos mais bem-sucedidos, ele conseguiu realmente reduzir o impacto sobre a camada de ozônio”, acrescentou o representante-adjunto da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) no Brasil, Clóvis Zapata.

Preocupação em combater mudanças climáticas

Os debates promovidos por ocasião do Dia Internacional lembraram que substâncias usadas no lugar dos HCFCs são, muitas vezes, propulsoras do efeito estufa e das mudanças climáticas. Entre elas, estão os HFCs, grupo de compostos associados ao aquecimento global.

Por isso, os países que integram o Protocolo de Montreal têm monitorado o crescimento acelerado do uso desses substituintes aos tradicionais HCFCs.

“Nossa perspectiva é a adoção de emenda para redução dos HFCs na reunião das partes do Protocolo de Montreal, que acontece em Ruanda em outubro deste ano”, afirmou o secretário do Ministério das Relações Exteriores, Rafael da Soler.

“Já se definiu que os países em desenvolvimento terão acesso aos recursos do Fundo Multilateral para implementar os projetos de eliminação dos HFCs. Em termos de estrutura do compromisso, é algo que temos muito parecido com o processo de eliminação dos HCFCs”, explicou.

No entanto, o objetivo não será a eliminação desses compostos, mas sim a redução do consumo e da produção. “Ainda não temos substituição da substância em todos os setores. Estima-se que será mantido cerca de 15% do uso dos HFCs”, disse Soler.

Programa brasileiro começa segunda etapa

Nas comemorações da sexta-feira (16), o PNUD e o Ministério do Meio Ambiente também deram início à segunda fase do Programa Brasileiro de Eliminação dos HCFCs (PBH), que ajudar empresas a converterem suas cadeias, deixando de utilizar os HCFCs em seu processo produtivo.

Na primeira etapa da iniciativa, foram adaptadas cerca de 400 empresas de espumas de poliuretano. Para a segunda, governo e ONU esperam beneficiar cerca de 800.

Fonte: ONU BR

Desperdício e destruição na era dos plásticos

Publicado em 14/09/2016 por Felipe Poli Rodrigues

Publicado originalmente em: 14/09/2016

oceanosplastico-630x315

Os oceanos recebem hoje um caminhão de plásticos por minuto. Isso significa anualmente 8 milhões de toneladas que vêm acrescentar-se aos 150 milhões de toneladas ali presentes. Para cada 3 quilos de peixe, há 1 quilo de plásticos nos ambientes marinhos. A continuar nesse ritmo, em menos de 35 anos a proporção será de 1 para 1, como mostra relatório da Ocean Conservancy. Um estudo publicado na prestigiosa revista científica PNAS estima a existência de 580 mil peças de plástico por quilômetro quadrado nos mares. A produção vem dobrando a cada 11 anos, desde 1950. Entre 2015 e 2026, a sociedade fabricará mais plásticos do que tudo o que foi feito até hoje.

É preciso reconhecer, claro, que os plásticos (o termo deve ser sempre empregado no plural, dada sua imensa diversidade de materiais, composição e usos) trouxeram benefícios imensos, ampliando as possibilidades de armazenagem de alimentos e medicamentos, tornando mais leves os automóveis (dos quais, em média, hoje, cerca de 50% do volume e de 10% a 15% do peso vêm desses materiais) e aviões (com 50% de plásticos em seu peso) e permitindo engradados mais duráveis: sem eles, o uso de recursos materiais, energéticos e bióticos seria ainda maior que o atual.

Em muitos setores, os plásticos são sistematicamente reutilizados. Mas a reciclagem desse material é baixa. Só nos Estados Unidos, de 10 milhões a 15 milhões de carros saem de circulação anualmente. As partes metálicas dos veículos são razoavelmente bem reaproveitadas, mas, como reconhece um estudo recente, a reutilização dos plásticos está na sua infância.

O setor mais crítico, nesse sentido, é o das embalagens plásticas. É aí que se concentra o recém-lançado relatório da Fundação Ellen MacArthur (The New Plastics Economy – Rethinking the future of plastics), cuja questão básica é: como permitir que um produto tão útil e ao mesmo tempo de tão difícil reaproveitamento, uma vez utilizado, seja parte da economia circular? A resposta vai em três direções: redução no uso de embalagens plásticas (desde que não sejam comprometidas as funções de conservação de alimentos e medicamentos que os plásticos hoje propiciam, bem entendido), melhoria nos sistemas de coleta pública e, sobretudo, muita pesquisa para que possam ampliar-se as raras iniciativas de destinação dos plásticos para biocompostagem ou reciclagem.

O desperdício é o principal chamariz capaz de atrair o setor privado para uma “nova economia dos plásticos”. Hoje 95% do material que compõe os plásticos usados para embalagens (num valor que oscila entre US$ 80 bilhões e US$ 120 bilhões anualmente) são perdidos após um primeiro uso. Passados 40 anos do lançamento do símbolo da reciclagem, somente 14% dos plásticos são reciclados. Isso é muito menos que o papel (58%), o ferro e o aço (70% a 90%).

E essa reciclagem distancia-se dos princípios da economia circular. Na maior parte das vezes destina-se a produtos que, uma vez utilizados, só poderão terminar suas vidas úteis em aterros ou incineradores. A virtuosa reciclagem de embalagens PET no sistema de garrafa a garrafa (bottle-to-bottle), por exemplo, só beneficia 7% da produção global. Esta é uma das razões que alarmam especialistas diante da notícia de que hoje há no mundo mais água vendida em embalagens plásticas do que refrigerantes, conforme um estudo canadense.

Ao desperdício do não reaproveitamento junta-se a destruição: no mundo, um terço das embalagens plásticas ou não são coletadas pelos sistemas públicos de limpeza ou escapam dos caminhões responsáveis por seu recolhimento, sobretudo nos países em desenvolvimento. Se as empresas (e os consumidores, claro) tivessem de pagar pelos custos impostos ao meio

ambiente por essa destruição, o valor superaria os lucros globais da indústria do plástico, segundo estudo publicado pela ONU em 2014.

Mas o maior desafio é o da pesquisa. O relatório da Fundação Ellen MacArthur mostra que não existem normas internacionais definindo o que são plásticos compostáveis. Os chamados “plásticos verdes” atuais contam com biomassa em sua produção (emitindo menos Gases de Efeito Estufa que os advindos do petróleo), mas nem de longe, em sua esmagadora maioria, são passíveis de compostagem. Não são materiais “biobenignos”. Experiências de plásticos que, misturados a restos de alimentos, se decompõem, transformando-se em fertilizantes, são raríssimas e localizadas, ainda que promissoras, como mostra o caso da cidade de Milão.

Qualquer tentativa de flerte com as técnicas anteriores à idade dos plásticos é irrealista e indesejável. Ao mesmo tempo, conformar-se com os danos socioambientais de sua crescente produção será cada vez menos aceito. Limites – como no caso das águas engarrafadas e das sacolas plásticas –, educação do consumidor e inovação tecnológica são os caminhos para enfrentar este tão difícil desafio.

Fonte: Envolverde

O clima bate à porta, já é hora de mudar

Postado em 13/08/2016 por: Felipe Poli Rodrigues

secacapashutterstock_183052871-630x315

Postado originalmente em: 12/08/2016

Mudanças climáticas ameaçam a segurança alimentar na América Latina e no Caribe.

Na mesma semana em que o mundo se reunia no Rio de Janeiro, na Olimpíada 2016, registrava-se (cdn.com.br) o Dia da Sobrecarga da Terra (8/8), quando se calculou que em pouco mais de sete meses deste ano esgotamos os recursos naturais suficientes para atender às necessidades de consumo de todo o mundo em 12 meses. E, mais complicado, evidenciou-se que a cada ano esse esgotamento se dá mais cedo (em 2015 foi no dia 13 de agosto). Feito pela Global Footprint Network, com dados da ONU, da Organização Mundial do Comércio e dos países, o cálculo avalia a “pegada ambiental global” e diz que precisaríamos de 1,6 planeta Terra para suprir o consumo de hoje no planeta e atender ao crescimento da população, confrontados com a capacidade da natureza de prover recursos e reciclar organicamente os resíduos.

Desde 2000 a sobrecarga de recursos usados dobrou. Mas foi possível também ver que isso já vinha desde 1970 – começou a ocorrer no dia 23 de dezembro e a cada ano era mais cedo, com poucas exceções. Para reverter o processo será preciso reduzir as emissões de carbono em 30% sobre os níveis atuais, conforme estabelecido na Conferência do Clima da ONU. Além de baixar o consumo, será indispensável reduzir o desperdício de energia elétrica, de carne e os transportes movidos a combustíveis fósseis, entre outros itens.

Relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (geodireito.com, 31/7) aponta a “exploração predatória” da Terra, a retirada triplicada da biomassa nas últimas quatro décadas, a extração de minerais, o uso de combustíveis fósseis como algumas das causas mais graves desse problema. Um brasileiro, em média, consome recursos 1,8 vezes mais do que o planeta pode oferecer; um norte-americano, 4,8 vezes mais; um australiano, 5,4 vezes.

Tratar de temas como esses costuma levar muitas pessoas a chamar de “profetas do apocalipse” ou coisas assim cientistas que fazem advertências. Mas não há como fugir. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO-ONU), por exemplo, adverte (2/8 ) que mudanças climáticas já ameaçam a segurança alimentar na América Latina e no Caribe. Estudo da Cepal afirma que o setor agrícola é a atividade mais afetada pelas mudanças, pois responde por 5% do produto bruto e 23% das exportações regionais, ao mesmo tempo que emprega 16% da população ocupada. O Noroeste brasileiro será uma das regiões mais afetadas.

Como avançar, nesse cenário, com a erradicação da fome, que exigirá maior produção de alimentos? E sabendo que as mudanças climáticas aumentarão tanto a seca como o volume de chuvas? Como enfrentar esse quadro se o último balanço (SBPC na ECO 21, maio de 2016) adverte que as emissões brasileiras de dióxido de carbono aumentaram de 2,1 bilhões de toneladas

anuais (2005) para 2,73 bilhões de toneladas, embora o compromisso nacional seja de reduzi-las em 37% até 2025 e até 43% em 2030, sobre os números de 2005?

Será necessário um conjunto de soluções. O Jornal Dia de Campo (5/7), por exemplo, assegura que o plantio direto na agricultura “mitiga a emissão de gases do efeito estufa”, conforme estudo da Embrapa Cerrados desde 2001, divulgado pela Nature/Scientific Reports. Os estoques de carbono no solo nesse sistema de plantio podem equiparar-se no longo prazo aos valores originários em solos do Cerrado nativo. Além disso, o acúmulo de carbono promove aumento da qualidade do solo dos pontos de vista químico, físico e biológico. A acumulação de carbono no solo entre 11 e 14 anos variou entre 1,48 e 1,61 megagramas por hectare/ano. Essa é uma tarefa que precisa ser considerada prioritária pelos governos em toda parte no País.

Outro estudo, divulgado por Rita Silva (avivcomunicacao, 26/7), lembra que estão entre as maiores ameaças ao clima planetário os “gases que usamos para nos refrescar”, conhecidos como hidrofluorcarbonetos, ou HFCs, “mais poderosos para o aquecimento da Terra que o dióxido de carbono”. Um desses gases, o HFC-134a, permanece 13,4 anos na atmosfera e leva a um aquecimento 1.300 vezes maior que o do dióxido de carbono ao longo de cem anos. Esses gases estão em aparelhos de ar-condicionado, geladeiras e aerossóis. No ritmo atual, em 2015 os HFCs poderão contribuir com até 10% das emissões globais dos gases do efeito estufa. Desde 1990, o uso deles aumentou 258%.

A esperança é que em reunião a ser realizada em Ruanda, em outubro, se chegue a acordo entre os países para reduzir o uso dos HFCs e o aquecimento global em O,5% até o final do século. Até já existem alternativas para esses gases, como o propano, que pode ser usado em pequenos aparelhos de ar-condicionado. Quase cem países em desenvolvimento querem sustar o nível de crescimento dos HFCs em 2021. O custo total para eliminá-los estaria entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões em três décadas – ou 8 a 10 centavos de dólar por tonelada de dióxido de carbono equivalente.

O Centro de Estudos em Sustentabilidade, da Fundação Getúlio Vargas, está divulgando nestes dias os inventários de emissão de gases do efeito estufa no Brasil em 2015, por 136 organizações membros – um “primeiro passo para a transição para a economia de baixo carbono, fruto do Acordo de Paris”.

A urgência de mudanças nessa área é exemplificada por Ana Lúcia Azevedo (9/4) com a Chapada Diamantina, “conhecida como a Caixa d’Água da Bahia” (80% dos rios do Estado nascem ali e fornecem água inclusive para 60% dos habitantes de Salvador). Mas a água escasseia por lá, “à medida que se concretizam previsões sobre o impacto das mudanças climáticas na região”. Ou em várias partes da Amazônia.

São alguns dos casos mais em evidência na área do clima no País, que estão acontecendo em todas as regiões. Cuidemo-nos para evitar quadros piores. Informações e advertências não faltam.

Parques também protegem o céu

Publicado por Felipe Poli Rodrigues em: 10/08/2016

IMG_0739-1024x683

Publicado originalmente em 02/08/2016

Desde que a NASA reiniciou as pesquisas espaciais, muito tem sido revelado sobre o sistema solar, e para além dele. E o que antes era limitado a intelectuais e a quem tinha acesso a um planetário, agora está ao alcance de milhões de pessoas graças ao lançamento de telescópios portáteis, relativamente baratos e de alta tecnologia, os quais podem ser adquiridos até pela internet.  Porém, justo quando a tecnologia se torna disponível, é o céu que parece já não estar, devido ao fenômeno da poluição luminosa.

A poluição luminosa é conseqüência da civilização industrial.  A luz das grandes e médias cidades do mundo é tão intensa que ofusca as estrelas, impedindo a observação do céu. Estudos recentes indicam que o aumento de exposição luminosa altera o ritmo biológico de diversas espécies, inclusive a nossa, que evoluíram para viver períodos iguais de luz e escuridão.   Por tudo isso, ganha impulso um movimento internacional deflagrado pela ONG americana Associação do Céu Escuro (International Dark-Sky Association).  Segundo a ONG, as Unidades de Conservação distantes dos centros urbanos, longe da poluição luminosa, podem garantir a clareza da massa estelar sobre nossas cabeças, e reconhece que, assim como a biodiversidade, o céu também cumpre um importante papel na nossa cultura e na nossa história.  A União Internacional para Conservação da Natureza – IUCN, por meio de um Grupo Consultivo para o Céu Escuro, mantém uma lista de 35 Unidades de Conservação em todo o mundo onde o céu está livre de poluição luminosa, e que por isso começam a atrair visitantes interessados na observação dos astros.

O Canadá lidera a lista da IUCN com 15 reservas, mas infelizmente – e injustamente – nenhum parque brasileiro está na lista. O Parque Estadual do Cantão, na bacia do Rio Araguaia, é um dos que certamente merecem estar: embora a sede do parque esteja no pequeno município ribeirinho de Caseara, a 256 km de Palmas, capital do Tocantins, os restantes 90.000 hectares do Cantão se encontram na ponta norte da remota Ilha do Bananal, adjacentes ao Parque Nacional do Araguaia e a extensas reservas indígenas, formando um conjunto de mais de 2 milhões de hectares sem poluição luminosa, de onde se vislumbra um céu esplendoroso.

Por ocasião do 18o aniversário do Parque do Cantão, cerca de 60 alunos da rede escolar local tiveram a oportunidade de ver o céu em nosso telescópio.  O interesse dos jovens superou nossas expectativas, e muitos solicitaram repetir a experiência.  Afinal, como não gostar de ver Saturno e seus anéis, e sua lua Encélado que nos indica a possibilidade de vida? Ou o grandalhão Júpiter, um planeta cuja enorme força gravitacional e posição estratégica no sistema solar, atrai para si meteoritos e asteróides que de outra forma viriam diretamente em direção à nossa Terra, destruindo a vida do planeta?  Júpiter é nosso guarda-costas!

O fato é que algumas Unidades de Conservação acabam de adquirir um novo papel na proteção de tudo que está abaixo, ao redor e acima de nós.  Quem mora em uma cidade grande hoje em dia precisa viajar para muito longe a fim

de experimentar a sensação inesquecível de ver a Via Láctea e o céu em todo seu esplendor. E imaginar quantos mistérios existem por lá.

O físico italiano e Premio Nobel Enrico Fermi formulou uma pergunta interessante:  se a probabilidade de vida inteligente no Universo é tão grande quanto indicam os dados científicos, então eis o paradoxo de Fermi: “onde estão todos?” Vida inteligente é aquela capaz de formar civilizações.  E isso é uma coisa rara, haja visto nossa própria Terra, onde das estimadas 30 milhões de espécies somente uma foi capaz de formar uma civilização – com capacidade de criar comunicação e tecnologia avançadas, mas também de gerar poluição.  De todas as possíveis respostas ao paradoxo, a mais aceita pelos cientistas é que as civilizações deixam de existir, pois, à medida que avançam, alteram seu meio natural a ponto de se auto-destruir.  Se isso for verdade, nem Júpiter poderá nos salvar de nós mesmos.

IMG_8100r-1024x683

Fonte: Oeco

Menos da metade da população brasileira tem acesso a saneamento

Publicado por Felipe Poli Rodrigues em: 08/08/2016

Apenas 39% das residências têm seus rejeitos tratados adequadamente. Falta de tratamento afeta saúde da população e polui fontes de recursos hídricos. No Brasil, água é fundamental para agricultura e setor de energia.

saneamento-630x315

Publicado originalmente em 08/08/2016

O Brasil abriga um quinto das reservas hídricas do mundo, mas a abundância não significa acesso universal a água própria para o consumo, nem a saneamento. Menos da metade — cerca de 48,6% — da população brasileira é atendida por serviços de esgoto e apenas 39% das residências têm seus rejeitos tratados.

Os números são do Banco Mundial, que alertou na quarta-feira (3) para as desigualdades na distribuição de água entre a população, a indústria e a agricultura no Brasil, além de detalhar a importância dos recursos hídricos para a economia brasileira.

Embora 82,5% dos brasileiros tenham acesso a água, apenas 43% dos domicílios entre os 40% mais pobres do país têm vasos sanitários ligados à rede de esgoto, segundo dados de 2013.

A falta de tratamento faz com que poluentes sejam jogados diretamente na água ou processados em tanques sépticos desregulados, com graves consequências para a qualidade dos recursos hídricos, bem como para o bem-estar da população.

O Banco Mundial chama atenção ainda para o desperdício registrado nas empresas de abastecimento — perdas chegam a 37%.

De acordo com a agência da ONU, o financiamento e subsídios do setor são baseados em uma estrutura tarifária ultrapassada que, somada ao excesso de pessoa e elevados custos operacionais, encarecem a oferta para os consumidores.

Os gastos com a produção inviabilizam novos investimentos, capazes de tornar a infraestrutura mais resistente a eventos climáticos extremos como secas e inundações.

 Economia brasileira depende da água

 O organismo financeiro destaca que 62% da energia do país é gerada em usinas hidrelétricas e 72% da água disponível para o consumo é destinada à irrigação na agricultura.

O Banco Mundial lembra que o Brasil é o segundo maior exportador de alimentos do mundo — sendo a agricultura e o agronegócio responsáveis por 8,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Atualmente, apenas pouco menos de 20% da área de terras irrigáveis não contam com sistemas de água para o cultivo.

 Segundo a agência da ONU, mesmo com a diversificação das fontes de energia prevista para as próximas duas décadas, as usinas hidrelétricas continuarão entregando 57% da eletricidade usada no Brasil.

Tamanha dependência significa que, em tempos de crise – como a vivida por São Paulo em 2014 e 2015 –, a produtividade de diversos setores econômicos pode ser ameaçada.

“Em São Paulo, por alguns meses, não ficou claro se as indústrias, como a de alumínio, grande consumidora de água, poderiam continuar produzindo no ritmo anterior à crise hídrica”, lembra o líder do programa de desenvolvimento sustentável do Banco Mundial no Brasil, Gregor Wolf.

Fonte: Envolverde