Alastair Crooke: Pensamento ‘ocidental’ desejante-delirante: Apagar do mundo tudo que faz a China ser o que é 


2/4/2019, Alastair Crooke, Strategic Culture Foundation 

“Tem também pensamento desejante-delirante do GB-19 (Golpe no Brasil-2019): devolver o Brasil às trevas de 1964, antes de nos devolver às megatrevas de 1968, só que com Olavo de Carvalho como Arquiteto do Universo, Jesus-da-goiabeira e Golbery, para que os EUA sobrevivam.
Tem parte boa: NUNCA funcionará.”   [Entreouvido na Vila Mandinga, 4/4/2019]
Nas últimas poucas semanas, vimos uma mini ‘Iniciativa Cinturão e Estrada’ a desdobrar-se sobre o norte do Oriente Médio – ligando Irã, Síria e Líbano – uma ‘Cinturão e Estrada’ que, como está previsto, será adiante assimilada ao projeto ICE chinês, mais amplo.

E – igualmente eloquente – o Líbano, eterno cata-vento a indicar para que lado sopram as brisas e vendavais no Oriente Médio, parece estar rompendo um cordão umbilical de 500 anos que o ligava a Roma e à Europa, para, agora, olhar na direção de Moscou (para garantir proteção às regiões onde vivem os cristãos, para levar de volta para casa os refugiados sírios, e para se pôr sob a ‘asa’ protetora do presidente Putin e impedir que Bolton e Netanyahu detonem o caos sobre eles) – e na direção da China. Mais recentemente, a iniciativa de infraestrutura da Nova Rota da Seda já integrou a Itália, potencialmente garantindo alguma substância (quer dizer, infraestrutura) – especialmente no caso da Sicília – à noção de uma comunidade mediterrânea.

Esses dois eventos estão ligados, por um único motivo: como meio para devolver autonomia a esses estados; recuperar pelo menos um mínimo de capacidade para decidir – e para que se livrem da camisa de força da estagnação econômica e do peso morto de algemas políticas enferrujadas. Como Christina Lin observou: “China, pelo menos ela, adota a ideia de que a segurança acompanha o desenvolvimento econômico, e já deixou claro que antes de qualquer acordo político é preciso reconstruir. Está agora adotando para o Levante uma abordagem regional, e está vendo o Líbano como plataforma para reconstruir na Síria e no Iraque”.

A União Europeia naturalmente debate-se em surto, diante da China. A UE sempre assumiu para ela mesma que, ela, não alguma China, carregaria o cetro de ‘próxima locomotiva econômica global’. Mas agora, a UE foi tomada de uma apreensão muito real, ante a ascensão desse outro ‘estado-civilização’, a China, que eventualmente, muito provavelmente, dará fim à dominação pelo ocidente em todas as esferas: econômica, política e cultural – mas mais especialmente econômica, dado que as tendências demográficas mostram que a Europa está envelhecendo, encolhendo e controla fatia a cada dia menor da economia mundial.

Vê-se isso claramente na porção norte do Oriente Médio e na Itália. Itália e Levante são ‘estados-civilizações’ de pleno direito. Não precisam da grife UE para lhes garantir status de ‘estado-civilização’. Como o ex-ministro da Economia do Líbano observou ano passado, a China “não olha para o Líbano como país pequeno de 4 milhões de cidadãos, mas como país com grande potencial, dada sua posição geográfica”.

O ponto aqui é precisamente que ‘o Ocidente’ já não é o Ocidente. Há o ‘ocidente’ beligerante de Trump, Pence, Bolton e Pompeo – e é esse, precisamente, o ‘ocidente’ que a cada dia perde tração em todo o Oriente Médio e fora de lá. E a ‘o ocidente’ da União Europeia, mas esse também está rachado e sitiado por forças opostas ao seu ethos milenarista. O Ocidente, como ‘a visão para o futuro’ está, na verdade, retrocedendo.

A UE sabe disso. Está tentada pelo potencial da China como parceira econômica, nesses ‘tempos de carência’, de ameaçadora recessão, mesmo que não consiga ceder completamente a esse mundo mutante a própria ambição, também globalizante, de propagar seus valores europeus ‘liberais’.

Daí que a UE exiba sintomas óbvios de esquizofrenia. Por um lado, não sobrevive economicamente sem a China, e quer ser ‘melhor amigo’ do Leviatã, mas, na sua ‘outra persona’ – a UE pode soar às vezes como Trump, quando choraminga contra práticas comerciais injustas, e faz pose com valores europeus: “A concorrência entre China e União Europeia é injusta (…) a UE erra, se espera que a China continuará a respeitar direitos humanos quando aumentar o progresso econômico (…) A UE deve ser clara, mas mais firme com a China”.

A polêmica de Juncker reflete um certo ‘arrependimento de comprador’, ante as consequências do consenso ocidental antioriente [ing. Orientalist] contra a China. Fato é que as expectativas do ocidente não se concretizaram, como escreve Martin Jacques:
“Houve um consenso tácito de que, se tratássemos a China com gentileza, como potencialmente ‘um de nós’, Pequim retribuiria o agrado. Efeito desse consenso é que praticamente não houve discussão real sobre como seria um mundo em que a China seria potência dominante.

De um lado, os que creem que a china governará o mundo, mas só se adotar ‘nosso’ jeito ocidental de fazer as coisas; de outro, os que dizem que a modernização de Pequim acabará por fracassar, porque a ‘chinesidade’ [ing. ‘Chinese-ness’] atrapalhará. Mas as duas escolas construíram conclusão idêntica. ‘Nós’ não precisamos nos preocupar. Forte ou fraca, a China não desafiará nosso modo de vida.

Persiste a ideia ainda muito disseminada no Ocidente, segundo a qual a China acabará por se adaptar, por processo de desenvolvimento natural e inevitável, ao paradigma ocidental. Isso é pensamento desejante delirante. Ao se concentrar em algumas semelhanças, em vez de reconhecer a diferença, o mundo ‘ocidental’ apaga tudo… que faz a China ser o que é.

Ouch! E agora que a UE reconhece que apagou muita coisa… instala-se a esquizofrenia (como escreveu politico.eu highlights):

“BILATERALISMO DURO DE MATAR: A 3ª-feira trouxe imagem sem precedentes: Macron, Merkel e Juncker nos degraus do Eliseu, dando boas-vindas ao presidente Xi Jinping da China ao seu miniencontro quadripartite sobre multilateralismo. A imagem certamente disparou a mensagem que o Eliseu desejava: a China tem de negociar com uma frente europeia unida, não pela via bilateral que os chineses preferem, quando o equilíbrio de poder funciona a favor de Pequim.

Macron é conhecido como apreciador de simbolismos, sim, mas será esse o único simbolismo aí? Ao cabo da reunião, apareceu uma declaração conjunta bilateral França-China. Sete páginas cobertas de referências aos “dois países”; sequer uma menção, que fosse, nem à Alemanha nem à Comissão Europeia”.
Claro, é bem verdade que a UE está sob pressão severa dos EUA. E, como e ex-embaixador dos EUA à China, Chas Freeman, observou:


“Do ponto de vista dos EUA, a objeção contra a Itália expor-se à China não passa de mais um episódio da histeria sobre China 
que acomete Washington. Os EUA estão tratando a Iniciativa Cinturão & Estrada como se fosse ameaça militar estratégica. Os europeus tratam a questão como questão econômica na qual têm de agir com cautela (…)

“Os europeus trabalham para dar conta da evidência de que a China é hoje uma grande potência global, economicamente (…) Para os europeus o debate tem menos a ver com Cinturão & Estrada, e mais com os termos do investimento chinês e a concorrência na área tecnológica. Nos EUA não há debate. Hoje há, muito mais, um consenso anti-China.”
O pêndulo norte-americano moveu-se de um extremo (China governará o mundo, mas só se adotar ‘nosso’ jeito ocidental de fazer as coisas), para a outra narrativa: a ‘histeria’ dos EUA sobre a ameaça real, pela qual até agora o Ocidente tem sido o único culpado: excluir tudo que faz a China ser o que é.

E assim estamos vendo em operação a problemática dos EUA – com seu próprio modelo econômico, muito particular – a insistir que a China modifique o modelo econômico chinês (precisamente ele, aquele ‘algo’ que faz a China ser o que é! EUA querem que a China modifique o próprio modelo econômico chinês… para que as empresas norte-americanas possam fazer negócios dentro da economia chinesa… como se os EUA estivessem fazendo negócios em casa, com outras empresas norte-americanas.

Impossível não ver as contradições. Não há conjunto de ‘regras’ (modelos econômicos) ‘tamanho único’. As regras globais foram construídas em torno de um paradigma norte-americano – mas modelos econômicos mudam, onde haja paradigmas diferentes.

Assim sendo, o que significa tudo isso? É bem claro: para os estados do Oriente Médio, a mudança para a esfera russa – e chinesa – oferece real possibilidade de interagir com uma ‘máquina’ política e diplomática que funciona – e ainda tem seus fios e cabos conectados com as realidades daquela região. Também abre a oportunidade para comprar armamento sofisticado para a própria defesa; e sem falar do ‘bônus’ de conseguir acesso a investimentos em infraestrutura e a corredores comerciais, como parte da iniciativa conjunta russo-chinesa “Iniciativa Cinturão & Estrada”, ICE.

Para a Itália – cuja economia está fossilizada, conservada em âmbar – é devolver ao Estado algum tipo de autonomia sobre a própria economia – como um toque de soberania. Mas a Itália já sofreu suficientes ocupações por forças estrangeiras ao longo dos séculos, para não temer que, de algum modo, sua ‘italianidade’ venha a se perder ao aceitar investimento chinês em infraestrutura. Ao mesmo tempo, há aquele ‘caso de amor’ que liga a China a tudo que seja ‘made in Italy’.

‘Significa’, em resumo, que enquanto Washington grita e esperneia, a China vai calmamente desbastando as resistências globais. Só temos de nos adaptar à ‘outridade’ [melhor q ‘alteridade’; ing. ‘otherness] da China e àquele jeito de fazer negócios. Qual é o problema (exceto se os senhores Navarro, Lighthizer e Pence inventarem algum)?

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