Como EUA organizam campanhas ‘jornalísticas’ – à moda Trump [e Bolsonaro] – contra Rússia, China… 


5/10/2018, Moon of Alabama [Com atualização para o caso do Brasil]

Tradução da Vila Mandinga

Ontem, vários países divulgaram uma mesma campanha de propaganda, igual em todos os países, contra a Rússia. O contexto foi uma reunião de cúpula da OTAN na qual os EUA pressionam para que a ciberguerra contra o inimigo preferido da OTAN seja intensificada.

No mesmo dia, outra campanha coordenada foi disparada contra a China. O alvo a ser atacado, nesse caso, é a fabricação de chips para computador que os chineses estão promovendo a escala superior. Também relacionada, é a pressão que os EUA fazem sobre Taiwan, para que rompa relações com sua grande mãe-pátria.

A campanha anti-Rússia tem a ver com suposta espionagem, com atos de hacking e operações de propaganda. Grã-Bretanha e Holanda saíram na frente. A Grã-Bretanha acusou o serviço de inteligência militar da Rússia (ru. GRU) de tentar espionar a Organização para a Proibição de Armas Químicas, Opaq [ing. Organisation for the Prohibition of Chemical Weapons (OPCW)] em Haia e na Suíça, de tentar espionar o Ministério de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, de influenciar campanhas relacionadas a eleições na Europa e nos EUA e de hacking contra a agência internacional anti-doping WADA. A mídia-empresa britânica ajudou com muito prazer a injetar drama e a exagerar nas ‘acusações’:

Foreign Office atribuiu seis específicos ataques a hackers apoiados pelos espiões russos do GRU e identificou 12 nomes codificados de grupos de hackers como fachadas para os espiões do GRU russo – Fancy Bear [Ursinho de Brinquedo], Voodoo Bear [Urso Vudu], APT28, Sofacy, Pawnstorm, Sednit, CyberCaliphate, Cyber Berku, BlackEnergy Actors, STRONTIUM, Tsar Team e Sandworm” [sobre todos esses, há farto material na Internet… (NTs)]

Os “nomes codificados de grupos de hackers” que o Guardian tenta vender aos seus leitores-consumidores não são “grupos de hackers: referem-se a alguns métodos para ciberataques. Conhecendo o método, qualquer grupo ou indivíduo competente pode usá-lo. É praticamente impossível determinar algum ‘autor’ nesse tipo de ataque. Além disso, Fancybear, ATP28, Pawn Storm, Sofacy Group, Sednit e Strontium são apenas nomes diferentes para um único e sempre o mesmo método bem conhecido doshackers. Os outros nomes listados referem-se a velhos grupos e ferramentas relacionados a hackerscriminosos. Blackenergy é usado em cibercrimes desde 2007. Há quem diga que um grupo autodenominado Sandworm, pró-Rússia, teria usado o programa na Ucrânia, mas não há prova, nem sinal em que se possa começar a confiar. Lançar todos esses nomes em lista, sem qualquer diferença, fede à campanha FUD (ing. Fear-Uncertainty-Doubt [Medo-Incerteza-Dúvida]), construída para desinformar e meter medo nos cidadãos de bem.

A Holanda, por sua vez, distribuiu um tsunami de informações sobre supostas tentativas de espionagem contra a OPCW em Haia. A ‘notícia’ é que quatro agentes do GRU russo teriam viajado a Haia com passaportes diplomáticos russos, para farejar a rede WiFi da OPCW. (Redes de WiFi são conhecidas por serem muito fáceis de invadir e hackear. Se a OPCW ainda usa esse tipo de rede, é sinal de que ninguém por lá entende das questões relevantes de segurança.) Os funcionários russos teriam agido sob o mais total sigilo, a ponto de fazerem, eles mesmos, a limpeza dos quartos de hotel e do próprio lixo… embora estranhamente carregassem laptops cheios de dados privados, inclusive recibos de táxi, graças aos quais se soube que saíram diretamente de um quartel-general do GRU russo, em Moscou, para o aeroporto. Exatamente como na saga Skripal/Novichok, os ‘espiões russos’ são mais uma vez mostrados como, simultaneamente, supervilões perigosíssimos e os mais completos amadores idiotas. Espiões de verdade não são nem uma coisa nem outra.

O Departamento de Justiça também contribuiu para o massacre midiático, e emitiu novas acusações (pdf) contra os tais supostos agentes do GRU russo que só muito duvidosamente poderiam ter qualquer relação com supostos ataques de hacking. Dado que nenhum desses russos jamais comparecerá diante de tribunal nos EUA, ninguém jamais saberá se tantas e tão vagas acusações têm qualquer traço de verdade.

A campanha anti-Rússia apareceu bem a tempo para a reunião, ontem, dos ministros da Defesa dos países da OTAN, na qual os EUA ‘ofereceram-se’ para usar suas mais maliciosas ciberferramentas, camufladas sob a bandeira da OTAN:

Katie Wheelbarger, principal vice-assistente da Secretaria da Defesa para assuntos de segurança internacional, disse que os EUA estão empenhados em promover ciberoperações ofensivas e defensivas a serviço de seus aliados na OTAN, mas que os EUA manterão controle sobre o próprio pessoal e suas próprias capacidades.


Se os europeus da OTAN, pressionados pelo massacre propagandístico, aceitarem tal coisa, o resultado óbvio será que os EUA terão ainda maior controle sobre as redes e os próprios cidadãos dos países seus aliados na OTAN
 além de, evidentemente, poderem produzir mais ameaças contra a Rússia:

O comando da OTAN prometeu na 5ª-feira fortalecer as defesas da aliança contra ataques a redes de computadores que a Grã-Bretanha garante que são comandados pela inteligência militar russa, ao mesmo tempo em que ordenou que a Rússia ponha fim ao seu comportamento “irresponsável”.

As acusações contra a Rússia, que teria cometido atos super malignos de espionagem e infiltrado agentes seus em campanhas eleitorais são muito hipócritas.

É bem conhecida a escala descomunal da espionagem praticada por EUA e Grã-Bretanha, que Edward Snowden revelou, e que também veio a público no vazamento do “Vault 7” das ferramentas de hackingusadas pela CIA, que Wikileaks revelou. O Pentágono organiza, comanda e executa campanhas gigantes de manipulação pelas mídias sociais [no Brasil do golpe, as campanhas gigantes de manipulação da opinião pública operam PELOS VEÍCULOS COMERCIAIS DA IMPRENSA TRADICIONAL (NTs)]. OGHCQ das ‘comunicações’ britânicas hackeou a maior rede belga de telecomunicações para roubar dados das muitas organizações internacionais que operam em Bruxelas.

Organizações internacionais como a Organização para a Proibição de Armas Químicas, Opaq [ing.Organisation for the Prohibition of Chemical Weapons (OPCW)] estão há muito tempo no alvo de espiões norte-americanos e de suas operações. O Serviço de Segurança Nacional (da Agência de Segurança Nacional) dos EUA hackeou regularmente a OPCW desde, no mínimo, setembro de 2000:

Segundo vazou de Shadow Brokers semana passada, a Agência de Segurança Nacional violou um servidor DNS da Organização para a Proibição de Armas Químicas [ing. Organisation for the Prohibition of Chemical Weapons (OPCW)], que tem sede em Haia, em setembro de 2000, dois anos depois da Lei de Libertação do Iraque e da Operação Raposa do Deserto, mas antes da eleição de Bush.

Foram os EUA quem, em 2002 forçaram a demissão do diretor-geral da OPCW, o brasileiro José M. Bustani [também aqui] porque não aceitou deixar-se usar para propagandear a existência de armas químicas imaginárias no Iraque:

José M. Bustani, diplomata brasileiro, reeleito por unanimidade como diretor-geral a da Organização para Proibição de Armas Químicas, Opaq, que congrega 145 países, foi afastado do posto, hoje – por causa de seu “estilo de administrar” –, depois de repetidas vezes ter-se recusado a pedir demissão como os EUA exigiam. Nenhum substituto foi indicado.

Os EUA chantagearam a Assembleia para que votasse pelo afastamento de Bustani, ameaçando retirar-se da Opaq. Pouco antes, John Bolton – hoje Conselheiro de Segurança Nacional de Trump – ameaçara atacar os filhos de José Bustani, como chantagem para fazê-lo renunciar:

“Recebi um telefonema de John Bolton – foi a primeira vez que falei com ele –, que me disse que tinha ordens para me informar que eu tinha de renunciar ao meu posto na Opaq. Perguntei por quê” – Bustani contou à RT. – “Ele disse que [meu] estilo de administrar não agradava a Washington.”

Bustani respondeu que “nada devo aos EUA”, lembrando ao interlocutor que fora eleito pela assembleia de todos os estados-membros da Opaq. Em tom mais sinistro, Bolton disse: “OK, então haverá retaliação. Prepare-se para aceitar as consequências. Sabemos onde estão seus filhos.”

Segundo Bustani, dois de seus filhos estavam naquele momento em New York, e a filha estava em Londres.

O governo da Rússia precisará de décadas de muito trabalho para alcançar a escala galáctica de hipocrisia, hacking e mentiras na qual EUA e Grã-Bretanha operam.

O tsunami de propaganda contra a Rússia apareceu no mesmo dia em que era lançada campanha similar contra a China. Matéria que estivera em preparação por mais de um ano apareceu em Bloomberg, cuidadosamente cronometrada. ‘Noticiava’ que empresas chinesas teriam manipulado o hardware que fabricavam para a empresa SuperMicro, dos EUA. O mesmo hardware era vendido então também para Apple, Amazon e outras, para seus negócios com servidor de nuvem.

Big Hack: Como a China Usou um Microchip para Invadir Empresas nos EUA:

Instalado na placa-mãe dos servidores, equipes de testes descobriram um microchip, não maior que um grão de arroz, que não estava previsto no design original da placa-mãe.

Apple e Amazon desmentiram imediatamente a ‘notícia’, em termos muito incisivos.

A ‘notícia’ de Bloomberg tem problemas sérios. Para começar, baseia-se integralmente em fontes anônimas, a maioria delas funcionários do governo dos EUA:

Os desmentidos das empresas opõem-se ao que dizem seis altos funcionários da segurança nacional, ativos e não ativos, os quais – em conversas que começaram ainda no governo Obama e prosseguiram no governo Trump – explicaram em detalhes a descoberta dos chips e a investigação ordenada pelo governo.

O modo como os ‘funcionários’ descrevem a ‘logística’ dessa suposta ‘manipulação’ é teoricamente possívelmas não é plausível. Pelo que sei, como me explicaram, seriam necessárias várias manipulações, não só um chip quase microscópico, para conseguir os resultados descritos. Nem a direita-cyber está convencida da veracidade da história. Especialmente estranho é que as mesmas placas-mãe continuem até hoje em uso em operações importantes de segurança do governo dos EUA:

Assumindo que a matéria de Bloomberg esteja correta, implica que a comunidade de inteligência dos EUA durante um período que cobre dois governos, conhecia uma ameaça vinda de fora, e permitiu que a ameaça contaminasse as forças armadas dos EUA. Só se a história é falsa, ou incorreta nos detalhes técnicos relevantes – só nesse caso –, sim, faz sentido que o equipamento de Supermicro continue em uso pelos militares norte-americanos.

Pode haver motivos financeiros por trás da história:

Jornalistas de Bloomberg recebem bônus baseados indiretamente em o quanto conseguem afetar o mercado com o que ‘noticiam’. Essa história com certeza afetou o mercado.

Quando a matéria saiu, o preço das ações de SuperMicro desabou, de $21,40 para abaixo de $9,00 por ação. Hoje está em $12,60:

A história pode ser meio para encobrir algum hacking praticado pela Agência Nacional de Segurança que tenha sido detectado acidentalmente. O mais provável é que seja meia verdade super exagerada, inspirada em algum evento antigo, para impedir a indústria ‘ocidental’ de comprar algum item de produtores chineses.

Seria consistente com outros desses movimentos contra China, que, coincidentemente (ou não) aconteceram no mesmo dia em que a matéria apareceu em Bloomberg.

Primeiro, houve o discurso muito agressivo, que o vice-presidente Pence dos EUA pronunciou ontem:

O vice-presidente Mike Pence acusou a China nessa 5ª-feira, de tentar minar o presidente Donald Trump, que está aplicando dura retórica contra o comércio, a economia e as políticas exteriores da China.

Soando o alarme, Pence alertou outras nações para que tomem cuidado ao negociar com os chineses, condenando a “diplomacia da dívida” do país asiático, que lhe permite arrastar para sua órbita países em desenvolvimento.

Pence também alertou os empresários norte-americanos para que se mantenham atentos aos esforços dos chineses para alavancarem o acesso aos seus mercados, para modificar como mais lhes interesse o comportamento corporativo.

Outro movimento, é novo relatório do Pentágono, alertando contra a compra de equipamento chinês, e que foi lançado via Agência Reuters em apoio à campanha:

A China representa “risco significativo e crescente para o suprimento de materiais” vitais para os militares dos EUA, segundo novo relatório orientado pelo Pentágono, que visa a corrigir fraquezas em indústrias norte-americanas cruciais para a segurança nacional.

O relatório, de quase 150 páginas, ao qual a Reuters teve acesso na 5ª-feira, antes do lançamento formal na 6ª-feira, concluiu que há quase 300 vulnerabilidades que podem afetar materiais e componentes críticos essenciais para as forças armadas dos EUA.

“Um dos achados chaves desse relatório é que a China representa risco significativo e crescente para o suprimento de materiais e tecnologias considerados estratégicos e críticos para a segurança nacional dos EUA” – diz o relatório.

A matéria de Bloomberg, o discurso de Pence e o relatório que o Pentágono ‘vazou’ no mesmo dia, parecem pensados para assustar todo mundo, no sentido de que empresas norte-americanas deixem de usar equipamento chinês ou peças de fabricação chinesa que integrem a cadeia de suprimento.

As acusações e ataques contra a cadeia de suprimento de produtos chineses são, é claro, tão hipócritas quanto as mentiras ‘noticiadas’ contra a Rússia. O primeiro caso conhecido de manipulação da cadeia de suprimento de itens para computadores data de 1982:

Uma operação da CIA para sabotar a indústria soviética, induzindo Moscou a roubar software defeituoso, alcançou sucesso espetacular, como se soube ontem, quando o equipamento provocou enorme explosão num gasoduto na Sibéria.

Mr. Reed escreve que o software “estava programado para reconfigurar a velocidade do bombeamento e as definições de operação da válvula, de modo a produzir pressões muito superiores às que as juntas e rebites do gasoduto poderiam suportar”.

Wikileaks lista 27 casos de manipulação, pelos EUA, de itens da cadeia de suprimentos para hardware e programas de computadores. Quem pesquisar por “supply chain” [ing.] nos arquivos Snowdenencontrará 18 documentos que descrevem tais ‘projetos’.

O governo dos EUA sob Trump – e com John Bolton em posição de mando – copiou o estilo brutal de campanha de Trump, e o usa como ferramenta de sua política exterior. A vitória de Trump nas eleições de 2016 prova que esse tipo de campanha é altamente bem-sucedida, mesmo quando os elementos sobre os quais a campanha é construída sejam duvidosos ou absolutamente falsos. Na escala e na coordenação, as campanhas de propaganda hoje em curso são comparáveis ao que se aplicou aos EUA na preparação, em 2002, para o ataque ao Iraque.

Significa que, como durante a campanha eleitoral de Trump e como se confirma hoje, os veículos de imprensa e de todas as mídias de comunicação têm papel crucialmente decisivo  no efeito que essas campanhas tenham sobre a opinião pública.

Será que esses mesmos veículos e todas as mídias comerciais desmascararão a verdade sobre as mentiras de que são construídas todas as campanhas de ‘seduzir’ a opinião pública? Será que esses mesmos veículos e todas as mídias comerciais saberão expor o trabalho desses agentes, no contexto mais amplo da espionagem e da manipulação que os EUA obram sem parar? Será que esses mesmos veículos explicarão aos eleitores e a todos os cidadãos o real objetivo desse tipo de ‘noticiário’?

Não aposto um tostão nessa possibilidade. *******

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