Pepe Escobar: “De volta ao (Grande) Jogo: A vingança das potências terrestres da Eurásia”


30/8/2018, Pepe Escobar, Consortium News vol. 24, n. 242
Preparem-se para uma grande sacudida no tabuleiro de xadrez geopolítico: doravante, cada borboleta que bater as asas e deflagrar um tornado conecta-se diretamente à batalha entre a integração da Eurásia e as sanções usadas como política exterior do ocidente.

É a mudança de paradigma trazida pelas Novas Rotas da Seda da China versus É-do-nosso-jeito-ou-é-pé-na-bunda à moda dos EUA. Vivíamos sob a ilusão de que a história acabara. Como se chegou a isso?

Pule a bordo, para uma essencial viagem no tempo. Durante séculos a Antiga Rota da Seda, pela qual viajavam nômades, estabeleceu o padrão de concorrência para a conectividade no comércio por terra, uma rede de estradas ligando a Eurásia ao – dominante – mercado chinês.

No início do século 15, baseado no sistema tributário, a China estabelecera uma Rota Marítima da Seda pelo Oceano Índico diretamente às costas da África, puxada pelo lendário almirante Zheng He. Mas não tardou, e a Pequim imperial concluiu que a China era autossuficiente o bastante – e que devia enfatizar as operações por terra.

Privados de conexão comercial por corredor terrestre entre Europa e China, os europeus partiram pelas suas próprias rotas marítimas da seda. Todos conhecemos o resultado espetacular da empreitada: por meio milênio o ocidente dominou o mundo.

Até que recentemente os últimos capítulos desse Admirável Mundo Novo foram conceptualizados pelo trio Mahan, Mackinder e Spykman trio.

A Terra Central ou o Coração Continental do Mundo
The Heartland of the World

A Teoria da Terra Central, de 1904, de Halford Mackinder – produto do Novo Grande Jogo de Rússia-Grã Bretanha imperiais – codificou o medo supremo, primeiro anglo, depois anglo-norte-americano, de que emergisse uma nova potência terrestre capaz de reconectar toda a Eurásia, em detrimento das potências marítimas.

A Teoria do Rimland [“das bordas marítimas”] de Nicholas Spykman, de 1942, pregava que as potências com mobilidade marítima, como Grã-Bretanha e EUA, deviam buscar o equilíbrio estratégico pelas águas. A chave para isso seria controlar as bordas marítimas da Eurásia – a saber Europa Ocidental, Oriente Médio e Ásia Oriental — contra qualquer possível unificador da Eurásia. Sem precisar manter um grande exército sobre terra eurasiana, você exerce o controle dominando as rotas comerciais em toda a periferia eurasiana.

Já antes de Mackinder e Spykman, o almirante da Marinha dos EUA Alfred Thayer Mahan aparecera, nos anos 1890s com seu Influence of Sea Power Upon History [Influência do Poder Marítimo na História] – segundo o qual a “ilha” EUA devia se autoestabelecer como gigante marítimo, à imagem do império britânico, para manter o equilíbrio de poder na Europa e na Ásia.

Tratava-se exclusivamente de conter/controlar as bordas marítimas da Eurásia.

De fato, vivemos num mix de Terra Central e Bordas Marítimas (Rimland). Em 1952, o então secretário de Estado John Foster Dulles adotou o conceito de “corrente/cadeia de ilhas” (então expandido para três correntes/cadeias) ao longo de Japão, Austrália e Filipinas, para cercar e conter ambas, China e URSS no Pacífico. (Observe-se a tentativa que fez o governo Trump, de reviver a ideia via o Quad – EUA, Japão, Austrália e Índia).

George Kennan, o arquiteto da contenção da URSS, vivia embriagado de Spykman, enquanto, em trilha paralela, os redatores de discursos do Presidente Ronald Reagan viviam, ainda em 1988, embriagados de Mackinder. Referindo-se a concorrentes dos EUA como decididos a dominar a massa terrestre eurasiana, Reagan entregou o jogo: “Combatemos duas guerras mundiais para impedir que isso acontecesse”, disse ele.

A integração e a conectividade da Eurásia avança sob muitas formas. As Novas Rotas da Seda, também conhecidas como Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE (ing. Belt and Road Initiative, BRI); a União Econômica Eurasiana, UEE (ing. Eurasia Economic Union, EAEU); o Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura, BAII (ing. Asia Infrastructure Investment Bank, AIIB); o Corredor Norte-Sul de Transporte Internacional, CNSTI (ing. International North-South Transportation Corridor, INSTC), e muitos outros mecanismos estão agora nos conduzindo para outro jogo, completamente novo.

Lindo ver que o próprio conceito de “conectividade” eurasiana saiu, na verdade, de um relatório do Banco Mundial, de 2007, sobre competitividade nas cadeias globais de suprimento.

Também delicioso é constatar o quanto o falecido Zbigniew “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski foi “inspirado” por Mackinder depois da dissolução da URSS – defendendo que a então fraca Rússia fosse dividida em três regiões: uma europeia, uma siberiana e uma área no Extremo Oriente.

Cobertos todos os nodos
Mapa
No auge do momento unipolar, a história parecia “acabada”. As duas periferias – ocidental e oriental – da Eurásia estavam sob férreo controle ocidental – na Alemanha e no Japão, os dois nodos críticos na Europa e no Leste da Ásia. Havia também um nodo extra, na periferia sul da Eurásia, a saber o Oriente Médio, rico em energia.

Washington havia estimulado o desenvolvimento de uma União Europeia multilateral, que poderia eventualmente chegar a rivalizar com os EUA em alguns domínios tecnológicos, mas que, sobretudo, permitiria aos EUA conter a Rússia, à distância, servindo-se de agentes-representantes locais.

A China não passava de base deslocalizada de mão de obra para manufatura de baixo custo, para a expansão do capitalismo ocidental. O Japão não só continuava, para todas as finalidades práticas, ocupado, mas estava instrumentalizado, via o Banco Asiático de Desenvolvimento, BAD (ing. Asian Development Bank, ADB), cujo lema era “só financiamos seus projetos se vocês forem politicamente corretos”.

O objetivo primário, mais uma vez, era impedir qualquer convergência entre potências europeias e leste-asiáticas como rivais dos EUA.

A confluência entre comunismo e Guerra Fria foi essencial para impedir a integração da Eurásia. Washington configurou uma espécie de sistema tributário do bem – tomado emprestado da China Imperial – que visava a garantir unipolaridade perpétua. Foi mantido como tal por um aparato militar, diplomático, econômico e clandestino, com papel de vedete para o Império de Bases que Chalmers Johnson-definiu que cercava, continha e dominava a Eurásia.

Comparem-se esse passado recente idílico e o pior pesadelo de Brzezinski – e de Henry Kissinger – que se pode definir hoje como a “vingança da história”.

O que se vê hoje é a parceria estratégica Rússia-China, de energia ao comércio, interpolando a geoeconomia Rússia-China; o movimento concertado para afastar-se do EUA-dólar; o BAII e o Novo Banco de Desenvolvimento dos (B)RICS* envolvidos no financiamento de infraestrutura; o upgrade no campo da alta tecnologia incorporado no projeto Made in China 2025; o push na direção de um mecanismo alternativo de compensações bancárias (um novo SWIFT); estocagem de reservas massivas em ouro; e o papel político-econômico expandido da Organização de Cooperação de Xangai, OCX [ing. Shanghai Cooperation Organization, SCO).

Como Glenn Diesen formula em seu brilhante livro Russia’s Geo-economic Strategy for a Greater Eurasia, “as fundações de um núcleo eurasiano podem criar força gravitacional que puxe a rimland [“as bordas marítimas”] para o centro.”

Se o processo complexo, multivetorial, de longo prazo da integração da Eurásia puder ser resumido numa única fórmula, será alguma coisa como: o Coração Continental do Mundo vai-se integrando progressivamente; as rimlands [“bordas marítimas”] assoladas em incontáveis campos de batalhas; e o poder do hegemon em processo de dissolução que o faz parar. Mahan, Mackinder e Spykman que o salve? Não basta.

Dividir e Governar, revisitado
O Oráculo ainda fala
O mesmo se aplica ao Oráculo de Delfos pós-moderno, também conhecido como Henry Kissinger, simultaneamente aureolado como santo e amaldiçoado como criminoso de guerra.

Antes da posse de Trump, houve muita discussão em Washington sobre como Kissinger poderia arquitetar – para Trump – um movimento de “pivô para a Rússia” como ele próprio imaginara fazer há 45 anos. Eis como pintei, naquela época, esse teatro de sombras.

No fim, são variações, sempre, de Dividir e Governar – separar a Rússia da China e vice-versa. Em teoria, Kissinger aconselhou Trump a “reequilibrar” na direção da Rússia, para se opor à forte ascensão dos chineses. Não aconteceu, não só porque a parceria estratégica Rússia-China é muito firme, mas também porque, no Departamento de Estado, neoconservadores e imperialistas ‘humanitários’ mobilizaram toda sua gangue para vetar a ideia.

O pensamento de Brzezinski, de Guerra Fria perpétua ainda comanda uma mistura fluida de Doutrina Wolfowitz e Choque de Civilizações. A Doutrina Wolfowitz russofóbica – ainda protegida por sigilo total – é a receita que leva a declarar a Rússia ameaça existencial perene top contra os EUA. O Choque, por sua vez, codifica outra variante de Guerra Fria 2.0: Oriente (tipo China) versus Ocidente.

Kissinger está tentando ele próprio algum rebalancing/hedging [reequilibramento/cobertura?], observando que o erro que Ocidente (e OTAN) estão cometendo “é supor que haja algum tipo de evolução histórica que avançará pela Eurásia – e não compreendem que em algum ponto dessa marcha o Ocidente encontrará algo muito diferente de uma entidade Vestfaliana”.

Ambos os estados, a Rússia Eurasianista e a China estado-civilização, já estão, hoje, em modo pós-Vestfália. O redesenho atinge camadas profundas. Inclui um tratado-chave assinado em 2001, apenas poucas semanas depois do 11/9, pelo qual as duas nações renunciam a qualquer demanda ou projeto territorial sobre o território uma da outra. Tem a ver, crucialmente, com o território Primorsky, no Extremo Oriente da Rússia, ao longo do rio Amur, e que foi governado pelos impérios Ming e Qing.

Além disso, Rússia e China comprometem-se a jamais permitir que terceiros usem os respectivos territórios para agredir a soberania, a segurança e a integridade territorial do outro, ou negociar essa questão com terceiros.

Tiveram de desistir de pôr a Rússia contra a China. Em vez disso, passaram a desenvolver, sete dias por semanas, 24 horas/dia, variações de contenção militar e econômica, pelos EUA, contra Rússia, China e Irã – os nodos chaves da integração da Eurásia – num espectro geoestratégico. As variações incluirão também intersecções do Coração Continental do Mundo e Bordas Marítimas na Síria, Ucrânia, Afeganistão e Mar do Sul da China. A coisa avançará paralelamente à ação do Fed, de manejar o EUA-dólar como arma, o quanto queira.

Heráclito Desafia Voltaire

Alastair Crooke oferece reflexão de longo alcance, na qual desconstrói algumas das razões pelas quais o modo como os russos conceptualizam a Eurásia inspira tamanho pavor às elites ocidentais. Aconteceria assim porque aquelas elites “‘farejam’ uma invisível reversão aos antigos valores, a valores pré-socráticos: para os antigos (…) nem a noção de ‘homem’ existia. Só havia homens: gregos, romanos, bárbaros, sírios e assim por diante. Nessa ideia há oposição óbvia a um ‘homem’ universal, cosmopolita.”

Trata-se de Heráclito versus Voltaire – até o “humanismo” como o recebemos do Iluminismo está de fato acabado. Onde seja deixada solta, nossa selva de espelhos depende do vaivém irascível dos humores da Deusa do Mercado. Não surpreende que um dos efeitos da progressiva integração da Eurásia será um golpe mortal não só contra Bretton Woods, mas também contra o neoliberalismo “democrático.”

O que temos agora é também versão remasterizada de poder do mar versus poder da terra. Russofobia incansável equivale a medo insuperável de uma reaproximação Rússia-Alemanha – como desejava Bismarck, e em direção à qual Putin e Merkel sinalizaram recentemente. Pesadelo supremo para os EUA é, mesmo, que se construa parceria verdadeiramente eurasiana, Pequim-Berlin-Moscou.

A Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) ainda nem começou; segundo o cronograma oficial de Pequim, estamos na fase de planejamento. A implantação começa ano que vem. O horizonte é 2039.

Trata-se da China jogando uma partida de GO cheio de esteroides, à distância, operando para tomar as melhores decisões estratégicas, e cada vez melhores (sempre com margens para erros, é claro) para deixar o oponente tão impotente que ele nem perceberá que está sob ataque.

As Novas Rotas da Seda foram lançadas por Xi Jinping há cinco anos, em Astana (o Cinturão Econômico da Rota da Seda) e em Jakarta (a Rota da Seda Marítima). Washington precisou de meia década para encontrar alguma resposta. E quando a resposta veio, não passava de uma avalanche de sanções e tarifas. Não basta. Precisam melhorar.

A Rússia por sua vez foi forçada a anunciar um show hipnotizante de armamentos para dissuadir os proverbiais aventureiros do Partido da Guerra, provavelmente sem guerra – ao mesmo tempo em que exibe a Rússia no papel de co-cabeça de um jogo completamente novo.

Em níveis superpostos de espiral crescente, a parceria Rússia-China não para; exemplos recentes incluem as reuniões de cúpula em Cingapura, Astana e São Petersburgo; a reunião de cúpula da OCX em Qingdao; e a cúpula dos (B)RICS Plus.

Com a península europeia da Ásia plenamente integrada antes de meados desse século – via ferrovias de alta velocidade, fibras óticas, oleogasodutos – no coração massivo, crescente, da Eurásia, é fim de jogo. Não é de estranhar que as elites do Excepcionalistão já comecem a sentir uma corda de seda muito finamente desenhada que lhes aperta o pescoço elegante.

Anúncios
Publicado em Relações Internacionais por Luiz Albuquerque. Marque Link Permanente.

Sobre Luiz Albuquerque

O Núcleo de Estudos sobre Cooperação e Conflitos Internacionais (NECCINT) da Universidade Federal de Ouro Preto , sob a coordenação do professor Luiz Albuquerque, criou o Observatório de Relações Internacionais para servir como banco de dados e plataforma de pesquisas sobre relações internacionais e direito internacional . O site alimenta nosso trabalho de análise de conjunturas, instrumentaliza nossas pesquisas acadêmicas e disponibiliza material para capacitação profissional. Mas, além de nos servir como ferramenta de trabalho, este site também contribui para a democratização da informação e a promoção do debate acadêmico via internet.

Comente esta notícia!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s