O golpe como elemento da Guerra Híbrida


Elements-of-hybrid-war

Por José Álvaro de Lima Cardoso, no site Outras Palavras:

quarta-feira, 28 de março de 2018
Circula um vídeo na internet que reforça o que já se sabia há alguns anos: estruturas do governo dos Estados Unidos auxiliaram os responsáveis pela Lava Jato no fornecimento de informações que comprometeram políticos, funcionários públicos, e executivos de grandes empresas brasileiras. A troca de informações que possibilitou a montagem dos inquéritos foi realizada informalmente, sem a autorização do Ministério da Justiça, como prevê a Lei. Essas informações sobre a parceria entre os procuradores e os órgãos de justiça e informações dos EUA foram reveladas, no vídeo mencionado, por Kenneth Blanco, em julho de 2017, na ocasião vice procurador geral adjunto do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ). O vice procurador ao fazer o comentário, exaltava as supostas vantagens do esquema, por processar os casos de maneira mais rápida e “efetiva”.Esse tipo de relação pode ser considerado por alguns procuradores um método muito eficiente e ágil. Mas, ao que se sabe, é absolutamente ilegal. Cooperação internacional neste nível, entre procuradores brasileiros com Departamento de Justiça, polícia federal, e outros organismos de país estrangeiro, baseados apenas na “confiança”, sem seguir os procedimentos previstos pela legislação, obviamente é uma flagrante ilegalidade, para a qual as estruturas do golpe procuram dar uma aparência de naturalidade.

Como vem denunciando, pelo menos desde 2016, o jornalista brasileiro Pepe Escobar (especialista em análise geopolítica), o Brasil foi vítima da chamada Guerra Híbrida, guerra Não-Convencional, que se vale de instrumentos linguísticos e simbólicos, com metodologia altamente sofisticada. Esse tipo de método utiliza “aliados internos” para perpetração do golpe, no Judiciário, entre as empresas, no Parlamento e outras estruturas do Estado. Essa metodologia de guerra, desenvolvida principalmente pelos EUA, tem como objetivo central garantir os interesses do império e destruir projetos que, de uma forma ou outra, não se coadunem com os seus interesses. Segundo Escobar, os países que compõem o BRICS (Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul) foram os primeiros alvos da Guerra Híbrida, por uma série de razões, principalmente de caráter geopolítico.

A Guerra Híbrida visa assegurar a perpetuação da hegemonia econômica, política e militar dos EUA. Esse tipo de guerra surgiu em 2010, a partir do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais do Exército dos EUA. Diz o manual: “O objetivo dos esforços dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […]. Num futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês) ” (no artigo “O Brasil no epicentro da Guerra Híbrida, Escobar, Outras Palavras, 2016”).

O golpe no Brasil foi por petróleo, claro, porque esta é uma obsessão e uma necessidade dos EUA (e o pré-sal contém recursos que podem alcançar R$ 30 trilhões). Mas também por água, por estatais rentáveis e estratégicas, pela riqueza da Amazônia, pela aproximação do Brasil de Rússia e China, pela fundação do Banco de Desenvolvimento do BRICS, e assim por diante. Um dos elementos decisivos do envolvimento dos EUA no golpe foi a política definida nos BRICS, de substituição gradativa do dólar como moeda de referência nas transações internacionais. A hegemonia mundial dos EUA, que se encontra estremecida, está diretamente relacionada, em boa parte, ao fato de poder emitir dólar à vontade e esta ser a moeda utilizada no grosso do comércio internacional.Outra explicação crucial do envolvimento dos EUA no golpe, como apontou o historiador Moniz Bandeira, é a tentativa de impedir que se crie outra potência no continente americano. Uma potência na América do Sul e ligada comercial e militarmente à China e à Rússia é tudo o que os Estados Unidos não querem. Não por acaso, dentre as dezenas de ações destrutivas dos golpistas, uma das primeiras foi prender o Almirante Othon da Silva, coordenador do projeto nuclear do Brasil, e alvejar o projeto de construção do submarino a propulsão nuclear, fundamental para a guarda e segurança da chamada Amazônia Azul.

Em 2013 o jornalista norte-americano Glenn Greenwald já havia denunciado que o Brasil era o grande alvo das ações de espionagem dos Estados Unidos. Segundo o jornalista, o governo estadunidense espionou inclusive mensagens de e-mails da presidenta Dilma Rousseff e de seus assessores mais próximos, além da Petrobrás. O objetivo da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês), segundo Greenwald, era buscar detalhes da comunicação da presidenta com sua equipe. Segundo o jornalista, naquela ocasião, o Brasil era o principal alvo dos Estados Unidos.

O que está em jogo no golpe é muito mais que petróleo. Os Estados Unidos não têm interesse em um desenvolvimento autônomo e soberano do Brasil, pelo potencial que tem o país de rivalizar com os interesses estratégicos dos EUA na Região. Processos como Unasul e CELAC confrontavam os EUA no hemisfério, e novas instituições, como o Banco do BRICS e o Acordo Contingente de Reservas do BRICS ajudavam a construir alternativas contra hegemônicas ao Banco Mundial e o FMI, instituições sobre as quais os EUA têm um controle quase absoluto.

A ONU prevê que, no ritmo atual, as reservas hídricas do globo reduzirão 40% até 2030, o que poderá provocar uma “guerra pela água” no mundo. Os EUA e a Europa enfrentam grave problema de falta de água, a maioria dos rios dos EUA e do Velho Continente estão contaminados. É neste contexto que tem também que ser entendido o golpe de Estado no Brasil. Tudo indica que um dos interesses do golpe é se apropriar do Aquífero Guarani, maior reserva subterrânea de água doce do mundo. O Aquífero que está localizado na parte sul da América do Sul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) coloca a Região como detentora de 47% das reservas superficiais e subterrâneas de água do mundo. Os EUA sabem que não há nação que consiga manter-se dominante sem água potável em abundância, por isso seu interesse em intensificar o domínio político e militar na região, além do acesso à água existente em abundância no Canadá, garantida por acordos como o do NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre EUA, Canadá e México).

A partir de 2013, quando o golpe intensificou suas articulações para a perpetração do golpe no Brasil, o tabuleiro conjuntural se tornou bastante mais complexo e perigoso. Mas é certo que se quisermos, em algum momento, recuperar a democracia e a condição do Brasil de país soberano, teremos que procurar entender detalhadamente o quadro conjuntural, agir com destemor, e ter muita paciência histórica.

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Uma resposta em “O golpe como elemento da Guerra Híbrida

  1. Quando li o título bonito desse artigo, ‘’O golpe como elemento da guerra-híbrida’’, de imediato despertou a minha curiosidade e resolvi ler para saber do que se trata. Confesso que me surpreendi negativamente. Ao escrever esse artigo, o jornalista José Lima Cardoso nos expõe uma série de argumentações baseadas exclusivamente em um vídeo postado pelo vice procurador do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, em que ele ‘’revela’’ uma ‘’suposta’’ aliança na qual o Governo dos EUA ‘’malvadão’’ impões as suas diretrizes estratégicas de maneira disfarçada aos órgãos do poder Judiciário Brasileiro, ‘’prova’’ essa, bem mais frágil do que as várias provas colidas durante operação lava-jato que ele tanto crítica e usadas como fundamentação consistente na condenação de políticos que cometeram crimes. Num segundo momento, o jornalista faz um monte de ligações sem nexo, ligando o impeachment da presidente Dilma com o interesse dos EUA no aquífero do Guarani e no petróleo do pré-sal, falta tanta coerência lógica nessas ligações, que chega a dar certo tom cômico pro artigo, nos remetendo aquelas teorias da conspiração sobre o homem não ter pisado na lua ou ao recente ‘’hoax’’ sobre o nióbio ser um metal valiosíssimo, e o Brasil o vender a preço de banana, por que é submisso as potências capitalistas ‘’malvadonas’’. É importante lembrar também que foi durante o governo Dilma que a Petrobrás privatizou a exploração dos primeiros campos do pré-sal e quem comprou foram os Chineses. Pesquisando um pouco, não demorei a perceber de onde vinham essas conexões sem nexo feitas pelo jornalista, tudo o que ele escreve é baseado em análises geopolíticas feitas pelo analista independente e charlatão Pepe Escobar, que em suas análises conspiratórias sempre acaba jogando a responsabilidade dos problemas causados pela nossa própria incompetência e corrupção na conta das potências capitalistas impositoras do seu domínio sobre os países em desenvolvimento. O termo guerra hibrida, popularizado pelo analista, é só um nome novo pra guerra fria, que na cabeça dele dura até os dias de hoje. Para ele, todos os conflitos geopolíticos internacionais escondem atrás de seus mantos uma guerra de interesses travada entre capitalistas e socialistas.

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