Trump brinca com a pólvora chinesa  


domingo, 25 de março de 2018

Por Wang Haiqing, colunista da agência de notícias Xinhua, no site Jornalistas Livres:

Em consonância com o apreço cada vez maior dos Estados Unidos pelo unilateralismo, o presidente Donald Trump anunciou seu remédio para as questões comerciais entre China e EUA: um plano para impor até US$ 60 bilhões em tarifas sobre importações de produtos vindos da China e colocar restrições aos investimentos chineses.

As duras medidas de Trump derivam de uma investigação da Secretaria de Comércio dos Estados Unidos, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974, uma ferramenta comercial frequentemente usada por Washington antes do advento da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A lei, que permite ao presidente dos EUA impor unilateralmente barreiras tarifárias, caiu em grande parte em desuso após a fundação da OMC em 1995.

Os EUA tentarem dar lustro a uma lei ultrapassada para a usarem contra um grande parceiro comercial reflete o desrespeito de Washington às regras da OMC, a espinha dorsal do atual sistema global de comércio, e para a qual os Estados Unidos tiveram um papel fundamental na criação.

Isso intensificou a impressão de que os Estados Unidos, na condição de potência hegemônica e de importante criador de regras no sistema global, estão sempre prontos para quebrar as regras que esperam que outros sigam na busca por seus próprios interesses egoístas.

Têm havido muitos exemplos da crescente tendência dos Estados Unidos ao unilateralismo desde que Trump assumiu a presidência.

Os Estados Unidos viraram as costas ao histórico acordo climático de Paris, ameaçaram abandonar o acordo nuclear com o Irã, retirar-se da Organização das Nações Unidas Para a Educação, a Cultura e a Ciência, reduzir maciçamente seu financiamento às Nações Unidas e coagir seus parceiros comerciais a renegociações de pactos como o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), apenas para citar alguns casos.

Ao recorrer ao unilateralismo, Washington renuncia a sua responsabilidade na manutenção do funcionamento de um sistema de comércio global baseado em regras e, ao mesmo tempo, aniquila a perspectiva de um mundo pacífico e mais próspero.

As pesadas tarifas planejadas pelos Estados Unidos sobre as importações chinesas causaram ondas de choque nos mercados de ações pelo mundo e aumentaram o medo generalizado de uma guerra comercial entre as duas maiores economias do planeta.

Dado o volume de comércio entre EUA e China e o fato de que as economias estão mais interconectadas do que nunca, uma guerra comercial no Pacífico causará transtornos em todo o mundo, o que levaria os países a adotar ações comerciais unilaterais em vez de levarem suas disputas à OMC, abalando assim a própria base do sistema global de comércio.

Muito está em jogo caso os Estados Unidos prossigam com sua abordagem truculenta contra a China em relação ao comércio.

Pequim entende essas conquistas vitais e em nenhum momento busca uma guerra comercial com Washington. No entanto, se a administração Trump finalmente decidir lançar uma guerra comercial total contra a China, o país asiático será forçado a revidar.

O presidente Trump certa vez twittou que “as guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar”. Bem, ele talvez queira mudar de ideia quando um conflito de verdade estiver em andamento.

* Link para o texto original:
http://www.xinhuanet.com/english/2018-03/23/c_137060383.htm

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6 respostas em “Trump brinca com a pólvora chinesa  

  1. Os Estados Unidos sempre buscaram impor seus interesses, na condição de potência hegemônica que é, de qualquer maneira, e utiliza dos mais diversos expedientes explicativos para legitimar suas ações. Indo na contramão do que normalmente prega, começou a apresentar tais comportamentos unilaterais, adotando medidas repressivas asseguradoras de seus interesses de maneira autoritária. Em outras ocasiões, os estadunidenses sempre frisaram a importância dos órgãos e acordos internacionais e o respeito a estes(sendo ele mesmo o próprio criador de algumas networks) de modo que uma política de cooperação e de certeza jurídica possam se instalar.
    Mas as desconfianças contra as os verdadeiros interesses dos atores políticos americanos sempre pairaram no ar. Com essas ações unilaterais e o desrespeito às instituições das quais eles mesmos ditam as regras, os Estados Unidos mostra que todo aquele discurso democrático serve para legitimar suas ações, além de submeter as políticas externas de outros países a seu crivo.

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  2. Os Estados Unidos na condição de grande potência mundial sempre tiveram uma política autoritária, individualista e egoísta, não é novidade essa imposição de tarifas à China, visto que desde a chegada de Trump à presidência, têm sido característico do seu governo aquisição de inimizades internacionais, como aconteceu com Irã e Coreia do Norte. É importante considerar a força geoeconômica da China nas relações internacionais e o consequente impacto que tais medidas podem acarretar ao próprio EUA.

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  3. A medida adotada por Trump, de imposição de tarifas sobre importações de produtos vindos da China, é um claro reflexo da política de valorização do unilateralismo adotada por Trump. Percebe-se que a implementação de referidas tarifas vai de encontro às regras da OMC, o que corrobora a ideia de que, os Estados Unidos, na condição de potência hegemônica, estão sempre prontos a descumprirem as regras que eles mesmos ditam, caso estas estejam na contramão de seus interesses. Ressalte-se ainda que essas mesmas regras são as que os EUA esperam que os outros países sigam. No caso em análise, em que as partes são duas potências econômicas, a implementação de tarifas por parte do governo estadunidense pode, inclusive, dar causa a uma guerra comercial, a qual poderá ter repercussão na economia mundial.

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  4. As medidas adotadas pelo Estados Unidos no âmbito Internacional se intensificaram com a chegada de Trump à Presidência.
    Observamos que os aumentos tarifários aos produtos chineses é uma tentativa de barrar o desenvolvimento de um País que ameaça a hegemonia Estadunidense.
    Partindo para o Uniletarismo os EUA renúncia a parte de uma União Global entre as Nações, estas que influenciam a todos.

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  5. As ofensivas de Trump e as retaliações vêm causando desordem em todos os países resultando em instabilidade nos mercados mundiais. Vale lembrar que as duas grandes guerras do século passado foram causadas por razões econômicas. Tanto é que logo após foram criados a ONU, o Banco Mundial, o FMI, o Gatt. Contudo, podemos ver que por mais que sejam gastos esforços para garantir a paz e os direitos humanos, as consequências do capitalismo sempre assombram.

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  6. As ações do chefe de Estado nos EUA refletem uma política isolacionista, típica de eras de instabilidades políticas e econômicas globais como por exemplo no período entre guerras. Ao dificultar e criar insegurança no atual sistema econômico internacional o país, dentro de uma visão liberalista, está privando os povos de criação de riquezas através do comércio, isso já pôde ser sentido por empresas dentro do próprio país em questão. Ao adotar tais medidas contra a China várias empresas americanas que se beneficiam do gigantesco fluxo comercial entre as duas potências econômicas já puderam prever uma grande queda comercial com consequentes prejuízos massivos, inclusive no que diz respeito a investimentos americanos em solo chinês. A mesma medida tomada pela administração americana no Irã, ao abandonar unilateralmente o acordo nuclear já prejudicou a empresa aeroespacial Boeing (referência mundial no setor) em dezenas de bilhões de dólares com relação a investimentos da empresa para a renovação da aviação civil iraniana. Além de estar prejudicando a própria economia doméstica americana, Donald Trump cria nuvens de guerra sobre o mundo, lembrando que a guerra contra o Japão em 1941-1945, por exemplo, foi motivada por sanções de natureza econômica. Já dizia o economista teórico Ludwig von Mises que “a filosofia do protecionismo é uma filosofia de guerra”.

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