A cooperação Sul-Sul rumo aos 40 anos


2018 será um ano importante para o desenvolvimento de parcerias de cooperação Sul-Sul. Será celebrado os 40 anos da Conferência sobre Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento de 1978 (BAPA+40), que contou com a participação de 138 Estados e resultou na adoção do Plano de Ação de Buenos Aires, que visava promover e implementar a cooperação para o desenvolvimento entre países do Sul global. Simbolicamente, trata-se do primeiro esforço coletivo de discussão e desenho de programas e projetos de cooperação técnica entre países em desenvolvimento.

Dois eventos já foram programados com a finalidade de congregar atores para pensarem o futuro das parcerias para o desenvolvimento: o Fórum de Alto Nível sobre Cooperação para o Desenvolvimento, em 2018; e a Segunda Conferência das Nações Unidas sobre Cooperação Sul-Sul, em 2019.

O último evento citado ocorrerá na Argentina, justamente no mesmo lugar onde foi assinado o Plano de Ação de Buenos Aires, em 1978. Ele será um marco para celebrar as conquistas alcançadas até o momento, dentre elas o papel do plano de ação para fortalecer a parceria entre as Nações Unidas e os países em desenvolvimento no contexto da Cooperação Sul-Sul.

Ao longo deste ano (2017), houve encontros multilaterais importantes para a concretização da agenda BAPA+40. O primeiro deles ocorreu entre os dias 6 a 8 de setembro (2017), o simpósio preparatório para o Fórum Argentino de Alto Nível sobre Cooperação para o Desenvolvimento. O acontecimento foi organizado pelo Governo do país e pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (UNDESA). Além de debater a Agenda 2030, o momento serviu também para reflexões acerca dos 40 anos do Plano de Ação de Buenos Aires.

O simpósio contou com a participação de 120 especialistas de diversos países desenvolvidos e em desenvolvimento, desde representantes de Governos nacionais a pessoas que atuam em organismos internacionais, na sociedade civil e no setor privado. Ao longo do evento, foram realizadas atividades como painéis de discussão e oficinas técnicas.

Outro momento marcante foi a Exposição Global sobre Desenvolvimento Sul-Sul (GSSD, sigla em inglês), que ocorreu entre os dias 27 e 30 de novembro, em Antália, na Turquia. O tema deste ano focou no estado da Cooperação Sul-Sul na era de transformações econômicas, sociais e ambientais. Para tanto, foram promovidas discussões sobre formas de facilitar a criação de novas parcerias, tanto bilaterais quanto trilaterais, com vistas a dar concretude as Agendas 2030 por meio de ações “do Sul para o Sul”.

Recebendo a participação de representantes de 120 países, foram também objetivos do GSSD dar visibilidade a práticas e iniciativas relevantes que estão sendo implementadas, assim como canalizar esforços para criação de uma rede de stakeholders*, envolvendo sociedade civil e organizações internacionais.

Para alguns dos países protagonistas nas agendas de cooperação, 2017 também foi um ano cheio de novidades. Um exemplo foi o Brasil, que, neste ano, sua Agência Brasileira de Cooperação (ABC) completou 30 anos de existência. Desde sua criação, em 1987, a ABC atua na coordenação, negociação e supervisão de programas e projetos de cooperação técnica em vias de negociação, ou implementados junto a parceiros nos âmbitos bilateral, regional e multilateral. Já foram executados cerca de 3.000 projetos em 108 países presentes no Sul global (África, América Latina, Ásia e Oceania).

Em artigo publicado na imprensa brasileira, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes, destacou que a ABC foi a primeira agência de cooperação criada por um país em desenvolvimento e que seus projetos e programas de cooperação técnica na África melhoram as condições de vida das populações locais e ainda servem para melhorar a imagem do Brasil no exterior, de modo a ser importante instrumento da política externa brasileira.

Ademais, como forma de encontrar meios para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas e driblar a crise econômico-financeira que o país enfrenta, a ABC se dispôs, por meio do lançamento do manual de “Diretrizes Gerais para a Concepção, Coordenação e Supervisão de iniciativas de Cooperação Técnica Trilateral”, a fornecer orientações gerais que facilitem e fortaleçam a implementação e a gestão de projetos e programas de cooperação técnica desenvolvidos na modalidade Trilateral, que são os programas e projetos desenvolvidos ou pelo Brasil e dois países em desenvolvimento; ou pelo Brasil, um país em desenvolvimento e um desenvolvido; ou pelo Brasil, um país em desenvolvimento e uma organização internacional.

2018 reserva bons momentos de revisão para os próximos passos da cooperação internacional entre países em desenvolvimento. Os 40 anos desde o primeiro grande marco mostram que a proposta amadureceu, ganhou corpo, parceiros e adeptos, que a executam de diversas formas, sejam os chineses, brasileiros e indianos. Trata-se de uma experiência multifacetada, porém respaldada pelo interesse em compartilhar boas práticas e recursos com vistas a consecução de objetivos para o desenvolvimento.

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Nota:

* Stakeholders é um termo empregado pela própria ONU, referindo-se às principais organizações e atores interessados e impactados diretamente pelo trabalho desenvolvido pela Organização.

Fonte: CEIRI Newspaper

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5 respostas em “A cooperação Sul-Sul rumo aos 40 anos

  1. Posto que é razoável pensar que há uma identidade de questões e pontos a serem enfrentados entre os países em desenvolvimento, os encontros e projetos de cooperação se apresentam como fundamentais para o diálogo na busca por soluções. Em outras palavras, a partir da premissa de que os países em desenvolvimento possuem problemas semelhantes, faz-se de grande valia o intercâmbio de informações, programas, e projetos, de cooperação internacional. Pois, em última análise, com um diálogo acurado sucedido de uma prática eficaz, os resultados serão obtidos de modo mais célere e qualitativo.
    Em meio às adversidades políticas e econômicas do Brasil, esta agenda desperta esperança e convicção na transformação. Aliás, à luz das relações internacionais, o reforço da cooperação promove o avançar das nações em conjunto.

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  2. Reconhecer que a cooperação – principalmente a Sul-Sul, que carrega em si o peso de integrar um pensamento dito como de minoria – constitui elemento essencial para a evolução humana, comercial e até mesmo ideológica representa um grande passo na história das relações internacionais. É interessante ressaltar nesse cenário a presença ativa do Brasil, como país emergente e agora em vias de alcançar um diálogo realmente funcional entre países que não costumam ter muito lugar de fala.
    A criação da ABC – Agência Brasileira de Cooperação – em 1937 têm aberto as portas para a criação de várias outras instituições voltadas a cooperação e diálogo com especial atuação do Brasil: o IBAS, em 2003, a UNASUL, em 2004 e o BRICS em 2009, como alguns exemplos. Me sinto na obrigação de trazer essa reflexão em relação ao IBAS, uma vez que foi a instituição escolhida para o meu trabalho em sala, e em relação a UNASUL, que foi a minha instituição correlacionada a última apresentação. Em minha opinião, ambos possuem uma proposta realmente integradora, sendo o IBAS a representação de uma visão compartilhada entre os países-membros de que a democracia e o desenvolvimento se reforçam mutuamente e são determinantes para a paz e a estabilidade sustentáveis, o que fica claro através da realização de reunões entre representantes do gupo à margem de fóruns multilaterais (como Conselho de Direitos Humanos, OMC, Conferência para a Reconstrução da Palestina, entre outros), como um meio de reforçar as posições de interesse mútuo, enquanto a UNASUL seria a resposta não proposta por Meageister de instituição que cumpriria as meias “falsas promesas das instituições internacionais”.

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  3. Realizar eventos que tenham como principal finalidade a unir países em desenvolvimento com objetivo de produzir uma troca de técnicas e cooperação é sem duvidas um passo extremamente importante para as relações não só econômicas como sociais.
    No Brasil cooperação Sul-Sul é vista como prioridade da política externa brasileira.
    Brasil tem feito um forte investimento em recursos e outros programas que são direcionados para países da América Latina, Caribe, África e Ásia, através da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), ligada ao Ministério das Relações Exteriores.
    Devido a esse processo o Brasil foi o primeiro país a ter Cooperação Sul-Sul como parte integrante do Programa de País do UNFPA acordado com o Governo.
    Com o objetivo de encontrar outros meios de alcançar um desenvolvimento sustentável como dito a cima no artigo se da em resolver problemas frutos da crise financeira que o pais passa
    produzir algumas orientações gerais que tem por objetivo otimizar e fortalecer a introdução dos projetos para um melhor desenvolvimento econômico e social.

    Para que objetivo da Cooperação Sul-Sul de ampliar a capacidade das instituições nacionais e implementar iniciativas que promovam o Programa de Ação da Conferência Internacional de População e Desenvolvimento funcione, deve-se usar o fortalecimento das capacidades nacionais para produzir e analisar informações populacionais afim de que contribuir para, planos e programas em nível nacional e internacional;

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  4. A Cooperação Sul-Sul é um mecanismo de desenvolvimento conjunto entre países emergentes em resposta a desafios comuns, dessa forma, acredito que esse mecanismo tratá inúmeros benefícios aos países emergentes no geral, principalmente no que tange às inovações tecnológicas e de desenvolvimento sustentável. Contudo, há que se ponderar pois a busca pelo desenvolvimento sustentável não pode ser um motivo para competição entre nações, mas sim uma efetiva cooperação para se atingir objetivos comuns. É inegável a importância da troca de conhecimentos e experiências entre países que passaram ou estão passando por desafios semelhantes. Inovações e soluções desenvolvidas no Sul podem ser adaptadas em outros países em desenvolvimento de forma muito mais fácil e apropriada do que as projetadas no Norte e para o Norte.

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  5. Este ano, após 40 anos de realização da Conferência de Cooperação Técnica de países em desenvolvimento, é um momento mais que oportuno para se analisar os reflexos dessa. Conforme expresso, percebe-se a realização de outros encontros nesse sentido, que buscam cada vez mais ampliar o espaço de inclusão dos países em desenvolvimento no cenário internacional. São extremamente relevantes essas iniciativas de reuniões, desenvolvimento de programas que promovam o fortalecimento da parceria entre os países em desenvolvimento bem como a relação destes para com as Nações Unidas, dando maior visibilidade aos primeiros, sendo portanto um meio possível de se amenizar as seguidas décadas de exclusão. Todavia, após esses 40 anos é também momento para uma análise crítica, e a percepção de que ainda é realidade a participação de forma minoritária dos países em desenvolvimento no cenário internacional, ante o que devem ser repensadas e aperfeiçoadas as estratégias, sendo positivo uma repaginação e atualização destas de forma a torná-las mais efetivas.

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