Das SmartCities a cidades globais no declínio dos atores internacionais


Smart city

Publicado originalmente em 13/11/17

Milão, Paris, Xangai, Nova York, Hong Kong, Londres, Barcelona, Frankfurt, São Paulo, Zurique são cidades que dispensam apresentações, mesmo que algumas não sejam nem se quer a capital de seus respectivos países. Porém, são cidades cuja influência econômica, cultural, tecnológica e financeira transpassam os limites do território nacional e se projetam pelo globo como entidades com personalidades e dinâmicas próprias.

Algumas dessas cidades respondem por grande parte da economia de suas regiões ou até mesmo do país e podem chegar a concorrer com nações vizinhas em relação a sua influência internacional e ao PIB. Por esse motivo são conhecidas como cidades globais. São centros neurológicos que crescem de forma paralela ou até mesmo diferente do resto da nação.

O surgimento da cidade como ator internacional permitiu uma contínua expansão da influência da mesma no panorama global, levando ao constante desenvolvimento da Paradiplomacia.

Mas a expansão das grandes cidades, seja ela de forma interna desde o período pós-guerra, como externa, pelo efeito da globalização, gerou uma série de desafios que vão desde a ocupação do espaço urbano à mobilidade das pessoas até à distribuição das atividades e dinâmicas econômicas intrínsecas de cada local.

Neste contexto de grandes transformações surgem as chamadas “Cidades Inteligentes” ou, em inglês, SmartCities, centro urbanos cujas distintas dinâmicas são racionalizadas, repensadas e redesenhadas com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável das mesmas, a integração dos diferentes atores e setores que formam a vida social, econômica e cultural, assim como a correta ocupação do espaço urbano e proteção ao meio ambiente.

Embora seja importante ressaltar que não somente as cidades globais são a únicas passíveis de aplicar projetos inteligentes – havendo já pequenos e médios municípios com projetos em operação –, sem dúvidas elas foram as pioneiras do processo e atuam como indutoras dessas mudanças.

Atualmente, existem diferentes rankings que tratam de classificar as cidades inteligentes ao redor do planeta, assim como diversos projetos governamentais que buscam estimular o setor, porém ainda são muitas as dúvidas que suscitam o tema, pois nem todo projeto urbanístico pode ser considerado um processo inteligente e dinâmico, já que este deve ser benéfico não somente para um setor ou dimensão da cidade, mas para sua dinâmica como um todo. De modo que, para entender melhor, é preciso definir em poucas linhas o que é uma cidade inteligente.

Uma Smartcity é um espaço urbano (independentemente do tamanho) onde se aplica um processo de racionalização das dinâmicas inerentes dessa área, promovendo a geração de um espaço inteligente, onde os diferentes elementos que formam a cidade (cidadãos, governo, empresas, serviços, meio ambiente etc.) são integrados mediante a racionalização do próprio espaço, fazendo uso de novas tecnológicas e inovando processos já existentes ou criando novos.

A cidade passa atuar como um organismo onde cada elemento possui uma importância fundamental para o bom funcionamento geral e onde cada dinâmica – seja esta social, econômica ou produtiva – tem sua importância e gera conhecimento. Este “conhecimento” é a essência das SmartCities, é a inteligência que move todo o ciclo, transformando o projeto em algo duradouro. Independentemente da visão ideológica de uma determinada política, a cidade passa a ter seu próprio caráter e seu próprio projeto. 

Existe uma série de componentes presentes nos projetos de Smartcity, entre eles podemos destacar a utilização das telecomunicações e tecnologia da informação, geração e distribuição inteligente de energia, automatização e inovação de processos produtivos, modernização de serviços públicos, integração de setores econômicos, cuidado do meio ambiente e integração social e cidadã.

A cada ano que passa o tema Smartcity ganha importância no cenário acadêmico, econômico e político, muitos são os projetos que se desenvolvem ao longo do globo, porém também são muitos os equívocos. Existem cidades que ainda estão implementando projetos de infraestrutura básica que podem ser considerados apenas como um embrião de uma Smartcity; outras geram espaços isolados (condomínios) que, salvo raras exceções, são incapazes de impactar em toda a dinâmica da cidade. Ainda assim, cada projeto que surge, gera um conhecimento que pode ser transferido, emulado ou adaptado para uma cidade diferente, por isso, todo ano, em Barcelona, durante as últimas semanas de novembro, será organizada a Smartcity Expo World Congress, considerada a maior feira do setor e ponto de encontro para empresas, autoridades, organizações e sociedade civil para discutir o futuro das cidades e sua atuação no mundo.

Com a crescente instabilidade política internacional, decorrentes de mudanças importantes, tais como o isolacionismo proferido pelo atual Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aumento de tensões na Ásia, instabilidade no Oriente Médio e Norte da África, mudanças políticas e instabilidade no processo de integração da União Europeia, novas diretrizes de desenvolvimento da China etc., a ação dos Estados se concentra principalmente na manutenção de sua estrutura e na proteção de seus interesses, dificultando as negociações internacionais.

E, mesmo quando existem tais negociações (como, por exemplo, o avanço das negociações entre Mercosul e União Europeia), a própria composição dos Blocos negociantes dificulta sua concretização e morosidade, tomando conta do processo. Já por outro lado, as negociações e projetos realizados através da cooperação internacional promovidos pela paradiplomacia e aplicados pelas cidades inteligentes são capazes de gerar respostas à realidade dos cidadãos, gerando movimentos internos que acabam por influenciar a própria formulação política de um país. Neste sentido, a mudança dessa forma de atuar vem de baixo para cima e alguns países já conseguem vislumbrar as potencialidades que se ocultam nessas negociações.

A Cidades Inteligentes, lideradas pelas cidades globais e cidades Alphas, estão ganhando maior protagonismo devido a esse declínio dos atores internacionais, sejam os Estados ou as Organizações internacionais – hoje sendo questionadas e algumas como a Unesco e o Tribunal Internacional já com baixas – e também graças às ações das próprias multinacionais que buscam manter suas atividades se movimentando de forma mais rápida que a capacidade de resposta dos próprios Governos.

As SmartCities geram dinâmicas inteligentes que oferecem um entorno mais sustentável tanto para seus cidadãos como para instituições e organizações, gerando uma espécie de porto seguro em um mundo onde é cada vez mais difícil desenvolver uma estratégia global sem ser afetado pelas constantes mudanças geopolíticas. Algumas cidades, tais como Cingapura, Amsterdam, Toronto, entre outras, lideram a atração de investimentos e mobilização de capital para inovação e desenvolvimento, justamente por oferecer um entorno equilibrado para as empresas.

Talvez as palavras “entorno equilibrado” sejam as mais adequadas para quantificar ou avaliar um processo de Smartcity na conjuntura atual. Uma Smartcity não necessariamente deve ser como as cidades Alfas da Europa ou polos de inovação da Ásia, mas, sim, deve oferecer, dentro de suas singularidades, um entorno equilibrado onde se concentram fatores que façam dessa localidade um polo sustentável, competitivo e criativo, em outras palavras, um polo inteligente, mesmo que este seja um grande centro financeiro ou um grande produtor agrícola.

É neste contexto onde o cenário internacional e a própria globalização são questionados que as cidades inteligentes representam uma nova dimensão, muito mais próxima das pessoas e de seus interesses, sem gerar os atritos das pressões geopolíticas. E, neste mês de novembro, o CEIRI NEWSPAPER fará uma série de reportagens sobre o assunto, abordando cada um dos setores: mobilidade, tecnologia da informação, inovação e indústria 4.0, integração de serviços etc.

Fonte: CEIRI Newspaper

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