O setor algodoeiro como novo instrumento de soft power na Cooperação Sul-Sul Brasileira


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Publicado originalmente em 09/11/17

Após a expansão nacional e o alcance internacional de suas boas práticas, a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano ganhou notoriedade na comunidade internacional com o recebimento do Prêmio Sasakawa – concedido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – em 2001, em decorrência do impacto do programa na redução da mortalidade infantil. Além disso, as políticas de combate à fome, segurança alimentar e nutricional e proteção social ganharam enorme visibilidade, principalmente com países Africanos, rendendo inúmeras trocas de experiências com diferentes níveis de profundidade, desde a visita de missões, organização de seminários, compartilhamento de experiências, até a formalização de acordos de cooperação.

Tanto os projetos relacionados aos Bancos de Leite Humano, quanto aqueles relacionados ao desenvolvimento social e combate à fome foram importantes ferramentas de soft power utilizadas pela diplomacia brasileira, seja como política legitimada internacionalmente, seja como conhecimento a ser compartilhado via Cooperação Sul-Sul (CSS).

No entanto, os seguidos cortes orçamentários ao longo dos anos têm minimizado a expansão do soft power brasileiro mediante a propagação de boas práticas na CSS. Exceto, por um setor: o algodoeiro. Em 2016, a iniciativa liderada pelo Governo brasileiro recebeu o primeiro Prêmio S3 Award de Cooperação Sul-Sul para Desenvolvimento Sustentável, organizado pelo escritório regional do Programa das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (RBLAC), com apoio do Escritório de Apoio a Políticas e Programas/Cooperação Sul-Sul, de Nova Iorque.

Como iniciativas, a começar tem-se o Projeto Cotton 4, que envolveu a troca de experiências sobre controle biológico de pragas, manejo integrado do solo e a gestão de variedades de algodão com Benin, Burkina Faso, Chade e Mali. Diante dos resultados alcançados, o projeto recebeu novo apoio, levando à criação do Cotton 4 + Togo, inserindo um novo país ao grupo. Neste projeto, os objetivos repousam sobre o aumento da competitividade da cadeia produtiva do algodão nestes países, na adaptação de tecnologias competitivas para o cultivo do produto em pequenas propriedades e no suporte às instituições parceiras para desenvolver soluções adequadas às suas respectivas realidades.

Em paralelo ao Cotton 4 + Togo, o Governo brasileiro expandiu a troca de experiências no setor algodoeiro em outros três projetos. O primeiro deles, iniciado em 2015, tem sido desenvolvido em Moçambique e no Malauí, em uma parceria da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), com os governos do Malauí e de Moçambique, e o financiamento do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA). Baseado nas experiências do Cotton 4, o projeto Cotton Shire Zambeze contempla a região das Bacias do Baixo Shire e Zambeze e visa a ampliação da capacidade institucional e de recursos humanos nacionais de ambos países africanos.

Na Bacia do Lago Victoria, o projeto Cotton Victoria articula e fortalece a difusão de tecnologias mais avançadas de produção de algodão, em consonância com as devidas realidades e costumes locais. O projeto é desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Lavras (UFLA) e conta com o apoio do IBA em três países da África Oriental, sendo eles, Quênia, Burundi e Tanzânia.

Recentemente, a ABC, o IBA e o Centro de Excelência contra a Fome, do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, assinaram o projeto “Alternativas de escoamento dos subprodutos do algodão e culturas acessórias na África”. Este projeto servirá de complemento às iniciativas citadas anteriormente – Cotton 4 + TogoCotton Victoria e Cotton Shire Zambeze – ao apoiar pequenos produtores de algodão e instituições públicas de países africanos selecionados no escoamento da produção dos seus subprodutos (ex: óleo e torta) e de produtos advindos da produção associada de algodão (ex: milho, sorgo e feijão).

Uma condição necessária, mas não suficiente para explicar a relevância e a difusão de projetos de CSS no setor algodoeiro, reside no apoio financeiro concedido pelo IBA, fruto das atividades previstas no memorando de entendimento entre Brasil e Estados Unidos.  A história começa em setembro de 2002, quando a representação brasileira na OMC solicitou consultas com o Governo dos Estados Unidos, com o objetivo de questionar a legalidade de leis e as regulamentações referentes aos subsídios, créditos, doações e assistências concedidas à indústria americana do algodão.

Apesar da OMC ter concedido ao Brasil o direito de retaliar comercialmente os Estados Unidos, ambas partes chegaram ao seguinte acordo: os norte-americanos pagariam, anualmente, US$ 147,3 milhões ao IBA para gerir os recursos e contribuir para o fortalecimento da cotonicultura brasileira.

Se, por um lado, os projetos de CSS do Brasil em algodão não se restringe àqueles financiados pelo IBA, tais como no projeto +Algodão na Bolívia, por outro lado, deve-se reconhecer que a atual difusão de projetos neste setor tem sido empregada com oportunismo pelo Governo brasileiro, considerando o volume de recursos financeiros do Instituto e as escassas fontes para promover a CSS brasileira a nível regional e global. Após a difusão das redes de Banco de Leite Humano e das políticas de proteção social, parece ter chegado a hora de utilizar o algodão como soft power internacionalmente.

Fonte: CEIRI Newspaper

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3 respostas em “O setor algodoeiro como novo instrumento de soft power na Cooperação Sul-Sul Brasileira

  1. Se o apoio financeiro concedido pelo Instituto Brasileiro de Algodão – como resultado do contencioso do algodão em face dos Estados Unidos – é razão que isolada é insuficiente para explicar a expansão dos projetos de CSS no campo algodoeiro, acredito que um fator adicional seria o próprio fortalecimento de políticas em favor do agronegócio pelo governo federal. De fato, a política externa brasileira, num quadro geral de enfraquecimento após o governo Lula e a saída de Celso Amorim da gestão da pasta, tem sofrido cortes contínuos nas iniciativas de expansão do soft power em relação a cooperação sul-sul. Em que pese a ausência de definição de diretrizes mais claras para a política externa brasileira, o atual governo sinaliza para um maior alinhamento aos países do norte global em detrimento do sul, na contramão do estabelecido durante o governo de Lula e de sua sucessora, presidenta Dilma. Necessário reconhecer, contudo, que a expansão de projetos no setor do algodão por meio da CSS, dá, de certo modo, continuidade as políticas de combate à fome e de segurança alimentar e nutricional por meio do fortalecimento da agricultura sustentável e familiar nos países em desenvolvimento.
    Felipe Sakai

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  2. Muito bom saber que na política externa, o Brasil tem implementado medidas de cooperação no âmbito da assistência técnica e financeira a diversos países em desenvolvimento, em especial da África e da América Latina. O Governo do Brasil, por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC, MRE), a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e os países membros do Mercosul somaram esforços mediante a cooperação Sul-Sul trilateral, para a implementação do projeto de Fortalecimento do Setor Algodoeiro, o qual contribui para alcançar as metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), principalmente de erradicação da pobreza rural e da fome, a promoção da igualdade de gênero e autonomia da mulher agricultora e a garantia da sustentabilidade ambiental. “Soft Power” é um conceito elaborado para definir a capacidade de países influenciarem relações internacionais e intensificarem trocas comerciais. Portanto, o algodão brasileiro está mais que pronto para ser utilizado como Soft Power, assim como a doação de leite humano e a prática de proteção social.

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  3. O crescimento da Cooperação Sul-Sul e investimento em tecnologia sustentável tem se mostrado muito relevante para a integração e desenvolvimento de países emergentes como o Brasil, que apesar da crise econômica, com apoio de outros países e universidades, tem conseguido desenvolver projetos agrícolas que poderão contribuir até para o crescimento de países africanos, aproveitando seu atual nível tecnológico.

    Interessante ainda, que o desenvolvimento dos projetos foi favorecido pela ajuda financeira decorrente de um acordo entre Brasil e EUA após uma disputa no sistema da OMC, em relação a questionamentos de subsídios e medidas desleais dos EUA no setor algodoeiro. Mesmo com a vitória do Brasil no caso, ele buscou uma solução mais diplomática e favorável a ambas as partes.

    Apesar da certa defasagem na política externa brasileira, o país tem conseguido buscar mais projetos de cooperação e integração no plano econômico, possivelmente por ter interesse em integrar alguns blocos relevantes para ganhar mais poder econômico e regulatório.

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