A água brasileira corre para as multinacionais


Postado em 12/08/2017 por Felipe Poli Rodrigues

Postado originalmente em 11/08/2017

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Uma corporação canadense já controla o abastecimento de 17 milhões de brasileiros. Outras estão à espreita numa privatização tramada sem nenhum debate com a sociedade

A história do Brasil, não é novidade, foi forjada por uma sucessão de saques contra as nossas riquezas naturais. A lista é longa: pau-brasil, açúcar, ouro, diamantes, algodão, café, ferro, borracha, nióbio, sal, mogno, petróleo, etc. Como o que está ruim pode piorar, como diria um pessimista empedernido, eis que agora podemos acrescentar a água a esta lista.

Antes já comprovadamente explorada na irrigação e dando base para o que hoje é chamado de “exportação da água virtual” com a venda de frutas e de soja para fora do país (há outros itens, mas estes são os mais relevantes), o controle dos recursos hídricos avança no país por parte das multinacionais. A água nossa de cada dia já gera, há muito tempo, lucro para alguns grupos econômicos estrangeiros vindos de países sem a mesma abundância em mananciais como tem Brasil. Há razões para essas empresas se instalarem aqui no nosso país. Basta afirmar que para produzir 1 quilo de banana são gastos 790 litros de água, segundo o site da Waterfootprint [1] (organização que mede o gasto de água para produzir alguns alimentos e produtos). No caso da soja, para produzir 1 quilo desta leguminosa são necessários 1.500 litros de água. Adivinhe o nome do país que se tornou o maior produtor de soja no mundo.

Sobre a apropriação da água para a fruticultura irrigada, pergunte aos moradores do entorno do Canal da Integração construído pelo então governador do Ceará, Ciro Gomes, o que eles acham da presença das grandes empresas de fruticultura na Chapada do Apodi cearense e o acesso que eles tem sobre aquela água. É que por lá a água tem dono, e não são os moradores locais. Experimente ter que amarrar a si próprio em uma estaca para descer em um canal e conseguir uma lata de água durante a madrugada correndo o risco de ser pego por seguranças e ainda ser acusado de roubo. Nem todos são convidados para o banquete do progresso da agricultura em grande escala e mecanizada do Apodi.

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Quero tratar também de outra forma de comercializar/mercantilizar/privatizar a água. É sobre o que vem acontecendo com a administração das distribuidoras de água do nosso país. Desde a Era Collor de Mello, aprofundando-se no “reinado” de Fernando Henrique Cardoso e nos governos petistas, a posse deste serviço pelos estados e municípios vem sendo lentamente desconstruída e repassada para empresas privadas. Não tenho nada contra as empresas privadas, mas água é importante demais para ficar sobre o controle de algumas empresas. Privatizar pode significar privar as pessoas do acesso a um bem natural em muitos casos. Se você não pode pagar a conta da água, você será privado do acesso a ela nas torneiras da sua casa. Empresas privadas precisam pagar funcionários, impostos e ter lucro. E quanto mais lucro melhor para garantir a sobrevivência no mundo cruel dos negócios. É a natureza delas. Goste-se ou não, é assim que funciona. Se você pensa que é diferente, pergunte aos bolivianos sobre a relação nada amigável entre eles e a empresa estadunidense Bechtel que administrou a distribuição da água por lá e causou tamanho revolta com o aumento das tarifas impagáveis pelos mais pobres e o consequente corte da água para as suas casas. Não por acaso, aconteceu a chamada Guerra da Água causando a morte de mais de setenta pessoas nas ruas de Cochabamba no ano 2000. Pode também perguntar aos franceses por que as empresas distribuidoras de água na França, que por décadas foram administras por empresas privadas, passaram a ser reestatizadas em vários municípios de lá, incluindo Paris. No entanto, o Brasil segue o caminho da privatização da água já fracassado em outros países. Por que será?

A linguagem não é neutra. Mas o que há entre a não neutralidade da linguagem e a privatização da água no Brasil? Simples: ela é utilizada a favor da justificativa do repasse das nossas águas para as mãos de multinacionais. Você lerá/verá/escutará cada vez mais que a água é um bem econômico e assim deve ser tratada. Interessante é que nunca se afirma que por isso mesmo ela deva ser administrada pelo Estado e gerar mais dividendos para melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes. Outro artifício linguístico é falar em concessão do saneamento básico. Concessão é com-ceder, ceder o que se tem para outrem. No Brasil o governo diz conceder para passar a ideia de que a estatal continuará a pertencer ao governo, mesmo que ela passe a ser administrada por uma empresa privada tirando todo o poder governamental sobre a mesma. Tenta-se fantasiar o boi de cavalo. Será difícil retomá-la para o âmbito governamental em um país onde o mundo privado já domina os governos. Com relação a palavra saneamento, o primeiro lampejo mental para a população em geral é lembrar de esgoto. Quem não quer melhorar a situação do acesso e tratamento dos esgotos brasileiros. Você acredita que as empresas privadas vão sair por aí cavando asfalto para promover o aceso aos esgotos nas nossas favelas? Sejamos sinceros, onde já tem será mantido, onde não tem, não terá por iniciativa delas.

Um outro elemento linguístico utilizado para ajudar a convencer a todos da boa natureza da privatização da água é o discurso da escassez para amedrontar a população. Esta é outra estratégia que vem dando certo. Não que a escassez não exista. Ela é real e mortífera em várias partes do globo. Mas onde não é realidade ou não tão impactante, a escassez tem sido amplificada por parte da mídia. “Ficaremos sem água”, “a água está acabando,” “é preciso economizar água,” “Não desperdice água,” “o desperdício é causado porque a água é gratuita,” etc. Não há no mesmo discurso o chamamento da atenção para o fato de que 70% da água doce no planeta são gastos com irrigação e menos de 10% em uso doméstico. O discurso é tão eficaz, que existem crianças policiando o banho dos pais. Não que não devamos economizar água, longe disso. O problema é culpar o usuário comum quando ele não é o grande vilão da história.

Outro bom exemplo da linguagem a serviço da manipulação é a forma como o atual governo e as mídias encontraram para retratar as negociações para as privatizações das estatais da água. Primeiro era por meio da Parceria Público Privada – PPP. Então surgiu agora o Programa de Parceria de Investimento – PPI. Tudo falácia. No final é o dinheiro público financiando a compra das empresas públicas por empresas privadas e ainda com garantia de lucros nos contratos. Sem essa garantia, os grupos econômicos não consideram a amizade com o governo tão sincera.

O bom e velho BNDES foi acionado pelo governo da vez para ajudar a “democratizar o saneamento” com o PPI. Bondade não tem limite para este Banco de Desenvolvimento. E seus atos bondosos incluem a pressão para que os estados concedam a administração das suas distribuidoras de água para a privatização, digo, concessão (mas é privatização, mesmo). A fila vai começar com a CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro. O BNDES está financiando grupos econômicos que queiram entrar no negócio da água e 18 estados estão na fila para entregar o leite a um bebê faminto.

Mas se engana quem pensa que as multinacionais da água ainda vão chegar. Hoje o Brasil já tem 17 milhões de pessoas, em 12 estados brasileiros, são atendidas na distribuição de suas águas pela Bookfield, uma multinacional canadense. Ela comprou esta “fatia do mercado” da Odebrecht Ambiental. Parece pouco, mas o valor da transação foi de quase 3 bilhões de reais. Não é um mercado para qualquer um, como se vê.

O Ouro Branco, como é chamada a água em contraposição ao título de Ouro Negro dado ao petróleo, é um bom negócio, mas não para as populações carentes. Em um pequeno livrinho chamado O Manifesto da Água (2002), de autoria Riccardo Petrella e em outro livro publicado pela canadense Maude Barlow intitulado O Convênio Azul: a crise global da água e a batalha futura pelo direito a água (2009) [2], as consequências negativas para as comunidades e positivas para as empresas estão descritas com vários exemplos ao redor do planeta. São Paulo conhece bem as negativas quando sofreu um choque com o racionamento provocado pela ideia do lucro primeiro, população depois. É que 49,7% da Sabesp pertencem a empresas privadas. Vários analistas da questão hídrica culparam a empresa por não ter investido na melhoria da infraestrutura por anos, uma das causas do problema. Teoricamente o governo paulista tem maioria de 0,3 para a tomada de decisões. Mas nós todos sabemos como falham as teorias…

O avanço das ondas das novas privatizações vem como um tsunami. O problema é que agora não há mais estatais como Vale do Rio Doce, Embraer, Telebras, Rede Ferroviária, etc. Tudo já foi vendido nos anos noventa. Se é preciso satisfazer a sede dos grupos econômicos, que venha a bebida disponível no momento e esta é a água nossa de cada.

Fonte: Envolverde

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4 respostas em “A água brasileira corre para as multinacionais

  1. O Brasil com sua extensão territorial de proporções colossais, historicamente se desenvolveu como um dos maiores exportadores de matéria prima do mundo, com o passar das décadas, cada vez mais materiais de diversas naturezas saem do nosso país, até do continente, e vão parar na posse dos compradores. Como já nos alertou o nosso amado Chico Buarque: ”Todos os dias a nossa pátria mãe tão distraída, é subtraída em tenebrosas transações”. O que torna essas transações tão tenebrosas assim é a problemática ambiental por trás delas, os recursos que naturalmente pertenciam a uma região geográfica, artificialmente são deslocados para outras regiões em transações comerciais chamadas de exportações. Mais perigoso do que o deslocamento de recursos minerais, é o deslocamento geográfico da água, que se dá de maneira indireta, com a exportação de produtos ricos em água na sua composição, como carnes, futas, legumes… etc. O interessante é que os principais exportadores brasileiros indiretos de água, estão no Centro-oeste e no Nordeste, regiões aonde esse recurso primordial é mais escasso, é imensurável o desequilíbrio ambiental que isso pode gerar no futuro. A exportação de mercadorias ricas em água na sua composição sempre esteve entre os pilares que sustentam a economia brasileira. Infelizmente essa é uma realidade não que podemos mudar imediatamente sem causar uma catástrofe na economia pior do que catástrofe ambiental que certamente será causada a longo prazo. A única solução para esse problema não consiste em impedir a privatização ou a internacionalização desses setores, na verdade pouco tem a ver com isso, a solução seria o país a longo prazo diversificar as diretrizes da sua economia e no futuro se tornar menos dependente da agricultura e da pecuária.

  2. Não vejo razão realmente relevante em parte alguma para manter-mos na mão do estado brasileiro o controle do serviço de fornecimento de água para a população brasileira. Muito pelo contrário, a privatização de tais serviços repetidas vezes se mostraram casos de sucesso, a cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro possuía administração estatal pela Cedae até 1999 quando foi concedida à empresa Águas de Niterói por meio de uma licitação, A cidade possuía uma população de 450.000 habitantes, e 120.000 deles não possuíam acesso á agua tratada, já que a estatal afirmava ser impossível aumentar o abastecimento pois não havia mais de onde retirar água. Após a privatização, modelos de gestão eficientes foram adotados, entre os principais, a preocupação em reduzir o desperdício gerado por perdas em vazamentos e furos de tubulações, hoje, a cidade conta com 500.000 habitantes e apesar do aumento populacional o abastecimento de água foi universalizado sem se retirar uma gota a mais de água dos manaciais da região, e a taxa de perdas caiu para 19% (um milagre para um país onde a média de perdas é de 37%, e alguns municípios, como Macapá, chegando à casa do 77% de desperdício). Quanto à “Exportação de água”, através da venda de commodities fica claro mais uma preocupação descabida do autor, já que este desconhece o ciclo hidrológico da água que irriga as vastas planícies do amazonas e do centro oeste onde se concentram a produção de soja brasileira. É no mínimo ingênuo pensar que a água se “perde” quando exportamos alimentos, já que a evaporação da água dos oceanos não vai parar de trazer chuvas tão cedo (ainda mais no país onde se tem o maior bacia hidrográfica do mundo tanto em volume de água, quanto em extensão). Toda construção argumentativa do artigo, parece-me afinal, uma preocupação infantil contra a globalização “malvadona”, contra um capital estrangeiro que tem capacidade de realmente fazer investimentos que de fato melhorariam a vida da população mais pobre e que não tem acesso à uma MERCADORIA (sim, a água é mercadoria) tão básica e essencial. Lutar contra isso não é só ingenuidade, é, perpetrar um esquema instituicional onde só os mais ricos têm acesso à saneamento, equanto o pobre fica a espera da resolução de um problema do século 19 por nossa maravilhosa classe política.

  3. Podemos pensar que não nos atinge se ainda temos água farta nas torneiras e dinheiro suficiente para comprar as frutas de que gostamos. Podemos também pensar que não nos atinge a falta de água se vivemos em algum estado do sul, ou em uma cidade grande e bem estruturada, ou se temos poço no fundo do quintal.
    Mesmo assim sabemos, e dizemos, que a “água é um bem de necessidade primordial” cujo direito é de todos. Sem água não há vida, sabemos também, então, quando poucos se apropriam desse recurso natural mais precioso, muitos ficarão na sede ou na necessidade.
    Nossos recursos naturais sempre foram objeto de saques pelos colonizadores – antigos e modernos – em uma lista imensa onde entram o pau-brasil, açúcar, ouro, diamantes, algodão, café, ferro, borracha, nióbio, sal, mogno, petróleo e agora, a água boa que nosso território tem em abundância.
    Já entramos na época da “exportação da água virtual” e isso ocorre quando nosso mercado de exportação leva produtos agrícolas para fora do país – os mais relevantes desta lista são as frutas e a soja mas, tudo o que se produz no campo, de gado aos tecidos, tem água embutida, você sabe. Mas, são os procedimentos de irrigação que, tirando água de muitos, os canalizam para o agronegócio, desviando rios, salinizando solos e deixando povos inteiros sem água de beber.
    Diante disso tudo, se pode e deve claramente afirmar que corremos risco de lutar pelo que é nosso, diante da busca desenfreada do capitalismo sobre todos os bens disponíveis (por tempo indeterminado, porém curto, pelo que tudo indica), e passa da hora de haverem políticas públicas sérias, no sentido protecionista, não apenas do estado, mas em prol de nós, seres inseridos no meio ambiente.

  4. Um dos fatores mais alarmantes sobre privatização da água no Brasil é que ela ocorre de forma silenciosa. Em primeiro lugar porque o Brasil é rico em água, tornando os problemas relacionados à privatização da água, menos importantes. Em segundo lugar o problema nem sequer é mencionado na imprensa brasileira fundamentalmente por causa da “censura”, que decorre do poder econômico das empresas que estão envolvidas na privatização da água.
    Dois aspectos precisam ser considerados quando falamos da privatização da água no Brasil: o primeiro é a privatização do abastecimento de água nas cidades, como ocorre em Manaus, e o segundo e extremamente mais perigoso é a privatização dos recursos hídricos. Como bem destacado pela notícia, nosso país tem um histórico de saques contra as riquezas naturais, autorizado, diga-se de passagem, pelo próprio governo brasileiro. E agora a nossa água entrou nesse rol, e o pior, de forma silenciosa, poucos sabem o que está acontecendo o que permite que o governo negocie nossos recursos hídricos sem a consulta da população. É de suma importância que a população seja alertada do que esta acontecendo para que possa se manifestar sobre um tema tão importante para o futuro do nosso país.

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