Crise econômica e abusos na Líbia têm forçado refugiados e migrantes a fugir para a Europa


Texto 36

06/07/2017

Cerca da metade das pessoas que chegam à Líbia está em busca de trabalho, mas acabam sendo forçadas a fugir para a Europa para escapar de riscos de morte, instabilidade, difíceis condições econômicas, assim como exploração e abusos generalizados no país. A conclusão é de novo estudo da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) sobre fluxos de refugiados e migrantes divulgado na segunda-feira (3).

Os cidadãos estrangeiros que estão indo para a Líbia fazem parte de um fluxo migratório misto, ou seja, composto por pessoas vindas de diferentes contextos, mas que viajam juntos pelas mesmas rotas, muitas vezes com o auxílio de contrabandistas e gangues criminosas. Os grupos são compostos por refugiados, solicitantes de refúgio, migrantes econômicos, menores desacompanhados, deslocados por motivos de catástrofes ambientais, vítimas de tráfico humano, entre outros.

Nos últimos anos, o número de pessoas que cruzou o mar do norte da África para o sul da Europa aumentou consideravelmente. Ao que tudo indica, a tendência é de que continue nesse ritmo, de acordo com o ACNUR. Das três principais rotas utilizadas por refugiados e migrantes para chegar à Europa – as rotas ocidental, central e oriental do Mediterrâneo – A Líbia se tornou a mais comum e também a mais mortal.

O estudo encomendado pelo ACNUR descobriu que os perfis e nacionalidades das pessoas que chegaram à Líbia têm se modificado nos últimos anos, apresentando uma considerável diminuição na quantidade que vêm do leste da África e aumento daquelas que vêm do oeste. Estas últimas representam atualmente mais da metade do total que chega à Europa, vindas da Líbia para a Itália, pela rota do Mediterrâneo central (mais de 100 mil chegadas em 2016).

De acordo com o estudo, refugiados e migrantes na Líbia são predominantemente homens jovens (80%), com idade média de 22 anos e que viajam sozinhos (72%). As mulheres tendem a transitar pela Europa por um período mais curto de tempo, e muitas delas, particularmente aquelas da África central e ocidental, são vítimas de tráfico humano. O número de crianças separadas e desacompanhadas viajando sozinhas está crescendo, e agora representam 14% das chegadas à Europa pela rota do Mediterrâneo central. Essas crianças vêm principalmente de Eritreia, Gâmbia e Nigéria.

Na Líbia, refugiados e migrantes costumam ter um baixo nível de escolaridade, sendo que 49% deles tiveram pouco ou nenhum acesso à educação. Apenas 16% recebeu formação profissional ou educação superior. Eles vêm de diferentes contextos, mas podem ser agrupados em quatro diferentes categorias.

A primeira delas é a de nacionais de países vizinhos (Níger, Chade, Sudão, Egito e Tunísia). A maioria desses migrantes e refugiados afirma ter ido para a Líbia por razões econômicas, e muitos se envolvem em movimentos migratórios sazonais, circulares e repetitivos.

A segunda categoria é a de nacionais de países da África central e ocidental, principalmente de Nigéria, Guiné, Costa do Marfim, Gambia, Senegal, Gana, Mali e Camarões. Grande parte deles aponta dificuldades econômicas como o motivo de terem deixado seus países. Alguns são vítimas de tráfico humano, especialmente mulheres nigerianas e camaronesas, em alguns casos com necessidade de proteção internacional.

A terceira categoria é a de nacionais dos países da África Oriental, vindos da Eritreia, Somália, Etiópia e Sudão. Eles relatam terem feito a jornada por uma série de motivos, incluindo perseguição política, conflitos e miséria em seus países de origem.

Já a quarta categoria é formada por indivíduos de outras regiões: sírios, palestinos, iraquianos, marroquinos, bengalis e outros. Alguns estão fugindo de conflitos e violência, enquanto outros estão em busca de oportunidades de subsistência.

O estudo examinou a mudança de dinâmica e desafios de proteção que afetam os fluxos migratórios mistos para a Líbia e dentro da evolução das tendências da migração, o tráfico de redes e rotas. Também traçou as comunidades de refugiados e migrantes, enfocando a situação no sul do país.

Além da localização estratégica da Líbia, o conflito e a instabilidade no país contribuíram para criar um ambiente onde o tráfico de pessoas e redes criminosas se expandam. Ao mesmo tempo, o colapso do sistema de justiça e a reincidência da impunidade levaram muitos grupos armados, criminosos e indivíduos a participar da exploração e do abuso de refugiados e migrantes.

O estudo foi encomendado pelo ACNUR e feito pela Altai Consulting, uma empresa de consultoria especializada que se concentra na pesquisa, monitoramento e avaliação em Estados frágeis, juntamente com o IMPACT Initiatives, um grupo de reflexão com sede em Genebra que avalia, monitora e avalia programas de ajuda.

As conclusões do relatório baseiam-se principalmente em dados qualitativos – incluindo entrevistas com refugiados e migrantes – recolhidos na Líbia, Argélia, Chade, Itália, Níger e Tunísia, entre outubro e dezembro de 2016.

O ACNUR procura expandir suas atividades na Líbia para atender às maiores necessidades humanitárias e de proteção de refugiados, solicitantes de refúgio e líbios afetados pelo conflito em curso. Recentemente, fez um apelo pelo financiamento de 75,5 milhões de dólares para fortalecer o monitoramento e as intervenções de proteção na Líbia, bem como advocacia sobre questões relacionadas ao respeito pelos direitos humanos, acesso a serviços básicos, procedimentos de refúgio e liberdade de circulação.

O ACNUR também está multiplicando esforços na Líbia e nos países vizinhos para oferecer alternativas confiáveis, encontrar soluções duradouras e estabelecer caminhos legais para refugiados e solicitantes de refúgio, como alternativas para viagens perigosas para a Líbia ou pelo Mediterrâneo Central para a Europa.

Clique aqui para acessar o relatório completo (em inglês).

Fonte: ONU Brasil

Anúncios

Comente esta notícia!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s