Ocidente não sabe nem do cheiro do que a Eurásia está cozinhando


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Reunião da OCX aconteceu no começo do mês de junho em Astana, no Cazaquistão

19/06/17

OCX já é não apenas a maior organização política – por área e por população – do mundo; ela também reúne quatro potências nucleares; o G-7 é irrelevante, como se viu claramente na recente reunião em Taormina

Na reunião anual da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), fundada em 2001, os dois países, Índia e Paquistão foram admitidos como membros plenos, como Rússia, China e quatro ‘-stões’ da Ásia Central (Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão e Tadjiquistão).

Assim sendo, a OCX já é, não apenas a maior organização política – por área e por população –, do mundo; ela também reúne quatro potências nucleares. O G-7 é irrelevante, como se viu claramente na recente reunião em Taormina. Ação à vera doravante, à parte o G-20, virá desse G-8 alternativo.

Permanentemente desqualificada no Ocidente já há uma década e meia como se não passasse de mero salão de conversas, a OCX, lentamente, mas sem parar nunca, continua a promover um quadro que o presidente Xi Jinping da China qualifica, de forma discreta muito atenuada, como “um novo tipo de relações internacionais com vistas a cooperação ganha-ganha”.

É o mínimo que se pode dizer, do grupo no qual se reúnem China, Índia e Paquistão.

A marca OCX, sob o jogo do radar, é muito sutil. A ênfase inicial, quando se entrava no mundo pós-11/9, foi combater contra o que os chineses chamam de “os três males” do terrorismo, do separatismo e do extremismo. Pequim – e Moscou – desde o início pensavam nos Talibã no Afeganistão, e nas suas conexões centro-asiáticas, especialmente por conta do Movimento Islamista do Uzbequistão (MIU).

Agora, a OCX está ativamente alertando para a “deterioração” da segurança no Afeganistão e conclamando todos os membros a apoiar o processo de “paz e reconciliação”. É a senha para a OCX, daqui em diante, engajar-se diretamente em encontrar uma solução “completamente asiática” [ing. “all-Asian”] para o Afeganistão – com ambos, Índia e Paquistão também a bordo –, que transcenda o “remédio” sempre fracassado do Pentágono: mais soldados.

OTAN, por falar dela, perdeu miseravelmente a guerra que fez no Afeganistão. Os Talibã controlam hoje pelo menos 60% do país – e continuam a avançar. E para acrescentar insulto supremo a ofensa previsível, o Estado Islâmico do Corasan, EIC – braço do Daech no Afeganistão – acaba de capturar Tora Bora, onde, nos meses finais de 2001, os B-52s do Pentágono insistiam em bombardear Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri, que já estavam muito longe de lá.

Que ninguém se engane: a OCX agirá, sim, no Afeganistão. E essa ação incluirá levar os Talibã à mesa de negociações. A China acaba de assumir a presidência rotativa da OCX e se empenhará para colher resultados práticos a exibir na próxima reunião de cúpula em junho de 2018.

Ponha o pé no gás, pague em yuan

A OCX evoluiu muito também em termos de cooperação econômica. Ano passado, Gu Xueming, presidente da Academia Chinesa de Comércio e Cooperação Econômica Internacionais no Ministério do Comércio, propôs que se faça uma aliança com um think-tank econômico da OCX, também para estudar a implantação de zonas de livre comércio da própria Organização de Cooperação de Xangai.

É movimento que sugere fortemente integração econômica ainda maior – que já está em curso para muitos negócios de pequeno e médio porte. A tendência é inevitável, paralela à interpenetração das Novas Rotas da Seda, também chamadas “Iniciativa Cinturão e Estrada”, ICE, e a União Econômica Eurasiana, UEE, liderada pela Rússia.

Assim sendo, nem chega a ser surpresa que, na reunião em Astana, Xi e o presidente Putin mais uma vez tenham promovido a possibilidade de fusão entre ICE e UEE. E ainda não estamos falando do trio ICE, UEE e OCX – o que diz respeito ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, BAII; o Novo Banco de Desenvolvimento, NBD; o Fundo Chinês da Rota da Seda – todo um potente arranjo de mecanismos político-econômicos.

As coisas movem-se com incrível rapidez – em todos os fronts. Numa recente conferência “Future of Asia” em Tóquio, o suposto ferozmente anti-China primeiro-ministro Shinzo Abe anunciou, embora ainda sujeito a muitas condições, que o Japão está pronto a cooperar com a ICE, com seu “potencial para conectar Oriente e Ocidente, e também as diversas regiões que há entre um e outro.” Um possível reset China-Japão daria impulso definitivo à interpenetração de ICE, UEE e OCX.

Crucialmente importante é que ambas China e Rússia estão em perfeita harmonia em termos de aprovar rapidamente a admissão do Irã como membro pleno da OCX.

Agora, comparem esse tipo de projeto-ação, com o secretário de Estado “T.Rex” Tillerson a ‘exigir’ mudança de regime no Irã.

Com a integração da Eurásia avançando inexoravelmente por saltos e elos, o contraste com a proverbialmente pantanosa e repugnante arrogância atlanticista não poderia ser mais flagrante.

Quando Moscou decidiu a favor de agir na tragédia síria e mudar aquele jogo, nenhum analista no ocidente, exceto Alastair Crooke, viu o quanto esse movimento configurava uma espécie de operação ‘estilo-OCX’. OK, Irã, Síria e Hezbollah não são membros da OCX, mas o modo como coordenaram seus movimentos com os russos já evidenciava uma alternativa factível, diferente do imperialismo ‘humanitário’ da OTAN e das aventuras tipo ‘mudança de regime’.

O mecanismo “4+1” – Rússia, Irã, Iraque, Síria e Hezbollah – silenciosamente apoiado pela China foi instituído para combater todas as formas de terrorismo jihadista salafista e, ao mesmo tempo, para prevenir qualquer tentativa de ‘mudar o regime’ em Damasco – sonho molhado da OTAN-CCG.

Agora, com a estrambótica política exterior de Trump, em que nada se coordena com coisa alguma, exceto com provocar o Irã, ambos os países, Rússia e China, compreendem como é realmente chave que o Irã torne-se, sem demora, membro pleno da OCX.

Pequim já compreendeu, via suas relações com o Qatar – fornecedor chave de gás natural –, as apostas extremamente altas de o Qatar, mais dia menos dia, aceitar pagamento em yuan, pela energia.

O silencioso movimento de pivô do Qatar na direção do Irã – razão chave que enlouqueceu completamente a já encurralada Casa de Saud – tem tudo a ver com a exploração em comum do maior campo de gás do mundo, North Dome/South Pars, que os dois países partilham no Golfo Persa.

Demorou um pouco para que Doha se desse conta de que, depois que os “4+1” estabeleceram fatos em campos, um gasoduto do Qatar até a Turquia via Arábia Saudita e Síria até o mercado europeu jamais acontecerá. Ancara também sabe disso. Mas pode talvez eventualmente haver um gasoduto Irã-Iraque-Síria – mesmo com uma possível extensão para a Turquia —, de gás fornecido conjuntamente pelo campo North Dome/South Pars.

Esse evento revolucionaria toda a equação da energia no Sudoeste da Ásia; e a hegemonia do petrodólar pode bem ser principal ‘dano colateral’ nesse quadro, o qual Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos aceitam devidamente.

Imaginem Qatar/Irã vendendo seu futuro gás para a Europa em euros, não em dólares norte-americanos, bem como os chineses que passarão a pagar em yuan, a energia que comprarem do Qatar – e da Arábia Saudita.

Que ninguém se engane: o futuro – inexorável – indica que o comércio de energia deixará de ser feito em petrodólares, para ser feito em yuan, moeda que pode ser convertida em ouro.

Longa vida ao novo Califado

Jamais será demais destacar a importância da parceria estratégica Rússia-China coordenando todas as suas políticas para a integração da Eurásia, inclusive com os incansáveis esforços, pelos suspeitos de sempre, para impedir que a integração aconteça.

Durante a primeira metade de 2017, a hipótese de trabalho de Moscou e Pequim foi que o governo Trump teria interesse em assumir a Rússia como parceira para novos projetos de petróleo e gás na Eurásia. Ideia de traços Kissingerianos, sugerida a Trump, a parceria estratégica Rússia-China seria assim enfraquecida, com Washington aumentando a pressão em múltiplas frentes, sobre Pequim.

Bem, talvez não aconteça já – se se considera a enlouquecida vasta histeria anti-Rússia que consome o governo dos EUA.

O que continua é a Guerra Global ao Terror, GGaT, corolário da política de Trump: conter – por todos os meios necessários – e impedir que avance a influência já crescente do Irã em todo o Sudoeste da Ásia. Para isso, é preciso inflar o poder geopolítico do CCG – comandado pela nociva Casa de Saud.

Isso explicaria o surto entusiástico de Trump, no Twitter, a favor da guerra relâmpago da Casa de Saud contra o Qatar – que se desdobra em movimento contra o Irã. Pequim, por sua vez, observa de perto, e já identificou a coisa pelo que realmente é: tentativa de perturbar o avanço das Novas Rotas da Seda.

Ao mesmo tempo, Pequim e Moscou não podem deixar de observar com gosto as flagrantes inconsistências. O Pentágono não parece inclinado a anexar o resto do Qatar; bastam a base aérea Al Udeid e o quartel-general do Centcom. O chefe do Pentágono, Mattis “Cachorro Louco” adorou vender $12 bilhões em F-15s para Doha “apoiadora de terroristas”. Trump “apoia” a Casa de Saud. Mattis “Cachorro Louco” “apoia” Doha. Tillerson declara-se superior e abre mão de escolher lado.

O CCG como o conhecemos pode já estar morto e enterrado – como também o embrião de ‘OTAN Árabe’ que Trump tanto festejou com aquela patética dança das espadas em Riad. Mesmo assim, Moscou e Pequim – como também Teerã – estão perfeitamente conscientes de como esses revezes só farão exacerbar o ambiente no Excepcionalistão, codinome, o pântano; codinome, o estado profundo; para que subam as apostas e os riscos, e continuem a gerar conflito e tumulto.

O Califato no deserto do “Siriaque” está morto – especialmente se os russos confirmarem que o próprio Califa foi-se mandado encontrar o Criador. Não é bom – porque uma Síria totalmente desestabilizada seria excelente para desestabilizar a Rússia, do Cáucaso à Ásia Central; a inteligência russa sempre se concentrou naqueles 900 km, de Aleppo a Grozny.

Como o Terminator, o estado profundo dos EUA voltará. Um sonho molhado ampliado ainda é criar as condições para a desestabilização de vasta faixa, do Levante ao Sul da Ásia — com possíveis futuras ondas de terror a se expandirem para o norte da Rússia e leste, para a China. O alvo: a interpenetração de ICE, UEE e OCX.

Para completar, o Pentágono recusar-se-á a abandonar o Afeganistão – cabeça de ponte para gerar tumulto e caos na Ásia Central. O que poderia talvez dar errado?! Afinal, o Daech está virtualmente plantado na Ásia Central, não distante de Xinjiang e do Corredor Econômico China-Paquistão (CECP) – nodo chave da Iniciativa Cinturão e Estrada.

Ainda assim, a guerra relâmpago dos sauditas contra o Qatar – que parece estar continuando – pode, no médio prazo, precipitar uma mudança sísmica, acelerando a entrada para a Organização de Cooperação de Xangai, do Irã e também da Turquia; consolidando o movimento de pivô de Doha na direção de uma entente com Rússia e Irã; e antecipando golpe grave na hegemonia do petrodólar. Tudo isso deve ter sido discutido em detalhes na reunião de cúpula da OCX em Astana – sobretudo no encontro bilateral Putin-Xi.

Com o Excepcionalistão mais errático a cada dia, todas as decisões estratégicas chaves ficarão para Xi-Putin – e ambos sabem disso. Certo é que a OCX com certeza se envolverá mais e mais profundamente nas ações para proteger o projeto chave do jovem século 21: a integração da Eurásia.

*Publicado originalmente em inglês no site Sputnik e traduzido para o português pelo site Tlaxcala

Fonte: Opera Mundi

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