Proteger rios e nascentes custa pouco


Postado em 14/01/2017 por Felipe Poli Rodrigues

Postado originalmente em 12/01/2017

Um dos mais relevantes desafios da humanidade, à medida que a população global continua a crescer, é garantir água limpa para todos, por isso, mais do que nunca, é fundamental protegermos as terras que circundam nossos mananciais e bacias hidrográficas. Atenta a isso, a The Nature Conservancy, maior organização ambiental do mundo, lança hoje um levantamento sobre as fontes de água que abastecem mais de 4 mil grandes e médias cidades de todo o planeta. O estudo “Para além do manancial: benefícios ambientais, econômicos e sociais da proteção das fontes de água” mostra como soluções baseadas na natureza, a exemplo do reflorestamento e das boas práticas de manejo agrícola, podem ganhar escala, de modo a fazer uma diferença significativa para o desenvolvimento sustentável, melhorando as vidas de bilhões de pessoas.

Um dos principais fatores de risco à disponibilidade de água nas médias e grandes cidades é a erosão de rios e nascentes. O levantamento da TNC aponta que 80% das cidades analisadas podem reduzir significativamente a presença de sedimentos e nutrientes nas fontes de água usadas em seu abastecimento, se protegerem as florestas ao redor dessas fontes, fizerem o reflorestamento de áreas estratégicas e estimularem boas práticas agrícolas. A vegetação em áreas de mananciais é imprescindível para que a população tenha água porque as árvores ajudam as gotas de chuva a se infiltrar no solo, o que forma nascentes e rios, e evitam, com suas raízes, que a terra seja carregada para os corpos d’água.

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“Proteger as terras ao redor dos mananciais é fundamental para garantir o fornecimento de água no longo prazo”, diz Giulio Boccaletti, diretor executivo global do programa de Águas da The Nature Conservancy. “Infelizmente, 40% das áreas de mananciais, no mundo, mostram níveis moderados ou altos de degradação. Os impactos disso sobre a segurança hídrica podem ser graves”. No caso dos mananciais da Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, esse índice de degradação é superior a 70%.

Além de ajudar a garantir a disponibilidade de água nos reservatórios, as soluções baseadas na natureza propostas pelo estudo geram uma série de importantes benefícios. O reflorestamento e a conservação das florestas já existentes, por exemplo, proporcionam a captura de gases que causam o aquecimento global e reduzem os impactos das mudanças climáticas (incluindo secas, enchentes, incêndios e erosão), que afetam de forma desproporcional as comunidades mais pobres. Já as boas práticas agrícolas permitem a preservação da diversidade de animais e vegetais e tornam as comunidades mais saudáveis.

“Atribuindo um valor a esses benefícios indiretos, podemos mobilizar meios inovadores e de melhor custo-benefício, necessários para financiar a proteção dos habitats e as atividades de manejo da terra”, afirma Andrea Erickson-Quiroz, diretora executiva de segurança hídrica da The Nature Conservancy.

O relatório estima que, para elevar em 10% a redução dos sedimentos e nutrientes em 90% das bacias de mananciais, seria necessário aumentar os gastos anuais com os programas de financiamento de serviços ambientais de US$ 42 bilhões para US$ 48 bilhões. Esse patamar de financiamento representa cerca de 7% a 8% dos gastos com a água em todo o mundo, e equivale ao que cidades como Nova York gastam na proteção das bacias que abastecem seus moradores. Com esse nível de investimento, seria possível aumentar a segurança hídrica de pelo menos 1,4 bilhão de pessoas, se ele se concentrar em bacias cuja redução de sedimentos e nutrientes é mais econômica. No caso de metade das cidades analisadas, proteger as águas dos mananciais poderia custar apenas dois dólares ou menos por pessoa, anualmente.

O relatório também destaca a importância dos mecanismos conhecidos como Fundos de Água*, que permitem aos usuários de água que vivem ao longo de uma bacia hidrográfica financiar a preservação e a restauração das terras no começo dessa bacia. Esse é um mecanismo bem-sucedido para assegurar uma melhor qualidade da água e, em alguns casos, uma vazão mais confiável. O relatório ainda estima que uma em cada seis cidades (o que corresponderia a aproximadamente 690 cidades, prestando serviço a mais de 433 milhões de habitantes em todo o mundo) tem potencial de recuperar integralmente os custos das medidas de preservação somente com a economia que teriam com o tratamento da água. Outras cidades podem extrair valor adicional dos benefícios indiretos, obtendo, no total, um valor acumulado que proporciona um retorno positivo sobre o investimento.

Exemplos globais de atividades de proteção das águas dos mananciais.

Para que os bons exemplos já existentes ganhem escala, mais do que superar os desafios dos custos desse investimento, é necessário que a sociedade se comprometa com o futuro dos recursos hídricos, o que inclui governos nacionais e locais, empresas, organizações civis e a própria população. As companhais de abastecimento e os gestores da água nos governos também têm o papel crucial de propor ações ambientais que tragam ganhos econômicos e sociais.

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“As nossas aspirações de criar um mundo melhor exigem uma atuação coletiva”, diz Erickson-Quiroz. “Não podemos nos permitir trabalhar em grupos com motivação, jurisdição ou recursos financeiros isolados. As cidades podem tomar a dianteira, mas não sozinhas. Todos nós temos um papel a desempenhar”.

No Brasil, um exemplo de ação conjunta pela proteção dos mananciais é a Coalizão Cidades pela Água, uma iniciativa da TNC em parceria com o setor privado, lançada em novembro de 2015, com objetivo de ampliar a segurança hídrica de 12 regiões metropolitanas brasileiras, até 202. Por meio de ações de conservação de nascentes e rios em áreas críticas para a produção de água, a iniciativa ajudará a garantir disponibilidade de água para 42 milhões de pessoas nessas cidades, trará benefícios para 46 mil famílias em áreas urbanas e rurais no começo das 21 bacias hidrográficas onde o projeto atua e recuperará ou protegerá cerca de 460 mil hectares de florestas.

“Esse estudo amplia as evidências de que as soluções baseadas na natureza aumentam a segurança hídrica nas cidades. Essas iniciativas não podem mais ser apenas uma alternativa, elas devem estar no centro das decisões dos gestores públicos e privados para a gestão da água”, afirma Samuel Barrêto, gerente de Água da TNC no Brasil.

O relatório foi elaborado em parceria com o Projeto Natural Capital, a Forest Trends, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Parceria de Fundos de Água da América Latina.

Sobre a The Nature Conservancy

The Nature Conservancy é uma organização de conservação global dedicada à conservação das terras e águas de que toda a vida depende. Orientados pela ciência, criamos soluções inovadoras e práticas para os desafios mais difíceis do nosso mundo, de modo que a natureza e as pessoas possam prosperar juntos. Estamos abordando as alterações climáticas, lutando pela conservação de terras, águas e oceanos em escala sem precedentes, e ajudando a tornar as cidades mais sustentáveis. Trabalhando em mais de 65 países, usamos uma abordagem de colaboração que envolve as comunidades locais, governos, setor privado e outros parceiros. Para saber mais, acesse http://www.tnc.org.br ou siga @TNCBrasil no Twitter.”

Fonte: Envolverde

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3 respostas em “Proteger rios e nascentes custa pouco

  1. Há pouco tempo o estado de São Paulo ficou em alerta máximo sobre a falta de água, o sistema cantareira chegou no seu assim chamado nível morto, é de assustar uma cidade do porte de São Paulo, uma das cidades mais ricas e desenvolvidos da América Latina, em alerta máximo sobre a falta de água. No entanto esse é um problema vivenciado por muitas outras cidades ao redor do mundo. Muitos historiadores e pesquisadores afirmam que provavelmente a próxima grande guerra séria por causa de água potável, e a cada dia que passa eu acredito mais nessa teoria. Achamos que a falta de água é um caminho sem volta, e que não podemos fazer mais nada para reverter esse estado, mais é ai que nos enganamos, podemos reverter esse quadro e o mais impressionante, ao invés de esperarmos nossos governantes tomarem uma posição, esse é um problema que de inicio pode ser resolvido por cada um de nós. Um exemplo disso é a preservação de nascentes e encostas ao longo dos rios, já foi comprovado que o plantio de tais arvores é de muita importância para preservação de rios e suas nascente, e isso é uma coisa que pode ser feita por cada um de nós e custa muito pouco. A crise hídrica está afetando o munto todo, estamos sendo avisados não só pelos meios de comunicações mais pela própria natureza, se não fizermos algo agora, infelizmente o fim dessa história não será bom de contar.

  2. O mundo vem sofrendo com problemas hídricos há muito tempo, no entanto, medidas eficazes para a melhoria de tal problemática ainda são escassas. As nascentes como origem de mananciais hídricos, deveriam receber a devida atenção, porém, não é algo recorrente na discussão, falando-se muito em rios e reservatórios, somente. Com isso, muitas organizações nacionais e internacionais, têm tido a iniciativa de criar programas que visem diminuir os impactos da sociedade contemporânea nos recursos hídricos, tendo como foco e recebendo mais atenção atual, as nascentes dos rios. Uma dessas organizações a realizar tais programas, é a WWF Brasil, que recentemente, lançou uma petição que visa à criação do Plano Nacional para Proteção de Nascentes, que propõe medidas na política de gestão dos recursos hídricos no Brasil, chamada “Hora do Planeta”, de modo a fazer com que haja uma participação direta do cidadão nas medidas de conservação hídricas, o que ajudará diretamente na conscientização do uso da água. Tal plano compila trabalhos realizados anteriormente pela organização, em que além da conservação das nascentes, busca também resgatar aquelas já debilitadas, de modo a tentar restaurar o ecossistema saudável próprio e natural. Para a organização WWF, além da participação popular, é necessário que o governo de fato realize programas para a conservação dos nossos recursos hídricos, já muito desgastados, isso em conjunto com a população, poderá trazer maiores benéficos que somente ações isoladas de uma das partes.

  3. O nome sustentabilidade foi cunhado para definir ações humanas que visam suprir as necessidades atuais dos seres humanos, sem comprometer o futuro das próximas gerações. Estando, portanto, diretamente relacionado ao desenvolvimento econômico e material sem agredir o meio ambiente, usando os recursos naturais de forma inteligente para que eles sejam perenes.
    A expressão “sustentabilidade” possui carga de sentido fundamental ao meio ambiente, mas infelizmente, poucas ações foram realizadas com esse enfoque.
    Preservar a natureza é cuidar da vida presente e futura. E é preciso que esse seja o objetivo principal, em se tratando de recurso indispensável como a água.

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