ARTIGO: ‘O dia em que carregamos a Tocha Olímpica para mulheres e meninas


“No Brasil, assim como em vários outros lugares do mundo, mulheres jovens e adolescentes ainda sofrem a pressão de aderir a tradições e estereótipos sociais. Elas têm menos autonomia sobre os seus corpos e muitas vezes não têm acesso a um ambiente que as ajude a desenvolver habilidades esportivas.”

Por Thaiza Vitória, 15 anos, jogadora de handebol brasileira e membro do programa “Uma vitória leva à outra” no Rio de Janeiro, e Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora-executiva da ONU Mulheres. As duas carregaram a Tocha Olímpica no dia da cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Publicado originalmente em: 06/08/2016

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À primeira vista, pode parecer que somos de dois mundos distintos. Duas mulheres de países diferentes e de gerações diferentes. A primeira vez que nos vimos foi sob a chama Olímpica e descobrimos que não somos tão diferentes: compartilhamos uma esperança ardente por um mundo onde a igualdade de gênero não seja um luxo, mas sim a norma. Quando caminhamos lado a lado, dividindo a grande honra que foi levar a Tocha Olímpica pelas ruas do Rio de Janeiro, representávamos mais do que apenas nós mesmas. Estávamos ali representando todas as mulheres e meninas do planeta, metade da população mundial.

Historicamente, a Chama Olímpica representa o valor da pureza. Os corredores que a carregam passam uma mensagem de paz na sua jornada. Ao carregar a chama nesta época de conflito generalizado no mundo, pensamos no quão importante é a contribuição das mulheres para os processos de paz. Sabemos que a participação das mulheres nas mesas de paz aumenta consideravelmente a probabilidade de acordos serem assinados e da manutenção da paz. Também sabemos que manter a paz é algo mais complexo do que terminar uma guerra. A paz verdadeira acontece com o direito de viver sem o medo da violência, livre de discriminação, alcançando o nosso potencial, nas nossas famílias, comunidades, escolas, ambientes de trabalho ou nas quadras esportivas. A cada passo que tomamos sob aquela chama, levamos a tocha adiante com a mensagem da igualdade de gênero.

Naquela curta caminhada, seguimos os passos de mulheres pioneiras, tais como a regatista Hélène de Pourtalès, a primeira mulher a ganhar uma medalha olímpica (1900); Enriqueta Basilio, a primeira mulher a acender o Caldeirão Olímpico nas Olímpiadas do México (1968) e Flor Isava Fonseca, a primeira mulher no Conselho Executivo do Comitê Olímpico Internacional (1990).

Carregamos a Tocha Olímpica celebrando as milhares de mulheres atletas que participarão dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro e que, com a sua agilidade e determinação na arena esportiva, aumentam a visibilidade das mulheres como grandes ícones do esporte, pensadoras estratégicas, exemplos femininos e líderes. Também carregamos a chama para todas as jovens e meninas nos mais distantes vilarejos do mundo que lutam contra todas as adversidades para fazer esportes, continuar a treinar e usufruir liberdades mais amplas.

Desde a primeira participação de mulheres nas Olimpíadas em 1900, elas vêm derrubando barreiras e reduzindo a discriminação sexual. Hoje, nos Jogos do Rio, quase alcançamos a paridade em termos de participantes e eventos. No entanto, do lado de fora, ainda permanecem grandes obstáculos contra a igualdade plena. No Brasil, assim como em vários outros lugares do mundo, mulheres jovens e adolescentes ainda sofrem a pressão de aderir a tradições e estereótipos sociais. Elas têm menos autonomia sobre os seus corpos e muitas vezes não têm acesso a um ambiente que as ajude a desenvolver habilidades esportivas. Em contraste, os seus pares do sexo masculino usufruem de novos privilégios conforme crescem, reservados exclusivamente para os homens, incluindo autonomia, mobilidade e poder. Globalmente, apenas uma em cada cinco parlamentares é do sexo feminino e uma em cada três mulheres no mundo sofre de violência. Se a velocidade atual da mudança permanecer como está, levaremos outras oito décadas para que as mulheres alcancem igualdade no local de trabalho.

Mas a transformação está vindo de várias direções, com movimentos internacionais como o “ElesPorElas” da ONU Mulheres, onde os homens tomam a iniciativa de combater a discriminação e restabelecer expectativas, com as campanhas locais por salários iguais e com programas como “Uma vitória leva à outra” no Brasil, onde meninas carentes do Rio de Janeiro irão desenvolver habilidades de liderança por meio do esporte, melhorando a sua capacidade de influenciar decisões que impactam as suas vidas em todos os níveis.

Ao caminhar pela alegre multidão das ruas do Rio de Janeiro, fomos testemunhas de que o esporte une pessoas de todos setores da sociedade, com o poder de deixar para trás diferenças de gênero, raça, religião e nacionalidade. Esperamos que essa chama se espalhe e que a determinação em alcançar a igualdade de gênero transcenda todos os tipos de obstáculos.

Fonte: ONU Mulheres

4 respostas em “ARTIGO: ‘O dia em que carregamos a Tocha Olímpica para mulheres e meninas

  1. Como uma chama pode ligar vários países de diferentes raças, em busca de um mesmo objetivo que é chegar ao ouro, mas esquecendo as diferenças e os preconceitos, as olimpíadas realizada desta vez no Brasil, mostrou que além de uma disputa a representação das mulheres e meninas, como dito no texto, tornou-se cada vez mas significante no esporte. Ao carregar a tocha olímpica os corredores simbolizam a paz, a participação das mulheres conscientiza a população da importância de viver sem medo da violência e da discriminação ainda sofrida por elas nas áreas de trabalho, escola, nas quadras etc. Mas, o verdadeiro sentido desta representação é para mostrar que as mulheres vem buscando o espaço dela e lutando por seus direitos, a violência ainda é uma barreira que está em processo de degradação, muitas mulheres são agredidas e mortas, o medo de denunciar o parceiro ainda é grande, a Lei Maria da Penha com algumas lacunas ainda as deixam com muito receito de denunciar os abusos sofridos, agora com o Feminicídio, inserido como crime hediondo as taxas de violência e discriminação do gênero tende a baixar. As olimpíadas vieram com propósito de união, mostrando que não será levando em conta sua, cor, raça, religião, gênero etc, a busca aqui é que a chama da tocha deixe uma imagem de esperança, paz e igualdade entre todos os países.

  2. O fogo sempre foi considerado sagrado por muitos povos, desde a idade da pedra o mesmo é um instrumento imprescindível para a manutenção da vida. Segundo os gregos, ele teria sido entregue aos mortais por Prometheus que o roubara de Zeus. Em muitos templos, chamas são mantidas acesas permanentemente. Este era o caso do templo de Hestia na cidade de Olímpia. Com o surgimento dos Jogos Olímpicos a chama olímpica foi criada como forma de sacrifício a Zeus. Cerimônias eram feitas onde os sacerdotes acendiam uma tocha e o atleta que vencesse a prova, ia até ao local onde se encontravam os sacerdotes e teria o privilégio de transportar a tocha para acender o altar do sacrifício.
    Atualmente a chama em questão é um simbolo inestimável de união, fraternidade e cooperação entre os países passando de mão em mão por diversos lugares. Portanto na atual conjuntura social a representação não apenas das mulheres mas de representantes de todos os ramos da sociedade entre os transportadores da tocha é de suma importância, visando a unidade de toda a população mundial.

  3. É de extrema importância que um evento de alcance mundial, como as Olimpíadas, ratifique a relevância da luta por igualdade de gênero. Mais importante ainda é fazer tal ratificação em um país do Ocidente. Não que se tivesse feito em um do Oriente, deixaria de ser importante, mas o fato da luta ter sido exaltada em um país como o Brasil revela a ideia de que o machismo ainda existe sim, seja de uma forma velada, seja de uma forma escancarada. Estamos no século XXI e não obrigarmos mulheres a usarem burcas não indica que somos um exemplo na luta contra a discriminação sexual, indica apenas que, por diversos fatores socioculturais, optamos por praticar o machismo de outra forma. Optamos por não darmos as mesmas oportunidades de crescimento para homens e mulheres no ambiente profissional, optamos pela delimitação de espaços, roupas e atitudes masculinas em contraste com as femininas, optamos pela idealização da fragilidade feminina em contraponto com a brutalidade masculina. Todas essas opções refletem não apenas nos direitos das mulheres, mas também na padronização destas. Por isso, duas mulheres carregando a tocha olímpica na cerimônia de abertura dos jogos indica que um ambiente historicamente ocupado e dirigido por homens pode ter espaço também para a visibilidade feminina e confirmando o espírito de integração e inclusão divulgado amplamente pela organização olímpica.

  4. A igualdade social é preciso ser mostrada em eventos como esse, que tem um enfoque maior, para poder mudar a cabeça das pessoas, e aceitar as diferenças.
    O que foi muito mostrado nas olimpíadas, até mesmo em relação as mulheres, que vem
    cada vez mais alcançando seu espaço e mostrando que são capazes, e fugindo do que muitos
    criticam, pois discriminam as mulheres, por serem mulheres.
    Mulheres tem seus direitos, e principalmente seu espaço, podendo mostrar que são capazes de tudo, e inclusive no esporte. Viabilizando o quanto temos que correr atras dos nossos direitos,
    mostrando cada vez mais que são capazes, e assim mudar essa concepção que ainda se tem
    de que mulher não pode fazer determinadas coisas, pois ainda é preciso mudar muito a cabeça das pessoas, abrir a mente, em relação a essa questão que esta cada vez mais sendo incluída e discutida, o que trás uma positividade para o assunto.
    E com retrata o artigo, ao carregar a tocha olímpica, as mulheres, mostram seu devido lugar e seus direitos!

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