Nem “medalha de honra”!


Publicado em 04/08/2016 por Felipe Poli Rodrigues

Há sete anos, quando apresentou sua candidatura para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, a cidade do Rio de Janeiro afirmou que a qualidade de seu ar estava dentro dos limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e garantiu que faria melhorias no controle dessa qualidade até a realização da competição. Hoje, faltando um dia para o início dos eventos esportivos, o ar carioca está pior do que em 2009 – que, a despeito da declaração oficial, não estava nem perto do recomendado pela OMS.

poluicao-rio-de-janeiro-800x445-630x315

Publicado originalmente em: 04/08/2016

Segundo levantamento feito pela agência Reuters, usando dados oficiais, o ar na região metropolitana do Rio de Janeiro está duas a três vezes acima do limite anual da OMS para MP 10 (material particulado com diâmetro de 10 mícrons ou menos). Esse material é lançado diariamente para a atmosfera pela frota de 2,7 milhões de veículos motorizados que roda pelas ruas cariocas. De 2010 a 2014, a metrópole carioca apresentou média anual de 52 MP 10 por metro cúbico de ar, segundo dados do Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro (INEA).

Para efeito de comparação, na última edição dos Jogos, realizada há quatro anos em Londres, o nível de MP 10 era de 23 por metro cúbico de ar. Pelos dados, a cidade do Rio de Janeiro tem o segundo ar mais poluído de todas as sedes olímpicas desde 1988, quando o nível de MP 10 começou a ser aferido. Apenas Pequim, sede dos Jogos de 2008, supera os índices do Rio de Janeiro – na capital chinesa, a concentração de MP 10 chegou a 82 durante a disputa da competição.

De acordo com a OMS, o MP afeta mais pessoas do que qualquer outro poluente atmosférico. Em 2012, a exposição ao MP 10 causou 3,7 milhões de mortes prematuras em todo o mundo, estima a Organização.

“Definitivamente, isso não é ‘ar olímpico’”, apontou Paulo Saldiva, patologista da Universidade de São Paulo (USP), para a Reuters. “Muito se falou sobre a poluição da água no Rio, mas muito mais pessoas morrem por causa da sujeira do ar do que da água. Você não é obrigado a beber água da Baía de Guanabara, mas você é obrigado a respirar o ar do Rio”.

Usando metodologia da OMS, Saldiva calculou que a poluição atmosférica no RJ causou a morte de 5,4 mil pessoas em 2014. Esse número seria superior ao índice de mortes causadas pela violência urbana no ano passado (quase 3,2 mil óbitos), um problema crônico da capital fluminense.

A Reuters, em parceria com Saldiva, realizou 22 testes de uma hora cada separados para níveis do MP 2,5 (a partícula fina que apresenta o maior risco para a saúde) em pontos importantes dos Jogos no Rio de Janeiro: em frente ao Parque Olímpico e à Vila Olímpica; próximo à arena do vôlei de praia (Copacabana); e do lado de fora do estádio do Engenhão, sede das competições de atletismo e futebol. Para essa partícula, a OMS tem como limite seguro 25 MP 2,5 por metro cúbico de ar.

De acordo com a Reuters, os resultados mostraram que os atletas, os moradores do entorno e o público estão expostos a altos níveis de material particulado desse tipo. O Engenhão apresentou pico de 65 MP 2,5 durante um teste em 30 de junho, realizado no período da manhã, no mesmo horário em que acontecerá a competição de atletismo. Copacabana registrou nível 57 no mesmo dia, e a Vila Olímpica, 32.

A má qualidade do ar do Rio de Janeiro pressiona ainda mais o poder público sobre o legado esperado das Olimpíadas para a cidade. A situação das águas da Baía de Guanabara, palco das competição de vela e windsurf, virou polêmica internacional, com atletas temendo efeitos do contato com a água contaminada por dejetos de esgoto da cidade. O entorno do Parque e da Vila Olímpica, na Barra da Tijuca, também é alvo de críticas por poluição: as águas que banham essas instalações estão repletas de esgoto e material orgânico em decomposição, o que resulta em um cheiro fétido que certamente incomodará atletas e público.

Fonte: Envolverde

4 respostas em “Nem “medalha de honra”!

  1. Seria interessante se o problema da realização das Olimpíadas e Paraolimpíadas no Rio de Janeiro fosse apenas a situação do ar e da água na cidade…
    O Rio de Janeiro decretou em Abril estado de calamidade pública, ou seja o estado não tem condições de manter a si mesmo e necessita de intervenção federal. O sistema de saúde vive a pior crise da história segundo o jornal “O Dia”, com déficit orçamentário de R$ 700 milhões, dois dos grandes hospitais da cidade foram fechados e mais de 2 mil leitos maternos incapazes de receber gestantes enquanto isso a UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), enfrenta a maior crise de financiamento de sua história, segundo o reitor Ruy Garcia. A universidade entrou em greve no dia 4 de março e essa durou mais de 3 meses.
    No meio desse caos orçamentário, enfrenta-se ainda outro problema na cidade, o da violência responsável por mais de 3 mil mortes como afirma o artigo, sendo assim, é perceptível que as olimPIADAS acontecem em momento totalmente inoportuno.
    Soma-se a tudo isso, o fato dos gastos totais do jogos girarem em torno de US$ 700 milhões, segundo o COI, enquanto as receitas de ingresso representam apenas US$ 290 milhões. E você está ciente de onde virá todo o resto? Isso mesmo, do Estado, e por via de regra do contribuinte, ou seja, enquanto o estado do Rio não tem condições de arcar com os gastos da educação, saúde e segurança para a população, o mesmo se vê envolto em um megaevento desnecessário e que gerará déficit monetário!
    ????????????????????????????????????????????????????????????????????????
    Apesar da importância do “ar olímpico”, será que é este o maio problema atual do Rio de Janeiro?

  2. É preocupante saber que 5,4 mil pessoas morreram devido à poluição atmosférica no RJ. Assunto no qual se perdura no tempo através de noticiários, revistas ambientais, jornais e pesquisadores que alertam sobre o tema ainda distante de soluções. Ainda mais surpreendente, é o fato de que este número estaria acima do índice de mortes causadas pela violência urbana. A boa qualidade do ar vai muito além de uma mera necessidade de sobrevivência. É possível diminuir doenças desencadeadas por este fato, fazendo com que gastos com medicamentos sejam diminuídos . Vale ressaltar que em grandes centros urbanos como no Rio, a grande quantidade de carros ou indústrias que poluem o ar e a água, e a falta de tratamento de esgotos que não atendem as necessidades de toda a população é causa alarmante. Mas onde estão as fontes alternativas, e a melhoria constante do transporte público, por exemplo? A utilização de mecanismos para conter a poluição não é algo que se possa fazer de repente, necessita-se essencialmente de atitudes conscientes da sociedade em conjunto com a mão de obra do poder público para controle, destinação e medidas de preservação. Mas geralmente no Brasil, como a “última hora” tem sido o momento para as atitudes começarem a ser tomadas, a população é a mais prejudicada por ter que simplesmente “aguardar” eventos de alcances mundiais como este, para que possam sonhar, ou pelo menos tentar em desfrutar de uma qualidade de vida melhor.

  3. A poluição do ar influencia direta e indiretamente na saúde das pessoas. Em tempo de jogos olímpicos, a qualidade do ar é um dos fatores meteorológicos que pode interferir no desempenho dos atletas. Os índices de qualidade do ar boa, regular, inadequada, ruim e péssima representam uma combinação do nível da concentração dos vários poluentes que são medidos num determinado lugar. Além disso, é possível observar o enorme descaso das autoridades brasileiras com relação ao assunto, já que desde 2009 foram prometidas melhorias com relação à qualidade do ar, e que não foram cumpridas. A realização das Olimpíadas foi bastante elogiada, mas ao se tratar da qualidade do ar, o Brasil não mereceu medalha.

  4. Uma cidade como o Rio de Janeiro, conhecida como a cidade “maravilhosa” e com uma abertura de Olimpíadas tão impactante mudialmente por sua beleza, não poderia deixar de lado um elemento tão importante para a população que é a qualidade do ar.
    A poluição do ar influencia à todos diariamente, inclusive, é prejudicial aos atletas que praticam esportes ao ar livre, por exemplo.
    Esse assunto já é abordado continuamente e, com o descaso de sempre, sem as devidas medidas de prevenção, que acabam por gerar mortes de idosos, crianças e até grávidas por doenças respiratórias graves.
    Quem acaba sendo prejudicado? Nós mesmos, os contribuintes… que vivemos todos os dias em meio à essa poluição que nos faz tão mal. Devemos exigir mudanças o quanto antes!

Comente esta notícia!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s