“Temos de rechaçar a mentalidade do ‘nós contra eles’ que os cínicos tentam nos vender”


Postado originalmente em: 09/07/16

Nota introdutória do autor do post: Devido ao fato de meu posto de observação ser focado nas Américas, as marcações feitas no texto são focadas somente no que diz respeitos às Américas. Acrescento, no entanto, que a entrevista é interessante e vale a pena ser lida na íntegra.

Ao EL PAÍS, Obama fala sobre o avanço do populismo no mundo e as relações com a América Latina

obama

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, volta à Espanha —país que visitou nos anos oitenta, quando era um jovem mochileiro em busca de sua identidade— para uma visita mais breve do que se previa. Agora Obama (Havaí, EUA, 1961) chega ao momento em que seu mandato presidencial de oito anos se aproxima do final, em uma semana difícil para os Estados Unidos, depois das mortes filmadas de dois homens negros por disparos da polícia e da matança de cinco policiais por um franco-atirador durante um protesto contra o racismo em Dallas. Chega, também, a um país instalado há alguns meses na provisoriedade política, após duas eleições para definir a composição do Governo espanhol.

Em resposta por escrito às perguntas do EL PAÍS, Obama reforça a necessidade de que os Estados Unidos e seus parceiros europeus se reforcem e aumentem o investimento em defesa. Apesar de comemorar a volta do crescimento da economia espanhola, sustenta que as políticas de austeridade aplicadas na Europa, Espanha incluída, contribuíram para o descontentamento social. Opina que o voto favorável à saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) reflete a sensação, por parte de muitos europeus, de que a globalização lhes deixou em desvantagem.

O democrata Obama, que vê em seu país o candidato republicano Donald Trump colocar seu legado em perigo, reflete sobre a resposta que os Governos devem dar às forças do populismo. E comemora que um dos fatos de sua presidência, o restabelecimento das relações com Cuba, tenha retirado um obstáculo para situar as relações com a América Latina em um dos melhores momentos da história.

Pergunta. Senhor presidente, sua visita à Espanha acontece duas semanas depois das eleições gerais, com um Governo interino e em meio a uma enorme incerteza na Europa. O que o sr. espera do futuro Governo espanhol?

Resposta. Em primeiro lugar, quero dizer que tinha muita vontade de visitar a Espanha, um parceiro europeu indispensável, apesar dos terríveis assassinatos ocorridos nos Estados Unidos me obrigarem a encurtar minha estadia. Tive a oportunidade de percorrer o país com vinte e poucos anos, viajando de mochila pela Europa. Nunca esqueci da hospitalidade do povo espanhol nem de sua maravilhosa cultura, e sempre quis voltar. Michelle se emocionou profundamente com a acolhida dos espanhóis durante sua recente visita. Tivemos a honra de receber suas majestades o rei Felipe VI e a rainha Letícia na Casa Branca no outono passado, e agradeço muito o convite de vir à Espanha.

Apesar de o voto pelo Brexit ter criado, de fato, certa incerteza, é importante recordar que algumas coisas não vão mudar, como os laços indestrutíveis dos Estados Unidos com a Europa, que incluem uma profunda amizade e a sólida aliança entre os Estados Unidos e a Espanha. A relação entre nós existe há séculos. Estamos unidos por vínculos familiares e culturais, incluindo milhões de norte-americanos que celebram sua herança hispânica. A Espanha é um sólido aliado na OTAN, somos muito agradecidos por todas as décadas de acolhida às nossas Forças Armadas e importantes parceiros comerciais. Por isso, os Estados Unidos têm o firme compromisso de manter nossa relação com uma Espanha forte e unida.

Espero e prevejo que o próximo Governo espanhol terá esse mesmo empenho em uma relação sólida com os Estados Unidos e a Europa. Precisamos que a Espanha continue contribuindo para a campanha contra o ISIS, os esforços antiterroristas para prevenir atentados e os esforços da OTAN para fortalecer nossa posição de defesa e dissuasão. Precisamos de uma economia espanhola que cresça, que ajude a sustentar as relações comerciais, o crescimento na UE e o espírito empreendedor, para que a globalização crie postos de trabalho e oportunidades para todo mundo, não só para uns poucos no topo. Precisamos da cooperação da Espanha para enfrentar os desafios internacionais, desde os migrantes desesperados que cruzam o Mediterrâneo até a mudança climática. Tenho confiança de que, qualquer que seja o próximo Governo, a Espanha continuará sendo um aliado sólido.

P. Levando em conta que em uma entrevista recente à revista The Atlantic o sr. afirmou que os norte-americanos “nem sempre têm de ser os que estão na primeira fila”, e que devemos ter consciência de que os Estados Unidos não podem resolver automaticamente todos os problemas, que novas responsabilidades devem assumir Europa e Espanha para lidar com a instabilidade que vai da Síria ao Magreb e a ameaça do terrorismo local?

R. Diferentemente das ameaças tradicionais, como as guerras entre as grandes potências, os perigos mais agudos de hoje são transnacionais, como vemos no norte da África e no Oriente Médio. A guerra civil na Síria causou centenas de milhares de mortos, criou uma catástrofe humanitária, enviou ondas de migrantes e refugiados à Europa e permitiu que o ISIS [Estado Islâmico] tomasse o controle de uma faixa de território no coração do Oriente Médio. As desordens e os conflitos no Magreb empurraram para a fuga muitos homens, mulheres e crianças desesperados, buscando a segurança da Europa. De seus bastiões na Síria e no Iraque, o ISIS dirigiu ou inspirou atentados —alguns cometidos por militantes locais— em muitos países, nos Estados Unidos e em outros membros da OTAN.

Creio que a liderança dos Estados Unidos é indispensável para a segurança e a prosperidade do mundo. Por isso estamos à frente da coalizão mundial para destruir o ISIS, trabalhamos sem descanso em busca de uma solução diplomática para a guerra civil na Síria, oferecemos mais ajuda humanitária que qualquer outro país e promovemos um encontro mundial de refugiados no próximo outono para colocar em andamento novos compromissos.

De outro lado, é evidente que nenhuma nação —sequer uma tão poderosa quanto os Estados Unidos— pode resolver este tipo de problemas transnacionais sozinha. Precisamos de coalizões e acordos de parceria que aproveitem as melhores vantagens de cada país. Vivemos mais seguros quando os países compartilham a obrigação e os custos de manter a segurança e a paz internacional. Por isso agradecemos à Espanha sua contribuição com pessoal para ajudar a treinar as forças iraquianas em sua luta contra o ISIS. É o primeiro país à frente da nova força militar conjunta da OTAN, que estará preparado para ser implantando rapidamente em toda a Europa, e as tropas espanholas são cruciais para as tarefas de segurança marítima da UE e da OTAN no Mediterrâneo. Além disso, a Espanha tem um histórico de destaque nos trabalhos de manutenção da paz, na Bósnia, Líbano e África, entre outros locais. À medida que aumentam as ameaças atuais, precisaremos que a Espanha e nossos aliados europeus continuem envolvendo-se e isso inclui investir mais em nossa defesa comum.

P. O sr. se mostrou cético quanto às políticas de austeridade da UE durante a Grande Recessão e, de fato, adotou políticas opostas nos Estados Unidos. Como avalia o impacto destas políticas na Europa, e especialmente na Espanha?

R. Colaboramos estreitamente no G7 e no G20 com nossos parceiros europeus para tirar a economia mundial do abismo e nos recuperar da pior crise financeira desde a Grande Depressão. Entre outras coisas, fizemos um esforço coletivo para estimular a demanda mundial.

Nos Estados Unidos procedemos em seguida à reforma de nosso setor financeiro, investindo na produção industrial, nas energias limpas, no transporte e na infraestrutura, e em renovar a capacitação dos trabalhadores. Hoje atravessamos o período mais longo de nossa história de criação de emprego do setor privado. Nossas empresas criaram mais de 14 milhões de novos postos de trabalho. Reduzimos nosso índice de desemprego à metade. Os salários começaram a subir. Reduzimos o déficit em quase 75%. Nosso PIB é superior ao de antes da crise. Ainda resta muito a fazer para reduzir a desigualdade econômica e social e ajudar os trabalhadores e as famílias que têm dificuldades para seguir adiante, mas estamos em boa direção.

É verdade que alguns países europeus adotaram uma estratégia econômica diferente, com medidas de austeridade. Creio que essa é uma das razões por que a Europa está tendo um crescimento mais lento. Em certos lugares, estão há uma década estagnados. A Europa começa agora a voltar para onde estava antes da crise. E, em minha opinião, esse foi um fator importante das frustrações e das inquietudes visíveis em muitos países europeus, a preocupação de que os benefícios da integração das economias e da globalização não atingem a todos por igual.

A Espanha, sem dúvida, teve uma trajetória especialmente difícil nos últimos anos. A crise bancária e a recessão atingiram de forma brutal muitos espanhóis, que perderam suas economias e seus postos de trabalho. No entanto, graças a uma combinação de fatores —difíceis reformas estruturais, consolidação fiscal, investimentos e, sobretudo, a capacidade de adaptação dos espanhóis—, a Espanha superou uma etapa. A economia está voltando a crescer, com um dos índices de crescimento mais altos da Europa. Há novas esperanças para o futuro. Sem dúvida, o desemprego continua alto demais, sobretudo entre os jovens. Na Espanha, na Europa e em todo o mundo, vou continuar defendendo políticas que pensem em nossa população, impulsionem o crescimento e criem emprego, como o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento.

P. No contexto do Brexit, com o populismo e o mal-estar econômico, o sr. acredita que o projeto europeu está em perigo?

R. Como disse, creio que uma Europa integrada é um dos maiores triunfos políticos e econômicos de nossa época, e nunca devemos dá-la por concluída. Mas não resta dúvida de que esse projeto de integração está sendo colocado à prova mais do que nunca. Não é momento de complacências. A chegada de imigrantes e refugiados à Europa voltou a concentrar a atenção na política de fronteiras da UE e na capacidade dos Estados-membros de trabalhar juntos para enfrentar desafios compartilhados. O crescimento lento em todo o continente deixou europeus demais, sobretudo jovens, sem trabalho e cheios de frustração. Em todos os nossos países há muitas pessoas que se sentem desfavorecida pela globalização e pela automatização. Muitos desses fatores contribuíram para que o Reino Unido votasse por abandonar a UE.

Faríamos mal em não levar em conta essas forças. Os Governos e as instituições da UE devem demonstrar que estão em contato com as preocupações diárias dos cidadãos e sabem reagir devidamente. Em vez de impedir o comércio ou recorrer ao protecionismo —que sequer é possível em uma economia globalizada—, nossos países, entre eles os Estados Unidos, precisam se esforçar mais para garantir que a globalização, as economias integradas e o comércio criem emprego e oportunidades para todos. Precisamos investir mais em educação, aptidões e formação profissional, que ajudam a reduzir as desigualdades e a fazer com que as pessoas prosperem em uma economia globalizada. E temos de rechaçar a mentalidade do nós contra eles que alguns políticos cínicos tentam nos vender. Temos de ser fiéis aos valores eternos que definem nossas sociedades, cheias de vida e diversidade, e que inspiram em grande parte nossa força: nosso compromisso com a democracia, o pluralismo, a inclusão e a tolerância.

P. Como repercutiu o degelo das relações entre Estados Unidos e Cuba na América Latina, Colômbia e Venezuela, e na posição dos Estados Unidos no hemisfério ocidental?

R. Nossa decisão de colocar fim a meio século de políticas falidas dos Estados Unidos, restabelecer as relações diplomáticas com Cuba e dar início a uma nova era de diálogo com o povo cubano teve um efeito transformador. O mais importante é que alguns laços mais estreitos entre os dois países, mais relações comerciais e mais viagens de norte-americanos para Cuba em intercâmbios educativos e culturais, significarão mais oportunidades econômicas para os cubanos. Cuba não vai mudar da noite para o dia, mas, como vi em minha visita a Havana, os cubanos têm novas esperanças para o futuro, e estamos decididos a colaborar com eles para criar mais oportunidades e mais prosperidade em toda a ilha.

Mas, em geral, já estamos vendo como os vínculos mais fortes entre Estados Unidos e Cuba podem beneficiar toda a região. Estamos intensificando nossa cooperação para prevenir a propagação de doenças, proteger as águas do Caribe e perseguir os narcotraficantes. O Governo cubano acolheu em Havana as negociações de paz entre o Governo da Colômbia e as FARC, às quais os Estados Unidos se uniu —algo que teria sido impensável há alguns anos— e hoje a Colômbia está a ponto de obter uma paz histórica. Apesar de não ter falado muito sobre a Venezuela com o presidente [Raúl] Castro quando estive na ilha, todos os países da região estão interessados em que a Venezuela resolva seus desafios econômicos. Os Estados Unidos continuam pedindo ao Governo e à oposição que entabulem um diálogo profundo. Instamos o Governo da Venezuela a acatar o Estado de direito e a autoridade da Assembleia Nacional, deixar em liberdade os presos políticos e respeitar o processo democrático, incluindo as tentativas legítimas de convocar um referendo revogatório com relação às leis venezuelanas.

Por último, gostaria de destacar que nossa nova estratégia em relação a Cuba eliminou uma armadilha em nossas relações com outros países da região. Os Governos de toda a América receberam com entusiasmo nossa mudança de política. Hoje, os Estados Unidos estão muito mais envolvidos na região do que nas últimas décadas, e a relação entre EUA e as Américas é melhor do que nunca. Em vez de ficarmos parados nos conflitos do passado, olhamos para o futuro. A Espanha faz parte deste novo momento tão promissor na América Latina, e agradecemos a ela que seja um parceiro sólido, disposto a trabalhar conosco pela segurança, a prosperidade e a dignidade que os latino-americanos merecem.

Fonte: El País

3 respostas em ““Temos de rechaçar a mentalidade do ‘nós contra eles’ que os cínicos tentam nos vender”

  1. Neste comentário, irei focar na fala de Obama que se encontra em destaque no título deste post: “E temos de rechaçar a mentalidade do nós contra eles que alguns políticos cínicos tentam nos vender. Temos de ser fiéis aos valores eternos que definem nossas sociedades, cheias de vida e diversidade, e que inspiram em grande parte nossa força: nosso compromisso com a democracia, o pluralismo, a inclusão e a tolerância.” Essa lógica, esse dispositivo moderno, do “nós contra eles” trazido com o início do Estado Moderno, foi usado para sua fundamentação e para a legitimação de inúmeros massacres e violências, como o descobrimento (lê-se invasão) das Américas. É de certa forma triste constatar que essa lógica, para alguns, faz sentido até os dias de hoje, estando presente em discursos políticos que se aliam a um caráter uniformizador, normalizador e anti-pluralista, para proteger os interesses na maioria das vezes de uma classe dominante. A parte referente ao “nós” do dispositivo, só faz sentido se eu tenho uma identidade nacional, forjada pelo Estado, que busca um amparo/apoio popular para suas decisões.

  2. A parte que merece destaque nessa entrevista de Obama ao El País é, sem dúvida alguma, a mudança de comportamento dos Estados Unidos em relação à Cuba e ao resto da América Latina. Por muitos anos, tal região foi marcada por intervenções norte-americanas, como apoio financeiro e-ou bélico a golpes ou invasões militares que assegurassem seus interesses na região. Em Cuba particularmente, com o fracasso da invasão da Baía dos Porcos e o posterior embargo econômico imposto pelos EUA, que permanece até hoje, estremeceram-se profundamente as relações internacionais dos dois países. Sendo assim, após de anos de tensão e ineficácia na prática com o país, os Estados Unidos começaram a mudar suas políticas bilaterais a fim de garantir um equilíbrio regional, o que é crucial em termos de cooperação internacional, tal como propõem Robert Keohane e Joseph Nye.

  3. Observamos atraves desta entrevista que oque os governantes responsáveis deveriam tentar para resolver as questões relevantes em nossos tempos obrigatoriamente seria o caminho diplomático. Infelizmente algums nao pensam desta forma.mesmo os que pensam e agem desta forma encontram muitos obstáculos. O que em muitos casos atrapalha esta maneira de pensar é o populismo,governantes no desejo de se reeleger acabam tomando posições que a curto prazo agradam uma fatia da população mas a longo prazo destroem toda uma sociedade. É muito fácil desejar um mundo perfeito mas não construí-lo. Ó próprio Obama só toma a decisao de reaproximação de cuba no final de seu governo,quando não sofre mais pressão de se manter no cargo. O mundo seria bem melhor se nao fossem as ambições pessoais.

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