EUA e Venezuela: uma aproximação delicada


Postado originalmente em: 28/06/2016

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Ao se reaproximar do governo venezuelano, Washington tenta influenciar o país sul-americano para obter uma mudança de poder, mas sem provocar uma convulsão social e política na região.

Aqueles que comemoraram a aproximação entre Estados Unidos e Cuba em 2015, antecipando mudanças políticas significativas na ilha, hoje olham com ceticismo para o esforço dos americanos para restaurar seus vínculos com a Venezuela e mediar seu conflito interno. As relações entre Washington e Caracas têm sido tão frias que, desde 2010, ambos se abstiveram de designar embaixadores mutuamente.

Os críticos da política dos Estados Unidos para Cuba agora acusam seus artífices de quererem repetir seus efeitos na Venezuela. O argumento deles é que, assim como os EUA teriam dado oxigênio ao governo cubano num momento de debilidade, a aproximação de Washington e Caracas dará tempo ao governo chavista para encontrar uma maneira de se segurar no poder em vez dar apoio ao clamor popular por um referendo que interrompa a atual gestão.

De pouco serviu que o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, tenha pedido ao governo venezuelano que permita a realização do plebiscito. Desde que se pronunciou contra a ativação dos mecanismos punitivos da Organização dos Estados Americanos (OEA) – prevendo que estes causariam o colapso do Estado sul-americano antes que este sucumba a sua crise política –, Kerry é criticado por haver dado apoio ao presidente Nicolás Maduro.

“Por enquanto, a prioridade dos EUA é voltar a ter uma missão diplomática completa e permanente na Venezuela. Não ter um embaixador em Caracas equivale a estar fora do jogo político venezuelano, e isso restringe a influência de Washington no continente”, observa Victor Mijares, professor de relações internacionais da Universidade Simón Bolívar, em Caracas, rejeitando as críticas a Kerry.

Cuba e Venezuela são diferentes

Thomas Fischer, diretor do Instituto Central de Estudos Latino-Americanos (Zilas), ligado à Universidade Católica de Eichstätt, admite que Maduro ganhou tempo, mas atribui a aparente parcimônia no diálogo Washington-Caracas às deficiências da elite política venezuelana. “Ao contrário do que acontece em Cuba, aqueles que têm o poder formalmente na Venezuela não exercem o controle por completo”, avalia Fischer.

“A negociação com o chavismo é dificultada pelas contradições dentro dele. Com quem seria possível dialogar? Com Maduro, que é refém das diversas correntes do chavismo? Dentro e fora do partido do governo há forças pressionando para que a ‘revolução socialista’ seja aprofundada e até mesmo para suspender os elementos democráticos dela, como as eleições”, aponta Mijares, concordando com Fischer.

“A questão da Venezuela coloca a comunidade interamericana diante de vários dilemas: Washington tem interesse que Maduro deixe de ser presidente, mas não quer que isso aconteça por um golpe, porque isso iria perturbar a Venezuela e quase todas as economias do Caribe”, diz Mijares.

E nem os EUA nem seus vizinhos querem se ver obrigados a financiar intervenções humanitárias ou receber refugiados no futuro próximo.

“Por outro lado, Washington também tem interesse que Maduro saia de presidência ainda este ano, porque sua saída seria uma válvula de escape para o desconforto da população venezuelana. Creio que Kerry teme mais uma explosão social iminente, como o ‘Caracazo’ de 1989, que a luta entre governo e oposição. A cautela da Casa Branca se deve a esses interesses contraditórios”, acrescenta o cientista político de Caracas.

Morde e assopra

Embora alguns analistas estejam convencidos de que os Estados Unidos vão recorrer à tática do “morde e assopra” para conseguir que o governo de Nicolás Maduro chegue a um acordo com os antichavistas para estabilizar o país, não está claro que incentivos eles podem empregar. “Com Estados fracos, como a Venezuela, é difícil negociar. A Casa Branca deve estar considerando quais recursos persuasivos pode usar”, especula Fischer.

Mijares vê excesso de otimismo por parte do Departamento de Estado dos EUA em suas expectativas de mediar a situação na Venezuela. “Nem o governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) nem a aliança de partidos antichavistas são capazes de chegar a um acordo sobre uma transição política ou uma alternância no poder”, avalia o pesquisador da Universidade Simón Bolívar.

“Kerry continuará pressionando; mas não apelando para a ativação da Carta Democrática Interamericana. Os membros da OEA querem a estabilização da Venezuela, mas não querem criar um precedente que permita às oposições na região iniciar moções contra governos”, explica Mijares. Seria uma oferta de apoio financeiro para uma Venezuela empobrecida tudo o que Washington pode usar como um incentivo? Não acredito. Os Estados Unidos também podem convencer o regime chavista a colaborar, prometendo perdoar ou continuar a perseguir individualmente civis e militares em suas fileiras que estejam envolvidos no tráfico de drogas”, ressalta Mijares.

Fonte: DW

4 respostas em “EUA e Venezuela: uma aproximação delicada

  1. É difícil mensurar até que ponto uma crise é assunto interno ou externo. Mais difícil ainda é analisar os efeitos de uma intervenção externa mais objetiva no país em crise. Vide guerras civis intermináveis, fundamentalismo religioso, criação e fortalecimento de grupos (ditos) terroristas entre outros efeitos que sucederam algumas intervenções militares, quase sempre norte-americanas
    É possível que os Estados Unidos da América, observando o cenário dos últimas anos, não opte por uma interferência direta para evitar repercussões negativas. Existe a hipótese de simplesmente não haver interesse norte-americano neste tipo de intervenção pois talvez os custos sejam muito maiores do que eventuais ganhos.
    Pessoalmente, acredito que esta aproximação seja simplesmente o modus operandi da política internacional norte-americana, qual seja saber o máximo possível do que acontece no máximo possível de países para decidir com precisão onde agir e, talvez, como maquiar a ação.
    Apesar de não existirem dúvidas que grande parte dos maiores cérebros da atualidade trabalham no desenvolvimento da política internacional norte-americana, é possível acreditar que nem sempre ocorre o que se espera.

  2. De acordo com a com a teoria das RI Realista, principalmente a neo-realista, os Estados movem-se por interesses de poder, buscando preservar sua autonomia nacional e atuar de acordo com a balança de poder (realpolitik). Os acadêmicos dessa doutrina não negam que os Estados possam cooperar uns com os outros, mesmo em um sistema internacional anárquico, mas o fazem a partir de interesses de poder a fim de proteger suas próprias autonomias.
    Nesse sentido, mostra-se clara a tentativa dos EUA em se reaproximar do governo venezuelano, objetivando estabelecer novamente uma missão diplomática neste país. Por trás desse ato de harmonia e cooperação, típico de um pensamento liberal ‘’utópico’’, esconde um interesse tipicamente realista. Os EUA angariam mediar o conflito interno da Venezuela, mas não com o interesse puramente humanitário e pacifista, mas buscando evitar uma maior convulsão popular, pois isso iria perturbar ainda mais a economia da Venezuela e de outros parceiros estadunidenses do Caribe, além de forçar os EUA a financiar intervenções humanitárias ou receber refugiados em um futuro próximo.

  3. Kenneth Waltz, em sua obra “Man, The State And War” de 1959, já debatia sobre a importância da diplomacia na defesa de interesses internos. Segundo Waltz, a política externa dos Estados interfere diretamente em sua política interna, e se utiliza de uma analogia para descrever as relações entres os Estados soberanos, ele compara a diplomacia praticada por esses Estados a um jogo de xadrez, onde o movimento de uma peça interfere diretamente nas possibilidades das demais. A tentativa de aproximação dos EUA com a Venezuela não passa de uma jogada no xadrez da diplomacia. Com essa tentativa de aproximação, os EUA esperam aumentar sua influência na américa latina e a oposição ao governo de Maduro, que se posiciona a favor dessa aproximação, por sua vez, espera a interferência dos EUA para a deposição do presidente.

  4. Como país mais forte das Américas, os Estados Unidos, historicamente, têm influenciado nas políticas dos demais países do continente no intuito de controlá-los de acordo com o que é mais cabível para ele econômica e politicamente. Isso aconteceu muito nas últimas décadas, quando diversos países da América Latina passavam por ditaduras, que tinham profundo investimento americano, pois, dessa maneira, era mais fácil controlá-los. Entretanto, a Venezuela ainda se encontra em um regime ditatorial, mas sendo socialista, os Estados Unidos têm dificuldade de se conectar com seu governante. Desse modo, tem se mostrado mais cuidadoso no contato para que possa exercer total controle sobre as Américas, sendo uma aproximação crucial para atingir esse objetivo. De maneira geral, com seus interesses em divergência, seria interessante e vantajoso para Washington que a ditadura venezuelana permanecesse, para evitar um golpe ou refugiados, mas que essa intervenção fosse amplamente aceita. Entretanto, é nesse ponto que se dá a dificuldade, pois como país socialista, a Venezuela se mostra na defensiva em relação à intervenção do país capitalista mais poderoso do mundo. Portanto, para se ter essa aliança entre os dois países, os Estados Unidos terão que negociar furtivamente com Maduro, dada a delicadeza da relação.

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