Taxas de aborto em países desenvolvidos caem mais que nos países em desenvolvimento


Publicado Originalmente: 23/05/2016

As taxas de aborto caíram significativamente na maior parte das regiões mais desenvolvidas do mundo entre 1990 e 2014. No entanto, durante o mesmo período, permaneceram amplamente inalteradas nas regiões em desenvolvimento.

Essa é a conclusão de um novo estudo do Instituto Guttmacher e da Organização Mundial da Saúde (OMS). A pesquisa concluiu que, entre 1990 e 2014, a média de abortos para cada 1 mil mulheres em idade reprodutiva (15-44 anos) em países desenvolvidos caiu de 46 para 27, enquanto nos países em desenvolvimento ficou praticamente estável, passando de 39 para 37.

As conclusões do estudo aparecem no artigo “Incidência do aborto entre 1990 e 2014: níveis e tendências globais, regionais e sub-regionais”, de Gilda Sedgh, publicado em 11 de maio na revista médica “The Lancet”.

“Essas tendências sugerem que mulheres e casais nos países desenvolvidos passaram a ter mais sucesso em evitar gravidez indesejada — a causa da maior parte dos abortos — nas últimas duas décadas”, disse Sedgh, pesquisadora que lidera o estudo no Instituto Guttmacher.

“Altas taxas de aborto estão diretamente correlacionadas com altos níveis de necessidades contraceptivas não atendidas. Nossas conclusões indicam que, em muitas regiões em desenvolvimento, as mulheres têm menos acesso a serviços contraceptivos e não são capazes de evitar a gravidez indesejada.”

Restrições legais

Quando os países são reunidos de acordo com suas leis de aborto, os pesquisadores concluíram que não há diferenças suficientes nas taxas de 2010-2014 entre os países em que a interrupção voluntária da gravidez é legal e onde é proibida.

Em países onde o procedimento foi totalmente proibido ou autorizado somente em caso de risco de morte, a taxa de aborto era de 37 para cada 1 mil, e em países onde era autorizado, a taxa era de 34 para 1 mil em 2010-2014.

Estima-se que, nos países em desenvolvimento — onde as leis de aborto tendem a ser mais restritas —, cerca de 6,9 milhões de mulheres foram tratadas por complicações ligadas a abortos inseguros em 2012, a uma taxa de 6,9% para cada 1 mil mulheres com idade entre 15 e 44 anos.

“Estimativas sobre a proporção dos abortos inseguros estão sendo desenvolvidas, mas é provável que onde o acesso ao aborto seguro é limitado, as mulheres recorram a procedimentos clandestinos que são frequentemente perigosos”, disse Bela Ganatra, coautora do estudo, ao site do Instituto Guttmacher.

“Realizar mais investimentos em serviços de planejamento familiar de qualidade ajudaria a reduzir as taxas de gravidez indesejada e, portanto, as taxas gerais de aborto”, completou.

“Garantir que as mulheres e casais tenham acesso a uma série de métodos e recebam informação compreensiva sobre como usar o método escolhido consistentemente e corretamente é uma política de saúde pública sensata.”

Enquanto enfatizaram a importância dos esforços para garantir acesso universal a serviços de planejamento familiar, os pesquisadores também notaram que seus resultados trazem mais evidências de que mesmo se todas as mulheres e casais que desejam evitar a gravidez tivessem acesso à contracepção, a gravidez indesejada e os abortos continuariam a ocorrer.

Nesse cenário, o acesso ao aborto seguro é essencial para que a mulher não tenha de recorrer a procedimentos perigosos, concluíram.

Dados regionais

Entre 2010-2014, um quarto de todas as gestações no mundo acabou em aborto. O percentual caiu nos países desenvolvidos, de 39% em 1990-1994 para 28% em 2010-2014.

Por outro lado, mudou pouco nos países em desenvolvimento, de 21% para 24% no mesmo período. Contudo, a proporção de gravidez encerrada em aborto aumentou na América Latina e no Caribe (de 23% para 32%), Ásia Central e Meridional (de 17% para 25%) e África Austral (de 17% para 24%).

Taxas globais

Os pesquisadores concluíram que apesar de as taxas globais de aborto terem caído levemente durante o período de 25 anos analisado, o número absoluto de abortos por ano aumentou como resultado do crescimento populacional. Globalmente, o número anual de abortos subiu quase 6 milhões, de 50,4 milhões em 1990-1994 para 56,3 milhões em 2010-2014.

A taxa estimada de aborto em 2010-2014 era de 35 para cada 1 mil mulheres. Considerando o estado civil, era de 36 para cada 1 mil mulheres casadas e de 25 para cada 1 mil solteiras. Setenta e três por cento de todos os abortos, ou 41 milhões, eram realizados por mulheres casadas.

FONTE: ONU

3 respostas em “Taxas de aborto em países desenvolvidos caem mais que nos países em desenvolvimento

  1. O estudo realizado pelo instituto Guttmacher e da Organização Mundial da Saúde (OMS) deixa claro que as taxas de aborto estão caindo significativamente em países desenvolvidos e continuam as mesmas ou quase sem alteração nos países em desenvolvimento entre os anos de 1990 e 2014. A Causa da maior parte dos abortos certamente é a gravidez indesejada, relacionadas à falta de acesso a informações e serviços de métodos contraceptivos e também a falta de planejamento familiar. Muitas mulheres acabam recorrendo a abortos clandestinos e colocando sua vida e saúde em risco, mesmo tendo consciência da ilegalidade. Portanto a criminalização do aborto nem sempre reduz estes números, mas pelo contrário, aumenta a mortalidade e o risco ao qual as mulheres se expõem nos abortos clandestinos. Os países em desenvolvimento para diminuir essas taxas, devem investir cada vez mais em serviços e informações de métodos contraceptivos, promover programas de assistência a mulheres grávidas e também criar centros de ajuda para o planejamento familiar.

    • O fato está diretamente relacionado com o maior acesso à métodos contraceptivos em países desenvolvidos. Por outro lado, os países em desenvolvimento, nos quais as taxas de aborto ainda são altas, para diminuir essas taxas devem investir cada vez mais em serviços e informações de métodos. Segundo pesquisadores a alta taxa de abortos nos países mais pobres ilustra a necessidade de acesso a métodos contraceptivos modernos, como a pílula, implantes e outros dispositivos, como o DIU. Quase 90% das gestações indesejadas acontecem entre mulheres que não têm acesso a métodos contraceptivos modernos, e muitas delas terminam em abortos. Um recente estudo realizado com a colaboração da Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que mesmo nos locais onde há leis restritivas o número de abortos realizados não se torna menor em virtude disso.

  2. Este artigo se faz perceber que a criminalização do aborto, nem sempre e motivo para reduzi-lo. O estudo realizado pelo Instituto demonstra que as taxas de aborto estão caindo em países de desenvolvimento mais continuam em países sub desenvolvidos. Sendo que a grande maioria dos abortos são realizados por se tratar de gravidez indesejada, relacionada a falta de informação. Já os países desenvolvidos tendem a ter este numero reduzido, pelo fato da atuação das politicas de saúde, informação e consciência sobre a utilização dos métodos contraceptivos.

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