Pobreza permanece concentrada no Norte e no Nordeste do Brasil, diz estudo de centro da ONU


Entre 2004 e 2013, os índices de pobreza no país caíram de 20% para 9% da população e de 7% para 4% no caso da pobreza extrema. No entanto, os principais aspectos ou perfis da pobreza continuam os mesmos: ela está mais presente no meio rural e nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

No estudo, os autores indicam que o investimento na agricultura familiar pode potencialmente contribuir para a redução da extrema pobreza nessas regiões.

Publicado originalmente em: 03/05/2016

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Entre 2004 e 2013, os índices de pobreza caíram de 20% para 9% da população e de 7% para 4% no caso da pobreza extrema. No entanto, os principais aspectos ou perfis da pobreza continuam os mesmos: ela está mais presente no meio rural e nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Essa é a conclusão de estudo divulgado em abril pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG), vinculado ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

“A redução da pobreza não acompanhou as alterações em seus principais aspectos ou perfis”, disseram os especialistas no estudo. “Em termos regionais, pouco mudou, com as regiões Norte e Nordeste apresentando as maiores taxas de prevalência da pobreza, bem como as áreas rurais em todas as regiões.”

Critérios adotados

O estudo considerou como extremamente pobres pessoas que ganham 70 reais por mês e pobres aquelas que vivem com 140 reais mensais, de acordo com critérios adotados pelo governo federal.

Quanto ao meio rural, o estudo considerou como domicílios agrícolas aqueles onde há pelo menos um membro empregado no setor agrícola e 67% ou mais da renda do trabalho vindo de atividades agrícolas.

Já os domicílios pluriativos são aqueles em que pelo menos um membro está empregado no setor agrícola, mas menos de 67% da renda do trabalho vem da agricultura.

O estudo considerou ainda domicílios rurais não agrícolas como aqueles que se localizam em áreas oficialmente rurais, mas sem qualquer membro do domicílio trabalhando na agricultura. Já os domicílios urbanos não agrícolas estão localizados em áreas oficialmente urbanas, com nenhum membro domiciliar empregado na agricultura.

Conclusões do relatório

O estudo concluiu que no período analisado a pobreza caiu mais nos domicílios agrícolas, assim como a extrema pobreza. Por outro lado, a pobreza e a extrema pobreza nos domicílios pluriativos permaneceu estável.

“Quase a totalidade dos residentes em domicílios agrícolas e pluriativos extremamente pobres do Nordeste têm terra insuficiente, trabalham informalmente e residem em domicílios com idosos, mas sem qualquer aposentadoria”, disseram os pesquisadores.

Em 2013, 37% dos domicílios pluriativos recebiam recursos do Programa Bolsa Família, enquanto nos domicílios agrícolas esse percentual era de 22%.

“Benefícios assistenciais como Bolsa Família ajudam, contudo, não são suficientes para retirá-los da extrema pobreza. Deve haver políticas sociais voltadas para os pequenos agricultores, que considerem as fragilidades dessas famílias, que buscam a sua sobrevivência na agricultura familiar”, disseram.

“A pluriatividade nordestina parece surgir como única alternativa de sobrevivência das famílias em situação de extrema pobreza.”

No Norte, a pobreza caiu menos que no Nordeste e no Brasil como um todo. Segundo o levantamento, a persistência da pobreza extrema no Norte, particularmente entre os domicílios pluriativos e aqueles não agrícolas, é especialmente preocupante. Já as taxas de pobreza são praticamente as mesmas em 2004 e 2013.

“Embora o Norte seja menos pobre do que o Nordeste, o progresso tem sido mais lento lá em comparação às demais regiões do país”, disse o estudo.

Acesso a consumo e saneamento básico

Enquanto entre 2004 e 2013 o percentual de domicílios agrícolas do Norte com geladeiras aumentou de 42% para 78%, o percentual com esgotamento sanitário aumentou de 20% para 26%.

Já no Nordeste, o acesso das famílias agrícolas ao esgotamento sanitário aumentou de 24% para 36% no período, deixando a região dez pontos percentuais à frente da região Norte, que é relativamente mais rica.

“O Nordeste obteve melhores resultados. Nessa região, há mais acesso a infraestrutura pública que no Norte, provavelmente em razão do fato de que o Nordeste não tem que superar as longas distâncias que os governos do Norte precisam superar”, disseram os pesquisadores.

Com relação à posse de geladeira, 89% dos domicílios no Nordeste têm ao menos uma geladeira. No Norte, esse percentual é de 78% e, no Brasil, chega a 92%.

Análise por municípios

O estudo indicou — a partir da análise dos mapas de pobreza e extrema pobreza em âmbito municipal — que o problema da pobreza rural no Brasil é, em grande medida, um problema dos domicílios agrícolas no Norte e Nordeste.

Poucos municípios nas outras três regiões do Brasil apresentam taxas de pobreza superiores a 30% e, em muitos essas taxas são inferiores a 15%. No Norte e Nordeste, no entanto, muitos municípios apresentam taxas de pobreza superiores a 60% e alguns ainda têm taxas tão altas quanto 90%.

“As diferenças são muito acentuadas entre os domicílios agrícolas. A Amazônia ocidental e o estado do Maranhão são áreas que apresentam níveis muito elevados de pobreza agrícola”, afirmou o estudo.

Acesse o documento clicando aqui.

Fonte:ONU Brasil

3 respostas em “Pobreza permanece concentrada no Norte e no Nordeste do Brasil, diz estudo de centro da ONU

  1. De fato, a maior concentração da pobreza do Brasil é evidenciada nas regiões apontadas no estudo. Ficou claro que a única forma de alternativa de sobrevivência seria mesmo a pluriatividade, que é a combinação de atividades agrícolas e não agrícolas pela mesma família. Ao considerarmos o Brasil, a maioria das ocupações complementares das famílias agrícolas é de baixa qualificação e, ou de nenhuma qualificação, pois estamos tratando de pessoas inseridas num quadro de “extrema” pobreza, portanto, mínima remuneração, o que também justifica os índices apontados. As atividades agrícolas são fundamentais para a geração de renda para as famílias destas regiões, porém, existe uma série de fatores que dificultam a produção agrícola, o que leva estas pessoas a buscar alternativas de complementação da renda familiar, o que faz com que o trabalho externo se torne, na maioria dos casos, uma necessidade estrutural.
    Agora, ao falarmos de “extrema pobreza”, como bem enfatizado no texto, a questão é mais séria, pois estas famílias além dependem de benefícios do governo, de políticas sociais, a tentativa de sobrevivência com a chamada agricultura familiar não é suficiente, foi considerado nesta classificação pessoas que vivem com R$ 70,00 por mês. Estas pessoas, nesta classificação, possivelmente já estão inseridas no programa bolsa família, que neste caso, será no valor de R$ 77,00.
    O estudo realizado considerou também acesso a consumo e saneamento básico, fazendo um comparativo entre uma região e outra, o que levou a um resultado mais favorável para o nordeste, tendo em vista, segundo os pesquisadores, que há mais acesso a infraestrutura pública que no Norte, provavelmente em razão do fato de que o Nordeste não tem que superar as longas distâncias que os governos do Norte precisam superar.
    Bom, de fato, a questão do saneamento interfere diretamente na questão, pois ao considerarmos que um dos meios alternativos de geração de renda para famílias pobres é a agricultura familiar, como manter qualquer atividade sem estrutura mínima necessária?

    Angélica S. Costa

  2. A região Nordeste do Brasil mantém, em termos médios, problemas sociais históricos: defasagem e pouca diversificação da agricultura e indústria, grandes latifundiários, concentração de renda, agravados no sertão nordestino pelo fenômeno natural de secas constantes. As distintas características geopolíticas do Nordeste formaram, especialmente na metade no século 20, um cenário propício à migração nordestina às áreas urbanas. No entanto, no que tange à qualidade de vida de sua população, a região Nordeste vem melhorando nos últimos anos. Ela ainda apresenta os mais baixos indicadores socioeconômicos do país, tais como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Os baixos indicadores são mais graves nas áreas rurais e no Sertão nordestino, que sofre longos períodos sem chuva; no entanto, seus indicadores são melhores que os de países como África do Sul, que é a maior economia do continente africano. Estudos consideram Nordeste e Norte as linhas oficiais de pobreza e extrema pobreza declaradas pelo Governo Federal. De acordo com essas linhas, famílias cuja renda domiciliar mensal per capita era de até 140 reais em 2010 estavam em situação de pobreza e aquelas cuja renda era de até 70 reais se encontravam em situação de extrema pobreza.

  3. Apesar das melhoras e programas sociais a condição ainda é muito précaria, e exige que a questão seja enfrentada mais profundamente. O Brasil apresenta marcas históricas que remontam ao processo colonizador, o qual destinou a esse espaço geográfico, por vários séculos, apenas a função de produção e suprimento de bens primários necessários ao atendimento dos interesses da metrópole lusitana. Tal lógica colonizadora, além de formar e estabelecer uma estrutura econômica voltada ao exterior, deixou marcas sociais que ainda estão presentes nos dias atuais. Dentre essas marcas, destacam-se a pobreza, a concentração de renda e a exclusão social. Estes são fortes indicativos de que não podemos continuar tratando o problema como um mero indicador monetário, abstraído a partir da renda per capita familiar. A busca de soluções para a questão da pobreza rural concentrada nas regiões Norte e Nordeste não pode ser dissociada dos marcos da estrutura agrária secular, que é um dos elementos determinantes da própria pobreza a ser erradicada.

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