Brasil: Império do Caos ataca novamente


Publicado originalmente em: 26/04/2016

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Pouco depois de a moção pró-impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff ser aprovada no Congresso do Brasil, por deputados que resolvi chamar de hienas da Guerra Híbrida, o presidente-coroado Michel “Até tu, Brutus?!” Temer, um dos articuladores do golpe, mandou um de seus senadores a Washington como garoto-de-recados especial, para dar notícias sobre o golpe em andamento. O senador em questão não cumpria missão oficial da Comissão de Relações Exteriores do Senado do Brasil.

Michel “Até tu, Brutus?!” Temer assustou-se com a reação da mídia global, a qual está vendo cada dia mais vê claramente que o golpe que ele está fazendo é o que é (golpe) – aliado de Brutus-2, presidente notoriamente corrupto da Câmara de Deputados do Brasil, Eduardo Cunha.

A missão do tal senador era lançar uma ofensiva de Propaganda/Relações Públicas para desconstruir a narrativa que insiste que golpe é golpe, e a qual, segundo Brutus-1 estaria “desmoralizando instituições brasileiras”.

Nonsense. O senador office-boy foi mandado dizer ao Departamento de Estado dos EUA que tudo por aqui está andando conforme a encomenda.

Em Washington, o senador office-boy resmungou que “explicaremos que o Brasil não é uma república de bananas”. Ora… Não era. Mas graças às hienas da Guerra Híbrida, é.

Quando se tem um homem que administra 11 contas bancárias ilegais na Suíça; cujo nome aparece listado nos Panama Papers, que já está sendo investigado pela Suprema Corte… e que, mesmo assim, continua a comandar o destino político de toda a nação, sim, sim, aí está uma república de bananas.

Quando você tem um juiz de paróquia, provinciano, que ameaça pôr na prisão o ex-presidente Lula, por ser proprietário de um apartamento modesto onde vive e por visitar um sítio modesto de amigos, mas, ao mesmo tempo, não cuida de investigar o Brutus-2, e juiz provinciano que opera irmanado àqueles pomposos juízes da pomposa Corte Suprema paroquial provinciana… sim, aí está uma república de bananas.

Comparem agora a reação-zero de Washington, e a reação de Moscou. O Ministério de Relações Exteriores da Rússia, mediante a irrepreensível porta-voz Maria Zakharova, chamou a atenção do mundo para a parceira crucial que liga todos os países BRICS, e as posições comuns que Brasil e Rússia têm defendido juntos dentro do G20. E Moscou deixou claro que os problemas do Brasil têm de ser resolvidos “no quadro constitucional legal e sem qualquer interferência externa”.

Todo mundo sabe o que significa “interferência externa”.

Dominação de Pleno Espectro Rearmada

Estou acompanhando o golpe em andamento no Brasil, com especial atenção à Guerra Híbrida movida/apoiada pelos EUA para destruir “o projeto neodesenvolvimentista para a América Latina – que unia pelo menos parte das elites locais, investia no desenvolvimento de mercados internos, em associação com as classes trabalhadoras”. O objetivo chave da Guerra Híbrida no caso do golpe no Brasil é instalar uma restauração neoliberal.

Obviamente, o alvo chave tinha de ser o Brasil, estado membro dos BRICS e sétima maior economia do mundo.

Falcões imperiais [ver também “Preocupações com a ‘Bala de Prata’ nem tão eficaz”, in Rússia e China, 2016: Como planejam  enfrentar a guerra econômica dos EUA], já estão indo diretamente ao ponto, quando listam as armas e objetivos da Guerra Híbrida, que o Pentágono definiu em 2002 como “Doutrina da Dominação de Pleno Espectro”: “O poder dos EUA vem de nossa superior força militar, sim. Qualquer coisa que expanda o alcance dos mercados dos EUA – como a Parceria Trans-Pacífico no comércio, por exemplo – acrescenta-se ao arsenal do poder dos EUA. Mas em sentido mais profundo, o poder dos EUA é produto da dominação da economia dos EUA sobre o mundo”.

Mas fato é que a economia norte-americana já está longe de dominar o mundo. O que hoje realmente preocupa são as forças que orientam “os negócios para longe dos EUA, ou permitem que outras nações construam arquitetura financeira rival e menos vulnerável a sanções, mesmo que a uma montanha delas”.

“Arquitetura financeira rival” é perfeita tradução de “BRICS”. E nem “uma montanha de sanções” bastaram para fazer o Irã curvar-se e pedir penico ao Tio Sam; Teerã continuará a praticar uma “economia de resistência”. Não por acaso, dois dos países BRICS – Rússia e China – além do Irã, aparecem entre as cinco principais ameaças existenciais listadas pelo Pentágono, além das bombas atômicas da Coreia do Norte e, em último lugar na lista, “terrorismo“.

Guerra Fria 2.0 é essencialmente Rússia e China – mas o Brasil também é ator chave. Edward Snowden revelou como a espionagem contra o Brasil, pela Agência de Segurança Nacional centrava-se na Petrobrás, cuja tecnologia proprietária foi responsável pela maior descoberta de petróleo, ao nascer do século 21: os depósitos do pré-sal em águas do Brasil. O Big Oil norte-americano está excluído da exploração dessa riqueza.

E “Big EUA Oil excluído é anátema – e exige mobilização imediata das técnicas e táticas de Guerra Híbrida reunidas na [doutrina] de Dominação de Pleno Espectro.

As elites comprador brasileiras correram a se oferecer para jogar o jogo. Já há mais de dois anos analistas de JP Morgan oferecem seminários aos guerrilheiros da macroeconomia neoliberal, ensinando táticas e golpes para desestabilizar o governo Rousseff.

Lobbies da indústria, comércio, banking e agronegócio ostensivamente se puseram na defesa do impeachment, que representaria, na avaliação deles, o fim do experimento social-democrata dos governos Lula-Dilma.

Assim sendo, não surpreende que o presidente herdeiro coroado Michel “Até tu, Brutus?!” Temer tenha acordo tão amplo com o Big Capital – incluindo juros ilimitados sobre a dívida pública (muito acima da norma internacional); a relação entre dívida e PIB, que terá de subir; mais empréstimos caros; e o corolário, cortes na atenção pública à saúde e à educação dos brasileiros.

No que tenha a ver com Washington, não há dúvidas e é questão fechada para os Democratas e Republicanos: absolutamente não se admite que haja poder regional autônomo no Atlântico Sul abençoado por riqueza ecológica única do mundo (pensem na Floresta Amazônica, toda aquela água, que se soma ao aquífero Guarani) e, como se isso fosse pouca coisa, ainda muito intimamente conectado aos BRICS-chave, Rússia e China, que já têm sua própria parceria estratégica.

O fator pré-sal é a cereja nesse bolo tropical. Absolutamente de modo algum, não e não, o Big Oil dos EUA não permitirá que a Petrobrás tenha o monopólio para explorar aquele petróleo todo. E, sendo necessário, afinal de contas, a 4ª Frota dos EUA já está posicionada no Atlântico Sul.

Um BRICS derrubado, ainda faltam dois

A “guerra ao terô [“terror”, no sotaque de Bush] declarada pelo regime Cheney distraiu a atenção do Empire of Chaos por tempo demais. Agora, finalmente, está em andamento uma ofensiva do caos global contra os BRICs – coordenada em todo o planeta.

Do Sudoeste da Ásia ao Sul da Ásia, o sonho da Guerra Híbrida será criar alguma espécie de caos iraquiano para substituir os governos de Arábia Saudita, Irã, Paquistão e Egito – e o Império “Liderar pela Retaguarda” do Caos está fazendo o possível na Síria, onde ainda nada conseguiu, por mais que a “dinastia Assad”, ao longo de décadas, tenha sido aliada “secreta” dos EUA.

Os Masters of the Universe que controlam o cordame que move Obama, eterno office-boy deles, resolveu que seria chegada a hora de apunhalar a Casa de Saud pelas costas – o que não chega a ser, afinal, má ideia – por causa do Irã. O pensamento desejante dominante ‘ensinava’ que seria fácil pôr o gás natural iraniano na Europa, em lugar do gás natural russo, o que derrubaria a economia russa. Absolutamente não funcionou.

Mas ainda há outra possibilidade: o gás natural do Qatar, pelo gasoduto que atravessa Arábia Saudita e Síria, também poderia substituir o gás natural russo vendido à Europa. Esse é hoje o principal objetivo da CIA na Síria – o instrumento não importa: Daech, falso Califato, vale tudo, porque nada disso é coisa alguma além de propaganda.

A CIA também está gostando de ver a Arábia Saudita destruir a economia russa com aquela guerra dos preços do petróleo – e não querem que os sauditas parem; por isso mantêm secretas as tais famosas 28 páginas sobre os sauditas nos eventos de 11/9.

A CIA também andou tentando feito doida atrair Moscou para dentro de uma armadilha síria como no Afeganistão dos anos 1980s; e, como fizeram com o golpe em Kiev, a ponto de ordenar que militares turcos, sempre agentes dos EUA, derrubassem um jato Su-24 russo. “Problema” é que o Kremlin não mordeu a maçã envenenada.

Nos idos anos 1980s, o mix de Casa de Saud inundando mercados com seu petróleo, agindo com toda a gangue do petrodólar do CCG para derrubar o preço até $7 por barril em 1985, plus a operação “O Afeganistão É O Vietnã”, terminou por levar a URSS à bancarrota. Pode-se dizer que toda a ação foi brilhante – na concepção e na execução: uma Guerra Híbrida plus Vietnã. Agora, com a coisa de “liderar pela retaguarda” do Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” – mentor de sua política exterior – Obama está tentando repetir o mesmo truque.

Mas epa! Temos um problema. A liderança em Pequim, já preocupada com ajustes no modelo chinês de desenvolvimento, viu claramente os esforços do Império do Caos para Dividir e Governar (e Ocupar) o mundo inteiro. Se a Rússia caísse, a China seria o alvo seguinte.

Ainda praticamente ontem, em 2010, a inteligência dos EUA via a China como sua principal ameaça militar, e pôs-se a andar na direção do Império do Meio, com o tal “pivô para a Ásia”. Mas de repente a CIA deu-se conta de que Moscou gastara um trilhão de dólares para saltar por cima de duas gerações de atraso em matéria de mísseis de defesa e de ataque – para nem falar dos submarinos – as armas de eleição para a 3ª Guerra Mundial.

E foi aí que a Rússia pulou para o trono de principal ameaça. Analisando atentamente o tabuleiro de xadrez, a liderança em Pequim imediatamente acelerou a aliança com Rússia e BRICS como força alternativa – o que gerou terremoto de proporções absolutamente devastadoras em Washington.

Agora, Pequim já fez a reengenharia dos BRICS para operarem como estrutura alternativa séria de poder – com FMI próprio, com sistema SWIFT de compensações internacionais próprio e com seu próprio Banco Mundial.

Nunca subestime a fúria de um Império do Caos enganado. Isso é o que se vê em ação contra os BRICS; Brasil sitiado, desastre na África do Sul, fragilidade na Índia, China e Rússia progressivamente cercadas. Variações de Guerra Híbrida da Ucrânia ao Brasil, pressão crescente na Ásia Central, o barril de pólvora em que foi convertido o “Siriaque”, tudo aponta para uma ofensiva coordenada do Espectro da Plena Dominação para quebrar os BRICS, a parceria estratégica Rússia-China, até quebrar as Novas Rotas da Seda que unem toda a Eurásia.

Guerras do preço do petróleo, colapso do rublo, fluxo gigante de refugiados para a União Europeia (causado pelo Sultão Erdogan “errático”), a Operação Gládio do século 21 remistura tudo, distrai as massas com inimigos imaginários, enquanto simulacros de terroristas do tipo Daesh são manipulados como sofisticadas táticas diversionistas.

Parece tão brilhante, coisa mesmo ‘de mestre’, na concepção e na execução, tão impressionantemente bem narrada, em sentido de ficção televisiva/cinematográfica. Mas que ninguém se engane: vai ter volta.*****

Fonte: Strategic Culture

5 respostas em “Brasil: Império do Caos ataca novamente

  1. No pedido de afastamento, a presidente é acusada de crimes de responsabilidade no mandato passado, com as “pedaladas fiscais”, e no atual, com o prosseguimento das manobras e a assinatura de decretos de abertura de crédito sem autorização do Congresso, além de improbidade administrativa por omissão no caso de corrupção na Petrobras.
    Ao aceitar a peça assinada pelos juristas Janaína Paschoal, Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr., o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), acolheu apenas parte das denúncias. Logo, o que a Câmara avalia concretamente é se houve crime nas contas em 2015.
    Na defesa da presidente, o ministro José Eduardo Cardozo afirmou que afastá-la por causa das “pedaladas fiscais” seria um “golpe” à Constituição. “Não há impeachment no sistema presidencialista sem situação de gravidade extrema”, argumentou.
    Cardozo disse também que os decretos de abertura de crédito não elevaram os gastos do governo – segundo ele, houve apenas um remanejamento de despesas.
    Nesta segunda-feira, ao falar perante a Comissão Especial, o ministro da AGU sinalizou que o governo deve questionar no Supremo Tribunal Federal a legalidade do processo de impeachment. O procedimento não é chamado de julgamento à toa: a Constituição estabelece que o presidente do Supremo Tribunal Federal deve comandar a sessão no Senado. Além disso, há protocolos como discursos da acusação e da defesa, assim como ocorre em um júri comum.
    Segundo a Carta Magna, o presidente do STF deve fazer um relatório resumido da denúncia, das provas apresentadas pela acusação e da defesa antes que os senadores votem nominalmente – com direito a discurso, assim como ocorre na Câmara.
    Seriam necessários os votos de no mínimo dois terços da Casa, ou 54 senadores, para que Dilma perdesse definitivamente o mandato.
    Como resultado desse desfecho, o vice ocuparia o cargo até o fim do mandato e ela ficaria inelegível por oito anos.
    Se o impeachment não recebesse os votos necessários, a presidente seria absolvida e retomaria suas funções.

  2. Essa notícia é excelente para explicar e elucidar o realismo, principalmente na fala em Washington, o senador office-boy resmungou que “explicaremos que o Brasil não é uma república de bananas”. Ora… Não era. Mas graças às hienas da Guerra Híbrida, é.”. Pois se percebe claramente o uma visão pessimista da natureza humana da corrente realista. Outra visão pessimista está na seguinte frase: “Guerras do preço do petróleo, colapso do rublo, fluxo gigante de refugiados para a União Europeia (causado pelo Sultão Erdogan “errático”)”. Ou seja, por meio desses trechos é possível fazer uma alusão ao realismo já que a visão negativa está presente em todas as falas. Outro elemento que pode ser analisado nesses trechos é o ceticismo ao progresso comparável ao da vida política nacional também defendido pelos realistas.

  3. Essa notícia mostra claramente como é importante a cooperação no que tange as relações internacionais, para um governo se solidificar é preciso que seus governantes tenham não somente apoio interno, mas também de toda a sociedade internacional. O governo assumido no Brasil pelo que muitos consideram ser um “golpe”, enfrenta fortes críticas não só da mídia estrangeira mas também da governança intencional, o que é prejudicial a todo o Estado, por frear incentivos e colocar o país como uma imagem ruim no cenário mundial. Fica evidente que o desapoio internacional a um chefe de governo gera na população um desagrado também quanto a este, o que pode levar a uma crise interna dentro do país.

  4. Seriam necessários os votos de, no mínimo, dois terços da Casa legislativa, ou 54 senadores para que a Presidente perdesse seu cargo.

  5. Essa mudança de governo, saindo a presidente Dilma Rousseff e entrando o Temer, para mim este governo não ouve melhoria.
    Pois o Michel está com um histórico de condutas nada bom, contas bancárias no exterior, investigações etc…
    Agora com ele governando nosso país vamos ver a onde vamos chegar; vi em uma notícia que Temer iria fazer um tour internacional para tentar recuperar o selo de bom pagador. kkk
    quer retomar a credibilidade externa do país, que perdeu desde o ano passado selo de bom pagador de 3 agencias internacionais. Algumas pesquisas revelam Temer como uma imagem ruim no exterior.Acho que agora com ele governando o país terá a chance de mudar este quadro e quem sabe fazer com que a população veja um lado positivo nessa mudança de governo, pois muitos dizem ser um ” golpe”, para um governo se seguir em frente agindo e executando é preciso que seus governantes tenham um apoio da população brasileira e internacionalmente também, e mudar essa expressão de ”república de bananas”.

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