Revista Fortune revela já em 64 elo entre empresários de SP e embaixada dos EUA para dar golpe


Fonte: Opera Mundi

Felipe Amorim | São Paulo – 24/01/2014 – 06h00

Publicação norte-americana fazia chamado por investimento estrangeiro no Brasil e causou divergência entre conspiradores paulistas e cariocas

Apenas cinco meses após o golpe que depôs o presidente João Goulart, a tradicional revista norte-americana Fortune publicava uma longa reportagem narrando a parceria entre o então embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, e os empresários paulistas que articularam a conspiração. Enquanto setores civis e militares se armavam e ensaiavam a rebelião, lideranças golpistas foram pessoalmente à embaixada perguntar qual seria a posição de Washington caso fosse deflagrada uma guerra civil no Brasil. “Cauteloso e diplomático, Gordon deixou a impressão de que, se os paulistas conseguissem segurar [o comando da guerra civil] por 48 horas, obteriam o apoio e o reconhecimento dos Estados Unidos”, escreveu a publicação.

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Essa é a apenas uma das revelações do artigo publicado por Philip Siekman na edição da Fortune de setembro de 1964, intitulado “When Executives Turned Revolutionaries” (Quando executivos viraram revolucionários), que completava no subtítulo: “Uma história ainda não contada: como os empresários de São Paulo conspiraram para derrubar o governo infectado de comunistas do Brasil”. [clique aqui para ler o texto, em inglês] A revista dá voz aos empresários “bandeirantes” para mostrar como os executivos se articularam para financiar a conspiração armada que depôs Jango. Embora voltada ao público norte-americano, a reportagem repercutiu no país, acirrou rivalidades entre os golpistas paulistas e cariocas e foi usada como panfleto para incentivar a vinda de investimentos estrangeiros para o país.

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Entre os fatos mais reveladores do texto de Siekman, a revista procurou destacar o papel central que o Ipês (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e seus líderes desempenharam na conspiração. Primeiro, arrecadando fundos dos principais industriais paulistas e cariocas: “No total, cerca de 400 empresas contribuíram para a instituição; e o fluxo de caixa anual não passava dos US$ 500 mil”. E, mais tarde, ao decidir adotar métodos mais diretos: “Células de vigilância começaram a se equipar com armas leves, instalar fábricas clandestinas de granadas de mão, e escolher um local para levar a cabo operações de guerrilha na guerra civil que consideravam inevitável e iminente”. O Ipês foi fundado em 1961 “oficialmente” para defender a livre iniciativa e a economia de mercado; a entidade uniu acadêmicos conservadores, empresários e militares para desestabilizar o governo Jango.

A partir de um ponto de vista do empresariado paulista, Fortune traça o panorama do cenário político, econômico e social do Brasil, concluindo que, sem a intervenção, a situação só poderia ter levado o país ao caos. “De repente e quase milagrosamente”, diz Fortune, eles haviam salvado a nação, interpreta a publicação. Se antes a revista só imaginava duas possíveis saídas para o Brasil — um “Estado totalitarista dominado por comunistas” ou uma “guerra civil sangrenta e complexa” —, os “Paulistas” teriam forjado a terceira via: uma revolta que durou dois dias, pôs Jango no exílio e seus simpatizantes na cadeia. É por isso que, de acordo com a revista, o levante deveria ser merecidamente chamado de “a Revolta dos Paulistas”.A revista Fortune foi fundada em 1930, meses após o crash da bolsa de NY, pelo editor Henry Luce — o mesmo que criou as icônicas Life e TIME. Pioneira ao especializar-se em finanças e negócios, a publicação existe até hoje e faz parte de um dos maiores conglomerados de mídia do mundo.

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2 respostas em “Revista Fortune revela já em 64 elo entre empresários de SP e embaixada dos EUA para dar golpe

  1. Esta reportagem é mais um exemplo de como um mesmo acontecimento pode ser visto por perspectivas completamente opostas, que chegam ate mesmo a distorcer a realidade fática. Para a mídia é muito fácil transmitir informações adulteradas quando a população se encontra em estado de profunda desinformação e alienação, alimentado, ainda por cima pelo terror, criado e alimentado por esta mesma mídia.
    O golpe militar ocorrido no Brasil em 1964 é a demonstração mais evidente que temos dão modo como uma inteira população de um pais pode ser utilizada como massa e manobra, ludibriada por historias daqueles que se colocam como salvadores da pátria. Os golpistas foram aclamados como heróis, aqueles que salvariam a nação brasileira do grande monstro comunista que a ameaçava. Atualmente são de conhecimento geral os interesses ecômico-politicos que se escondiam sob estes pretextos, visto que os documentos da intervenção norte-americana para propiciar os diversos golpes ocorridos na america latina nesta mesma época não estão mais sob segredo de Estado.
    Os brasileiros aprenderam a duras penas o grande risco que é sacrificar a democracia por medo de monstros invisíveis. Podemos somente esperar que este aprendizado não seja colocado no esquecimento pela memória curta de alguns que, nos dias atuais, clamam por intervenção militar.

  2. Nesta época, a situação do Brasil se pautava em: clima de tensão pela renúncia de Jânio Quadros e pela entrada de João Goulart. Isso porque com Jango, vieram os estudantes e trabalhadores ganhando espaço, o que trazia “dor de cabeça” aos banqueiros, empresários, militares e até a classe média. Mais além, Jango era visto com tendências comunistas – em plena guerra fria – gerando especulações sobre possível golpe. Todos esse fatores geraram protestos e revoltas, como a Marcha da Família, e uma possível guerra civil. As tropas então entraram em cena, e com os militares no poder, tínhamos a ditadura instituída no Brasil. Ditadura esta, marcada pelo fim da liberdade de expressão, pressão à imprensa, censura, perseguição política, prisões e tortura. Chego na conclusão de que foi sim, segundo as circunstancias mencionadas, vantajoso aos “paulistas” financiadores terem tomado tal atitude. Além do que, normalmente, a quem você apoia, costuma te apoiar. Essa situação acontece claro, aonde ronda grande poder e influência. Aonde a troca de favores realmente vincula – cenário de dinheiro e jogos de poder.

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