Embaixador russo em Brasília: “Brasil é uma Rússia tropical”


Publicado originalmente em: 11/02/2016

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Em entrevista exclusiva à Sputnik, o embaixador da Rússia no Brasil, Sergei Akopov, aborda temas atuais e de grande importância para o mundo, como o combate ao vírus zika, as dificuldade políticas e econômicas enfrentadas por Brasil e Rússia e a crescente cooperação dos dois países no âmbito do BRICS.

A seguir, a íntegra da entrevista com o Embaixador Sergei Akopov.

Sputnik: Houve casos de contaminação pelo vírus zika de funcionários da Embaixada ou de russos no Brasil? Que medidas a missão diplomática planeja adotar durante os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro? A Embaixada chegou a receber propostas de cooperação na área do combate à doença por parte das autoridades brasileiras?

Serguei Akopov: Felizmente, ainda não tivemos casos de contaminação pelo vírus zika de funcionários das nossas instituições diplomáticas no Brasil. Tampouco recebemos informações sobre russos residentes que tivessem contraído a doença no país. Afinal, a maioria dos casos de contaminação pelo zika é registrada no Norte e no Nordeste do Brasil. E o vírus da dengue ainda representa um perigo muito maior. A dengue também não tem vacina e está se espalhando rapidamente. E tivemos casos de contaminação entre os funcionários da Embaixada, mas, felizmente, de forma leve. Só existe uma defesa – combate ao mosquito transmissor e medidas de proteção individual contra picadas, usando repelentes e roupas com áreas expostas de menor tamanho possível. É importante também não praticar a automedicação ao aparecimento dos primeiros sintomas (isso é muito perigoso), mas procurar ajuda médica o quanto antes. No caso da dengue, por exemplo, não se pode usar quaisquer outros remédios além do paracetamol. Todas essas informações são disponibilizadas nos sites da nossa Embaixada e dos nossos Consulados no Rio de janeiro e em São Paulo. É preciso dizer que as autoridades brasileiras estão dando a maior importância ao combate contra esses vírus. O Governo lançou uma ampla campanha nacional de luta contra os transmissores dessas doenças perigosas, envolvendo, inclusive, as Forças Armadas. Elas têm uma grande experiência. Também foram intensificados os esforços para desenvolver vacinas adequadas.

S: No final do ano passado o Brasil sofreu uma brusca deterioração da sua situação política interna – a presidente do país se viu à beira de um impeachment. Como estão os ânimos da sociedade e da elite política atualmente nesse sentido? Moscou não considera que essa crise política no Brasil possa ter sido desencadeada do exterior?

SA: A diplomacia não tem o costume de avaliar ou comentar a situação política interna do país de acreditação. O que eu posso dizer: o Brasil é um país de democracia madura, com instituições e tradições democráticas consolidadas. É nosso bom amigo e parceiro estratégico. Estou certo de que o povo brasileiro não deixará que ninguém, muito menos alguém de fora, manipule o seu destino. Desejamos aos nossos amigos brasileiros que superem o quanto antes esses tempos difíceis.

S: Por causa dos problemas econômicos existentes tanto no Brasil quanto na Rússia, alguns analistas ocidentais acreditam que em breve estes dois países irão prejudicar as economias em desenvolvimento dos demais membros do BRICS, e que a existência do bloco deixará de ser vantajosa. Qual é a sua opinião com relação a essa questão? Que previsão o senhor poderia fazer quanto à situação econômica no Brasil?

SA: Esses analistas tentam fazer passar o desejado pela realidade. Mas os fatos evidenciam o contrário. O BRICS conseguiu se consolidar como um novo polo na arena internacional. E isso foi possível muito graças aos esforços, muitas vezes conjuntos, da Rússia e do Brasil. A cooperação no âmbito do BRICS, o reforço dessa união, o seu crescente papel em assuntos internacionais – tudo isso está nos interesses dos nossos dois países, bem como de todos os nossos outros parceiros desse bloco. Quanto às dificuldades econômicas, não devemos esquecer que uma das diretrizes mais importantes de cooperação no âmbito dessa união está na busca de soluções conjuntas para esse tipo de problema. Acredito que as atuais dificuldades econômicas servirão apenas como um estímulo extra ao futuro aprofundamento e expansão das relações dos nossos países no âmbito do BRICS. Quanto às perspectivas, sou um otimista. Não existem no mundo outros dois países tão ricos e autossuficientes como Rússia e Brasil. Não é à toa que dizem que o Brasil é a Rússia tropical. Como aconteceu diversas vezes no passado, ele também conseguirá superar a atual crise.

S: Anteriormente, foram apresentadas em Moscou ideias de criação de joint ventures para o processamento de produtos agrícolas. Em sua opinião, até que ponto é possível que esses planos se concretizem? Existem condições para o surgimento de primeiros empreendimentos desse tipo?

SA: Creio que a criação dessas joint ventures representa o futuro. O entendimento de que o simples comércio de produtos agrícolas tem seus limites está pouco a pouco chegando aos empresários tanto do Brasil quanto da Rússia. E já estão surgindo projetos reais de criação desse tipo de empreendimento. Por exemplo, um grupo de empresários brasileiros do Estado do Paraná, apoiado pelas autoridades, está desenvolvendo um projeto de criação de um grande complexo de produção e processamento de carne na Crimeia e no Sul da Rússia. O Brasil é um dos maiores produtores e fornecedores de produtos agrícolas do mundo, inclusive para o mercado russo (carne, soja, açúcar, tabaco, laticínios, etc.). Existe uma grande experiência acumulada nesse setor – tecnologias de ponta, pesquisa e desenvolvimento. Tenho a certeza de que os nossos países têm grandes perspectivas de cooperação mutuamente vantajosa na área da produção agrícola.

S: Especialistas dos países BRICS foram consultados sobre a criação de uma agência de classificação de risco de crédito. Em que estágio se encontram essas negociações no momento? Até que ponto é viável a criação dessa instituição em futuro próximo?

SA: Apoiamos ativamente a ideia (defendida por muitos parceiros do BRICS) de criação de uma agência comum de classificação, ou de uma rede de agências regidas por procedimentos acordados. Afinal, não é nenhum segredo que as classificações de risco de crédito emitidas por agências ocidentais são parcialmente politizadas. Esse trabalho já foi iniciado no âmbito do BRICS. Creio que isso é bastante real.

S: A escolha da profissão foi por acaso ou o senhor buscou o serviço diplomático?

SA: Eu não passei pela questão da escolha da profissão. Nasci e cresci numa família de um diplomata arabista. Meus maravilhosos pais sempre foram e são um modelo, um ideal que busco em toda a vida. Naturalmente, sempre quis ser o mesmo que o meu pai. Desde criança absorvi “sabedorias” da nossa maravilhosa profissão, ligando-a a toda uma gama de qualidades. Isto diz respeito a um amplo conhecimento em diferentes áreas e à capacidade de recolher e analisar informações, tirar conclusões corretas, expressar pensamentos com competência, além de ter um bom conhecimento de línguas estrangeiras, pelo menos duas, e a capacidade de persuadir, negociar, falar na frente de diversos públicos, mostrar habilidades de comunicação, etc. Em outras palavras, a diplomacia não é apenas uma profissão, é também um modo de vida. Os diplomatas não são apenas os olhos, os ouvidos e a voz da pátria no exterior. É por eles que em larga medida se julga a Rússia como um todo. Isso não só impõe uma grande responsabilidade, mas também gera um sentimento incomparável de orgulho pelo seu país e seu povo. Estou no serviço diplomático há 40 anos e imensamente feliz porque meu sonho foi realizado.

S: Qual foi o caso mais memorável, incomum, da prática diplomática, que o senhor teve?

SA: Durante os anos de serviço aconteceram muitas coisas interessantes e curiosas. É difícil destacar qualquer uma delas como particularmente memorável. Por exemplo, é difícil esquecer o que aconteceu durante uma visita oficial do presidente da Rússia à Venezuela em 2008, quando a Guarda Presidencial venezuelana cantou nosso Hino Nacional, na íntegra, em russo. Você pode imaginar os sentimentos que dominaram todos os presentes. E isso certamente contribuiu para a atmosfera positiva e amigável em que a visita ocorreu.

Fonte: Sputnik Brasil

7 respostas em “Embaixador russo em Brasília: “Brasil é uma Rússia tropical”

  1. Na notícia acima, o embaixador da Rússia no Brasil comentou alguns temas relevantes atualmente, como a epidemia de zika, a crise de representatividade que nos aflige no âmbito político, e a crise econômica comum a ambos os países. O último tópico é especialmente relevante, uma vez que a desvalorização do rublo russo é considerável devido à queda do petróleo, agravada pelas sanções que o Ocidente impôs como resposta ao envolvimento do referido país no conflito na Ucrânia. O PIB russo teve queda em 2015 e as previsões para os próximos anos não são animadoras.
    Nesse cenário, no qual Brasil e Rússia enfrentam uma situação econômica igualmente alarmante, é questionado se eles não atrapalhariam o restante dos BRICS, tornando inviável a perpetuação do grupo. Quanto a isso, é interessante destacar o declarado otimismo do diplomata, ao afirmar que “não existem no mundo outros dois países tão ricos e autossuficientes como Rússia e Brasil.” As apostas do país para solucionar a crise são voltadas para a substituição da importação, especialmente na área de join ventures de produtos agrícolas, como explicitado na seguinte passagem: “Creio que a criação dessas joint ventures representa o futuro. O entendimento de que o simples comércio de produtos agrícolas tem seus limites está pouco a pouco chegando aos empresários tanto do Brasil quanto da Rússia.E já estão surgindo projetos reais de criação desse tipo de empreendimento.”

  2. A visão de um Embaixador Russo no Brasil é de suma importância para compararmos como o nosso país é visto pelo mundo e pelos brasileiros. Neste contexto, o Embaixador Sergei Akopov em entrevista à Sputnik responde perguntas pertinentes ao contexto socio-econômico do Brasil. Sergei se revela como um entusiasta em relação aos BRICS, rebate a crítica negativa dos analistas acerca do progresso desse bloco econômico e ressalta a importância e o peso que o Brasil e Rússia têm.
    Além disso, o embaixador espera que os brasileiros possam superar a crise política hodierna, reafirmando a democracia e consolidando as instituições. Dessa forma, ele acredita que os países possam juntos superar suas crises, como está ocorrendo na Rússia com a criação dos “joint venture” em que ressalta a parceria com o Brasil, no sentido do país ser um grande fornecedor de produtos agrícolas.
    Akopv ainda defende a criação de uma instituição de classificação de risco comum entre os Brics e autônoma em relação a política. Com isso, ele critica a politicagem que é utilizada nessas instituições ocidentais.

  3. A crise econômica de 2016 tem como característica principal a perda de credibilidade, não só no governo, como também de sua política econômica. O reflexo disso será a perda do grau de investimento do Brasil, o que fará com que a moeda americana suba ainda mais.
    Outro fator que deverá influenciar a alta do dólar será a decisão do Banco Central Americano de elevação das taxas de juros nos Estados Unidos. Isso fará com que investidores ao redor do mundo corram para a segurança dos títulos públicos americanos e injetará mais um pouco de pressão nas cotações aqui no Brasil. Essa alta do dólar será benéfica para quem exporta, pois conseguirá mais Reais por Dólar exportado, mas em termos de inflação será mais um desastre que acertará em cheio as já combalidas finanças dos brasileiros, dando origem a distúrbios de rua e convulsão social.
    Outro ingrediente da crise econômica de 2016 será a possibilidade de convulsão social. O Seguro Desemprego criou uma espécie de colchão para as pessoas que estão sendo demitidas e por isso, os reflexos nefastos do desemprego ainda não foram sentidos em sua plenitude.

  4. A crise econômica de 2016 tem como característica principal a perda de credibilidade, não só no governo, como também de sua política econômica. O reflexo disso será a perda do grau de investimento do Brasil, o que fará com que a moeda americana suba ainda mais.
    Outro fator que deverá influenciar a alta do dólar será a decisão do Banco Central Americano de elevação das taxas de juros nos Estados Unidos. Isso fará com que investidores ao redor do mundo corram para a segurança dos títulos públicos americanos e injetará mais um pouco de pressão nas cotações aqui no Brasil. Essa alta do dólar será benéfica para quem exporta, pois conseguirá mais Reais por Dólar exportado, mas em termos de inflação será mais um desastre que acertará em cheio as já combalidas finanças dos brasileiros, dando origem a distúrbios de rua e convulsão social.Outro ingrediente da crise econômica de 2016 será a possibilidade de convulsão social. O Seguro Desemprego criou uma espécie de colchão para as pessoas que estão sendo demitidas e por isso, os reflexos nefastos do desemprego ainda não foram sentidos em sua plenitude.

  5. A crise econômica de 2016 tem como característica principal a perda de credibilidade, não só no governo, como também de sua política econômica. O reflexo disso será a perda do grau de investimento do Brasil, o que fará com que a moeda americana suba ainda mais.Outro fator que deverá influenciar a alta do dólar será a decisão do Banco Central Americano de elevação das taxas de juros nos Estados Unidos. Isso fará com que investidores ao redor do mundo corram para a segurança dos títulos públicos americanos e injetará mais um pouco de pressão nas cotações aqui no Brasil. Essa alta do dólar será benéfica para quem exporta, pois conseguirá mais Reais por Dólar exportado, mas em termos de inflação será mais um desastre que acertará em cheio as já combalidas finanças dos brasileiros, dando origem a distúrbios de rua e convulsão social.Outro ingrediente da crise econômica de 2016 será a possibilidade de convulsão social.

  6. Estive na Russia em 2015, fiquei no país durante 2 meses. Posso te afirmar que acrise lá está pior que aqui. O diplomata foi bastante direito e com opiniões respeitáveis. Concordo quando disse da importância do Brics. É muito necessário que tenhamos relações não só com países super desenvolvidos, como é o caso dos EUA. É o caso do ‘igual’ que se apoia.
    Quanto a crise que estamos vivendo no Brasil, tenho ficado espantada em como a influencia e o poder comandam esse país. A nossa crise é agravada pelo senário político atual, o famoso interesse político. O que aparenta é que muitos não estão interessados no progresso do nosso país de fato, mas apenas em interesses, o que é lamentável.

  7. Acredito que a participação do Brasil no BRICS, de fato, seja muito vantajosa. Os benefícios econômicos, ainda que tímidos, e a visibilidade brasileira no plano internacional são conquistas garantidas, também, pela participação do Brasil no bloco econômico mencionado. Entretanto, no que diz respeito a entrevista com embaixador russo, apresentada na matéria, acredito que existem alguns equívocos que precisam ser ressaltados por confirmar que, no âmbito internacional, o Brasil ainda é percebido de uma maneira distorcida. Dizer que o Brasil é um país com uma democracia madura é análogo a afirmação de que o Brasil possui uma democracia consolidada e efetiva. Não é preciso, porém, saber muito sobre a história do país para compreender que essa afirmativa é mais a tradução de um ideal do que a verificação de uma prática. O fim da ditadura militar foi concretizado no ano de 1985, isto é, há 21 anos, e, desde então, teve início o processo de redemocratização não findado até hoje no Brasil. E não findado visto que a democracia brasileira não se encontra plena, não se encontra, essencialmente, participativa, mas sim, gradualmente, ampliada. Além disso, reafirmar a noção de que “o Brasil é uma Rússia tropical” parece um tanto imaturo e simplista de mais, por reduzir as diferenças entre os países na questão climática e suas consequências, quando, na verdade, essa é a menor das divergências. Por fim, o embaixador apresentou uma visão otimista sobre a relação entre Brasil e Rússia que precisa ser interpretada de uma maneira crítica por parecer ser muito diplomática e política do que realista.

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