Quando chove forte, São Paulo abraça a barbárie do salve-se quem puder



Enchente arrastar carros na Vila Madalena. A cena já se tornou comum na rua Harmonia (Foto: Monica Maia/DOCFoto)

A responsabilidade pela situação insana dessa foto acima recai sobre a lentidão ou incompetência do poder público para atuar em obras e prevenir inundações. Mas também em alertar enchentes antes que aconteçam. Sim, em outros lugares do mundo envia-se mensagens a todos os celulares que estão em determinada região, avisando sobre o risco de determinadas ruas, ou encaminham-se agentes para bloquear perímetros e fazer desvios antes da chuva acontecer. Isso sem contar um mínimo de planejamento urbano, não deixando que grandes empreendimentos imobiliários ditem como e para onde a cidade deve se expandir, ignorando a drenagem. Mas também inclui certos moradores e seus hábitos bisonhos, que acham que lixo é para ser arremessado para fora da janela do carro, por exemplo.

Dito isso, vale dizer que enquanto o paulistano entra no mar em dias frios e de chuva, na cidade ele tem medo de água. Talvez porque o desejo íntimo dos carros de São Paulo seja nascerem barcos em sua próxima encarnação para poderem navegar pelos rios e córregos que, canalizados de forma não planejada, ressurgem na época das chuvas.

Decerto, essa vontade louca dos automóveis de mergulhar em água suja alimenta o pavor do morador da cidade. Isso exacerba o comportamento já violento dos motoristas, que passam a lutar insanamente, acreditando que sua própria sobrevivência depende de quão agressivos eles podem ser.

Tipo questão de sobrevivência: “ou eles, ou eu”.

Um carrinho de bebê, aos trancos, salvou-se de ser atropelado por um possante prateado – que ainda teve a pachorra de abrir o vidro para xingar uma mãe de guarda-chuvas por atravessar em faixa de pedestres num dia molhado – lembrando “O Encouraçado Potemkin”. Eisenstein nem precisaria da escadaria para filmar por aqui. Afinal, o desejo dos carros da cidade não é de ser qualquer barco e sim naus de guerra.

Provavelmente acontece também em outras cidades, mas é engraçado como se dissolve em água feito vitamina C efervescente aquela tese da nossa gloriosa elite de que o nível de consciência da cidadania é diretamente proporcional à renda. De Fuscas a BMWs, a insanidade não vê classe social.

Nesse momento, quem está de carro libera seus demônios mais sinistros, achando que está na iminência de ser tragado pelo bueiro mais próximo. Se estivéssemos falando apenas de moradores de encostas de morro ou de fundos de várzea, entenderia perfeitamente o desespero. Mas muitos que não estão perto de uma área de risco, ignoram regras básicas de cidadania e passam por cima do semelhante, deixando aparecer quem somos de verdade.

E São Paulo, que precisaria da calma e da solidariedade nessa hora, abraça a barbárie do salve-se quem puder.

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2016/02/16/quando-chove-forte-sao-paulo-abraca-a-barbarie-do-salve-se-quem-puder/… Ver mais.

Fonte: Leonardo Sakamoto.

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