Tsunami de lama tóxica, o maior desastre ambiental do Brasil


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Publicado originalmente em: 30/12/2015

Barragem de mineradora faz estragos no rio Doce e põe em risco todo um ecossistema

O refrigerador de que Vanda Lopes cuida com zelo em sua casa não é suficiente. Os belos dourados, tilápias e bagres apanhados se acumulam dentro do eletrodoméstico, apesar de seu pesqueiro doméstico –situado em uma humilde casa de tijolos às margens do rio Doce– ter atraído durante anos cozinheiros de restaurantes e comerciantes de todo o município de Baixo Guandu, no Espírito Santo. “Estamos desesperados. Há dias os peixes morrem no rio. O que vamos comer agora? Como vamos sobreviver economicamente? Ninguém quer comprar nosso peixe tóxico e aqui não há emprego para ninguém”, lamenta a brasileira de 43 anos.

Como em dezenas de localidades erguidas ao longo da margem do rio Doce, as redes no modesto bairro de Mascarenhas já não são lançadas e as torneiras não têm mais água. Dias depois da ruptura de uma gigantesca barragem de resíduos de minério de ferro, em de 5 de novembro, na localidade de Mariana –um acidente ocorrido quase 500 quilômetros rio acima–, as águas se tingiram de uma cor ocre escuro. O leito está contaminado com elementos tóxicos e metais pesados como o arsênico. Uma poluição perceptível pelo fedor que a água desprende e pelas centenas de espécies que jazem às margens: ante a agonia provocada pela falta de oxigênio, decorrente da poluição, crustáceos e pacamãos optam por sair de seu meio natural e morrer em terra, sob um sol abrasador.

“Nossa vida era o rio porque 80% das pessoas aqui vivem dele”, explica Adroaldo Gonçales Filho, pescador de 58 anos, com 40 de trabalho nas costas. “Só sei pescar. Minha vida e a de 60 famílias daqui desmoronou. Mataram nosso rio”, afirma, em uma reunião na casa de Vanda Lopes, que congrega vários pescadores locais e está dominada por um sentimento de indignação contra as empresas mineradoras.

Um pouco mais de um mês depois que a barragem de Fundão se rompeu e liberou o equivalente a 20.000 piscinas olímpicas de água e lama tóxica em Minas Gerais e no vizinho Espírito Santo, ainda não há diagnóstico oficial sobre o que pode ter causado “o maior desastre ambiental da história do Brasil”, nas palavras da presidenta Dilma Rousseff. Os técnicos da empresa mineradora responsável, a Samarco Mineração –uma joint-venture de propriedade, em partes iguais, de duas gigantes mundiais do setor, a brasileira Vale a australiana BHP Billiton– dizem que levarão seis meses para determinar o que provocou o acidente, que arrasou por completo o povoado de Bento Rodrigues e causou a morte de 17 pessoas.

Os primeiros indícios apontam para negligência da empresa em relação à deterioração dos diques e do sistema de drenagem, apesar de auditorias anuais desde 2013 alertarem para o risco de colapso. Também é levantada a hipótese de que, diante do desabamento do preço do minério de ferro, o excesso de produção para tornar a mina economicamente viável provocou pressão excessiva na estrutura de contenção.

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O impacto ambiental do derramamento é devastador para essa região dependente da água do rio Doce. Em cidades como Colatina, de 122.000 habitantes, o fornecimento foi interrompido por tempo indeterminado, e o Exército e uma legião de caminhões-pipa abastecem diariamente a população, obrigada agora a esperar durante horas para conseguir um recurso básico. Um desabastecimento que impacta em cheio municípios já açoitados por uma histórica seca desde 2014 e que agora se perguntam se conseguirão levar adiante negócios como a produção de papel ou a criação de gado, atividades de grande peso na economia local e que requerem água doce abundante.

“O impacto é muito grande na nossa atividade, que demanda água totalmente potável para a limpeza de nossas instalações de abate de bois. Estamos tendo perdas de 2,6 milhões de reais por mês”, explica Arthur Arpini Coutinho, presidente da indústria de processamento de carne Frisa, enquanto percorre as instalações da empresa em Colatina, com capacidade para abater centenas de cabeças de gado por dia. “Como vê, muitos empregados estão parados. Só 30% do pessoal trabalhará enquanto o desabastecimento continuar.”

Para tentar explicar a magnitude da catástrofe provocada pelo derramamento na natureza, o biólogo brasileiro Augusto Rischi disse que ela “só é comparável ao acidente de Fukushima”, em referência à destruição causada pela central nuclear japonesa acidentada em 2011. Rischi argumenta que, além da destruição da fauna e da flora no leito do rio e em suas margens, a lama tóxica terá um notável impacto na costa atlântica próxima à desembocadura do rio, onde há 10 dias se estende uma mancha de vários quilômetros de água marrom.

Para maior infortúnio, é precisamente nesse delta onde se encontra a reserva biológica de Comboios, uma área de praia protegida, onde várias espécies de tartarugas marinhas em risco de extinção –entre as quais tartarugas gigantes, de até dois metros de comprimento– vão desovar. “Não sabemos o que vai acontecer agora com as tartarugas nem com os filhotes. O azar é que estamos no período de desova mais importante do ano para dois tipos de tartaruga em risco”, explica João Carlos Thome, coordenador do Projeto Tamar, que está há 35 anos preservando tartarugas marinhas em vários locais da costa brasileira.

Reparação e combate dos índios krenak
Com a ferida socioambiental ainda supurando depois do vazamento, não são poucos os que levantaram a voz contra a mineradora Samarco, embora o maior foco de indignação se volte contra a acionista Vale, mineradora estatal privatizada –embora controlada pelo Governo brasileiro– e que é a maior produtora de minério de ferro do planeta.

O Estado brasileiro pediu por meio de uma ação civil 20 bilhões de reais como reparação, aos quais se somam outros 260 milhões em multas e outras penalidades já decretadas. Cifra substancial para a Samarco, uma empresa que em 2014 faturou 8,6 bilhões de reais, mas que agora tem a licença de exploração de minérios suspensa por período indeterminado.
Enquanto nos tribunais começa uma batalha judicial que se prenuncia longa, a sociedade civil iniciou ações concretas, diante do medo de que nem sequer a eventual multimilionária multa resulte na reabilitação integral do rio Doce.

Os índios krenak entenderam que a melhor forma de pressionar a Samarco e a Vale era atacando o centro nevrálgico de seu negócio: a exportação de minérios, sobretudo para a China. Durante quatro dias, cerca de 350 membros dessa etnia originária de Minas Gerais acamparam nada menos do que sobre os trilhos da linha de trem de propriedade da Vale. Armados com barras metálicas e armas de madeira, fecharam os acessos por estada ao acampamento, situado nos arredores da cidade ribeirinha de Resplendor, para que a polícia não os pudesse expulsar.

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O transporte de minério de ferro por dezenas de trens que fazem a rota diária entre as jazidas e o porto de Vitória ficou interrompido. “Estamos fazendo uma guerra justa”, diz Djukurna Krenak, uma das líderes, entrevistada sobre os trilhos, que correm em paralelo ao rio Doce. Essa linha férrea é uma infraestrutura estratégica para a Vale e para o Brasil, pois no ano passado 119 milhões de toneladas de minério de ferro –em torno de 35 por cento do total da produção da empresa– circularam por essa ferrovia de 660 quilômetros, segundo explicou a Vale a este jornal.

“Nossa tradição foi arrasada por completo. Sempre vivemos nestas terras. Nossa língua, nosso lazer, nossa pesca e até nossa religião estão associados ao rio Doce. Como será agora o futuro de nossos filhos? É uma tragédia ecológica mundial. Nossos antepassados certamente estão muito tristes”, disse Djukurna, de 36 anos e formada em história. “Temos que começar a entender como vai ser nossa forma de nos relacionar com nossa própria cultura de agora em diante. Esse vai ser o maior desafio enfrentado por nosso povo. Mas nesse processo não podemos fraquejar porque, se isso acontecer, a Vale passará por cima de nós”, acrescenta, e promete que voltarão a ocupar a linha se a mineradora descumprir os termos do acordo.

Falta de transparência e risco para a saúde

A gestão pública do desastre foi tão catastrófica como os danos causados ao meio ambiente. Os habitantes da localidade de Bento Rodrigues só souberam da vinda do tsunami tóxico quando chegaram as ondas da lama que vazou, o que suscita dúvidas sobre os sistemas de alerta instalados pela Samarco, se é que havia algum. O Governo brasileiro não se saiu melhor: a presidenta Dilma Rousseff demorou nada menos do que uma semana para visitar a região do acidente, que avistou apenas durante um voo de helicóptero.

A maior opacidade, se não for desinformação negligente, está relacionada com a qualidade da água do rio Doce, que dezenas de milhares de pessoas utilizam no seu dia a dia. A Samarco e a Vale negaram taxativamente que água contenha metais pesados –cancerígenos, em muitos casos–, uma versão endossada por alguns estudos de autoridades locais.

Alarmada por relatórios que indicavam o contrário, a Organização das Nações Unidas interveio em 25 de novembro com um duro comunicado no qual alertava para a existência de “metais pesados e químicos tóxicos” na água, e instou o Brasil e as empresas a respeitarem “o direito da população à informação”.

“Havia uma falta de transparência sobre a causa do desastre e dos efeitos. O Governo e as empresas diziam que a lama derramada não era tóxica, mas recebemos relatórios de laboratórios independentes que indicavam exatamente o contrário” explica ao EL PAÍS Baskut Tunkat, Relator Especial da ONU sobre Substâncias Químicas Perigosas e Dejetos. “Os riscos para a saúde precisam ser esclarecidos pelo Governo e as empresas. É um direito básico”, acrescenta.

Fonte: El País – Brasil, texto e fotos por Heriberto Araújo

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