Pepe Escobar: “O mito de uma ‘ameaça’ russa “


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26/8/2015, Pepe Escobar, Sputnik

Não passa uma semana sem que o Pentágono ponha-se a se lamuriar contra alguma terrível “ameaça” russa.

O comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas dos EUA, Martin Dempsey, entrou em território de “não sabidos sabidos”, que pertence por a direito Donald Rumsfeld, quando, recentemente, tentou conceituar a “ameaça”: “Ameaças são a combinação, ou o agregado, de capacidades e intenções. Deixemos de lado por enquanto as intenções, porque não sei o que a Rússia intenta.”

Bom. Dempsey pelo menos admite que não sabe do que fala. Saiba ou não saiba, parece saber que a Rússia é mesmo uma “ameaça” – no espaço, no ciberespaço, nos mísseis cruzadores disparados em terra, submarinos.

E é principalmente ameaça à OTAN: “Uma das coisas que a Rússia parece, sim, que faz, é desacreditar a OTAN, ou, ainda mais sinistramente, criar condições para o fracasso da OTAN.”

Quer dizer que a Rússia “parece, sim, que faz” desacreditar uma OTAN já autodesacreditada. Terrível “ameaça”.

Todos esses jogos retóricos acontecem enquanto a OTAN “parece, sim, que faz” aprontar-se para confrontar diretamente a Rússia. E que ninguém se engane: Moscou toma a beligerância da OTAN, sim, como ameaça real.

É PGS vs. S-500

A avançada contra a “ameaça” acontece bem quando a Think-tankelândia dos EUA está recarregando a ideia de conter a Rússia. O conhecido centro Stratfor, fachada da CIA, já lançou peça de propaganda elogiando o cérebro-em-chefe da Guerra Fria George Kennan como autor da “política de contenção da Rússia”.

O aparelho da inteligência dos EUA pensava que estivesse falando sério. Não ironizava. Mas antes de morrer Kennan disse que, àquela altura, já era preciso conter os EUA, não a Rússia [The Choice: Global Domination or Global Leadership, Basic Books, março, 2004 (NTs)].

Conter a Rússia – mediante a expansão da União Europeia e OTAN – é serviço que nunca deixou de ser tentado, verdadeiro work in progress, porque o imperativo geopolítico nunca mudou; como o Dr. Zbigniew “O Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski nunca se cansou de repetir, tudo sempre teve a ver com deter a – ameaçadora – emergência de uma potência eurasiana capaz de desafiar os EUA.

Até que a noção de “contensão” foi expandida para incluir o desmantelamento da própria Rússia. E também inclui o paradoxo interno de que a expansão infinita da OTAN na direção leste torna a Europa menos, não mais, segura.

Assumindo-se que venha a acontecer uma confrontação letal Rússia-OTAN, as armas táticas nucleares russas derrubarão todos os aeroportos da OTAN em menos de 20 minutos. Dempsey – em declarações cifradas – admite.

O que de modo nenhum ele pode admitir é que, se Washington já não tivesse há muito tempo tomado a decisão fatal, o movimento organizado entre os russos, de impedir o avanço infinito da OTAN e de atualizar o arsenal nuclear, não teria sido necessário. 

Geopoliticamente, o Pentágono afinal viu para que lado estão soprando os ventos da parceria global estratégica: a favor de Rússia-China. Essa mudança crucialmente decisiva, que altera o equilíbrio global de poder, também significa que as forças militares conjuntas de China e Rússia são superiores às da OTAN.

Em termos de poder militar, a Rússia tem mísseis de ataque e defesa superiores aos dos EUA, com a nova geração do sistema de mísseis terra-ar, o S-500, capaz de interceptar alvos supersônicos e que blinda completamente o espaço aéreo russo.

Além disso, apesar da turbulência financeira de curto prazo, a estratégica conjunta sino-russa para a Eurásia – uma interpenetração da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda com a União Econômica Eurasiana, UEE [Eurasian Economic Union, EEU] – com certeza favorece o desenvolvimento das duas economias e da região em geral, em termos que podem superar o crescimento somado de EUA e UE à altura de 2030.

À OTAN só resta encenar poderio militar montado para shows de TV como “Atlantic Resolve” para “tranquilizar a região” – principalmente os histéricos Polônia e países do Bálticos.

Moscou, entrementes, já deixou claro que nações que admitam em seu território os sistemas norte-americanos de mísseis antibalísticos terão de enfrentar os sistemas de mísseis de alerta precoce instalados em Kaliningrad.

E o major-general Kirill Makarov, vice-comandante das Forças de Defesa Aeroespaciais da Rússia, também já deixou claro que Moscou está atualizando suas capacidades aéreas e de mísseis de defesa, para pulverizar toda e qualquer ameaça –  real – que o país receba do Prompt Global Strike (PGS) dos EUA.

Na doutrina militar russa de dezembro de 2014, o crescimento militar da OTAN      e o PGS dos EUA aparecem listados como principais ameaças de segurança. O vice-ministro da Defesa, Yuri Borisov, destacou que “a Rússia tem as capacidades necessárias, e será obrigada a desenvolver sistema como o PGS.”

Onde está nosso butim?

Os jogos retóricos do Pentágono servem também para mascarar um processo de apostas realmente muito altas. Essencialmente, trata-se de guerra por energia – centrada na disputa pelo controle do petróleo, gás natural e recursos minerais da Rússia e da Ásia Central.[1] Quem controlará essa riqueza? Os testa-de-ferro dos oligarcas “supervisionados” pelos chefes em New York e Londres? Ou a Rússia e seus parceiros na Ásia Central? Daí a incansável guerra de propaganda.

Há quem argumente que os Masters of the Universe promoveram a ressurreição dos velhos álibis geopolíticos da contensão/ameaças – estimulados pelo que se pode chamar de conexão Brzezinski/Stratfor –, para encobrir, ou esconder, outro fato impressionante.

Eis o fato: a verdadeira razão da Guerra Fria 2.0 é que o poder financeiro New York/Londres sofreu perda de mais de um trilhão de dólares, quando o presidente Putin arrancou a Rússia daqueles esquemas de saqueio.

E o mesmo se aplica a todo o golpe em Kiev – forçado pelas mesmas forças financeiras de New York/Londres, para impedir que Putin destruísse suas operações de saqueio na Ucrânia (as quais, por falar delas, prosseguem inalteradas, pelo menos no domínio das terras agricultáveis).

Contensão/ameaças também estão sendo usadas freneticamente para impedir a qualquer custo que se constitua uma parceria estratégica entre Rússia e Alemanha – que a conexão Brzezinski/Stratfor vê como ameaça existencial aos EUA.

O sonho molhado dessa conexão – que, vale lembrar, os neoconservadores também sonham – seria um retorno glorioso à época em que a Rússia foi saqueada livremente, nos anos 1990s, quando o complexo industrial militar russo colapsou, e o ocidente assaltava recursos naturais naquela região, como se fossem donos do mundo. Não vai acontecer outra vez.

Assim sendo, qual o Plano B do Pentágono? Criar condições para fazer da Europa cenário de guerra potencialmente nuclear. Não há ameaça mais real que essa. *****


[1] E também as guerras pela água. Ver “Síria e Iraque são também guerras  pela água. E outras virão.”

Fonte: Moons of Alabama

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Sobre Luiz Albuquerque

O Núcleo de Estudos sobre Cooperação e Conflitos Internacionais (NECCINT) da Universidade Federal de Ouro Preto em parceria com as Faculdades Milton Campos, sob a coordenação do professor Luiz Albuquerque, criou o Observatório de Relações Internacionais para servir como banco de dados e plataforma de pesquisas sobre relações internacionais e direito internacional . O site alimenta nosso trabalho de análise de conjunturas, instrumentaliza nossas pesquisas acadêmicas e disponibiliza material para capacitação profissional. Mas, além de nos servir como ferramenta de trabalho, este site também contribui para a democratização da informação e a promoção do debate acadêmico via internet.

4 respostas em “Pepe Escobar: “O mito de uma ‘ameaça’ russa “

  1. É notável que o que está em jogo não é somente um conflito por “ameaça” de ofensa territorial , mas trata-se de uma ameaça econômica, onde “os grandes” brigam pelo domínio dos recursos naturais , como se fossem donos do planeta.

    O uso indiscriminado dos recursos naturais , seguindo a lógica que muito destes recursos exaurem , cria um desconforto para o capitalismo voraz. As parcerias firmadas pela Rússia tiram o sono do grande império capitalista da terra do “Tio Sam”.

    O poder bélico da Rússia frete o da OTAN , demonstra que o caminho não será trançado pela imposição da força , os camaradas se aparelharam de forma a garantir a proteção nesse sentido.

    Resta voltarmos a questão central sobre o que estas potências estão debatendo? Ao invés de se aparelharem de armas cada vez mais letais, ambas deveriam se preocupar em planejar como recuperar e restaurar os recursos naturais.

    Enquanto demonstram sua força econômica e militar esquecem que o planeta esta ruindo bem abaixo de seus pés. Pois a matéria prima, o combustível, a matriz enérgica mundial está em franca decadência, já há estudos sobre o petróleo e a necessidade de estabelecer uma matriz renovável. Por isso é necessário a mudança de discurso Rússia bom EUA/ OTAN mau e vice versa. E repensar a origem deste “conflito”.

  2. A mídia do Ocidente vive pressionando a Rússia devido a questões internas como a Chechênia por exemplo e no âmbito externo,em questões como a da Ucrânia.Ocorre que a OTAN a cada dia que passa,vem instalando bases militares cada vez mais próximo das fronteiras russas, o que faz com que o governo de Moscou vise questionar tais medidas,e procurar com que os países vizinhos lhe apoiem.
    A Ucrânia,país que está passando por uma total instabilidade política interna e externa reflete exatamente a situação mencionada acima : O país procurou se afastar da Rússia e da Comunidade dos Estados Independentes (CEI) políticamente e economicamente e procura integrar o Bloco da União Européia (UE) e se tornar membro da OTAN. Porém tal fato não poderia ocorrer de maneira simples, uma vez que o país é extremamente dependente da Rússia, especialmente de Gás natural,no qual 98% vem da Rússia,entre outros problemas também advindos do colapso da União Soviética,ocorrido em Dezembro de 1991.
    Enfim concluímos que tanto a OTAN quanto a Rússia financiam grupos rebeldes e governos e ambos os lados cometem crimes,logo não há quem é certo nem quem é errado,apenas os países em conflito que sofrem com tais consequências deste jogo Político.

  3. Ocorrida uma possível ameaça Russa, após o comandante das Forças Conjuntas dos Eua, Martin Dempsey ter entrado em território supostamente não sabido, que pertence por direito a Donald Rumsfeld. Dempsey afirma que não sabe o que a Rússia intenta, portanto, no momento, é melhor deixar de lado as intenções. Contudo, é certo que a Rússia é uma possível ameaça em se tratando de ciberespaço , de disparo de misseis em terra submarinas. E esta é principalmente uma ameaça a OTAN, pois Mocou toma como ameaça a beligerância desta.Contudo, a ideia americana é de conter a Rússia de possível ameaça que venha a ocorrer, deve ser meramente preventiva, sem exageros contra a Supremacia Russa, sem que haja comprovação de alguma violação. O objetivo dos Eua no cenário político sempre foi conter a Rússia, mediante o crescimento da União Europeia e da OTAN, visto que essa sempre foi um páreo em nível de potência, capaz de desafia-los. Caso venha a acontecer um confronto letal entre Rússia e a OTAN, as armas nucleares russas acabarão com a OTAN. O que não se pode negar é que se os Estados Unidos já tivessem tomado uma posição fatal em relação aos russos, o movimento organizado deste último, de impedir o avanço da OTAN e de atualizar o arsenal nuclear, não teria sido necessário, o que já não se comporta hoje. O Pentágono foi uma forma de transparecer a parceria estratégica global entre Rússia e China, o que altera o equilíbrio global, já que pode se considerar as forças militares destas duas superiores às da OTAN, principalmente devido a grande tecnologia e modernidade do arsenal russo. Moscou, já deixou claro que nações que admitam em seu território os sistemas norte-americanos de mísseis terão que a enfrentar. Na doutrina militar russa, o crescimento militar da OTAN E Opgs dos Eua aparecem como as principais ameaças a sua segurança. O foco principal da divergência é pelo controle das riquezas, da guerra por energia, pelo controle de petróleo, gás natural e recursos mineirais da Rússia e da Ásia Central. A verdadeira razão desse conflito é que o poder financeiro exercido principalmente pelos americanos sofreu uma enorme perda, quando o Presidente Putin, arrancou a Rússia dos esquemas de saqueio, ou seja é uma ameaça a potência econômica americana. Este quer conter qualquer possível estratégia entre Rússia e algum país de relevância, como é o caso da Alemanha. Para concluir, a boa relação entre Estados e Rússia passa por uma utopia, fato distante e difícil de se acontecer.

  4. Os Estados Unidos da América, utiliza de seu poder bélico e financeiro para tentar controlar e influenciar os demais países, desde sua independência, pra sempre! Nas duas grandes guerras os EUA foi o pais protagonista de ambas, deixando parecer que ele estava apenas se aliando aos países europeus, ele estava na verdade buscando a implantação de seus ideais. E atualmente não é diferente, a política externa da América exige que todos seus “aliados”, se podemos assim dizer, siga suas ideias. Caso algum Estado não a siga, ela vai atacando e ameaçando os países de “oposição”. Assim ocorreu em 11 de setembro de 2001, quando após ser ameaçado diversas vezes pelos Estados Unidos, os “terroristas” os atacaram, fazendo os EUA se passarem por vítimas, e criando uma política annti-terrorista. Esse cenário esta se repetindo atualmente, com Putin e Obama, uma vez que esse está tentando impor suas vontades naquele, que não quer aceitar tais, e ameaçando atacar os EUA, que é exatamente o que eles querem, pois assim, eles passam de agressores à vitimas, criando assim uma justificativa para usar a força bruta, sem que sejam rotulados como “monstros”.

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