Mas… E qual é o verdadeiro negócio com o Irã?


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31/7/2015, The Saker, The Vineyard of the Saker

Tenho de começar a coluna com um mea culpa: desde pelo menos 2007, vivo a prever que os EUA atacarão o Irã; e até agora, sempre errei completamente. O ataque nunca aconteceu. Mas acertei, ou pelo menos espero ter acertado, nas razões pelas quais esse ataque não conseguiu se materializar, pelo menos até agora. Em termos puramente militares, um ataque contra o Irã não poderia ser bem-sucedido, porque o Irã tinha opções demais, para contra-ataque assimétrico. Mas as verdadeiras razões por trás do fracasso certo de qualquer ataque dos EUA contra o Irã estão enterradas sob uma montanha de mitos que cercam a questão nuclear iraniana. Hoje, proponho examinar, embora não muito profundamente, o maior desses mitos.

O mito: Irã trabalha num programa militar nuclear

Esse, claro, é o principal mito, a pedra basilar de todas as demais tolices que se escreveram sobre o Irã. A resiliência desse mito baseia-se num fator simples: é impossível provar uma premissa que comece com “não”. Assim como o Iraque jamais pôde provar que não tinha armas de destruição em massa, o Irã não pode provar que não tem programa militar nuclear. A comunidade de inteligência dos EUA mostrou nível de coragem realmente surpreendente quando, apesar da pressão imensa de neoconservadores que endossavam esse mito, a comunidade concluiu, no 2007 NIE, que o Irã tivera um programa nuclear no passado, mas parou de trabalhar nele. Mesmo assim, o bom-senso nos confirma o que se pode descrever como “prova circunstancial eloquente” de que o Irã não tem qualquer intenção de desenvolver alguma arma nuclear.

Para começar, desenvolver realmente uma arma nuclear não significaria que o Irã conseguiria usá-la, muito menos contra Israel. À parte a bomba propriamente dita, capacidade nuclear implica ter todos os seguintes itens:

– Possibilidade de testar a bomba nuclear (se não é testada, não tem qualquer serventia).

– Sistema de transporte e disparo (míssil, avião).

– Habilidades para proteger a bomba nuclear e o sistema de transporte/disparo contra ataque preventivo para desarmá-los.

– E o mais importante de tudo: uma estratégia de guerra, uma doutrina militar sobre como usar a capacidade nuclear.

Fato é que o Irã não tem como testar bomba alguma, sem que o planeta tome conhecimento. O Irã não tem sistema confiável e que sobreviva, para transportar e disparar a bomba; e, mais importante ainda, o Irã não pode nem cogitar de usar bomba atômica contra EUA ou Israel, sem sofrer ataque devastador de retaliação. Tenham em mente que, embora, com certeza total, os militares israelenses não tenham meios pelos quais ferir significativamente o Irã com armas convencionais, o estado judeu com certeza também total tem meios pelos quais ferir gravemente o Irã, com o vasto e sofisticado arsenal nuclear israelense. Em outras palavras, usar nukes seria suicídio para o Irã.

Pregadores e defensores do mito das armas nucleares iranianas vivem a citar a República Popular Democrática da Coreia, a “Coreia do Norte”, como “prova de que bombas atômicas são proteção eficaz contra ataques do Tio Sam”. O problema é que essa gente não presta atenção a uma diferença crucial: a capital da Coreia do Sul, Seul, está dentro da área de alcance dos tiros, e a RPDC tem vastíssima capacidade militar convencional, a qual, embora envelhecida e pouco sofisticada, mesmo assim pode causar dano terrível à Coreia do Sul e às forças dos EUA ali alocadas. Segundo a Wikipedia, a RPDC tem 9,495 milhões de pessoal ativo, da reserva e paramilitares (inclusive 180 mil soldados de forças especiais), o que faz da ‘Coreia do Norte’ a maior organização militar da face do planeta. E tudo isso, literalmente, a apenas uns poucos passos de caminhada de distância de Seul! Bem diferente disso, o Irã absolutamente não tem poder para projetar capacidades que tornariam possível atacar Israel.

Quando encurralados por argumentos lógicos irrespondíveis, os apoiadores/pregadores do mito do programa militar nuclear do Irã voltam sempre ao clichê super desgastado de “muçulmanos são fanáticos”, todos querendo “morrer por Alá” e toda a correspondente restante imbecilidade ‘ensinada’ ao público pelos veículos da imprensa-empresa. O problema aí é que há exatamente nenhuma prova, provas zero, que demonstre a dita “insanidade” dos líderes iranianos (e, não, não, Ahmadinejad jamais disse que o Irã varreria Israel do mapa). De fato, considerando que desde 1979 os EUA vêm fazendo tudo que seja imaginável para derrubar a República Islâmica ou, no mínimo, para criar um pretexto para poder atacá-la, eu diria que os iranianos são gente extremamente sofisticada e altamente inteligente. O modo como o Irã usou os neoconservadores norte-americanos para fazer os EUA atacarem o Iraque (o pior inimigo dos iranianos), em vez de o Irã ter de atacar, me parece movimento simplesmente brilhantíssimo. Não, os iranianos não são, absolutamente não, doidos; eles sabem que ter uma arma nuclear não ajudará a proteger o Irã; e eles sabem que jamais poderiam usá-la, sem determinar o fim da República Islâmica. Além disso, os que tanto acreditam que os muçulmanos sejam doidos com tendência ao suicídio nuclear, jamais tiveram a ideia de bombardear o Paquistão. Quero dizer: por que o Irã, sim, mas o Paquistão, não?

A realidade: o Irã é ameaça civilizacional à hegemonia dos EUA, a Israel e ao Reino da Arábia Saudita

Essa é a real razão de todas as tensões, agitar de sabres e histeria: o Irã representa enorme ameaça política, social, econômica, religiosa e até civilizacional aos EUA, a Israel e aos sauditas. Diferente do regime saudita obscurantista e totalitário, a República Islâmica é democrática, democracia islâmica, socialmente progressista, capaz de alcançar sucessos realmente espantosos, no plano econômico, científico e social, sob condições extremamente duras, que incluíram, desde sanções econômicas e políticas impostas pelos EUA, até uma devastadora guerra, que durou sete anos, contra o Iraque (integralmente apoiado e armado até os dentes por EUA, União Soviética e França). Oh, claro, o Irã não é sociedade perfeita e sem mácula, mas, comparado ao resto do Oriente Médio, é realmente um paraíso sobre a Terra.

Que o Irã tenha alcançado tudo que alcançou, em aberto e total desafio contra ambos, EUA e Israel, é absolutamente inaceitável para o Império Anglo-sionista. Só isso já basta, como razão para desejarem fazer ao Irã o que recentemente fizeram à Líbia e à Síria. Quanto aos sauditas, não só o reino medieval wahhabista deles aparece como ainda mais flagrantemente bárbaro, se comparado ao Irã, mas, também, há uma considerável minoria xiita que vive quase exatamente sobre os maiores campos de petróleo do reino. Na verdade, por alguma ironia do destino, se se examina um mapa da Arábia Saudita ou do Iraque, logo se vê que os xiitas vivem quase exatamente sobre os mais ricos campos de petróleo dos dois países. Por fim, o Irã é aliado natural do regime alawita na Síria e, especialmente, do Hezbollah no Líbano.

Um aspecto dos sucessos da República Islâmica é que o Irã esteve, como ainda está, trabalhando num programa nuclear para finalidades civis. Primeiro, o Irã sempre precisou de fonte alternativa de energia e por isso, já nos aos 1950s, os EUA forneceram ao Irã inúmeras tecnologias nucleares civis, sob programa Atoms for Peace. Segundo, o Irã também está engajado em pesquisa nuclear, também para finalidades médicas; e ter programa de pesquisa nuclear civil é fonte de grande prestígio.

Mas ainda mais importante que isso, o programa nuclear iraniano converteu-se em um símbolo de soberania. Tio Sam diz “não, você não pode”, e o Irã replica “ah, podemos sim, podemos e faremos.” Esse é o verdadeiro ‘crime’ cuja ‘culpa’ pesa sobre o Irã: ter desafiado a hegemonia anglo-sionista sobre o Oriente Médio.

Pode haver muitas razões pelas quais os EUA assinaram afinal esse acordo ‘P5+1’ com o Irã. Vão de simples “fadiga imperial” até um desejo, em Obama, de mostrar o ‘acordo’ como feito de sua presidência (absolutamente catastrófica, sem nem o acordo para exibir). Pode também ter acontecido de o establishment de segurança dos EUA ter feito contas (certas) e concluído que os EUA simplesmente não teriam fôlego para fazer guerra ao Irã. Seja qual for a causa, fato é que o acordo foi afinal firmado, e esse é resultado, mesmo que provisório, extremamente bom.

Potencialmente, o Irã pode desempenhar papel crucial e altamente benéfico no Oriente Médio, primeiro e sobretudo, como único país realmente capaz de dar conta do Daesh (também chamado “Estado Islâmico”, ISIL e ISIS) e de estabilizar o Iraque. Sim, é verdade: enquanto os EUA continuarem a apoiar a al-Qaeda na Síria, os horrores só continuarão. De fato, algum analista da CIA particularmente mais pervertido poderia argumentar que dar poder ao Irã pode tornar menos arriscada a derrubada do regime sírio, porque, mesmo no caso de Damasco cair frente à al-Qaeda, o Irã ainda teria meios para conter os terroristas.

Seja qual for o caso, a verdade é que, hoje, só o Irã e o Hezbollah estão impedindo o Daesh de assumir o controle de toda a região. Assim sendo, eu não descartaria totalmente a possibilidade de a CIA & Co. ter aliviado a pressão sobre o Irã, mesmo temporariamente, para dar ‘um aperto’ no Daesh (empurrando os dois lados na direção do conflito, como ensina a velha anglo-tradição).

Aqui tenho de voltar ao mea culpa inicial. Passei anos prevendo que os EUA atacariam o Irã e, em vez de ataque, o que se tem hoje é um Plano Amplo Conjunto de Ação (PACA) [ing. Joint Comprehensive Action Plan, JCAP] entre o Irã e o P5+1.

Confesso que estou tão feliz com o acordo, quanto descrente de que venha a ser implementado. Estou feliz, porque, se o acordo for levado a sério, pode realmente fazer sentido e diluir uma situação desnecessariamente perigosa. Mas também estou muito cético. Quando observo a reação histérica do lobby israelense nos EUA, custo a acreditar que o acordo, algum dia, venha a ser cumprido pelos EUA. Afinal de contas, se os neocons não controlam completamente a Casa Branca, com certeza controlam todo o Congresso e a imprensa-empresa nos EUA. E nem o fato de que a maioria dos judeus norte-americanos apoiam o acordo com o Irã os deterá. Como já disse incontáveis vezes, o sionismo não é questão étnica nem religiosa, é uma ideologia; e os judeus norte-americanos não têm mais influência sobre o regime dos 1% no poder, que os norte-americanos não judeus. Quanto aos 1%, eles só são leais a eles mesmos. Significa que os siodoidos [orig. Ziocrazies] conseguirão destruir o acordo com o Irã? Honestamente não sei, mas confesso que, por natureza, não tendo ao otimismo. *****

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Sobre Luiz Albuquerque

O Núcleo de Estudos sobre Cooperação e Conflitos Internacionais (NECCINT) da Universidade Federal de Ouro Preto em parceria com as Faculdades Milton Campos, sob a coordenação do professor Luiz Albuquerque, criou o Observatório de Relações Internacionais para servir como banco de dados e plataforma de pesquisas sobre relações internacionais e direito internacional . O site alimenta nosso trabalho de análise de conjunturas, instrumentaliza nossas pesquisas acadêmicas e disponibiliza material para capacitação profissional. Mas, além de nos servir como ferramenta de trabalho, este site também contribui para a democratização da informação e a promoção do debate acadêmico via internet.

2 respostas em “Mas… E qual é o verdadeiro negócio com o Irã?

  1. O Irã vem sobrevivendo a embargos, ataques e sabotagens por parte dos Eua desde 1979, e o motivo? É bem obvio: o medo de se perder a liderança no oriente médio. Porem essa posição acabou se ruindo, após a invasão do Iraque em 2003 e as revoluções árabes de 2012. A administração Obama, assistiu perplexa a mudança de regime em alguns países, porem quando se tratou de um antigo “aliado”, o Egito, Obama teve que agir. A mudança de regime interessa apenas nos países “inimigos”, pois o Egito recebe uma pomposa ajudar militar americana, apenas para deixar de atacar o aliado mais próximo dos Eua no oriente médio, no caso, israel. Houve uma tentativa de implementar essa “revolução” ao Irã, mas sem sucesso, pois o regime iraniano, ao contrario do que se pensava, se manteve forte internamente. Após essa falha, voltou-se a velha retorica do programa nuclear iraniano e as velhas promessas de ataques, vindo tanto de Israel quanto dos Eua em segundo plano. Porem oque se mostrou é que Israel sozinho não tem a capacidade técnica de acabar com o programa iraniano. O que ficaria a cargo da administração de Obama, porem o presidente americano preferiu a diplomacia, pelo simples fato de seu país estar estagnado, após duas aventuras militares muito custosas. Agora com esse acordo, fica evidente que o Irã é um dos principais “players” no cenário do Oriente médio.

  2. Este fetiche que os EUA possuem com Irã é antigo. O Tio San sempre tentou arrumar um motivo para justificar um conflito com o Irã. As desculpas vão de apoio a grupos terroristas a proliferação de armas de destruição em massa. A verdade que o Irã além de ser o país mais aberto culturalmente do oriente médio esta localizado em cima da segunda maior reserva de petróleo do mundo, ficando somente atrás da Arábia Saudita. Se tem petróleo interessa aos Estados Unidos!
    Os americanos tentarão de tudo para controlar as jazidas de hidrocarbonetos iranianas assim como fizeram no Iraque, e para isso não se sentem envergonhados de defenderem argumentos insanos como: iranianos são extremistas, tiranos que oprimem o próprio povo, abusadores de mulheres enfim todo tipo de fantasias que deixariam qualquer roteirista de filme B com inveja.
    É importante ressaltar que fanatismo não é uma exclusividade dos muçulmanos ,como em muitos casos é colocado pela grande mídia nacional e internacional. Há também judeus fanáticos que não enxergam o outro como igual, mas sim como uma ameaça. Resquício do holocausto? Talvez.
    O sionismo movimento que se iniciou no século XIX, com a contribuição financeira de judeus de toda parte do mundo para criação de um Estado Hebreu, ainda está presente no seio de muitas comunidades judaicas de varias partes do mundo que vem qualquer crítica as políticas adotadas por Israel, como movimento anti sionista portanto um ameaça que tem que ser extirpada. Mistura tudo isso com a ganância americana por petróleo mais ameaça que o Irã representa à hegemonia da família real saudita, entenderemos o ódio que o país persa provoca em determinados países ocidentais.

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