Entre o medo e a apatia, gregos se preparam para o pior


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Em meia década de crise, a população aprendeu a lidar com constantes previsões sombrias sem entrar em pânico. Maioria se preocupa com as finanças e tenta poupar o quanto pode, mas trata saída do euro como improvável.

Pantelis Chatzisinakis não costuma entrar em pânico. O contador de 38 anos passou os últimos 14 anos tentando equilibrar as finanças de seus clientes, que vão de trabalhadores autônomos a médios empresários. Parte do tempo é destinada a acalmar as pessoas, numa tentativa de convencê-las de que tudo vai dar certo, apesar da matemática complicada.

Ele nota que seus clientes, assim como o governo, estão se confrontando com questões difíceis. “Meus clientes estão se perguntando se devem pagar as compras de supermercado, os empréstimos ou as contas de água e luz”, afirma Chatzisinakis. “As pessoas estão tão cansadas de todos esses anos de deterioração econômica que, quando ouvem que o país vai quebrar, nem sabem mais o que isso significa.”

De fato, após cinco anos de crise, os gregos vêm ouvindo quase diariamente previsões apocalípticas sobre calotes e um retorno do dracma, a antiga moeda nacional. “São tantas especulações que a maior parte da população nem liga mais”, diz Nick Malkoutzis, editor do portal especializado em economia Macropolis.

Corrida silenciosa aos bancos

Segundo pesquisas de opinião, a grande maioria dos gregos é contra a saída da Grécia do euro, embora reconheçam que isso é uma possibilidade. Porém, não há protestos, nem sinais de insatisfação generalizada com o governo do primeiro-ministro Alexis Tsipras, que assumiu há cerca de quatro meses. Mas, ainda que não se veja um pânico generalizado, muitos fazem planos de contingência para o caso de o cenário piorar.

“Desde o início de dezembro, quando a incerteza começou a atingir seu ápice, houve um aumento imenso de saques bancários, totalizando cerca de 25 bilhões de euros (ou 15%). As pessoas estão preocupadas com um controle de capital ou com a saída do euro”, comenta Malkoutzis.

Para alguns gregos, como Christos Tsakirios, comerciante de peixe da ilha de Leros, no mar Egeu, essa série de alertas soa como chantagem.

“Há anos ouvimos que estamos à beira de um precipício, que vamos quebrar, que não haverá dinheiro nos caixas eletrônicos, que haverá tanques protegendo os bancos: tudo para que as pessoas não corram e peguem seu dinheiro”, afirma. “E, no final, nossos políticos simplesmente concordam com novas medidas de austeridade, e nós voltamos a ser o bom aluno.”

Tsakirios passou por dificuldades nos últimos cinco anos, mas diz ter sorte de ainda estar trabalhando, apesar de, hoje em dia, até o comércio de peixe estar mais difícil. Ele afirma que apoia a política antiausteridade do governo, mas não quer a saída da Grécia do euro. “Muitos gregos que conheço não creem que isso de fato acontecerá”, frisa.

A difícil tarefa de poupar

Economistas preveem que 2015 pode ser um ano tão ou mais complicado quanto 2010 e 2012, quando o medo de que a Grécia pudesse sair da zona do euro gerou protestos e manchetes alarmistas na Europa.

“É um governo inexperiente, que está em confronto com os credores sobre uma série de questões, e isso está causando consternação considerável”, opina Malkoutzis. “E a Grécia está simplesmente ficando sem dinheiro. Se não houver acordo nas próximas semanas, o default [calote] vai se tornar uma realidade”, completa o analista econômico.

O contador Pantelis Chatzisinakis não crê que a zona do euro permitirá que a Grécia fique inadimplente e deixe a união monetária. “Sou um otimista. Sei que é difícil, que nosso governo está numa terrível posição como negociador, mas não creio que os nossos parceiros do euro vão deixar a situação chegar ao ponto de destruir nosso país inteiro”, afirma.

Ele diz que a maioria de seus clientes pensa da mesma forma, apesar de um deles manter todo o dinheiro na Suíça e transferir para contas gregas apenas o suficiente para sobreviver. “Ele tem medo de que o país quebre e saia da zona do euro desde que a crise começou”, conta. “Mas os outros clientes mal têm dinheiro suficiente para economizar, muito menos para enviar ao exterior.”

Sem ajuda ou acesso aos mercados de títulos, a Grécia está perto de ficar sem dinheiro – o país teve de esvaziar uma conta de depósito junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para pagar uma dívida à própria instituição, na semana passada.

Nesta segunda-feira, investidores se livravam de ações e bônus gregos por preocupações de que Atenas possa não fazer o próximo pagamento, que vence em 5 de junho. Diante do temor de funcionários públicos, o governo garantiu que pagará salários e pensões em maio e que não usará o dinheiro para saldar parte da dívida.

“Tenho medo de que o governo não saiba o que está fazendo”, diz Chatzisinakis. “Não quero nem pensar no que pode acontecer”, conclui o contador, demonstrando a preocupação que se esforça para não deixar transparecer a seus clientes.

 Fonte: DW

8 respostas em “Entre o medo e a apatia, gregos se preparam para o pior

  1. Em 01 de janeiro de 2002 o Euro passou a ser circulado em forma de notas e moedas, sendo que anteriormente já circulava em forma de transferências e cheques. Os países da União Europeia que adotam a moeda do Euro como única e oficial pertencem à Zona do Euro, ou Área do Euro.
    Dentre esses países está a Grécia que hoje possui uma dívida que gira em torno de 240 bilhões de euros. A entrada na zona do euro permitiu que os gregos adquirissem empréstimos mais baratos, no entanto, a ausência de medidas para conter gastos dentre outros fizeram com que a dívida grega chegasse a números alarmantes.
    Pacotes Emergenciais de resgate foram concedidos à Grécia pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional, sendo que foram exigidas a adoção de medidas de austeridade pelo país, que incidiam tanto na área da saúde, educação dentre outras. No entanto, tais medidas levaram o país a uma instabilidade, gerando desempregos que hoje estão acima de 25% e uma imersão de mais de 30% da população na miséria.
    Tal quadro em que se encontra a Grécia hoje questiona a sua permanência na zona do euro, de modo que a população almeja com a eleição do novo primeiro ministro, Alexis Tsipras, o qual é líder da Syriza (legenda radical de esquerda), uma saída para essa situação de instabilidade que se encontra o país.

  2. Como bem se observa, a Grécia vem enfrentando uma dura crise econômica. Fato é que na ultima década a Grécia gastou bem mais do que podia, requerendo pesados empréstimos e deixando sua economia a mercê de uma crescente dívida. Desse modo, enquanto os cofres públicos eram esvaziados pelos gastos, a receita era atingida pela evasão de impostos.

    Em razão da globalização e da relação assumida pelos países no cenário internacional, a crise enfrentada pela Grécia ameaça desestabilizar outros países, devido a integração econômica e social dos diversos países. A situação de crise é tão interligada que existem rumores de que Espanha, Itália, Irlanda e Portugal acabem seguindo o mesmo caminho, agravando de sobremaneira as suas dívidas.

    A grave situação da Grécia, que tem perdido alguns prazos estabelecidos por não conseguir arrecadar verbas capazes de honrar a dívida existente, pode ocasionar em uma reação em cadeia, cujo provimento final seria a saída do país do grupo de países que adotam o euro como moeda ou ainda, deixar o bloco político-econômico

    Apesar da Grécia estar implementando medidas a fim de reverter a situação, o medo internacional é que toda a zona do euro e também aqueles que negociam com esses países sejam afetados pelo impacto da crise grega. Teme-se que os problemas da Grécia nos mercados financeiros internacionais provoquem um efeito dominó, derrubando outros membros da zona do euro cujas economias estão enfraquecidas.

    Resta pois, a única alternativa, a retirada da Grécia da Zona do Euro, no intuito de evitar que tal crise assuma proporções ainda maiores, desestabilizando o comercio internacional e outros países que tem feito um esforço para evitar que suas economias também caiam no buraco.

  3. A Grécia, ao requisitar pesados empréstimos e deixar sua economia por conta de dívidas, acabou por se encontrar em uma dura crise econômica. Os cofres públicos continuavam sendo esvaziados juntamente com a grande evasão de impostos.

    Considerando o sistema europeu em conjunto com a globalização, tal crise possui capacidade de influenciar fortemente diversos outros países, como, por exemplo, Espanha, Portugal, Irlanda e Itália. A Grécia torna-se incapaz de arcar com as suas dívidas, não possuindo meios para angariar a quantia necessária, o que gera uma reação em cadeia que cada vez mais a coloca no fundo do poço.

    Essa reação em cadeia, o chamado efeito dominó, assusta os demais países envolvidos, chegando até a anular as medidas que o país vem tomando na tentativa de evitar o pior. A situação na qual está pode vir a gerar, devido aos fatos expostos, a sua saída da Zona do Euro, evitando que mais países sejam tragados juntos com a Grécia.

  4. • A razão da atual crise grega, perpassa a liberação de 7,2 bilhões de euros, sendo esta a última parte do empréstimo dada pelo FMI. Com o não pagamento dos empréstimos e dessa forma, não levando a Grécia a uma posição favorável para novos empréstimos, culminando no fechamento das instituições bancárias pelo governo grego para evitar o saque excessivo pela população. Posteriormente foi estabelecido um limite máximo de saque diário, para evitar o esvaziamento das reservas monetárias do país. Ao longo de toda a crise, percebeu-se claramente o endividamento crescente da Grécia, que sem ajuda do bloco europeu, teria sucumbido e que, no momento atual, quem paga pela ingerência do governo grego é a própria população. Explicando o ocorrido na Grécia com uma situação cotidiana teríamos: “Você tem duas vacas que foram emprestadas de bancos franceses e alemães. Você come as duas. Os bancos cobram a entrega do leite deles, mas você não tem mais e então chama o FMI. O FMI empresta duas vacas para você. Você come as duas. Os bancos e o FMI cobram o leite as vacas deles. Você saiu para cortar o cabelo. ”

  5. A crise econômica da Grécia parece não ter fim. Desde 2008 muitos países da Europa caminharam lado a lado com a crise dos EUA, o que difere a Grécia nesse cenário é que o governo grego tentou maquiar as contas públicas, usando discursos de que a economia estava sob controle e que a dívida não era tão preocupante assim. Como não? Atualmente a Grécia possui uma dívida de 320 bilhões de Euros, o que corresponde 177% do PIB.
    Assusta saber que um país membro do bloco europeu está sem dinheiro para pagar o funcionalismo, a aposentados e a fornecedores e que a União Européia compra quase 20% das exportações brasileiras, ou seja, se o calote da Grécia espalhar problemas por toda a Europa as consequências serão sentidas nas exportações do Brasil.

  6. A crise da Grécia deve ser entendida, ora o país tem uma dívida de aproximadamente 320 bilhões de euros, que não tem condições de arcar. Essa dívida é principalmente proveniente do modo de gestão estatal em que se gasta muito mais do que se arrecada, vale ressaltar o gasto público que cresceu aproximadamente 50% de 1999 e 2007. E a crise só agravou e tomou proporções extensas quando a crise financeira global limitou crédito ao país. Diante de uma instabilidade tão grande e a recusa do governo grego em adotar medidas austeras, que implicam em impostos mais elevados e corte de gastos públicos, a situação só se agrava. Parece muito arriscada a saída da Grécia da zona do euro, pois isso geraria uma insegurança aos investidores, que passariam a cobrar juros mais elevados para compensar o risco. Porém a permanência da Grécia na zona do euro, também se mostra complicada, já que traria grande prejuízo à outros países europeus. De fato é uma questão extremamente delicada e que precisará de grande estudo por parte dos países da zona do euro, para que não se instale uma crise ainda maior.

  7. Na raiz da crise grega está uma dívida de aproximadamente 320 bilhões de euros (mais de R$ 1 trilhão), que o país simplesmente não tem condições de pagar. A explicação mais simples para esta crise é que, durante muitos anos, o país gastou bem mais do que arrecadava, e financiava os gastos através de empréstimos. A Grécia já fazia isso antes de adotar o euro. E o governo continuou gastando mais do que podia, mesmo após a chegada do euro, em 2001. Empréstimos que não foram declarados para a zona do euro também fizeram com que a dívida do país ultrapassasse significativamente os 60% do PIB estabelecidos como limite de dívida para os países da zona do euro. Mas o problema só ganhou contornos graves quando a crise financeira global limitou o acesso do país ao crédito, o que motivou a intervenção de outros países da zona do euro, que temiam o impacto da suspensão dos pagamentos ou default. A Grécia se transformou no primeiro país desenvolvido a não pagar o FMI e seu calote é o maior da história da instituição, apesar de não ter sido declarado tecnicamente como tal. Dessa forma, vê-se que quem mais sofre com toda a situação econômica que os próprios dirigentes do país se colocaram, é claro, a população. A indecisão sobre o mantimento da Grécia na zona do euro ou não também se perfaz até hoje, e a população continua a sofrer com a situação econômica.

  8. É notável a dificuldade do país grego em definir suas prioriadades econônomicas em mais de cinco anos de crise econônomica. Durante tanto tempo de instabilidade, já surgiram diversos momentos de extrema sensibilidade em que se pensava improvável outro desfecho que não o da saída do país da zona do euro. Porém, nos últimos anos, principalmente com a ascenção do partido esquerdista de Alexis Tsipras, o povo grego vem dando provas de resistencia a qualquer imposição da União Europeia que cause grandes onus econômicos ao país e a sua população. Dessa forma, pacotes de austeridade foram rejeitados e calotes contra os credores anunciados, tudo isso para dar valor à população grega.

    Em certos momentos, foi colocada em cheque a bandeira levantada pelo partido do Goveno Syriza, tornando-se necessário até mesmo uma consulta popular, por meio de um plebiscito, para saber em relação à adoção ou nao de pacotes de austeridade propostos pelas autoridades europeias. A tensão entre os interesses externos e da população foram tão grandes que culminou na renúncia de Alexis Tsipras do governo, sendo convocadas novas eleições. Para a surpresa da maioria, o povo grego deu mais um voto de confiança ao partido Syriza, dando mais uma vez a vitória a esse partido nas eleições recentemente realizadas.

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