DIEGO PAUTASSO: “O PAPEL DA CHINA NA NOVA ARQUITETURA FINANCEIRA MUNDIAL”


Publicado originalmente em 15 de maio de 2015

Não resta dúvida que a criação do sistema Bretton Woods, baseados no Banco Mundial, no Fundo Monetário Internacional e no dólar, constituiu um dos pilares hegemonia norte-americana. Da mesma forma, deve-se reconhecer que as crises financeiras nos anos 1990 – México (1994), leste da Ásia (1997), Rússia (1998), Brasil (1999) e Argentina (2001) -, a supremacia das políticas liberalizantes e a crise financeira global de 2008 atestaram os limites dos mercados auto‑regulados e necessidade de novos padrões de governança.

Assim, a crise de 2008 tem catalisado mudanças internacionais, cujos desdobramentos já se fazem sentir, embora não em toda sua extensão. A criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (Asian Infrastructure Investment Bank – AIIB) só pode ser compreendido como parte de uma nova arquitetura financeira global que, naturalmente, afeta as configurações de poder interestatais. O grande desafio é captar a direção e o sentido das mudanças em curso, pois estas representam, de um lado, um renascimento econômico da Ásia oriental (ARRIGHI, 2008) e, de outro, a conformação de um sistema sinocêntrico na região (PAUTASSO, 2011b). Em suma, trata-se de compreender o enigma chinês e seus efeitos sobre as estruturas hegemônicas de poder lideradas pelos EUA.

Nova arquitetura financeira emergente

Assim, a China tem trabalhado em todas as esferas para construir novas configurações de poder em escala global – sem com isso adotar postura revisionista. E a crise financeira de 2008 irradiada dos EUA parece ter acelerado esse movimento de reordenamento do poder global. Em face desse contexto, o governo chinês, utilizando-se de sua gigantesca capacidade financeira que emerge do tamanho do seu PIB, de suas reservas internacionais e de seus superávits comerciais, busca construir uma nova arquitetura econômico-financeira global. Primeiro, o protagonismo da China foi sinalizado através da afirmação do presidente do seu Banco Central, Zhou Xiaochuan, em março de 2009, acerca da necessidade de superar as vulnerabilidades de uma economia global ancorada em uma moeda nacional (dólar). Sublinhou Zhou a importância de repensar algo na linha do que havia sido proposto originalmente por Keynes às vésperas de Bretton Woods ou mesmo pelo fortalecimento dos Direitos Especiais de Saque (SDR – Special Drawing Rights) como substituto ao dólar[2], uma espécie de cesta de moedas criado em 1969 pelo FMI baseados no dólar estadunidense, iene, libra e euro.

Segundo, com a iniciativa do grupo BRICS que redundou na criação do Novo Banco de Desenvolvimento e do Acordo Contingente de Reservas na sua 6ª Cúpula em Fortaleza, em julho de 2014[3]. Trata-se 1) de um banco para financiamento de projetos de investimento nos BRICS e terceiros países da ordem de um capital subscrito de 50 bilhões de dólares e um capital autorizado de 100 bilhões e 2) de um fundo de estabilização para compartilhar reservas em contextos de crises financeiras no valor de 100 bilhões de dólares (divididos em 41 bilhões de dólares para a China, 18 bilhões para Brasil, Índia e Rússia e mais 5 bilhões para a África do Sul).

Terceiro, a China tem amplificado seu papel de financiador de obras no mundo através do Banco de Desenvolvimento da China e do Eximbank, criados em 1994 como bancos estatais de fomento. Entre 2005 e 2012, o financiamento chinês para a América Latina ultrapassou 86 bilhões de dólares, mais do que Banco Mundial, Eximbank dos EUA e Banco Inter-Americano de Desenvolvimento. Além de créditos abundantes, em geral tem os juros mais convidativos, garantidos por commodities (sem moeda forte), prazos alongados de pagamento, sem imposição de condicionalidades políticas (GALLAGHER; IRWIN; KOLESKI, 2013)

Quarto, o crescimento dos investimentos externos diretos (IED) e os contratos da China tem sido surpreendente. Cada vez mais o país se transforma não só num grande receptor mas em um grande emissor de IED. O estudo da Heritage Fundation, compilado por Derek Scissors, dá a exata dimensão da evolução e da sua distribuição por país e setor da economia até o ano de 2014[4]. Aliás, a China está se convertendo no maior emissor de investimento externo direto (IED) do mundo, em grande parte puxado por empresas estatais que atuam em consonância com os interesses governamentais (SANTOS; MILAN, 2014). Não por acaso tem sido vertigino a ampliação do número de empresas chinesas na lista das 500 maiores da Fortune: no ranking de 2014 já são 95 da China (e Hong Kong), enquanto os EUA caíram para 128[5].

Quinto, é o caso, por exemplo, da sua mais recente proposta de criar um sistema internacional de pagamento (China International Payment System-CIPS) ainda em 2015[6] – iniciativa que o governo russo também tem buscado ampliar para criar um sistema nacional de pagamento[7]. São iniciativas alternativas ao tradicional domínio do SWIFT (Society for the Worldwide Interbank Financial Telecommunication) fundada em 1973 em Bruxelas como principal mecanismo padronizado para transações financeiras globais (através de cartas de crédito e diversas formas de pagamento usando linguagem computacional comum). No fundo, o governo chinês trabalha para a desdolarização global e a internacionalização de sua moeda, o yuan, através da assinatura de swaps cambiários bilaterais, da instalação de centros de liquidação direta fora da Ásia e da abertura programada do mercado de capitais. Com efeito, o objetivo é ampliar a autonomia da China em relação a estruturas do mercado financeiro centradas nos EUA/União Europeia. O certo é que a desdolarização não é uma política cujo resultado dar-se-á no curto prazo, mas é certo também que uma economia que poderá ser 25% maior do que a dos EUA em 2050 necessariamente terá sua moeda demandada como reserva de valor[8].

Sexto, a formação do Fundo Rota da Seda[9], a ser constituído por 40 bilhões de dólares a partir de recursos das reservas internacionais e de bancos chineses (China Investment Corp., Export-Import Bank of China e China Development Bank). O objetivo é integrar a Eurásia recriando uma nova Rota da Seda, cujas diretrizes já foram explanadas pelo presidente Xi Jinping no Fórum Boao para a Ásia em março de 2015. Nesse documento[10], o governo reitera que recriação do eixo de cooperação entre Oriente e Ocidente deve fortalecer a inclusividade, o aprendizado e o benefício mútuos, de modo a impulsionar a coordenação política, o desenvolvimento de infraestrutura e a integração econômica (comercial e de investimentos). No entendimento da China, serão duas vias de ligação com a Europa: o Cinturão Econômico da Rota da Seda estabelecerá essa conexão através da Mongólia, Ásia Central e Rússia e da Rota da Seda Marítima será constituída através da Mar do Sul da China e no Oceano Índico.

Por fim, a criação oficial do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) se deu em outubro de 2014, projetado para ter, inicialmente, um capital social de 100 bilhões de dólares, sendo metade alocado pela China. É um banco de desenvolvimento multilateral (MDB) tendo como foco o desenvolvimento de infraestrutura e outros setores produtivos na Ásia, complementando e cooperando com os bancos multilaterais de desenvolvimento existentes. Até o final de outubro de 2014, 22 países asiáticos assinaram um Memorando de Entendimento (MOU) para estabelecer o AIIB, tendo Pequim como sede e Jin Liqun como seu primeiro Secretário-Geral Interino.[11]Embora tenha sido uma iniciativa voltada à região, como sugere o nome do banco, foi criado com 57 membros fundadores, incluindo aliados norte-americanos. O fato é que a iniciativa ganhou uma importância muito maior e demonstrou a reduzida capacidade dos EUA de dissuadirem seus aliados. Reconheceu o ex-secretário do Tesouro dos EUA, Lawrence Summers[12], que a China pode abalar a hegemonia econômica dos EUA.

Considerações finais

A China tem apresentado uma crescente capacidade financeira, manifesta i) nas suas reservas internacionais de cerca de 4 trilhões de dólares[13]; ii) na importância global de seus bancos, que em 2004 não possuíam nenhum entre os 10 maiores do mundo e em 2013 já tinha o primeiro, segundo, sétimo e nono (Industrial and Commercial Bank of China (ICBC), China Construction Bank, Bank of China e o Agricultural Bank of China)[14]; e iii) na participação ativa na criação e fortalecimento dos bancos de desenvolvimento, como o China Development Bank (CBD-1994), o China-Africa Development Bank (CAD Fund-2007), o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS (NBD-2014) e agora o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutra (AIIB-2014). O resultado é a condição para liderar a construção de uma nova arquitetura financeira global que, embora de maturação e desdobramentos incertos, tende i) a aprofundar a integração infraestrutural e econômica da região, ii) a projetar a liderança regional (e global) da China e iii) a fortalecer novos sistemas de governança na economia mundial.

Não resta dúvida que a China está consciente de que seu desenvolvimento ainda é recente e, por isso, precisa amadurecer sua trajetória para assumir o papel e a responsabilidade de um líder regional ou até mesmo global (OLIVEIRA; LEITE, 2014). Parece evidente também que a China tem se tornado progressivamente mais assertiva, sem, contudo, precisar ser revisionista, dado que o status quo internacional não restringe sua ascensão. Assim, a situação internacional atual permite à China acumular forças e, ao mesmo tempo, na medida que a correlação de forças vai se alterando, buscar construir alternativas internacionais em diversos campos. Enquanto os EUA parecem incapazes de reconhecer a multipolarização em curso e formatar sua grande estratégia, ao focarem prioritariamente em elementos táticos e operacionais de cunho militar (CEPIK; MARTINS, 2014), o fortalecimento do eixo Sul-Sul e o processo de multipolarização têm evoluído em diversas esferas (PAUTASSO, 2011a). E só pode ser entendido à luz do renascimento da Ásia e da ascensão chinesa.

Fonte: BLOG DO GRUPO DE PESQUISA SOBRE POTÊNCIAS MÉDIAS

8 respostas em “DIEGO PAUTASSO: “O PAPEL DA CHINA NA NOVA ARQUITETURA FINANCEIRA MUNDIAL”

  1. Nunca a expressão dragão chinês soou tão verdadeira. A China que esteve enfraquecida por muito tempo está voltando como uma potencia re-emergente e galgando para o seu posto de potencia mundial.
    O enfraquecimento inesperado dos Estados Unidos frente à crise de 2008 est`a causando uma redistribuição do poder global, a balança de poder começa a pender para outro lado.
    A China tem feito excelente uso de sua grande maquina financeira, financiando diversas obras no exterior e firmando contratos nos mais diversos países, de maneira a fortalecer ainda mais sua influencia econômica no cenário mundial, uma vez que os Estados Unidos está enfraquecido nesse campo e muito ocupado em arrumar sua economia e politica interna.
    Provavel que o próximo passo da China seja frear um pouco esses investimentos internos e consolidar suas conquistas e influencia ate o momento, enquanto os Estados Unidos lentamente tem seu poder drenado.

  2. A República Popular da China desponta como a maior economia em crescimento do mundo, de modo que este país se tornou um importante parceiro comercial para muitos países. Um marco na história da economia da chinesa está com a ascensão de Deng Xiaoping, nascido em 22 de agosto de 1904, em 1978 e o amplo programa de reformas econômicas adotado por este último sob a vigência do Partido Comunista Chinês.
    O ideal adotado por Deng Xiaoping, que faleceu em 19 de fevereiro de 1997 na cidade de Pequim, estava na liberalização econômica sem democracia.
    A reforma na economia chinesa consiste em dois pontos importantes quais sejam: reestruturação econômica e abertura política. O governo chinês investiu maciçamente no exterior, sendo vultuoso seu as aplicações feitas na América Latina, por exemplo, os quais têm previsão de aumento nos próximos anos. Ora, tal crescimento na economia chinesa é evidenciado pela importância de seus bancos como o Banco de Desenvolvimento da China e do Eximbank.
    As estimativas para a economia chinesa são as mais promissórias, de modo que acredita-se que até 2020 o país tenha alcançado um patamar avançado de mercado socialista em vigor, como a maior economia mundial.

  3. Sendo uma economia em franco crescimento e desenvolvimento, a China tornou-se um importante parceiro de diversos países.

    Tal país possui uma gigantesca máquina financeira e industrial, da qual faz um eficaz uso gerindo e financiando obras e contratos no exterior, o que gera um aumento notável em sua influencia no cenário internacional, ainda mais considerando o enfraquecimento dos Estados Unidos frente a crise enfrentada.

    Considerando que o desenvolvimento se deu recentemente e de forma acelerada, seria prudente para a China antes de assumir um posto dominante no esquema econômico mundial, amadurecer e fortalecer suas estruturas, não deixando brecha para falhas.

  4. Como bem asseverado pelos colegas, de fato a China, na última década, tem edificado os alicerces que sustentarão seu posto de superpotência em um futuro próximo.

    Importante frisar que com enfraquecimento do euro em decorrência da crise grega e assemelhadas, o dólar volta a ganha força como moeda de câmbio, mantendo os EUA na hegemonia do mercado ocidental.

    Nesse passo, resta à China solidificar as parcerias junto aos países emergentes e aqueles que são líderes regionais, a exemplo do Brasil. Quem sabe um novo acontecimento nessa política de poder renderá bons frutos por aqui?

  5. A ascensão econômica e financeira da China, sobretudo na ultima década é inquestionável e está amparada pelo grande desenvolvimento mercadológico e tecnofabril, aliada à enorme capacidade de construir poupança interna. Daí o grande impulso financeiro observado neste país, transformando-o na 2ª economia mundial e séria concorrente ao primeiro posto, previsto para as próximas décadas.
    Para tanto torna-se necessário grandes mudanças de logística, a China apresenta números superlativos em termos de investimento externo. O gigante asiático atingiu a posição de um dos principais pólos mundiais de atração de investimentos, passando a exercer influência em todos os mercados globais. Entretanto os dados econômicos mais recentes indicam que neste começo de ano a China sofreu sua maior desaceleração desde o início da crise global.
    O gigante asiático é, atualmente , o segundo maior importador de produtos e serviços comerciais, atrás dos Estados Unidos. O país é um ávido consumidor de petróleo e de outras commodities, e a desaceleração do país está por trás da queda do preço internacional desses produtos nós últimos meses.
    Assim, certamente, a menor atividade econômica da China será uma fator fundamental no cenário global e certamente trará grande impacto na economia global.

  6. A crise econômica que teve início nos Estados Unidos em 2008, por ter atingido a maior potência mundial, afetou, em níveis distintos, todos os demais países. A crise, que teve efeitos desastrosos em diversas nações e demonstrou a saturação da economia americana, parece ter acelerado o reordenamento global e o surgimento de uma nova potência mundial: a China.
    O crescimento das nações asiáticas, especialmente a chinesa, foi imenso nas ultimas décadas. A nova ordem econômico-financeira mundial é ditada pela imensa capacidade financeira chinesa, que emerge do tamanho do PIB; pelas suas reservas internacionais e os superávits comerciais, além de o país ter ampliado seu o financiamento de diversas obras ao redor do mundo e ser o principal investidor do Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura, que tem como objetivo desenvolver a infraestrutura e outros setores produtivos no continente asiático.
    Apesar de ainda ser uma ascensão recente, a China é hoje determinante para toda a economia mundial, de modo que qualquer fato no país, afeta todos os demais.

  7. A crise de 2008 que teve início nos Estados Unidos serviu para reafirmar a potência que é o país americano, principalmente no sentido econômico. Devido as suas diversas repercussões, essa crise motivou o um renascimento econômico da Ásia oriental, além da conformação de um sistema sinocêntrico na região, trazendo como desafio a captação da direção e do sentido das mudanças em curso no mundo. A China passou a demonstrar o quão potente é no cenário internacional, descentralizando a atenção apenas para os poderes dos EUA.
    Em face desse contexto, o governo chinês, utilizando-se de sua gigantesca capacidade financeira que emerge do tamanho do seu PIB, de suas reservas internacionais e de seus superávits comerciais, busca construir uma nova arquitetura econômico-financeira global. Através disso, percebe-se que mesmo em ascensão, o país chinês já demonstra o poder a que pode chegar e a possibilidade de ser uma concorrente a altura dos Estados Unidos, no sentido econômico.

  8. Governança econômica internacional é uma expressão designada para tratar de países que, devido ao seu forte poder econômico no cenário mundial são tidos como influencias para os outros, no sentido de determinar medidas ou ideais que passarão a vigorar na economia internacional a fim de, como no caso acima, determinar medidas de melhoria na economia internacional após a forte crise de 2008 que assolou o mundo. Sendo uma economia em franco crescimento e desenvolvimento, a China tornou-se um importante parceiro de diversos países.

    Tal país possui uma gigantesca máquina financeira e industrial, da qual faz um eficaz uso gerindo e financiando obras e contratos no exterior, o que gera um aumento notável em sua influencia no cenário internacional, ainda mais considerando o enfraquecimento dos Estados Unidos frente a crise enfrentada.

    Considerando que o desenvolvimento se deu recentemente e de forma acelerada, seria prudente para a China antes de assumir um posto dominante no esquema econômico mundial, amadurecer e fortalecer suas estruturas, não deixando brecha para falhas.

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