Aos 93 anos, ex-guarda de Auschwitz é julgado na Alemanha por 300 mil mortes


Um ex-guarda nazista de 93 anos está sendo julgado sob acusação de coparticipação na morte de pelo menos 300 mil judeus.

Oskar Groening só chamou a atenção do Ministério Público após se posicionar contra as pessoas que negam o Holocausto e dizer em público que havia testemunhado as mortes.

O julgamento, que ocorre em Lüneburg, pode ser um dos últimos de crimes de guerra nazistas.

No início do júri, Groening, conhecido como o “contador de Auschwitz”, admitiu que é moralmente culpado.

Ele descreveu sua função de contar dinheiro confiscado de recém-chegados e disse que testemunhou assassinatos em massa, mas negou participação direta no genocídio.

Oskar Groening parecia frágil quando entrou na sala do tribunal apoiado em um andador. Mas sua voz soou forte e firme quando ele falou por quase uma hora.

Quatro sobreviventes do notório campo de extermínio o assistiam no local. Grande parte do testemunho descreveu as tentativas de alcançar sua ambição de ser um “executivo” da SS para trabalhar como contador para os nazistas.

Mas houve momentos perturbadores também; por pouco tempo, vimos os horrores de Auschwitz através de seus olhos.

Os sobreviventes o observaram impassíveis, mas seus parentes mais jovens balançaram a cabeça em descrença quando ele contou sobre sua chegada ao campo como um jovem guarda da SS. Ele disse que oficiais lhe deram vodca ao chegar no local.

Ele até descreveu as garrafas de vodca. Enquanto bebiam, os oficiais contaram que o campo era para os judeus deportados. Que os prisioneiros judeus seriam mortos e eliminados.

Depois, ele pegou uma garrafa de água: “Eu vou bebê-la como eu bebia aquelas garrafas de vodca em Auschwitz.”

‘Vi as câmeras de gás’

Groening começou a trabalhar como guarda em Auschwitz aos 21 anos. Ao final da guerra, começou uma vida normal de classe média em Lüneburg, na Alemanha, onde trabalhou em uma fábrica de vidro até se aposentar.

O nonagenário só foi “descoberto” pelo Ministério Público após decidir se posicionar contra as pessoas que negavam a existência do Holocausto.

“Eu vi as câmaras de gás. Vi os crematórios”, disse ele à BBC, em 2005, no documentário “Auschwitz: os nazistas e a ‘Solução Final’”.

“Eu estava na rampa quando as seleções (para as câmaras de gás) ocorriam.”

Groening sempre afirmou que seu papel como guarda não era crime. “Se você conseguir descrever isso como culpa, então sou culpado, mas não de forma voluntária. Legalmente falando, eu sou inocente”, disse ele à “Der Spiegel”, em 2005.

Ele afirma, porém, que naquela época pensava que o assassinato de judeus, incluindo o de crianças, era o modo “correto” de fazer as coisas.

“Estávamos convencidos, em nossa visão de mundo, de que havíamos sido traídos (…) e que havia uma grande conspiração de judeus contra nós.”

Por se considerar inocente, Groening foi um dos poucos nazistas que contou o que testemunhou.

“É a primeira vez na história recente que um acusado fala publicamente dos horrores de Auschwitz, algo que quase nunca ocorreu”, disse o “caçador” de nazistas Efraim Zuroff.

Groening serviu em Auschwitz entre maio e junho de 1944, quando cerca de 425 mil judeus da Hungria foram levados para o campo e ao menos 300 mil morreram com gás.

Acusações contra ele na década de 1980 foram arquivadas por falta de provas de seu envolvimento pessoal.

Porém, após uma decisão recente, promotores acreditam que uma condenação pode ser possível simplesmente pelo fato de ele trabalhar no campo.

“O que eu espero ouvir é que ajudar na engrenagem da matança será considerado um crime”, disse o sobrevivente Hedy Bohm à agência de notícias Reuters. “Então ninguém no futuro poderá fazer o que ele quer e alegar inocência.

Fonte:BBC

3 respostas em “Aos 93 anos, ex-guarda de Auschwitz é julgado na Alemanha por 300 mil mortes

  1. Com esse processo, a justiça alemã tenta apaziguar as acusações de ter sido condescendente com os criminosos nazistas.
    O caso também é considerado o último grande processo por crimes do nazismo. Ainda existem cerca de dez inquéritos abertos, mas, devido à idade avançada dos suspeitos, é pouco provável que eles sejam levados a julgamento.
    Durante décadas, a justiça alemã não conseguiu condenar criminosos nazistas porque era preciso provar a participação do acusado num caso concreto. Essa situação só mudou em 2011, com a decisão do Tribunal Regional de Munique de condenar John Demjanjuk, ex-guarda do campo de Sobibor, a cinco anos de prisão por cumplicidade no assassinato de mais de 28 mil judeus.
    Não foi possível provar a participação concreta de Demjanjuk, hoje morto, mas a decisão criou jurisprudência. Portanto, provavelmente o acusado da notícia em questão também será condenado.

  2. O Holocausto, mancha indelével na história da humanidade, ainda produz discussões acerca da culpa pelas atrocidades cometidas pelo regime nazista. A quem deve-se atribuir a culpa? No julgamento de Nuremberg o alto escalão nazista foi julgado por crimes de guerra e contra a humanidade durante a Segunda Guerra Mundial. Os procedimentos duraram 315 dias (de novembro de 1945 a outubro de 1946)e aconteceram no Palácio da Justiça de Nuremberg, na Alemanha.
    Oskar Gröning nunca pertencera ao alto escalão, sempre fora um subordinado do sistema homicida, mas foi parte do massacre. Todavia, quando o individuo é feito parte, apenas uma engrenagem de uma complexa máquina que funciona exigindo que cada um faça apenas a sua a parte e não visualize todo o processo, é fator determinante na manipulação do indivíduo. Que se exime da culpa pelos efeitos do processo, ou mesmo que não se perceba como parte do mesmo processo. Ainda que isso não exime a possibilidade de se perceber que as atrocidades eram reais, certamente transforma a percepção da realidade um mundo distorcido em que as pessoas não acreditam poder alienar-se do sistema.

  3. O holocausto promoveu programas sistemáticos de extermínios em massa da população judaica que vivia na Europa. O movimento foi patrocinado pelo regime nazista, e encabeçado e articulado por seu representante, Adolf Hitler. Naquele tempo – período da segunda guerra – cerca de nove milhões de judeus viviam na Alemanha, desses, aproximada 1/3 sobreviveu. Trata-se da maior chacina humana ocorrida no século XX.
    É evidente que todos aqueles que se envolveram ativamente no processo de extermínio devem responder (civil e penalmente) por suas ações, no entanto, tal reportagem remete a uma velha discussão do Direito, que teve seu auge durante o julgamento (também de integrantes do regime nazista) de Nuremberg. Tal discussão envolve o debate acerca da suposta “hierarquia” que existe daquilo que advém do chamado Direito Natural, imanente ao homem, e o Direito positivo, que é fruto do fenômeno humano. Obviamente, a maior parte das atitudes nazistas durante o período foi norteada por uma série de comandos normativos, que como tal tinham força coercitiva, e que impunham condutas que deram ao holocausto os contornos que ele tem hoje. O ponto central é analisar até que ponto os indivíduos, dotados de poder institucional, e portanto submetidos a toda uma ordem hierarquizada e impositiva, estavam finalisticamente comprometidos com o resultado de seus atos.
    Nesse sentido, valho-me de trecho retirado da obra da tragédia grega de Sófocles, no qual Antígona, a personagem principal, justifica o fato de ter descumprido ordens advindas de seu superior com tal declaração: ”Descumpri mesmo. Quer saber por quê? Porque não foi Zeus que a proclamou! Não foi a Justiça, sentada junto aos deuses inferiores; não, essas não são as leis que os deuses tenham algum dia prescrito aos homens, e eu não imaginava que as tuas proibições fossem assaz poderosas para permitir a um mortal descumprir as outras leis, não escritas, inabaláveis, as leis divinas! Estas não datam nem de hoje nem de ontem, e ninguém sabe o dia em que foram promulgadas. Poderia eu, por temor de alguém, qualquer que ele fosse, expor-me à vingança de tais leis?”.
    Aduz-se, portanto do excerto que o Direito Natural é superior, transcendental, mais importante que aquele meramente transcrito em um pedaço de papel, que pode ter surgido da vaidade dos poderosos, e não refletir as aspirações sociais, os anseios da coletividade e os padrões morais e culturais de uma realidade contextualizada.
    Tal tema remete à obra da filósofa contemporânea Hanna Arendt, nascida na Alemanha, oriunda de uma família tipicamente judia que fugiu para a américa na tentativa desesperada de se ver livre do regime defendido e operado por Oskar Gröning. Em 1961, Hanna se prontificou a cobrir, como uma espécie de repórter, o julgamento de um oficial nazista que se encontrava fugitivo até então. Eichmann, compôs a SS e a ele foram atribuídas milhares de mortes, ainda que indiretamente. Com o acompanhamento do processo de julgamento, a filósofa desenvolveu uma teoria que se traduz pela expressão “banalidade do mal”. De acordo com a teoria, o mal em si seria resultado do meio social, e não pressupõe a existência de pensamentos ruins no plano individual. O simples estado de vazio mental ou do consciente já é suficiente para formar, em condições de hierarquia e poder, aquilo que é compreendido como mal.
    Hanna concluiu que Eichmann não tinha pensamentos perversos ou cruéis, mas apenas se viu envolto em uma realidade sufocante, na qual ele não exercia a capacidade de reflexão e pensamento acerca de seus atos e, portanto, agia em conformidade com aquilo que lhe era transmitido, sem se dar ao trabalho de analisar seu próprio comportamento.
    A partir disso, e considerando-se o julgamento do ex-guarda de Auschwitz, tem-se, mais uma vez que a justiça é realidade multifacetada, que admite diversas. Cabe às autoridades alemãs competentes, por óbvio, fazer cumprir a função jurisdicional do Estado, e julgar de forma justa e apropriada o denunciado. No entanto, ainda que seja condenado, e por mais duras que sejam as penas a ele eventualmente aplicadas, as vidas covardemente ceifadas e a macha na história do mundo jamais serão revertidas.

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