Celso Amorim e a diplomacia altiva


Os Colonizados não engolem, mas o Brasil já participa do Grande Jogo

 
O Conversa Afiada recomenda com entusiasmo o livro “Teerã, Ramalá e Doha – memórias da política externa ativa e altiva” de Celso Amorim, editora Benvirá, recém lançado.

Amorim foi ministro das Relações Exteriores de Itamar Franco e dos dois governos Lula.

Ele foi o spalla da orquestra de Lula que interpretou, mundo afora, essa política externa “ativa e altiva”.

A política que levou o Brasil a participar do Grande Jogo, diria Kipling, citado por Amorim.

O “grande jogo” da política internacional, antes restrito aos Grandes.

O ansioso blogueiro concluiu o primeiro capítulo do livro, “A Declaração de Teerã: oportunidade perdida ?”

É uma descrição emocionante, como um thriller que o cineasta Celso Amorim gostaria de filmar.

(Ou seu talentoso filho, o Vicente…)

A “Declaração de Teerã”, assinada em 17 de maio de 2010, foi o resultado de um competente trabalho diplomático do Brasil e da Turquia, para que o Irã evitasse sofrer sanções econômicas da ONU, sob pressão dos Estados Unidos.

O Brasil e a Turquia conseguiram de Teerã o que, até hoje, a pressão brutal de Israel e dos Estados Unidos não conseguiram, em relação ao programa nuclear com propósitos pacíficos.

O Governo do Irã jamais foi tão longe.

E, mesmo assim, os Grandes preferiram recorrer ao método imediatamente anterior à força militar: a sanção econômica.

(Por falar em bombardear o Irã, vale a pena ler no New York Times dessa quinta-feira 26/03 o artigo  do embaixador americano na ONU, no Governo Bush, John Bolton: para impedir que o Irã tenha a bomba, bombardear o Irã” !)

Amorim descreve como, passo a passo, o Brasil e a Turquia se envolveram na negociação do Irã com a Agencia Internacional de Energia Atômica e com os Estados Unidos.

O Irã aceitou trocar urânio enriquecido para fins pacíficos em troca de uma quantidade de urânio próprio, que pudesse ser beneficiado para fazer uma bomba.

Não foi fácil persuadir os líderes de um regime teocrático, fechado, cheio de motivos para não confiar no Ocidente.

Mas, foi possível.

O Brasil se dispôs a desempenhar o papel mediador – sempre ao lado da Turquia – depois de o presidente Obama, verbalmente e por escrito, ter fixado condições mínimas para aceitar um acordo com a mediação do Brasil e  da Turquia.

A Declaração de Teerã atende a essas exigências mínimas americanas.

E, antes de ser assinada, o Brasil conseguiu que o Irã libertasse uma cidadã francesa, a pedido do Presidente Sarkozy, condição para apoiar a mediação do Brasil e do Irã.

Aos poucos, enquanto a negociação com o Irã progredia, o apoio dos Grandes se desfazia.

Obama recuou melancolicamente.

Sua Secretaria Estado, Hillary Clinton, sempre pareceu ter uma agenda política própria: aplicar sanções.

Foi ela quem enunciou o principio que prevaleceu no Governo Obama – e que está no cerne da posição de Bolton: os Estados Unidos não podem confiar no Irã.

Quando soube que a gestão do Brasil e da Turquia tinha sido bem sucedida, Obama se irritou e foi deselegante com Lula.

Era para Lula ter fracassado …

E não fracassou !

Sarkozy traiu Lula miseravelmente.

Depois, segredou aos americanos que só deu esperanças ao Brasil, porque queria vender os caças Dassault Rafale ao Brasil …

O Japão, outro Grande, revelou-se uma espécie de México da Ásia – um protetorado americano.

(Essas observações irresponsáveis são de autoria do ansioso blogueiro e não do notável diplomata Celso Amorim…)

A Rússia e a China ficaram em cima do muro e na hora decisiva votaram na ONU a favor das sanções americanas, depois de extrair brechas nas sanções e beneficiar a Rússia e  a China, especialmente no fornecimento de petróleo iraniano.

O que leva a concluir que os Grandes não quiseram que o Brasil e a Turquia entrassem no jogo.

Não tem importância.

Já entraram.

E não vão sair mais.

Ainda que a política externa brasileira venha a ser, provisoriamente, menos ativa e altiva …

Em conclusão, não foi uma oportunidade perdida, como se pergunta o autor, na abertura do capitulo.

Foi uma inequívoca demonstração de competência profissional – e de forca política.

Amorim lamenta o complexo de vira-lata ( do Nelson Rodrigues) que persegue a grande mídia brasileira (aqui chamada de PiG).

O PiG sempre deu razão aos Grandes e torceu para o fracasso da gestão com a Turquia.

Com a licença do autor, o ansioso blogueiro gostaria de destacar aqui três exuberantes vira-latas: Clovis Rossi, na Fel-lha (ver no ABC do C Af); Elio Gaspari, o dos chapéus (também no ABC do C Af) , que lembra aquela piada sobre o argentino: Gaspari é italiano, vive no Brasil e pensa que é americano …

E uns tantos free-lancers do Estadão, baseados em Genebra que pretendem oferecer uma política externa alternativa, do tipo que tira os sapatos para entrar nos Estados Unidos.

Essa é a linha de frente vira-lata.

Que ladra, faz muito sucesso em Higienópolis, mas não muda o curso dos acontecimentos (descritos por Kipling …).

Amorim cita o respeitadíssimo pensador dissidente judeu americano, o linguista Noam Chomsky, que lamentou o fato de o Governo americano não ter aceitado os termos da Declaração de Teerã.

Em entrevista a Amy Goodman, na revista Democracy Now !, em  2 de março deste ano, Chomsky analisa a posição de Israel e como ela condiciona a americana:

Houve repetidas oportunidades para um acordo (com o Irã). E acredito que, em 2010, Brasil, Turquia e Irã entraram em acordo para que o Irã enviasse para fora seu urânio de baixo enriquecimento para armazenamento em outro lugar (a Turquia) e, em troca, o Ocidente iria fornecer  ao  Irã isótopos que precisava para seus reatores médicos. Tal acordo foi severamente condenado nos Estados Unidos pelo Presidente, pelo Congresso e pelos meios de comunicação. O Brasil foi atacado por pular  barreiras e assim por diante. O ministro das Relações Exteriores brasileiro, irritado com as críticas, tornou pública uma carta de Obama ao Brasil propondo exatamente o mesmo acordo, presumindo que o Irã não iria aceitá-lo. Quando eles aceitaram, os brasileiros tiveram que ser atacados por se atrever a aceitá-lo.

E em 2012, deveria haver uma reunião na  Finlândia, em dezembro, para tomar medidas no sentido de estabelecer uma zona livre de armas nucleares no Oriente Medio. Este é um pedido antigo, feito inicialmente pelo Egito e outros países árabes no início dos anos 90. Há tanto apoio para isso que os EUA concordam formalmente, mas não o fizeram de fato, e tentaram várias vezes miná-lo. Isso acontece sob o auspício das Nações Unidas, e a reunião supostamente deveria ser em dezembro. Israel anunciou que não iria participar. A questão na mente de todos era: como é que o Irã reagiria? Eles disseram que iriam participar incondicionalmente. Alguns dias depois, Obama cancelou a reunião, alegando que a situação não oferecia segurança, e assim por diante. (…) Mas o obstáculo é que existe um grande Estado nuclear: Israel. E se há uma zona livre de armas nucleares no Médio Oriente, haveria inspeções, e nem Israel nem os Estados Unidos iriam tolerar isso.

(… ) Israel tem armas nucleares para provavelmente 50 anos ou 40 anos. Estima-se que tenha 100, 200 armas nucleares.

Paulo Henrique Amorim

Em tempo: não é preciso mencionar que os vira-latas tropicais ignoram solenemente o arsenal nuclear israelense.

A eles e a todos os Colonizados, Amorim dedica, no fim do capítulo, genial citação de San Tiago Dantas, pouco antes de assumir o cargo de Ministro das Relações Exteriores do Governo Jango, quando a política externa também era ativa e altiva:

Publicado em 2015, Brasil, Celso Amorim, Paulo Henrique Amorim, Política externa brasileira por Luiz Albuquerque. Marque Link Permanente.

Sobre Luiz Albuquerque

O Núcleo de Estudos sobre Cooperação e Conflitos Internacionais (NECCINT) da Universidade Federal de Ouro Preto em parceria com as Faculdades Milton Campos, sob a coordenação do professor Luiz Albuquerque, criou o Observatório de Relações Internacionais para servir como banco de dados e plataforma de pesquisas sobre relações internacionais e direito internacional . O site alimenta nosso trabalho de análise de conjunturas, instrumentaliza nossas pesquisas acadêmicas e disponibiliza material para capacitação profissional. Mas, além de nos servir como ferramenta de trabalho, este site também contribui para a democratização da informação e a promoção do debate acadêmico via internet.

2 respostas em “Celso Amorim e a diplomacia altiva

  1. Nos últimos anos o Brasil assim como outros países periféricos como Turquia , India , México e outros tem tentado serem menos avalizadores das ações das grandes potencias procurando trilhar seu próprio caminho , principalmente afastando se de um alinhamento automático com EUA.
    Os anos 90 foram de luta pela retomada de credibilidade abaladas pela crise econômica e inflação crônica que atingiam o pais .Devido a um movimento mundial de globalização , conduziu se internamente abertura econômica e flexibilização regras de comercio .Com isso o pais passou a envolver se mais na ONU e OMC .
    Com a entrada do governo Lula , procurou se colocar acertadamente em discussão no cenário internacional de temas sociais como pobreza , fome , saúde , educação etc…
    Alem disso nossa politica externa tem buscado desvincular se dos EUA , procurando ocupar espaço no mercado internacional principalmente aproveitando oportunidades econômicas .
    Foi o caso de nosso envolvimento na questão do Ira e hoje observamos o mesmo posicionamento em relação a Russia , aumentando os laços no momento em que este sofre sanções das grandes potencias por causa anexação Crimeia e interferência Ucrania .
    Alem disso , por uma posição puramente ideológica , no cenário internacional silenciamos quando a questão e direitos humanos e liberdade de imprensa , não querendo criticar comportamento de países com governo ditos de esquerda , que na verdade ou o são ou estão buscando ser ditaduras .
    A meu ver , um pais democrático , preocupado com temas sociais de relevância , que busca um assento no conselho de segurança da ONU e um papel preponderante internacionalmente , não poderia fazer de sua politica externa apenas uma busca de oportunidades de negócios , sem tomar posição , nem se envolvendo em temas internacionais sensíveis .

  2. O Brasil, apesar de não obter relações diplomáticas com todos os países do mundo, encontra-se numa posição bem vista pela sociedade internacional. Ele raramente entra em algum conflito como parte, mantém relações com vários Estados, respeita, em sua maioria, as ordem do direito internacional e se encontra, muitas vezes no papel de apaziguador de conflitos, como no caso da ONU com o Irã.
    Além disso, a República Federativa do Brasil, como Estado soberano que é, está inserida nesse meio da política internacional, chamada de “Grande Jogo”, pois se forma por meio de estratégias e ações. E nesse cenário, existem aqueles que se fazem à altura do “jogo”, ou seja, são os “Grandes” e, também existem aqueles de menor expressão.
    Desde a sua independência até meados do século XX, o Brasil encontrou-se em uma posição que não causava ou exercia qualquer influência (ou causava pouca) no cenário internacional. Hoje, porém, devido a sua ascensão econômica,, basicamente, o Estado brasileiro tornou-se mais importante, em se tratando de política internacional. Além disso, esse papel de mediador, que o Brasil exerce, cada vez mais, ajuda para que possa ter mais relevância no mundo.
    Essa função, contudo, pode vir a trazer complicações para o Brasil, devido ao fato de que não é sempre que se pode permanecer em posição neutra perante a sociedade mundial.

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