60 ANOS DE ÁTOMOS PARA A PAZ


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16 de Março, 2014 – 18:00 ( Brasília )

Tecnologia

Leonam dos Santos Guimarães

Diretor Técnico-Comercial da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa SA
– AMAZUL e membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear da AIEA.

Em 8 de dezembro de 1953, o presidente Eisenhower comprometeu-se em célebre discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas[i], em buscar firmemente resolver o aterrorizante dilema das armas nucleares, com determinação e dedicar todos os “corações e mentes” dos EUA para encontrar o caminho que permitiria que a inventividade milagrosa do homem não fosse dedicada à guerra e a morte, mas consagrada à paz e a vida. À época do discurso, somente possuíam armas nucleares os EUA e a Rússia, então URSS.

Sessenta anos se passaram desde que o discurso, denominado “Átomos para a Paz”, foi pronunciado. O programa dele decorrente[ii] deu origem à indústria nuclear global, e precipitou um progresso notável no uso de tecnologia nuclear para melhorar a saúde pública e o desenvolvimento humano. Poucos discursos na história foram ao mesmo tempo tão controversos, mal compreendidos e com legado tão duradouro.

Hoje, 31 países têm um total de 438 usinas nucleares e mais de 246 reatores de pesquisa operacionais. Aproximadamente 10.000 hospitais em todo o mundo usam radioisótopos para realizar mais de 30 milhões de procedimentos médicos por ano. As aplicações nucleares pacíficas incluem erradicação de insetos causadores de doenças e a produção de cultivares induzidos pela radiação que melhoraram o rendimento das culturas alimentares no mundo em desenvolvimento. Além disso, Átomos para a Paz forneceu a base ideológica para a criação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP).

Mas nem todo o legado foi positivo, já que o programa “Átomos para a Paz” contribuiu para aumentar os riscos de proliferação das armas nucleares, tanto horizontal (desenvolvimento de armas em países que não as possuem) como vertical (mais armas nos países que as possuem). O programa deu cobertura política para a proliferação vertical decorrente da corrida armamentista da Guerra Fria, apesar de propugnar, em tese, o desarmamento.

Cerca de 130 mil ogivas nucleares foram produzidas entre 1945 e 2013, sendo que mais de 10.000 delas permanecem atualmente nos arsenais de nove países: EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha, França, Israel, Índia, Paquistão e Coréia do Norte. O programa ainda precipitou tanto a criação do regime internacional de salvaguardas contra a não proliferação nuclear horizontal assim como muitos dos desafios a esse próprio regime que surgiram posteriormente.

Eisenhower estava ciente de que a cooperação nuclear pacífica apresentava os riscos de desenvolvimento de armas nucleares em países que não as possuíam. No entanto, como muitos de seus sucessores, o presidente viu os benefícios que o programa traria para o equilíbrio da Guerra Fria e deu a isso maior prioridade do que quaisquer riscos de proliferação que o acompanhassem. A não proliferação horizontal é apenas um dos muitos, e muitas vezes conflitantes, interesses nacionais dos EUA. Não tem, e não pode ter sempre, a maior prioridade.

Enquanto o programa “Átomos para a Paz” apressou o surgimento de ameaças regionais de proliferação, foi também a base do regime internacional de salvaguardas moderno. Além disso, permitiu o desenvolvimento e a utilização generalizada das tecnologias nucleares civis para benefício da humanidade. Ainda que a barganha subjacente ao programa e ao TNP permaneça intacta, evoluiu muito em resposta às lições aprendidas e as mudanças na paisagem geopolítica. No balanço, sessenta anos depois, o discurso Átomos para a Paz de Eisenhower merece ser lembrado muito mais pelos benefícios que proporcionou do que pelos problemas que possa ter causado.

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Sobre Luiz Albuquerque

O Núcleo de Estudos sobre Cooperação e Conflitos Internacionais (NECCINT) da Universidade Federal de Ouro Preto em parceria com as Faculdades Milton Campos, sob a coordenação do professor Luiz Albuquerque, criou o Observatório de Relações Internacionais para servir como banco de dados e plataforma de pesquisas sobre relações internacionais e direito internacional . O site alimenta nosso trabalho de análise de conjunturas, instrumentaliza nossas pesquisas acadêmicas e disponibiliza material para capacitação profissional. Mas, além de nos servir como ferramenta de trabalho, este site também contribui para a democratização da informação e a promoção do debate acadêmico via internet.

9 respostas em “60 ANOS DE ÁTOMOS PARA A PAZ

  1. Há alguns anos tem se estudado outras funções da radioatividade que, ao invés de prejudicar, podem beneficiar as pessoas, inclusive na cura de doenças antes consideradas incuráveis, como o câncer. A frase “átomos para a paz”, quando usada pela primeira vez foi propulsora para as pesquisas que hoje tanto engrandecem a tecnologia em razão da saúde, entretanto também se estimulou a criação de novas armas nucleares de destruição em massa.
    Muito se sabe sobre os estragos históricos causados pelas armas nucleares. Um assunto de interesse de todos os países e organizações que regem as relações internacionais, posto que, coloca em risco a vida de milhares de pessoas. O assunto também cria conflitos, já que nem todos os países possuem esse tipo de armamento e a suspeita de sua fabricação já causa extrema desconfiança e temor entre unidades nacionais.
    Ainda há que se discutir muito a respeito desse assunto, tanto na parte benéfica quanto nos maus usos de tal substância, para se alcançar um equilíbrio que resulte, sobretudo na paz.

  2. Após o bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki (6 e 9 de agosto de 1945) o assunto das usinas nucleares e das armas atômicas se tornou um dilema. De um lado, a consciência contemporânea tende a associa-lo, quase instintivamente, à uma ideia de destruição, visto que as imagens da explosão são assustadoras e símbolo de aniquilamento e tragédia. Do outro lado, a questão nuclear, tende a ser associada à evolução da ciência e representa a transformação da matéria em energia.
    Com o discurso de Eisenhower “Átomos para a paz”, há a tentativa de buscar um caminho para usar essa invenção humana para a paz e vida e não para a guerra e morte. Contudo, o resultado desse discurso foi controverso. Apesar de ter incentivado um uso voltado para a saúde e para a produção de energia renovável, houve, também, a origem da indústria nuclear global. Assim, tal discurso favoreceu a proliferação de armas nucleares, o que definitivamente não era o objetivo. Hoje, ter usinas nucleares significa força e poder, estabelecendo-se equilíbrios e desequilíbrios no âmbito internacional. O maior problema decorrente dessa situação é que alguns países que possuem esse tipo de armamento são politicamente instáveis, têm grupos terroristas atuantes ou têm desavenças regionais, como é o caso da Índia e do Paquistão. Ou seja, há o temor da energia nuclear não ser usada para fins pacíficos mas como fonte de ameaça. Dessa forma, a energia nuclear continuará sendo um dilema.

  3. O discurso do presidente dos EUA Eisenhower em 1953 na Assembleia Geral das Nações Unidas, durante o período de Guerra Fria, buscava o caminho para que a criatividade humana não fosse usada para a guerra, para dizimar a raça humana, mas para consagrar a paz, a vida. O discurso ficou conhecido como “átomos para a paz”, fazendo alusão às armas nucleares usadas durante a guerra, e para que não se utilizasse a tecnologia para esse fim.
    Não há que se negar inúmeros benefícios advindos da tecnologia, cujo objetivo é melhorar a qualidade de vida do ser humano. Por exemplo, inúmeros procedimentos médicos, erradicação de insetos causadores de doenças. Por outro lado, o número de armas nucleares produzidas aumentou bastante, tanto em número de países quanto em quantidade dos que já produziam. Sendo assim, mesmo que o discurso presasse pelo desarmamento, os “átomos pela paz” promoveu a corrida armamentista no período Guerra Fria.
    Deve-se observar principalmente que foi proporcionado utilização de tecnologias nucleares civis em benefício da humanidade.
    Entretanto, não se pode fechar os olhos diante de uma realidade em que vários países possuem essas armas, inclusive países com grupos extremistas, pois torna-se uma ameaça a toda humanidade.
    Ao imaginar uma terceira guerra mundial com países utilizando esses armamentos, será a terceira e última guerra, pois não existirá nenhum “tijolo” para ficar de história.
    A partir disso, o Conselho de Segurança das Nações Unidas se tornou de extrema importância para regular o uso da força.

  4. A energia nuclear tem um enorme potencial, apesar de gerar certa preocupação devido a sua associação quase imediata com a produção de armas nucleares, e com os acidentes nucleares que, apesar de extremamente raros, causam grande repercussão negativa. Essa fonte energética é uma alternativa promissora no que se refere a produção de energia limpa, principalmente em tempos de grande preocupação com alterações climáticas decorrentes de emissões excessivas de carbono. Desde que começou a ser aplicada de forma mais intensiva, na segunda metade do século XX, as grandes potências como os EUA e a extinta União Soviética demostraram conhecer bem esse potencial, investindo pesadamente na sua aplicação tanto para fins pacíficos quanto militares, e fornecendo acesso a essa tecnologia (a princípio apenas para fins pacíficos) para seus aliados. Essa difusão foi positiva, ao dar acesso a novas formas de energia, e a outras aplicações pacíficas da energia nuclear, mas também gerou o risco da proliferação de armas nucleares. O exemplo do discurso “Atoms for Peace” é um exemplo claro dessa situação, pois visava difundir a tecnologia nuclear apenas para a paz, mas a política por ele defendida facilitou o acesso a essa tecnologia daqueles que pretendiam utilizá-la para fins não tão pacíficos.

  5. A repercurssão que os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki trouxeram para o âmbito internacional, gerou grande polêmica sobre o uso de tal tecnologia e, para quais fins ela poderia ser empregada, além da destruição em massa.
    O mistério e a obscuridade sobre o assunto foi e, até hoje, é palco para ameaças e conflitos. Estados Unidos e União Soviética (atualmente Rússia) protagonizaram a maior Guerra de ameaças até então, a Guerra Fria, pois, tendo ambas potências, poderes bélicos nucleares, não se sabia as consequências que um confronto direto, naquela época, poderia trazer para o mundo. As armas nucleares, podem ser fortes mecanismos para espalhar o terror mundial.
    Entretanto, tal fonte de energia, tão ameaçadora, tem também, suas aplicações pacíficas, bastante relevantes para o desenvolvimento da tecnologia hoje existente.
    Com o discurso de Eisenhower “Átomos para a paz”, há a tentativa de buscar um caminho para usar essa invenção humana para a paz e vida e não para a guerra e morte, como cita o texto supramencionado: “Enquanto o programa “Átomos para a Paz” apressou o surgimento de ameaças regionais de proliferação, foi também a base do regime internacional de salvaguardas moderno. Além disso, permitiu o desenvolvimento e a utilização generalizada das tecnologias nucleares civis para benefício da humanidade”.
    Se bem utilizadas, as tecnologias nucleares podem trazer só benefícios e avanços à sociedade internacional, porém para isso, há de se exercer o direito internacional, visando coibir, ou até mesmo proibir o uso dessa poderosa fonte de energia para fins bélicos e terroristas.

  6. A utilização de energia nuclear de tempos em tempos é questionada, desde a primeira vez utilizada para fins bélicos em Hiroshima e Nagasaki até os dias de hoje esse debate sempre ressurge. Além de armas nucleares que são frequentemente questionadas também enfrentamos problemas com a criação de energia que de tempos em tempos presenciamos acidentes devastadores como o acidente de chernobyl, em 1986 que teve problemas técnicos e liberou uma nuvem radioativa contaminando animais , pessoas e o meio ambiente de uma vasta área e colocou em risco diversos países; ou o acidente de Fukushima, 2011, que devido a um terremoto e um tsunami na área provocou um abalo estrutural na usina que liberou material radioativo e causou a evacuação de quinze mil pessoas.
    Porém estes acidentes são consequências menores do desenvolvimento de energia nuclear, o grande problema enfrentado são as armas nucleares que atualmente são desenvolvidas por muitas nações e algumas delas com regimes políticos instáveis, ditatoriais e conflituosos, o que aumenta o risco de u conflito nuclear.
    Diante desda circunstancia o “Átomos para a paz” apesar de ter contribuído em parte para a proliferação horizontal da tecnologia nuclear o discurso de Eisenhower contribuiu para o desenvolvimento da energia nuclear para o beneficio da humanidade como as beneficias de tratamentos de saúde ou mesmo de produção de energia que utilizam esta tecnologia.

  7. Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) é um instrumento firmado em 1968 por uma série de nações, e em vigor desde março de 1970, e que visa impedir a proliferação da tecnologia utilizada na produção de armas nucleares, bem como realizar a promoção do desarmamento nuclear, encorajando apenas a utilização pacífica de tal tecnologia, pode-se dizer que advém do discurso caloroso pronunciando pelo presidente Eisenhower, bem como a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O discurso também desencadeou a proliferação das armas nucleares em detrimento da corrida armamentista ocorrida na guerra fria. Fato é que hoje há um grande aproveitamento positivo da energia nuclear no que diz respeito a soluções medicinais e dentre outros aspectos, no entanto de 60 anos para cá o aumento de países que a possuem e exploram, aumentou significativamente o que nos leva a uma instabilidade internacional. Contudo, deste que os objetivos da AIEA e do TNP sejam respeitados e não ocorra nenhum conflito a nível de guerra entre países que exploram a energia nuclear, estaremos em uma zona de conforto momentânea, mas que é uma especie de bolha, na qual qualquer agulha pode desencadear um colapso geral.

  8. Durante e após a Segunda Guerra Mundial, a abordagem mais utilizada para a análise das relações internacionais foi a tradição realista. A lógica realista consistia em afirmar que conflitos acontecem tanto com pessoas quanto com países e que alguns Estados sempre terão condições melhores que os outros. Aludiam que, esses Estados que teriam condições inferiores, lutariam para garantir mais poder e atingir essa situação de potência para se igualar ou ultrapassar o Estado mais poderoso.
    Por isso que, quando houve o programa “Átomos da Paz”, os Estados buscaram ter capacidade atômica para a destruição, já que se sentiram ameaçados com os Estados Unidos e a União Soviética que eram os únicos que possuíam bombas atômicas.
    A controvérsia nesse caso poderia ser explicada pela tradição realista, já que os países começaram a ter interesse em investir nas bombas atômicas para atingir o mesmo patamar de poder das potências, enquanto, na verdade, deveriam se interessar pela abolição das bombas e pela garantia da paz para todos os países, utilizando da paz democrática e fazendo uso de tecnologias nucleares para civis como no tratamento para o câncer por exemplo .
    Tainá Dias Couto

  9. O discurso do presidente Eisenhower, pode ser visto como um divisor de águas para o redirecionamento do uso da energia nuclear para fins positivos, pois até então o seu desenvolvimento tinha grande força no setor bélico. Hoje, é possível ver os frutos do seu discurso, uma vez que, houve um grande desenvolvimento na indústria nuclear global que resultou no uso dessa tecnologia no setor da saúde e do desenvolvimento humano, e também é possível ver a continuação de seu programa, por meio, dos centros de pesquisas, das usinas nucleares em funcionamentos, do aumento do número de países que investem e utilizam a energia nuclear como meio de beneficiar a população de seu país. Devido a esses e outros motivos que esse discurso merece ser lembrado e divulgado a todos, pois ele é uma fonte muito importante do momento, em que ,a energia nuclear passou de vilã a aliada da humanidade.

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