Se você não acredita em mim, acredite na CIA quando ela mesma admite manipulação da mídia brasileira


Mauro Santayana

O golpe da informação

Historiador a serviço da CIA revela como ideias e recursos dos Estados Unidos seduziram a imprensa brasileira nos anos 1950 e semearam o golpe

Por: Mauro Santayana

Publicado em 20/04/2012

Há 48 anos, quando o Brasil vislumbrava reformas constitucionais necessárias a seu desenvolvimento, os Estados Unidos financiaram e orientaram o golpe militar. E interromperam uma vez mais um projeto nacional proposto em 1930 por Vargas. Os acadêmicos podem construir teses sofisticadas sobre a superioridade dos países nórdicos para explicar o desenvolvimento da Europa e dos norte-americanos e as dificuldades dos demais povos em acompanhá-los, mas a razão é outra. Com superioridade bélica, desde sempre, impuseram-se como conquistadores do espaço e saqueadores dos bens alheios, os quais lhes permitiram o grande desenvolvimento científico e militar nos séculos 19 e 20 e sua supremacia sobre o resto do mundo.

Podemos ver a origem do golpe de 1964 mais próxima uma década antes. Em 1953, diante da resistência de Getúlio, que quis limitar as remessas de lucros e criou a Petrobras e a Eletrobrás para nos dar autonomia energética, a ação “diplomática” dos Estados Unidos cercou o governo. Com o aliciamento de alguns jornalistas e dinheiro vivo distribuído aos grandes barões da imprensa da época, construiu a crise política interna. Entre a lei que criou a Petrobras e a morte de Getúlio, em 24 de agosto de 1954, o Brasil viveu período conturbado igual aos três anos entre a renúncia de Jânio e 1964.

A propósito do projeto de Getúlio, seria importante a tradução no Brasil de um livro no qual essa operação é narrada em detalhes: The Americanization of Brazil – A Study of US Cold War Diplomacy in The Third World, 1945-1954. Um estudo sobre a diplomacia americana para o Terceiro Mundo em tempos de Guerra Fria. O autor, Gerald K. Haines, é identificado pela editora SR Books como historiador sênior a serviço da CIA, o que lhe confere toda a credibilidade.

Haines mostra como os donos dos grandes jornais da época foram “convencidos” a combater o monopólio estatal, até mesmo com textos produzidos na própria embaixada, no Rio. E lembra a visita ao Brasil do secretário de Estado Edward Miller, com a missão de pressionar o governo a abrir a exploração do petróleo às empresas norte-americanas. O presidente da Standard Oil nos Estados Unidos, Eugene Holman, orientou Miller a nos vender a ideia de que só assim o Brasil se desenvolveria. Mas o povo foi às ruas e obrigou o Congresso a impor o monopólio.

A domesticação dos meios de informação do Brasil começara ainda no governo Dutra. Os americanos usaram as excelentes relações entre os intelectuais e jornalistas e o embaixador Jefferson Caffery, nos meses em que o Brasil decidira por aliar-se aos Estados Unidos na luta contra o nazifascismo, em benefício de sua expansão neocolonialista.

A criação da Petrobras levou os ianques ao paroxismo contra Vargas, e os meios de comunicação acompanhavam a histeria americana. A estatal era vista como empresa feita com o amadorismo irresponsável dos ignorantes.

A morte de Vargas não esmoreceu os grupos que tentaram, em 11 de novembro do ano seguinte, impedir a posse de Juscelino. O golpe de Estado foi frustrado pela ação rápida do general Teixeira Lott. Em 1964, a desorganização das forças populares favoreceu a vitória dos norte-americanos, que voltaram a domesticar a imprensa e o Parlamento e manipularam os chefes militares brasileiros.

Os êxitos do governo atual e a nova arregimentação antinacional contra a Petrobras – agora com o pré-sal – devem mobilizar os trabalhadores que não estão dispostos a viver o que já conhecemos. Sabem que a situação internacional tende para a direita, e não podemos repetir apenas que o povo esmagará os golpistas. É necessário não só exercer a vigilância, mas agir, de forma organizada e já, para promover a unidade nacional em defesa do desenvolvimento de nosso país.

Fonte: Rede Brasil Atual

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Sobre Luiz Albuquerque

O Núcleo de Estudos sobre Cooperação e Conflitos Internacionais (NECCINT) da Universidade Federal de Ouro Preto , sob a coordenação do professor Luiz Albuquerque, criou o Observatório de Relações Internacionais para servir como banco de dados e plataforma de pesquisas sobre relações internacionais e direito internacional . O site alimenta nosso trabalho de análise de conjunturas, instrumentaliza nossas pesquisas acadêmicas e disponibiliza material para capacitação profissional. Mas, além de nos servir como ferramenta de trabalho, este site também contribui para a democratização da informação e a promoção do debate acadêmico via internet.

7 respostas em “Se você não acredita em mim, acredite na CIA quando ela mesma admite manipulação da mídia brasileira

  1. Caros amigos do Observatório de Relações Internacionais,

    Esta foi a minha postagem de número 800.

    O seu conteúdo me reafirma a convicção de que valeu a pena ter postado as outras 799 matérias que lhes dão argumentos para perceber melhor o que é notícia, o que é opinião, o que é propaganda e o que é manipulação.

    Aproveito a comemoração desta marca pessoal para agradecer a todos os pesquisadores que estão ou que já passaram pelo Observatório de Relações Internacionais.

    Parabéns! Sem vocês, isso seria apenas um blog. O que vocês fizeram contribuiu para multiplicar a informação junto a centenas de milhares de pessoas.

    Esse é o espírito!

    Lucem accipe ut reddas!

    Luiz Albuquerque

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  2. ARTIGO: Se você não acredita em mim, acredite na CIA quando ela mesma admite manipulação da mídia brasileira.

    A manipulação da mídia brasileira não é assunto novo. Há tempos discute-se sobre isto, mas nunca se chega a um veredicto e a discussão fica com base em “achismos”. Basta começar o assunto de teoria da conspiração que a manipulação da mídia entra em jogo, assunto este que acaba ficando nesta esfera da imaginação, que fica como um ponto de interrogação na cabeça dos debatedores.

    Este artigo mostra o ponto de vista de uma pessoa que tem fundamentação e conhecimento sobre o assunto, um historiador sênior a serviço da CIA. Gerald K. Haines descreve em seu livro a influência da diplomacia americana sobre os países de terceiro mundo durante a guerra fria. Mostra que o governo americano financiou o golpe militar de 64. Descontentes com as ações de Getúlio Vargas com a criação da Petrobrás e Eletrobrás, os americanos “convenceram” jornais a combater o monopólio estatal, chegando até mesmo a escrever os textos a serem publicados. Aliciaram jornalista com dinheiro vivo e assim geraram uma crise política interna, que acabou gerando o golpe.

    Com a visão de um historiador de respeito, temos aqui apenas um caso de comprovada manipulação da mídia. Serve como aviso para que tenhamos cuidado ao ler uma notícia na mídia e abre a discussão com relação ao pré-sal. Quando houve a monopolização do petróleo vimos o que a diplomacia americana conseguiu fazer, o que conseguirão desta vez?

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  3. Durante o período da Guerra Fria a política imperialista norte-americana voltou sua atenção para as revoltas comunistas que passaram a eclodir na América Latina, e logo não demorou para que tal atenção se voltasse ao maior país daquela região, o Brasil.

    Os EUA capitalista passaram a apoiar os grupos de direita brasileiros e visavam o fim de qualquer rastro comunista, sendo assim, não demorou para que a potência norte-americana passasse a interferir na política brasileira. O governo populista de Getúlio Vargas foi um dos alvos dessa política estadunidense, que viam na figura popular do presidente um perigo eminente aos seus interesses capitalistas.

    Essa política imperialista refletiu também na mídia, os EUA tentaram conter a estatização do petróleo brasileiro divulgando informações na mídia de acordo com os seus interesses capitalistas.

    Entretanto sem sucesso, uma vez que foi criada a Petrobras e a ela ficou destinado o monopólio do petróleo brasileiro. Sendo assim, foi possível notar a manipulação da mídia por grupos políticos mais fortes, que tentaram, e ainda tentam nos dias de hoje, influenciar a população a pensar e a agir de acordo com os seus interesses políticos.

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  4. Falar que a mídia é manipuladora e que as emissoras de televisão (a Rede Globo, em especial) são formadoras de opinião pública já é “chover no molhado”, como “costuma dizer o povo”. Que os Estados Unidos têm o seu dedinho nessa história, também não é lá grande novidade, ou, se é, ao menos não provoca espanto nos seres minimamente esclarecidos. Agora ter isso confirmado por um historiador sênior a serviço da CIA num livro regularmente publicado é algo de peso, que merece algumas reflexões e outras considerações.
    A primeira delas é a já pontuada pelo autor do post, qual seja a importância da tradução desse livro. E, claro, a venda do mesmo no Brasil. Esse é o tipo de informação que, não se pode dizer a maioria, mas pelo menos grande parte da população deveria ter acesso e conhecimento.
    Afinal de contas, não estamos falando em simples especulações ou propagandas que impulsionam e fomentam o consumismo (o que por si só seria um problema), mas de influências indiretas que têm o condão de orientar e manipular a vida política do nosso país!
    Ora, se há tamanha repercussão advinda de uma atividade dessa origem, o nosso povo precisa saber. E saber por quem? Pela mídia, que foi comprada e silenciada? É por ela que a gente deve esperar que nos chegue esse tipo de informação?
    E é justamente por esse motivo que é tão difícil reverter um quadro desses. A fonte de informação mais poderosa e de maior alcance nos presta o desserviço diário de nos manter ignorantes e alheios às conjunturas políticas e jogadas de poder que afetam sobremaneira a nossa vida e a vida do nosso país.

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