HISTÓRIA: Descodificando o “Outro”, Uma Turquia além do estereótipo.

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O receio de alguns ocidentais em relação à Turquia tem raízes no imaginário europeu em relação aos otomanos. Esta imagem foi formada ao longo dos séculos de contato e de convivência entre as duas partes, oscilando de acordo com os períodos de protagonismo ou declínio otomano. Os otomanos eram aqueles que estavam mais próximos dos Estados europeus do ocidente, esta proximidade teve um profundo efeito na formação da identidade tanto dos otomanos como dos europeus, do mesmo modo que estruturou um complexo processo de atração e de afastamento. A autoconsciência de um povo, da sua diferença e autonomia, das suas características particulares e singulares, nasce muitas vezes da comparação com o “outro” como forma de se autodefinir em termos daquilo que é, ou não é. Nos seus confrontos com Bizâncio, com os Estados dos Balcãs, e com a Europa ocidental e oriental, os otomanos enfatizaram por vezes sua identidade como guerreiros muçulmanos da fé. Isso não impediu que seus líderes admirassem e recorressem à soldados, artistas e técnicos bizantinos, búlgaros, sérvios e europeus ocidentais. 

Para os europeus, os otomanos foram um meio fundamental de autodefinição da cultura europeia enquanto tal. Houve momentos em que serviram como modelo de qualidades que os europeus desejavam ter. Maquiavel e outros intelectuais europeus, como Bodin e Montesquieu, enalteceram a integridade, a disciplina e a obediência dos exércitos e dos governantes otomanos. Numa época em que a crítica direta ao rei podia ser perigosa, utilizavam os otomanos como exemplo inspirador para melhorar a conduta dos monarcas, exércitos e estadistas europeus. Entretanto, quando os europeus procuravam se definir, caracterizaram-se segundo aquilo que não eram. 

Em algumas oportunidades os europeus fizeram dos otomanos o repositório do mal; identificaram as características que queriam possuir, atribuindo as contrárias ao seu inimigo. Para os europeus, os otomanos ora eram terríveis, selvagens e “vís”, ora eram tarados sexuais, devassos e dissolutos. Segundo Quataert, um dos principais estudiosos do Império Otomano, “até mesmo no século XIX, a imaginação europeia rotulava o “Oriente Otomano” como antro de degenerada perdição dos prazeres pretensiosamente ausentes ou proibidos no salutar e civilizado Ocidente”. A maioria dos europeus ocidentais e dos americanos talvez não reconhecem que devem aos otomanos, por exemplo, o apreciado café e a tulipa, ou a vacina da varíola que protege a nossa saúde. Desde seus primórdios, o Império Otomano influenciou o cotidiano, a religião e a política daquilo que a Europa veio a ser. 

Donald Quataert ficou perplexo quando esteve na Áustria para visitar uma exposição que festejava o tricentésimo aniversário do Segundo Cerco de Viena (1683). O que assustou o historiador foi a ideia amplamente difundida entre crianças e professores – bem como os europeus em geral – de que a data marcaria a ocasião em que todos foram salvos da conquista otomana. Mas a verdade era que Viena não seria arrasada por uma força destruidora muçulmana, mas sim conquistada e incorporada à um Império multiétnico e multirreligioso. Na ocasião do Cerco de Viena, o poder imperial otomano apoiava-se em uma mescla de povos que seria a causa dos seus quase seis séculos de coesão interna. 

Os otomanos estão presentes na cultura popular europeia. No século XVII, a temática da literatura ficcional francesa incluía os monarcas otomanos – como por exemplo, a história do cativeiro do sultão Beyazit I (1389-1402) e do seu captor Timur (Tamerlão), publicada em 1648. Porém, a maioria das narrativas relatava a crueldade dos turcos, tal como a de Suleyman, o Magnífico, em relação ao seu favorito, o grão-vizir Ibrahim. Numa peça francesa de 1612, Mehmet, o Conquistador, que fora um príncipe renascentista cosmopolita, requintado e conhecedor de várias línguas, transformou-se em um brutal e cruel tirano cuja mãe era retratada bebendo o sangue de uma vítima. Em outros relatos igualmente bizarros representavam-se os soldados otomanos oferecendo sacrifícios à Marte, o deus romano da guerra. Todavia, o afastamento da ameaça otomana após o fracasso de Viena em 1683, alterou essa imagem.

Os habitantes de toda Europa começaram a copiar aberta e intensamente seus vizinhos. Nesse período, os otomanos contribuíram notavelmente no âmbito da música clássica europeia, introduzindo os instrumentos de percussão nas orquestras modernas. De 1720 até meados do século XIX, a chamada “música turca” tornou-se a grande voga na Europa. Esta música surgira com a Banda dos Janízaros, que acompanhava os exércitos otomanos a fim de incitar as tropas e inspirar temor aos inimigos. O rei polaco Augusto II (1697-1733) admirava tanto a música janízara que um sultão o presenteou com uma banda. Em 1727, a imperatriz Ana da Rússia decidiu que também necessitava de uma banda, mandando vir de Istambul um grupo idêntico. Em 1782, Londres obteve a sua banda, mas neste caso os tambores, as pandeiretas e os címbalos eram tocados por africanos, talvez para criar uma atmosfera de exotismo. Um resquício deste entusiasmo pelas bandas janízaras é a tradição de os tamboreiros-mor lançarem ao ar as suas baquetas. Nos EUA, esta prática evoluiu para o bastão das majorettes.

A popularidade dos sons janízaros deixou de se confinar à banda, entrando na corrente dominante daquilo a que hoje chamamos música ocidental. A influência janízara pode ser sentida na Nona Sinfonia de Beethoven, na Quarta Sinfonia de Brahms, na Sinfonia Marcial de Haydn; na abertura do Guilherme Tell de Rossini, ou na marcha de Wagner, Tannhäuser. A Sonata K. 331 para piano em lá maior, de Mozart, contém uma rondo alla turca, um tema que também influenciou o jazz americano. Em 1686, uma ópera produzida em Hamburgo, contava o destino do grão-vizir Kara Mustafa Paşa após o cerco de Viena. A ópera de Händel, Tamerlano (1724), relata a derrota do sultão Beyazit I para Timur, o Coxo. 
No século XVIII, a “moda turca” também influenciava a Europa ocidental. Surgiam por toda a parte pseudo-sultões e sultanas. Os cafés ao estilo otomano enchiam-se de frequentadores vestidos à maneira turca, estes fumavam cachimbos d’água e comiam doces “turcos”. 

No século XIX, esta “turcomania” foi lentamente substituída. Manteve-se a temática comum da crueldade, da intriga, do ciúme e da barbárie. Paralelamente à velha imagem desumana surgia a do turco apaixonado ou histriônico. A figura do turco tolo já se tornara corriqueira. No século XIX, o turco libidinoso e de orgãos sexuais desproporcionados tornara-se uma característica importante da literatura pornográfica vitoriana. Muitos europeus, como Lord Byron e o romancista Pierre Loti, passaram a considerar o Império Otomano a terra dos sonhos, onde os devaneios sexuais ou de outra natureza podiam tornar-se realidade. Procurava-se no Oriente idealizado um refúgio para o tédio e para a monotonia da vida industrial moderna. 

Graças aos artefatos otomanos exibidos em várias feiras mundiais do século XIX, incluindo a Exposição Centenária Americana de 1876, o “recanto turco” tornou-se um lugar-comum nos lares europeus. Nas salas de estar das classes mais abastadas havia cadeirões almofadados ornamentados com borlas e longas franjas, junto aos quais se viam bandejas de cobre e os sempre presentes tapetes “orientais”. Os otomanos enriqueceram o imaginário europeu. Em sua fase de retração militar, o anticristo e inimigo da Reforma deu lugar a formas mais inofensivas. Até mesmo nos nossos dias, embora o Império Otomano tenha desaparecido, as suas heranças permanecem no mundo cultural europeu e nas suas ramificações. 

Podemos discutir como a visão “ocidental” em relação aos “turcos” e aos povos árabes variou de acordo com as circunstâncias de cada época. A imagem romântica vulgarizou o “Oriente” como uma terra onde era possível realizar todos os prazeres da imaginação humana. Essa visão do mundo “oriental” popularizou a imagem da odalisca como estereótipo da mulher muçulmana até pouco tempo atrás, enquanto após o atentado ao World Trade Center fomos bombardeados por imagens de muçulmanas usando o hijab (véu), chador, niqab e a burqa. Na prática, ambas as visões falham ao estereotipar a sociedade islâmica e a condição da mulher no Islã.

É perceptível as diferenças de conduta em cada país ou até mesmo em cada cidade; a Turquia e o Líbano são exemplos de sociedades mais abertas, enquanto a Arábia Saudita e o Afeganistão são mais rígidos. Istambul é um exemplo da diversidade no Islã, nos bairros históricos, como Eminönü é comum encontrar as mulheres usando o hijab e até o chador. Em contrapartida, é frequente ver turcos bebendo a cerveja EFE (a principal marca de cerveja da Turquia) nos diversos bares das ruas adjacentes à Istiklâl Caddesi, ou jovens “ficando” em clubes noturnos como o Reina. Esta diversidade é um legado do histórico cosmopolita da cidade, da visão heterodoxa do Islã comum aos povos nômades e da política secular nacionalista de Kemal Atatürk. Se ao longo dos séculos formou-se um imaginário que não traduz corretamente a sociedade turca, cabe a nós historiadores reconhecermos os defeitos desta visão, refletir sobre o passado e compreender os dilemas atuais. 

Autor: Diogo Farias.

* Tela de Paul Trouillebert (1874) retratando uma serva do harém otomano.

Fonte: http://www.zoonpolitikonbrasil.blogspot.com.br/2013/09/historia-descodificando-o-outro-uma.html

Syria, Protests in Turkey & the NSA Spy Program w/Pepe Escobar

Vídeo

Publicado em 11/06/2013
his episode of Critical Insights we were joined by Asia Times roving journalist, Pepe Escobar. Pepe broke down the genesis of the ongoing conflict within Syria, Western and Israeli Involvement in Syria, as well as how the West is financing known terrorist “rebels” throughout Syria. Mr. Escobar also detailed the background of the NSA spy program known as Prism and what the long term implications are for US citizens (and the world in general), if these tactics continue. This is a must watch interview riddled with critical information the Western (US) corporate media routinely suppress.

Fonte: Critical Insights

TRNN: “Os objetivos da Turquia na Síria”

Turkish Objectives in Syria

Baris Karaagac: Turkish leadership dreams of a new Ottoman empire and looks to control the Kurds

The conflict in Syria continues to shed rivers of blood. Tens of thousands of people have been killed in a bloody war between a brutal dictatorship and opposition movement, many of whom are backed by other brutal dictatorships, specifically Qatar and Saudi Arabia. It’s a very complicated and very tragic situation.

One of the main players in the situation in Syria is Turkey. And now joining us to talk about Turkish foreign policy and what their agenda is as regards to Syria is now joining us, Baris Karaagac. He’s a lecturer in international development studies at Trent University in Ontario. He’s also the editor of the book Accumulations, Crisis, and Struggles: Capital and Labour in Contemporary Capitalism. And he joins us from our studio in Toronto. Thanks for joining us, Baris.

BARIS KARAAGAC, LECTURER, INTERNATIONAL DEVELOPMENT STUDIES, TRENT UNIVERSITY: My pleasure.

JAY: So what are Turkish objectives in Syria? We know, as far as I understand it, Turkey has been involved from very early stages. We’ve been told they set up major refugee camps in Turkey before there were very many refugees. They seem to have been in on a kind of plan with Qatar and Saudi Arabia. Is that correct? And what do they want?

KARAAGAC: Yes, there are many refugees, but there are also many rebels right now within Turkey, and Turkey has been providing them with a lot of logistical support. And of course some of it comes from Saudi Arabia and Qatar.

But firstly I would like to talk about the historical relations between those two countries. And until 1998, the relations were quite stormy, actually, because—due to mostly three reasons, factors.

One of them is the status of Hatay, a southern province that neighbors Syria which joined Turkey in 1939. And Syria has always claimed that it’s historically a part of Syria. And the majority of people living there are Arabs.

The second is the conflict over water, the two rivers, Euphrates and Tigris. And this has been a major source of conflict between the two countries.

And a third one was the support that was given by the Syrian government, the Syrian state, to the PKK. But in 1998, Syria, due to a lot of pressure from both Turkey and the international community, had to kick Abdullah Öcalan, the leader of the PKK, out of Syria. And this started a process of friendly relations. And when Hafez’s son died, actually, the president of the Turkish state, republic, went to Syria to attend the funeral, and a Turkish president has not been to Syria in a very long time.

But these relations got even better during the government of the AKP. And until trouble started in 2011, the relations between those two countries can be considered brotherly—I’m using the word on purpose because Erdoğan and Bashir al-Assad used to call each other brothers, and until two years ago, or only two years ago, those two people were making vacation plans together. But with the events, with the insurgency as a part of the Arab Spring in 2011, these relations have started to deteriorate, and at a very fast pace.

And when scholars, when analysts look at the causes of the deterioration, many people speculate. And it is actually very difficult to say something definitive, but I think what happened is that the Turkish state, the Turkish government, the AKP, was not expecting this to happen in Syria. And when it started to happen—.

JAY: Hold on. “This” meaning the uprising against Assad.

KARAAGAC: The uprising in 2011, yes. And they were—I think they were caught by surprise. And when it started to get worse, or when it started to spread across the country, the Turkish state started to side with the so-called Free Syrian Army, the rebels.

JAY: Now, this was to—you know, once things got militarized—and some people are suggesting one of the reasons it got militarized so early was first of all because Assad used terrible violence against peaceful protesters. But then Qatar and Saudi Arabia, and to some extent the Americans—although it seems to me it was more Qatar and Saudi Arabia that drove this—saw an opportunity and helped get this thing militarized more quickly than it might have otherwise. But where was Turkey in that scenario?

KARAAGAC: Well, Turkey—first, I think they hesitated in terms of what to do. And then they bet on the rebels in terms of these people, this really diverse group of people who rebelled against the Syrian government to win in the end. And then Turkey jumped on board and started to support the rebels alongside Qatar and Saudi Arabia and, of course, the United States.

JAY: Now, is this partly to do with competition between Turkey and Qatar and Saudi Arabia, that Turkey didn’t want the Saudis and the Qataris controlling the outcome of a Syrian revolution, that Turkey needed to have its hand there?

KARAAGAC: Well, I think we should locate this within a broader discussion of the shift in foreign-policy strategy in Turkey in the past ten years. Many people have given it different names, but I would like to call it the new ['AltIm@nIzm]. This idea of new ['AltIm@nIzm], which actually promotes greater engagements in those territories that used to be controlled by the Ottoman Empire, by the Turkish state today, is not a new idea. It was first—it became popular with Turgot Özal, who used to be, first, the prime minister, and then the president, in the 1980s. But it was not until the AKP government that it started to be implemented.

So Turkey was seeking a leadership role in those territories which used to be controlled by the Ottoman Empire for centuries. And I think this—again, the question that you posed should be located within that context.

JAY: Well, to what extent, then, is Qatar, Saudi Arabia, and Turkey kind of co-managing the region under the American umbrella? Or are we going to be seeing a rivalry in Syria to start with, even with Turkey versus Qatar and Saudi Arabia? We’ve talked about how much Syria is a proxy war not just for Saudi Arabia and Qatar, but also the United States and Russia, and even China to some extent. What is Turkey’s role in this proxy war? They’re clearly one of the most affected, given the border, that they’re right on the border.

KARAAGAC: I think we should be looking at this question at a much higher level, at the Eurasian level. I think there’s a struggle for hegemony, influence and hegemony in the broader Eurasian territory/geography, and we have Russia and China on the one hand, and we have the United States and its allies on the other. I don’t see—I don’t foresee a serious conflict between Turkey on the one hand and Qatar and Saudi Arabia on the other. I think this is part of this struggle over, particularly, energy resources in Eurasia between those two blocs. And Turkey definitely sided with the United States and its allies in the region.

JAY: I mean, that’s, I guess, what’s really at the heart of my question is what has emerged is Qatari, Saudi, Turkey as sort of the managers of the American sphere of influence, or partners, if you want, in the Middle East, in alliance also—and making use of the Muslim Brotherhood, first of all in Egypt with Morsi. And are they also trying to bring to power Muslim Brotherhood in Syria?

KARAAGAC: Yes, there, definitely. So there’s some—definitely I think there’s some subcontracting going on there. But at the same time, I’m not [incompr.] give you [incompr.] analysis which see the United States or this imperial power as only important which determines the outcomes of any political process around the world. I think in this case what we observe in Turkey is that the interests of the United States are overlapping with the interests of a group of or a part of Turkish society.

Again, this has a lot to do with the internal dynamics and internal transformation of Turkey in the last 30 years. Turkey today is not the Turkey of the 1970s or 1980s. Turkey’s much more confident. And particularly when we look at the Turkish capital today, Turkish capital has been investing over a territory extending from Siberia to Sub-Saharan Africa to Latin America. And these people, they want much confident, as well as much powerful, assertive foreign policy by the Turkish state in the Middle East or in Eurasia today.

And the second thing is, of course, we cannot talk about these issues without one very important actor in the Middle East, and that is Iran.

JAY: Before we get into Turkey and Iran, the situation in Syria is so tragic, there have been so many people killed, one would think Turkey could have and still could, in fact, play a role to find a somewhat more peaceful, less drastic transition or resolution in Syria. But Turkey doesn’t seem to be playing that role. They seem to actually be putting fuel on the fire.

KARAAGAC: Turkey has been definitely putting fuel on the fire. And, actually, I don’t think that Turkey got into the Syrian conflict without U.S. encouragement in the first place. But it even went beyond what—Turkey went beyond what the United States was expecting it to do. And even the Americans started to warn Turkey not to get involved too much in the conflict.

But right now, Turkey is pretty much in there. It’s one of the most active and assertive players in the Syrian conflict. And of course a part of it is related to the Kurdish question. Turkey is really afraid that the Kurds in the north part of Syria—there are about 2 million Kurds; they’re constituting 9 percent of the Syrian population—Turkey is really afraid that they will achieve autonomy and preserve it, and maybe eventually unite with the other parts of Kurdistan.

JAY: So the issue now for Turkey is overthrow Assad, and then, hopefully, a Muslim Brotherhood government comes to power and suppresses the Kurds in Syria?

KARAAGAC: Keep them under control, definitely. They would like to keep the Kurdish movement and the Kurdish territories under control as much as they can. And in this case, of course, if the Muslim Brotherhood comes to power, the Muslim Brotherhood is insisting on an Arab republic. So they are not so interested. You know, I don’t think that they would agree with most of the demands by the Kurdish population in Syria. So Turkey would prefer that option.

JAY: Alright. Thanks very much for joining us. We’ll continue this series of discussions about Turkey with Baris in further interviews on The Real News Network.

Don’t forget we’re in our year-end fundraising campaign. There’s a Donate button over here. Every dollar you donate gets matched. If you don’t click on that, we can’t do this.

Fonte: The Real News Network

OTAN decide enviar mísseis em apoio à Turquia e ameaça Damasco

O secretário-geral da aliança militar negou, por enquanto, a imposição de qualquer zona de exclusão aérea ou ofensiva

Patriot Turquia

O secretário-geral da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte),  Anders Fogh Rasmussen, disse que os aliados autorizaram o envio de mísseis Patriot para a Turquia. A iniciativa, definida a pedido do governo turco, está inserida no contexto do conflito civil na Síria, que faz fronteira com a Turquia. “A quem pensar atacar a Turquia, nós dizemos: nem pensem nisso”, ameaçou Rasmussen.

De acordo com informações da OTAN, os Patriot são mísseis utilizados em sistemas de defesa terra e ar, comuns nos países da organização, como a Alemanha, Grécia, Holanda, Espanha e os Estados Unidos. O primeiro Patriot foi utilizado em meados dos anos 1980 pelos norte-americanos e durante a primeira Guerra do Golfo, lançados contra os Scud iraquianos. Os Patriot têm avançado sistema de interceptação de mísseis e estão equipados com radares de grande definição.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros dos países que integram a OTAN disseram que estão preocupados com o eventual uso de armas químicas pelo governo do presidente sírio, Bashar Al Assad, apesar de Damasco ter dito que não as usaria contra a população civil.

“Nós agradecemos a intenção da Alemanha, da Holanda e dos EUA que vão fornecer as baterias de mísseis de acordo com os procedimentos dos respectivos países. Os sistemas vão ficar sob a responsabilidade operacional do Comando Aliado para a Europa [Saceur – Supreme Allied Comander Europe], a instalação vai ser apenas defensiva e em nenhuma circunstância impõe qualquer zona de exclusão aérea ou ofensiva”, disse ainda o secretário-geral da OTAN.

Crescem, entretanto, os sinais de “preparativos eventuais” para uma ação militar contra a Síria. Segundo o New York Times, Washington não descarta “opções militares” e pondera dois possíveis cenários para neutralizar o recurso a armas químicas: bombardeios aéreos ou raides circunscritos às instalações.

Israel

Além dos EUA, Israel também está preparado para agir contra Damasco. Segundo o jornalista Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic, o executivo liderado por Benjamin Netanyahu procurou já por duas vezes nos últimos dois meses o aval da Jordânia para lançar ataques às instalações militares sírias, onde estaria o arsenal químico de Assad.

Em 2007, a Força Aérea israelense destruiu um reator nuclear na Síria num bombardeio sem a autorização da Jordânia. Mas as fontes citadas por Goldberg dizem que os dois países estão agora coordenando as operações, tendo até montado um “gabinete de guerra”, que conta também com a participação dos EUA e de países aliados do Golfo.

O agravamento da situação levou na segunda-feira a ONU (Organização das Nações Unidas) a anunciar uma retirada parcial do seu pessoal da Síria. Também a União Europeia disse que iria reduzir “ao mínimo” as suas atividades na capital.

Patriot

O Patriot é usado como arma antiaérea e integra os sistemas de defesa pela resposta rápida e capacidade de interceptar alvos simultâneos. Em terra, a bateria tem grande mobilidade e não é vulnerável aos ataques de comunicações eletrônicas. Esse tipo de míssil tem quatro funções operacionais: comunicações, comando e controle, vigilância por radar e interceptação de mísseis.

Criada em 1949, após a 2ª Guerra Mundial, a OTAN é integrada pelos seguintes países: Albânia, Alemanha, Bélgica, Canadá, Croácia, Dinamarca, Espanha, EUA, França, Grécia, Países Baixos, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Portugal, Reino Unido, Turquia, Hungria, Polônia, República Tcheca, Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia.

Fonte: OperaMundi

Assad diz que precisa de mais tempo para vencer a batalha

Em entrevista a um canal de TV da Síria, ele tentou passar confiança na vitória: “Definitivamente, precisamos de mais tempo para ter um desfecho decisivo, mas eu posso resumir em uma frase: estamos progredindo”.

Ele afirmou que a situação no país está melhor agora, mas declarou estar enfrentando “uma batalha tanto regionalmente, quanto internacionalmente”.

Sobre a deserção de militares e políticos do alto escalão, ele foi sarcástico ao classificar a saída como um ato de “auto-limpeza do governo, em primeiro lugar, e do país, em geral”.

Assad descartou a criação de áreas de ajuda humanitária na Síria e atribuiu a ideia aos inimigos do país.

O ministro das Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoglu, havia proposto uma “área segura”, que seria organizada pela ONU e serviria como refúgio e distribuição de auxílio humanitário.

Fonte: BBC Brasil

Leia mais sobre a Guerra Síria

Pepe Escobar: “Os israelenses letais e o turco louco”

14/8/2012, Pepe EscobarAsia Times Online – The Roving Eye

The deadly Israeli and the mad Turk

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os doidos assumiram – ou pensam que assumiram – o comando do hospício.

 

Como Asia Times Online já noticiou (7/8/2012: Pepe Escobar: “Ardo em febre!” E a única receita é bombardear o Irã?!), Telavive pode estar a um palmo de converter a guerra econômica já declarada contra o Irã, em guerra quente.

Considerem essa loucura: [1]. O duo Bibi-Barak de fazedores de guerras (Primeiro-Ministro Bibi Netanyahu e o Ministro da Defesa Ehud Barak) pode estar bem próximo de decidir por um ataque ao Irã – contra o conselho dos principais especialistas da defesa e da inteligência israelenses.

 

Barak pode até já ter acesso a inteligência secreta dos EUA. Disse que “é provável que realmente haja relatório da inteligência dos EUA – não sei se é uma NIE [National Intelligence Estimate] – circulando pelos principais gabinetes [em Washington]”.

 

“É provável”? “Realmente”? “Não sei”? E essa floresta de hipóteses seria justificativa para guerra?

 

Então, Barak acrescentou: “Tanto quanto sabemos, isso põe a avaliação dos americanos muito mais perto da nossa”.

 

Não, senhor, nada disso. A resposta, de um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca foi: a avaliação, pela inteligência dos EUA, continua inalterada. Em outras palavras: o Irã não mantém programa de armas nucleares.

 

E se alguma confirmação extra fosse necessária, Washington parece ter quadro bem claro dos progressos nucleares do Irã. [2]

 

Segundo o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney: “Nós saberíamos se e quando o Irã fizesse o que se chama um movimento claro para comprar uma arma”.

 

Para o letal Bibi, isso, obviamente, não basta. Não importa que – tecnicamente e logisticamente – Israel simplesmente não tenha sequer o mínimo indispensável para mover ataque bem-sucedido contra instalações nucleares iranianas.

 

Examinem esses concisos infográficos [3]. Para começar, Israel não tem bombas de penetração de última geração modelo MOP GBU-57A para conseguir atingir instalações subterrâneas profundas do Irã. Não tem os bombardeiros B-2 stealth da Northrop Grumman para descarregar as tais bombas. E não tem transportadores aéreos Lockheed Martin KC-130 em número suficiente (Israel só tem 5; os EUA têm 80) para reabastecer os F-15s e F-16s de ataque.

 

Não há qualquer sinal de que o governo Obama considere autorizar o Pentágono a fornecer os itens acima à dupla Bibi-Barak, pelo menos por enquanto.

 

É hora de injetar alguma sanidade nessa loucura – cortesia do bom velho Guerreiro da Guerra Fria, Yevgeny Primakov, ex Supremo da KGB e Ministro de Relações Exteriores da Rússia. Na narrativa de Primakov, a coisa é simples: OK, ataquem o Irã. Inevitavelmente, em seguida, o Irã fabricará sua bomba atômica. [4]

 

Enquanto isso, em Ankara…

 

Estará a Turquia adentrando o nono círculo (curdo) do inferno?

 

A secretária Hillary Clinton dos EUA esteve na Turquia recentemente, em viagem muito do tipo “Viemos, vimos, ele morreu”, à moda líbia; como se voltasse ao palco em seu personagem de Anjo da Morte, comandando o iminente passamento de Bashar al-Assad da Síria.

 

Muita calma nessa hora. O mesmo vale para a decisão Shakespeareana – “invadir” ou “não invadir” o Curdistão Ocidental/sírio? – do Primeiro Ministro turco Recep Tayyip  Erdogan, que influencia o Departamento de Estado.

 

Fato é que o partido AKP ainda não pediu autorização ao parlamento turco para invadir o Curdistão sírio. Mas, sim, invadirão o Curdistão sírio – apesar de grande número de generais turcos estarem no xilindró, acusados de planejar um golpe. Três brigadas turcas, tanques e artilharia já estão a apenas dois quilômetros da fronteira síria.

 

Ankara já invadiu o Curdistão iraquiano dúzias de vezes, caçando guerrilheiros do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão). O enredo adensa-se, porque, ao mesmo tempo, Ankara mantém relações muito próximas, diplomáticas e comerciais com o Governo Regional do Curdistão (KRG); de fato, Ankara está hoje em rota de colisão contra o governo de Nuri al-Maliki em Bagdá – depois que começou a importar petróleo diretamente dos curdos, marginalizando o governo central iraquiano.

 

Ahmet Davutoglu, ministro de Relações Exteriores da Turquia foi pessoalmente a Kirkuk e Irbil, para fechar o negócio com Massoud Barzani, presidente do Governo Regional do Curdistão (KRG).

 

Em termos de Oleogasodutostão, é o seguinte: o Grande Petróleo Ocidental está enlouquecidamente em cólicas para conseguir o máximo de energia que possa humanamente arrancar do Curdistão iraquiano (e do Azerbaijão) – o que significa marginalizar, no processo, Irã e Rússia.

 

Uma “invasão” turca ao Curdistão sírio nem seria problema muito grave em termos das relações entre Turquia e aquelas exemplares “democracias”  reunidas no Conselho de Cooperação do Golfo. Afinal, o Qatar e a Casa de Saud já estão trabalhando com a Turquia para construir a total desestabilização da Síria.

 

Mas o regime de Assad interpretará o movimento como guerra contra a Síria, não contra, só, o Curdistão sírio. Afinal de contas, a Turquia hospeda e alimenta não só o Conselho Nacional Sírio como, também hospeda e alimenta milhares de gangues que compõem o Exército Sírio Livre Que De Livre Pouco Tem, incluídos os jihadis salafistas. A Turquia é a base logística desse pessoal todo.

 

E o que acontecerá se começarem a chegar navios e mais navios carregados de cadáveres em sacos plásticos, de volta a Ankara e Istambul?

 

Pode estar chegando ao fim a encenação de poder de Erdogan, O Turco Louco. O exército turco, a burguesia comercial, a burocracia secular, todos dão sinais de, cada dia mais, estarem já fartos dos sonhos napoleônicos de Erdogan; de a Turquia garantir apoio ao ESL, que pulula de jihadis; de a Turquia contrabandear armas para dentro da Síria, aliada ao Qatar e aos sauditas; de a Turquia estar posicionando baterias antiaéreas e até mísseis na fronteira síria; de a Turquia ter-se posto a ameaçar que invadirá o Curdistão sírio. Não dá. Demais é demais.

 

Mas, também aí, talvez não seja demais. O sonho desejante de Ankara, de um grande cenário – em roupagens neo-otomanas – certamente incluiria algum tipo de anexação econômica do norte do Iraque e nordeste da Síria; as duas áreas são ricas em energia – e a Turquia carece desesperadamente daquela energia. O problema é que essas duas regiões são habitadas quase exclusivamente por curdos.

 

Até os curdos iranianos já começam a movimentar-se. [5] O que acontece quando 17 milhões de curdos turcos também decidem entrar em ação? Erdogan pode estar a caminho de encarar o pesadelo dos pesadelos da Turquia: o surgimento do Grande Curdistão.

 

A Turquia tem fronteiras com o Iraque, a Síria e o Irã. Os curdos começam a sentir a deriva histórica. Rick Rozoff, em Global Research [6] argumenta, com razão, que “a Turquia dá à OTAN – e, via OTAN, também ao Pentágono – acesso direto àquelas três nações”. Mas isso pode ir muito além de “uma nova redivisão do Levante, modelada depois do Acordo Anglo-francês Sykes-Picot de 1916”.

 

Uma Turquia neo-otomana, a OTAN e o Pentágono podem estar na mesma página, pelo menos por enquanto. Mas uma balcanização do Levante só favorecerá a emergência do Grande Curdistão. Pode servir aos interesses estratégicos de Washington. Mas quando Erdogan acordar para a nova realidade – para a qual suas próprias políticas podem ter contribuído – talvez já seja tarde demais.

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Notas de rodapé:

 

[1]. 13/8/2012, Decision by Netanyahu, Barak to strike Iran is almost final – Israel TV,Times of Israel,

[2]. 13/8/2012, “We would know if Iran had made ‘a breakout’ to the bomb, White House saysTimes of Israel,

[3]. 13/8/2012, Likely Scenarios for Israeli Attack Against IranRIA NOVOSTI,

[4]. 8/8/2012, Iran to Make own WMD if Israel Delivers Airstrike – expertRIA NOVOSTI,

[5]. 12/8/2012, “Kurds’ have the right to demand federal areas: Kurdish Iranian MPAl Arabiya News,

[6]. 8/8/2012, “Turkey: NATO’s Neo-Ottoman Spearhead in the Middle EastGlobal Research.

 

 

Fonte: redecastorphoto

 

EUA e Turquia vão estabelecer grupo de trabalho para crise síria, diz Hillary

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, afirmou neste sábado que os EUA e a Turquia vão estabelecer um grupo de trabalho para planejar uma resposta conjunta à crise na Síria.

A declaração foi dada depois de uma reunião, em Istambul, com o ministro das Relações Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, na qual foi discutido como os dois países poderiam dar apoio à oposição síria em seus “esforços para dar um fim à violência e iniciar a transição para uma Síria livre e democrática, sem (o presidente Bashar al-) Assad”.

“Nosso objetivo número um é apressar o fim do derramamento de sangue e do regime de Assad”, disse Hillary a jornalistas.

“Nossos serviços secretos, nossos militares, têm responsabilidades muito importantes e papeis a serem cumpridos (na crise síria), então vamos estabelecer um grupo de trabalho para fazer exatamente isto.”

Hillary acrescentou que “uma série de eventualidades” foram discutidas em relação à Síria, inclusive a possibilidade de o país usar armas químicas.

A secretária de Estado americana afirmou que 2 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária na Síria. Hillary anunciou mais US$ 5,5 milhões (cerca de R$ 11 milhões) para ajudar os refugiados sírios na Turquia.

Atualmente, 50 mil refugiados sírios estão na Turquia e mais deles chegam diariamente.

Entre os americanos existe o temor devido ao fato de um crescente número de militantes ligados à Al-Qaeda estarem lutando junto com os rebeldes de oposição da Síria.

Autoridades do setor de inteligência dos EUA teriam dito, de acordo com a agência de notícias AP, que pelo menos 200 destes militantes já estariam participando das batalhas e o número aumenta enquanto combatentes estrangeiros entram no país.

Segundo analistas, esta pode ser uma das razões de o governo americano estar relutante em oferecer ajuda militar aos oposicionistas sírios.

Mais combates

Imagem tirada de um vídeo amador mostra o que seria a destruição de bairro em Damasco, Síria (AP)

Neste sábado teriam ocorrido combates em várias partes da capital, Damasco.

Canais de televisão da Síria informaram que as forças de segurança estão perseguindo um “grupo terrorista” que detonou uma bomba e abriu fogo contra civis.

Os rebeldes na cidade de Aleppo, norte do país, afirmaram que estão preparando um contra-ataque depois de se retirarem do bairro de Salah al-Din, um ponto estratégico da cidade, devido ao pesado bombardeio das forças do governo.

Jornalistas da agência de notícias Reuters relataram ter visto moradores fugindo de Aleppo de carro, aproveitando um intervalo nos combates.

Segundo a agência de notícias AFP, uma padaria no bairro de Tariq al-Bab, leste da cidade, foi atingida pelo bombardeio e cerca de 12 pessoas morreram.

O Conselho Nacional Sírio, grupo de oposição, informou que parte da área histórica de Aleppo, que data do século 13, foi danificada pelo bombardeio.

Segundo a agência de notícias estatal Sana, as forças do governo conseguiram vencer os rebeldes que tentavam atacar o aeroporto internacional de Aleppo.

Fonte: BBC Brasil

Leia mais sobre a crise na Síria

Número de refugiados sírios na Turquia atinge 50.000

Mais de 2.000 pessoas fugiram da violência na Síria para alcançar a Turquia nos últimos dois dias, fazendo com que o número total de sírios que buscaram refúgio chegassem a 50.000, afirmaram autoridades turcas na quinta-feira.

Civis sírios esperam para cruzar fronteira e entrar na Turquia, em uma passagem não oficial em província no norte da Síria. Mais de 2.000 pessoas fugiram da violência na Síria para alcançar a Turquia nos últimos dois dias. 06/08/2012 REUTERS/Zohra Bensemra

A taxa de fluxo dos refugiados subiu e há receios de que possa haver um êxodo da maior cidade síria, Aleppo, onde ocorrem combates pesados entre as forças do presidente Bashar al-Assad e os rebeldes.

Havia 50.227 sírios na Turquia desde esta quinta-feira, após 2.219 atravessarem a fronteira nos dias 8 e 9 de agosto, afirmou a organização estatal Administração de Emergência e Desastres, em uma declaração.

Os refugiados estão abrigados em nove campos em quatro províncias turcas ao longo da fronteira síria.

A revolta de 17 meses contra o regime de Assad na Síria gerou uma crise de refugiados na Turquia e em outros países vizinhos. A Turquia está preocupada que uma “inundação” de refugiados possa sobrecarregar a sua capacidade de acolhê-los.

Fonte: Reuters

Leia outras matérias sobre a Síria.

Pepe Escobar explica: “A guerra do oleogasodutostão na Síria: Uma guerra de negócios, não de balas.”

6/8/2012, Pepe EscobarAl-Jazeera, Qatar

Syria’s Pipelineistan war

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Negócio entre Síria e Irã pode ameaçar gravemente a posição da Turquia na estrada leste-oeste de energia  [REUTERS]

Muito abaixo do “vulcão de Damasco” e da “batalha de Aleppo”, as placas tectônicas do tabuleiro de xadrez da energia global continuam a mover-se. Além da tragédia e do luto da guerra civil, a Síria é também disputa pelo poder no oleogasodutostão.

Há mais de um ano, foi fechado um negócio de US$10 bilhões no Oleogasodutostão, [1] entre o Irã, o Iraque e a Síria, para construir, até 2016, um gasoduto que unirá os campos de petróleo gigantes de South Pars no Irã – atravessando o Iraque e a Síria, com uma possível extensão até o Líbano – e os mercados alvos de exportação (a Europa).

Ao longo dos últimos 12 meses, com a Síria naufragada em guerra civil, não se falou do oleogasoduto. Até que a conversa recomeçou. A paranóia suprema da União Europeia é não se deixar prender, como refém, pela Gazprom russa. O oleogasoduto Irã-Iraque-Síria é item essencial para diversificar os suprimentos de energia e pôr fim ao “monopólio” russo.

Mas é mais complicado que isso. Acontece que a Turquia é o segundo maior cliente da Gazprom. Toda a arquitetura da segurança energética turca depende do gás que vem da Rússia – e do Irã. A Turquia sonha com tornar-se a nova China, configurando a Anatólia como o entroncamento-encruzilhada estratégico para a exportação do óleo e gás da Rússia e dos campos de gás e petróleo russos, Cáspio-Central-asiático, iraquiano e iraniano, para a Europa.

Tente passar a perna em Ancara nesse jogo, e você terá problemas. Até praticamente ontem, Ancara aconselhava Damasco a fazer reformas – e depressa. A Turquia não queria o caos na Síria. Hoje, a Turquia está alimentando o caos na Síria. Examinemos uma das possíveis razões

Estive lá, nas encruzilhadas [2]

A Síria não é grande produtor de petróleo; suas reservas estão sumindo. Mesmo assim, até o início da guerra civil, Damasco vendia nada desprezíveis $4 bilhões anuais em petróleo – um terço do orçamento do governo.

A Síria é muitíssimo mais importante como uma encruzilhada de energia [3], mais ou menos como a Turquia, mas em menor escala. O ponto chave é que a Turquia precisa da Síria para atender sua estratégia de energia. [4]

A parte síria no Oleogasodutostão inclui o gasoduto AGP (Arab Gas Pipeline), do Egito a Trípoli e o IPC, de Kirkuk, no Iraque, a Banyas – ocioso desde a invasão, pelos EUA, em 2003.

A peça central da estratégia de energia da Síria é a “Política dos Quatro Mares” [orig. Four Seas Policy [5]] – conceito introduzido por Bashar al-Assad no início de 2011, dois meses antes do início do levante. É mais ou menos como uma mini usina turca – uma rede de energia que liga o Mediterrâneo, o Cáspio, o Mar Negro e o Golfo.

Damasco e Ancara imediatamente puseram mãos à obra – integrando as grades, unindo-as ao gasoduto AGP e, o que é crucial, planejando a extensão do gasoduto AGP de Aleppo a Kilis na Turquia; o que permitiria uni-lo adiante à ópera perene do Oleogasodutostão [6] Nabucco, supondo que essa dama gorda consiga algum dia cantar (o que absolutamente ainda não é garantido).

Damasco também já se preparava para aproximar-se do IPC; no final de 2010, assinou um memorando de entendimento com Bagdá para construir um gasoduto e dois oleodutos. Mercado-alvo, mais uma vez: a Europa.

Foi quando começou o inferno. Mas mesmo quando os levantes já estavam em andamento, o negócio de $10 bilhões do Oleogasodutostão Irã-Iraque-Síria foi clinchado. Se concluído, transportaria 30% a mais, de gás, que o quase definitivamente condenado projeto Nabucco.

Hei! Aí está o xis da questão: o que alguns chamam de Gasoduto Islâmico contorna (e deixa para trás) a Turquia.

O veredito permanece aberto sobre se esse complexo gambito no Oleogasodutostão pode ser considerado, ou não, um casus belli que explique que Turquia e OTAN ponham-se enlouquecidamente à caça de Assad. Mas não se deve esquecer que a estratégia de Washington no sul da Ásia, desde o governo de Clinton (o marido) sempre foi contornar, deixar para trás, isolar e ferir o Irã por todos os meios necessários.

Ligações perigosas

Damasco com certeza perseguia uma muito complexa estratégia de dois braços – ligando-se simultaneamente com a Turquia (e o Curdistão iraquiano), mas também contornando e deixando para trás a Turquia e incorporando o Irã.

Cobertura em profundidade da violência em escalada na Síria

Com a Síria presa numa guerra civil, nenhum investidor global sequer sonhariaem brincar de Oleogasodutostão. Mas, num cenário pós-Assad, todas as opções estão abertas. Tudo dependerá do futuro relacionamento entre Damasco e Ancara, e Damasco e Bagdá.

O petróleo e o gás terão de vir do Iraque, de qualquer modo (além de mais gás, do Irã); mas o destino final do Oleogasodutostão sírio pode ser a Turquia, o Líbano ou a própria Síria – exportando diretamente a partir do leste do Mediterrâneo.

Ancara está definitivamente apostando num governo pós-Assad liderado pelos sunitas, não muito diferente do partido AKP. A Turquia já suspendeu a exploração de petróleo que fazia em parceria com a Síria e está às vésperas de suspender todas as relações comerciais.

As relações entre Síria e Iraque dão-se por dois eixos entre os quais parece haver um mundo a separá-los: com Bagdá e com o Curdistão iraquiano.

Imaginem um governo formado pelo Conselho Nacional Sírio e pelo Exército Sírio Livre: seria definitivamente oposto a Bagdá, sobretudo em termos sectários; sobretudo, o governo de maioria xiita de al-Maliki vive em bons termos estratégicos com Teerã; nos últimos tempos, também com Assad.

As montanhas alawitas [7] comandam as estradas do Oleogasodutostão sírio na direção dos portos de Banyas, Latakia e Tartus no Mediterrâneo leste. Há também muito gás ainda por ser descoberto – notícia surgida de recentes explorações em Chipre e Israel [8]. Assumindo que o regime de Assad seja derrubado e empreenda alguma retirada estratégica para as montanhas, multiplicam-se as possibilidades de alguma espécie de guerrilha que sabote os dutos.

No pé em que as coisas estão hoje, ninguém sabe como uma Damasco pós-Assad reconfigurará suas relações com Ancara, Bagdá e o Curdistão iraquiano – para nem falar de Teerã. Mas não há dúvidas de que a Síria continuará a jogar o jogo do Oleogasodutostão.

O enigma curdo

Quase todas as reservas de petróleo sírias estão no nordeste curdo – geograficamente, entre Iraque e Turquia; o resto está ao longo do Eufrates, rumo ao sul.

Os curdos sírios são 9% da população – cerca de 1,6 milhão de pessoas. Embora não sejam sequer minoria considerável, os sírios curdos já perceberam que, aconteça o que acontecer num ambiente pós-Assad, eles estão muito bem posicionados no Oleogasodutostão, oferecendo via direta para exportações de petróleo do Curdistão iraquiano, em teoria contornando e deixando para trás ambas, Bagdá e Ancara.

É como se toda a região estivesse jogando um Bingo de Quem Contorna (e deixa para trás) Quem [9]. Na medida em que se possa dizer que o Gasoduto Islâmico contorna (e deixa para trás) a Turquia, um negócio direto [10] e ntre Ancara e o Curdistão iraquiano para construir dois oleogasodutos estratégicos de Kirkuk a Ceyhan pode também ser interpretado como contornar (e deixar para trás) Bagdá.

Bagdá, é claro, resistirá – destacando que os dutos são nada, vazios e inoperantes, a menos que o governo receba a parte que lhe cabe: afinal, pagam 95% do orçamento do Curdistão iraquiano.

Os curdos, tanto na Síria como no Iraque, têm jogado com grande esperteza. Na Síria, não confiam nem em Assad nem no Conselho Nacional Sírio. O Partido PYD – ligado ao PKK – diz, do CNS, para desqualificá-lo, que não passa de fantoche da Turquia. E o Conselho Nacional Curdo [ing. Kurdish National Council (KNC)] teme a Fraternidade Muçulmana Síria.

Assim, a maioria absoluta dos cursos sírios têm-se mantido neutros: não apoiam os fantoches turcos (ou sauditas); todo o poder à causa pan-curda. Salih Muslim Muhammad, líder do PYD, resumiu tudo: “O que interessa aos curdos é afirmar nossa existência”.

Isso significa, essencialmente, mais autonomia. Exatamente o que obtiveram do acordo assinado dia 11 de julho em Irbil, sob os auspícios do presidente do Curdistão iraquiano Masoud Barzani: o Curdistão sírio coadministrado pelo PYD e pelo Conselho Nacional Curdo. Foi consequência direta de o regime Assad ter optado por uma esperta retirada estratégica.

Não surpreende que Ancara esteja em surto de pânico. [11] – Ancara vê não só o PKK encontrando paraíso seguro na Síria, hospedado pelos primos do PYD, mas vê, também dois semiestados curdos, de facto, que emitem poderosos sinais na direção dos curdos na Anatólia.

Para minimizar esse pesadelo, Ancara poderia ajudar economicamente os cursos sírios, muito discretamente – de ajuda humanitária a investimentos em infraestrutura – usando para isso suas boas relações com o Curdistão iraquiano.

Na visão de mundo de Ancara, nada se pode interpor no caminho de seu sonho de tornar-se a ponte essencial de energia entre Ocidente e Oriente. Implica relações extremamente complexas com nada menos que nove países: Rússia, Azerbaijão, Geórgia, Armênia, Irã, Iraque, Síria, Líbano e Egito.

Quanto ao mundo árabe em geral, já desde antes da Primavera Árabe discutia-se seriamente um Oleogasodutostão árabe para unir ligasse Cairo, Amã, Damasco, Beirute e Bagdá. Pode fazer mais para unificar e desenvolver um novo Oriente Médio que qualquer “processo de paz”, “mudança de regime” ou levante pacífico ou super militarizado.

Nessa delicada equação, o sonho de um Grande Curdistão volta à cena. E os curdos podem ter boas razões para otimismo: muito em silêncio, Washingtonparece apoiá-los, numa aliança estratégica absolutamente sem alarde.

Claro que os motivos de Washington não são exatamente altruístas. O Curdistão iraquiano comandado por Barzani é ferramenta valiosa para que os EUA mantenham um pé militar no Iraque. O Pentágono jamais admitirá, mas já há planos avançados para a instalação de uma nova base militar dos EUA no Curdistão iraquiano – ou para transferir para o Curdistão iraquiano a base da OTAN atualmente em Incirlik.

Essa é um dos mais fascinantes subtramas da Primavera Árabe: os curdos encaixam-se perfeitamente no jogo de Washington em todo o arco do Cáucaso ao Golfo.

Mais de um executivo da Chevron e da British Petroleum já devem estar babando, ante as possibilidades que se abrem, das triangulações entre Iraque, Síria e Turquia, com vistas a um Oleogasodutostão. E, claro, muitos curdos também salivam abundantemente, só de pensar quantas portas o mesmo Oleogasodutostão abre, para um Curdistão Expandido.

Notas de rodapé

[1] 28/3/2012, OpenOil, em: Syria’s transit future: all pipelines lead to Damascus?

[2] Orig. I went down to the crossroads. É verso de “Cross Road Blues”, Robert Johnson [1911-1938], pode ser lido em tradução ruim e ouvido cantado pelos The Doors

[3] 8/3/2012, OilPrice, em: Don’t Factor Syrian Oil into Market Jitters

[4] 6/8/2012, EKEM – European Energy Policy Observatory, em: “Syria’s Energy Future After the Upheaval

[5] 6/1/2011, UPI, em: Syria’s Assad pushes ‘Four Seas Strategy

[6] 1/10/2009, Pepe EscobarTruthout, em: Jumpin’Jack Verdi, Its a Gas, Gas, Gas

[7] 12/10/2011, Al JazeeraNir Rosen, em: “Assad’s Alawites: An entrenched community

[8] 11/6/2010, HaaretzGal Luft em: A geopolitical game changer

[9] 2/8/2012, OilPriceDaniel j. Graeber, em: Kurds Hold the Aces in Iraqi Oil Sector
[10] 11/7/2012, Iraq Oil ReportBen Lando & Staff, em: Kurdistan begins independent crude exports

[11] 2/8/2012, Today’s ZamanServet Yanatma, em: Drills aimed at PYD under way, US cautions against intervention

Fonte:

Versão em português: Redecastorphoto

Versão original: Al Jazeera

http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/08/a-guerra-do-oleogasodutostao-na-siria.html

NA SÍRIA, A TURQUIA ESTÁ METENDO OS PÉS PELAS MÃOS

 

27/4/2012, *MK BhadrakumarIndian Punchline Blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Eu sabia que seria ótimo reencontrar velhos amigos em Istambul, depois de dois, três anos de ausência – sentar no meu café preferido junto ao Bósforo, vendo passar os navios, bebendo raki [1] e deixando que lentamente aqueça o espírito e entusiasme a mente, falando de política, de Deus, da vida… Só quando se vem a essa cidade de desejos do coração percebe-se que os turcos têm certa razão ao insistir que Istambul é o centro do mundo. Mas, dessa vez, estou com a impressão de que os turcos andam errando as contas.
Jamais antes vi tanta prosperidade da Turquia. Os turcos estão gastando a rodo. A economia vai esplendidamente bem. O governo de Recep Tayyip Erdogan deu à Turquia a estabilidade política que o país não conheceu durante décadas, e o gênio turco parece afinal liberto. A autoridade civil reina suprema, como deve ser numa democracia real. Erdogan gravou o próprio nome em letras douradas nos anais da história e da política turcas. É o que absolutamente todos dizem por aqui.
Até meus amigos mais militantemente secularistas, sobretudo as amigas, que nunca se cansam de proclamar a antipatia visceral que lhes inspira o islamismo, admitem, às vezes meio contra a vontade, que Erdogan fez belo serviço. Há três anos, teriam protestado se ouvissem de mim uma palavra da minha irrestrita admiração por Erdogan.
Mas, na política externa, a Turquia está metendo horrivelmente os pés pelas mãos. Curioso é que sua política externa não encontra apoio nem consenso interno, mas mesmo assim Erdogan, que é democrata apaixonado, está conseguindo empurrá-la adiante sem dificuldades. Os intelectuais com quem conversei estão incomodados por a Turquia estar reivindicando o legado otomano e por, assim, estar-se imiscuindo no Oriente Médio muçulmano.
Ontem houve um debate apaixonado no parlamento turco sobre a política de Erdogan para a Síria. Disseram-me que não apenas os Kemalistas, mas também os ultra nacionalistas e até o Partido Curdo do leste da Turquia, todos, criticaram a intervenção turca na Síria, prevendo que ricocheteará perigosamente. Mas o ministro das Relações Exteriores Ahmet Davitoglu saiu-se com uma defesa espirituosa. Disse algo como “a Turquia possui, conduz e serve o Novo Oriente Médio”.
Já não ouvi antes esse tipo de bravado? Ah, sim! Era o que mais se ouvia no circuito dos coquetéis em Ankara durante a trágica guerra da Bósnia. A Turquia costumava delirar que iria “possuir, conduzir e servir” os novos Bálcãs. Com licença, mas… E o que aconteceu? Engraçado. Os Bálcãs e a Europa Central absolutamente não são quintal turco. Não são quintal, sequer, dos EUA. Serão, muito provavelmente, quintal da China.
Não seis ou uma dúzia, mas nada menos de 16 chefes de governo viajaram a Varsóvia, vindos dos Bálcãs e da Europa Central, para recepcionar o premiê Wen Jiabao: os mesmos “novos europeus” que se pressupunha que fossem vassalos dos EUA.
A Turquia estará seguindo as pegadas dos EUA – metendo-se por pântanos onde o diabo perdeu as botas e, de um modo ou de outro, perdendo o rumo pelo caminho? Lamento por esse país e seu povo, mas logo quando as coisas iam tão brilhantemente bem, Erdogan perdeu-se.
A Turquia precisa viver uma década em paz, para poder continuar a crescer como vinha crescendo, e Erdogan pode completar sua ambiciosa agenda de democratização e reforma política. Em vez disso, está procurando problemas e já se arrisca a ver o próprio território respingado de caos e sangue. Essa húbris não fará bem algum.
Sr. Erdogan abra o olho: os chineses estão chegando! Logo serão donos não só dos Bálcãs, mas também do Novo Oriente Médio, se o senhor não entender corretamente o que está acontecendo.