A Síria e o gás sarin: assim funciona o teatro.

A Síria e o gás sarin

“Foram usadas armas químicas”. Em dois estúdios canadenses de televisão se aproximam produtores mostrando essa mesma manchete. Eu lhes digo no ar que farei migalhas da “evidência” e, rapidamente, a matéria é retirada dos dois programas. Não porque não queiram usá-la – usarão mais tarde –, mas porque não querem que ninguém dê a entender que são besteiras. Por Robert Fisk, do The Independent

Robert Fisk – The Independent

 Existe alguma forma de escapar do teatro das armas químicas? Primeiro, a “inteligência militar” israelense diz que as forças de Bashar Assad usaram/provavelmente usaram/podem ter usado/poderiam usar armas químicas. Depois Chuck Hagel, secretário estadunidense de Defesa, aparece em Israel para prometer ainda mais poder de fogo para o já excessivamente armado exército de Israel – sem mencionar em absoluto as mais de 200 cabeças nucleares israelenses – e depois se imbui de toda a “inteligência israelense” sobre o uso provável/possível de armas químicas pela Síria.

E em seguida o bonzão Chuck volta a Washington para dizer ao mundo que isto é “assunto sério. Necessitamos todos os fatos”. A Casa Branca diz ao Congresso que as agências de inteligência estadunidenses, provavelmente as mesmas da inteligência israelense, porque em regra geral dizem disparates em sintonia, têm “graus variáveis de confiança” nessa avaliação. Mas a senadora Dianne Feinstein, presidenta do comitê de inteligência do Senado – a mesma que defendeu as ações de Israel em 1996, quando massacrou 105 civis, a maioria crianças, em Qana, sul do Líbano –, anuncia que “está claro que na Síria foram ultrapassadas linhas vermelhas e devem ser tomadas medidas para prevenir seu uso em maior escala”. E em seguida sai a reluzir o mais antigo dos lugares comuns vigentes na Casa Branca, até agora usado exclusivamente com respeito ao provável/possível desenvolvimento de armas nucleares iranianas: “Todas as opções estão sobre a mesa”.

Em qualquer sociedade normal acenderiam as luzes vermelhas, em especial nas salas de notícias do mundo. Mas não: nós, os escribas, lembramos ao mundo que Obama disse que o uso de armas químicas na Síria seria uma “mudança no jogo” – pelo menos os estadunidenses admitem que seja um jogo – e nossos relatórios confirmam que, na verdade, ninguém confirmou.

“Foram usadas armas químicas”. Em dois estúdios canadenses de televisão se aproximam produtores mostrando essa mesma manchete. Eu lhes digo no ar que farei migalhas da “evidência” e, rapidamente, a matéria é retirada dos dois programas. Não porque não queiram usá-la – usarão mais tarde –, mas porque não querem que ninguém dê a entender que são besteiras.

A CNN não tem essas inibições. Quando perguntam ao seu repórter em Amã pelo uso de armas químicas, ele responde: “Não tanto como o mundo gostaria de saber… a psique do regime de Assad…” Mas alguém tentou? Ou simplesmente fez uma pergunta óbvia que um agente de inteligência sírio me fez na semana passada: se a Síria pode causar um dano infinitamente mais grave com seus bombardeiros MiG (cosa que sim, faz), para que ia querer usar armas químicas? E já que tanto o regime como seus inimigos se acusam mutuamente de usá-las, porque Chuck não tem tanto medo dos rebeldes como da ditadura de Assad?

Tudo volta ao mais infantil de todos os lugares comuns: que os Estados Unidos e Israel temem que as armas químicas “caiam em mãos perigosas”. Têm medo, em outras palavras, de que essas armas caiam no arsenal desses mesmos rebeldes, em especial islâmicos, aos quais Washington, Londres, Paris, Qatar e Arábia Saudita dão respaldo. E se essas são as “mãos perigosas”, é de se supor que as armas do arsenal de Assad estão em “boas mãos”. Assim aconteceu com as armas químicas de Saddam Hussein… até que lhe ocorreu usá-las contra os curdos.

Agora sabemos que houve três incidentes específicos nos quais, supostamente, se usaram gás sarin na Síria: em Alepo, quando ambos os grupos se acusaram (de fato, os vídeos vinham da televisão estatal Síria); em Homs, ao que parece em uma escala muito pequena; e nos arredores de Damasco. E, ainda que a Casa Branca parecesse ter passado por alto, três crianças refugiadas sírias foram levadas a um hospital na cidade de Trípoli, no norte do Líbano, com queimaduras profundas e dolorosas.

Mas existem alguns problemas. Os projéteis de fósforo podem infligir queimaduras profundas, e talvez causar defeitos de nascimento. Mas os estadunidenses não sugerem que o exército sírio tenha usado fósforo (que de fato é um químico); depois de tudo, soldados estadunidenses usaram essa mesma arma na cidade iraquiana de Fallujah, onde de fato há agora uma explosão de defeitos congênitos.

Suponho que nosso ódio ao regime de Assad se veria melhor refletido pelo horror aos relatórios de torturas cometidas pela polícia secreta Síria contra os detidos. Mas também nisso há um problema: apenas 10 anos atrás, os Estados Unidos “submetiam” homens inocentes, inclusive um cidadão do Canadá, a Damasco para serem interrogados ou torturados por esses mesmos policiais secretos. E se mencionamos as armas químicas de Saddam, há outro inconveniente: os componentes dessas vis armas foram produzidos por uma fábrica de Nova Jersey e enviados a Bagdá pelos Estados Unidos.

Desde já, não é essa a matéria em nossas salas de imprensa. Entremos em um estúdio de televisão e todos estão lendo jornais. Entremos na redação de um jornal e todos estão vendo a televisão. É osmose. E as manchetes são todas as mesmas: “Síria usa armas químicas”.

Assim funciona o teatro.

*Robert Fisk é o correspondente do jornal britânico The Independent no Oriente Médio. Tradução: Liborio Júnior

Fonte: CartaMaior

Netanyahu quer a paz com os palestinos?

Bastou a sinalização de que as negociações podem ser retomadas para o premier israelense criar mais uma potencial barreira à paz

por José Antonio Lima
Benjamin Netanyahu

Oficialmente, o processo de paz entre Israel e a Autoridade Palestina está paralisado desde 2010. Ainda assim, nos últimos dias, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, falou duas vezes sobre a possibilidade de submeter o futuro acordo a um referendo popular. Há motivos para crer nas boas intenções de Netanyahu, mas sobram razões para desconfiar delas. Aparentemente, a novidade de Netanyahu é mais um sinal de sua covardia e intenção de barrar a criação do Estado palestino.

Nas últimas semanas, surgiram diversos indícios da reativação do processo de paz, graças à iniciativa do governo dos Estados Unidos, que recebeu árabes e israelenses para uma série de diálogos.

Na segunda-feira 28, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, conversou com uma delegação da Liga Árabe. Após as reuniões, o chanceler do Catar, Sheikh Hamad bin Jassim al-Thani, afirmou, em nome da Liga Árabe, que um acordo deveria “ser baseado na solução de dois Estados, com base na linha de 4 de junho de 1967, com [a possibilidade] de pequenas trocas de terras mútuas e aceitas por ambas as partes”. Traduzindo, o que Jassim al-Thani fez foi ressuscitar a Iniciativa Árabe para a Paz, lançada em 2002 pela Arábia Saudita. Por essa proposta, todos os países árabes normalizariam suas relações com Israel em troca da criação de um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, com Jerusalém Oriental como capital.

A Iniciativa Árabe para a Paz fracassou e hoje se tornou inaceitável para Israel. Entre vários motivos, porque Israel ocupou, violando a lei internacional, uma série de territórios da Cisjordânia que não aceita mais devolver. A inovação do chanceler do Catar é que, agora, a Liga Árabe aceita oficialmente alterações na fronteira de 1967, como já fazia a Autoridade Palestina. Esta mudança é importante pois cria um caminho de retomada de negociações, uma vez que a posição dos Estados árabes também conta para a paz.

Por que um referendo?

Diante da iniciativa dos EUA e da sinalização positiva árabe, Netanyahu surgiu com a proposta do referendo. Na quinta-feira 2, em reunião com o ministro das Relações Exteriores da Suíça, Didier Burkhalte, disse ter a intenção de “aprender” com o país europeu como realizar consultas populares.

Os defensores de Netanyahu alegam que a proposta do referendo é boa para a paz. Em primeiro lugar porque, ao garantir que a palavra final será dada pela população israelense, Netanyahu evitaria a oposição automática aos diálogos de setores mais extremistas da coalizão governista. Em segundo lugar, porque a votação daria um ar de legitimidade ao possível acordo de paz, tornando-o inquestionável dentro de Israel.

Ocorre que, mesmo diante do viés positivo, está claro o possível uso negativo do referendo. A votação popular pode se tornar uma espécie de “seguro” contra a paz. Se as negociações forem mesmo retomadas, Netanyahu poderá usar o referendo para tentar forçar os palestinos a moderarem suas exigências, para não aceitar de antemão as propostas feitas, ou mesmo para fechar um acordo natimorto, por ser inaceitável para a população, cada vez mais radicalizada. Ao pedir o referendo antes mesmo de voltar à mesa de negociações, Netanyahu está transferindo ao povo israelense a responsabilidade sobre um assunto central do futuro do país. Ao fazer isso, o premier foge a uma das obrigações de um líder – tomar decisões impopulares, mas fundamentais para a segurança da nação. Seria um evento inédito na história de Israel, que nem mesmo em 1979, quando assinou a paz com o Egito, fez um consulta formal aos eleitores.

Hoje há muitos obstáculos para a paz, muitos deles no campo palestino, como a divisão Fatah-Hamas e a própria postura do Hamas, um grupo, antissemita, que prega a matança indiscriminada de judeus. Outros obstáculos, entretanto, partem do governo de Israel, particularmente de Benjamin Netanyahu. É ele quem exige dos palestinos o (inaceitável antes do acordo) reconhecimento de Israel como Estado judeu e quem se recusa a mencionar as fronteiras de 1967 como base para as negociações. Com essa postura intransigente e a ideia de transformar o acordo em refém de um referendo, Netanyahu reforça a imagem de ser um líder que não busca a paz, mas sim submeter os palestinos a uma situação inaceitável.

Fonte: CartaCapital

As aporias do sistema geopolítico mundial na era nuclear

Desde os tratados de Westfália no século XVII que o sistema internacional esteve governado segundo uma peculiar aporia: primeiro, em tese, nada se sobrepõe à soberania dos Estados na relação com os outros Estados; segundo, na prática do direito internacional, a soberania de um Estado está sujeita à violação pela força superior de seus eventuais oponentes na promoção do que definem como seus interesses soberanos. Esse segundo princípio foi formalizado por Clausewitz (“Da Guerra”) pelo enunciado de que a guerra é um instrumento racional dos Estados para a promoção de seus interesses.

O sistema vigorou por 300 anos até a Segunda Guerra Mundial quando, ao fim dela, um novo sistema internacional começou a ser configurado pela explosão da bomba atômica pelos Estados Unidos e, quatro anos depois, pela União Soviética. Já a Guerra Fria indicava que a guerra “quente” não podia ser considerada um instrumento “racional” para uma solução de força dos conflitos de interesse entre potências nucleares. O fim da Guerra Fria, não tendo sido o fim da era nuclear, mas sua dispersão, apenas acentuou esse pressuposto.

O mundo tem hoje cinco potências nucleares plenas e declaradas (com capacidade de lançar mísseis intercontinentais e por submarinos), duas potências nucleares de segunda ordem (Índia e Paquistão), uma potência nuclear encoberta (Israel) e dois candidatos a potência nuclear (Irã e Coreia do Norte). Os demais países não nuclearizados aparentemente se conformam com essa situação, quando menos por temor explícito ou implícito de retaliações econômicas por parte do clube nuclear no âmbito do Tratado de Não Proliferação.

Tal sistema, por mais assimétrico, injusto e instável que pareça, no âmbito das  potências nucleares leva à paz, não à guerra. Na vigência do virtual duopólio de poder da Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética teriam ido à guerra (no mínimo naval, mas ninguém sabe como acabaria) em face da crise dos mísseis em Cuba, ou mesmo por motivos ideológicos, não fossem elas potências nucleares. Pelo mesmo motivo a União Soviética não se meteu diretamente na Guerra do Vietnã e os Estados Unidos não se imiscuíram diretamente quando da invasão do Afeganistão pela União Soviética.

Se uma paradoxal estabilidade instável prevaleceu, conforme esses exemplos, no período de extremo conflito ideológico da Guerra Fria, muito maior é a razão para que prevaleçam a partir dela. Enquanto sistemas de Estados soberanos, e não de sistemas sociais conduzidos por ideologias  radicalizantes, não temos mais um bloco ocidental nem um bloco oriental rígidos no campo ideológico: são Estados governados cada um por seus interesses particulares, e em grau maior ou menor controlados por processos democráticos internos, onde dificilmente surgiria um demagogo propagandeando a guerra externa com objetivos políticos internos.

Contudo, nada impede guerras na periferia do clube nuclear conduzidas ou não por potências nucleares, como é o caso das guerras do Afeganistão, do Iraque, da Chechênia, de Óstia do Sul, ou a miríade de guerras civis desde a Síria aos deserdados países africanos. O que não se concebe são guerras diretas entre potências nucleares. A Índia e o Paquistão, que haviam travado três guerras depois da descolonização, só não travaram a quarta, justificada pelo atentado terrorista de Bombai, porque são potências atômicas, mesmo que de segunda linha.

O poder nuclear, portanto, revelou-se que não é para ser usado, mas para ser manobrado como instrumento de pressão e de dissuasão. Esta última se aplica sobretudo às próprias potências nucleares entre si. Nesse caso a guerra já não é mais a continuação da política por outros meios, como em outro enunciado de Clausewitz, mas a política passa a ser o instrumento absolutamente exaustivo das relações internacionais no âmbito de potências nucleares. É uma novidade histórica que requer, certamente, uma também nova filosofia da guerra.

Voltemos a Clausewitz e à parte mais relevante de seu primeiro enunciado:  “a guerra é um instrumento racional dos Estados”. Onde estaria a racionalidade de uma guerra nuclear que se arrisca a generalizar-se? Fora os conceitos dos filósofos que consideram a história um ente em si, movido por forças abstratas impessoais, a guerra, na prática, é uma decisão de governo. Em essência, de elites governamentais que, em algum grau, e sobretudo nas democracias, têm de prestar contas de seus atos ao povo.

Claro, uma guerra nuclear não começa necessariamente como guerra nuclear: pode ser o fim de uma escalada de guerra convencional. Isso, porém, não elimina a dissuasão interna em relação aos atos daqueles que conduzem as decisões políticas: nenhum governante com algum grau de responsabilidade perante o povo iniciaria uma escalada bélica convencional contra outra potência nuclear sabendo que ela não se renderia  ao ponto de entregar-lhe seus arsenais atômicos na hipótese de uma derrota “convencional”.

Isso pode parecer kantiano, e de alguma forma o é. Kant, idealisticamente,  argumentava que a paz perpétua só poderia ser atingida quando todos os países fossem repúblicas, no suposto de que o poder republicano responderia ao povo, não à vontade das elites aristocráticas ou de outra natureza. A questão em tempos de democracia de cidadania ampliada, no que se refere à guerra nuclear, é, pois, essencialmente de informação. Bem informado das consequências catastróficas de uma guerra nuclear, o “povo” há de dissuadir a aventura das elites.

Creio que, no contexto da sociedade de informação, mesmo que elites aventureiras ou demagógicas tenham a sua mão instrumentos clássicos de manipulação da opinião pública, estes são virtualmente inócuos no que diz respeito à guerra nuclear: ninguém a deseja ou justifica emocional ou racionalmente, e o líder que tentasse justificá-la por motivos de honra, de prestígio ou mesmo de interesses econômicos  correria o risco de uma rebelião interna. É que o uso do poder nuclear infunde terror público, independentemente de quem o proponha.

Por certo que podem acontecer guerras convencionais aéreas diretas entre potências nucleares, seguindo algum código de prevenção de uso de poder nuclear. Houve exercícios de guerra nesse sentido durante a Guerra Fria, inclusive por Herman Kahn. Isso, entretanto, é tão racionalmente implausível quanto a própria guerra nuclear. Possibilidades existem, porém, de guerras convencionais indiretas entre potências nucleares em territórios de outros países, como aconteceu de fato no Vietnã e no Afeganistão, mas neste caso envolvendo sobretudo motivos ideológicos. De qualquer modo, isso será discutido adiante.

Uma vez feitas essas ponderações quanto à inviabilidade da guerra nuclear entre potências nucleares, voltemos ao tema realmente crucial das relações internacionais contemporâneas: o uso do poder nuclear como instrumento de pressão contra nações não nucleares. Note-se que não é necessário poder nuclear para subjugar outras nações: basta superioridade em força militar convencional. A novidade é que o poder nuclear constitui um sistema de proteção para aliados militarmente fracos de potências nucleares concorrentes.

O sistema internacional, depois do fim da União Soviética, está assumindo rapidamente uma configuração similar á do século XIX no que diz respeito ao estabelecimento de alianças multipolares e áreas de influência, em diferentes graus de prioridade, em torno dos países nucleares. É uma espécie de contrapartida dialética do processo de globalização das últimas três décadas. Uma diferença é que, ao contrário do sistema de alianças do século XIX que levou a várias guerras, o sistema atual, por causa do poder nuclear, parece tender à paz.

O primeiro indicador desse processo é o cuidadoso respeito a áreas de influência que os países nucleares consideram vitais. Na guerra imposta pela Rússia a Óstia do Sul, considerada vital para Moscou por causa da presença de uma grande população russa no país, alguns dirigentes da direita europeia ensaiaram uma intervenção da OTAN, o que foi fulminantemente abortado pelos Estados Unidos pela óbvia razão de que aquilo representava o risco de um confronto direto com a Rússia, ainda uma potência nuclear de primeira linha.

Os russos, por sua vez, toleraram de má vontade as intervenções da OTAN nas revoluções da Primavera Árabe, já que eram países que de maneira alguma representavam áreas de interesse vital para ela; mas nenhuma potência ocidental se meteu com a guerra civil em curso na Síria, aliada estratégica de russos e chineses, pelo menos por enquanto. Da mesma maneira a França pode jogar sua economia em crise na guerra civil do Mali pois isso não confronta nenhum interesse relevante de outras potências nucleares.

A guerra externa, portanto, está se tornando um instrumento obsoleto da política internacional. Trata-se de efeito direto do poder nuclear. Os Estados Unidos começaram a aprender isso na Coreia e no Vietnã, tiveram um breve gosto de vitória no Iraque, e se enterraram virtualmente no Afeganistão – de onde Obama, com dificuldade, ensaia uma maneira honrosa de dar o fora. Isso não significa que se deve  descartar, de antemão, um surto de guerras externas neocolonialistas sob o escudo nuclear. É apenas improvável.

É nesse contexto que se deve considerar as tentativas da Coreia do Sul e, supostamente, do Irã de ter acesso a tecnologia nuclear bélica. Em termos dos tratados de Westfalia, eles têm todo o direito de construir a bomba. É uma prerrogativa de sua soberania. Contudo, no âmbito desses mesmos tratados, sua vontade pode ser confrontada por um poder militar mais forte. Mas esse poder, ao menos formalmente, está institucionalizado numa instância superior à soberania dos Estados, o Conselho de Segurança da ONU.

Essa instância foi, em termos conceituais, a grande novidade do pós-guerra. Contudo, no ambiente da Guerra Fria, ela se revelou inteiramente ineficaz quando os Estados Unidos empreenderam à margem de decisões do Conselho a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietnã e outros guerras de menor dimensão (inclusive a extraordinária “conquista” de Granada, uma minúscula ilha-nação do Caribe, pelo Governo Reagan). Também a União Soviética ignorou o Conselho ao se meter, via Cuba, em guerras civis em desenvolvimento na África e no Afeganistão.

No ambiente internacional contemporâneo, a força do Conselho de Segurança reside justamente no seu poder de “congelar” alianças no sentido definido acima. Isso ocorre, porém, de forma contraditória, não por sua capacidade de tomar decisões, mas pelo inverso, ou seja, pela capacidade de veto do seu núcleo permanente. Assim, uma guerra “legitimada” contra a Coreia do Norte ou contra o Irã sob a justificativa de impedir que tenham acesso pleno ao poder nuclear só seria tecnicamente possível com a concordância da Rússia e da China.

Isso não impede, porém, que os Estados Unidos e as demais potências ocidentais, assegurando por via política a neutralidade da Rússia e da China, se decidam a promover  uma outra guerra da Coreia e uma primeira contra o Irã. Os Estados Unidos, apelando ao conceito da segurança mundial, poderiam fazê-lo unilateralmente mesmo sem essa neutralidade sob o estímulo de Israel. Nos dois casos, a questão passa ao nível técnico: qual a viabilidade de guerras contra esses dois países e qual seria seu custo em termos humanos e materiais?

Nos dois casos, entraria em jogo, como justificação subjetiva da guerra, o conceito de ameaça à segurança mundial. E nisso há substanciais diferenças entre Coreia do Norte e Irã. A Coreia do Norte é o país mais fechado do mundo, submetido a uma ditadura familiar,  de cujas relações com a sociedade interna pouco se sabe no ocidente, inclusive quanto ao grau de responsabilidade da elite dirigente em relação aos próprios cidadãos (se, realmente, existe cidadania no país). Diante disso, é controverso falar em responsabilidade internacional.

Evidentemente que, nessas circunstâncias, fazer a guerra à Coreia para desarmá-la preventivamente do poder atômico depende sobretudo de julgamentos subjetivos sobre o comportamento internacional de suas elites. Aqui não se trata de uma questão ideológica, mas de evidências concretas: o que se pode deduzir subjetivamente das ações efetivas da elite dirigente da Coreia do Norte em relação à comunidade internacional, a começar pela Coreia do Sul e o Japão?  E, sobretudo: poderia a Coreia do Norte, dados os precedentes de sua retórica, comportar-se como uma nação suicida?

O terrorismo suicida foi o segundo elemento, junto com o poder nuclear, que introduziu um novo paradigma nas relações internacionais no pós-guerra. A combinação de poder nuclear e terrorismo suicida materializaria uma ameaça real à segurança do mundo. Antes, o poder nuclear apenas podia efetivar-se se houvesse vetores capazes de transportá-lo a longas distâncias por submarinos ou mísseis. Agora, como se viu nos atentados de 11 de setembro, o terrorista vai junto com a bomba. E mesmo uma bomba nuclear “suja” poderia causar estragos catastróficos.

Isso acentua a questão da responsabilidade das elites dirigentes e, também, o efetivo controle delas quanto ao (não) uso de armas nucleares que venham a possuir. A  simples possibilidade de que um Estado ditatorial, como a Coreia do Norte, com sua retórica belicista, venha a disponibilizar tecnologia nuclear “caseira” para grupos terroristas representa óbvios riscos de segurança sobretudo para os Estados Unidos. Assim, é pouco provável que os Estados Unidos deixem de usar seu poder militar para dissuadir a Coreia do Norte de ter a bomba exceto se a Coreia do Norte evoluir para um sistema mais aberto e democrático.

Note-se que em circunstâncias muito mais complexas da Guerra Fria, no confronto com o único poder militar que poderia equiparar-se ao seu, os Estados Unidos praticamente impuseram a “glasnost” à União Soviética como preliminar de tratados mais abrangentes de redução de arsenais nucleares. Agora, confrontando um poder muito menor como a Coreia do Norte, os Estados Unidos certamente empreenderão todos os esforços políticos para se assegurar da neutralidade russa e chinesa em seus esforços para impedir a bomba coreana e, caso não consiga essa neutralidade, tomarão provavelmente uma decisão unilateral.

A questão iraniana é mais complexa. Trata-se de uma república regida por códigos democráticos formais sob autoridade última religiosa. O braço executivo do Governo nega que esteja construindo a bomba. Os aiatolás, o grande conselho moral e político do país, asseguram que a interpretação do Islã veda a busca do poder nuclear. Em termos históricos, algo que o ocidente se nega a reconhecer, o Islã, em suas guerras santas, tinha um protocolo de guerra que vedava o assassinato de mulheres, crianças e camponeses desarmados, assim como a destruição de colheitas – tudo isso incompatível com a arma nuclear.

Nessa mesma época histórica de ascensão do Islã, a Guerra Santa dos cruzados levava ao massacre indiscriminado de crianças, idosos e mulheres na Palestina, ao incêndio de cidades inteiras, à prática de torturas e a toda sorte de crueldades contra presos. No ocidente, sob o patrocínio da Igreja, instituiu-se a Inquisição como forma de controle de consciências pela fogueira, a caça às bruxas, ao terror contra seitas alternativas (cátaros), à conversão forçada de judeus. É claro que, com esses currículos, os islâmicos pareceriam bem mais civilizados e humanos que os ocidentais. Em outras palavras, fariam melhor (não) uso da bomba atômica.

Entretanto, por trás da questão nuclear iraniana está Israel. E Israel, única potência nuclear do Oriente Médio, coloca-se numa posição radical contra o acesso do Irã à bomba, por óbvias razões geopolíticas, e, entre outros motivos, porque a elite dirigente iraniana expressa publicamente a retórica irrealista de que Israel deve ser destruído. A esse respeito, trata-se de uma banalidade demagógica para efeito interno, de péssima repercussão internacional: como disse a então secretária de Estado Hillary Clinton, se o Irã atacar Israel para destruí-lo os Estados Unidos “deletam” o Irã!

Por sua parte, é possível que o Irã não vise mesmo a construir a bomba num primeiro momento, mas, sim, afirmar sua soberania no sentido de poder fazê-la quando quiser, haja vista a capacidade nuclear existente de seu principal inimigo, Israel. O exercício efetivo desse direito implica três situações: primeiro, da inserção efetiva do Irã no sistema de alianças russo-chinês; segundo, como consequência disso, da capacidade norte-americana de convencer politicamente a Rússia e a China a ajudá-los a dissuadir o Irã de fazer a bomba e submeter-se  ao sistema de fiscalização da AIEA; terceiro, em vista do fracasso dessa iniciativa, da vontade norte-americana de submeter-se a pressão de Israel e de fazerem, ambos, uma guerra aérea de destruição das instalações nucleares iranianas.

Essa terceira situação, que remete ao foco principal deste ensaio, coloca complexidades ainda maiores que a questão coreana. As instalações nucleares coreanas são muito mais vulneráveis a um ataque aéreo, inclusive por mísseis, do que as iranianas. Um relatório de um ex-agente de informação vazado na imprensa norte-americana deu conta de que as principais instalações nucleares iranianas estão enterradas a 10 a 12 metros de profundidade e são invulneráveis a ataques aéreos convencionais – ao gosto daqueles feitos por Israel em suas guerras, e inclusive no ataque nos anos 80 a instalações nucleares do Iraque.

Além disso, o poderio antiaéreo iraniano, já considerável tendo em vista anos de preparação para uma eventual guerra, seria, no caso de uma guerra decidida fora do âmbito do Conselho de Segurança, certamente reforçado, em termos materiais e humanos, por russos e chineses, seus supridores de equipamentos bélicos.  Nesse caso, teríamos um confronto convencional de potências nucleares numa guerra aérea em terceiro país. (A invasão por terra, claro, seria fora de propósito em função de perdas humanas dos agressores: Irã não é Iraque.) Até que ponto isso poderia desencadear uma escalada de forma a estabelecer um confronto direto entre as próprias potências nucleares? Não sabemos, mas podemos inferir.

O risco é suficientemente alto para o destino da humanidade para que nos recusemos a especular sobre ele. Portanto, tentemos estabelecer um curso ideal para reduzir o risco. O primeiro passo seria estabelecer, com o concurso de Rússia e China, um processo que leve ao reconhecimento da boa fé dos iranianos quando afirmam que não têm intenção de construir a bomba. Isso chegou a ser iniciado com o concurso de Brasil e Turquia no Governo Lula (irresponsavelmente criticado por parte da grande mídia brasileira, por certo inspirada pela inteligência norte-americana), mas foi recusado, depois de previamente combinado com ele, pelo Governo Obama. Como poderia ser retomada iniciativa similar?

Há uma preliminar concreta: a questão iraniana não pode ser dissociada da questão palestina. Portanto, o primeiro passo caberia aos Estados Unidos no sentido de pressionar Israel a voltar à mesa de negociações. Nesse contexto, seria proposto à elite dirigente iraniana que retirasse de sua retórica a destruição do Estado de Israel. Considerando, por outro lado, que a política interna iraniana em nível de governo é extremamente instável, com diferentes correntes disputando o poder (e a busca da construção da bomba, mais do que seus riscos, acaba sendo objeto de pregação demagógica), seria exigido do Conselho Supremo de aiatolás, o poder supremo efetivo do país, um posicionamento formal dirigido à comunidade internacional de que o país renuncia ao propósito de construção da bomba atômica, preservando seu direito de desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos sujeito à fiscalização da AIEA.

É claro que essa pauta é um exercício idealista. Contudo, é racional. Se se pensou a guerra convencional como instrumento racional de promoção de interesses dos Estados é porque se tratava de racionalização de processos reais. O processo real, como acontece no momento, tem a dimensão contraditória do racional e do irracional: um nos leva à relativa estabilidade nas relações internacionais; outro, ao possível desastre para toda a humanidade. Um segue a um paradigma em construção, instrumentalizado pela negociação e a cooperação entre os povos; outro, ao paradigma clausewitziano do século XIX anterior à existência do poder nuclear. O mundo, por suas elites dirigentes, não terá como deixar de fazer a escolha.

J. Carlos de Assis é eEconomista, professor de Economia e Política Internacional da UEPB, autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus”, ed. Civilização Brasileira.

 

Fonte: RUMOSDOBRASIL

Primavera árabe: ‘Há que se passar pela experiência do islamismo no poder’

Nesta entrevista ao ‘Le Monde’, o destacado analista libanês Gilbert Achcar comenta as dificuldades dos governos islâmicos que subiram ao poder no mundo árabe. Além disso, diz que a Turquia não é uma referência para esses países, pois lá o AKP turco se reconciliou com o laicismo, tornando-se a versão islâmica da democracia cristã europeia.

Christophe Ayad – Le Monde*

Personagem desta entrevista, Gilbert Achcar é professor na School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres e um dos mais respeitados analistas do mundo árabe contemporâneo. Nasceu em 1951 e deixou o Líbano em 1983.

Ensinou na Universidade de París VIII e no Centro Marc-Bloch de Berlim. O seu compromisso com as esquerdas e movimento pró-palestina nunca o impediu de dirigir um olhar severo sobre as ditaduras nacionalistas árabes. É autor de “Le peuple veut une exploration radicale du soulèvement arabe”, editora Actes Sud.

Como qualificar o que aconteceu no mundo árabe, desde 2011?
Escolhi a palavra “levante” como título para o meu livro. Mas, na introdução falo de um processo revolucionário a longo prazo. O que estava claro desde o princípio é que estávamos muito no início de uma explosão, e o que se pode prever com certeza é que será de longa duração.

Emmanuel Todd deu uma explicação demográfica do fenômeno. Você inclina-se mais para uma explicação marxista.
A fase durante a qual o mundo árabe se distinguia por uma demografia galopante acabou há vinte anos. Comecei com a análise da situação em vésperas da explosão, em 2010. Constata-se um bloqueio do desenvolvimento que contrasta com o resto do mundo; inclusivamente com a África subsariana. A expressão mais espetacular desse bloqueio é uma taxa de desemprego recorde, particularmente entre os jovens. Além disso, há uma modalidade específica do capitalismo na região: em diferentes níveis, todos os Estados são rentistas. A outra caraterística é um patrimonialismo no qual o clã dominante se apropria do Estado até ao ponto de o transmitir de forma hereditária.

As revoluções árabes traduziram-se em liberalizações políticas, mas não em grandes mudanças sociais. Por quê?
No Egito e na Tunísia, só foi quebrada a ponta do icebergue; quer dizer, os déspotas e o seu grupo próximo. Por outro lado, nesses dois países, o “Estado profundo”, a administração, os aparelhos de segurança, não mudaram. Neste momento, só na revolução Líbia se deu uma mudança radical: hoje, já não há Estado; já não há exército. Nesse país, o descalabro social foi mais profundo, porque o reduzido espaço privado que existia era ocupado pela família Gadafi.

No Ocidente estranhou-se o triunfo dos islamitas nas eleições, quando não foram eles a lançar essas revoluções…
As expectativas do Ocidente, esse romanticismo em volta da “primavera” e o “jasmim”, todo esse vocabulário orientalista, baseavam-se num desconhecimento da situação. Era evidente que os integristas iam apanhar as castanhas do fogo porque, desde finais dos anos 70, impuseram-se como uma força hegemónica no protesto popular. Encheram o vazio deixado pelo fracasso do nacionalismo árabe. Por outro lado, a principal razão pela qual os governos ocidentais apoiavam os despotismos árabes era o receio dos integristas. Crer que essa situação iria ser varrida pelos acontecimentos, era tomar os desejos por realidades. Com o apoio financeiro do Golfo e o apoio televisivo da Al Jazeera, não se podia esperar outra coisa que vitórias eleitorais integristas. O que é chamativo é que essas vitórias não tenham sido esmagadoras. No Eipto, desde as legislativas ao referendo sobre a Constituição, passando pelas presidenciais, estamos a ver a velocidade a que se desmorona o voto integrista. Na Tunísia, Ennahda consegue 40% numas eleições em que participaram metade das pessoas inscritas. E, na Líbia, a Irmandade Mulçumana local foi derrotada.

Surpeendem-lhe as atuais dificuldades dos islamistas no poder?
Em primeiro lugar, há que dizer que o regresso aos despotismos não é algo exequível. Há que passar pela experiência do islamismo no poder. As correntes integristas construíram-se como forças de oposição com um slogan simplista: o islão é a solução. É algo completamente oco, mas funcionava num contexto de miséria e de injustiça no qual se podia vender essa ilusão. Os islamistas são traficantes do ópio do povo. Desde o momento em que estão no poder, isso já não é possível. São incapazes de resolver os problemas das pessoas. Chegaram aos postos de comando em condições que ninguém inveja e não têm nenhum programa econômico.

Pode-se confiar neles no momento de organizar escrutínios que os poderão expulsar do poder?
Esse é o argumento clássico: uma pessoa, um voto, mas uma só vez. Salvo que cheguem ao poder em posição de força. O povo aprendeu a “querer” sair à rua. Jamais um dirigente, na história do Egito, foi tratado com tanto desprezo pelo seu povo como atualmente Morsi…

Pode-se copiar o modelo turco para o mundo árabe?

Não, na Turquia não é a Irmandade Mulçumana que dirige o país, mas uma cisão modernista que se reconciliou com o princípio do laicismo. O AKP turco é a versão islâmica da democracia cristã europeia. A Irmandade Mulçumana não é isso. É uma organização integrista que milita pela Sharia e para quem a palavra laicismo é uma injúria. No terreno econômico, não tem nada a ver: o AKP encarna um capitalismo de pequenos industriais, enquanto a Irmandade Mulçumana participa numa economia rentista, fundada no lucro a curto prazo.

Pode descrever a influência do Qatar nestas revoluções?
É um enigma. Alguns dirigentes colecionam carros ou armas; o Emir do Qatar, por seu lado, joga na política externa. Apresentou-se como comprador da Irmandade Mulçumana da mesma forma que compraria uma equipe de futebol. Um homem que jogou um papel fundamental nesta nova aliança (que faz recordar a que houve entre Mohamed ben Abdel Wahab e a dinastia dos Saud no século XVIII) é o sheik Qaradhawi, chefe espiritual dos Irmandade Mulçumana, instalado desde há muito no Qatar, e que tem grande influência na Al Jazeera. Tudo isso acontece num país em que o Emir não tolera qualquer oposição.

Como explicar a complacência dos Estados Unidos para com a Irmandade Mulçumana?
É algo que começou sob a administração Bush. Para os neoconservadores, o despotismo nacionalista produziu o terrorismo e, portanto, havia que derrubar déspotas como Saddam Hussein para poder estender a democracia. Condoleezza Rice quis retomar a aliança com a Irmandade Mulçumana, que se deu nos anos 50 e 60. Mas a vitória do Hamas nas eleições palestinianas bloqueou o processo. A administração Obama, que herdou uma situação catastrófica no Médio Oriente, mostrou uma atitude indecisa e prudente. Quando tudo estalou, optou por tentar dar a impressão de acompanhar o movimento. A obsessão de Washington na região é a estabilidade e o petróleo. E a tradução desta obsessão, é a procura de aliados que disponham de uma base popular.

Por que é que a intervenção da OTAN foi possível na Líbia e não na Síria?
A Síria encontra-se perante um risco de caos tipo Líbia, mas num contexto regional bastante mais perigoso. Está também o apoio da Rússia e do Irão. Desde o começo, a OTAN disse que não queria intervir. A questão não é “porque é que o Ocidente não intervém na Síria?”, mas “porque é que impede a entrega de armas à rebelião?”. A razão profunda é o medo do movimento popular na Síria. E o resultado é que a situação está a apodrecer. O regime sírio acabará por cair, mas a que preço? A miopia dos governos ocidentais é alucinante: com o pretexto de não reproduzir os erros cometidos no Iraque, quer dizer, o desmantelamento do estado baasista, fazem algo pior. Hoje, os sírios estão persuadidos de que o Ocidente deixa que o seu país se auto-destrua para proteger Israel.

A esquerda anti-imperialista vê um complô americano nestas revoluções…
Se, por oportunismo, as insurreições populares são apoiadas por potências imperialistas, não justifica que apoiemos as ditaduras. A teoria do complô americano é grotesca. Basta ver o aperto de Washington. É claro que, depois de quarenta anos de totalitarismo, o que chega é o caos, mas, como diria Locke, prefiro o caos ao despotismo, porque no caos tenho uma opção.

Fonte: CartaMaior

“Irã vai defender a Síria, EUA e Israel têm que levar isso a sério”

Vídeo

‘Iran will defend Syria, US & Israel should take that seriously’.
ublicado em 31/01/2013
Syria has filed an official complaint to the United Nations over an Israeli airstrike on a military research center near Damascus. The move followed a threat from Iran that Israel would face “serious consequences” for the attack. RT spoke to Prof. Seyed Mohammad Marandi – Iranian academic and political analyst. He says that Israel should be concerned about Iran’s possible answer to the airstrike in Syria.
Fonte: Russia Times

Pepe Escobar: “O estupro da Síria será a maior tragédia geopolítica de 2013″

Escobar: Rape of Syria will be top geopolitical tragedy of 2013

Syria has reportedly opened the New Year with a horrifying discovery of dozens of corpses in the capital Damascus. Some of the bodies were decapitated and bore traces of torture. They have not yet been identified. This comes amid widespread doubt there will be any major breakthrough in Syria’s bloody civil stand-off any time soon. Asia Times Correspondent Pepe Escobar predicts that the conflict could follow the Lebanese Civil War scenario and continue for another fifteen years

Fonte: Russia Today

Discurso de Assad foi ‘oportunidade perdida’, diz enviado da ONU

ImageA crise na Síria tem de ser resolvida neste ano, ou “não haverá mais Síria”, disse à BBC o enviado especial da ONU e da Liga Árabe ao país conflagrado, Lakhdar Brahimi.

Em entrevista à correspondente da BBC Lyse Doucet, Brahimi afirmou que o recente discurso do presidente sírio, Bashar Al-Assad, foi uma “oportunidade perdida” de resolver a crise na Síria.

No discurso, em 6 de janeiro, Assad chamou seus opositores de “inimigos de Deus e fantoches do Ocidente” e propôs um plano de paz, segundo o qual forças de fora deveriam parar de armar “grupos terroristas” e só então o Exército suspenderia suas operações militares, reservando-se o direito de defender “interesses do Estado”. O governo, então, entraria em contato com o que ele chamou de “indivíduos sírios e partidos políticos” para que se estabeleça um diálogo nacional.

Para Brahimi, porém, a fala de Assad foi “mais sectária e unilateral do que as iniciativas prévias”.

Impasse

O enviado já se reuniu diversas vezes com o regime sírio, mas houve poucos avanços no processo de paz no país, convulsionado desde março de 2011. O saldo de mortos em conflitos desde então é de 60 mil mortos.

assad“No momento, não há processo político. Os sírios falam duas línguas completamente diferentes”, declarou Brahimi.

Na entrevista à BBC, Brahimi admitiu que há pouca probabilidade de avanços nas conversas entre o governo sírio e a oposição. O foco de sua atuação, disse, será resolver as diferenças entre os atores externos ao conflito, como EUA e Rússia (este último é um dos principais apoiadores do regime sírio, sendo responsável por vetar resoluções contra Damasco no Conselho de Segurança da ONU).

Brahimi também confirmou que Assad lhe disse que pretende concorrer novamente à Presidência da Síria nas eleições de 2014, apesar das pressões para que deixe o poder.

Fome e refugiados

Em meio ao impasse político, cresce a dim

e

nsão da crise humanitária na Síria. Na última terça, a ONU informou que há

 1 milhão de sírios passando fome em decorrência dos 22 meses de conflito.

O Programa Mundial de Alimentos, da entidade, diz enfrentar dificuldades para entregar mantimentos para uma parcela da população, por conta de restrições ao uso de portos, ataques aos caminhões de entrega e falta de combustível.

E o número de refugiados síri

os cresceu, chegando a um total de 597,2 mil.

Fonte: BBC Brasil

Noam Chomsky e Tariq Ali debatem as novas revoluções no Oriente Médio

Ícones da esquerda mundial olham a América latina progressista como inspiração para novos modelos de sociedade

Ninguém poderia tê-las previsto. Mas ainda com o mundo sob o efeito das revoluções no Oriente Médio, o jornalista australiano Julian Assange se reuniu com dois pensadores de peso para saber o que eles pensam sobre o futuro.

Noam Chomsky, renomado linguista e pensador rebelde, e Tariq Ali, romancista de revoluções e historiador militar, encontram na Primavera Árabe questões sobre a independência das nações, a crise da democracia, sistemas políticos eficientes (ou não) e a legião de jovens ativistas que tem se levantado para protestar no mundo todo. ”A democracia é como uma concha vazia, e é isso que está revoltando a juventude, ela sente que faça o que fizer, vote em quem votar, nada vai mudar. Daí todos esses protestos, explica Ali.

“O que temos na política ocidental não é a extrema esquerda e nem a extrema-direita, mas um extremo-centro”, continua ele. “E esse extremo centro engloba tanto a centro-direita quanto a centro-esquerda, que concordam em fundamentos: travando guerras no exterior, ocupando países e punindo os pobres, punindo por meio de medidas de austeridade. Não importa qual o partido no poder, seja nos Estados Unidos ou no mundo ocidental”.

Segundo o próprio Ali, a grande crise da democracia está pulsando nas mãos das corporações. “Quando você tem dois países europeus, como a Grécia e a Itália, e os políticos abdicando e dizendo ‘deixem os banqueiros comandar’… Para onde isso está indo? O que nós estamos testemunhando é a democracia se tornando cada vez mais despida de conteúdo”, critica o ativista.

Mas após as revoluções, as conquistas vêm da construção de novos modelos políticos, inventados. Chomsky cita a Bolívia como exemplo. “Eu não acho que as potências populares preocupadas em mudar suas próprias sociedades deveriam procurar modelos. Deveriam criar os modelos”. Para ele, a chegada da população indígena ao poder político através da figura de Evo Morales está se replicando no Equador e no Peru. “É melhor o Ocidente captar rápido alguns aspectos desses modelos, ou então ele vai se acabar”, alerta Chomsky.

Por outro lado, está na mãos dos jovens perceber a necessidade de agir, segundo Tariq Ali. “Não desistam. Tenham esperança. Permaneçam céticos. Sejam críticos com o sistema que tem nos dominado. E mais cedo ou mais tarde, se não essa geração, então nas próximas, as coisas vão mudar”.

O projeto “O Mundo Amanhã” foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia. A publicação foi autorizada pela Agência Pública.

Assista a entrevista a seguir, ou clique aqui para baixar o texto na íntegra.

Fonte: OperaMundi

TRNN: “Os objetivos da Turquia na Síria”

Turkish Objectives in Syria

Baris Karaagac: Turkish leadership dreams of a new Ottoman empire and looks to control the Kurds

The conflict in Syria continues to shed rivers of blood. Tens of thousands of people have been killed in a bloody war between a brutal dictatorship and opposition movement, many of whom are backed by other brutal dictatorships, specifically Qatar and Saudi Arabia. It’s a very complicated and very tragic situation.

One of the main players in the situation in Syria is Turkey. And now joining us to talk about Turkish foreign policy and what their agenda is as regards to Syria is now joining us, Baris Karaagac. He’s a lecturer in international development studies at Trent University in Ontario. He’s also the editor of the book Accumulations, Crisis, and Struggles: Capital and Labour in Contemporary Capitalism. And he joins us from our studio in Toronto. Thanks for joining us, Baris.

BARIS KARAAGAC, LECTURER, INTERNATIONAL DEVELOPMENT STUDIES, TRENT UNIVERSITY: My pleasure.

JAY: So what are Turkish objectives in Syria? We know, as far as I understand it, Turkey has been involved from very early stages. We’ve been told they set up major refugee camps in Turkey before there were very many refugees. They seem to have been in on a kind of plan with Qatar and Saudi Arabia. Is that correct? And what do they want?

KARAAGAC: Yes, there are many refugees, but there are also many rebels right now within Turkey, and Turkey has been providing them with a lot of logistical support. And of course some of it comes from Saudi Arabia and Qatar.

But firstly I would like to talk about the historical relations between those two countries. And until 1998, the relations were quite stormy, actually, because—due to mostly three reasons, factors.

One of them is the status of Hatay, a southern province that neighbors Syria which joined Turkey in 1939. And Syria has always claimed that it’s historically a part of Syria. And the majority of people living there are Arabs.

The second is the conflict over water, the two rivers, Euphrates and Tigris. And this has been a major source of conflict between the two countries.

And a third one was the support that was given by the Syrian government, the Syrian state, to the PKK. But in 1998, Syria, due to a lot of pressure from both Turkey and the international community, had to kick Abdullah Öcalan, the leader of the PKK, out of Syria. And this started a process of friendly relations. And when Hafez’s son died, actually, the president of the Turkish state, republic, went to Syria to attend the funeral, and a Turkish president has not been to Syria in a very long time.

But these relations got even better during the government of the AKP. And until trouble started in 2011, the relations between those two countries can be considered brotherly—I’m using the word on purpose because Erdoğan and Bashir al-Assad used to call each other brothers, and until two years ago, or only two years ago, those two people were making vacation plans together. But with the events, with the insurgency as a part of the Arab Spring in 2011, these relations have started to deteriorate, and at a very fast pace.

And when scholars, when analysts look at the causes of the deterioration, many people speculate. And it is actually very difficult to say something definitive, but I think what happened is that the Turkish state, the Turkish government, the AKP, was not expecting this to happen in Syria. And when it started to happen—.

JAY: Hold on. “This” meaning the uprising against Assad.

KARAAGAC: The uprising in 2011, yes. And they were—I think they were caught by surprise. And when it started to get worse, or when it started to spread across the country, the Turkish state started to side with the so-called Free Syrian Army, the rebels.

JAY: Now, this was to—you know, once things got militarized—and some people are suggesting one of the reasons it got militarized so early was first of all because Assad used terrible violence against peaceful protesters. But then Qatar and Saudi Arabia, and to some extent the Americans—although it seems to me it was more Qatar and Saudi Arabia that drove this—saw an opportunity and helped get this thing militarized more quickly than it might have otherwise. But where was Turkey in that scenario?

KARAAGAC: Well, Turkey—first, I think they hesitated in terms of what to do. And then they bet on the rebels in terms of these people, this really diverse group of people who rebelled against the Syrian government to win in the end. And then Turkey jumped on board and started to support the rebels alongside Qatar and Saudi Arabia and, of course, the United States.

JAY: Now, is this partly to do with competition between Turkey and Qatar and Saudi Arabia, that Turkey didn’t want the Saudis and the Qataris controlling the outcome of a Syrian revolution, that Turkey needed to have its hand there?

KARAAGAC: Well, I think we should locate this within a broader discussion of the shift in foreign-policy strategy in Turkey in the past ten years. Many people have given it different names, but I would like to call it the new ['AltIm@nIzm]. This idea of new ['AltIm@nIzm], which actually promotes greater engagements in those territories that used to be controlled by the Ottoman Empire, by the Turkish state today, is not a new idea. It was first—it became popular with Turgot Özal, who used to be, first, the prime minister, and then the president, in the 1980s. But it was not until the AKP government that it started to be implemented.

So Turkey was seeking a leadership role in those territories which used to be controlled by the Ottoman Empire for centuries. And I think this—again, the question that you posed should be located within that context.

JAY: Well, to what extent, then, is Qatar, Saudi Arabia, and Turkey kind of co-managing the region under the American umbrella? Or are we going to be seeing a rivalry in Syria to start with, even with Turkey versus Qatar and Saudi Arabia? We’ve talked about how much Syria is a proxy war not just for Saudi Arabia and Qatar, but also the United States and Russia, and even China to some extent. What is Turkey’s role in this proxy war? They’re clearly one of the most affected, given the border, that they’re right on the border.

KARAAGAC: I think we should be looking at this question at a much higher level, at the Eurasian level. I think there’s a struggle for hegemony, influence and hegemony in the broader Eurasian territory/geography, and we have Russia and China on the one hand, and we have the United States and its allies on the other. I don’t see—I don’t foresee a serious conflict between Turkey on the one hand and Qatar and Saudi Arabia on the other. I think this is part of this struggle over, particularly, energy resources in Eurasia between those two blocs. And Turkey definitely sided with the United States and its allies in the region.

JAY: I mean, that’s, I guess, what’s really at the heart of my question is what has emerged is Qatari, Saudi, Turkey as sort of the managers of the American sphere of influence, or partners, if you want, in the Middle East, in alliance also—and making use of the Muslim Brotherhood, first of all in Egypt with Morsi. And are they also trying to bring to power Muslim Brotherhood in Syria?

KARAAGAC: Yes, there, definitely. So there’s some—definitely I think there’s some subcontracting going on there. But at the same time, I’m not [incompr.] give you [incompr.] analysis which see the United States or this imperial power as only important which determines the outcomes of any political process around the world. I think in this case what we observe in Turkey is that the interests of the United States are overlapping with the interests of a group of or a part of Turkish society.

Again, this has a lot to do with the internal dynamics and internal transformation of Turkey in the last 30 years. Turkey today is not the Turkey of the 1970s or 1980s. Turkey’s much more confident. And particularly when we look at the Turkish capital today, Turkish capital has been investing over a territory extending from Siberia to Sub-Saharan Africa to Latin America. And these people, they want much confident, as well as much powerful, assertive foreign policy by the Turkish state in the Middle East or in Eurasia today.

And the second thing is, of course, we cannot talk about these issues without one very important actor in the Middle East, and that is Iran.

JAY: Before we get into Turkey and Iran, the situation in Syria is so tragic, there have been so many people killed, one would think Turkey could have and still could, in fact, play a role to find a somewhat more peaceful, less drastic transition or resolution in Syria. But Turkey doesn’t seem to be playing that role. They seem to actually be putting fuel on the fire.

KARAAGAC: Turkey has been definitely putting fuel on the fire. And, actually, I don’t think that Turkey got into the Syrian conflict without U.S. encouragement in the first place. But it even went beyond what—Turkey went beyond what the United States was expecting it to do. And even the Americans started to warn Turkey not to get involved too much in the conflict.

But right now, Turkey is pretty much in there. It’s one of the most active and assertive players in the Syrian conflict. And of course a part of it is related to the Kurdish question. Turkey is really afraid that the Kurds in the north part of Syria—there are about 2 million Kurds; they’re constituting 9 percent of the Syrian population—Turkey is really afraid that they will achieve autonomy and preserve it, and maybe eventually unite with the other parts of Kurdistan.

JAY: So the issue now for Turkey is overthrow Assad, and then, hopefully, a Muslim Brotherhood government comes to power and suppresses the Kurds in Syria?

KARAAGAC: Keep them under control, definitely. They would like to keep the Kurdish movement and the Kurdish territories under control as much as they can. And in this case, of course, if the Muslim Brotherhood comes to power, the Muslim Brotherhood is insisting on an Arab republic. So they are not so interested. You know, I don’t think that they would agree with most of the demands by the Kurdish population in Syria. So Turkey would prefer that option.

JAY: Alright. Thanks very much for joining us. We’ll continue this series of discussions about Turkey with Baris in further interviews on The Real News Network.

Don’t forget we’re in our year-end fundraising campaign. There’s a Donate button over here. Every dollar you donate gets matched. If you don’t click on that, we can’t do this.

Fonte: The Real News Network