Especial ONU Brasil sobre a Crise no Mali

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Entenda a crise

Localizado no coração da África Ocidental, Mali é um vasto país encravado na região do Sahel. A situação política e social havia melhorado durante a última década com eleições democráticas realizadas pacificamente desde 1992.

No entanto, a situação de segurança agora é volátil, com um golpe em março de 2012 e grupos armados controlando as três regiões mais ao norte: Kidal, Gao e Timbuktu. Isto causou movimentos populacionais dentro do Mali e também para países vizinhos.

O Mali enfrenta desafios significativos em setores-chave para o desenvolvimento e é o 175º colocado entre 187 países avaliados pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Cerca de 69% da população vive abaixo da linha de pobreza e mais de um quinto das crianças em idade escolar não frequentam aulas, três quartos das quais são meninas.

Mais de 80% da população rural depende da agricultura de subsistência e da criação de animais.

Limitada terra arável, clima imprevisível, desastres naturais (incluindo seca, infestações de gafanhotos e inundações), degradação ambiental e a flutuação de preços das matérias-primas levaram a numerosos desafios de segurança alimentar e saúde a essas populações.

As crianças são as mais afetadas por esses desafios. A prevalência de desnutrição global aguda entre as crianças com menos de 5 anos é de 15%, segundo a última pesquisa demográfica e de saúde no Mali.

Missão de Paz da ONU

O Conselho de Segurança da ONU autorizou no dia 20 de dezembro de 2012 o envio da Missão de Suporte Internacional liderada pela África no Mali (AFISMA). Com mandato inicial de um ano, prestará assistência às autoridades na recuperação de regiões controladas por rebeldes e na restauração da unidade do país. Clique aqui para ler a íntegra do comunicado e da resolução do Conselho.

Sob o Capítulo VII da Carta da ONU, que permite o uso da força diante de ameaça à paz ou agressão, o Conselho incumbiu a AFISMA de contribuir com a reconstrução das forças de segurança e defesa do país, assim como na redução de ameaças impostas por grupos terroristas. A Missão será liderada pela União Africana e pela Comunidade Econômica do Estados da África Ocidental (ECOWAS), com apoio logístico e financiamento da ONU.

A Missão será responsável por apoiar as autoridades na proteção de civis e na criação de um ambiente seguro para o envio de assistência humanitária liderado por civis, além do regresso voluntário de deslocados e refugiados. O Conselho também instou as autoridades de transição do Mali a finalizarem o roteiro de transição por meio de amplo e inclusivo diálogo político, restaurar totalmente a ordem constitucional e a unidade nacional, também pela realização de eleições pacíficas, inclusivas e críveis até abril de 2013 ou tão logo seja tecnicamente possível. O órgão também exigiu que os rebeldes cortem os vínculos com grupos terroristas e pediu que as autoridades de transição iniciem negociações com os que romperem tais laços.

Fonte: http://www.onu.org.br/mali/

Conselho de Segurança da ONU aprova força de intervenção contra grupos armados na RD Congo

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28 de março de 2013 

O Conselho de Segurança das Nações Unidas autorizou nesta quinta-feira (28) o envio de uma brigada de intervenção no âmbito da atual operação de manutenção da paz da ONU na República Democrática do Congo (RDC), para tratar de ameaças iminentes para a paz e segurança.

A brigada de intervenção realizará operações ofensivas direcionadas, com ou sem o exército nacional congolês, contra os grupos armados que ameaçam a paz no leste da RDC — uma região que está propensa a ciclos de violência e consequente sofrimento humanitário.

Os objetivos da nova força — que será baseada na província de Kivu do Norte, no leste da República Democrática do Congo com um total de mais 3.069 capacetes azuis — são neutralizar os grupos armados, reduzir a ameaça que estes representam para a autoridade do Estado e para a segurança civil, bem como abrir espaço para atividades de estabilização.

A brigada reforçará a Missão de Estabilização das Nações Unidas na RDC (MONUSCO) por um período inicial de um ano, previsto na resolução aprovada por unanimidade pelo Conselho, que também estendeu a missão até 31 de março de 2014.

Resolução 2098 também fornece um novo mandato para a MONUSCO, que agora apoiará as autoridades congolesas para proteger os civis, neutralizar os grupos armados e implementar reformas fundamentais para consolidar a paz no país, em particular na área da reforma do setor da segurança e Estado de Direito.

Ban Ki-moon vê ‘nova abordagem’ para a crise

O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, saudou a resolução, “que estabelece uma nova abordagem abrangente que visa abordar as causas de instabilidade no leste da RDC e na região dos Grandes Lagos”, disse seu porta-voz em um comunicado.

“Ele permanece pessoalmente empenhado em ajudar a trazer paz e estabilidade ao povo da República Democrática do Congo e à região dos Grandes Lagos e vai continuar trabalhando para garantir que este tema continue a ser uma prioridade para a comunidade internacional”, acrescentou o comunicado.

Também saudando a resolução, o Subsecretário-Geral da ONU para Operações de Manutenção de Paz, Hervé Ladsous, disse a jornalistas que o texto reflete o “desejo comum da comunidade internacional” de abordar de forma ampla as causas do “terrível ciclo de violência” testemunhada na RDC ao longo de quase duas décadas .

“Eu realmente acho que hoje poderia ser um ponto de virada significativo no tratamento da crise que por muitos anos a RDC tem experimentado”, disse ele. “E no final do dia, estamos falando sobre colocar um fim ao sofrimento de milhões de pessoas.”

A brigada recém-autorizada foi concebida para apoiar os objetivos políticos do Quadro de Paz, Segurança e Cooperação para a RDC e a região – um acordo de paz assinado no mês passado em Adis Abeba, na Etiópia.

O Conselho exigiu que os signatários do quadro implementem plenamente os seus compromissos de boa fé, convidando a recém-designada Enviada Especial para a Região dos Grandes Lagos, Mary Robinson, a liderar, coordenar e avaliar a implementação desses compromissos.

Fonte: http://www.onu.org.br/conselho-de-seguranca-da-onu-aprova-forca-de-intervencao-contra-grupos-armados-na-rd-congo/

Invasão do Iraque pelos EUA completa 10 anos de impunidade

A invasão do Iraque pelos Estados Unidos completa 10 anos. A decisão tomada pelo então presidente George W. Bush  foi unilateral e ilegal, mas não sofreu consequências. Por isso, ele conseguiu manter por anos a fio uma guerra imperialista que custou milhões de vidas aos iraquianos, cometendo crimes contra a humanidade até hoje impunes.

Por Moara Crivelente, da Redação do Vermelho

 

A decisão de Bush inseriu-se em um contexto internacional dominado pela Doutrina Bush, que foi caracterizada pelo empenho por um mundo unipolar, de políticas unilaterais e imperialistas que tinham como único objetivo o estabelecimento irrefutável da hegemonia estadunidense sobre o mundo.

A convicção arrogante de que o país é um poder hegemônico que deve ordenar mundo (principalmente quando vendo seus amplos, ambíguos e instrumentais “interesses nacionais” ameaçados) foi a base da política externa estadunidense, mas que ainda precisava de aliados.

Dias antes da invasão, os EUA organizaram o ensaio de legitimação para a sua decisão unilateral e imperialista com a Cimeira dos Açores, realizada em 16 de março, em que se reuniu com os então primeiros-ministros Tony Blair (Reino Unido) e José María Aznar (Espanha), por exemplo.

No dia seguinte, Bush deu um “ultimatum” para que o presidente iraquiano Saddam Hussein e sua família deixassem o Iraque em 48 horas. Não correspondido, com o final do prazo o então presidente anunciou que iniciaria ataques aéreos e que enviaria 250.000 soldados ao Iraque, o que aconteceu gradualmente.

Depois de votarem contra a resolução de guerra levada pelos EUA ao Conselho de Segurança da ONU, a França e outros países europeus viram-se ameaçados pela afirmação de Bush, ainda nos Açores (quando já previa uma guerra), de que aquele seria “o momento da verdade”.

O apoio do Reino Unido (o principal aliado dos EUA então) custou caro politicamente para o então primeiro-ministro Tony Blair, que além de contrariar os protestos da população civil, contrariou também o seu próprio Partido Trabalhista: cerca de 160 dos seus parlamentares haviam votado contra a iniciativa do governo de juntar-se à guerra dos EUA.

Já há uma série de estatísticas e avaliações, em relatórios complexos, discursos e avaliações de políticas de Estado, mas ainda nenhuma explicação plausível para a Guerra no Iraque, iniciada unilateralmente e de forma ilegal há exatos 10 anos pelos Estados Unidos contra aquele país. 

De 2001 a 2013, neste novo século já iniciado por uma política internacional dominada pelo imperialismo estadunidense (através da instrumental “guerra contra o terror” que criou raízes no imaginário norte-americano e, depois, de seus aliados europeus), os EUA gastaram ou comprometeram-se com obrigações que somaram 3,1 trilhões de dólares em guerras no Afeganistão, Iraque e Paquistão. O custo total é ainda mais alto quando considerados os gastos relacionados com a guerra no Departamento de Segurança Interna, e se calculados os juros dos empréstimos feitos para pagar pelas guerras.

A motivação declarada em diversos discursos era a suposta existência de armas de destruição em massa, para começar, depois a “guerra contra o terror”, e também a derrubada de um “ditador”, na figura odiada pelo então presidente dos EUA, a do presidente Saddam Hussein. 

“Comemorações” na mídia

Jornais como The New York Times, nesta “comemoração” dos 10 anos desde a invasão, publicaram infográficos sobre as mortes relacionadas à guerra, separando-as por “forças americanas”, “forças de outras coalizões”, “forças iraquianas”. Ficam faltando os civis, porém, as maiores vítimas.

Ainda, há separações por causas, como “fogo amigo”, “fogo inimigo”, “ataque suicida”, entre outras, e há inclusive uma categoria que mereceria análise, pois aglomera as causas “não hostil/acidental/suicídio”.

Oficialmente, para os EUA, a guerra terminou no dia 15 de dezembro de 2011, de acordo com anúncios do presidente Barack Obama, desde a sua primeira vitória eleitoral, em 2008. Foi quando as últimas forças estadunidenses (especificamente, as engajadas em combate direto com os iraquianos) foram retiradas. Entre 2003 e 2012, no total, contabiliza-se a morte de 4.480 soldados, mas as consequências afetam milhões de pessoas nos EUA indiretamente, e incluem também a invalidez de vários ex-combatentes e o stress pós-traumático diagnosticado em grande parte deles.

O aniversário da invasão do Iraque resultou em numerosos documentos, relatórios, declarações e matérias de jornal, como a do New York Times, que se propôs a publicar uma série com as declarações de soldados que estiveram na guerra, contando como isso mudou as suas vidas.

Provavelmente, porém, a semana de “eventos comemorativos” terminará antes que jornais como este possam ouvir “como a guerra afetou as vidas” não dos soldados, mas da população civil do país invadido.

O escritor norte-americano David Swanson, em seu relatório “A guerra do Iraque entre os piores eventos do Mundo” (Iraq’s War Among the World’s Worst Events, ainda sem tradução para o português) lembrou também dos 22 anos da Operação Tempestade no Deserto (ou da Guerra do Golfo, de 1990), que precedeu a “Operação Libertação do Iraque” (cuja sigla em inglês é OIL, em alusão ao interesse dos EUA pela região, o petróleo, segundo Swanson), também chamada de Segunda Guerra do Golfo.

Impacto real da Guerra (dos EUA) no Iraque

Neste 20 de março de 2013, porém, para a população invadida, não há muito para comemorar, apesar da “retirada” oficial das tropas invasoras ter sido anunciada há dois anos. O governo atual do primeiro-ministro Nouri al-Maliki (praticamente instalado pelos EUA) tem sido acusado pela população civil de autoritarismo, de patrocinar execuções sumárias, prisões arbitrárias, tortura e estupro, de acordo com uma matéria da emissora árabe Al-Jazeera.

De acordo com números que Swanson recolheu de vários informes, o Iraque perdeu cerca de 1,4 milhões de vidas como resultado da OIL, o que representou 5% da sua população. Esta cifra não chega a se comparar às perdas sofridas pela França (1%) e dos EUA (0,3%), por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial.

As mortes de estadunidenses nesta guerra não chegam a representar 0,3% das mortes totais, o que pode ser explicado, para começar, com o hábito dos EUA de invadir e agredir diretamente países que ficam longe da sua vizinhança, quase como um “plano estratégico” perfeito, para além de instrumental, dados os seus interesses políticos e econômicos na região onde mais tem investido militarmente: o Oriente Médio.

Como se já não bastasse, lembra Swanson, também resultaram da OIL cerca de 4 milhões de feridos e 4,5 milhões de refugiados, que tiveram de fugir não só para os países vizinhos como também para outras regiões.

Além disso, de acordo com a base de dados sueca do Instituto Internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Sipri, da sigla em inglês), há também entre 2,3 milhões e 2,6 milhões de pessoas que foram forçadas a deslocar-se internamente (por isso, não são contadas como refugiadas), número reduzido a 1,3 milhão pelas estimativas da ONU, que só contabiliza os que foram inscritos pelas autoridades iraquianas desde 2006.

Os custos materiais também não escaparam de maior análise. Para além da infraestrutura atual, a Unesco também denunciou a destruição de sítios arqueológicos e outros patrimônios históricos de extrema importância, como é de costume em guerras tão devastadoras. Em artigo publicado na Folha de S.Paulo na véspera deste aniversário, nesta terça-feira (19), o especialista em estudos árabes e islâmicos Paulo Daniel Farah também menciona os danos ao patrimônio cultural do Iraque, que se situa na antiga Mesopotâmia.

Farah lembra que, “referência cultural nos anos 1970, o Iraque abriga milhares de sítios arqueológicos que foram submetidos à pilhagem e ao contrabando, junto com toda uma memória coletiva humana.”

Ainda antes disso, desde o embargo imposto ao país em 1990, que começou com a Resolução 661 do Conselho de Segurança da ONU (adotada naquele mesmo ano), houve “saques sistemáticos e organizados ao patrimônio material iraquiano que colocam em risco grave a história da humanidade”, afirma Farah.

A invasão iniciada em 2003, entretanto, só agravou a vulnerabilidade a esses saques. ”Menos de duas semanas após a invasão norte-americana, muitas dessas obras já se encontravam nos Estados Unidos e na Europa”, como afirma o arqueólogo sírio Ahmad Serrie, citado por Farah.

Performances e custos da guerra 

A invasão de 2003 incluiu, de acordo com Swanson, 29.200 ataques aéreos, fora os 3.900 realizados nos oito anos seguintes. As forças militares estadunidenses tiveram em seus alvos tanto civis quanto jornalistas, hospitais e ambulâncias.

Além disso, como já denunciado por várias organizações internacionais, o exército dos EUA também fez uso do que se pode chamar de “armas de destruição em massa”, como as bombas de racimo, fósforo branco, urânio empobrecido e um novo tipo de napalm (substância que também usou na sua Guerra contra o Vietnã, na década de 1970), em áreas urbanas densamente habitadas.

Mais de um desses recursos já são proibidos por convenções internacionais, e o seu uso configura “crimes de guerra” e até “crimes contra a humanidade”, sob o direito internacional humanitário. Mas isso não preocupa os Estados Unidos, pois não seria a primeira nem a última vez.

O resultado, como também já conhecido de outras guerras, foi o aumento das taxas de câncer, de mortalidade infantil, entre outras. As fontes de água, as plantas de tratamento de esgoto, hospitais, pontes e plantas de energia elétrica foram devastadas, e a maior parte continua sem conserto.

Ainda antes da guerra iniciada em 2003, uma guerra econômica contra o país já havia deteriorado o sistema de saúde e nutrição, como relembra Swanson, “através das mais abrangentes sanções econômicas já impostas na história moderna.”

Não é difícil também para os analistas econômicos encontrarem indícios de uma intencionalidade comercial da guerra empreendida pelos EUA, não só pelo tema do complexo industrial-militar, que encontra terreno bastante fértil para ser desenvolvido, como também pelos esforços de “reconstrução” do Iraque, que garantiram contratos milionários com construtoras.

Reconstrução do Iraque

Ainda assim, Swanson afirma que o dinheiro gasto pelos Estados Unidos na “reconstrução” era sempre menos de 10% do que era gasto com a destruição, e a maior parte nunca foi realmente posta em uso construtivo. Ao menos um terço foi gasto em “segurança”, enquanto muito do resto foi gasto em corrupção pelos militares e funcionários dos EUA.

Em uma análise do fator social, ainda, o jornalista lembra que os iraquianos que poderiam ajudar na reconstrução do país tiveram de fugir durante a guerra. O Iraque tinha as melhores universidades da Ásia ocidental durante a década de 1990, mas agora é um expoente do analfabetismo, com uma população de professores, em Bagdá, reduzida em 80%.

Contribuindo para a instabilidade e os conflitos internos, durante anos as forças ocupantes fragmentaram a sociedade, encorajando a violência e a divisão étnica e sectária, como dita o costume dos impérios coloniais e modernos. Diversos cientistas políticos já identificaram esforços concretos neste sentido.

Swanson afirma ainda que “enquanto a dramática escalada da violência” esperada com a retirada dos EUA não se realizou, o Iraque ainda tem de lidar com a instabilidade interna, as tensões regionais e, claro, o ressentimento generalizado contra os estadunidenses, exatamente o oposto do que os EUA declararam como objetivo para tornar o país mais seguro.

“Se os EUA tivessem pegado os 5 trilhões de dólares e, ao invés de destruir o Iraque, tivessem escolhido fazer algo bom com isso, em casa ou no exterior, imagine as possibilidades”, diz Swanson, que lembra que a ONU teria declarado, por exemplo, que 30 bilhões de dólares por ano acabariam com a fome no mundo.

Mesmo assim, a Casa Branca também publicou seu próprio infográfico, onde figuram, é claro, as “promessas cumpridas” com relação à guerra. Obama caracterizou o fim de uma “missão de combate” em setembro de 2011, com a remoção de 100.000 soldados, de acordo com um acordo assinado em 2008, entre os EUA e o Iraque (“Acordo sobre o status das Forças estadunidenses e iraquianas”).

Entretanto, isso não pressupôs, na verdade, a retirada total das tropas, que seguem presentes ainda que sob um mandato diferente, como os já conhecidos treinamentos das forças de segurança iraquianas. Para objetores estadunidenses, ainda, as tropas que continuaram no país servem também para apoiar o governo do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, em mais uma intervenção política de bastidores, outra especialidade dos EUA.

Segundo a Casa Branca, o objetivo é encontrar uma forma de “acabar responsavelmente” com a guerra. Entretanto, talvez o plano devesse ser, daqui para frente, como “responsavelmente manter-se fora dela”, ou como respeitar a soberania alheia.

A estratégia frequente de divisões sectárias e a instigação da violência supostamente baseada em diferenças identitárias (portanto, diferenças culturais instrumentalizadas de acordo com objetivos políticos) também foi posta em prática pelos EUA de Bush durante a sua invasão.

Depois, restou ao presidente Obama a tarefa igualmente assentada na ingerência de telefonar ao governo iraquiano para apelar para um governo de unidade nacional, mais especificamente pedindo ao presidente que se demitisse para dar lugar a um novo candidato que os EUA já tinham nomeado. A alternativa seria aceitar a presença de tropas estadunidenses por mais tempo, e apesar de ambas as “opções” terem sido negadas, assim é a situação atual do Iraque.

Fonte: PortalVermelho

 

Começa hoje conferência da ONU sobre o tratado de comércio de armas

Tem início nesta segunda-feira (18) a Conferência Final das Nações Unidas sobre o Tratado de Comércio de Armas (ATT, na sigla em inglês), na sede das Nações Unidas em Nova York, com a expectativa de finalmente chegar a um resultado bem-sucedido que não foi alcançado na Conferência de julho de 2012.

Acontecendo entre 18 e 28 de março, a Conferência Final pretende concluir as negociações sobre um tratado que estabeleça normas internacionais comuns para o comércio mundial de armas convencionais – desde pequenas armas de artilharia e aviões de combate a navios de guerra.

Um integrante da força de paz da ONU na Costa do Marfim recolhe armas de fogo anteriormente utilizadas por milícias. Foto: ONU/Ky Chung

Com as transferências internacionais de armas atualmente mal reguladas, as regiões com grande instabilidade e com focos de terrorismo são as mais prejudicas. O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, tem descrito como “uma desgraça” a ausência de um tratado multilateral de escopo global para lidar com armas convencionais.

“Vocês não estão aqui para iniciar novas negociações. Vocês estão aqui para fortalecer e concluir o trabalho que tem sido feito com seriedade desde o início do processo em 2006”, disse Ban Ki-moon a representantes de 193 Estados-Membros no seu discurso de abertura.

Ele acrescentou que agora é o momento para o foco e a vontade política de negociar os detalhes finais e chegar a um resultado de consenso durante os nove dias do encontro. “Essa é a mensagem clara da Assembleia Geral quando decidiu que esta é a Conferência Final das Nações Unidas sobre o ATT [o Tratado].”

Desapontado com os resultados de julho, Ban Ki-moon o descreveu como um “retrocesso”, mas também assinalou que os Estados tinham atingido um terreno comum considerável que pode servir como base.

No discurso desta segunda-feira (18), o Secretário-Geral observou que as normas internacionais regulam tudo, desde camisetas a brinquedos e tomates. “Existem normas comuns para o comércio mundial de poltronas, mas não para o comércio mundial de armas”, questionou Ban.

A capacidade das Nações Unidas de cumprir o seu mandato para ajudar os países e as pessoas em todo o mundo é muitas vezes prejudicada pelos efeitos de conflitos armados e da violência, estimulada pelo comércio ilícito de armas. Estes efeitos podem se tornar um fardo direto em relação ao pessoal trabalhando para prestar assistência humanitária.

Entre 2000 e 2010, quase 800 trabalhadores humanitários foram mortos em ataques armados, com 689 feridos. Além disso, os membros das forças de paz das Nações Unidas enfrentam risco de morte e rapto diariamente.

As Nações Unidas têm defendido consistentemente um Tratado de Comércio de Armas forte que cubra um amplo leque de armas convencionais, incluindo armas pequenas e armamento leve, bem como suas munições, e que exija aos seus Estados-Parte a realização de avaliações de risco completas antes de transferir armas.

Cerca de 2 mil representantes de governos, organizações internacionais e regionais, bem como da sociedade civil, reúnem-se em Nova York para as negociações finais sobre este tratado histórico. O Embaixador da Austrália, Pedro Woolcott, preside a Conferência.

Fonte: ONUBR

Síria: Liga Árabe pede à ONU para impor cessar-fogo obrigatório

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Brasília – A Liga Árabe pediu hoje (14) ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para impor um cessar-fogo obrigatório a todas as partes envolvidas no conflito na Síria.

O apelo faz parte de um relatório sobre a situação dos refugiados sírios que o secretário-geral da Liga Árabe, Nabil Al Arabi, distribuiu aos ministros da Saúde árabes reunidos hoje no Cairo, Egito.

O texto pede ao Conselho de Segurança para intervir de forma firme na Síria, de acordo com os instrumentos de que dispõe conforme a Cláusula 7ª da Carta das Nações Unidas.

A Cláusula 7ª permite “o uso de todas as medidas necessárias para restaurar a paz e a segurança internacionais”, o que inclui uma intervenção militar.

As tréguas negociadas durante o conflito pelos mediadores internacionais foram violadas tanto pelas tropas de Damasco como pelas forças rebeldes.

O relatório da Liga Árabe pede também à comunidade internacional que assuma responsabilidades e aumente a ajuda aos refugiados sírios que ultrapassam já 1 milhão de pessoas, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

A organização reunida no Cairo recordou ainda que os Estados vizinhos da Síria, membros do organismo, como o Líbano, a Jordânia e o Iraque necessitam de apoio econômico para ajudarem os refugiados.

Para apoiar os países que fazem fronteira com a Síria, os ministros da Saúde árabes decidiram doar US$ 800 mil para assistência médica de urgência destinada aos refugiados.

Na sexta-feira (15), completam dois anos do conflito sírio que deu origem a uma guerra civil que já causou mais de 70 mil mortes.

 

Fonte: Agência Brasil

As aporias do sistema geopolítico mundial na era nuclear

Desde os tratados de Westfália no século XVII que o sistema internacional esteve governado segundo uma peculiar aporia: primeiro, em tese, nada se sobrepõe à soberania dos Estados na relação com os outros Estados; segundo, na prática do direito internacional, a soberania de um Estado está sujeita à violação pela força superior de seus eventuais oponentes na promoção do que definem como seus interesses soberanos. Esse segundo princípio foi formalizado por Clausewitz (“Da Guerra”) pelo enunciado de que a guerra é um instrumento racional dos Estados para a promoção de seus interesses.

O sistema vigorou por 300 anos até a Segunda Guerra Mundial quando, ao fim dela, um novo sistema internacional começou a ser configurado pela explosão da bomba atômica pelos Estados Unidos e, quatro anos depois, pela União Soviética. Já a Guerra Fria indicava que a guerra “quente” não podia ser considerada um instrumento “racional” para uma solução de força dos conflitos de interesse entre potências nucleares. O fim da Guerra Fria, não tendo sido o fim da era nuclear, mas sua dispersão, apenas acentuou esse pressuposto.

O mundo tem hoje cinco potências nucleares plenas e declaradas (com capacidade de lançar mísseis intercontinentais e por submarinos), duas potências nucleares de segunda ordem (Índia e Paquistão), uma potência nuclear encoberta (Israel) e dois candidatos a potência nuclear (Irã e Coreia do Norte). Os demais países não nuclearizados aparentemente se conformam com essa situação, quando menos por temor explícito ou implícito de retaliações econômicas por parte do clube nuclear no âmbito do Tratado de Não Proliferação.

Tal sistema, por mais assimétrico, injusto e instável que pareça, no âmbito das  potências nucleares leva à paz, não à guerra. Na vigência do virtual duopólio de poder da Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética teriam ido à guerra (no mínimo naval, mas ninguém sabe como acabaria) em face da crise dos mísseis em Cuba, ou mesmo por motivos ideológicos, não fossem elas potências nucleares. Pelo mesmo motivo a União Soviética não se meteu diretamente na Guerra do Vietnã e os Estados Unidos não se imiscuíram diretamente quando da invasão do Afeganistão pela União Soviética.

Se uma paradoxal estabilidade instável prevaleceu, conforme esses exemplos, no período de extremo conflito ideológico da Guerra Fria, muito maior é a razão para que prevaleçam a partir dela. Enquanto sistemas de Estados soberanos, e não de sistemas sociais conduzidos por ideologias  radicalizantes, não temos mais um bloco ocidental nem um bloco oriental rígidos no campo ideológico: são Estados governados cada um por seus interesses particulares, e em grau maior ou menor controlados por processos democráticos internos, onde dificilmente surgiria um demagogo propagandeando a guerra externa com objetivos políticos internos.

Contudo, nada impede guerras na periferia do clube nuclear conduzidas ou não por potências nucleares, como é o caso das guerras do Afeganistão, do Iraque, da Chechênia, de Óstia do Sul, ou a miríade de guerras civis desde a Síria aos deserdados países africanos. O que não se concebe são guerras diretas entre potências nucleares. A Índia e o Paquistão, que haviam travado três guerras depois da descolonização, só não travaram a quarta, justificada pelo atentado terrorista de Bombai, porque são potências atômicas, mesmo que de segunda linha.

O poder nuclear, portanto, revelou-se que não é para ser usado, mas para ser manobrado como instrumento de pressão e de dissuasão. Esta última se aplica sobretudo às próprias potências nucleares entre si. Nesse caso a guerra já não é mais a continuação da política por outros meios, como em outro enunciado de Clausewitz, mas a política passa a ser o instrumento absolutamente exaustivo das relações internacionais no âmbito de potências nucleares. É uma novidade histórica que requer, certamente, uma também nova filosofia da guerra.

Voltemos a Clausewitz e à parte mais relevante de seu primeiro enunciado:  “a guerra é um instrumento racional dos Estados”. Onde estaria a racionalidade de uma guerra nuclear que se arrisca a generalizar-se? Fora os conceitos dos filósofos que consideram a história um ente em si, movido por forças abstratas impessoais, a guerra, na prática, é uma decisão de governo. Em essência, de elites governamentais que, em algum grau, e sobretudo nas democracias, têm de prestar contas de seus atos ao povo.

Claro, uma guerra nuclear não começa necessariamente como guerra nuclear: pode ser o fim de uma escalada de guerra convencional. Isso, porém, não elimina a dissuasão interna em relação aos atos daqueles que conduzem as decisões políticas: nenhum governante com algum grau de responsabilidade perante o povo iniciaria uma escalada bélica convencional contra outra potência nuclear sabendo que ela não se renderia  ao ponto de entregar-lhe seus arsenais atômicos na hipótese de uma derrota “convencional”.

Isso pode parecer kantiano, e de alguma forma o é. Kant, idealisticamente,  argumentava que a paz perpétua só poderia ser atingida quando todos os países fossem repúblicas, no suposto de que o poder republicano responderia ao povo, não à vontade das elites aristocráticas ou de outra natureza. A questão em tempos de democracia de cidadania ampliada, no que se refere à guerra nuclear, é, pois, essencialmente de informação. Bem informado das consequências catastróficas de uma guerra nuclear, o “povo” há de dissuadir a aventura das elites.

Creio que, no contexto da sociedade de informação, mesmo que elites aventureiras ou demagógicas tenham a sua mão instrumentos clássicos de manipulação da opinião pública, estes são virtualmente inócuos no que diz respeito à guerra nuclear: ninguém a deseja ou justifica emocional ou racionalmente, e o líder que tentasse justificá-la por motivos de honra, de prestígio ou mesmo de interesses econômicos  correria o risco de uma rebelião interna. É que o uso do poder nuclear infunde terror público, independentemente de quem o proponha.

Por certo que podem acontecer guerras convencionais aéreas diretas entre potências nucleares, seguindo algum código de prevenção de uso de poder nuclear. Houve exercícios de guerra nesse sentido durante a Guerra Fria, inclusive por Herman Kahn. Isso, entretanto, é tão racionalmente implausível quanto a própria guerra nuclear. Possibilidades existem, porém, de guerras convencionais indiretas entre potências nucleares em territórios de outros países, como aconteceu de fato no Vietnã e no Afeganistão, mas neste caso envolvendo sobretudo motivos ideológicos. De qualquer modo, isso será discutido adiante.

Uma vez feitas essas ponderações quanto à inviabilidade da guerra nuclear entre potências nucleares, voltemos ao tema realmente crucial das relações internacionais contemporâneas: o uso do poder nuclear como instrumento de pressão contra nações não nucleares. Note-se que não é necessário poder nuclear para subjugar outras nações: basta superioridade em força militar convencional. A novidade é que o poder nuclear constitui um sistema de proteção para aliados militarmente fracos de potências nucleares concorrentes.

O sistema internacional, depois do fim da União Soviética, está assumindo rapidamente uma configuração similar á do século XIX no que diz respeito ao estabelecimento de alianças multipolares e áreas de influência, em diferentes graus de prioridade, em torno dos países nucleares. É uma espécie de contrapartida dialética do processo de globalização das últimas três décadas. Uma diferença é que, ao contrário do sistema de alianças do século XIX que levou a várias guerras, o sistema atual, por causa do poder nuclear, parece tender à paz.

O primeiro indicador desse processo é o cuidadoso respeito a áreas de influência que os países nucleares consideram vitais. Na guerra imposta pela Rússia a Óstia do Sul, considerada vital para Moscou por causa da presença de uma grande população russa no país, alguns dirigentes da direita europeia ensaiaram uma intervenção da OTAN, o que foi fulminantemente abortado pelos Estados Unidos pela óbvia razão de que aquilo representava o risco de um confronto direto com a Rússia, ainda uma potência nuclear de primeira linha.

Os russos, por sua vez, toleraram de má vontade as intervenções da OTAN nas revoluções da Primavera Árabe, já que eram países que de maneira alguma representavam áreas de interesse vital para ela; mas nenhuma potência ocidental se meteu com a guerra civil em curso na Síria, aliada estratégica de russos e chineses, pelo menos por enquanto. Da mesma maneira a França pode jogar sua economia em crise na guerra civil do Mali pois isso não confronta nenhum interesse relevante de outras potências nucleares.

A guerra externa, portanto, está se tornando um instrumento obsoleto da política internacional. Trata-se de efeito direto do poder nuclear. Os Estados Unidos começaram a aprender isso na Coreia e no Vietnã, tiveram um breve gosto de vitória no Iraque, e se enterraram virtualmente no Afeganistão – de onde Obama, com dificuldade, ensaia uma maneira honrosa de dar o fora. Isso não significa que se deve  descartar, de antemão, um surto de guerras externas neocolonialistas sob o escudo nuclear. É apenas improvável.

É nesse contexto que se deve considerar as tentativas da Coreia do Sul e, supostamente, do Irã de ter acesso a tecnologia nuclear bélica. Em termos dos tratados de Westfalia, eles têm todo o direito de construir a bomba. É uma prerrogativa de sua soberania. Contudo, no âmbito desses mesmos tratados, sua vontade pode ser confrontada por um poder militar mais forte. Mas esse poder, ao menos formalmente, está institucionalizado numa instância superior à soberania dos Estados, o Conselho de Segurança da ONU.

Essa instância foi, em termos conceituais, a grande novidade do pós-guerra. Contudo, no ambiente da Guerra Fria, ela se revelou inteiramente ineficaz quando os Estados Unidos empreenderam à margem de decisões do Conselho a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietnã e outros guerras de menor dimensão (inclusive a extraordinária “conquista” de Granada, uma minúscula ilha-nação do Caribe, pelo Governo Reagan). Também a União Soviética ignorou o Conselho ao se meter, via Cuba, em guerras civis em desenvolvimento na África e no Afeganistão.

No ambiente internacional contemporâneo, a força do Conselho de Segurança reside justamente no seu poder de “congelar” alianças no sentido definido acima. Isso ocorre, porém, de forma contraditória, não por sua capacidade de tomar decisões, mas pelo inverso, ou seja, pela capacidade de veto do seu núcleo permanente. Assim, uma guerra “legitimada” contra a Coreia do Norte ou contra o Irã sob a justificativa de impedir que tenham acesso pleno ao poder nuclear só seria tecnicamente possível com a concordância da Rússia e da China.

Isso não impede, porém, que os Estados Unidos e as demais potências ocidentais, assegurando por via política a neutralidade da Rússia e da China, se decidam a promover  uma outra guerra da Coreia e uma primeira contra o Irã. Os Estados Unidos, apelando ao conceito da segurança mundial, poderiam fazê-lo unilateralmente mesmo sem essa neutralidade sob o estímulo de Israel. Nos dois casos, a questão passa ao nível técnico: qual a viabilidade de guerras contra esses dois países e qual seria seu custo em termos humanos e materiais?

Nos dois casos, entraria em jogo, como justificação subjetiva da guerra, o conceito de ameaça à segurança mundial. E nisso há substanciais diferenças entre Coreia do Norte e Irã. A Coreia do Norte é o país mais fechado do mundo, submetido a uma ditadura familiar,  de cujas relações com a sociedade interna pouco se sabe no ocidente, inclusive quanto ao grau de responsabilidade da elite dirigente em relação aos próprios cidadãos (se, realmente, existe cidadania no país). Diante disso, é controverso falar em responsabilidade internacional.

Evidentemente que, nessas circunstâncias, fazer a guerra à Coreia para desarmá-la preventivamente do poder atômico depende sobretudo de julgamentos subjetivos sobre o comportamento internacional de suas elites. Aqui não se trata de uma questão ideológica, mas de evidências concretas: o que se pode deduzir subjetivamente das ações efetivas da elite dirigente da Coreia do Norte em relação à comunidade internacional, a começar pela Coreia do Sul e o Japão?  E, sobretudo: poderia a Coreia do Norte, dados os precedentes de sua retórica, comportar-se como uma nação suicida?

O terrorismo suicida foi o segundo elemento, junto com o poder nuclear, que introduziu um novo paradigma nas relações internacionais no pós-guerra. A combinação de poder nuclear e terrorismo suicida materializaria uma ameaça real à segurança do mundo. Antes, o poder nuclear apenas podia efetivar-se se houvesse vetores capazes de transportá-lo a longas distâncias por submarinos ou mísseis. Agora, como se viu nos atentados de 11 de setembro, o terrorista vai junto com a bomba. E mesmo uma bomba nuclear “suja” poderia causar estragos catastróficos.

Isso acentua a questão da responsabilidade das elites dirigentes e, também, o efetivo controle delas quanto ao (não) uso de armas nucleares que venham a possuir. A  simples possibilidade de que um Estado ditatorial, como a Coreia do Norte, com sua retórica belicista, venha a disponibilizar tecnologia nuclear “caseira” para grupos terroristas representa óbvios riscos de segurança sobretudo para os Estados Unidos. Assim, é pouco provável que os Estados Unidos deixem de usar seu poder militar para dissuadir a Coreia do Norte de ter a bomba exceto se a Coreia do Norte evoluir para um sistema mais aberto e democrático.

Note-se que em circunstâncias muito mais complexas da Guerra Fria, no confronto com o único poder militar que poderia equiparar-se ao seu, os Estados Unidos praticamente impuseram a “glasnost” à União Soviética como preliminar de tratados mais abrangentes de redução de arsenais nucleares. Agora, confrontando um poder muito menor como a Coreia do Norte, os Estados Unidos certamente empreenderão todos os esforços políticos para se assegurar da neutralidade russa e chinesa em seus esforços para impedir a bomba coreana e, caso não consiga essa neutralidade, tomarão provavelmente uma decisão unilateral.

A questão iraniana é mais complexa. Trata-se de uma república regida por códigos democráticos formais sob autoridade última religiosa. O braço executivo do Governo nega que esteja construindo a bomba. Os aiatolás, o grande conselho moral e político do país, asseguram que a interpretação do Islã veda a busca do poder nuclear. Em termos históricos, algo que o ocidente se nega a reconhecer, o Islã, em suas guerras santas, tinha um protocolo de guerra que vedava o assassinato de mulheres, crianças e camponeses desarmados, assim como a destruição de colheitas – tudo isso incompatível com a arma nuclear.

Nessa mesma época histórica de ascensão do Islã, a Guerra Santa dos cruzados levava ao massacre indiscriminado de crianças, idosos e mulheres na Palestina, ao incêndio de cidades inteiras, à prática de torturas e a toda sorte de crueldades contra presos. No ocidente, sob o patrocínio da Igreja, instituiu-se a Inquisição como forma de controle de consciências pela fogueira, a caça às bruxas, ao terror contra seitas alternativas (cátaros), à conversão forçada de judeus. É claro que, com esses currículos, os islâmicos pareceriam bem mais civilizados e humanos que os ocidentais. Em outras palavras, fariam melhor (não) uso da bomba atômica.

Entretanto, por trás da questão nuclear iraniana está Israel. E Israel, única potência nuclear do Oriente Médio, coloca-se numa posição radical contra o acesso do Irã à bomba, por óbvias razões geopolíticas, e, entre outros motivos, porque a elite dirigente iraniana expressa publicamente a retórica irrealista de que Israel deve ser destruído. A esse respeito, trata-se de uma banalidade demagógica para efeito interno, de péssima repercussão internacional: como disse a então secretária de Estado Hillary Clinton, se o Irã atacar Israel para destruí-lo os Estados Unidos “deletam” o Irã!

Por sua parte, é possível que o Irã não vise mesmo a construir a bomba num primeiro momento, mas, sim, afirmar sua soberania no sentido de poder fazê-la quando quiser, haja vista a capacidade nuclear existente de seu principal inimigo, Israel. O exercício efetivo desse direito implica três situações: primeiro, da inserção efetiva do Irã no sistema de alianças russo-chinês; segundo, como consequência disso, da capacidade norte-americana de convencer politicamente a Rússia e a China a ajudá-los a dissuadir o Irã de fazer a bomba e submeter-se  ao sistema de fiscalização da AIEA; terceiro, em vista do fracasso dessa iniciativa, da vontade norte-americana de submeter-se a pressão de Israel e de fazerem, ambos, uma guerra aérea de destruição das instalações nucleares iranianas.

Essa terceira situação, que remete ao foco principal deste ensaio, coloca complexidades ainda maiores que a questão coreana. As instalações nucleares coreanas são muito mais vulneráveis a um ataque aéreo, inclusive por mísseis, do que as iranianas. Um relatório de um ex-agente de informação vazado na imprensa norte-americana deu conta de que as principais instalações nucleares iranianas estão enterradas a 10 a 12 metros de profundidade e são invulneráveis a ataques aéreos convencionais – ao gosto daqueles feitos por Israel em suas guerras, e inclusive no ataque nos anos 80 a instalações nucleares do Iraque.

Além disso, o poderio antiaéreo iraniano, já considerável tendo em vista anos de preparação para uma eventual guerra, seria, no caso de uma guerra decidida fora do âmbito do Conselho de Segurança, certamente reforçado, em termos materiais e humanos, por russos e chineses, seus supridores de equipamentos bélicos.  Nesse caso, teríamos um confronto convencional de potências nucleares numa guerra aérea em terceiro país. (A invasão por terra, claro, seria fora de propósito em função de perdas humanas dos agressores: Irã não é Iraque.) Até que ponto isso poderia desencadear uma escalada de forma a estabelecer um confronto direto entre as próprias potências nucleares? Não sabemos, mas podemos inferir.

O risco é suficientemente alto para o destino da humanidade para que nos recusemos a especular sobre ele. Portanto, tentemos estabelecer um curso ideal para reduzir o risco. O primeiro passo seria estabelecer, com o concurso de Rússia e China, um processo que leve ao reconhecimento da boa fé dos iranianos quando afirmam que não têm intenção de construir a bomba. Isso chegou a ser iniciado com o concurso de Brasil e Turquia no Governo Lula (irresponsavelmente criticado por parte da grande mídia brasileira, por certo inspirada pela inteligência norte-americana), mas foi recusado, depois de previamente combinado com ele, pelo Governo Obama. Como poderia ser retomada iniciativa similar?

Há uma preliminar concreta: a questão iraniana não pode ser dissociada da questão palestina. Portanto, o primeiro passo caberia aos Estados Unidos no sentido de pressionar Israel a voltar à mesa de negociações. Nesse contexto, seria proposto à elite dirigente iraniana que retirasse de sua retórica a destruição do Estado de Israel. Considerando, por outro lado, que a política interna iraniana em nível de governo é extremamente instável, com diferentes correntes disputando o poder (e a busca da construção da bomba, mais do que seus riscos, acaba sendo objeto de pregação demagógica), seria exigido do Conselho Supremo de aiatolás, o poder supremo efetivo do país, um posicionamento formal dirigido à comunidade internacional de que o país renuncia ao propósito de construção da bomba atômica, preservando seu direito de desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos sujeito à fiscalização da AIEA.

É claro que essa pauta é um exercício idealista. Contudo, é racional. Se se pensou a guerra convencional como instrumento racional de promoção de interesses dos Estados é porque se tratava de racionalização de processos reais. O processo real, como acontece no momento, tem a dimensão contraditória do racional e do irracional: um nos leva à relativa estabilidade nas relações internacionais; outro, ao possível desastre para toda a humanidade. Um segue a um paradigma em construção, instrumentalizado pela negociação e a cooperação entre os povos; outro, ao paradigma clausewitziano do século XIX anterior à existência do poder nuclear. O mundo, por suas elites dirigentes, não terá como deixar de fazer a escolha.

J. Carlos de Assis é eEconomista, professor de Economia e Política Internacional da UEPB, autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus”, ed. Civilização Brasileira.

 

Fonte: RUMOSDOBRASIL

TRNN: “Intervenção da França no Mali viola resolução da ONU; Raízes da crise estão na marginalização do norte do Mali”

French Intervention in Mali Violates UN Resolution; Root of Crisis Marginalization of the North

Emira Woods: The French have violated the UN resolution as they defend their resource interests; Africans want a comprehensive aid and political package for Northern Mali

Bio:Emira Woods is a co-director of Foreign Policy In Focus at the Institute for Policy Studies. Ms. Woods is chair of the Board of Africa Action and serves on the Board of the Association of Concerned Africa Scholars. She is also a member of the American Bar Association Rule of Law Initiative Africa Council.

Transcript

PAUL JAY, SENIOR EDITOR, TRNN: Welcome to The Real News Network. I’m Paul Jay in Baltimore.

France is sending more forces to Mali as the anticolonial forces (as many of them describe themselves) are pushing further south. The forces are made up of the Tuareg people and various extremists, some people say. Others call them militant Islamists or Jihadists. But one way or another, there are many outside forces either intervening in Mali or poised to do so.

Now joining us to talk about how we got here is Emira Woods. She’s codirector of Foreign Policy in Focus at the Institute for Policy Studies. Ms. Woods is chair of the board of Africa Action and serves on the board of the Association of Concerned Africa Scholars. She’s also a member of the American Bar Association Rule of Law Initiative, Africa Council. And between 1992 and ’99 she worked for Oxfam, where she traveled around Africa extensively and spent a lot of time in Mali.

Thanks for joining us.

EMIRA WOODS, CODIRECTOR, FOREIGN POLICY IN FOCUS, IPS: A pleasure to be with you. Thanks for having me.

JAY: So give us a little bit of context, first of all. I know you can’t do the whole history of Mali in two minutes. But as quickly as you can, how did we get here?

WOODS: Well, the history for me begins centuries back. So the quick version is, you know, Mali has been the center of Islamic thought, of learning. It was the site of one of the oldest universities, Timbuktu, one of the oldest libraries in the world. You know, these centers of learning predated Harvard and Cambridge and Oxford. You know, Mali has been at the center not only of African life, but really of the world, in many ways, for centuries.

I think we have to understand, though, that Mali is—what’s happening in Mali is the direct result of an international intervention in Libya. The ousting of Muammar Gaddafi essentially unleashed these unintended consequences, where you had weapons flowing from Libya, weapons that—some of which were part of Gaddafi’s caches. Others were weapons brought by NATO and the NATO forces. But these weapons flowed from Libya across boarders, from Algeria into Mali, creating a real crisis situation, where longtime challenges in terms of the political process, the internal political process in Mali, where the northern part of the country, from the days of colonialism, the northern part was seen as marginalized economically, not enough development, marginalized politically, without sufficient political access. The north had been clamoring for greater rights, greater sovereignty, really, for decades, since the ’60s, or some say since the turn of the 20th century.

So I think in the midst of this ongoing conflict for self-determination and greater rights of the north, you enter these weapons, the heavy flow of weapons from Libya. And it’s just been a recipe for disaster.

So what happened? March 2012, you had a coup, essentially, launched by a U.S.-trained military officer, you know, Sanogo, who had come to the U.S. reportedly seven times in the last eight years, essentially launching a military coup one month before the elections in Mali, supposedly because there was a sense that the Malian government was not handling well the crisis in the north with this inflow of weapons coming forward. So the army launched a coup, and launched then a series of coups and countercoups that have gone on, really, since March, as recent as this past December. So what you have is a political crisis in Mali that’s now exacerbated by this heavy flow of weapons into the region.

JAY: Is there any suggestion that this coup, there was some American interest to have this coup? ‘Cause I thought the president that was overthrown by the coup was very friendly to the United States.

WOODS: Well, yes, the president did have relations, friendly relations with the U.S. But also you have a military that’s been armed and trained by the U.S. now for quite some time. And so that military takes the weapons and the training from U.S. taxpayer dollars and decides that they can do it better, and essentially skirts the democratic process and takes over power. So I think you have a political crisis that has now been exacerbated by a deteriorating security crisis in the north because of the massive inflow of weapons.

And so enter this situation now the French essentially deciding that the UN, which passed a Security Council resolution, you know, 20-85 back in December authorizing an African-led military intervention, coupled with political intervention to get at the root causes of the crisis—but the French essentially decided that the UN process, the UN sanction process was not happening in a fast enough clip and that they could take more direct action more quickly. So the French back a week ago or so, back on Friday, launched a military intervention, airstrikes in Northern Mali, and that has been followed by ground forces there from the French moving steadily throughout Northern Mali.

I think what we have to recognize is that, you know, often military intervention breeds greater challenges, unintended consequences. And so what we have created now is a situation where, you know, all the challenges internal to Mali have been exacerbated by people, extremists, coming—many foreign fighters coming from other countries into Mali to unseat the French, to offset Western colonial powers, and to assert their own image of what Mali should look like for the future. I think it is not only dangerous for Mali, but also for the neighboring countries, countries like Algeria that has now seen hostages taken at oil installations because of this, now, desire to combat the French and to stop the interventionists from the West.

JAY: Now, France has essentially violated the UN resolution, right? The UN resolution was quite specific: this needed to be an African force led by Africans. And that’s not what’s happening.

WOODS: Well, this is the thing. France essentially went to the UN to try to brief the UN, but there has been no new Security Council resolution. So what stands is the resolution passed, which calls for an Africa-led force. I think it is really important to underscore that the regional body the Economic Community of West African States echo us, as well as the African Union, have been calling for a comprehensive package.

Let’s not look to the military solution as the answer here. What will be needed for long-term peace and stability in Mali is a comprehensive package that pays attention to the underlying political crisis that created the situation that has unfolded in Mali.

But we also have a humanitarian crisis. Over 200,000 people have been forced out of their homes because of the conflicts in the northern part of Mali. And in addition to that, you have reports that just since Friday, in less than a week, 30,000 more people have been forced out of their homes, out of their communities. So you have a real humanitarian crisis that also needs attention from the international community.

So the regional bodies were essentially calling for a comprehensive package, and yet the focus of the international—particularly the French action now, is on sort of this military intervention.

JAY: Now, France is saying that the government of Mali is—be it what it is, asked them to come in. I mean, is that what we understand?

WOODS: Well, this is what France has said. I think we have to understand that this is a government that came to power by a coup, and, you know, the U.S. in particular has said explicitly that they cannot support particularly the government in Mali officially, because it is a government that came to power by coup.

So I think we have to question, really, the legitimacy of the government and understand that a government that comes to power through a coup that has—and led a series of coups and countercoups and ousted a civilian prime minister just as recent as December, that government is really lacking credibility in quite a number of ways. And so whether or not they have the credibility to call in the French, I think, is still up for discussion.

JAY: Okay. So the other argument we’re hearing from France and in the mass media is that the troops from the north, the insurgents from the north, were heading south and, you know, getting towards the capital, and that there was a lot of foreigners there, including French citizens and others, and that if the French didn’t move in quickly, you know, people’s lives would be in jeopardy, and that the African countries that were supposed to be putting together this force hadn’t acted quickly enough. What do you make of all of that?

WOODS: Well, I think, you know, there is always justification to push the military option as the first response, as opposed to a last resort. And I think what you have here is really a French justification for their actions. I think it is important to underscore that military actions will not bring resolution to the crisis in Mali.

I think there needs to be comprehensive efforts to address the root cause of this crisis, which is the marginalization of the North, people of the North feeling completely isolated politically and economically. I think we have to underscore that, you know, this is a region that is rich in gold, in oil, with oil exploration very actively underway throughout the region. It is also a region where land has been expropriated in what many call land grabs, you know, with land being taken by international investors for biofuels production.

So there are many underlying issues that have to be addressed to be able to get at the root causes of this conflict. And the military intervention, instead of addressing these multiple layers of challenges, the military intervention is actually going to exacerbate tensions, creating, really, a space where extremists from many different countries now, not only from Mali but from throughout the region, and even outside the region, are now anxious to get to Mali, to pick up arms to fight the colonial power, to fight the French. [snip] to continue to see the situation deteriorate because of this action.

JAY: Some people might call the French extremist. But there’s a question I have is: why is France willing or interested to do this? Where does this interest lie? I mean, there’s every reason to think that this is going to be a quagmire for them.

WOODS: Without a doubt. And I think, you know, many are really surprised to see a socialist government in France taking this action. You know? And there was a hope that the change in leadership in France would bring a different foreign policy. But unfortunately, you know, there is still this push towards foreign policy that’s set by more short-term, very narrowly defined strategic, quote-unquote, interests without looking at the longer-term relationships that need to develop to build a mutually beneficial set of policies that not only will benefit Mali and Africa but will bring benefit to the global economy [crosstalk]

JAY: Do you think this has to do with French interest in Libya? I mean, France led the charge to overthrow Gaddafi in Libya. There was a big conflict over oil issues. And especially we’ve done quite a few stories about the conflict or contradiction between the French and the Russians over who was going to control, through Gazprom versus Total and the Italian company Eni. I mean, are they worried that this Northern Mali, if it doesn’t get checked by the French, becomes a kind of base that they’re going to wind up having to deal with in Libya?

WOODS: Well, I think we cannot underestimate the role of oil and other vital natural resources. I think it is important to recognize that these are resource-rich countries, and so it isn’t by chance that, you know, there’s militarism, oil and militarism, whether it’s Iraq and Afghanistan, Libya, Algeria, or Mali, you know, that has this now very rich potential in exploration already underway in terms of its oil. You know. So I think the economic interests of countries, whether it’s France or the United States, particularly interests that are often directed, dictated by big oil companies, I think we cannot underestimate the role of those types of considerations in determining foreign policy.

I think clearly there is this notion of responsibility to protect that was invoked both in Libya and, you know, is also being invoked—to a lesser extent, but also being invoked in Mali, this notion of protecting civilians. But I think what we have to understand is that when there is aerial bombardment, it is often civilians that are paying the heaviest price [crosstalk]

JAY: But what do you say to the people of the South who do not want to be ruled by the people of the North, and if the army in the South is in such disarray, it may not be able to prevent that without some kind of intervention or support?

WOODS: I think we have to—you know, we cannot underestimate the power of political negotiations for longer-lasting peace. And in this instance in Mali what we have seen is that the political process, the negotiations process, has actually brought results. The Tuaregs who initially started with their quest for a separate homeland, a separate state, you know, that would bring all the Tuaregs together from all the neighboring countries, that demand has been dropped largely because of political negotiations where traditional leaders, faith-based leaders, peace activists, are actively trying to bring about a negotiated settlement to the crisis.

And so I think we have to continue to amplify the actions of those that are the true warriors for peace, those that are fighting for a political process that will address the root causes of the conflict and will bring longer-term stability. I think we have to recognize what gains have been made through those processes and continue to demand that those processes be a part of a comprehensive approach by the international community, as well as by the regional actors.

Fonte: The Real news Network

Discurso de Assad foi ‘oportunidade perdida’, diz enviado da ONU

ImageA crise na Síria tem de ser resolvida neste ano, ou “não haverá mais Síria”, disse à BBC o enviado especial da ONU e da Liga Árabe ao país conflagrado, Lakhdar Brahimi.

Em entrevista à correspondente da BBC Lyse Doucet, Brahimi afirmou que o recente discurso do presidente sírio, Bashar Al-Assad, foi uma “oportunidade perdida” de resolver a crise na Síria.

No discurso, em 6 de janeiro, Assad chamou seus opositores de “inimigos de Deus e fantoches do Ocidente” e propôs um plano de paz, segundo o qual forças de fora deveriam parar de armar “grupos terroristas” e só então o Exército suspenderia suas operações militares, reservando-se o direito de defender “interesses do Estado”. O governo, então, entraria em contato com o que ele chamou de “indivíduos sírios e partidos políticos” para que se estabeleça um diálogo nacional.

Para Brahimi, porém, a fala de Assad foi “mais sectária e unilateral do que as iniciativas prévias”.

Impasse

O enviado já se reuniu diversas vezes com o regime sírio, mas houve poucos avanços no processo de paz no país, convulsionado desde março de 2011. O saldo de mortos em conflitos desde então é de 60 mil mortos.

assad“No momento, não há processo político. Os sírios falam duas línguas completamente diferentes”, declarou Brahimi.

Na entrevista à BBC, Brahimi admitiu que há pouca probabilidade de avanços nas conversas entre o governo sírio e a oposição. O foco de sua atuação, disse, será resolver as diferenças entre os atores externos ao conflito, como EUA e Rússia (este último é um dos principais apoiadores do regime sírio, sendo responsável por vetar resoluções contra Damasco no Conselho de Segurança da ONU).

Brahimi também confirmou que Assad lhe disse que pretende concorrer novamente à Presidência da Síria nas eleições de 2014, apesar das pressões para que deixe o poder.

Fome e refugiados

Em meio ao impasse político, cresce a dim

e

nsão da crise humanitária na Síria. Na última terça, a ONU informou que há

 1 milhão de sírios passando fome em decorrência dos 22 meses de conflito.

O Programa Mundial de Alimentos, da entidade, diz enfrentar dificuldades para entregar mantimentos para uma parcela da população, por conta de restrições ao uso de portos, ataques aos caminhões de entrega e falta de combustível.

E o número de refugiados síri

os cresceu, chegando a um total de 597,2 mil.

Fonte: BBC Brasil

ONU estima em 60 mil número de mortos na Síria

No mesmo dia em que diversas pessoas morreram em um ataque aéreo a um posto de gasolina nos arredores da capital da Síria, Damasco, a ONU divulgou nesta quarta-feira um relatório que estima em 60 mil o número de mortos em decorrência do conflito no país, iniciado em março de 2011.

Síria / AP

Ataque a posto de gasolina teria deixado pelo menos 70 mortos na Síria, afirmam ativistas

O estudo foi feito a pedido da Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, e coleta dados de sete fontes diferentes.Segundo a pesquisa, 59.648 pessoas morreram em meio ao confronto entre opositores e forças leiais ao presidente da Síria, Bashar al-Assad. As estatísticas foram contabilizadas até novembro de 2012. Pillay, entretanto, disse que a estimativa já pode ter superado a barreira dos 60 mil mortos e descreveu a matança como “verdadeiramente chocante”.

Grupos de oposição que atuam na Síria calculavam que 45 mil mortos haviam morrido em decorrência do levante revolucionário.

Fontes de referência

O relatório da ONU, intitulado “Análise Estatística Preliminar da Documentação das Mortes na Síria”, tomou como base estatísticas do governo e de grupos opositores. Os autores, do grupo de pesquisa Benetech, avaliaram 147.349 relatórios de mortes de sete fontes diferentes. Eles cruzaram as referências das pesquisas e excluíram dados duplicados, além de contabilizar apenas aqueles em que havia o primeiro nome e o sobrenome das vítimas, bem como a data e o local de sua morte.

Ao fim desse processo, os pesquisadores chegaram ao número de 59.648 mortos. Entretanto, eles alertaram que um número desconhecido de mortos não foi documentado por nenhuma das fontes pesquisadas.

“As estatísticas apresentadas nesse relatório devem ser considerados como valores-base”, informa o relatório das Nações Unidas.

Apenas quatro das fontes pesquisadas cobriram todo o período. Três são grupos de ativistas com ligações com a oposição: O Centro de Documentação das Violações, a Rede Síria para Direitos Humanos, e o site Syria Shuhada. A outra fonte é o grupo de ativistas baseado no Reino Unido Observatório Sírio para Direitos Humanos.

As estatísticas provenientes do governo estão disponível apenas de março de 2012 e até agora estimam o número de mortos em 2.539. Já o número de 59.648 também inclui muitas mortes relatadas por uma única fonte, explicou o órgão da ONU.

Por exemplo, em agosto de 2012, o mês mais mortal desde o início do levante revolucionário, os dados revelam que apenas pouco mais das 4 mil mortes foram confirmadas em duas ou mais fontes de referência.

Por outro lado, 2 mil mortes relatadas foram contabilizadas de apenas uma única fonte, apesar de terem sido incluídas na contagem final.

Detalhes

O estudo não discrimina se os mortos eram rebeldes, militares ou civis. Mas a pesquisa destaca que 76% das vítimas foram identificadas como homens.

O relatório também revela que as áreas mais afetadas pelo conflito são a parte rural de Damasco e a província de Homs.

Segundo Pillay, “dada a continuidade do conflito desde o fim de novembro, podemos estimar que mais de 60 mil pessoas foram mortas até o início de 2013″.

“O número de mortos é muito maior do que esperávamos, e isso é verdadeiramente chocante”.

Ela assinalou que as mortes foram causadas nos dois lados do conflito e alertou que o crescente sectarismo dificulta o estabelecimento de uma possível solução ao conflito. Manifestações reivindicando reformas modestas na Síria tiveram início em fevereiro de 2011.

Uma série de confrontos entre forças de segurança e manifestantes cresceu a ponto de se tornar um levante revolucionário contra a permanência do presidente Bashar al-Assad no poder.

Os rebeldes agora controlam grandes porções da Síria, mas o conflito parece longe de ter um fim breve.

Fonte: BBCBrasil

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